{"id":97216,"date":"2026-08-28T09:07:44","date_gmt":"2026-08-28T12:07:44","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97216"},"modified":"2026-08-28T13:01:59","modified_gmt":"2026-08-28T16:01:59","slug":"cinema-curadoria-e-restauro-debora-butruce-fala-sobre-o-relancamento-de-xica-da-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/08\/28\/cinema-curadoria-e-restauro-debora-butruce-fala-sobre-o-relancamento-de-xica-da-silva\/","title":{"rendered":"D\u00e9bora Butruce fala sobre o relan\u00e7amento de \u201cXica da Silva\u201d num papo sobre cinema, curadoria e restaura\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/frankarbone\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Francisco Carbone<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a>, do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tudoebrasilpod\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tudo \u00c9 Brasil<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio do que comumente se imagina, o filme \u201cXica da Silva\u201d (Carlos Diegues, 1976) n\u00e3o \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria realizada com base no livro hom\u00f4nimo de Jo\u00e3o Fel\u00edcio dos Santos, publicado no mesmo ano. Similarmente ao que aconteceu com o cineasta Stanley Kubrick e o escritor Arthur C. Clarke em \u201c2001: Uma Odiss\u00e9ia no Espa\u00e7o\u201d (Stanley Kubrick, 1968), Cac\u00e1 Diegues e Jo\u00e3o Fel\u00edcio dos Santos trabalharam juntos na hist\u00f3ria e no enredo de \u201cXica da Silva\u201d, resultando no livro e no filme que conhecemos hoje. A influ\u00eancia maior, documentada por meio de pesquisas acad\u00eamicas &#8211; <a href=\"https:\/\/www.e-publicacoes.uerj.br\/index.php\/transversos\/article\/view\/52258\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como o trabalho de mestrado de Mariana Queen Nwabasili<\/a> &#8211; e de depoimentos dos pr\u00f3prios artistas envolvidos, est\u00e1 atrelada ao samba-enredo do Gr\u00eamio Recreativo Escola de Samba Acad\u00eamicos do Salgueiro, que encantou multid\u00f5es em seu desfile de 1963 (e, ao que tudo indica, prepara uma reescrita do tema para 2027).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quase qualquer plano de \u201cXica da Silva\u201d comunica a influ\u00eancia carnavalesca em sua feitura. A dire\u00e7\u00e3o de arte e os figurinos de Luiz Carlos Ripper s\u00e3o a maior prova desse legado, com a utiliza\u00e7\u00e3o de brilho, cor e contraste muito expressivos. Cac\u00e1 Diegues e seu diretor de fotografia, Jos\u00e9 Medeiros, movimentam a c\u00e2mera tamb\u00e9m com muita expressividade, acompanhando a insubordina\u00e7\u00e3o da protagonista diante dos diversos sistemas de opress\u00e3o que a assolam. Zez\u00e9 Motta, ali\u00e1s, d\u00e1 vida a uma personagem que modificou os rumos de sua carreira. Chica da Silva (com \u201cch\u201d), a figura hist\u00f3rica, traz em si uma por\u00e7\u00e3o de subjetividades as quais Motta soube muito bem aproveitar e reescrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No filme, Xica da Silva \u00e9 uma mulher escravizada &#8211; e posteriormente alforriada a partir de suas pr\u00f3prias artimanhas e reivindica\u00e7\u00f5es &#8211; que se movimenta entre a malandragem e a sedu\u00e7\u00e3o, vestindo a carapu\u00e7a da esperteza em prol de sua sobreviv\u00eancia. Uma personagem rica em mist\u00e9rios justamente por essas contradi\u00e7\u00f5es. A m\u00fasica de Jorge Ben e Roberto Menescal ajuda a compor essa imagem t\u00e3o imponente, mas certamente t\u00e3o criticada desde o seu lan\u00e7amento, e at\u00e9 hoje incompreendida, julgada, arremessada no centro de debates acerca das representa\u00e7\u00f5es do negro no cinema brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um epis\u00f3dio muito curioso presente no document\u00e1rio \u201c\u00c9clats Noirs du Samba &#8211; Zez\u00e9 Motta, La Femme Enchant\u00e9e\u201d, dirigido pela francesa Ariel de Bigault, em 1987, traz Grande Otelo e Zez\u00e9 Motta discutindo a sexualiza\u00e7\u00e3o da personagem em \u201cXica da Silva\u201d, um dos aspectos mais criticados do filme na ocasi\u00e3o de seu lan\u00e7amento e que segue levantando debates at\u00e9 hoje. Otelo apresenta inquieta\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 escolha apelativa de se apresentar uma mulher negra majoritariamente sob o vi\u00e9s do sexo. Quem assistiu ao filme ir\u00e1 lembrar do bord\u00e3o repetido \u00e0 exaust\u00e3o (\u201ct\u00e1 me dando uma zoeira\u201d), toda vez que Xica precisa seduzir algu\u00e9m. Motta rebate Otelo, consciente de que uma mulher negra pode ser o que ela quiser, inclusive caracterizada pela sensualidade, pelo desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o duras as cenas de racismo retratadas em \u201cXica da Silva\u201d. Na segunda metade do filme, ap\u00f3s a chegada do Conde Valadares, personagem interpretado como um buf\u00e3o por Jos\u00e9 Wilker, Xica passa a sofrer ofensas muito mais diretas, algo que a leva a se vingar com \u00f3dio e gra\u00e7a. Na mesma medida da vingan\u00e7a, a personagem tenta seduzir o Conde por meio de uma dan\u00e7a na qual Cac\u00e1 Diegues e a sua equipe filmam com um olhar exotizante, para dizer o m\u00ednimo. Ecos de uma heran\u00e7a colonial que vimos bastante no cinema europeu dos anos 1960 e que, mesmo em territ\u00f3rio nacional, n\u00e3o \u00e9 algo f\u00e1cil de se desvencilhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fascinante em suas contradi\u00e7\u00f5es, \u201cXica da Silva\u201d \u00e9 um filme que segue vivo, muito pela sua for\u00e7a visual &#8211; apesar do astral tropicalista j\u00e1 meio fora de \u00e9poca &#8211; e, principalmente, pelos dois processos de restauro pelos quais ele passou ao longo dos anos: o primeiro deles em 2010, resultado dos esfor\u00e7os conjuntos entre a Cinemateca Brasileira e a Petrobr\u00e1s, e mais recentemente este coordenado pela <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/deborabutruce\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">D\u00e9bora Butruce<\/a> &#8211; preservadora audiovisual, restauradora de filmes e curadora &#8211; atrav\u00e9s do programa Sess\u00e3o Vitrine Petrobr\u00e1s, que fez chegar ao circuito comercial uma vers\u00e3o 4k do cl\u00e1ssico brasileiro. Butruce nos conta abaixo os detalhes deste e de outros processos de restaura\u00e7\u00e3o de filmes brasileiros nos quais esteve envolvida nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"XICA DA SILVA | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rhUGEKfsJ5Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00e9bora, muito prazer. \u00c9 uma alegria poder conversar com voc\u00ea sobre o seu trabalho com a preserva\u00e7\u00e3o em cinema, especialmente o trabalho de restaura\u00e7\u00e3o do \u201cXica da Silva\u201d, filme do Cac\u00e1 Diegues que est\u00e1 sendo relan\u00e7ado nos cinemas, e outros projetos nos quais voc\u00ea tamb\u00e9m se envolveu nos \u00faltimos anos. Para come\u00e7o de conversa, gostar\u00edamos que voc\u00ea se apresentasse.<\/strong><br \/>\nOl\u00e1, pessoal, super obrigada pelo convite, vai ser um prazer conversar com voc\u00eas. Eu sou D\u00e9bora Butruce, sou preservadora audiovisual, restauradora de filmes e curadora. Tenho j\u00e1 uma longa trajet\u00f3ria no campo, cerca de 25 anos, e mais recentemente tenho coordenado alguns projetos de restauro que t\u00eam chamado a aten\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 com muita alegria que eu estou aqui para conversar com voc\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 trabalhou tanto em arquivos quanto na pr\u00f3pria lida com a preserva\u00e7\u00e3o de filmes, comercialmente falando, sobretudo nesses projetos mais recentes que voc\u00ea tem se envolvido, na tentativa de colaborar com relan\u00e7amentos e colocar o p\u00fablico em contato novamente com esses filmes. Quando pensamos em preserva\u00e7\u00e3o, sabemos que este \u00e9 um universo muito grande, com tantas coisas e obras que s\u00e3o geradas, e nos dias de hoje mais ainda. Nesse sentido, a pergunta \u00e9: como escolher? Qual \u00e9 o seu papel nessa escolha efetiva do que priorizar?