{"id":9675,"date":"2011-09-04T19:47:00","date_gmt":"2011-09-04T22:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9675"},"modified":"2020-08-04T00:01:54","modified_gmt":"2020-08-04T03:01:54","slug":"os-caminhos-do-novo-pop-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/09\/04\/os-caminhos-do-novo-pop-brasileiro\/","title":{"rendered":"Os caminhos do novo pop brasileiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9676\" title=\"eletronika1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/eletronika1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/vcunha\">Vladimir Cunha<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu e DJ Maluquinho, um dos inventores do tecnobrega, come\u00e7amos a encher a cara desde cedo. Da\u00ed o nosso estado prec\u00e1rio quando a Banda U\u00f3 subiu ao palco para encerrar o primeiro Eletronika Bel\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito estava come\u00e7ando a ficar meio perigoso, quase sem conseguir andar direito, trope\u00e7ando nas pr\u00f3prias pernas, mas esperto o suficiente para roubar umas latas de cerveja da \u00e1rea vip do festival quando se ligou que o bar ia fechar e perigava da birita j\u00e1 n\u00e3o rolar t\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nada que o impedisse de entrar de bic\u00e3o na discotecagem de Rodrigo Gorky, o gordinho nerd que descobriu que podia ser algu\u00e9m quando inventou o Bonde do Rol\u00ea e embalou o funk carioca para o resto do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bonde do Rol\u00ea, Banda U\u00f3&#8230; diversas encarna\u00e7\u00f5es da obsess\u00e3o de Gorky em dialogar com a m\u00fasica da periferia brasileira. Primeiro o funk. Depois o tecnobrega de camisas xadrez, bon\u00e9s de grife e bigodes propositalmente cafonas, como se tudo o que a m\u00fasica de massa brasileira j\u00e1 produziu terminasse em ironia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show acaba, mas ningu\u00e9m sai do palco. A discotecagem de Gorky come\u00e7a. Depois de um tempo sumido, Maluquinho d\u00e1 as caras novamente. Olho para o sujeito e penso \u201ccaralho, esse filho da puta t\u00e1 t\u00e3o doido que se mijou todo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQue porra foi essa, rap\u00e1?\u201d, pergunto.<br \/>\n\u201cO que?\u201d.<br \/>\n\u201cIsso a\u00ed na tua cal\u00e7a\u201d.<br \/>\n\u201cAh, porra, \u00e9 que deu merda\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pra minha surpresa, ele mete a m\u00e3o no bolso e tira uma lata de cerveja toda amassada, que havia acabado de estourar dentro das suas cal\u00e7as. Ele ri, bebe um resto que havia ficado no fundo e joga a lata no ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maluquinho pode at\u00e9 ser meio doido, mas n\u00e3o \u00e9 burro. Fica parado um tempo observando Gorky discotecar  e me pergunta de onde ele \u00e9. Digo que n\u00e3o sei. Maluquinho fica quieto. \u201cMila\u201d, hit dos meus tempos de ax\u00e9 no bloco do Shopping Picanha, causa uma como\u00e7\u00e3o inesperada e transforma a pista do Eletronika em uma micareta hipster.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPorra, Vladimir, tu sabe qual \u00e9 o problema desses DJs da burguesia?\u201d, me pergunta Maluquinho j\u00e1 emendando a resposta, \u201cO problema deles \u00e9 que eles n\u00e3o falam no meio da m\u00fasica. Eles n\u00e3o mexem com a galera, n\u00e3o mandam abra\u00e7o, n\u00e3o pedem palmas, n\u00e3o sabem interagir\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEnt\u00e3o vai l\u00e1 em cima e pega o microfone, porra\u201d, respondo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mal termino a frase e Maluquinho j\u00e1 est\u00e1 no palco. Dago Donato faz a ponte e logo parece que Maluquinho e Gorky s\u00e3o parceiros de longa data. O que era apenas uma discotecagem vira um acontecimento que dificilmente ser\u00e1 esquecido por quem foi \u00e0 primeira noite do Eletronika Bel\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porra, Maluquinho \u00e9 puta velha e sabe de tr\u00e1s para frente todos os truques que fazem a massa se remexer. Gorky entra na onda e manda umas bases espertas na medida para Maluquinho improvisar uns tecnobregas, mandar abra\u00e7os pras meninas, pros casados, pros solteiros, para as bichas e para as vadias. A rapaziada aprova a presepada e invade o palco. A temperatura sobe e a inibi\u00e7\u00e3o diminui. Meninas rebolam, um rapaz tira a roupa e fica s\u00f3 de cuecas. House vagabundo, Alceu Valen\u00e7a, Chiclete com Banana, funk carioca e tecnobrega. Gorky e Maluquinho no comando da sacanagem. \u00c9 hora de gritar \u201cvai, vai, vai\u201d. \u00c9 hora de rolar o treme-treme. \u00c9 hora do sexo e da safadeza. \u201cPega fogo cabar\u00e9\u201d, grita Maluquinho relembrando uma express\u00e3o antiga dos puteiros da zona bo\u00eamia de Bel\u00e9m. D\u00e1 