{"id":96927,"date":"2026-08-03T23:11:45","date_gmt":"2026-08-04T02:11:45","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=96927"},"modified":"2026-08-04T00:23:49","modified_gmt":"2026-08-04T03:23:49","slug":"tres-perguntas-kellven-praieiro-e-sua-arte-como-trincheira-de-resistencia-pataxo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/08\/03\/tres-perguntas-kellven-praieiro-e-sua-arte-como-trincheira-de-resistencia-pataxo\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas perguntas: Kellven Praieiro e sua arte como trincheira de resist\u00eancia patax\u00f3"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/bsky.app\/profile\/villon.bsky.social\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Elsa Villon<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">2026 est\u00e1 sendo um ano prol\u00edfico para o artes\u00e3o do som <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/kellven_praiano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Kellven Praiano<\/a>, que reuniu suas refer\u00eancias de mundo &#8211; como ind\u00edgena patax\u00f3 e como jovem conectado \u00e0s tecnologias &#8211; e lan\u00e7ou, primeiramente em abril, seu \u00e1lbum de estreia, \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/1fIWsxXGdx1NeBHp6Bj03y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">SAL PRESO<\/a>\u201d, e, em junho, o EP \u201c<a href=\"https:\/\/kellvenpraiano.bandcamp.com\/album\/dibaik-pabaik\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">DIBAIK\u00c1PABAIK\u00c1<\/a>\u201d. \u201cEu havia acabado de sair de uma interna\u00e7\u00e3o e escrevi grande parte de \u2018SAL PRESO\u2019 no isolamento, entre as grades da cl\u00ednica, dividindo espa\u00e7o com outros dissidentes e esquizos\u201d, conta Kellven.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo rapper, \u201cSAL PRESO\u201d combina o \u201crap candango e baiano\u201d tanto quanto \u201cos cantos tradicionais que me cercam desde a inf\u00e2ncia: os marujos Patax\u00f3, a esmola de S\u00e3o Benedito e o aw\u00ea do meu povo\u201d. J\u00e1 o EP \u201cDIBAIK\u00c1PABAIK\u00c1\u201d, de quatro faixas, nasceu da experimenta\u00e7\u00e3o de um home studio simples: \u201cPassei a testar m\u00e9tricas, cantos e flows sem amarras mercadol\u00f3gicas\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com dois lan\u00e7amentos no primeiro semestre de 2026, Kellven Praiano tem ainda mais o que falar: em parceria com o selo <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mimawai\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mi Mawai<\/a>, o rapper pretende lan\u00e7ar a mixtape \u201cPINDORAMATRINCHEIRA\u201d, que traz a faica \u201cPRATIB\u00da, inspirada na pesca de seu av\u00f4 e tio, n\u00e3o apenas como subsist\u00eancia, mas tamb\u00e9m como forma de arte. Confira abaixo tr\u00eas perguntas para conhecer Kellven Praieiro, suas refer\u00eancias e inspira\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96928 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/kellven3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/kellven3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/kellven3-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/kellven3-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais foram as inspira\u00e7\u00f5es para o seu disco e para os seus recentes lan\u00e7amentos?<\/strong><br \/>\nMeu processo de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 indissoci\u00e1vel dos tr\u00e2nsitos e das fraturas da minha pr\u00f3pria vida. O \u00e1lbum \u201cSAL PRESO\u201d, lan\u00e7ado em abril deste ano, foi gerado em um momento de extrema delicadeza ps\u00edquica. Eu havia acabado de sair de uma interna\u00e7\u00e3o e escrevi grande parte dele no isolamento, entre as grades da cl\u00ednica, dividindo espa\u00e7o com outros dissidentes e esquizos. Esse tr\u00e2nsito for\u00e7ado entre o asfalto urbano de Bras\u00edlia e Salvador e o retorno \u00e0 calmaria da Ponta do Corumbau me fez absorver tanto o rap candango e baiano quanto os cantos tradicionais que me cercam desde a inf\u00e2ncia: os marujos Patax\u00f3, a esmola de S\u00e3o Benedito e o aw\u00ea do meu povo. \u201cSAL PRESO\u201d foi gravado aqui no territ\u00f3rio atrav\u00e9s do est\u00fadio remoto da Sala da Toscaria, selo do meu parceiro Lenis Rino, e contou com beats de Nabuco (Aka nabs) e Denis Duarte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo ap\u00f3s esse lan\u00e7amento, senti a necessidade de experimentar de forma totalmente livre e visceral, no celular e com instrumentais pr\u00f3prios. Foi quando montei um home studio simples na casa do meu av\u00f4 e passei a testar m\u00e9tricas, cantos e flows sem amarras mercadol\u00f3gicas. Desse laborat\u00f3rio, nasceu o EP \u201cDIBAIK\u00c1PABAIK\u00c1\u201d (junho de 2026), cujo t\u00edtulo significa &#8220;de doido pra doido&#8221; e que est\u00e1 dispon\u00edvel no Bandcamp. Ele funciona como o elo, a ponte exata entre o desabafo do primeiro disco e a maturidade da minha pr\u00f3xima mixtape (ainda in\u00e9dita) de 14 faixas, a \u201cPINDORAMATRINCHEIRA\u201d. \u00c9 desse ambiente cotidiano, ouvindo os causos de pescador do meu av\u00f4 Milton e do meu tio Honorato, que surgiu a faixa \u201cPRATIB\u00da\u201d (tamb\u00e9m in\u00e9dita). Gostei da sonoridade desse nome de peixe, que meu av\u00f4 aprendeu com meu bisav\u00f4 Domingos do Carmo, e fiz dele uma faixa-manifesto onde o mestre de cerim\u00f4nias (MC) \u00e9 o meu pr\u00f3prio av\u00f4, documentando oralmente a nossa hist\u00f3ria sobre uma base pesada de Boom Bap.