{"id":97267,"date":"2026-09-02T10:39:44","date_gmt":"2026-09-02T13:39:44","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97267"},"modified":"2026-09-16T00:18:42","modified_gmt":"2026-09-16T03:18:42","slug":"entrevista-kira-roessler-lanca-novo-disco-e-relembra-colaboracao-com-mike-watt-e-seus-anos-de-black-flag","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/02\/entrevista-kira-roessler-lanca-novo-disco-e-relembra-colaboracao-com-mike-watt-e-seus-anos-de-black-flag\/","title":{"rendered":"Entrevista: Kira Roessler lan\u00e7a novo disco e relembra colabora\u00e7\u00e3o com Mike Watt e seus anos de Black Flag"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 65 anos, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/kira_bassplayer\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Kira Roessler<\/a> segue inquieta. Quando o Germs acabou, em 1980, o guitarrista Pat Smear convocou Kira para uma nova banda, a Twisted Roots, que durou pouco, mas registrou um sete polegadas com tr\u00eas can\u00e7\u00f5es. Enquanto Smear se envolvia com o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/07\/23\/entrevista-frank-agnew-adolescents\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Adolescents<\/a> (ganhando punch para acompanhar Nirvana e Foo Fighters no futuro), Kira iria dividir a sua vida entre o curso de engenharia aplicada na UCLA e o baixo do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Black+Flag\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Black Flag<\/a> em um dos per\u00edodos mais importantes da banda, entre 1983 e 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram s\u00f3 dois anos acompanhando Henry Rollins, Greg Ginn e Bill Stevenson no Black Flag, mas foi o suficiente para gravar quatro \u00e1lbuns (\u201cFamily Man\u201d e \u201cSlip It In\u201d, de 1984; \u201cLoose Nut\u201d e \u201cIn My Head\u201d, de 1985), um EP (\u201cThe Process of Weeding Out\u201d, 1985) e participar de dois registros ao vivo (\u201cLive &#8217;84\u201d, de 1984, e \u201cWho&#8217;s Got the 10\u00bd?\u201d, de 1986). \u201cFoi muito mais um teste para saber o quanto eu conseguia ser forte, trabalhar duro e suportar as dificuldades daquela situa\u00e7\u00e3o\u201d, analisa Kira em conversa com o Scream &amp; Yell, 40 anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sequencia, Kira se juntaria a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Mike+Watt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mike Watt<\/a> no dos, projeto baseado na intera\u00e7\u00e3o entre dois baixos e que se tornou uma experi\u00eancia fundamental para sua maneira de pensar composi\u00e7\u00e3o. Em vez de preencher todos os espa\u00e7os, os dois instrumentos passaram a dialogar, criando uma m\u00fasica na qual o vazio tamb\u00e9m possui fun\u00e7\u00e3o. \u201cComecei a perceber que os espa\u00e7os contam a hist\u00f3ria tanto quanto as notas\u201d, explica. Com o dos, Kira gravaria dois discos nos anos 1980, um em 1996 e um quarto \u00e1lbum em 2011. E ainda participaria do \u00e1lbum \u201cMinuteflag\u201d (1985), que junta membros do Minutemen e Black Flag.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, Kira Roessler retoma sua carreira solo iniciada em 2021 com \u201cKIRA\u201d, lan\u00e7ando \u201c<a href=\"https:\/\/kiraroessler.bandcamp.com\/album\/enigma\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Enigma<\/a>\u201d (2026), seu segundo \u00e1lbum, novamente escudada pelo irm\u00e3o, m\u00fasico e produtor Paul Roessler, que fez parte da The Screamers, banda essencial da cena punk de Los Angeles nos anos 1970. Juntos, Paul e Kira desenvolveram um m\u00e9todo pr\u00f3prio de trabalho, no qual uma segunda linha de baixo pode se transformar em uma parte de piano. \u201cPosso simplesmente dizer: \u2018Tenho algum tempo. Voc\u00ea tem algum tempo?\u2019. Ent\u00e3o vou at\u00e9 a casa dele e fazemos m\u00fasica\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00fasica, entretanto, \u00e9 apenas uma das formas de escuta presentes em sua trajet\u00f3ria. H\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas, Roessler trabalha no cinema com edi\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos. A atividade exige uma aten\u00e7\u00e3o minuciosa aos detalhes sonoros, enquanto a composi\u00e7\u00e3o musical, segundo ela, est\u00e1 ligada a uma percep\u00e7\u00e3o mais emocional e ampla. \u201cPor isso digo que o trabalho com som \u00e9 muito t\u00e9cnico, enquanto o trabalho com m\u00fasica \u00e9 mais emocional e criativo\u201d, analisa. Seu trabalho j\u00e1 lhe rendeu um Oscar: Kira estava na equipe premiada pela Academia pela Edi\u00e7\u00e3o de Som de &#8220;Mad Max: Estrada da F\u00faria&#8221; (2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta conversa com o Scream &amp; Yell, Roessler percorre essas diferentes etapas de sua vida e carreira: o per\u00edodo no Black Flag, a experi\u00eancia com o dos e Mike Watt, sua evolu\u00e7\u00e3o como baixista e cantora, o processo de composi\u00e7\u00e3o de Enigma e a parceria com Paul. Tamb\u00e9m fala sobre a recep\u00e7\u00e3o ao novo \u00e1lbum, a dificuldade de encontrar p\u00fablico em um mercado musical cada vez mais fragmentado e as mudan\u00e7as provocadas pelas redes sociais e pelo streaming.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que uma retrospectiva de uma carreira que atravessa diferentes momentos da m\u00fasica independente norte-americana, a conversa revela uma artista ainda profundamente interessada em descobrir novas formas de express\u00e3o. Quando perguntada sobre o que continua motivando sua cria\u00e7\u00e3o depois de tantos anos, Roessler responde de maneira direta: \u201cAinda estou tentando encontrar uma maneira de processar minha vida, basicamente.