certo. O cabar\u00e9 pega fogo e a festa vira uma zona. Eu roubo uma cerveja de Gorky e encontro Andr\u00e9 Paste emocionado por finalmente ver um astro tecnobrega em a\u00e7\u00e3o. Dago ensaia uns passos de dan\u00e7a. Um casal se joga no ch\u00e3o e simula uma cena de sexo. Bonde do Rol\u00ea e Banda U\u00f3 dan\u00e7am. Todas as conex\u00f5es poss\u00edveis que um festival como o Eletronika poderia supor sendo estabelecidas ali, naquele momento. Do palco, localizado de frente para a Ba\u00eda do Guajar\u00e1, vejo a zona portu\u00e1ria da cidade, o ber\u00e7o de todas as interse\u00e7\u00f5es culturais de Bel\u00e9m desde o final dos anos 50, quando os primeiros discos de merengue e os primeiros r\u00e1dios solid state chegaram \u00e0 cidade atrav\u00e9s da rota de contrabando estabelecida a partir do Caribe e das guianas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m ag\u00fcenta mais. Mentira, as pessoas ag\u00fcentariam sim. S\u00f3 que a festa precisa acabar. Maluquinho quer beber mais, puxa um bolo de notas de cem do bolso e sai perguntando onde d\u00e1 pra comprar u\u00edsque. Roubo a chave da sua moto e mando ele pegar um t\u00e1xi, j\u00e1 meio preocupado que aquela noite termine em trag\u00e9dia, afinal ningu\u00e9m quer assistir ainda ao nascimento do James Dean tecnobrega. O sal\u00e3o se esvazia aos poucos. Ir embora pra que? Mas j\u00e1 deu, daqui o pouco \u00e9 outro dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o seis da manh\u00e3 no mercado do Ver-O-Peso. Na Barraca da Carioca, espero ela fritar um fil\u00e9 de dourada enquanto bebo a \u00faltima cerveja da noite e a primeira da manh\u00e3. Os raios de sol come\u00e7am a aparecer por detr\u00e1s dos casar\u00f5es antigos do centro comercial de Bel\u00e9m quando uma discuss\u00e3o atrai a minha aten\u00e7\u00e3o. Dois feirantes brigam. O neg\u00f3cio fica feio, o clima pesa. Um feirante puxa uma faca peixeira e parte pra cima. Eu, que j\u00e1 me preparava para sangue, trag\u00e9dia e um corpo no local, respiro aliviado quando tudo o que rola \u00e9 bate-boca, \u00e2nimos apaziguados e a turma do deixa disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O clima volta ao normal e enquanto como o fil\u00e9 de dourada com uma providencial coca-cola fico pensando na noite de hoje e em uma frase que Marcos Maderito, principal MC da Gang do Eletro, havia falado horas antes enquanto debat\u00edamos o futuro do tecnobrega. \u201cA galera tem que se tocar que o futuro j\u00e1 est\u00e1 acontecendo\u201d, disse ele quando perguntado sobre a import\u00e2ncia do estilo hoje. Caralho, eu jamais achei que fosse viver para ver Marcos Maderito e William Gibson alinhados em uma mesma corrente de pensamento. Afinal foi o escritor canadense de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica quem disse, em 1993, que \u201co futuro j\u00e1 chegou\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na volta pra casa, largado no banco de tr\u00e1s do t\u00e1xi, fico ruminando a frase de Maderito. Penso nas implica\u00e7\u00f5es do futuro ser agora, da possibilidade de apropria\u00e7\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e apol\u00ednea na constru\u00e7\u00e3o de uma nova configura\u00e7\u00e3o de realidade mais dionis\u00edaca e interessante. Volto ao Ver-Peso, \u00e0 imagem de dois feirantes que comiam ao meu lado enquanto trocavam os \u00faltimos lan\u00e7amentos do tecnobrega via Bluetooth. \u00c9 um novo momento: malandro, sagaz e otimista, como Maluquinho e Maderito, e n\u00e3o pessimista e angustiado, como Bruce Sterling e William Gibson. O t\u00e1xi percorre as ruas do centro comercial de Bel\u00e9m. Vou levar pelo menos uns 40 minutos para chegar em casa. Mesmo b\u00eabado e cansado, ainda consigo me sentir feliz, com a certeza de que o futuro n\u00e3o \u00e9 mais como era antigamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-9677 aligncenter\" title=\"eletronika2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/eletronika2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"402\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/eletronika2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/eletronika2-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vladimir Cunha (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/vcunha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@vcunha<\/a>) \u00e9 jornalista, assina o blog <a href=\"http:\/\/tudojoia.blog.com\/\">Tudo J\u00f3ia<\/a> e \u00e9 um dos diretores do document\u00e1rio <a href=\"http:\/\/www.greenvision.com.br\/2009\/brega-sa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cBrega S\/A\u201d <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Vladimir Cunha\nSegundo Marcos Maderito, principal MC da Gang do Eletro, \u201cO futuro j\u00e1 est\u00e1 acontecendo\u201d. 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