{"id":97112,"date":"2026-08-23T23:50:52","date_gmt":"2026-08-24T02:50:52","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97112"},"modified":"2026-08-23T23:50:52","modified_gmt":"2026-08-24T02:50:52","slug":"esse-voce-precisa-ver-dor-e-gloria-de-pedro-almodovar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/08\/23\/esse-voce-precisa-ver-dor-e-gloria-de-pedro-almodovar\/","title":{"rendered":"Esse voc\u00ea precisa ver: &#8220;Dor e Gl\u00f3ria&#8221;, de Pedro Almod\u00f3var"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/joao.paulo.barreto.824529\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reminisc\u00eancias e mergulhos concretos no passado. Momentos de reflex\u00e3o oriundos da busca por um acalmar da dor f\u00edsica e mental, e o seu consequente encontro com a gl\u00f3ria de uma vida passada a limpo. Um homem em busca de uma reden\u00e7\u00e3o intima. De um perd\u00e3o a ser-lhe concedido por si mesmo pelos erros cometidos em sua trajet\u00f3ria. \u00c9 no encontrar-se com as dores da velhice, com a fragilidade evidente de seu corpo, mas, tamb\u00e9m, com a for\u00e7a que ainda parece possuir em sua mente, que este homem alcan\u00e7a tal reden\u00e7\u00e3o. \u00c9 disso que \u00e9 feito \u201cDor e Gl\u00f3ria\u201d (\u201cDolor y Gloria\u201d, 2019), filme com o cineasta espanhol <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=almodovar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pedro Almod\u00f3var<\/a> encerrou os anos 2010. De um constatar preciso das pr\u00f3prias fraquezas e uma tentativa n\u00e3o somente de conviver com elas, mas uma busca pelo equil\u00edbrio que ainda pode existir naquele caminhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua cena de abertura, seu protagonista, Salvador Mallo (Banderas, excelente), um cineasta consagrado que se reencontra com uma de suas obras trinta anos depois de seu lan\u00e7amento, est\u00e1 em uma piscina, silenciosa e calma. Na cicatriz em sua coluna vertebral, nota-se uma hist\u00f3ria de batalhas, sendo a mais recente, pela sua sa\u00fade. Atrav\u00e9s de seu pr\u00f3prio nome, uma pista da abordagem de Almod\u00f3var perante aquele personagem aparentemente autobiogr\u00e1fico. \u00c9 justamente a si mesmo que o homem busca salvar. Em suas lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia, quando dividia uma catacumba como lar junto a sua m\u00e3e e pai, e quando a acompanhava na cantoria do lavar dos len\u00e7\u00f3is em um lago, Salvador vai encontrando aquele conforto fugaz. T\u00e3o fugaz quanto o conforto que pensa encontrar na hero\u00edna, droga que alivia suas constantes dores nas costas, mas n\u00e3o colabora com sua apreens\u00e3o mental.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97115\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/dor3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/dor3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/dor3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele desenhar calmo do homem em seu momento de introspec\u00e7\u00e3o mergulhado no sil\u00eancio da piscina define exatamente o modo como Salvador busca, quase que em v\u00e3o, viver. Quase, pois, \u00e0 medida que seu mergulhar com as dores do passado se descortina, mais fundo ele parece estagnar. Sua vida presente denota uma trajet\u00f3ria de solid\u00e3o, algo que o texto de Almod\u00f3var constr\u00f3i de forma precisa. \u201cMoro com meus quadros. S\u00e3o eles quem me fazem companhia\u201d, explica Salvador. Um modo ermit\u00e3o de viver que se percebe como consequ\u00eancia de suas dores. Paulatinamente, o homem segue em um reencontro com sua juventude. Algo que parece lhe trazer certo conforto. Na n\u00e3o supera\u00e7\u00e3o da perda de sua m\u00e3e, um sinal da raz\u00e3o para se prender \u00e0queles dias antigos, quando um talento para o canto o levara a fazer parte de um semin\u00e1rio, \u00fanica op\u00e7\u00e3o para se estudar sendo ele oriundo de uma fam\u00edlia pobre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste momento, Almod\u00f3var n\u00e3o deixa de se valer da observa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da educa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, quando coloca o pequeno Salvador negando qualquer voca\u00e7\u00e3o para a batina, ou quando sua vers\u00e3o adulta explica a omiss\u00e3o do col\u00e9gio em, por conta do seu talento musical, aprov\u00e1-lo nas mat\u00e9rias b\u00e1sicas sem que ele apresentasse resultados. Os flashbacks de Salvador, ainda crian\u00e7a, ali\u00e1s, cria uma bela analogia ao despertar, mesmo que fugaz, de sua sexualidade, quando desmaia por conta de uma vis\u00e3o atrelada a um sinal de insola\u00e7\u00e3o. Na sua vers\u00e3o adulta e repleta de feridas que sua