\u201d Ou\u00e7a o disco \u201cEnigma\u201d e leia a entrevista na \u00edntegra abaixo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Peas\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_lGB9V1cHgc?list=OLAK5uy_k4Xx4SxNWsyc3Drn_7U4ZYQxozz1VB41M\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Olhando para sua carreira, voc\u00ea transitou pelo punk, pela m\u00fasica experimental, trabalhou com o dos, lan\u00e7ou discos solo e construiu uma carreira no cinema. Voc\u00ea v\u00ea todas essas experi\u00eancias como conectadas?<\/strong><br \/>\nMinha experi\u00eancia na m\u00fasica, desde quando eu era crian\u00e7a e estudava piano at\u00e9 o meu novo disco, tem definitivamente uma linha de continuidade. Existe uma conex\u00e3o em todo esse percurso. Minha carreira com som parece um pouco separada. \u00c9 algo mais t\u00e9cnico, mais intelectual. J\u00e1 a m\u00fasica \u00e9 minha parte criativa. \u00c9 quase como se fossem duas partes diferentes de mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No lado musical, existe uma conex\u00e3o que vai desde o punk rock, passando pelo piano e pelo dos. No dos, aprendi a fazer essa m\u00fasica com dois baixos, algo que continuo fazendo na minha carreira solo. Escrevo todas as minhas m\u00fasicas com essa intera\u00e7\u00e3o entre dois baixos. Depois, meu irm\u00e3o transforma a segunda linha de baixo em piano. Mas tudo ainda tem aquela sensa\u00e7\u00e3o do dos, que remonta aos meus dias no punk rock. Portanto, existe uma conex\u00e3o muito forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seus anos com o Black Flag s\u00e3o uma parte importante da hist\u00f3ria do punk. Quando voc\u00ea olha para aquele per\u00edodo hoje, o que mais se lembra de ser uma jovem musicista naquela cena?<\/strong><br \/>\nO per\u00edodo no Black Flag, especificamente, n\u00e3o foi uma \u00e9poca muito criativa para mim. Eram principalmente as m\u00fasicas de Greg e as partes que ele queria que eu tocasse. Meu papel era ser um forte apoio para a banda e para o grupo. Era quase como um treinamento para um esporte coletivo. Fisicamente, era muito dif\u00edcil. Est\u00e1vamos todos lutando pelo mesmo objetivo, como uma equipe, para criar algo muito grande, alto e forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele per\u00edodo me parece, particularmente, um teste f\u00edsico em muitos sentidos. Antes do Black Flag, eu era mais criativa, escrevia m\u00fasicas, tinha diferentes bandas e participava mais da cria\u00e7\u00e3o. Durante o Black Flag, foi muito mais um teste para saber o quanto eu conseguia ser forte, trabalhar duro e suportar as dificuldades daquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Black Flag - Slip It In  (Live &#039;84)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fZojwrBh5GI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 interessante porque eu estava ouvindo hoje, por exemplo, o \u00e1lbum \u201cSlip It In\u201d. Se bem me lembro, foi o primeiro disco do Black Flag que ouvi! Gosto muito dele.<\/strong><br \/>\nFoi o primeiro disco em que toquei. Naquele momento, eu ainda estava desenvolvendo for\u00e7a suficiente para fazer o trabalho e estava chegando aos meus limites para conseguir grav\u00e1-lo. Mas tenho orgulho de todo o registro. Tenho muito orgulho do fato de que, durante um per\u00edodo de alguns anos, estivemos todos em sintonia fazendo m\u00fasica juntos, uma m\u00fasica muito forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que o seu jeito de tocar baixo trouxe uma abordagem musical diferente para o Black Flag. Quando voc\u00ea ouve aqueles discos hoje, como se sente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua contribui\u00e7\u00e3o para o som da banda?<\/strong><br \/>\n\u00c9 curioso porque, novamente, a composi\u00e7\u00e3o e o estilo j\u00e1 estavam definidos para mim. Mas o que aconteceu foi que, quando Greg e Chuck deixaram de trabalhar juntos e o baixista que estava na banda antes de mim saiu, houve uma mudan\u00e7a. Chuck Dukowski \u00e9 um baixista que toca como um cavalo galopando. Meu estilo \u00e9 ficar um pouco atr\u00e1s da batida, apoiando-me um pouco em cada tempo, quase atr\u00e1s do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o meu estilo produziu uma pequena mudan\u00e7a. Essa foi parte da raz\u00e3o pela qual acho que quiseram que eu estivesse na banda naquele momento. Eu criava uma esp\u00e9cie de resist\u00eancia f\u00edsica, quase como se estivesse puxando para tr\u00e1s enquanto eles galopavam. E funcionou bem. Durante um per\u00edodo, est\u00e1vamos todos em sintonia com o que quer\u00edamos fazer. Quer\u00edamos tocar tudo com muita for\u00e7a, cada batida com muita intensidade, e depois acelerar para conseguir tocar com muita for\u00e7a e velocidade. No come\u00e7o, toc\u00e1vamos muito lentamente para acertar cada batida juntos e depois trabalh\u00e1vamos para aumentar a velocidade. Acho que esse estilo acabou se transformando em algo muito forte.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Black Flag - Rats Eyes - (Live at the Bierkellar, Leeds, UK, 1984)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/M7TLuPRhI8U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea canta e escreve m\u00fasicas h\u00e1 d\u00e9cadas, al\u00e9m de tocar baixo. Como sua rela\u00e7\u00e3o com sua voz mudou ao longo da sua carreira?