<\/strong><br \/>\nVamos l\u00e1, pensar junto aqui com voc\u00eas. No caso do projeto <a href=\"https:\/\/www.vitrinefilmes.com.br\/pt\/sessao-vitrine\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sess\u00e3o Vitrine Petrobras<\/a>, eu sou a coordenadora dos restauros e tamb\u00e9m a curadora dos filmes de patrim\u00f4nio. Ent\u00e3o acabo conjugando essas duas facetas, o que \u00e9 muito interessante, poder congregar isso. Mas, antes de falar de curadoria, vou voltar um pouquinho para falar de preserva\u00e7\u00e3o, como voc\u00ea falou. Porque a preserva\u00e7\u00e3o \u00e9 um trabalho que fica muito invisibilizado, principalmente o trabalho cotidiano nos arquivos. Para a gente chegar num filme restaurado, esses materiais originais t\u00eam que ter sido preservados adequadamente. A tecnologia digital consegue atuar de maneira muito incisiva, a gente tem muitas ferramentas dispon\u00edveis atualmente, os softwares est\u00e3o muito sofisticados, mas n\u00e3o tem milagre. Pra gente chegar num resultado importante, de excel\u00eancia, a gente precisa ter os materiais preservados adequadamente. Gosto sempre de refor\u00e7ar essa quest\u00e3o, porque acho que hoje em dia tamb\u00e9m h\u00e1 uma certa aliena\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos processos anteriores \u00e0 chegada desse filme na sala de cinema. O digital passa a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que tudo \u00e9 muito simples, tudo \u00e9 muito f\u00e1cil, est\u00e1 dispon\u00edvel online, mas h\u00e1 um longo processo de trabalho, de pessoas que vieram muito antes de mim, inclusive, que trabalham nos arquivos h\u00e1 muitos anos, muitas d\u00e9cadas, para que esses filmes consigam chegar at\u00e9 n\u00f3s hoje em dia. Ent\u00e3o, no trabalho de curadoria, a partir da minha perspectiva de profissional de preserva\u00e7\u00e3o, que eu acho que tamb\u00e9m traz um outro olhar, tento sempre conjugar tanto uma quest\u00e3o\u2026 no caso do projeto Sess\u00e3o Vitrine Petrobras, a gente sempre tenta aliar filmes que consigam dialogar com o p\u00fablico de maneira mais ampla, filmes importantes, enfim, considerados cl\u00e1ssicos ou n\u00e3o, mas que eles consigam ter esse di\u00e1logo mais amplo. \u00c9 nisso que a gente aposta. A gente n\u00e3o tem certeza, pois quando a gente est\u00e1 num processo de curadoria, sempre s\u00e3o apostas\u2026 voltando e trazendo tamb\u00e9m essa faceta da preserva\u00e7\u00e3o e da restaura\u00e7\u00e3o, que eu acho que tem um trabalho did\u00e1tico envolvido. Mostrar ao p\u00fablico mais amplo tamb\u00e9m o que envolve um filme voltar \u00e0s salas de cinema restaurado, o que se implica. Acho que esse processo contempla essas duas quest\u00f5es. E a\u00ed, no processo de curadoria mesmo, \u00e9 entender quest\u00f5es que eu acredito que possam dialogar e bater forte no p\u00fablico atual, e tamb\u00e9m angariar novos espectadores para um repert\u00f3rio de cinema brasileiro. Acho que o \u201cXica da Silva\u201d \u00e9 um bom exemplo nisso. Ele traz uma quest\u00e3o racial forte, a personagem principal, Zez\u00e9 Motta, uma mulher negra, enfim, que atua de maneira&#8230; \u00e9 um personagem complexo, que tem muitas facetas e que apresenta uma personagem feminina negra, sobretudo a gente pensando nisso h\u00e1 50 anos, de maneira muito forte, muito revolucion\u00e1ria, digamos assim. Eu acho que o \u201cXica\u201d \u00e9 um bom exemplo nesse sentido, de agregar tudo isso que a gente tenta apresentar, a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o, a import\u00e2ncia do patrim\u00f4nio audiovisual, do p\u00fablico contempor\u00e2neo reconhecer que existe uma trajet\u00f3ria da filmografia brasileira, da cinematografia brasileira. O Brasil faz cinema e faz cinema h\u00e1 muito tempo, e a gente olhar pra essas obras a partir dessas perspectivas, congregando esse di\u00e1logo com o p\u00fablico mais amplo e tamb\u00e9m trazendo essa dimens\u00e3o da import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio audiovisual.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Conhe\u00e7a Xica da Silva\" width=\"563\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4Av1smM7Z6s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem uma fala sua que deveria ser um norteador de um debate mais amplo a respeito da import\u00e2ncia da restaura\u00e7\u00e3o: \u201crestaura\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 melhorar o filme, \u00e9 devolver o que ele foi\u201d. Vamos pegar o recorte, por exemplo, da Sess\u00e3o Vitrine, que tem apostado em alguns c\u00e2nones importantes. A gente falou h\u00e1 duas semanas aqui <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/6cQ5h8Ahm3zPWj8yJVeeiD\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no programa [Tudo \u00c9 Brasil]<\/a> sobre \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/07\/17\/entrevista-marcelia-cartaxo-fala-de-a-hora-da-estrela-filme-que-lhe-rendeu-um-urso-de-prata-no-festival-de-berlim\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Hora da Estrela<\/a>\u201d. \u201cS\u00e3o Paulo S.A.\u201d foi relan\u00e7ado esse ano [tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/2j2tzDEvysjTTpMHYHrf6S\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com epis\u00f3dio dedicado no Tudo \u00c9 Brasil<\/a>]. E nessa semana estamos falando sobre o relan\u00e7amento do \u201cXica da Silva\u201d, que \u00e9 um filme pol\u00eamico para muita gente, ou que toca em assuntos que hoje em dia seriam abordados de outras maneiras. E a Sess\u00e3o Vitrine tamb\u00e9m esteve <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/3IoWAgdQgd9NJathlp8sva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no primeiro epis\u00f3dio do nosso podcast<\/a> com um filme que muita gente ouviu falar pela primeira vez a partir do relan\u00e7amento, que \u00e9 o \u201cOnda Nova\u201d. Muita gente foi apresentada a esse filme gra\u00e7as ao relan\u00e7amento, \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o, num grau que foi parar <a href=\"https:\/\/abraccine.org\/2026\/05\/11\/abraccine-elege-100-filmes-brasileiros-essenciais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">na revis\u00e3o da lista da Abraccine<\/a> [realizada em 2026]. \u00c9 um filme que provavelmente passou longe da lista inicial [realizada em 2016], mas que agora entrou na lista da Abraccine. Ent\u00e3o, acho que o que voc\u00eas est\u00e3o fazendo tamb\u00e9m \u00e9 uma esp\u00e9cie de educa\u00e7\u00e3o, de trazer para a discuss\u00e3o filmes que n\u00e3o eram discutidos, n\u00e3o eram debatidos, que estavam esquecidos, muitas vezes, e cuja discuss\u00e3o se faz premente de novo. Quer\u00edamos que voc\u00ea falasse sobre essa diferen\u00e7a da aposta n\u00e3o segura nessa restaura\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nS\u00f3 deixar claro que, infelizmente, eu n\u00e3o participei do processo de restaura\u00e7\u00e3o do \u201cOnda Nova\u201d. Adoraria ter participado, mas n\u00e3o participei. Acho que \u00e9 justamente um pouco do que eu falei na pergunta anterior, nessas apostas n\u00e3o seguras. Acho que toda aposta \u00e9 uma promessa, mesmo nos filmes considerados can\u00f4nicos. Como voc\u00ea ressaltou, \u201cXica\u201d tem quest\u00f5es muito pol\u00eamicas, que hoje em dia com certeza seriam abordadas de formas muito diferentes, mas eu acho que os filmes s\u00e3o elementos propulsores tamb\u00e9m de discuss\u00f5es. Eu acho que o \u201cXica\u201d pode ser um elemento muito forte nesse sentido. As apostas nem sempre s\u00e3o seguras. A gente sempre acredita, claro, quando a gente faz uma sele\u00e7\u00e3o, mas o \u201cA Hora da Estrela\u201d, por exemplo, foi um sucesso absoluto. \u201cA Hora da Estrela\u201d \u00e9 um cl\u00e1ssico da Suzana Amaral, um filme com 40 anos, um filme melanc\u00f3lico, um filme profundamente triste, mas associou\u2026 eu acredito que a presen\u00e7a da Clarice Lispector, a forte presen\u00e7a da Clarice entre uma gera\u00e7\u00e3o mais nova\u2026 eu via gente muito jovem nas sess\u00f5es, ent\u00e3o acabou congregando algo que escapava at\u00e9 um pouco\u2026 nesse primeiro olhar de curadoria, pensando em uma curadoria de cinema, eu acho que ele acabou abarcando um p\u00fablico que estava partindo e chegou nessa obra a partir de outros vieses. A partir do vi\u00e9s da literatura, eu acredito. O \u201cXica da Silva\u201d tem uma for\u00e7a muito grande em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 telenovela, tem muita gente que conhece a hist\u00f3ria desse personagem hist\u00f3rico, m\u00edtico, a gente pode dizer, pela for\u00e7a das telenovelas, e que vai, talvez, conhecer o filme por conta disso. E a figura da Zez\u00e9 Motta, uma atriz muito importante pro cinema brasileiro, que acabou depois fazendo muitas obras com o Cac\u00e1 Diegues, em outros tipos de personagens. Ent\u00e3o, no caso do \u201cOnda Nova\u201d, ele \u00e9 pin\u00e7ado dentro\u2026 eu acho que o trabalho com a curadoria tamb\u00e9m tem\u2026 quem trabalha com arquivo sabe de muitas potencialidades que existem. Eu fazia esse trabalho, n\u00e3o sei se voc\u00eas lembram, do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/cachacacinemaclube\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cacha\u00e7a Cinema Clube<\/a>, um cineclube que eu fazia no Rio de Janeiro\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Claro.