fr\u00e1gil sa\u00fade lhe trouxe, um brincar com o ate\u00edsmo e f\u00e9 diante do modo como as adversidades se apresentam. \u201cNos dias em que mais sofro, rezo a Deus. Nos que a dor \u00e9 menor, sou ateu\u201d. \u00c9 quando o diretor espanhol mais precisamente define o desespero de Salvador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa liga\u00e7\u00e3o com a sua inf\u00e2ncia, inclusive, \u00e9 percept\u00edvel e precioso o modo como Almod\u00f3var constr\u00f3i a rela\u00e7\u00e3o de seu protagonista com aquela fase de sua vida. Aqui, em sua not\u00f3ria paleta de cores, quando o vermelho se sobressai, \u00e9 para justamente separar uma fase em que Salvador est\u00e1 ainda mais abalado. E o contrastar dessa paleta \u00e0s estampas que usa nos flashbacks com sua m\u00e3e j\u00e1 idosa (vivida pela veterana Julieta Serrano, em um belo reencontro com Banderas) ou quando recebe um amigo de sua juventude em um momento que lhe injeta um \u00e2nimo preciso, d\u00e1 ao espectador a dimens\u00e3o de como a liga\u00e7\u00e3o com o passado \u00e9 pungente para Salvador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos poucos, ele se desliga daquela fase. E em suas roupas que o levam exatamente ao per\u00edodo de sua inf\u00e2ncia, um reflexo dessa liga\u00e7\u00e3o. Quando j\u00e1 n\u00e3o tem mais nada a que se segurar e o encarar doloroso de sua atual condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade f\u00edsica e mental lhe oprime, o modo como Salvador se apresenta \u00e9 no pesado vermelho a revelar n\u00e3o uma paix\u00e3o por qualquer coisa, uma das marcas do diretor, mas um desespero opressor. Um sufocar cont\u00ednuo do homem diante dos dias que v\u00e3o se prolongando \u00e0 sua frente. E isso \u00e9 algo que Almod\u00f3var inverte de modo perspicaz nesse encarar intimista de uma trajet\u00f3ria de vida.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dor e Gl\u00f3ria Filme de Pedro Almod\u00f3var\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OGWAbxDJvH8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No uso do cinema como modo de reconstru\u00e7\u00e3o de suas mem\u00f3rias, Pedro Almod\u00f3var, apesar de n\u00e3o trazer aqui uma assumida autobiografia, coloca, assim, mesmo, sua labuta como forma de salva\u00e7\u00e3o. Fazer filmes, criar hist\u00f3rias, registrar trajet\u00f3rias, \u00e9 o que o leva para frente. Em \u201cDor e Gl\u00f3ria\u201d, uma oportunidade, tamb\u00e9m, para o realizador brincar com a pretens\u00e3o autoral dentro dessa mesma labuta, quando, em um bate papo p\u00f3s exibi\u00e7\u00e3o de seu filme mais marcante, insere um momento hil\u00e1rio em torno da aus\u00eancia do pr\u00f3prio diretor no debate ap\u00f3s a sess\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 justamente no cinema que Almod\u00f3var se apoia e coloca seu alter ego na figura de Banderas como algu\u00e9m que, da mesma forma como ele, utiliza a s\u00e9tima arte como forma de salva\u00e7\u00e3o. E o brilhante momento em que a \u00faltima cena revela a origem das lembran\u00e7as de Salvador, \u00e9 quando percebemos como a cria\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica foi capaz de retirar aquele homem daquela espiral. Mas, isso, claro, at\u00e9 a pr\u00f3xima batalha surgir. No entanto, para tanto, haver\u00e1 sempre a possibilidade de exorcizar-se atrav\u00e9s dos filmes.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97113 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/dor1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1064\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/dor1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/dor1-211x300.jpg 211w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/13\/cinema-dor-e-gloria-pedro-almodovar\/\">\u201cDor e Gl\u00f3ria\u201d \u00e9 um filme t\u00e3o sincero, t\u00e3o verdadeiro&#8230;<\/a>, texto de Renan Guerr<\/em>a<\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em &#8220;Dor e Gl\u00f3ria&#8221;, diretor espanhol acerta ao abordar o cinema como meio de cura dos tormentos f\u00edsicos e mentais\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/08\/23\/esse-voce-precisa-ver-dor-e-gloria-de-pedro-almodovar\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":97114,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[57,4751],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97112"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97112"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97112\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97116,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97112\/revisions\/97116"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97114"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}