{"id":96877,"date":"2026-07-30T10:57:27","date_gmt":"2026-07-30T13:57:27","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=96877"},"modified":"2026-07-30T10:57:27","modified_gmt":"2026-07-30T13:57:27","slug":"entrevista-gregorio-gananian-e-negro-leo-falam-sobre-o-filme-aquele-que-viu-o-abismo-que-chega-ao-circuito-comercial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/07\/30\/entrevista-gregorio-gananian-e-negro-leo-falam-sobre-o-filme-aquele-que-viu-o-abismo-que-chega-ao-circuito-comercial\/","title":{"rendered":"Entrevista: Gregorio Gananian e Negro Leo falam sobre o filme &#8220;Aquele Que Viu o Abismo&#8221;, que chega ao circuito comercial"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSound and vision!\u201d. As tr\u00eas palavras que fecham <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/29\/27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-noir-futurista-fatalista-aquele-que-viu-o-abismo-ganha-o-trofeu-carlos-reichenbach\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o meu texto sobre o filme<\/a> de Gregorio Gananian e Negro Leo, escrito ainda sob o calor de sua premi\u00e8re mundial em janeiro de 2024, durante a Mostra de Cinema de Tiradentes, continuam apropriadas para descrever a experi\u00eancia com \u201cAquele Que Viu o Abismo\u201d. Agora que a obra chega ao circuito comercial &#8211; estreia nesta quinta-feira, 30 de julho, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/Da5cIjnllJY\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com distribui\u00e7\u00e3o da Emba\u00faba Filmes<\/a> -, Negro Leo aconselha: \u201cele [o filme] tem que ser visto alto\u201d. E, de prefer\u00eancia, na maior tela que voc\u00ea puder encontrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vencedor do Trof\u00e9u Carlos Reichenbach em Tiradentes, \u201cAquele Que Viu o Abismo\u201d \u00e9 uma mistura de noir com thriller pol\u00edtico, \u00e9 Godard e Humphrey Bogart ocupando o mesmo frame, \u00e9 Sganzerla embebido de notas sobre Gilgam\u00e9s. Uma viagem labir\u00edntica pelos abismos da alma de X, personagem interpretado por Negro Leo que viaja e sofre e chora e se desespera sem sair do lugar, preso em sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a-enigma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parceria entre Gregorio Gananian e Negro Leo remonta ao in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, j\u00e1 tendo colaborado diversas vezes, seja em shows, curtas-metragens ou videoclipes. Dirigiram juntos \u201cNenhuma Fantasia\u201d, em 2021, experimento importante que ensinou boas li\u00e7\u00f5es aos cineastas, sobretudo a respeito do trabalho minucioso, quase artesanal com a montagem e com a edi\u00e7\u00e3o de som. Antes, ainda, Leo havia feito uma apari\u00e7\u00e3o marcante em \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/06\/08\/entrevista-gregorio-gananian-fala-sobre-o-filme-inaudito\/\">Inaudito<\/a>\u201d (2017), primeiro longa de Gananian, co-dirigido com Danielly O.M.M., numa intera\u00e7\u00e3o m\u00e1gica com Lanny Gordin enquanto ambos descem (cantarolando) as escadas que tamb\u00e9m desceram Adoniran Barbosa e Elis Regina, na Vila Itoror\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Empolgados pela signific\u00e2ncia de se conseguir emplacar uma estreia no circuito comercial, com as condi\u00e7\u00f5es ideias garantidas para que o filme seja visto como se deve, na tela grande e em alto e bom som, os diretores conversaram com o Scream &amp; Yell a respeito das ideias que nortearam a cria\u00e7\u00e3o de \u201cAquele Que Viu o Abismo\u201d e as colabora\u00e7\u00f5es art\u00edsticas com figuras como Ava Rocha, Jo\u00e3o Dumans, Danielly O.M.M. Kaufmann, Clara Choveaux, Henri Daio, Diogo Terra, entre outros.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Aquele que viu o abismo | Trailer oficial | 30 de julho nos cinemas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jzRkKlH8uQ4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas fizeram uma pr\u00e9-estreia em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/strong><br \/>\nGregorio Gananian: Foi, foi legal demais, cara. Depois, no final da pr\u00e9-estreia, rolou um debate muito louco, parecia um circo (risos). Foi sensacional. A galera trocando ideia, discutindo animado, todo mundo empolgado, mil ideias. At\u00e9 cambalhota rolou (risos)&#8230; \u00e9 o Vaudeville.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Tinha um amigo meu de inf\u00e2ncia l\u00e1, bicho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Qual \u00e9 o nome dele?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Bruno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Ah, o Bruno eu n\u00e3o conheci.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Foi muito maneiro ontem, muito maneiro. Mas vamos a\u00ed, ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Voc\u00eas j\u00e1 viram o filme \u201cParade\u201d\u2026 [tentando achar a pron\u00fancia] \u201cParade\u201d\u2026 \u201cParade\u201d (1974)\u2026 do Jacques Tati? \u00c9 um filme meio desconhecido, que ele fez pra televis\u00e3o. Que no meio do neg\u00f3cio chega um cara, solta fogos de artif\u00edcio, outra pessoa sai com guarda-chuva, passa no meio um cara com um trompete. \u00c9 o \u00faltimo filme dele, que ele fez pra televis\u00e3o. Parecia uma parada, parecia um happening dos anos 1920, ontem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Eu fiquei com uma vontade muito grande de filmar essas loucuras, esses debates, essas situa\u00e7\u00f5es. Algu\u00e9m filmou alguma coisa? Pra depois a gente montar um material?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Eu acho que sim, Leo. Voc\u00ea falou isso: \u00e9 aquele que viu o abismo, literalmente, cara. \u00c9 s\u00f3 o contraplano do filme, \u00e9 s\u00f3 contraplano, cara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu estava na sess\u00e3o do filme <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=tiradentes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">l\u00e1 em Tiradentes<\/a> e tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/29\/27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-noir-futurista-fatalista-aquele-que-viu-o-abismo-ganha-o-trofeu-carlos-reichenbach\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no dia da premia\u00e7\u00e3o<\/a>. E foi engra\u00e7ado, porque voc\u00eas estavam na fileira atr\u00e1s da minha e eu me lembro como voc\u00eas ficaram t\u00e3o felizes com o pr\u00eamio, foi t\u00e3o bonito. Estavam voc\u00eas, a Ava, a Uma. Enfim, bonito o filme estrear agora. Demorou um pouquinho, mas chegou.