<\/strong><br \/>\n\u2026de 2002 a 2015, eu estava ali come\u00e7ando a trabalhar com preserva\u00e7\u00e3o, eu j\u00e1 trazia esse olhar dos arquivos, pensando sempre que \u00e0s vezes eu estava analisando um filme, pensava: \u201cnossa, esse filme seria muito bom para exibir no Cacha\u00e7a Cinema Clube\u201d; que eram obras praticamente desconhecidas, que tinham potencial naquele contexto, era um outro contexto, a gente est\u00e1 falando de, caramba, 24 anos atr\u00e1s, o Cacha\u00e7a come\u00e7ou em 2002, ent\u00e3o tinham apostas, talvez mais no escuro, porque era um outro contexto, de streaming, de plataformas de compartilhamento de v\u00eddeo, enfim. Ent\u00e3o a gente est\u00e1 falando de um outro conceito hist\u00f3rico mesmo. Mas, voltando aqui na quest\u00e3o da aposta, eu acho que o \u201cOnda Nova\u201d (1983), e para trazer um t\u00edtulo que eu acho que tem uma trajet\u00f3ria semelhante com o ele, que \u00e9 o \u201cUm \u00c9 Pouco, Dois \u00c9 Bom\u201d (1970), do Odilon Lopez. O primeiro filme de um cineasta negro feito no Rio Grande do Sul, um filme que era conhecido por um epis\u00f3dio somente, \u00e9 um filme de dois epis\u00f3dios, e ele tamb\u00e9m entrou na lista da Abraccine a partir dessa revis\u00e3o proporcionada pela restaura\u00e7\u00e3o. O filme circulou muito, e \u00e9 um filme bastante inusitado. \u00c9 um filme fora da curva, a gente pode dizer, na cinematografia brasileira. O Odilon infelizmente realizou poucas obras. Era uma figura muito, muito querida na \u00e9poca, em v\u00e1rios setores. Era um multiartista, trabalhava na TV tamb\u00e9m, enfim. E acredito que \u201cOnda Nova\u201d e \u201cUm \u00c9 Pouco, Dois \u00c9 Bom\u201d compartilham dessa visibilidade, que proporcionou que as pessoas vissem o filme, refletissem, criassem uma fortuna cr\u00edtica, que fez com que eles estivessem nessa lista, o que \u00e9 importante. Eu acho que, por exemplo, em outros pa\u00edses eles j\u00e1 entenderam isso muito bem. Volta e meia a gente v\u00ea uma retrospectiva do Hitchcock, para ativar os filmes de novo na cabe\u00e7a de um p\u00fablico jovem. E aqui no Brasil, infelizmente, a gente n\u00e3o v\u00ea isso. A gente fala muito de alguns cineastas, a gente parte de um imagin\u00e1rio sobre cinema brasileiro, mas acaba assistindo pouco. Outro caso que aconteceu recentemente na Mostra de Cinema de Ouro Preto foi o \u201cVento Norte\u201d, do Salom\u00e3o Scliar, um filme de 1951, o primeiro filme de fic\u00e7\u00e3o, sonoro, do Rio Grande do Sul. Tamb\u00e9m ouvia-se falar muito, tem uma pesquisa muito ampla do Gl\u00eanio P\u00f3voas, que inclusive lan\u00e7ou um livro sobre o filme, e ele circulava numa c\u00f3pia p\u00e9ssima. Essa revis\u00e3o que a restaura\u00e7\u00e3o proporciona\u2026 e voc\u00ea conseguir ver o filme com toda a potencialidade que ele apresentava originalmente. \u00c9 claro que muitas vezes a gente apresenta as vers\u00f5es com os danos que foram acarretados ao longo do tempo, tem coisas que infelizmente a gente n\u00e3o consegue apagar, mesmo com toda a sofistica\u00e7\u00e3o das tecnologias digitais atualmente, mas ainda assim ele volta a circular de uma forma que ele n\u00e3o circulava at\u00e9 ent\u00e3o. O que possibilita toda uma nova reflex\u00e3o sobre esses t\u00edtulos. Eu acho muito interessante o que vem acontecendo. Espero que n\u00e3o pare, porque no cinema brasileiro existem os picos e as derrocadas, \u00e0s vezes muito profundas. Espero que isso n\u00e3o seja uma onda moment\u00e2nea e que permane\u00e7a para que a gente crie esse repert\u00f3rio na cabe\u00e7a de novas gera\u00e7\u00f5es, com c\u00f3pias boas, enfim, com os filmes circulando em toda a sua potencialidade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vento Norte - Trailer | IFFR 2026\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EzgbOxMEe88?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado como o senso comum pensa na ideia de \u201cfilmes antigos\u201d. \u00c0s vezes falamos de um filme dos anos 1990 e j\u00e1 tem algu\u00e9m achando que \u00e9 antigo. \u00c9 uma loucura. E muitas pessoas acham, equivocadamente &#8211; mas talvez seja compreens\u00edvel, pelo trabalho dif\u00edcil que \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o, sobretudo no Brasil, a falta de investimento, a falta de forma\u00e7\u00e3o -, que o cinema que se produziu \u201cantigamente\u201d, no s\u00e9culo passado, no s\u00e9culo retrasado, enfim, \u00e9 materialmente inferior ao que se produz hoje &#8211; me refiro \u00e0 qualidade de imagem, por exemplo -, quando a gente sabe que isso \u00e9 uma fal\u00e1cia. Voc\u00ea poderia nos contar um pouquinho, at\u00e9 aproveitando a sua forma\u00e7\u00e3o, a sua gradua\u00e7\u00e3o e o seu mestrado, sobre o trabalho desafiador da dire\u00e7\u00e3o de arte e do figurino em \u201cXica da Silva\u201d? Como \u00e9 um filme muito colorido, que tem um trabalho grande de corre\u00e7\u00e3o de cor, gostar\u00edamos que voc\u00ea falasse sobre o desafio que \u00e9 restaurar um filme como esse.<\/strong><br \/>\nAh, que bom que voc\u00ea perguntou isso, porque pra mim, no meu hist\u00f3rico anterior de profissional do audiovisual, eu trabalhava com dire\u00e7\u00e3o de arte e figurino, meu mestrado \u00e9 sobre dire\u00e7\u00e3o de arte do cinema brasileiro, e o \u201cXica da Silva\u201d \u00e9 um bel\u00edssimo exemplar, um trabalho de excel\u00eancia, de uma criatividade muito agu\u00e7ada em termos de arte figurino. Ele n\u00e3o busca uma verossimilhan\u00e7a estrita, o que acho muito bom, porque traz toda uma riqueza em termos de brasilidade mesmo. Tem algo que \u00e9 importante mencionar: o Cac\u00e1 v\u00ea o desfile do Salgueiro em 1963 e delira com esse desfile, tanto que a Renata Magalh\u00e3es, a vi\u00fava do Cac\u00e1, cita que ele dizia que o Xica da Silva \u00e9 o desfile de escola de samba dele. Ent\u00e3o acho que j\u00e1 parte dessa dimens\u00e3o pra dar essa liberdade pro Luiz Carlos Ripper, que \u00e9 quem fez os figurinos, que eu acho bel\u00edssimos. Eles buscam uma brasilidade, eles criam um reconhecimento em termos de \u00e9poca, que eu acho importante, n\u00e3o \u00e9? Um filme que se passa no s\u00e9culo XIX, para criar essa identifica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, mas vai para um outro lugar, cores saturadas etc. A gente tamb\u00e9m tem essa ideia de que o passado \u00e9 tom pastel. Quando eu vejo aquelas ferramentas de corre\u00e7\u00e3o, de coloriza\u00e7\u00e3o, de fotografia, eu choro, porque eu falo: \u201cnossa, mas por que todo mundo acha que o passado era pastel? N\u00e3o tinha satura\u00e7\u00e3o de cores no passado, n\u00e9?\u201d Eu acho que esse filme vai na contram\u00e3o disso. Foi realmente um desafio, e associado \u00e0 fotografia do Jos\u00e9 Medeiros, que era um fot\u00f3grafo que tinha rela\u00e7\u00e3o com a comunidade negra. Essa informa\u00e7\u00e3o eu fui colher na pesquisa de mestrado da Mariana Queen [Nwabasili], que tem uma pesquisa bel\u00edssima de mestrado sobre o \u201cXica da Silva\u201d, sobre as compreens\u00f5es em torno dessa personagem e apropria\u00e7\u00f5es no cinema. No caso do &#8220;Xica\u201d, em termos de materialidade f\u00edlmica mesmo, o filme foi feito em 35 mil\u00edmetros, num esquema de produ\u00e7\u00e3o ali no final dos anos 1970 que n\u00e3o era um esquema t\u00e3o independente, mas a gente sabe, em termos da escassez de alguns recursos, comparando com cinemas de outros pa\u00edses, mas o que \u00e9 importante dizer \u00e9 que o material original estava bem preservado. Recuperar as cores \u00e9 um grande desafio. Talvez, eu me arrisco a dizer, que seja um dos maiores desafios do trabalho de restaura\u00e7\u00e3o. Porque a gente n\u00e3o consegue mensurar. Existem cada canal de cor que comp\u00f5e as cores, o RGB, e para voc\u00ea conseguir identificar o quanto cada canal perdeu\u2026 perdeu mais vermelho? Tem uma coisa que eu acho linda, gente, que eu vou contar aqui, que \u00e9 a pel\u00edcula fotoqu\u00edmica, ela tem as camadas de cor. A \u00faltima camada de cor \u00e9 o vermelho, por isso que muitas vezes a gente v\u00ea os filmes que perderam quase completamente as suas cores ficarem com aquela cor avermelhada, porque \u00e9 a \u00faltima camada. Tem algo material na pel\u00edcula que eu acho bonito de entender. N\u00e3o \u00e9 porque o vermelho \u00e9 mais forte. N\u00e3o, \u00e9 porque o vermelho \u00e9 a \u00faltima, ent\u00e3o ela fica mais protegida. Ent\u00e3o, quando a gente v\u00ea aqueles filmes magentas, \u00e9 simplesmente por isso. No caso do &#8220;Xica\u201d, a gente teve a sorte de contar com materiais bem preservados. A gente n\u00e3o partiu do material em pel\u00edcula. Esse filme tinha passado por outro processo de restauro num programa de restauro da Petrobr\u00e1s, junto com a Cinemateca Brasileira. Acho que \u00e9 importante mencionar isso. E o filme tinha sido escaneado l\u00e1 em 2010. Esse programa durou de 2009 e 2011. Avaliando todo o contexto, pensando que j\u00e1 tinham se passado 16, 17 anos, a\u00ed eu pensei: \u201cser\u00e1 que vale a pena a gente escanear novamente?\u201d J\u00e1 se passaram quase 20 anos. O estado de conserva\u00e7\u00e3o, mesmo estando numa institui\u00e7\u00e3o que, com certeza, preserva adequadamente os materiais em pel\u00edcula, j\u00e1 tinham se passado 17 anos. Ent\u00e3o, avaliando esses arquivos digitais processados antes, em 4K, optei por partir desses materiais justamente para n\u00e3o ter que manipular de novo a pel\u00edcula. \u00c9 claro que o scanner hoje em dia tem todo um mecanismo que evita o desgaste, mas ainda assim, \u00e9 claro que \u00e9 sempre\u2026 voc\u00ea manipular a pel\u00edcula com todo o cuidado sempre, que a gente faz esse trabalho, mas n\u00e3o deixa de ser mais uma manipula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o a gente partiu desses arquivos digitais que foram escaneados l\u00e1 em 2010. Mas j\u00e1 apresentavam os problemas que a pel\u00edcula apresentava l\u00e1 atr\u00e1s. A gente est\u00e1 falando de 2010, de 16 anos atr\u00e1s, mas a gente est\u00e1 falando de 34 anos, um filme feito em 1976, ent\u00e3o a gente est\u00e1 falando de um material que j\u00e1 tinha 34 anos e justamente a gente sabe como \u00e9 o panorama das institui\u00e7\u00f5es brasileiras de mem\u00f3ria. A Cinemateca Brasileira, a gente pode dizer que hoje se encontra em um momento \u00f3timo, excelente em termos de recursos, estabilidade, mas nem sempre foi assim. Na verdade, a maior parte do tempo, infelizmente, n\u00e3o