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De que maneira a sua identidade ind\u00edgena \u00e9 inserida no seu trabalho art\u00edstico?<\/strong><br \/>\nO povo Patax\u00f3 \u00e9 um povo de primeiro contato. Lidamos com as engrenagens violentas da coloniza\u00e7\u00e3o h\u00e1 s\u00e9culos, desde o massacre do &#8216;<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/globo-reporter\/noticia\/2024\/04\/20\/a-indigena-que-sobreviveu-ao-massacre-conhecido-como-fogo-de-51.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fogo de 51<\/a>&#8216; (nota: ind\u00edgenas da aldeia de Barra Velha, localizada em Porto Seguro, na Bahia foram acusados de crimes que n\u00e3o cometeram e foram atacados pela pol\u00edcia local com tiros em 1951) at\u00e9 a dispers\u00e3o for\u00e7ada causada pela cria\u00e7\u00e3o do Parque Nacional do Monte Pascoal. Nossa l\u00edngua, o Patxoh\u00e3 (do tronco Macro-J\u00ea), foi violentamente silenciada no passado e hoje resiste de forma adormecida. Portanto, a minha identidade ind\u00edgena n\u00e3o entra na minha arte como uma tem\u00e1tica decorativa ou um adere\u00e7o ex\u00f3tico para o olhar do branco (idxihi); ela \u00e9 a pr\u00f3pria raiz da minha estrutura de pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me considero um &#8220;artes\u00e3o do som&#8221;. Da mesma forma que os guerreiros do meu territ\u00f3rio moldam o artesanato tradicional, eu utilizo as ferramentas tecnol\u00f3gicas e as influ\u00eancias externas que nos atravessam para esculpir minha poesia. Para mim, ir ao mar pescar um peixe e garantir a nossa subsist\u00eancia \u00e9 um ato t\u00e3o art\u00edstico e pol\u00edtico quanto construir o mais complexo dos instrumentais. Minha arte \u00e9 a linguagem que encontrei para costurar o abismo entre a viol\u00eancia do mundo urbano e a ancestralidade do territ\u00f3rio. Ela insere-se no trabalho ao recusar o estere\u00f3tipo do ind\u00edgena idealizado e est\u00e1tico, afirmando que estamos vivos, pulsando, lidando com nossas dores psicol\u00f3gicas contempor\u00e2neas e defendendo a soberania do nosso mar e da nossa terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que as pessoas precisam saber sobre Kellven Praiano como artista?<\/strong><br \/>\nEm primeiro lugar, as pessoas precisam compreender que eu n\u00e3o sou um artista isolado, operando no v\u00e1cuo. Fa\u00e7o parte de um movimento efervescente de parentes que est\u00e3o ocupando as cidades e os territ\u00f3rios, dominando novas ferramentas e linguagens para criar algo absolutamente singular e aut\u00f4nomo. N\u00e3o estamos parados no tempo. Eu trago em meu sangue e em minhas rimas a responsabilidade hist\u00f3rica de dar continuidade \u00e0 luta dos meus mais velhos. Sou neto de Milton Deocleciano e sobrinho de Honorato Poeta, homens que foram os pilares na batalha pela cria\u00e7\u00e3o da Reserva Extrativista Marinha de Corumbau, uma vit\u00f3ria que garantiu a soberania do nosso povo no mar. A luta deles tem o mesmo peso hist\u00f3rico da de Chico Mendes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como criador, eu me recuso a ser trancado em caixas ou r\u00f3tulos pr\u00e9-formatados pela ind\u00fastria. Estou em constante muta\u00e7\u00e3o, observando o comportamento dos ditos &#8220;normais&#8221; e traduzindo a minha pr\u00f3pria loucura (baik\u00e1) antes que ela me consuma. Tenho trabalhado internamente para que minha poesia deixe de ser sobre o &#8220;eu&#8221; e passe a ser sobre o &#8220;todo&#8221;, servindo como um eco de prote\u00e7\u00e3o ao nosso modo de vida. Sou respons\u00e1vel por cada frequ\u00eancia e cada palavra que coloco no mundo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96929 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/kellven2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/kellven2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/kellven2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/kellven2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/bsky.app\/profile\/villon.bsky.social\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Elsa Villon<\/a> \u00e9 jornalista de dados, especialista em M\u00eddia, Informa\u00e7\u00e3o e Cultura e colecionadora de vinis que est\u00e1 sempre no garimpo nas horas vagas.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Kellven combina o \u201crap candango e baiano\u201d tanto quanto \u201cos cantos tradicionais que me cercam desde a inf\u00e2ncia: os marujos Patax\u00f3, a esmola de S\u00e3o Benedito e o aw\u00ea do meu povo\u201d.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/08\/03\/tres-perguntas-kellven-praieiro-e-sua-arte-como-trincheira-de-resistencia-pataxo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":156,"featured_media":96930,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,3],"tags":[8326],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96927"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/156"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96927"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96927\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96932,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96927\/revisions\/96932"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96930"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}