<\/strong><br \/>\nNegro Leo: Porra, nem me fala, bicho. Porque, eu vou te falar, o filme feito sem grana\u2026 sem grana que eu digo, com muito amor, mas com o investimento da gente, das coisas que a gente podia investir. O Greg pegou um pr\u00eamio que ele tinha ganhado com o \u201cInaudito\u201d pra fazer todas as sess\u00f5es de laser em casa, de est\u00fadio. Quer dizer, foi um neg\u00f3cio feito assim: todo mundo\u2026 me d\u00e1 a m\u00e3o que eu te dou a m\u00e3o e vamos embora, entendeu? E a\u00ed voc\u00ea v\u00ea esse tro\u00e7o, essa\u2026 \u00e9 muita vontade pra fazer um filme. O Greg que o diga, que j\u00e1 t\u00e1 no terceiro longa metragem dele, \u201cO Inspector Geral\u201d. \u00c9 muita vontade, porque \u00e9 um neg\u00f3cio trabalhoso demais. E quando voc\u00ea tem a oportunidade de distribuir, de estrear o filme, assim em salas de cinema no Brasil, fora do circuito de festival, realmente d\u00e1 um orgulho muito grande. Ontem eu quase at\u00e9 chorei, bicho. Mas eu estava muito\u2026 era tanta felicidade que n\u00e3o deu pra chorar, entendeu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: \u00c9 muito forte, muito forte.<\/p>\n<figure id=\"attachment_96889\" aria-describedby=\"caption-attachment-96889\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-96889 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still017.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still017.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still017-300x125.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96889\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Aquele que viu o abismo&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aproveito a fala do Leo sobre o \u201cInaudito\u201d, Gregorio, seu longa-metragem anterior feito com o gigante Lanny Gordin, e que conta, inclusive, com uma participa\u00e7\u00e3o marcante do Leo tamb\u00e9m: curiosamente, \u00e9 um filme que foi feito tamb\u00e9m entre o Brasil e a China. O que tem de t\u00e3o fascinante, de t\u00e3o misterioso na China? Como esse deslocamento, essa viagem se tornou t\u00e3o importante pro filme que voc\u00eas fizeram juntos?<\/strong><br \/>\nGregorio: Ontem no debate o Ariel falou uma coisa fant\u00e1stica: \u201ca China \u00e9 o inconsciente do Brasil\u201d. Olha a frase que ele lan\u00e7ou nesse debate. Eu tenho uma ideia de cinema de que o sol \u00e9 a lua e o projetor \u00e9 a tela. Assim, como \u00e9 quase um pensamento\u2026 \u00e9 o yin-yang, Voc\u00ea entender a for\u00e7a ativa, passiva, sutil e forte, o I Ching. A quest\u00e3o da lua, o lado negro da lua, o lado luminoso. O desconhecido, o reconhec\u00edvel. Aquela ideia de voc\u00ea cavar um buraco aqui onde a gente est\u00e1 no Brasil e sair no outro lugar do mapa, do mundo. O deslocamento, ao mesmo tempo, todo mundo terr\u00e1queo, n\u00e9? Que a gente j\u00e1 est\u00e1 no tempo que daqui a pouco meu filho vai falar: \u201cEstou saindo com uma pessoa marciana\u201d. Ent\u00e3o \u00e9 uma comunh\u00e3o dos terr\u00e1queos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Voc\u00ea falou isso e eu lembrei do Rela: \u201cfaz um sexo marciano, \u00e9 o novo\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Exato! (risos) Olha s\u00f3, Leo, o Aguilar tem um quadro dele que \u00e9 \u201c2050, casamento em Marte\u201d, escrito. \u00c9 essa a onda toda, cara. A China \u00e9 fascinante, \u00e9 um del\u00edrio nosso. E ela ensina muito, pra gente se reconhecer. Acho que \u00e9 aquela hist\u00f3ria que ficou cl\u00e1ssica: n\u00e3o me interessa como o comunismo seria no Brasil, mas o que o Brasil faria com o comunismo. Acho um aprendizado formid\u00e1vel entender o que a China fez com o comunismo, com o socialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Mas se eu puder dar um pouquinho de hist\u00f3ria pro Leandro, \u00e9 o seguinte: em 2013, lembro que vim a S\u00e3o Paulo fazer um show e o Greg disse pra mim, assim: \u201cLeo, estou indo pra China\u201d. Ele e a Dani. \u201cEstamos indo pra China fazer um document\u00e1rio com o Lanny\u201d. Acho que era no Puxadinho da Pra\u00e7a (antiga casa de shows independente no bairro Vila Madalena), se eu n\u00e3o me engano. Voc\u00ea lembra disso? O Greg lembra do Puxadinho. Leandro eu n\u00e3o sei se pegou isso, porque \u00e9 mais jovem. Mas a\u00ed, bicho, na sequ\u00eancia eles foram pra China, n\u00e3o sei o qu\u00ea. O Greg volta da China e fala: \u201cp\u00f4, Leo, quero fazer uma cena contigo e com o Lanny\u201d. A gente descendo as escadas que desceram Adoniran e Elis Regina, l\u00e1 da Vila Itoror\u00f3. Que agora est\u00e1 reformada e tal. E eu lembro de ver\u2026 \u00e9 muito incr\u00edvel, porque t\u00eam planos do \u201cInaudito\u201d, que n\u00e3o foram usados no \u201cInaudito\u201d, (mas sim) no \u201cAbismo\u201d. Ent\u00e3o, olha s\u00f3, veja, o filme \u00e9 feito de camadas temporais. E camadas temporais, inclusive, que tamb\u00e9m podem, mesmo para o espectador desavisado, resultar j\u00e1 numa experi\u00eancia mesmo de registro hist\u00f3rico. Por qu\u00ea? Porra, ele filmou nessa China em 2017\u2026 14, 15, com o Lanny.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: 16, Leo. 15 e 16.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: A China que a gente filma, a Xangai que a gente filma, a gente filma 5 anos depois. E j\u00e1 \u00e9 um pouco diferente mesmo. Ent\u00e3o, acho que tem isso. Agora, tem tamb\u00e9m o fato da gente ter filmado em S\u00e3o Paulo. Alguns anos, logo depois que a gente voltou da China, a gente filmou em S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o, quer dizer, eu acho que o filme tem essas camadas de tempo que est\u00e3o ali, sacou? Tem que s\u00f3 pescar, bicho, mas est\u00e1 ali. \u00c9 aquela hist\u00f3ria que o H\u00e9lio Oiticica dizia. Por isso que eu disse ontem numa entrevista, que esse \u00e9 um filme, na verdade, \u00e9 um neoconcreto, \u00e9 um penetr\u00e1vel, \u00e9 algo que voc\u00ea v\u00ea\u2026 flui pelos sentidos. O Greg falou \u201ceduca\u00e7\u00e3o pelos sentidos\u201d tamb\u00e9m ontem. Ent\u00e3o, veja, voc\u00ea, o que voc\u00ea faz com um filme desse? Porra! \u00c9\u2026 que tem essa rela\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Que tem essas coisas das camadas temporais e tal. Porra\u2026 calma que estou elaborando. Agora fiquei at\u00e9 confuso, que estou fumando junto e tudo, porque o c\u00e9rebro vai, mas tamb\u00e9m ele se perde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Mas t\u00e1 formid\u00e1vel isso que voc\u00ea est\u00e1 falando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: \u00c9, s\u00f3 queria dizer isso, s\u00f3 queria dizer que esse filme, ele&#8230; \u00e9 isso, vamos continuar, mas era sobre\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Mas eu vou continuar na tua ideia, Leo. Essa coisa que voc\u00ea falou agora, pelo que estou entendendo, desse sentido quase palimpsesto desse filme\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: \u00c9 um palimpsesto, exatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Eu peguei a vis\u00e3o. E esse sentido penetr\u00e1vel, que voc\u00ea vai descobrindo essas camadas e voc\u00ea entra no filme, e voc\u00ea faz ele a partir do seu&#8230; a forma que voc\u00ea est\u00e1 assistindo, voc\u00ea recria esse filme. Ele muda muito. Leandro, (surpreso) ontem era outro filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Imagino. Eu assisti hoje de manh\u00e3 o filme pela terceira vez. Eu vi a primeira vez em Tiradentes, depois vi no Ecr\u00e3, ano retrasado, eu acho, e agora vi pela terceira vez. \u00c9 engra\u00e7ado como \u00e0s vezes a gente rev\u00ea os filmes tentando\u2026 eles v\u00e3o se desvelando na nossa frente. O \u201cAquele Que Viu o Abismo\u201d \u00e9 meio o contr\u00e1rio. Ele n\u00e3o se desvela muito, n\u00e3o, ele se transforma. E a\u00ed eu queria perguntar pra voc\u00eas, talvez mais at\u00e9 direcionado pro Leo, sobre esse personagem que voc\u00ea criou, esse tal de X, como ele \u00e9 chamado nos cr\u00e9ditos, essa esp\u00e9cie de andarilho. Fala um pouquinho sobre ele?<\/strong><br \/>\nNegro Leo: Cara, o X a gente criou junto, na verdade. Porque a ideia do personagem, esse que vai viver essa epopeia, digamos assim, meio tr\u00e1gica, meio&#8230; essa ideia desse personagem que, na verdade\u2026 hoje eu li um texto super legal que dizia assim, que na verdade o X \u00e9 uma pessoa comum, porque ele n\u00e3o tem nenhuma expectativa de que a vida dele vai redimir a vida dos outros, da humanidade. Ele n\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um anti-her\u00f3i. Sabe o que ele \u00e9? Ele \u00e9 quase um personagem b\u00edblico. Porque se voc\u00ea prestar aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 o seguinte, na tradu\u00e7\u00e3o do Novo Testamento, do Frederico Louren\u00e7o, o portugu\u00eas, ele diz o seguinte, ele traduz \u201co filho do homem\u201d por \u201co filho da humanidade\u201d, e ele diz uma coisa que \u00e9 muito importante, ele diz, assim: a literatura dos evangelhos \u00e9 a primeira cujos personagens n\u00e3o s\u00e3o her\u00f3is, guerreiros, gente de gl\u00f3ria. N\u00e3o, s\u00e3o coxos, s\u00e3o doentes mentais, cegos, paral\u00edticos. Porra, prostitutas\u2026 (enf\u00e1tico) voc\u00ea entende o que estou querendo dizer? Ent\u00e3o, assim, \u00e9 um lugar muito forte. Ent\u00e3o o X \u00e9 quase isso, \u00e9 um personagem evang\u00e9lico, se voc\u00ea\u2026 e ele \u00e9 um cara normal. E ele tem certeza absoluta de que ele\u2026 entendeu? Um anti-Jesus, eu n\u00e3o sei. Um anti-Jesus fica forte, um slogan, vamos deixar um anti-Jesus pra l\u00e1. Mas\u2026 (risos) entende? Tem uma coisa, na verdade, tem uma coisa evang\u00e9lica. De alguma forma, na vida, na natureza desse personagem. A gente construiu assim. S\u00f3 que quando a gente chegou na China, como \u00e9 que \u00e9 esse cara? A\u00ed eu comecei\u2026 ontem eu at\u00e9 falei sobre isso, o Greg lembra. A\u00ed comecei a tremer, e comecei aquela coisa, e foi, porra (risos). Porque foi assim, natural, n\u00e3o \u00e9, Greg?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Realmente, ele nasceu. A gente viu o nascedouro dele. Ontem eu falei muito dessa coisa da m\u00e3o dele. Era como se a m\u00e3o dele fosse o nosso guia, o roteiro do filme. Sim, pra mim \u00e9 uma coisa quase m\u00edstica mesmo. Sinto que toda essa\u2026 energia, como se fosse um pandeiro, o ritmo do filme est\u00e1 ali naquela m\u00e3o tremendo. E eu tamb\u00e9m senti muito esse lance que o Leo falou, b\u00edblico, porque o filme tem a queda pra ascens\u00e3o. Assim, ele tem essa ascese, ele tem essa transmuta\u00e7\u00e3o. Ele tem que morrer pra germinar, sabe? E eu n\u00e3o estou falando isso s\u00f3 do personagem, psiqu\u00ea, n\u00e3o. Estou falando do sentido formal mesmo. A partir do momento que os planos\u2026 perde-se a conex\u00e3o entre o fundo e a frente, e a\u00ed voc\u00ea tem primeiro e terceiro plano, a gente ou est\u00e1 em queda ou est\u00e1 em ascens\u00e3o. E o X vive essa montanha russa pra uma ascens\u00e3o, assim. \u00c9 muito forte. Aquele plano pr\u00e9 final, antes da Muralha da China, tem uma imagem de um santinho ali do lado do X, naquela foto final. E sabe como a gente pensou essas coisas, Leandro? Com as m\u00e3os, cara. Eu te juro. Ia l\u00e1 e colocava, sabe? Colocava\u2026 a m\u00e3o que fazia&#8230; n\u00e3o \u00e9 nem no sentido de automatismo, mas era a m\u00e3o que puxava a gente. Eu falei isso, a m\u00e3o do X foi ensinando muito a um processo de coisa manual, de execu\u00e7\u00e3o mesmo. E a\u00ed voc\u00ea vai vendo, hoje em dia, e voc\u00ea fala: \u201cnossa, a m\u00e3o fez isso, n\u00e9?\u201d Foi construindo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que teve um diretor que falou: \u201ceu prefiro perder meus olhos do que minhas m\u00e3os pra dirigir um filme\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jards Macal\u00e9 |Clipe Oficial Trevas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZOc-gE_da7o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu fico pensando nesse corpo nesse espa\u00e7o. Como \u00e9 um filme que tenta fazer com que v\u00e1rios espa\u00e7os colidam, ou andem juntos. E eu estava assistindo hoje pela manh\u00e3 os trabalhos de voc\u00eas, os curtas, os videoclipes que o Greg me mandou ontem. O que me chamou a aten\u00e7\u00e3o, pensando numa conex\u00e3o mais atmosf\u00e9rica e at\u00e9 mesmo de imagem com o \u201cAquele Que Viu o Abismo\u201d, foi, na verdade, um videoclipe que o Greg dirigiu <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/02\/15\/trevas-de-jards-macale-um-clipe-de-horror\/\">pra m\u00fasica do Jards Macal\u00e9, o &#8220;Trevas\u201d<\/a>. Porque parte da est\u00e9tica laser que \u00e9 usada no filme j\u00e1 estava l\u00e1. Queria que voc\u00eas comentassem sobre esse outro espa\u00e7o que esse corpo do X habita, que \u00e9 esse espa\u00e7o criado com o trabalho do Diogo Terra.