<\/strong><br \/>\nMudou muito ao longo dos anos. No come\u00e7o, minha composi\u00e7\u00e3o era simples e, de certa maneira, todas as partes ficavam umas sobre as outras. A linha de baixo e a parte vocal estavam praticamente no mesmo lugar, e eu n\u00e3o tinha uma boa percep\u00e7\u00e3o de como separar a voz e transform\u00e1-la em um instrumento pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo, trabalhando mais com minha voz, aprendi a transform\u00e1-la em um instrumento separado. Isso me permite criar mais intera\u00e7\u00e3o entre o baixo e a voz, em vez de simplesmente coloc\u00e1-los um sobre o outro. Posso criar uma linha mel\u00f3dica ou uma mudan\u00e7a r\u00edtmica diferente do que o baixo est\u00e1 fazendo. Isso continua evoluindo. Trabalho com a maneira como todos os meus instrumentos \u2014 minha voz, meu baixo, o piano e a bateria \u2014 podem n\u00e3o tocar exatamente sobre as mesmas coisas. \u00c9 quase jazz\u00edstico, porque deixamos espa\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa foi uma evolu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do dos, em grande parte. Aprendi ali a trabalhar com essa intera\u00e7\u00e3o e, agora, estou criando essas intera\u00e7\u00f5es de tr\u00eas e quatro partes no meu canto e na minha m\u00fasica. No come\u00e7o, tudo era muito simples e sobreposto. Agora, existem muito mais intera\u00e7\u00f5es e vozes separadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que ser baixista influenciou a maneira como canta e escreve melodias? Existe uma conex\u00e3o entre essas duas formas de express\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAinda hoje me sinto como uma baixista que canta, e n\u00e3o como uma cantora. No come\u00e7o, minha voz parecia muito inst\u00e1vel para mim, porque cantar e tocar baixo ao mesmo tempo \u00e9 muito dif\u00edcil. Os ritmos podem ser muito diferentes. Demorou um pouco at\u00e9 que a parte vocal das minhas m\u00fasicas conseguisse se separar do baixo. Mas o baixo \u00e9 a base de tudo o que minha voz faz. O baixo \u00e9 a causa, e a voz \u00e9 como uma resposta ao baixo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"How Could You\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bK-LFkVWPJo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea cria uma m\u00fasica, o que vem primeiro: o baixo, a voz ou a letra?<\/strong><br \/>\nTudo come\u00e7a com uma ideia. Voc\u00ea conhece a m\u00fasica \u201cHow Could You\u201d (do disco \u201cEnigma\u201d)?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim!<\/strong><br \/>\nPodemos us\u00e1-la como exemplo. Eu estava em uma discuss\u00e3o e fiquei emocionada. Fui para o meu quarto e escrevi apenas \u201cHow Could You?\u201d. Depois me acalmei, olhei para aquilo e ri. Era quase engra\u00e7ado, de t\u00e3o dram\u00e1tico. Ent\u00e3o trouxe meu senso de humor para a m\u00fasica e comecei a pensar naquilo de forma ir\u00f4nica. Pensei em como poderia expressar a emo\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que fez algo errado comigo, como transformar aquela raiva em algo realmente dram\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia come\u00e7a assim, e depois o baixo vem. A letra ainda n\u00e3o est\u00e1 pronta; existe apenas uma pequena ideia. Ent\u00e3o o baixo come\u00e7a, de alguma maneira, a criar uma base. A letra muda para se adaptar ao baixo. Depois surge a linha mel\u00f3dica, pensando em como aquelas palavras v\u00e3o funcionar com o baixo. Ent\u00e3o escrevo outro baixo para criar uma intera\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes fa\u00e7o os dois baixos antes da voz e, \u00e0s vezes, escrevo o segundo baixo depois da voz. Mas sempre termino com dois baixos e uma voz. Depois levo isso para meu irm\u00e3o, que toca piano, ou para meu baterista, ou para os dois, para trabalharmos na cria\u00e7\u00e3o das partes deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia precisa vir primeiro. Tem que existir uma emo\u00e7\u00e3o que estou tentando expressar. Isso me permite trazer o baixo, que \u00e9 como outro bra\u00e7o, uma parte do meu corpo. Posso come\u00e7ar a expressar aquela emo\u00e7\u00e3o com o baixo. Isso me ajuda a desenvolver a letra, a linha vocal e o segundo baixo. Portanto, \u00e9 quase completamente guiado pelo baixo, com a exce\u00e7\u00e3o de que precisa existir alguma emo\u00e7\u00e3o, um sentimento ou uma ideia para come\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea trabalha com som no cinema h\u00e1 quantos anos?<\/strong><br \/>\n22 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea passou muitos anos trabalhando com som tanto na m\u00fasica quanto no cinema. Seu trabalho com som mudou a maneira como voc\u00ea escuta sua pr\u00f3pria m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nNo cinema eu atuo como uma editora de som. Pego os di\u00e1logos que v\u00eam do set e tento fazer com que soem melhor, preparando-os para o mixer. Para avaliar os di\u00e1logos, preciso ouvir o som que est\u00e1 por tr\u00e1s deles. Preciso ouvir esses sons e suaviz\u00e1-los. Tamb\u00e9m tenho que perceber detalhes muito pequenos, como um estalo ou um clique no di\u00e1logo, alguma coisa que seja um erro ou que soe mal, e fa\u00e7o pequenas corre\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma escuta muito detalhada. Meus ouvidos precisam estar extremamente atentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a m\u00fasica, n\u00e3o sinto que trabalho dessa maneira. Meu cora\u00e7\u00e3o e meu corpo est\u00e3o conectados. Eu me afasto um pouco dos detalhes e escuto de uma maneira mais ampla. N\u00e3o \u00e9 uma escuta t\u00e3o detalhada. Por isso digo que o trabalho com som \u00e9 muito t\u00e9cnico, enquanto o trabalho com m\u00fasica \u00e9 mais emocional e criativo. A m\u00fasica \u00e9 mais fluida. O trabalho com som \u00e9 muito detalhado e concentrado. \u00c9 dif\u00edcil, mas de uma maneira diferente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ins\u00f4nia (2002) | Trailer Oficial [Legendado]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5xv8siiRmmA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando falamos sobre cinema e o car\u00e1ter t\u00e9cnico, temos muitos diretores que fazem um trabalho incr\u00edvel. Pensando, por exemplo, em Christopher Nolan, existe algum diretor com quem voc\u00ea ainda tenha vontade de trabalhar?