foi assim. Claro que os materiais acabam estando suscet\u00edveis a essas crises que acontecem. Eu dei uma volta (risos), mas para voltar para as cores, eu acho que no &#8220;Xica\u201d a gente conseguiu apresentar e manter a integridade das cores, que eu acho que \u00e9 um elemento important\u00edssimo para essa personagem, para todo o contexto que o filme apresenta em termos de \u00e9poca mesmo, dessa fuga da verossimilhan\u00e7a, ao mesmo tempo esse reconhecimento, ent\u00e3o foi muito bom poder contar com esses materiais bem preservados e trazer essa cor e toda essa ambi\u00eancia, essa visualidade que \u00e9 t\u00e3o importante pra essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Devil Queen (A Rainha Diaba) \u2013 Official Restoration Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mCt6kyW9zuk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Adorei o Leandro ter comentado sobre a cor do \u201cXica da Silva\u201d porque eu estava para falar sobre um outro filme onde o colorido, onde a vivacidade das cores\u2026 que voc\u00ea j\u00e1 tinha trabalhado que \u00e9 o \u201cA Rainha Diaba\u201d (1974). E tinha separado um momento para falar sobre o \u201cVento Norte\u201d, que eu assisti a c\u00f3pia l\u00e1 em Ouro Preto, quando n\u00f3s est\u00e1vamos juntos, e que voc\u00eas mesmos, na apresenta\u00e7\u00e3o da sess\u00e3o, falaram sobre algumas dificuldades enfrentadas, e uma delas eu acho curios\u00edssima que tem rela\u00e7\u00e3o com a areia, que corre muito na pel\u00edcula, na filmagem do Salom\u00e3o. Qual a diferen\u00e7a entre esses restauros de filmes coloridos, ou de extremamente coloridos, como esses dois, o &#8220;Xica\u201d e o \u201cRainha\u201d, pra um filme que, al\u00e9m de ser preto e branco, ainda tinha as suas dificuldades particulares, como o \u201cVento Norte\u201d?<\/strong><br \/>\nS\u00e3o desafios diferentes. No caso da cor, como eu falei na resposta anterior, pra gente \u00e9 muito dif\u00edcil conseguir mensurar o que perdeu de cada canal de cor, e a\u00ed a gente se mune de refer\u00eancias. \u00c9 muito importante, o material ele diz muito. As pessoas que trabalharam dizem tamb\u00e9m, muito, mas muitas vezes as pessoas n\u00e3o est\u00e3o mais aqui. Ningu\u00e9m, como \u00e9 o caso do \u201cVento Norte\u201d. Ent\u00e3o o \u201cVento Norte\u201d foi um desafio num outro sentido. O som foi um grande desafio. A gente acaba falando pouco de som. Foi um bel\u00edssimo trabalho de restaura\u00e7\u00e3o do som da Riqirunas com o Eric Camargo. Foi um desafio porque a gente contava com essa areia que estava presente ao longo do filme quase todo e que isso, na hora da limpeza, \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea conseguir identificar o que \u00e9 um chiado da \u00e9poca, porque existia um chiado muito caracter\u00edstico na captura, no trabalho com o som dessa \u00e9poca, e o que \u00e9 um chiado causado por deteriora\u00e7\u00e3o. A gente tamb\u00e9m tem esse desafio. Ent\u00e3o a gente, eu acho, conseguiu chegar num excelente resultado. A gente conhecia a c\u00f3pia anterior e falou: \u201cnossa, estou ouvindo coisas que eu nunca tinha ouvido\u201d. \u00c9 isso, como voc\u00ea falou l\u00e1 no in\u00edcio, um trabalho de restauro busca\u2026 se mune de refer\u00eancias, n\u00e9, s\u00e3o sempre escolhas, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a gente tem que fazer escolhas, mas eu sempre me muno da maior quantidade de refer\u00eancias o poss\u00edvel para poder fazer escolhas embasadas. No caso do \u201cVento Norte\u201d a gente n\u00e3o tinha tantas refer\u00eancias assim. Os negativos est\u00e3o perdidos, infelizmente. S\u00e3o dados como perdidos. Uma c\u00f3pia foi depositada no final dos anos 1970 na Cinemateca Brasileira, que fez uma duplica\u00e7\u00e3o nesse momento, ent\u00e3o a gente est\u00e1 falando j\u00e1 do material de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, o que prejudica. A cada copiagem e duplica\u00e7\u00e3o voc\u00ea perde qualidade, ent\u00e3o a gente est\u00e1 falando tamb\u00e9m de um laborat\u00f3rio l\u00e1 do final dos anos 1970, que era no in\u00edcio. O laborat\u00f3rio da Cinemateca Brasileira come\u00e7a a operar em 1977, ent\u00e3o a gente est\u00e1 falando tamb\u00e9m de um trabalho que est\u00e1 muito inicial. Tudo isso, claro, a gente viu nesse material que utilizou como fonte para esse restauro. Isso \u00e9 importante dizer, a gente carrega\u2026 embora o objetivo de um restauro \u00e9 apresentar de novo o que foi essa vers\u00e3o original, inicial, mas os materiais eles carregam a hist\u00f3ria. A trajet\u00f3ria do que aconteceu ao longo desses anos at\u00e9 chegar nos dias atuais. O \u201cVento Norte\u201d foi assim. O desafio tamb\u00e9m, quando voc\u00ea tem um material que j\u00e1 foi processado algumas vezes, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 partindo do negativo original, voc\u00ea tem desafios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s altas e baixas luzes. Voc\u00ea tem poucos detalhes. E a gente falando de uma proje\u00e7\u00e3o hoje em dia em 4K, embora pel\u00edcula, a gente sabe\u2026 n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de hierarquia, do que tem mais qualidade. S\u00e3o naturezas tecnol\u00f3gicas distintas. Mas, o desafio \u00e9 a gente conseguir trazer os detalhes nas baixas luzes, nos pretos, e tamb\u00e9m manter os detalhes nas altas luzes. Isso \u00e9 um grande desafio. Para voc\u00ea n\u00e3o ter nem um filme lavado, nem um filme estourado. O \u201cVento Norte\u201d a gente teve esse desafio pra conseguir chegar nesse equil\u00edbrio pensando que \u00e9 um filme\u2026 o Salom\u00e3o Scliar tamb\u00e9m era fot\u00f3grafo, ele trabalha muito com esse contraste ao longo de todo o filme. Aquelas figuras contrastadas na praia, enfim, a gente est\u00e1 numa aldeia de pescadores. E a gente conseguir trazer essa dimens\u00e3o do contraste presente na obra, mas n\u00e3o perder os detalhes. O preto e branco \u00e9 um outro desafio. N\u00e3o menor, mas diferente. As cores a gente consegue, a partir das refer\u00eancias, das boas refer\u00eancias, n\u00e9? No caso do \u201cA Rainha Diaba\u201d a gente tamb\u00e9m teve sorte. Existem os negativos originais, que est\u00e3o preservados no Arquivo Nacional. Muito bem preservados. Tem uma curiosidade que eu gosto de contar: quando eu vi o negativo\u2026 a gente sempre olha, o negativo tem muitas informa\u00e7\u00f5es que nos passa\u2026 a Kodak tinha uns simbolozinhos que ela colocava na borda do negativo pra falar quando aquele material tinha sido fabricado, e eu falei: \u201cnossa, mas est\u00e1 muito bom esse material, deve ter sido feito em outro momento, deve ser uma duplica\u00e7\u00e3o, um internegativo, n\u00e3o deve ser o negativo original feito l\u00e1, inicialmente\u201d. Eu fiquei chocada. E a\u00ed, olhando na borda esses simbolozinhos, eu falei: \u201cn\u00e3o, \u00e9 o material de 1974\u201d. A confec\u00e7\u00e3o daquele negativo tinha sido em 1974, era o negativo original mesmo\u2026 pelo t\u00e3o bom estado de conserva\u00e7\u00e3o que ele se encontrava. Ent\u00e3o, no caso do \u201cA Rainha Diaba\u201d tamb\u00e9m teve isso. A gente partiu de um material muito bom em termos de preserva\u00e7\u00e3o de cores pra conseguir chegar nessa explos\u00e3o, nessa visualidade riqu\u00edssima e complexa que \u00e9 o \u201cA Rainha Diaba\u201d. S\u00e3o desafios diferentes, mas n\u00e3o menores, sabe, p&amp;b \u00e9 mais f\u00e1cil, cor \u00e9 mais dif\u00edcil. Se a gente tiver boas refer\u00eancias, a gente consegue chegar num bom resultado. Mas, no caso do \u201cVento Norte\u201d , que \u00e9 um filme mais antigo tamb\u00e9m, a gente est\u00e1 falando de um filme de 1951, ent\u00e3o a tecnologia cinematogr\u00e1fica no Brasil se encontrava numa outra etapa. O outro filme \u00e9 dos anos 1970. Tamb\u00e9m tem isso: o contexto hist\u00f3rico no qual os filmes foram produzidos carregam\u2026 no material est\u00e3o impressas essas marcas. O tipo de produ\u00e7\u00e3o, enfim, toda a tecnologia da \u00e9poca. E \u00e9 sempre muito bom a gente observar isso. O trabalho de restauro respons\u00e1vel observa tudo isso pra gente chegar nesse resultado. Inclusive, os erros s\u00e3o importantes da gente saber. Nossa, isso aqui n\u00e3o p\u00f4de ser feito. Por que n\u00e3o pode ser feito? Porque naquela \u00e9poca n\u00e3o era poss\u00edvel em termos de tecnologia\u2026 mas sempre atuar com muito cuidado, com muita responsabilidade, sabe? Porque eu acho que \u00e9 isso: voc\u00ea est\u00e1 apresentando de novo uma obra do passado, ent\u00e3o de que forma voc\u00ea vai apresentar essa obra? Sem carregar esse estigma que o cinema brasileiro carregou durante tanto tempo, um cinema mal feito, prec\u00e1rio. Ter cuidado pensando nisso e desconstruir isso, porque definitivamente n\u00e3o \u00e9 verdade, a gente fazia milagres com a tecnologia que a gente tinha.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97234 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/debora6.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"458\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/debora6.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/debora6-300x183.