<\/strong><br \/>\nGregorio: O nascedouro do laser n\u00e3o \u00e9 o \u201cTrevas\u201d. O laser\u2026 o Diogo Terra, ele j\u00e1 fazia as manifesta\u00e7\u00f5es, ele j\u00e1 era um ativista do laser. E a gente era\u2026 essa turma, ele, o Paulinho [Fluxus]&#8230; o Leo e a Ava (Rocha) eram amigos por algum caminho e eu era amigo por outro caminho. Porque eles frequentavam o Parque Augusta. O Leo e a Ava estavam usando em shows. A primeira filmagem de laser, se eu n\u00e3o me engano, foi no clipe do \u201cAction Lekking\u201d, que \u00e9 antes do \u201cTrevas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 verdade, tem tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nGregorio: N\u00e3o, \u00e9\u2026 ali, a gente saiu pela cidade disparando o laser, escrevendo. Foi fenomenal. Voc\u00ea filma aquilo l\u00e1 e voc\u00ea fala: \u201cp\u00f4, parece que est\u00e1 filmando o Humphrey Bogart\u201d. \u00c9 uma del\u00edcia filmar laser, \u00e9 muito cinematogr\u00e1fico, muito forte. E a\u00ed, disso, foi pro \u201cTrevas\u201d. Quando eu terminei o \u201cTrevas\u201d, o Leo falou: \u201cGreg, \u00e9 isso, cara\u201d. O \u201cTrevas\u201d ajudou muito numa conex\u00e3o nossa, pra entender caminhos pro \u201cAbismo\u201d, sabe? E o laser tem uma coisa fant\u00e1stica, porque \u00e9 um vetor, n\u00e9? Ele \u00e9 o m\u00ednimo m\u00faltiplo comum, s\u00e3o hier\u00f3glifos eg\u00edpcios, aquilo. Quer dizer, voc\u00ea tem s\u00f3 a ess\u00eancia, voc\u00ea tem um contorno. E chapado. O que eu falo de fundo e da frente, ele chapa. Quando voc\u00ea chapa, voc\u00ea tem a bidimensionalidade, e na verdade voc\u00ea tem a ess\u00eancia da forma. E a\u00ed voc\u00ea complementa. Voc\u00ea complementa com o som, voc\u00ea permite que o vazio seja preenchido. Pra fazer um filme sem grana, onde voc\u00ea quer fazer um\u2026 digo, voc\u00ea m\u00faltiplo, n\u00e9? Voc\u00ea quer executar avi\u00f5es, bombas, tudo isso que \u00e9 o cinema, o laser \u00e9 fant\u00e1stico. Voc\u00ea faz isso quase s\u00f3 com um contorno, com uma linha. A gente, com o Diogo Terra Vargas &#8211; se eu tiver falando muito voc\u00eas me avisam -, a gente selecionou antes pr\u00e9 imagens do laser. E a\u00ed era isso: \u201cporra, essa imagem \u00e9 boa, isso \u00e9 uma mala, isso \u00e9 n\u00e3o sei o qu\u00ea\u201d. Quase como se a gente estivesse selecionando cartelas do que pode ter um filme no futuro, sabe? E a\u00ed foi muito legal, porque da\u00ed a gente filmou, e a\u00ed, a partir desses lasers\u2026 como se fossem cartas do\u2026 n\u00e3o do tar\u00f4, mas cartelas. A\u00ed eles foram ajudando a gente a desvendar qual era o roteiro do filme, a desempenhar esse caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Exatamente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"ACTION LEKKING A - NEGRO LEO feat. FEZINHO PATATYY (clipe)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DXxRdqgmuSs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nessa conversa sobre a geografia do filme, o espa\u00e7o, tem uma ideia de continuidade, tamb\u00e9m, que n\u00e3o \u00e9 exatamente convencional. Tem uma cena do \u201cA Guerra de Michael\u201d (2020), do Gregorio, que, entre outras coisas, retrata o momento da feitura do seu disco, Leo, o \u201cDesejo de Lacrar\u201d (2020), na qual voc\u00ea fala uma frase bem curiosa sobre a sua vis\u00e3o da m\u00fasica. Voc\u00ea fala sobre n\u00e3o se subjugar ao estatuto da can\u00e7\u00e3o. Trazendo isso pro cinema, agora, o seu interesse \u00e9 de n\u00e3o se subjugar ao estatuto da narrativa, ou pelo menos da continuidade? Como voc\u00ea concilia a experimenta\u00e7\u00e3o e esses c\u00f3digos de g\u00eanero no seu trabalho? Ou seja, a can\u00e7\u00e3o versus a n\u00e3o-can\u00e7\u00e3o, no caso da m\u00fasica. Ou o narrativo versus o n\u00e3o-narrativo, no caso do cinema. Como \u00e9 que voc\u00ea v\u00ea isso no \u201cAquele Que Viu o Abismo\u201d?<\/strong><br \/>\nNegro Leo: Cara, eu acho que as pessoas, pra come\u00e7ar, n\u00e3o se d\u00e3o conta de que, na pr\u00f3pria vida, a sucess\u00e3o de eventos \u00e9 completamente&#8230; se voc\u00ea estivesse vendo um filme do seu dia, se voc\u00ea filmasse o seu dia, um dia completo, e tentasse fazer ele fazer sentido, voc\u00ea ia ver o que estou dizendo. S\u00e3o sucessivas a\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea vai, bebe \u00e1gua, toma, sobe, acende um cigarro, abre um livro, fuma, sai pra comer num lugar, encontra algu\u00e9m que fala alguma coisa, ouve barulhos estranhos, pessoas falando. Junta isso numa coisa que fa\u00e7a&#8230; voc\u00ea entende o que estou (tentando dizer?)&#8230; narrativa, cara, \u00e9 um neg\u00f3cio muito&#8230; olha, eu tenho a impress\u00e3o\u2026 o Greg pode falar melhor sobre isso, sobre a jornada do her\u00f3i, sobre a cria\u00e7\u00e3o, a constru\u00e7\u00e3o de formas de se contar uma hist\u00f3ria, de se narrar&#8230; vindo l\u00e1 dos contos de fadas do texto l\u00e1 daquele russo que foi para os Estados Unidos. Ent\u00e3o, veja, isso \u00e9 uma coisa. E da\u00ed at\u00e9 chegar no \u201cSave the Cat\u201d, que a gente usou para fazer o \u201cNenhuma Fantasia\u201d, e outras t\u00e9cnicas de escrita de roteiro e constru\u00e7\u00e3o de narrativa. Veja, isso \u00e9 um mundo. Existe outro mundo fora desse mundo, t\u00e1? Que ele tem\u2026 que ele pode ter um certo ritmo completamente diferente. Acho que a proposta desse filme \u00e9 construir um ritmo muito particular e se transformar em uma m\u00e1quina. A montagem, com a edi\u00e7\u00e3o de som, nesse filme, constr\u00f3i um ritmo muito particular, onde a hist\u00f3ria, sim, est\u00e1 subjugada a esse ritmo, n\u00e3o o contr\u00e1rio. E n\u00e3o o filme tem que estar subjugado a um desses modos de escritura, e sim o contr\u00e1rio. A escritura surge do fato de que a montagem e o som t\u00eam um um pr\u00f3prio ritmo, porra. E assim, ontem, n\u00e3o sei o que a gente estava conversando, algu\u00e9m falou, acho que foi o Henri Daio, que \u00e9 o editor de som do filme junto com Greg. Acho que ele falou uma coisa sobre improviso e sobre o fato de que voc\u00ea\u2026 \u00e9 isso, voc\u00ea conhece, estuda o improviso pra poder&#8230; voc\u00ea estuda\u2026 dentro dos per\u00edodos onde se improvisava, voc\u00ea tinha estudo sobre as coisas. Barroco, o improviso barroco, seguindo certas estruturas. Mas, assim, \u00e9 isso, acho que esse filme\u2026 essa \u00faltima parte que eu falei a\u00ed, pode ignorar, mas \u00e9 isso, essa parte da improvisa\u00e7\u00e3o faz todo sentido. Mas, assim, n\u00e3o sei. Greg, quer falar um pouco sobre? Acho que faz sentido isso a\u00ed?