<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 trabalhei com Christopher Nolan antes de ele se tornar t\u00e3o conhecido. Foi h\u00e1 algum tempo, em um filme de uma fase mais inicial da carreira dele. (\u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2002\/08\/24\/critica-insonia-de-christopher-nolan-e-apenas-um-bom-filme\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ins\u00f4nia<\/a>\u201d, de 2002). Tive sorte. Trabalhei com muitos diretores importantes e interessantes. Tamb\u00e9m \u00e9 desafiador trabalhar com um diretor novo ou inexperiente. Para mim, trata-se do desafio. Preciso encontrar uma maneira de deix\u00e1-los satisfeitos com todas as vozes, todos os di\u00e1logos e todo o material gravado em est\u00fadio. Preciso reunir tudo isso em uma faixa com a qual eles estejam satisfeitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabei de terminar um filme em que reuni todo esse trabalho de edi\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos com todas as grava\u00e7\u00f5es feitas em est\u00fadio, o que chamamos de ADR (do ingl\u00eas Automated Dialogue Replacement &#8211; Substitui\u00e7\u00e3o Automatizada de Di\u00e1logo) quando entramos em um est\u00fadio para gravar material que ser\u00e1 inclu\u00eddo na faixa. Tamb\u00e9m trabalho com as vozes de fundo, todas as pessoas conversando atr\u00e1s dos atores principais. Voc\u00ea re\u00fane tudo isso e chega a um ponto em que o trabalho est\u00e1 terminado e o diretor est\u00e1 satisfeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u00e9 o momento em que penso: trabalhei muito, estou muito cansada de tudo isso, mas consegui deix\u00e1-lo satisfeito. N\u00e3o importa se o diretor \u00e9 uma pessoa importante ou n\u00e3o. O que importa \u00e9 ver no rosto dele que conseguiu o resultado que queria. \u00c9 da\u00ed que v\u00eam minhas boas emo\u00e7\u00f5es: dessa sensa\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, tiro muita inspira\u00e7\u00e3o para minhas composi\u00e7\u00f5es da frustra\u00e7\u00e3o, da tristeza e da raiva que surgem durante o trabalho. Mas, no final, existe um momento em que voc\u00ea v\u00ea que ele ou ela relaxa e se sente completo e satisfeito com o trabalho. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o muito boa, independentemente de quem seja, porque voc\u00ea trabalhou muito para chegar \u00e0quele momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos falar sobre seu novo \u00e1lbum. Eu o ouvi desde que voc\u00ea me enviou uma pr\u00e9via e gostei muito. Para algu\u00e9m que conhece seu trabalho com o dos ou com o Black Flag, ele apresenta uma nova maneira de enxergar sua criatividade. Agora que \u201cEnigma\u201d foi lan\u00e7ado, como voc\u00ea v\u00ea o \u00e1lbum em rela\u00e7\u00e3o ao seu trabalho solo anterior? O que mudou entre os dois discos, pensando apenas nos seus discos solo?<\/strong><br \/>\nMeu primeiro disco foi resultado de uma longa carreira escrevendo m\u00fasicas no meu quarto e enviando-as para um guitarrista em Cleveland, para meu irm\u00e3o e para um baterista. Constru\u00edmos essas m\u00fasicas sem estar no mesmo lugar, pela internet, enviando arquivos de um lado para o outro. Foi uma esp\u00e9cie de culmina\u00e7\u00e3o de todas essas m\u00fasicas que hav\u00edamos constru\u00eddo dessa maneira. Meu irm\u00e3o disse que eu deveria lan\u00e7ar algumas delas e sugeriu que eu fizesse isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro disco foi baseado nessas m\u00fasicas que eu vinha desenvolvendo ao longo de todos aqueles anos. Escolhi algumas para contar uma hist\u00f3ria naquele \u00e1lbum. Depois que o disco foi lan\u00e7ado, tocamos ao vivo algumas vezes. Formamos uma banda com um baterista, um pianista e eu. Criamos um trio e tocamos ao vivo. Isso mudou a din\u00e2mica da maneira como est\u00e1vamos fazendo m\u00fasica. Depois disso, no segundo disco solo, gravamos tudo ao vivo, no mesmo ambiente. Foi muito diferente na maneira como o criamos. Foi muito mais parecido com uma banda, como antigamente, quando voc\u00ea entrava em um est\u00fadio, gravava as faixas b\u00e1sicas e depois acrescentava piano e voz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que o resultado \u00e9 que ele tem muito mais uma sensa\u00e7\u00e3o de banda e existe uma conex\u00e3o entre todas as m\u00fasicas. H\u00e1 um movimento fluido entre elas porque foram gravadas da mesma maneira. Sonoramente, elas t\u00eam uma conex\u00e3o umas com as outras. T\u00eam um terreno comum. Ent\u00e3o acho que \u00e9 bastante diferente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Kira Roessler - Enigma (Lyric Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OKzBV5j9O2E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cEnigma\u201d tem um som muito aberto e minimalista, com bastante espa\u00e7o nos arranjos. H\u00e1 um pouco de jazz e um pouco de groove. O que atrai voc\u00ea nesse tipo de espa\u00e7o musical?