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria entrar um pouquinho mais nessa pol\u00eamica, D\u00e9bora. Bom, tem essa quest\u00e3o que voc\u00ea comentou da participa\u00e7\u00e3o de diretores, de diretores de fotografia na restaura\u00e7\u00e3o dos filmes. A gente sabe da import\u00e2ncia dessa supervis\u00e3o, quando \u00e9 poss\u00edvel, de voc\u00ea ter o acompanhamento de algu\u00e9m. Mas a gente sabe tamb\u00e9m, e eu gosto muito de uma fala sua, que \u00e9 essa coisa de \u201cacreditar no material\u201d, que o material \u00e9 a pe\u00e7a mais confi\u00e1vel, at\u00e9 porque a mem\u00f3ria trai muito. Da\u00ed fiquei pensando nessa interven\u00e7\u00e3o dos diretores, e talvez os exemplos mais c\u00e9lebres para um grande p\u00fablico, como esse assunto chegou primeiro nas pessoas, tenham sido com os blockbusters. Se a gente pensar na obsess\u00e3o do George Lucas com \u201cStar Wars\u201d (1977), ou na pira\u00e7\u00e3o do Spielberg com o \u201cE.T.\u201d (1982), adicionando efeitos digitais, substituindo as armas por walkie-talkies, enfim. Estou falando tudo isso, e me desculpa se essa \u00e9 uma pergunta um tanto torta, mas, filosoficamente falando, seria correto comparar o trabalho de restaura\u00e7\u00e3o de um filme, ou simplesmente a mudan\u00e7a de um suporte para o outro, de um suporte anal\u00f3gico para um digital, por exemplo, com o trabalho de tradu\u00e7\u00e3o de uma obra liter\u00e1ria?<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/03\/21\/tres-perguntas-erico-assis-autor-de-baloes-de-pensamento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> \u00c9 a mesma obra, mas \u00e9 outra obra, ou n\u00e3o<\/a>? Como voc\u00ea enxerga isso, filosoficamente falando?<\/strong><br \/>\nUau, nunca tinha comparado com tradu\u00e7\u00e3o. Vou pensar\u2026 foi muito bom pensar a partir dessa perspectiva. Ent\u00e3o, como profissional de preserva\u00e7\u00e3o, ao longo dos anos, eu confesso que eu era muito mais xiita antigamente. Quando voc\u00ea \u00e9 mais nova voc\u00ea tem muitas certezas. (autorit\u00e1ria) \u201cN\u00e3o pode isso, n\u00e3o pode aquilo, n\u00e3o pode mudar\u201d. Ao longo dos anos, voc\u00ea vai entendendo que o di\u00e1logo, primeiro, com quem trabalhou no filme, ele \u00e9 importante, ele \u00e9 uma fonte de refer\u00eancia importante; os materiais s\u00e3o pra mim as pe\u00e7as principais, mas esse di\u00e1logo com a equipe, com o diretor, \u00e9 importante; mas tamb\u00e9m entender o momento hist\u00f3rico. No caso dos exemplos que voc\u00ea citou, eu particularmente n\u00e3o considero restaura\u00e7\u00f5es, t\u00e1? Considero vers\u00f5es dos diretores, que \u00e9 outra coisa. A gente est\u00e1 falando tamb\u00e9m de um mercado muito diferente do nosso, tem um estatuto diferente esse tipo de vers\u00e3o. Parece que est\u00e1 apresentando algo novo, com mais elementos do que o original tinha. Ou elementos um pouco diferentes, olha, \u00e9 a mesma coisa, mas n\u00e3o \u00e9. Eu acho triste, lament\u00e1vel, o Spielberg ter apagado as armas, eu acho muito lament\u00e1vel. Muitas obras t\u00eam quest\u00f5es muito complicadas, que eu acho que os filmes podem ser elementos para discuss\u00e3o, \u00e0 luz de hoje. Ent\u00e3o acho muito complicado essa tentativa de fugir de um suposto cancelamento, enfim. Ou de uma quest\u00e3o moral que estaria muito em voga hoje em dia. Pra mim isso n\u00e3o \u00e9 restaura\u00e7\u00e3o. Eu acho que os cineastas t\u00eam a liberdade de fazer o que quiserem com as suas obras, mas acho que podia chamar da maneira correta. Restaura\u00e7\u00e3o, n\u00e3o, porque a restaura\u00e7\u00e3o tem um certo&#8230; vira um commodity, n\u00e3o sei se voc\u00eas concordam. Voc\u00ea cria um estatuto: olha, restaurado parece que \u00e9 melhor do que a obra original. E comparando com o que voc\u00ea falou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o, eu acho que \u00e9 um pouco diferente, porque quando voc\u00ea traduz uma obra para uma outra l\u00edngua, voc\u00ea tem que buscar ambientar, enfim, quest\u00f5es muito espec\u00edficas de uma l\u00edngua pra outra. E muitas vezes voc\u00ea vai se aproximar mesmo, voc\u00ea n\u00e3o vai chegar&#8230; essa tradu\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca de algo completamente exato n\u00e3o existe. Tem algum tra\u00e7o de semelhan\u00e7a em termos da tecnologia. Um restauro \u00e9 sempre fruto do seu tempo. A gente est\u00e1 falando agora do restauro do \u201cXica da Silva\u201d em 2026, ele \u00e9 um fruto desse momento tecnol\u00f3gico, hist\u00f3rico, das escolhas que foram feitas. Por isso que eu acho muito importante as cartelas t\u00e9cnicas. Eu acho que tem uma dimens\u00e3o did\u00e1tica importante, tamb\u00e9m o registro que vai acompanhar aquele material. Muitas vezes eu busco, em restaura\u00e7\u00f5es do passado\u2026 s\u00e3o informa\u00e7\u00f5es muito breves e voc\u00ea n\u00e3o consegue saber\u2026 \u201cnossa, mas ele partiu ent\u00e3o de qual material?\u201d Eu acho que \u00e9 um registro importante. Essas cartelas, embora \u00e0s vezes, nossa, mas\u2026 eu j\u00e1 ouvi opini\u00f5es contr\u00e1rias, tem gente que adora, tem gente que n\u00e3o gosta. Eu acho que voc\u00ea apresenta e ambienta o espectador: \u201colha, o que voc\u00ea vai ver a partir de agora foi a partir disso aqui\u201d. Tem uma dimens\u00e3o importante did\u00e1tica. Pensando na participa\u00e7\u00e3o da equipe original, eu acho que a gente tem muitos elementos. A gente foca muito na quest\u00e3o do diretor, mas voc\u00ea tem o trabalho do diretor de arte, voc\u00ea tem o trabalho de quem fez o som, voc\u00ea tem o trabalho de quem fez a fotografia. E eu acho que todas as dimens\u00f5es t\u00eam que ser respeitadas. A gente coloca muito na figura do diretor. Por isso que eu acho \u00e0s vezes complexo. \u00c9 claro que ele\u2026 ele ou ela \u00e9 quem orquestra tudo isso, a gente sabe a import\u00e2ncia dessa figura, mas a gente centra muito a\u00ed. Tem filmes que tem, por exemplo, a prioridade em termos do trabalho art\u00edstico est\u00e1 mais no som, enfim. \u00c9 raro, mas acontece. Tem outros que\u2026 o &#8220;Xica da Silva\u201d, eu acho, por exemplo, que a dire\u00e7\u00e3o de arte e os figurinos \u00e9 algo muito importante. E a\u00ed tem algo essencial que voc\u00ea falou: a mem\u00f3ria \u00e9 algo constru\u00eddo. Muitas vezes eu parti de informa\u00e7\u00f5es do diretor e de outras pessoas da equipe que tinham certeza. \u201cEu tenho certeza que foi feito naquele laborat\u00f3rio\u201d. E a\u00ed eu pegava o material e logo na ponta, j\u00e1 estava l\u00e1 na ponta o nome do laborat\u00f3rio que tinha sido outro\u2026 que eu tinha pensado que era. Porque o meu doutorado \u00e9 sobre a restaura\u00e7\u00e3o de filmes no Brasil e eu tenho uma grande curiosidade em rela\u00e7\u00e3o ao contexto de tecnologia, sobretudo por essa quest\u00e3o falaciosa de que no Brasil sempre foi prec\u00e1rio, que a gente n\u00e3o tinha ferramentas tecnol\u00f3gicas \u00e0 altura como em outros pa\u00edses, ent\u00e3o o meu doutorado vai nessa linha, de entender por que algumas coisas s\u00e3o consideradas ruins ou chegaram at\u00e9 n\u00f3s de maneira ruim ou prec\u00e1ria, e que n\u00e3o eram. Na verdade, eram verdadeiros milagres quando eram feitos. Ent\u00e3o, \u00e9 sempre muito cuidadoso quando voc\u00ea busca informa\u00e7\u00e3o na equipe e no cineasta. Eu busco sempre esse respeito. Eu acho que voc\u00ea est\u00e1 lidando com o trabalho de muitas pessoas e a gente sabe como \u00e9 dif\u00edcil fazer cinema brasileiro. Eu sempre busco essa rela\u00e7\u00e3o respeitosa e atenta. Converso com as pessoas, mas a gente tem que ter um equil\u00edbrio, porque tamb\u00e9m \u00e9 muito cruel, digamos assim, voc\u00ea com todas as ferramentas digitais dispon\u00edveis hoje, a\u00ed voc\u00ea: \u201cn\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o vai corrigir essa cena, n\u00e3o, porque essa cena estava assim, ela ficou desse jeito, essa cor foi impressa errada\u201d. Porque tem tamb\u00e9m a tecnologia dos laborat\u00f3rios, n\u00e9? Foi impressa desse jeito, a marca\u00e7\u00e3o de luz era totalmente\u2026 gente, era com filtro, loucura, n\u00e9, comparar com esse arsenal que a gente tem hoje. Ent\u00e3o \u00e9 duro voc\u00ea chamar uma pessoa que fez o filme na \u00e9poca para acompanhar e n\u00e3o permitir, se \u00e9 que eu posso dizer assim, que ela \u201ccorrija\u201d algumas coisas que ela queria ter feito na \u00e9poca. Eu j\u00e1 ouvi isso: \u201cmas com certeza ele queria ter feito isso\u201d. A\u00ed \u00e9 algo muito et\u00e9reo, gente, porque com certeza v\u00e1rias pessoas da equipe queriam ter feito muitas coisas e voc\u00ea conseguir conjugar tudo isso\u2026 por isso que \u00e9 bom a gente partir do material. E partir tamb\u00e9m do erro, ter a coragem. A gente gosta de falar da dignidade do risco, assim\u2026 da dignidade do erro tamb\u00e9m. Ele diz muito daquele contexto hist\u00f3rico. Eu acho que \u00e0s vezes tem erros muito preciosos pra gente pensar no contexto do cinema brasileiro. Eu acho que a gente tem que saber dosar. Se munir das refer\u00eancias, tentar se aproximar do que era essa vers\u00e3o original, mesmo que esse conceito, pensando filosoficamente\u2026 eu debato longamente o conceito de original no meu doutorado, que tamb\u00e9m \u00e9 um conceito complexo, muito complexo\u2026 a gente falando de cinema, uma arte que est\u00e1 implicada\u2026 duplica\u00e7\u00f5es, n\u00e9? Ele n\u00e3o tem nem um