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: N\u00e3o, eu gostei muito. Me estimula muito, Leo, essa ideia de que n\u00e3o \u00e9 da narrativa para o ritmo que a gente caminhou. E, sim, que a narrativa\u2026 n\u00e3o \u00e9 que ela n\u00e3o exista, isso que \u00e9 massa, mas \u00e9: o ritmo faz nascer a narrativa. \u00c9 como se fosse assim: voc\u00ea n\u00e3o olha o mundo de voc\u00ea pro mundo, mas o mundo pra voc\u00ea, e dessa forma voc\u00ea fica um pouco mais generoso, sabe? Tipo assim, trate as pessoas do jeito que voc\u00ea gostaria de ser tratado? \u00c9 uma forma de voc\u00ea olhar de fora pra dentro. E essas coisas que voc\u00ea falou agora, Leo, \u00e9 pra mim uma conduta \u00e9tica, entendeu? E, na verdade, faz a vida funcionar muito melhor, faz a gente estar mais pr\u00f3ximo da natureza. N\u00e3o esquecer esses movimentos que formam a gente, esses ritmos moleculares. Um ritmo, a coisa toda do ritmo. Eu achei muito legal, Leandro, voc\u00ea lembrou\u2026 eu gosto muito daquela fala do Leo, do jeito que ela dita l\u00e1 no \u201cA Guerra de Michael\u201d. Eu acho que ela \u00e9 importante de se escutar, com todo o prisma que ela tem\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: E eu vou dizer uma coisa: se a pessoa quiser se apegar \u00e0 narrativa, ainda, se quiser segurar no tronco (risos)&#8230; a pessoa\u2026 ainda tem coisas ali, tem v\u00e1rios elementos, sabe? De fato, tem. A gente se preocupou, de certa forma, em contar uma hist\u00f3ria. Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o podia ser algo que, porra, de certa forma suplantasse o ritmo. O ritmo foi a coisa mais determinante para a coisa acontecer. Porque, afinal, porra, cinema \u00e9 imagem e som, bicho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E nessa busca de voc\u00eas, como \u00e9 que foi a entrada do Jo\u00e3o Dumans no projeto? Porque eu sei que o Gregorio gosta de estar envolvido na montagem dos projetos, mesmo que costumeiramente j\u00e1 traga colaboradores. Por que a decis\u00e3o de entregar o material do \u201cAquele Que Viu o Abismo\u201d a algu\u00e9m como o Jo\u00e3o Dumans e como foi esse processo?<\/strong><br \/>\nGregorio: N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 entregar o material, Leandro. \u00c9 outra coisa. Assim, o Jo\u00e3o, cara, ele \u00e9 uma pessoa fant\u00e1stica, \u00e9 um ser humano incr\u00edvel. Quando terminei de passar o \u201cInaudito\u201d na Mostra de Tiradentes, a primeira pessoa que veio falar comigo foi o Jo\u00e3o. O Jo\u00e3o segurou meu bra\u00e7o e falou: \u201ccara, estou abismado com esse filme\u201d. Eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m do cinema. Eu fui l\u00e1 meio cego, sabe? E ele come\u00e7ou a me falar do \u201cInaudito\u201d e eu falei: \u201cn\u00e3o, esse cara \u00e9 gente fina pra caramba\u201d. A\u00ed a gente ficou muito amigo, t\u00e1? E o Jo\u00e3o \u00e9 uma pessoa que voc\u00ea pode se aconselhar com ele\u2026 muitas coisas. \u00c9 um cara muito massa. Eu sempre tive muitas d\u00favidas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Ele \u00e9 um cara.. ele teve um papel muito importante na constru\u00e7\u00e3o de uma estrutura, ele junto com o Greg, esses dois a\u00ed\u2026 isso foi foda, bicho\u2026 Porque, assim, mesmo por mais louco que qualquer filme seja, ele tem uma estrutura, porra, tem um equil\u00edbrio, aquela coisa que o Francis Bacon falava: \u201co quadro tem que ter um equil\u00edbrio\u201d. O contraste, ele n\u00e3o \u00e9\u2026 se ele for arbitr\u00e1rio, se n\u00e3o tiver equilibrado, ele n\u00e3o existe, sabe? O contraste, ele \u00e9\u2026 ent\u00e3o, o que estou querendo dizer \u00e9 o seguinte, eles dois encontraram\u2026 (empolgado) t\u00e1! E o Jo\u00e3o foi muito importante nesse momento. O Greg pode falar melhor porque eles trabalharam muito juntos. Eu n\u00e3o estava nesse momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: O Jo\u00e3o\u2026 eram sess\u00f5es, n\u00e9? O Jo\u00e3o vinha pra S\u00e3o Paulo ou a gente ia pra Belo Horizonte. O Leo falou uma coisa certa, o Jo\u00e3o tem uma no\u00e7\u00e3o de planta baixa do filme, uma no\u00e7\u00e3o do todo que \u00e9 formid\u00e1vel, assim, \u00e9 admir\u00e1vel. \u00c9 o olhar de \u00e1guia, sabe? De quando voc\u00ea olha por cima e voc\u00ea entende? E ele tem essa no\u00e7\u00e3o do ritmo macro, que \u00e9 muito importante. Ent\u00e3o ele tamb\u00e9m chegava nos\u2026 mas n\u00e3o era aquele cara do \u201cde boa, deixa disso\u201d. N\u00e3o, ele botava a gente pra jogo, vamos l\u00e1. S\u00f3 que ao mesmo tempo ele tamb\u00e9m falava: \u201ccara, isso aqui j\u00e1 virou repeti\u00e7\u00e3o vazia, isso n\u00e3o\u201d. N\u00e3o de censura, (mas) de cria\u00e7\u00e3o mesmo. Ent\u00e3o \u00e9 o nosso\u2026 \u00e9 a planta baixa do filme.<\/p>\n<figure id=\"attachment_96887\" aria-describedby=\"caption-attachment-96887\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-96887\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still019.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still019.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still019-300x125.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96887\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Aquele que viu o abismo&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tanto \u00e9 que ele acaba sendo creditado tamb\u00e9m como roteirista, obviamente, porque \u00e9 um filme muito constru\u00eddo tamb\u00e9m nessa mesa, nessa montagem.<\/strong><br \/>\nGregorio: \u00c9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Muito importante pro filme, entendeu? Pra estrutura do filme, sacou? E a\u00ed a parte, vamos dizer assim, mais microporosa do filme, esses pequenos ajustes, tanto a montagem como a edi\u00e7\u00e3o de som, a\u00ed Greg e Henri j\u00e1 come\u00e7am a trabalhar nessas fissuras\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: \u00c9 obsess\u00e3o, Leo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: \u00c9 o momento da obsess\u00e3o, exatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Porque a gente tamb\u00e9m atravessou a pandemia na montagem. A\u00ed voc\u00ea tinha que fazer, trabalhar. Junto veio o \u201cNenhuma Fantasia\u201d. A gente monta o &#8220;Nenhuma Fantasia\u201d nesse processo. A\u00ed o \u201cNenhuma Fantasia\u201d ensina a montar o \u201cAquele Que Viu o Abismo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: E, cara, tudo a gente trabalhou junto, de alguma forma. Voc\u00ea v\u00ea, mesmo os textos, que eu apare\u00e7o l\u00e1 creditado, \u00e9 tudo junto, ent\u00e3o \u00e9 um bagulho meio Lennon-McCartney, entendeu? S\u00f3 que com um grupo grande. Veja, \u00e9 muito\u2026 \u00e9 um lance muito de uma parceria, \u00e9 uma simbiose muito perfeita, bicho, essa parceria, que resulta nesse filme. Com todas as pessoas que est\u00e3o envolvidas mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: E sabe o que \u00e9 massa? Assim, fora de campo agora, falando s\u00f3 de passagem, \u00e9 voc\u00ea passar o filme depois de algum tempo que voc\u00ea j\u00e1 fez o filme e a turma toda se abra\u00e7a e se curte pra caralho. Isso \u00e9 legal demais. Ontem a sess\u00e3o foi muito m\u00e1gica, nesse sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: E eu vou falar\u2026 uma coisa legal de sair na cr\u00edtica, Leandro, \u00e9 que, p\u00f4, esse filme tem que ser visto\u2026 eu n\u00e3o sei qual \u00e9 o par\u00e2metro de medi\u00e7\u00e3o de volume em sala de cinema, cara, mas assim, ele n\u00e3o pode ser visto em 4,5, 5, ele tem que ser visto alto, sacou? 