<\/strong><br \/>\nAcho que meus muitos anos tocando no dos com Mike (Watt) fizeram com que nossa composi\u00e7\u00e3o se tornasse muito baseada em como criar espa\u00e7o um para o outro, como encontrar os espa\u00e7os vazios e criar espa\u00e7o. Era uma banda minimalista. \u00c9ramos apenas dois baixos. Por causa disso, desenvolvi essa base de pensar sobre intera\u00e7\u00e3o, e a base da intera\u00e7\u00e3o \u00e9 deixar espa\u00e7os. Comecei a perceber que os espa\u00e7os contam a hist\u00f3ria tanto quanto as notas. De certa maneira, eles contam sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e permitem que voc\u00ea sinta as emo\u00e7\u00f5es um pouco melhor. Voc\u00ea consegue mergulhar na emo\u00e7\u00e3o que estou tentando transmitir. Quero que voc\u00ea sinta essa emo\u00e7\u00e3o. Acho que o espa\u00e7o permite que voc\u00ea permane\u00e7a um pouco mais dentro dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando ouvimos o disco, para algu\u00e9m como eu, que n\u00e3o \u00e9 m\u00fasico, cada m\u00fasica pode parecer simples \u00e0 primeira vista, mas existe muita coisa acontecendo nos baixos, nos vocais e nos pequenos detalhes. Quando voc\u00ea comp\u00f5e, come\u00e7a pela sensa\u00e7\u00e3o geral de uma m\u00fasica ou por uma ideia musical espec\u00edfica?<\/strong><br \/>\nComo conversamos, existe um sentimento, uma emo\u00e7\u00e3o ou uma ideia b\u00e1sica que inicia a m\u00fasica. Isso me permite permanecer dentro daquela ideia enquanto escrevo a linha de baixo e a linha vocal. Posso mergulhar naquela emo\u00e7\u00e3o e, de alguma maneira \u2014 e nem sempre sei como \u2014 ela faz com que a linha de baixo siga por um determinado caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei por que, quando digo \u201cHow Could You?\u201d e escrevo essa ideia, surge aquela pequena linha de baixo com influ\u00eancia jazz\u00edstica. N\u00e3o consigo explicar o que cria essa conex\u00e3o. Mas alguma coisa me permite ter o baixo nas m\u00e3os e aquela ideia na cabe\u00e7a e come\u00e7ar alguma coisa. Ent\u00e3o construo a partir disso. Tenho uma pequena parte de baixo que se conecta \u00e0quela pequena ideia e uso essa linha para criar outras partes. \u00c9 muito dif\u00edcil explicar por que a m\u00fasica soa da maneira que soa. Para mim, trata-se de permanecer dentro daquela ideia ou emo\u00e7\u00e3o e permitir que ela saia de dentro de mim.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97276\" aria-describedby=\"caption-attachment-97276\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97276\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/kira2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"647\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/kira2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/kira2-300x259.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97276\" class=\"wp-caption-text\"><em>Kira e Paul em est\u00fadio<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea trabalhou com seu irm\u00e3o, Paul, no \u00e1lbum. O que existe de especial em fazer m\u00fasica com algu\u00e9m que conhece voc\u00ea e sua m\u00fasica h\u00e1 tantos anos?<\/strong><br \/>\nEu o conhe\u00e7o desde o dia em que nasci (risos). Ele \u00e9 meu irm\u00e3o mais velho. Conhe\u00e7o-o durante toda a minha vida. Ent\u00e3o, de certa maneira, isso faz sentido. \u00c9 tamb\u00e9m estranho, porque estou expondo a ele minhas emo\u00e7\u00f5es, pensamentos, raiva e dor. Mas parte do que estou tentando fazer \u00e9 fazer as pessoas sentirem essas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos \u00faltimos 10 ou 15 anos, Paul e eu desenvolvemos um processo. Eu escrevo uma segunda linha de baixo e ele a leva para o pr\u00f3ximo passo a partir de suas ideias como pianista. Ele pega o piano e, \u00e0s vezes, cria acordes. Outras vezes, simplesmente faz exatamente o que a segunda linha de baixo est\u00e1 fazendo. Ele desenvolve essa parte sem que precisemos conversar muito sobre isso. Ele usa essa intera\u00e7\u00e3o e essa ideia emocional e segue seu pr\u00f3prio caminho. Como fazemos isso h\u00e1 tantos anos, ficou mais f\u00e1cil. Posso simplesmente dizer: \u201cTenho algum tempo. Voc\u00ea tem algum tempo?\u201d. Ent\u00e3o vou at\u00e9 a casa dele e fazemos m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde \u201cEnigma\u201d, continuo fazendo isso. Vou at\u00e9 l\u00e1 e fazemos m\u00fasicas. Essa \u00e9 uma parte da maneira como interagimos: fazemos m\u00fasica juntos. E isso se tornou algo com o qual realmente nos sentimos bem. Acho que ele tem muito orgulho desse disco. Ele colocou o cora\u00e7\u00e3o nele, assim como eu. Acho que n\u00f3s dois sentimos muito orgulho do resultado. E poder ter isso com ele \u00e9 especialmente importante porque ele nem sempre achou que eu fosse uma boa compositora. Como ele \u00e9 meu irm\u00e3o mais velho, eu queria que ele tivesse orgulho de mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem sido muito bonito ouvi-lo dizer recentemente: \u201cUau, sua composi\u00e7\u00e3o realmente evoluiu\u201d. Ele me elogia, e isso n\u00e3o \u00e9 algo que voc\u00ea recebe sempre de um irm\u00e3o. Ent\u00e3o tem sido muito bom receber essa afirma\u00e7\u00e3o e essa confian\u00e7a que ele me d\u00e1, porque ele diz que ama as m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m trabalho com Dave Back, o baterista, de maneira semelhante. Eu o conhe\u00e7o h\u00e1 cerca de 15 anos e tamb\u00e9m desenvolvemos uma esp\u00e9cie de linguagem pr\u00f3pria, um processo. Levo alguma coisa para ele. \u00c0s vezes existe uma parte de piano, \u00e0s vezes s\u00e3o apenas dois baixos. Ent\u00e3o conversamos, tocamos e depois conversamos novamente. Dizemos: \u201cTalvez pud\u00e9ssemos criar um pouco mais de intera\u00e7\u00e3o com a segunda linha de baixo\u201d, ou \u201ctalvez aqui voc\u00ea devesse trabalhar mais com a primeira linha de baixo\u201d. Ent\u00e3o desenvolvemos a parte de bateria praticamente da mesma maneira que desenvolvemos a parte de piano. Isso se transformou em uma rela\u00e7\u00e3o muito