material, ele tem um negativo e uma c\u00f3pia, pra dizer o m\u00ednimo, ent\u00e3o o original seria um arsenal de elementos. Esse conceito de original tamb\u00e9m \u00e9 complexo, pensando filosoficamente, ent\u00e3o \u00e9 dosar essas informa\u00e7\u00f5es das pessoas da equipe envolvidas. E \u00e0s vezes fontes cr\u00edticas s\u00e3o importantes. Eu pesquiso bastante na Hemeroteca Digital pra entender como \u00e9 que o filme foi lan\u00e7ado na \u00e9poca, as cr\u00edticas da \u00e9poca. S\u00f3 trazendo um exemplo breve, o \u201cA Mulher de Todos\u201d foi assim, do Rog\u00e9rio Sganzerla, n\u00e9? Tinha a quest\u00e3o dessa vers\u00e3o com viragens, que chegou at\u00e9 n\u00f3s e circulou durante muito tempo a vers\u00e3o em preto e branco. Para entender, nos materiais n\u00e3o tinha nenhum vest\u00edgio em rela\u00e7\u00e3o a isso. Helena, enfim, Sinai, Djin, tamb\u00e9m n\u00e3o tinham elementos que Rog\u00e9rio tivesse guardado pra falar sobre as cores dessas viragens, coloridas, ent\u00e3o eu fui buscar l\u00e1 em falas de cr\u00edticos da \u00e9poca. E o pr\u00f3prio Rog\u00e9rio\u2026 o filme foi publicizado, vendido, o material de divulga\u00e7\u00e3o era isso: \u201csexy color\u201d, \u201cdynamic color\u201d. O pr\u00f3prio Rog\u00e9rio denominava o tipo de cor do \u201cA Mulher de Todos\u201d assim. Ent\u00e3o a gente vai em elementos diversos para conseguir se munir dessas refer\u00eancias. \u00c9 uma dosagem, entendeu, gente? \u00c9 uma dosagem entre o que a gente pode conseguir a partir desse material, o estado de conserva\u00e7\u00e3o, essas informa\u00e7\u00f5es e todas as refer\u00eancias para chegar em escolhas respons\u00e1veis. Ela nesse momento partiu dessas escolhas aqui por causa disso, disso e disso. Talvez num outro momento hist\u00f3rico um profissional parta de outras escolhas, mas eu gosto de deixar bem claro quais foram as fontes e porqu\u00ea, e qual \u00e9 o estado dessas matrizes de restauro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Zez\u00e9 Motta fala de #XicadaSilva\" width=\"563\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Pqr05Sxzrwg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria trazer uma provoca\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 uma mulher numa atividade ainda pouco publicizada, e voc\u00ea est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o de comando que provavelmente poucas pessoas t\u00eam\u2026 esse lugar de poder que voc\u00ea adquiriu ao longo dos anos. Paralelo a isso, a gente tem visto filmes [restaurados] como \u201cA Hora da Estrela\u201d, \u201cUm C\u00e9u de Estrelas\u201d, o primeiro filme da Tata Amaral, exibido em Ouro Preto\u2026 a gente poderia falar sobre o fato de que a Teresa Trautman voltou \u00e0s conversas com \u201cOs Homens Que Eu Tive\u201d. Partindo de um desejo seu particular, ou pensando de uma maneira mais did\u00e1tica mesmo, o que voc\u00ea acha que poderia ser feito por mulheres pioneiras diretoras no Brasil? Ou quais seriam os filmes, se \u00e9 que voc\u00ea tem algum, dirigido por mulheres que voc\u00ea gostaria de trazer \u00e0 tona? Pegando um outro registro, tamb\u00e9m em Ouro Preto, vimos a bel\u00edssima c\u00f3pia de \u201dO \u00c9brio\u201d, da Gilda Abreu. Gostar\u00edamos que voc\u00ea falasse sobre o seu papel enquanto figura de comando, sendo uma mulher\u2026 no que isso implicou, se j\u00e1 implicou em algum lugar\u2026 como voc\u00ea \u00e9 vista agora, enfim. Sei que \u00e9 muito abrangente o que eu falei, mas se voc\u00ea puder [responder]&#8230;<\/strong><br \/>\nUau, vamos l\u00e1. Ent\u00e3o, voc\u00ea falou num local de poder, n\u00e9? Assim, a gente sabe como s\u00e3o os locais de poder para as mulheres. N\u00e3o sei no que esse poder de fato\u2026 o poder de fato que eu tenho. Eu acho que isso foi constru\u00eddo, assim, ao longo de muitos anos. Como eu citei no in\u00edcio, eu trabalho h\u00e1 25 anos com preserva\u00e7\u00e3o audiovisual. O restauro acaba sendo a faceta mais p\u00fablica desse trabalho, que muitas vezes \u00e9 visibilizado. E tem quest\u00f5es, sobretudo uma quest\u00e3o t\u00e9cnica\u2026 eu tenho uma autoridade t\u00e9cnica, acredito, constru\u00edda ao longo desses anos, essa minha pesquisa de doutorado, eu acho que tem uma quest\u00e3o de aliar uma reflex\u00e3o conceitual mesmo, aliada a uma pr\u00e1tica, eu acho que isso me deu uma uma vis\u00e3o ampla sobre esses processos, sobre a reflex\u00e3o e as boas pr\u00e1ticas dentro desses processos, mas o que eu posso dizer em rela\u00e7\u00e3o a escolha de filmes etc.? N\u00e3o existe uma pol\u00edtica p\u00fablica consistente para o setor de preserva\u00e7\u00e3o audiovisual. A gente viu algumas mudan\u00e7as nos \u00faltimos anos, sobretudo com a cria\u00e7\u00e3o de uma diretoria de preserva\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o audiovisual dentro do Governo Lula agora, n\u00e9? A gente teve um Programa Nacional de Preserva\u00e7\u00e3o Audiovisual lan\u00e7ado, a cria\u00e7\u00e3o de uma rede nacional de arquivos, mas ainda falta a gente enxergar a fonte de recursos est\u00e1vel para esse setor. Eu digo isso porque eu tenho participado de projetos independentes, ent\u00e3o eu acho que esses locais de poder, sobretudo, s\u00e3o os arquivos. Muitos deles, a maior parte, contam com uma equipe muito numerosa de mulheres. Eu acho que j\u00e1 falei disso numa outra entrevista. Est\u00e1 muito relacionado ao trabalho de cuidado. Na revis\u00e3o, historicamente, a maior quantidade de profissionais que atuavam sempre foi de mulheres, ent\u00e3o a quest\u00e3o de voc\u00ea ter inger\u00eancia sobre os t\u00edtulos que s\u00e3o produzidos\u2026 a gente tamb\u00e9m sabe o volume de mulheres diretoras de filmes. Acredito que tem mulheres t\u00e3o criadoras quanto os diretores, mas que n\u00e3o assumem essa figura de dire\u00e7\u00e3o\u2026 eu acho que a Helena Ignez \u00e9 uma figura dessas. Eu acredito que ela seja t\u00e3o criadora quanto o Rog\u00e9rio, mas n\u00e3o est\u00e1 na dire\u00e7\u00e3o de alguns filmes, n\u00e9? Eu n\u00e3o estou falando da carreira dela depois como cineasta. Eu acredito que se a gente tiver uma pol\u00edtica consistente que tente abarcar n\u00e3o somente cl\u00e1ssicos e c\u00e2nones, mas tamb\u00e9m busque obras raras, pouco vistas, pra gente conseguir fazer um trabalho consistente em termos de restaura\u00e7\u00e3o, trazer de volta, trazer pro p\u00fablico t\u00edtulos tanto que congreguem esse olhar que busque um di\u00e1logo mais amplo com um p\u00fablico novo, ou uma revis\u00e3o desse p\u00fablico, mas tamb\u00e9m obras mais obscuras, que a\u00ed eu acho que entraria o \u201ccinema feito por mulheres\u201d, que eu acho que est\u00e1 em v\u00e1rios campos, n\u00e3o s\u00f3 na dire\u00e7\u00e3o. Se a gente falar de uma figura absurdamente importante do cinema brasileiro como a Dercy Gon\u00e7alves, por exemplo. Era uma atriz que levava multid\u00f5es ao cinema, que tem filmes divertid\u00edssimos, sensacionais, e que \u00e9 uma figura conhecida como a idosa desbocada &#8211; que eu acho \u00f3tima tamb\u00e9m, t\u00e1, mas que ela tem uma dimens\u00e3o muito mais ampla do que isso. Quem v\u00ea\u2026 se a gente falar que a Dercy Gon\u00e7alves era atriz do cinema brasileiro, pioneira, as pessoas v\u00e3o falar: \u201cnossa, que loucura!\u201d. Tem gente que com certeza n\u00e3o sabe dessa informa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o pra gente conseguir chegar nesses filmes tamb\u00e9m. Eu acho que eu constru\u00ed ao longo de muitos anos essa trajet\u00f3ria que culmina com essa parte mais vis\u00edvel do meu of\u00edcio. Eu continuo trabalhando, gente, com o diagn\u00f3stico de acervo, vendo filme na mesa enroladeira, n\u00e3o tem s\u00f3 essa faceta da coordena\u00e7\u00e3o dos restauros, que me traz muita satisfa\u00e7\u00e3o, com certeza, mas que \u00e9 uma faceta mais p\u00fablica que necessita desse trabalho invis\u00edvel dentro dos arquivos, que eu sigo fazendo. Atualmente eu trabalho de forma aut\u00f4noma, mas j\u00e1 trabalhei muitos e muitos anos dentro dos arquivos. \u00c9 uma pergunta dif\u00edcil de responder, Francisco, porque\u2026 \u00e9 isso, eu acredito que sim, h\u00e1 algo que foi conquistado em termos de refer\u00eancia. \u201cPoder\u201d me soa\u2026 eu fico um pouco\u2026 talvez incomodada com essa palavra. N\u00e3o sei se\u2026 porque o nosso poder \u00e0s vezes \u00e9 muito et\u00e9reo, entendeu? Ele se esvai muito rapidamente. Eu acho que tem uma refer\u00eancia, em termos de trabalho mesmo, constru\u00eddo ao longo de muitos anos, da minha pesquisa tamb\u00e9m. O resultado que eu consigo fazer com os trabalhos, sempre associado a essa dimens\u00e3o muito did\u00e1tica. \u00c9 muito claro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minhas escolhas, e muito cuidadosa, mas eu acredito que s\u00e3o projetos, quando a gente t\u00e1 falando da Sess\u00e3o Vitrine Petrobr\u00e1s, um projeto super importante, financiado pela Petrobr\u00e1s, e outras iniciativas, tamb\u00e9m independentes, mas eu acho que tem que ter uma pol\u00edtica p\u00fablica consistente pra gente conseguir dar conta de uma gama muito ampla da cinematografia brasileira, que passa tanto por cl\u00e1ssicos e c\u00e2nones, muito importante de serem revisitados, muitas vezes que n\u00e3o s\u00e3o exibidos e projetados na sua melhor forma. A gente tem