8, a gente ontem botou 8. Cara, a sala vibrava nos graves, entendeu? (faz barulho de vibra\u00e7\u00e3o) Minha filha uma hora botou a m\u00e3o no ouvido. Fora que a tela, tamb\u00e9m, enfim\u2026 esse tipo de coisa, entendeu? \u00c9 foda, voc\u00ea ver esse filme na tela grande. A sala do CineSesc ou a sala de ontem, do Petrobr\u00e1s, \u00e9 muita doideira, cara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O volume faz uma diferen\u00e7a absurda, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><br \/>\nGregorio: Leandro, sabe o que d\u00e1 vontade? D\u00e1 vontade de botar na sinopse, pra pedir pra colocar o volume alto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: \u00c9, porque quando a gente n\u00e3o tiver na sala, o volume \u00e9 4,5. Ent\u00e3o, se a pessoa for l\u00e1 assistir ao filme, que n\u00e3o foi ontem, ela vai botar no 4,5, ent\u00e3o n\u00e3o vai experimentar o filme como tem que ser, entendeu? A verdade \u00e9 s\u00f3 essa, entendeu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria entrar num outro aspecto do filme. Num dado momento, Leo, o seu personagem diz o seguinte: \u201cisso est\u00e1 ficando muito pessoal pra descrever\u201d. A partir dessa frase, como voc\u00ea enxerga essa esp\u00e9cie de di\u00e1rio de viagem da sua fam\u00edlia dentro do filme? Como voc\u00eas conseguiram se distanciar de uma l\u00f3gica documental t\u00edpica de um di\u00e1rio de viagem, partindo para uma aposta desenfreada, desestabilizante dessa fic\u00e7\u00e3o que voc\u00eas criam?<\/strong><br \/>\nNegro Leo: Cara, olha s\u00f3, todo esse texto da parte psiqui\u00e1trica \u00e9 uma anamnese real, de um paciente real. Voc\u00ea veja a\u00ed, \u00f3. Estou te dando mais uma coisa que voc\u00ea n\u00e3o sabia. Voc\u00ea veja. E a gente encontrou a intera\u00e7\u00e3o perfeita que cabia dentro da estrutura de filme que a gente tinha. Ent\u00e3o veja, o cara vai dar um tiro na boca, n\u00e3o d\u00e1, d\u00e1 um tiro na perna e diz: \u201cporra, n\u00e3o tem um hospital em 100 metros, era pra ser na boca&#8221;. Porra, mas caralho, mas n\u00e3o tem como, s\u00e3o\u2026 congelar o c\u00e9rebro e transferir pra n\u00e3o sei o qu\u00ea. \u201cN\u00e3o tem como ressuscitar animais da megafauna\u201d. O cara est\u00e1 em desespero completo, ele est\u00e1 vendo essa coisa acontecer. \u201cN\u00e3o tem como, n\u00e3o tem como. Porra, era para ser na boca\u201d. Caralho. Pum! De repente ele abre no hospital: p\u00e1! Caralho. Puta que pariu. E a\u00ed, a anamnese, a psiquiatra\u2026porque depois voc\u00ea vai saber que ele est\u00e1 no hospital psiqui\u00e1trico, l\u00e1 no meio, quando ele est\u00e1 girando, e ele come\u00e7a a falar de como a ProLife age. Mas antes ele diz: \u201ceu me voluntariei\u201d e tal. E voc\u00ea tem alguma no\u00e7\u00e3o, porque ele fala do psiquiatra, voc\u00ea sabe que ele est\u00e1 no hospital j\u00e1 de cara, de alguma forma, que ele est\u00e1 nessa conversa, entendeu? A gente\u2026 porra, cara, d\u00e1 at\u00e9 vontade de rir ou de chorar, o quanto tempo que a gente passou escrevendo isso, pra pensar esse lugar sem conseguir revelar. Porque voc\u00ea n\u00e3o filmou uma porra de uma ala de enfermaria. Voc\u00ea n\u00e3o filmou nada disso, cara. Porra, entende o que estou querendo te dizer? Ent\u00e3o, assim\u2026 mas est\u00e1 ali, n\u00e3o tem como, est\u00e1 ali. E \u00e9 por isso que eu te falo das camadas, tanto temporais, mas tamb\u00e9m de imagens, de coisas, \u00e0s vezes de redund\u00e2ncia. Voc\u00ea entende? Eu acho que \u00e9 isso, cara, eu acho que o texto do\u2026 o texto, n\u00e3o, essa parte, por exemplo, da psiquiatria que voc\u00ea est\u00e1 dizendo, quando ele diz que est\u00e1 pessoal demais, veja, a for\u00e7a de verdade\u2026 a factual, vamos dizer assim, que essa frase carrega. Agora, voc\u00ea sabendo que \u00e9 de fato uma anamnese, uma conversa de um paciente com um psiquiatria real, voc\u00ea v\u00ea\u2026 e a frase sai com uma carga emocional forte, entendeu? E a\u00ed, bom, a\u00ed ele vem e d\u00e1 um tiro no cara, a\u00ed puta que o pariu, entendeu? Enfim, mas \u00e9 um pouco isso (risos).<\/p>\n<figure id=\"attachment_96885\" aria-describedby=\"caption-attachment-96885\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-96885 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still032.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still032.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still032-300x125.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96885\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Aquele que viu o abismo&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu fico pensando tamb\u00e9m nessa escolha, voltando para a ideia do di\u00e1rio de viagem, de encerrar o filme com aquela cena lind\u00edssima da Ava. Como foi isso?<\/strong><br \/>\nGregorio: A gente sabia que o filme ia terminar na can\u00e7\u00e3o. Tinham algumas coisas que eram concord\u00e2ncias naturais e fluidas nossas. A gente sabia que ia terminar com uma grande can\u00e7\u00e3o. E a\u00ed essas escolhas surgiram muito\u2026 A Muralha da China veio naquele momento, a personagem da Ava parecia que se aproximava cada vez mais disso. N\u00e3o foi uma escolha racional, sabe, Leandro? \u201cVamos terminar com a sequ\u00eancia da Ava no final\u201d. As imagens pediram isso. Sem exagero, sem mistificar a coisa. N\u00e3o teve algo racionalizado nesse ponto. E a\u00ed foi vindo, a sequ\u00eancia ficou para o final e ele se aproxima disso. E a\u00ed voc\u00ea falou dos di\u00e1rios de viagem. Talvez uma forma de viajar seja fazer um filme de fic\u00e7\u00e3o, entendeu? A grande viagem. Isso \u00e9 viajar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: \u00c9 verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Acho que teve uma intelig\u00eancia muito grande do nosso grupo na viagem. Uma solidariedade de todos, de transformar nossa viagem numa fic\u00e7\u00e3o. De personagens, de viver essa experi\u00eancia. E a\u00ed voc\u00ea transforma. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 indo s\u00f3 pro ponto tur\u00edstico. Voc\u00ea est\u00e1 indo para um plano de filmagem. Muda tudo, muda tudo. O comum, o que seria o comum? Leo e Ava est\u00e3o indo pra China, a gente fica fazendo umas falas, eles contando como a m\u00fasica \u00e9 legal, ali, como que n\u00e3o \u00e9. A\u00ed bota os dois sentados, bota o artista chin\u00eas. E eles s\u00e3o muito perfeitos, s\u00e3o muito divertidos. O Leo e a Ava, sempre muito inteligentes. A gente est\u00e1 atr\u00e1s deles, os documentaristas. \u201cOlha, ai, como eles s\u00e3o legais, viva a cultura pop, galera\u201d. Esse \u00e9 um filme\u2026 que era o pedido, que era o padr\u00e3o. A\u00ed quando voc\u00ea est\u00e1 com o Leo, o Leo vira e fala: \u201cGreg, vamos fazer uma fic\u00e7\u00e3o, irm\u00e3o?\u201d Eu olhei pra ele, e por isso que a gente \u00e9 parceiro. Eu falei: \u00e9 isso, eureka!\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: \u00c9 isso a\u00ed, cara, \u00e9 muito legal. Porque s\u00e3o muitas camadas, entendeu, Leandro? A\u00ed quando a gente teve essa ideia, Greg j\u00e1 senta comigo, j\u00e1 mostra uma porrada de filme, uma porrada de refer\u00eancia, de ideias, de caminhos. E a\u00ed a gente come\u00e7a\u2026 eu come\u00e7o a escrever umas pequenas coisas. A\u00ed, a princ\u00edpio, a gente n\u00e3o tinha nem ideia do que a gente ia filmar na China. E a\u00ed pinta um livro do Gilgamesh pra gente, que um amigo nosso me manda. E a\u00ed a gente come\u00e7a a ler e a gente fala: \u201cputa, cara, isso \u00e9 louco\u201d. E o Greg estava lendo um livro sobre a China\u2026 que a gente estava indo para a China, l\u00f3gico\u2026 do Henry Kissinger, e era uma loucura porque a gente misturou isso com\u2026 ent\u00e3o foi tudo, cara. A gente come\u00e7ou a juntar muitas refer\u00eancias, e todas essas coisas a gente foi embarcando na viagem. Eu, porra, eu disfruto muito de literatura\u2026 de literatura, n\u00e3o, de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na \u00e1rea da tecnologia etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: E a Dani, n\u00e9, Leo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: E a Dani, tamb\u00e9m, que era uma pessoa\u2026 que \u00e9 at\u00e9 hoje\u2026 a Dani at\u00e9 hoje me manda coisas ligadas a esse universo, porque \u00e9 um universo que a gente compartilha tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Ela est\u00e1 trabalhando com isso, com intelig\u00eancia artificial hoje em dia, em Luxemburgo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: E a\u00ed a gente come\u00e7a a fermentar esse caldo, entendeu? At\u00e9 que, porra, finalmente \u00e9 o filme que v\u00ea-se hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: E borbulhou. O filme que borbulhou.<\/p>\n<figure id=\"attachment_96884\" aria-describedby=\"caption-attachment-96884\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-96884\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still034.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"315\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still034.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/foto-de-divulgacao-Aquele-que-viu-o-abismo_still034-300x126.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96884\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Aquele que viu o abismo&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leo, voc\u00ea comentou dessa cena que abre o filme, que \u00e9 muito marcante j\u00e1, do homem com a arma na m\u00e3o apontando para o pr\u00f3prio rosto e que acaba dando um tiro na perna. Eu parto mais uma vez de uma frase do filme para levantar uma pergunta. A frase \u00e9: \u201cn\u00e3o tem como estancar esse sangue\u201d. X \u00e9 um personagem que sofre e se desespera muito ao longo do filme. Gostaria que voc\u00eas comentassem de que sangue \u00e9 esse que a gente est\u00e1 falando, que n\u00e3o pode ser estancado.<\/strong><br \/>\nNegro Leo: Isso a\u00ed \u00e9 a d\u00edvida impag\u00e1vel. Esse sangue que n\u00e3o pode ser estancado. A gente tem que falar muito, e falou muito sobre isso j\u00e1, cara. Sobre o fato de que o capitalismo promove a degrada\u00e7\u00e3o. A degrada\u00e7\u00e3o geral. E, naturalmente, com ele os desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos e a escassez. Ent\u00e3o, veja, acho que esse filme \u00e9 um pouco sobre isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Totalmente. Como \u00e9 que chama, Leo? Como \u00e9 que \u00e9 chamado? \u00c9 o capitalismo mercantil que fala, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Exatamente\u2026 como assim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: O nome, o nome sociol\u00f3gico que \u00e9 chamado\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Desde a passagem do capitalismo mercantil, escravista, at\u00e9 o capitalismo hoje, o capitalismo que a gente tem\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Essa d\u00edvida impag\u00e1vel vem desse\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Essa d\u00edvida impag\u00e1vel vem desde o processo, entendeu, do surgimento do sistema econ\u00f4mico. Ent\u00e3o, veja, a gente tem um sangue que, porra, como que se estanca esse sangue? Veja, \u00e9 o problema da paz perp\u00e9tua. N\u00e3o tem como. Quando ele diz: \u201cn\u00e3o tem como estancar esse sangue\u201d&#8230; ele viu do futuro? Sei l\u00e1 de onde ele viu. (enf\u00e1tico) Ele viu de agora! N\u00e3o tem como estancar esse sangue. \u201cN\u00e3o tem como ressuscitar animais da megafauna\u201d. N\u00e3o tem como isso ser sustent\u00e1vel. Voc\u00eas est\u00e3o viajando, sacou? Clones etc. Tudo bem. De alguma forma, tamb\u00e9m, o que acontece? N\u00e3o \u00e9 um papo de apocal\u00edptico integrado. \u00c9 um papo de, assim, qual \u00e9 a dele\u2026 o que que esse cara est\u00e1 dizendo? A\u00ed que eu te falo, o que ele diz do lugar da pessoa normal vivendo o mundo sendo afetada, sem ter condi\u00e7\u00e3o, talvez, de mexer, mas tamb\u00e9m, de alguma forma\u2026 por isso ele n\u00e3o \u00e9 esse her\u00f3i, ele \u00e9 um personagem evang\u00e9lico, porque o meu reino n\u00e3o \u00e9 desse mundo, de algum lugar. Quando ele\u2026 a ascese no final, aquela coisa, o \u201chomem livre\u201d, ele vive a vida dele, entendeu? Esse papo, entendeu? A coisa da fam\u00edlia, que no final, quando tem aquele enigma, que diz que se voc\u00ea afirmar\u2026 s\u00f3 se eu souber se \u00e9 verdadeiro ou falso\u2026 se eu n\u00e3o souber se \u00e9 verdadeiro ou falso\u2026 s\u00f3 assim voc\u00ea vai poder voltar pra sua fam\u00edlia. E ele faz a afirma\u00e7\u00e3o, que a cabe\u00e7a n\u00e3o sabe dizer se \u00e9 verdadeiro ou falso, ou seja, ele volta pra fam\u00edlia. Eu vinha conversando isso no carro com a minha filha ontem, ela perguntando: \u201cmas ele voltou pra fam\u00edlia dele?