bonita entre n\u00f3s e dentro da banda. Mesmo que n\u00e3o toquemos juntos o tempo todo, somos muito pr\u00f3ximos e muito conectados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o resultado \u00e9 muito bonito. Voc\u00ea disse que est\u00e1 orgulhosa do disco e que seu irm\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1. Voc\u00ea chegou a perceber as rea\u00e7\u00f5es das pessoas ao seu redor? Agora que o \u00e1lbum foi lan\u00e7ado, teve algum tempo para ouvir as rea\u00e7\u00f5es. Alguma coisa sobre a maneira como os ouvintes entenderam Enigma surpreendeu voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nEu s\u00f3 ou\u00e7o um lado, porque s\u00f3 ou\u00e7o as pessoas que gostam do disco. As pessoas n\u00e3o chegam at\u00e9 mim para dizer que o disco \u00e9 terr\u00edvel. Ent\u00e3o n\u00e3o tenho acesso \u00e0s rea\u00e7\u00f5es negativas. S\u00f3 ou\u00e7o as positivas. E tive muitos retornos positivos das pessoas que ouviram. Mas, hoje em dia, \u00e9 muito dif\u00edcil fazer as pessoas ouvirem sua m\u00fasica. Existe muita m\u00fasica dispon\u00edvel. \u00c9 muito dif\u00edcil encontrar um p\u00fablico, encontrar pessoas com quem se conectar. Todo mundo est\u00e1 muito separado. Ent\u00e3o, a menos que eu toque ao vivo \u2014 e pretendo fazer isso \u2014, n\u00e3o consigo sentir essa rea\u00e7\u00e3o pessoalmente. Essa \u00e9 realmente a \u00fanica maneira de obter uma resposta honesta sobre um disco. Voc\u00ea recebe uma resposta honesta quando est\u00e1 ao vivo diante de uma plateia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode ser muito direto. As pessoas podem come\u00e7ar a conversar durante sua apresenta\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea consegue ouvi-las falando sobre seu canto enquanto voc\u00ea est\u00e1 cantando. \u00c9 dif\u00edcil. Mas tamb\u00e9m pode ouvi-las quando ficam realmente quietas e perceber que est\u00e3o prestando aten\u00e7\u00e3o. O p\u00fablico oferece esse retorno imediatamente. A rea\u00e7\u00e3o a um \u00e1lbum \u00e9 muito dif\u00edcil. N\u00e3o sei se algu\u00e9m quer comprar o disco. N\u00e3o sei se algu\u00e9m gosta dele. Simplesmente n\u00e3o sei. Acredito que a maneira como as pessoas se relacionam com a m\u00fasica mudou de muitas formas, e \u00e9 dif\u00edcil descrever exatamente como.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"dos - number eight\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kzJJDJyAusY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos falar sobre o duo dos com Mike Watt \u00c9 um projeto muito incomum: dois baixistas criando m\u00fasica sem os instrumentos habituais de uma banda de rock. Quando ouvi esses discos pela primeira vez, fiquei impressionado. \u00c9 incr\u00edvel que voc\u00eas tenham feito esses discos h\u00e1 tantos anos. O que voc\u00ea descobriu sobre as possibilidades do baixo atrav\u00e9s do dos que talvez n\u00e3o tivesse descoberto em outra banda?<\/strong><br \/>\nTrabalhar com Mike n\u00e3o \u00e9 como trabalhar com qualquer outra pessoa. Ent\u00e3o precisamos come\u00e7ar falando das bandas. As personalidades e a qu\u00edmica entre as pessoas s\u00e3o uma parte importante do que cria a m\u00fasica. Minha rela\u00e7\u00e3o com Mike \u00e9 muito complicada. Mas essa \u00e9 a base. \u00c9 o que est\u00e1 por baixo da banda. No dos, isso se transforma um pouco em uma esp\u00e9cie de guerra de baixos. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos lutando. \u00c9 como um cabo de guerra, quando duas pessoas ficam em lados opostos de uma corda e puxam em dire\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias. Muitas vezes, com Mike, ele queria as coisas de uma maneira e eu queria de outra. Ent\u00e3o precis\u00e1vamos lutar para encontrar maneiras de realmente nos conectarmos novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s dois temos ideias muito diferentes sobre como as coisas deveriam ser. Mas Mike estava muito interessado nessa ideia de intera\u00e7\u00e3o. Ele estava muito interessado em deixar espa\u00e7os, e aprendi muito sobre isso com ele no dos. Eu j\u00e1 havia come\u00e7ado a fazer m\u00fasica com dois baixos antes do dos. Eu fazia hist\u00f3rias para dormir para meus sobrinhos. Escrevia duas linhas de baixo, gravava-as em uma fita cassete e dava as fitas para eles quando eram pequenos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o comecei com Mike a partir de algumas dessas m\u00fasicas de hist\u00f3rias e tamb\u00e9m fizemos algumas improvisa\u00e7\u00f5es. J\u00e1 sab\u00edamos um pouco como era trabalhar dessa maneira. Mas tivemos que descobrir como criar uma estrutura, e isso foi muito dif\u00edcil. No dos, tudo gira em torno da composi\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o improvisamos. \u00c9 tudo muito estruturado, e \u00e9 complicado criar aquelas duas partes que tenham o equil\u00edbrio certo entre si. Ele me ensinou muito sobre isso, mas foi uma grande luta. N\u00f3s lut\u00e1vamos muito com cada m\u00fasica. Havia uma dificuldade em cada uma delas. Havia discord\u00e2ncia. Eu queria experimentar alguma coisa e ele dizia que era dif\u00edcil demais, complicado demais ou simples demais. \u00c0s vezes eu n\u00e3o gostava de alguma coisa. Havia muito disso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"1993 DOS at Cattle Club  Mike Watt, Kira\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KH3s7ljEg50?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea viu a ind\u00fastria da m\u00fasica mudar desde a cena independente dos anos 1980 at\u00e9 o mundo atual do streaming e das redes sociais. O que voc\u00ea acha que os m\u00fasicos ganharam com essas mudan\u00e7as? E o que perderam?