c\u00f3pias ruins\u2026 vamos lembrar que agora a Ana Carolina teve as suas obras digitalizadas pelo Canal Brasil, mas tamb\u00e9m tem todo um trabalho que eu acho, em rela\u00e7\u00e3o a esses filmes, de voc\u00ea\u2026 como eles s\u00e3o apresentados. N\u00e3o d\u00e1 pra voc\u00ea pegar um filme da Ana Carolina e jogar no circuito de maneira nada cuidadosa, n\u00e9? Quem \u00e9 a Ana Carolina hoje? Como os filmes da Ana Carolina batem hoje numa outra gera\u00e7\u00e3o, em pessoas interessadas ou n\u00e3o nesse cinema? Eu acho que tem tamb\u00e9m um trabalho de distribui\u00e7\u00e3o cuidadoso a partir dessas obras que foram feitas num outro contexto hist\u00f3rico. Tem um trabalho conjugado de forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico. De p\u00fablicos, a gente pode dizer assim. N\u00e3o sei se eu te respondi, assim, uma pergunta dif\u00edcil, n\u00e9? (risos). Foi algo conquistado com muito trabalho. \u00c9 muito delicado porque tem muito homem na t\u00e9cnica, e confesso que sim, algumas vezes alguns homens se sentem incomodados, principalmente em termos de refer\u00eancia. Eu sempre busco me atualizar em termos\u2026 o digital muda com muita frequ\u00eancia, em termos de formato de arquivo, codecs etc. Parece uma linguagem do universo masculino, digamos assim, que \u00e9 uma bobagem, uma fal\u00e1cia. Ent\u00e3o \u00e0s vezes existe esse desconforto t\u00e9cnico, que eu trago: \u201cnossa, hoje em dia\u2026 foi criado\u2026 foi adotado como padr\u00e3o em termos de preserva\u00e7\u00e3o esse formato, que t\u00e1 sendo discutido\u201d. Mas a pessoa: (ironicamente) \u201colha, \u00e9 mesmo? T\u00e1\u2026\u201d. Eu acho que tamb\u00e9m a experi\u00eancia, a maturidade vai colocando a gente num outro lugar, com mais tranquilidade, com mais seguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolhas. E a minha experi\u00eancia, eu tamb\u00e9m acho que\u2026 essa visibilidade do meu trabalho chegou num outro momento profissional que eu acho que foi importante. Porque \u00e9 um campo duro. Preserva\u00e7\u00e3o \u00e9 um campo de muita instabilidade, muito duro, ent\u00e3o esse momento de visibilidade com essas coordena\u00e7\u00f5es das restaura\u00e7\u00f5es chegou num momento que eu falei: \u201cpoxa, que beleza, poder fruir tamb\u00e9m da beleza que \u00e9 poder apresentar um filme em toda a sua potencialidade pra um novo p\u00fablico, falar com uma gera\u00e7\u00e3o mais nova interessada nos processos\u201d. Voc\u00ea poder oferecer isso \u00e9 muito emocionante. \u201cVento Norte\u201d foi super emocionante. O cr\u00edtico, o [Luiz Carlos] Merten me deu um abra\u00e7o l\u00e1 em Ouro Preto e falou: \u201cnossa, ouvi falar nesse filme a minha vida inteira, vi numa c\u00f3pia horr\u00edvel em VHS, sou ga\u00facho, estou muito emocionado de conseguir ter visto no cinema\u201d. Isso \u00e9 uma dimens\u00e3o muito gratificante do trabalho. Ent\u00e3o eu acho que chegou nesse momento que eu estava preparada para receber, sabe? As coisas \u00e0s vezes vem no momento certo. A gente batalha, batalha e chega no momento certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou sobre difus\u00e3o e sobre um canal que foi muito importante pra mim, e certamente foi muito importante pra muita gente, que \u00e9 o Canal Brasil. Talvez o meu primeiro contato com uma ideia mais geral do que seja a preserva\u00e7\u00e3o no Brasil tenha sido assistindo aos filmes no Canal Brasil, possivelmente telecinados. Conheci filmes dos anos 1970 e 1980 ali na programa\u00e7\u00e3o, e queria te perguntar qual a import\u00e2ncia e qual a limita\u00e7\u00e3o desse trabalho. E voltando um pouco da minha primeira pergunta sobre curadoria. O que escolher primeiro? Um cl\u00e1ssico, um filme obscuro que vai ser reencontrado, um filme que estava perdido e que agora \u00e9 poss\u00edvel restaurar? Voc\u00ea falou de todos esses exemplos nos quais voc\u00ea trabalhou ao longo da sua carreira, mas queria entender isso: a preserva\u00e7\u00e3o, pensando no panorama brasileiro hoje, precisa estar em todas as frentes? Ou, em quantas a gente pode estar? At\u00e9 porque n\u00f3s, espectadores, pesquisadores do cinema brasileiro n\u00e3o podemos nos dar ao luxo de assistir somente a filmes que estejam bonitinhos, restaurados, com a cor perfeita. Eu assisto a c\u00f3pias em VHS\u2026 eu, Francisco, voc\u00ea, a gente est\u00e1 sempre em contato com esse tipo de obra porque a gente n\u00e3o pode se limitar. Estou jogando um n\u00famero completamente abstrato aqui, mas possivelmente 90% dos filmes que a gente tem a gente vai encontrar num pobre estado de conserva\u00e7\u00e3o. Ou pelo menos a c\u00f3pia que est\u00e1 acess\u00edvel pra gente est\u00e1 numa qualidade muito inferior ao que ela poderia ser. Diante disso tudo, queria saber at\u00e9 que ponto esse trabalho do Canal Brasil chegou at\u00e9 voc\u00ea e qual foi a import\u00e2ncia para a sua forma\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nEu achei \u00f3timo voc\u00ea falar que a gente tem que estar em todas essas frentes. A gente n\u00e3o pode se dar ao luxo de s\u00f3 contar com cl\u00e1ssico ou s\u00f3 ir por um vi\u00e9s dos filmes mais raros e obscuros. Eu acho que o trabalho de difus\u00e3o na televis\u00e3o \u00e9 super importante. O Canal Brasil foi uma pe\u00e7a fundamental nesse sentido. A gente est\u00e1 falando do final dos anos 1990, o Canal Brasil foi lan\u00e7ado, se eu n\u00e3o me engano, em 1998, ent\u00e3o a gente est\u00e1 falando de um outro momento. Eu lembro que\u2026 eu estava na gradua\u00e7\u00e3o e teve uma corrida para telecinar muitas obras que n\u00e3o estavam dispon\u00edveis em vers\u00f5es de v\u00eddeo, para poderem ser veiculadas no canal, e isso foi feito da maneira que foi poss\u00edvel na \u00e9poca. Eu j\u00e1 estive em uma mesa com o pessoal do Canal Brasil e eles falaram que muita coisa teve que ser refeita, porque a tecnologia da televis\u00e3o tamb\u00e9m mudou. E muitas vezes essas vers\u00f5es o cineasta n\u00e3o tem, s\u00f3 o canal Brasil, e eles entram em contato com o Canal Brasil: \u201cp\u00f4, voc\u00ea tem a\u00ed a vers\u00e3o em v\u00eddeo ou digital do meu filme?\u201d Cineasta, essa figura apaixonante. T\u00f4 brincando, mas t\u00f4 falando s\u00e9rio, \u00e9 sim, s\u00e3o figuras complexas. Eu acho muito importante que seja veiculado na televis\u00e3o, e o Canal Brasil \u00e9 importante porque foca no cinema brasileiro, e foi poss\u00edvel que muita gente assistisse muita coisa por conta da iniciativa do Canal Brasil. E o que eu acho \u00e9, se voc\u00ea pensar numa dimens\u00e3o mais ampla, pensando hoje em plataformas de streaming, a gente tem visto um aumento tamb\u00e9m de filmes brasileiros. E outra quest\u00e3o que voc\u00ea falou muito bem: a gente consegue chegar em alguns resultados excelentes e outras vezes n\u00e3o. Outras vezes o resultado vai ter limita\u00e7\u00f5es. Primeiro em termos de custo, tem projetos com custos e perspectivas diferentes. Na Sess\u00e3o Vitrine, o objetivo \u00e9 voltar para um circuito comercial de sala de cinema. Tem outros projetos que s\u00e3o exibir uma obra num festival, numa c\u00f3pia melhor. Cito aqui o \u201cIa\u00f4\u201d, do Geraldo Sarno, que tamb\u00e9m circulava\u2026 que \u00e9 um filme, assim, uma obra-prima, eu acho, e que circulava numa c\u00f3pia p\u00e9ssima, horr\u00edvel, e que teve\u2026 por conta da iniciativa da retrospectiva do Geraldo Sarno, a gente conseguiu fazer uma nova vers\u00e3o digital. Eu nem consigo falar restauro. Uma nova vers\u00e3o digital, o que tamb\u00e9m \u00e9 delicado sempre, quando eu falo isso\u2026 o que \u00e9 ent\u00e3o digitaliza\u00e7\u00e3o? O que \u00e9 restaura\u00e7\u00e3o? Enfim, tem nuances e tem diferen\u00e7as em termos de interven\u00e7\u00e3o, o que a gente consegue ir mais longe, de forma mais aprofundada e o que a gente n\u00e3o consegue. Mas voltando ao Canal Brasil, voc\u00ea poder ter acesso \u00e0s obras\u2026 eu sempre busquei, eu tenho uma chatice, que \u00e9 ver as obras no cinema. Eu era aquela estudante de gradua\u00e7\u00e3o que ficava l\u00e1 no CCBB, enfim, depois que o Odeon, durante um curto per\u00edodo, foi um cinema de repert\u00f3rio, n\u00e3o sei se voc\u00eas lembram, ele exibia obras tamb\u00e9m de patrim\u00f4nio. Ent\u00e3o eu acho que tem um dispositivo ideal para essa frui\u00e7\u00e3o que \u00e9 a sala de cinema. Mas, claro, muitas vezes, grande parte das vezes n\u00e3o foi poss\u00edvel, ent\u00e3o o Canal Brasil, sim, foi super importante para ter contato com essas obras. E muitas vezes eu acho que \u00e9 uma porta que se abre. \u00c9 que nem YouTube, assim, muitas vezes eu falo: \u201cmas qual vers\u00e3o que voc\u00ea assistiu no YouTube?