\u201d Eu falei, ele voltou porque ele acertou o enigma, mas ningu\u00e9m se liga no enigma. Foda-se, entendeu? (risos) Mas ele acertou o enigma, cara, ent\u00e3o ele voltou pra fam\u00edlia. E logo depois daquele sofrimento final, vem a ascese que o Greg estava dizendo. Ent\u00e3o, veja, como \u00e9 que esse sangue \u00e9 estancado? \u00c9 no outro mundo, porra? Meu reino n\u00e3o \u00e9 desse mundo? \u201cDai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar e a Deus o que \u00e9 de Deus\u201d? Eu n\u00e3o sei, mas esse filme coloca isso em alguma das camadas dele tamb\u00e9m. Voc\u00ea entende o que eu estou te falando? O sangue que n\u00e3o vai estancar, mas de qualquer maneira eu vou, eu vou me redimir. A mim mesmo. Eu vou encontrar. Saca? Tem isso, cara, tem isso tamb\u00e9m. Tem muita coisa a\u00ed, entendeu? O mundo\u2026 no filme tem isso, tem esse sofrimento, o sofrimento \u00e9 real, cara. Ele \u00e9 real. Aquela cena, minha filha at\u00e9 chorou. O Greg lembra disso. Fazendo aquela cena do choro, no espelho, no laser. Aquilo ali foi forte. E ontem na sala deu pra ouvir perfeitamente os gritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 meio compulsivo, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nNegro Leo: \u00c9 forte, cara, aquilo ali \u00e9 forte. Ou ele querer tocar\u2026 p\u00f4, tem uma coisa t\u00e3o bonita. Ele diz no in\u00edcio: \u201ceu s\u00f3 quero tocar piano pras pessoas\u201d, e tem um momento que ele est\u00e1 tocando. Tem beleza, sabe? Tamb\u00e9m tem uns lugares de uma beleza, tamb\u00e9m, da vida. At\u00e9 quase\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: O prazer dos sentidos, n\u00e9, Leo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: \u00c9, o prazer dos sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Exatamente. De tocar, de andar, de viver, conhecer as pessoas, de viver a jornada dele, a exist\u00eancia. Eu acho que o X tem uma intensidade muito forte, p\u00f4. A pele dele \u00e9 carne viva, n\u00e9? Ele \u00e9 muito sens\u00edvel. \u00c9 a l\u00f3gica das sensa\u00e7\u00f5es que ele carrega. E isso sempre tem um grande prazer, que \u00e9 o prazer dos sentidos, que voc\u00eas podem\u2026 eu nem estou falando do X agora, n\u00e3o, mas \u00e0s vezes voc\u00ea vai arrancar alguma coisa de uma vida, mas os sentidos continuam, de todas as vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que a gente pode esperar de futuras colabora\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nGregorio: A gente est\u00e1 terminando agora \u201cO Inspetor Geral\u201d, que est\u00e1 pra ser lan\u00e7ado logo, logo. Estou feliz demais na montagem, o Leo est\u00e1 fazendo trilha sonora, atua\u00e7\u00e3o. A gente est\u00e1 escrevendo um roteiro junto. Parceria total. Louco pra sentar com ele e a gente come\u00e7ar a escrever um pr\u00f3ximo roteiro, s\u00f3 digo isso. A gente j\u00e1 est\u00e1\u2026 as coisas est\u00e3o pedindo, n\u00e9, Leo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: Tem coisa vindo a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As colabora\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas, eu sei, mas voc\u00eas t\u00eam que voltar a dirigir junto.<\/strong><br \/>\nNegro Leo: N\u00e3o, depois do \u201cInspetor\u201d, que o Greg est\u00e1 dirigindo, e p\u00f4, esse filme est\u00e1 muito lindo e tal, a gente ainda tem um caminho ainda, uma jornada com trilha e tal. Bom, a gente com certeza vai fazer alguma coisa. A gente j\u00e1 est\u00e1 bolando, j\u00e1 est\u00e1 pensando e tal. J\u00e1 tem conversado. Mas tem que ser um passo de cada vez, n\u00e9, cara? Primeiro terminar as coisas que est\u00e3o urgindo e depois caminhar para as coisas novas, entendeu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio: Est\u00e1 come\u00e7ando a borbulhar, n\u00e9, Leo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negro Leo: \u00c9 isso, est\u00e1 come\u00e7ando a borbulhar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96883 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cartaz-oficial-Aquele-que-viu-o-abismo_em-baixa-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1091\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cartaz-oficial-Aquele-que-viu-o-abismo_em-baixa-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cartaz-oficial-Aquele-que-viu-o-abismo_em-baixa-1-206x300.jpg 206w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw2y1ecqCW_KBoFqtTKVBQEK\">@leandro_luz<\/a>) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a \u00e1rea de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programa\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de cr\u00edtica no\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/screamyell.com.br\/site\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw263alYeTRQy1GYVR0TXsQG\">Scream &amp; Yell<\/a>\u00a0e nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw1BTqnliQ9DvtqDHkpafqt5\">Tudo \u00c9 Brasil<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3TjpLW5o8SaVAAdNU3jD2Z\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3DtKMpqv1bp5QVCI6MvWbM\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Vencedor do Trof\u00e9u Carlos Reichenbach em Tiradentes, \u201cAquele Que Viu o Abismo\u201d \u00e9 uma mistura de noir com thriller pol\u00edtico, \u00e9 Godard e Humphrey Bogart ocupando o mesmo frame\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/07\/30\/entrevista-gregorio-gananian-e-negro-leo-falam-sobre-o-filme-aquele-que-viu-o-abismo-que-chega-ao-circuito-comercial\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":96888,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4,4833],"tags":[7017,1501],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96877"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96877"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96877\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96890,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96877\/revisions\/96890"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96877"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96877"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96877"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}