<\/strong><br \/>\nTudo mudou. Antigamente, conseguir que uma gravadora lan\u00e7asse seu disco era o grande desafio. Voc\u00ea precisava encontrar algu\u00e9m que ajudasse a colocar o disco no mercado. Eu ainda preciso de algu\u00e9m que me ajude a lan\u00e7ar este disco. Ent\u00e3o algumas coisas continuam iguais. Para lan\u00e7ar um disco f\u00edsico, normalmente ainda \u00e9 preciso fazer uma parceria com uma gravadora, mesmo que seja uma gravadora pequena ou independente. Antigamente havia a SST (gravadora californiana ic\u00f4nica). Agora, no meu disco, existe a Org Music. Ainda \u00e9 a mesma coisa: existe uma organiza\u00e7\u00e3o disposta a colocar algum financiamento para criar esse produto. Mas o que mudou muito \u00e9 a maneira como promovemos esse produto e como fazemos com que ele chegue \u00e0s pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje existem as redes sociais. Se voc\u00ea \u00e9 bom em criar conte\u00fado e despertar interesse nas redes sociais, pode fazer com que muitas pessoas se interessem. Existe uma nova maneira de despertar o interesse das pessoas. N\u00e3o \u00e9 apenas tocar em um show e esperar que as pessoas apare\u00e7am. Voc\u00ea pode colocar sua m\u00fasica no mundo. Veja o que Phoebe Bridgers acabou de fazer. Nos Estados Unidos, ela disse que faria v\u00e1rios shows, mas anunciaria os shows apenas no dia em que aconteceriam. Ela tocaria em cidades pequenas, os ingressos seriam vendidos por ordem de chegada e os pre\u00e7os seriam definidos por ela. Ela simplesmente disse: \u201cVou fazer do meu jeito\u201d. Sem Ticketmaster.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ela mudou todas as regras!<\/strong><br \/>\nEla disse: \u201cN\u00e3o vou tocar nas grandes cidades. Vou tocar nas pequenas cidades\u201d. Ela mostrou o que as redes sociais podem fazer. Elas podem permitir algo muito mais independente. Mas, para isso, \u00e9 preciso ter uma presen\u00e7a muito grande nas redes sociais, e isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de conseguir. Ela tem algu\u00e9m colocando conte\u00fado o tempo todo. Se voc\u00ea a acompanha, h\u00e1 sempre alguma coisa chegando: v\u00eddeos, fotos, m\u00fasicas. \u00c9 o dia inteiro. Para mim, nas minhas redes sociais, eu estou trabalhando no meu emprego. Ent\u00e3o penso: \u201cMeu Deus, preciso criar conte\u00fado. Preciso criar mais conte\u00fado. Preciso parar e fazer um v\u00eddeo\u201d. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil. At\u00e9 mesmo fazer isso, criar algo que me mantenha aparecendo naquele espa\u00e7o, exige muita energia. Mas os jovens de hoje est\u00e3o conectados dessa maneira. \u00c9 assim que eles se conectam uns com os outros. Ent\u00e3o ser\u00e1 diferente para eles. Ser\u00e1 diferente para os artistas jovens. Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 vendo isso acontecer: jovens artistas constroem um p\u00fablico atrav\u00e9s das redes sociais, e isso se transforma em vendas de discos e, depois, em pessoas indo aos shows. Est\u00e1 acontecendo. S\u00f3 n\u00e3o necessariamente est\u00e1 acontecendo com n\u00f3s, pessoas mais velhas. Antigamente, havia essas gravadoras que decidiam quem seria grande. Agora, pelo menos, existe uma quest\u00e3o de comunidade. Trata-se de construir uma comunidade, e isso \u00e9 algo que voc\u00ea talvez consiga fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De certa maneira, isso nos conecta ao come\u00e7o do punk, porque t\u00ednhamos uma comunidade que ajudava uns aos outros a fazer shows e gravar discos.<\/strong><br \/>\nAcho que a comunidade sempre foi importante e est\u00e1 criando uma nova maneira de fazer as coisas. Voc\u00ea pode ter uma comunidade espalhada pelo mundo, interessada em determinadas coisas. Isso \u00e9 interessante. \u00c9 apenas algo novo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97277 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/enigma.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/enigma.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/enigma-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nosso tempo est\u00e1 quase acabando, mas tenho mais duas perguntas. A primeira \u00e9 sobre tecnologia, que est\u00e1 mudando muito rapidamente tanto a m\u00fasica quanto o cinema, incluindo o crescimento do uso de intelig\u00eancia artificial. Como algu\u00e9m que passou a vida trabalhando diretamente com som e m\u00fasica, como voc\u00ea se sente diante dessas mudan\u00e7as?<\/strong><br \/>\nNo meu trabalho t\u00e9cnico, vejo a intelig\u00eancia artificial simplesmente como uma ferramenta. Uma das coisas que fa\u00e7o \u00e9 retirar ru\u00eddo dos di\u00e1logos. Tento deixar os di\u00e1logos mais claros, e existem ferramentas baseadas em intelig\u00eancia artificial que fazem esse trabalho. Mas elas ainda precisam de mim para ouvir e decidir se fizeram o trabalho corretamente ou se preciso mudar a maneira como fizeram. Ainda preciso ouvir e decidir: a voz continua soando org\u00e2nica? Continua soando natural? Ou a intelig\u00eancia artificial estragou a voz e agora preciso fazer isso de outra maneira? Ent\u00e3o ainda sou eu usando a ferramenta. N\u00e3o sinto que a ferramenta esteja fazendo o trabalho. Eu tenho que fazer o trabalho. Preciso ajustar exatamente como a intelig\u00eancia artificial funciona para mim nessa \u00e1rea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na minha criatividade e no meu mundo musical, parece que n\u00e3o existe tecnologia. Sempre tive alguma maneira de gravar no meu quarto, de gravar pequenas demos. Sempre tive isso e ainda tenho. Ent\u00e3o n\u00e3o sinto que essas tecnologias sofisticadas tenham mudado tanto a maneira como fa\u00e7o m\u00fasica ou como