\u201d O YouTube \u00e9 uma mix\u00f3rdia, ele tem muita coisa, mas o que voc\u00ea est\u00e1 assistindo de fato? Se voc\u00ea pegar um determinado t\u00edtulo mais popular, voc\u00ea vai ter muitas vers\u00f5es, mas eu tamb\u00e9m tinha uma vis\u00e3o muito mais rigorosa em rela\u00e7\u00e3o a ver coisas nesses tipos de plataforma, compartilhadas muitas vezes por usu\u00e1rios etc., mas \u00e9 uma porta que se abre, \u00e9 uma porta que se abre para voc\u00ea inclusive poder se aprofundar nessa cinematografia, voc\u00ea poder querer conhecer mais. Ent\u00e3o eu acho que o Canal Brasil tamb\u00e9m tem feito esse trabalho importante de digitalizar essas obras, para que elas estejam dispon\u00edveis na TV. Aconteceu um fato muito curioso, n\u00e3o sei se voc\u00eas lembram, se viram essa hist\u00f3ria do \u201cSonho de Ver\u00e3o\u201d que o canal Brasil digitalizou e n\u00e3o tinha tempo nem or\u00e7amento de conseguir fazer um trabalho mais longo em rela\u00e7\u00e3o ao filme, em termos de marca\u00e7\u00e3o de luz etc., corre\u00e7\u00e3o de cor. \u00c9 um exemplo que eu gosto de dar, porque eles compartilharam uma imagem\u2026 que \u00e9 isso, tem que ter um cuidado para voc\u00ea falar: \u201colha, essa aqui \u00e9 uma imagem sem marca\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma imagem do filme digitalizado\u201d. E os f\u00e3s falaram: \u201cnossa, virou sonhos de inverno\u201d. E a\u00ed o canal acabou custeando a marca\u00e7\u00e3o de luz. At\u00e9 conseguiu fazer um processo mais aprofundado. Eu achei muito interessante. A gente sabe das limita\u00e7\u00f5es em termos de or\u00e7amento. Eu n\u00e3o estou aqui falando que o Canal Brasil trabalha nessa chave, n\u00e3o \u00e9 isso, mas a gente sabe que muitas vezes tem tempo e recursos escassos. A gente tem que trabalhar dentro dessas janelas. E eu achei curioso o p\u00fablico se mobilizar e fazer com que o filme conseguisse ter um trabalho mais longo em termos de marca\u00e7\u00e3o de luz etc., que muitas vezes \u00e9 o trabalho que demanda mais tempo e mais acuidade nesse processo final. A gente precisa, para dar conta desse patrim\u00f4nio audiovisual brasileiro que \u00e9 imenso, a gente est\u00e1 falando de um pa\u00eds de dimens\u00e3o continental, e tamb\u00e9m falando de um patrim\u00f4nio gigantesco, o cinema n\u00e3o se faz s\u00f3 de cl\u00e1ssico e c\u00e2none, a cinematografia brasileira \u00e9 complexa, diversa, m\u00faltipla e riqu\u00edssima. Ent\u00e3o, para dar conta disso, todas essas iniciativas s\u00e3o importantes. Eu acho muito importante que seja exibido na televis\u00e3o para as pessoas terem contato. Muita gente viu \u201cA Hora da Estrela\u201d agora no streaming. Eu acho importante essa janela de cinema, essencial para voc\u00ea conseguir fruir o filme da maneira como ele foi pensado. Porque a gente est\u00e1 falando de uma obra de arte, sem querer elevar o estatuto do cinema. Essa arte que tem essa dupla dimens\u00e3o, de arte, produto, enfim, essa loucura, mas eu acho que a gente est\u00e1 falando de uma dimens\u00e3o para a qual ela foi pensada, que \u00e9 importante. Mas tamb\u00e9m tem essa possibilidade de voc\u00ea voltar a essas obras no outro contexto, ent\u00e3o acho que o trabalho do Canal Brasil \u00e9 super importante. E tenho visto com bons olhos tamb\u00e9m, de um certo ponto de vista, tamb\u00e9m voltar aos streamings, que as pessoas conseguem ter contato, poder falar: \u201cnossa, o cinema brasileiro no streaming\u2026 ah, n\u00e3o tava porque n\u00e3o tinha qualidade\u201d. Eu j\u00e1 ouvi isso: \u201cah, n\u00e3o tem muito filme brasileiro porque n\u00e3o tem qualidade\u201d. Como se o filme tivesse que se adequar \u00e0 qualidade do streaming, n\u00e9? Isso diz muito da nossa realidade tamb\u00e9m. Tem o \u201cIracema &#8211; Uma Transa Amaz\u00f4nica\u201d, do [Jorge] Bodansky e do Orlando Senna tamb\u00e9m dispon\u00edvel, e isso \u00e9 muito importante pra voc\u00ea criar esse repert\u00f3rio. Porque as pessoas ouvem falar muitas vezes e se deparam com uma c\u00f3pia\u2026 que \u00e9 super importante, mas com uma qualidade muito ruim, mas uma porta se abre e \u00e9 muito bom que esses filmes estejam dispon\u00edveis nas suas melhores vers\u00f5es. Esse trabalho e essa conjuga\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, eu falei do tamanho do Brasil, nenhuma institui\u00e7\u00e3o, nem as dezenas de institui\u00e7\u00f5es que existem no Brasil, com n\u00edveis de maturidade diferentes, v\u00e3o dar conta de tudo isso. Porque a gente nem entrou na produ\u00e7\u00e3o audiovisual contempor\u00e2nea digital, que a\u00ed a gente faz um outro programa pra falar disso, que a\u00ed a gente est\u00e1 falando de algo muito, muito complexo, muitas obras muito importantes est\u00e3o fora dos radares institucionais, porque n\u00e3o foram pedidos com recursos p\u00fablicos, e a\u00ed tem que ter um trabalho ativo mesmo de preserva\u00e7\u00e3o dessas obras, dos pr\u00f3prios cineastas terem essa dimens\u00e3o. Acho que est\u00e1 mais do que na hora da gente mudar essa mentalidade, de preserva\u00e7\u00e3o: \u201cvamos pensar depois, depois eu penso nisso, n\u00e3o vou comprar HD, n\u00e3o vou botar no meu projeto\u201d. Come\u00e7ar a incorporar essa dimens\u00e3o, porque a\u00ed na seara digital as perdas v\u00e3o ser muito maiores e muito mais profundas. A gente est\u00e1 falando aqui de filmes com 50, 70 anos que a gente consegue assistir porque os materiais, cada um com sua particularidade, foram preservados. Quando a gente fala da dimens\u00e3o digital, o que vai ser se um HD dura de 5 a 7 anos? Quando a gente, enfim\u2026 pensar, j\u00e1 foi. Acho que h\u00e1 uma necessidade de uma conjuga\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pra que o patrim\u00f4nio audiovisual brasileiro, riqu\u00edssimo, amplo e assim\u2026 que esse patrim\u00f4nio chegue \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es da melhor maneira poss\u00edvel. \u00c9 super importante que todos esses agentes envolvidos, todos os agentes de difus\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o incorporem a dimens\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o. Eu acho que isso vem mudando, n\u00e3o sei se essa \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de voc\u00eas. Eu acho que \u00e9 um trabalho que a gente vem fazendo h\u00e1 muitos anos, em termos de mudan\u00e7a de mentalidade, de conscientiza\u00e7\u00e3o que eu acho que vem dando resultado. E essas restaura\u00e7\u00f5es contribuem muito para isso, falam: \u201cnossa, o cinema brasileiro tinha qualidade!\u201d Tinha, com certeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea, l\u00e1 em Ouro Preto, falou que j\u00e1 estava trabalhando em alguma coisa. O que vem por a\u00ed no futuro?<\/strong><br \/>\nAh, vem a\u00ed dois curtas &#8211; acho importante, a gente nem falou de curtas tamb\u00e9m &#8211; da obra do Olney S\u00e3o Paulo, que \u00e9 um cineasta super importante. Atrav\u00e9s desses editais locais, falar da import\u00e2ncia desses editais tamb\u00e9m. Vem coisa boa a\u00ed do Olney S\u00e3o Paulo e coisa boa tamb\u00e9m do Sul. O trabalho, o esfor\u00e7o que a Cinem\u00e1tica Capit\u00f3lio vem fazendo para conseguir restaurar essas obras. E tamb\u00e9m a Sess\u00e3o Vitrine Petrobr\u00e1s, que est\u00e1 encerrando essa edi\u00e7\u00e3o. Espero que a gente continue, e com certeza os filmes de patrim\u00f4nio acabaram sendo o que chamou bastante a aten\u00e7\u00e3o nessa edi\u00e7\u00e3o. Fiquei muito feliz. Espero e tor\u00e7o para que a gente continue trabalhando nessa linha e que, enfim, tanto em festivais e no circuito de salas de cinema essas obras possam retornar e serem vistas por uma nova gera\u00e7\u00e3o, ou revistas por uma gera\u00e7\u00e3o de espectadores que gostam, que vai aprender a gostar de cinema brasileiro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97217 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/xica1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1102\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/xica1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/xica1-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw2y1ecqCW_KBoFqtTKVBQEK\">@leandro_luz<\/a>) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a \u00e1rea de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programa\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de cr\u00edtica no\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/screamyell.com.br\/site\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw263alYeTRQy1GYVR0TXsQG\">Scream &amp; Yell<\/a>\u00a0e nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw1BTqnliQ9DvtqDHkpafqt5\">Tudo \u00c9 Brasil<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3TjpLW5o8SaVAAdNU3jD2Z\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3DtKMpqv1bp5QVCI6MvWbM\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fascinante em suas contradi\u00e7\u00f5es, \u201cXica da Silva\u201d \u00e9 um filme que segue vivo, muito pela sua for\u00e7a visual e, principalmente, pelos dois processos de restauro pelos quais ele passou ao longo dos anos\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/08\/28\/cinema-curadoria-e-restauro-debora-butruce-fala-sobre-o-relancamento-de-xica-da-silva\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":97233,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4,4833],"tags":[8350],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97216"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97216"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97216\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97235,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97216\/revisions\/97235"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97233"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97216"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97216"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97216"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}