vivo no meu mundo musical. Exceto na maneira de fazer minha m\u00fasica chegar \u00e0s pessoas. Isso mudou um pouco. Mas a maneira como fa\u00e7o minha m\u00fasica \u00e9 praticamente a mesma. Eu costumava fazer isso com um gravador de fita cassete e agora fa\u00e7o com o Pro Tools em um computador. \u00c9 apenas uma ferramenta diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para mim, por exemplo, depois que nossa entrevista terminar, vou usar uma intelig\u00eancia artificial para ajudar a transcrever nossa conversa. E traduzir\u2026<\/strong><br \/>\nExatamente. Quando pensamos na intelig\u00eancia artificial como uma ferramenta, \u00e9 uma coisa. Mas \u00e9 diferente quando a intelig\u00eancia artificial faz todo o trabalho. Sim. Mas voc\u00ea ainda vai olhar para o que a intelig\u00eancia artificial fez e decidir: ela fez isso bem? O portugu\u00eas est\u00e1 correto? \u00c9 assim que falamos ou n\u00e3o? Est\u00e1 dizendo alguma coisa de uma maneira estranha Voc\u00ea ainda vai decidir como ser\u00e1 o produto final. Voc\u00ea est\u00e1 usando-a como uma ferramenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que os medos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 intelig\u00eancia artificial s\u00e3o um pouco dif\u00edceis de entender. Eu vejo que seremos sempre n\u00f3s que vamos decidir: \u201cVoc\u00ea fez um bom trabalho\u201d ou \u201cVoc\u00ea n\u00e3o fez um bom trabalho\u201d. Sempre seremos n\u00f3s usando-a como uma ferramenta. \u00c9 assim que vejo. N\u00e3o acho que ela v\u00e1 assumir tudo. Eu n\u00e3o posso simplesmente apertar um bot\u00e3o e fazer com que ela retire todo o ru\u00eddo de um di\u00e1logo. Se pudesse, o di\u00e1logo provavelmente n\u00e3o soaria bem. Tenho que ajustar a quantidade certa de redu\u00e7\u00e3o de ru\u00eddo. Ent\u00e3o ainda acho que existe esse elemento humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois de uma carreira t\u00e3o longa e t\u00e3o diversa, o que ainda faz voc\u00ea querer criar, tocar m\u00fasica ou trabalhar com som? Existe algo que voc\u00ea ainda esteja tentando descobrir?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida. Ainda estou tentando encontrar uma maneira de processar minha vida, basicamente. Quando minhas emo\u00e7\u00f5es ficam fortes, \u00e9 muito natural para mim come\u00e7ar a transform\u00e1-las em uma dessas ideias sobre as quais estamos falando, que depois se tornam uma m\u00fasica. N\u00e3o consigo imaginar minha vida sem uma maneira de expressar aquilo pelo que estou passando, aquilo que estou vivenciando. Se eu parasse, teria que sentir todas essas coisas e n\u00e3o fazer nada com elas. Ent\u00e3o vou continuar encontrando maneiras de pegar as coisas que acontecem, sejam boas ou ruins, express\u00e1-las e process\u00e1-las. Independentemente de algu\u00e9m ouvir essa m\u00fasica ou n\u00e3o, continuarei fazendo isso no meu quarto, porque \u00e9 assim que vivo.\u00c9 assim que lido com a minha vida. Sinto que seria infeliz sem essa maneira de me expressar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muito obrigado pelo seu tempo, Kira. Como disse no come\u00e7o, foi uma enorme honra conversar com voc\u00ea. Voc\u00ea \u00e9 uma refer\u00eancia para muitas pessoas no Brasil. Muitas mulheres admiram voc\u00ea e o movimento punk. Quando voc\u00ea come\u00e7ou no Black Flag, a cena era ca\u00f3tica, violenta em muitos sentidos. Ter uma mulher como voc\u00ea, forte, fazendo uma m\u00fasica incr\u00edvel para n\u00f3s, \u00e9 uma refer\u00eancia que continuar\u00e1 sendo lembrada.<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 maravilhoso. Eu n\u00e3o sei como teria sido ser um homem no Black Flag. S\u00f3 sei como foi para mim. As mulheres t\u00eam um obst\u00e1culo que est\u00e3o sempre enfrentando. N\u00f3s somos mais fracas fisicamente. Temos que superar isso e nos impor pelo que conseguimos fazer. Porque, como voc\u00ea sabe, os homens podem ser extremamente abusivos se n\u00e3o formos fortes. Ent\u00e3o \u00e9 nosso trabalho encontrar nossa for\u00e7a. Se existe alguma coisa que fiz que possa ajudar as mulheres a encontrarem sua for\u00e7a, ent\u00e3o isso \u00e9 algo maravilhoso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Kira live at the Sardine in San Pedro, Ca on 9\/9\/22\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OuDKV5OHThs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;The Ghosts&quot; by KIRA on Kitten Robot Records\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B1AEnKc6QNs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"[60fps] Black Flag - &quot;Live 84&quot; (Live at The Stone, San Francisco, CA 1984-08-26) [MICKMOD]\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sp_x1BIGwUs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Kira Roessler retoma sua carreira solo iniciada em 2021 com \u201cKIRA\u201d, lan\u00e7ando \u201cEnigma\u201d (2026), seu segundo \u00e1lbum, novamente escudada pelo irm\u00e3o, Paul Roessler.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/02\/entrevista-kira-roessler-lanca-novo-disco-e-relembra-colaboracao-com-mike-watt-e-seus-anos-de-black-flag\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":97278,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,3],"tags":[4275,8355,8354,4295],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97267"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97267"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97267\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97279,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97267\/revisions\/97279"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97278"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}