{"id":96710,"date":"2026-07-17T00:15:26","date_gmt":"2026-07-17T03:15:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=96710"},"modified":"2026-07-17T00:19:05","modified_gmt":"2026-07-17T03:19:05","slug":"entrevista-marcelia-cartaxo-fala-de-a-hora-da-estrela-filme-que-lhe-rendeu-um-urso-de-prata-no-festival-de-berlim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/07\/17\/entrevista-marcelia-cartaxo-fala-de-a-hora-da-estrela-filme-que-lhe-rendeu-um-urso-de-prata-no-festival-de-berlim\/","title":{"rendered":"Entrevista: Marc\u00e9lia Cartaxo fala de \u201cA Hora da Estrela\u201d, filme de Suzana Amaral que lhe rendeu um Urso de Prata em Berlim"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/frankarbone\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Francisco Carbone<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a>, do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tudoebrasilpod\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tudo \u00c9 Brasil<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No top 1 da <a href=\"https:\/\/telabrasil.cultura.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tela Brasil<\/a>, plataforma de streaming gratuita brasileira, desde que ela foi lan\u00e7ada no dia 30 de maio de 2026, o longa-metragem \u201c<a href=\"https:\/\/telabrasil.cultura.gov.br\/assistir\/737\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Hora da Estrela<\/a>\u201d segue encontrando o seu p\u00fablico 41 anos depois de sua estreia no Festival de Bras\u00edlia, em 1985, do qual saiu totalmente premiado: recebeu o trof\u00e9u candango de melhor filme, melhor dire\u00e7\u00e3o para Suzana Amaral, melhor atriz para Marc\u00e9lia Cartaxo, melhor ator para Jos\u00e9 Dumont, melhor fotografia para Edgar Moura e melhor montagem para Id\u00ea Lacreta. Al\u00e9m disso, a obra fez hist\u00f3ria no Festival de Berlim no ano seguinte, recebendo o Urso de Prata de melhor atriz para Cartaxo, paraibana que interpretou a inesquec\u00edvel protagonista Macab\u00e9a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O carinho pelo qual os brasileiros demonstram por \u201cA Hora da Estrela\u201d impressiona. A dura e triste hist\u00f3ria de vida da jovem nordestina que \u00e9 datil\u00f3grafa, virgem e gosta de Coca-Cola, e tenta a vida na cidade grande &#8211; Rio de Janeiro, na novela original escrita por Clarice Lispector (1977), e S\u00e3o Paulo, na adapta\u00e7\u00e3o da diretora Suzana Amaral (1985) &#8211; \u00e9 ovacionada h\u00e1 d\u00e9cadas, tanto na literatura quanto no cinema. A despeito das muitas diferen\u00e7as entre o livro e o filme, \u00e9 curioso observar como ambas as obras ainda possuem uma for\u00e7a tremenda, n\u00e3o \u00e0 toa \u00e9 a mais vendida de Lispector e, no cinema, sobretudo considerando obras dirigidas por mulheres, \u00e9 sempre uma das mais lembradas em listas e retrospectivas. O sucesso do filme, na ocasi\u00e3o de seu relan\u00e7amento em 4k nas salas de cinema, em 2024, pela Sess\u00e3o Vitrine Petrobras, e a perpetua\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a do t\u00edtulo na Tela Brasil s\u00e3o indicativos desse sucesso e dessa conex\u00e3o com o p\u00fablico brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importante salientar que a Tela Brasil \u00e9 a <a href=\"https:\/\/telabrasil.cultura.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">plataforma p\u00fablica de difus\u00e3o audiovisual<\/a> do Minist\u00e9rio da Cultura (MinC). Com tantos streamings popularizados no pa\u00eds que pouco conferem aten\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o nacional &#8211; algo que tem sido muito debatido pelo campo e que precisa urgentemente passar por uma dura regula\u00e7\u00e3o &#8211; se tornou imprescind\u00edvel uma a\u00e7\u00e3o que viesse para mitigar essa lacuna. Desenvolvida para ampliar o acesso da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s produ\u00e7\u00f5es brasileiras, a Tela Brasil \u201cre\u00fane filmes, s\u00e9ries, document\u00e1rios e conte\u00fados educativos nacionais, valorizando a diversidade cultural e promovendo o fortalecimento do setor audiovisual no pa\u00eds\u201d, de <a href=\"https:\/\/telabrasil.cultura.gov.br\/faq\/info\/2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">acordo com a pr\u00f3pria plataforma<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_96713\" aria-describedby=\"caption-attachment-96713\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-96713\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcela2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcela2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcela2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96713\" class=\"wp-caption-text\"><em>Marc\u00e9lia Cartaxo em cena de &#8220;A Hora da Estrela&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o Minist\u00e9rio da Cultura, a plataforma, que conta com mais de 500 obras audiovisuais dispon\u00edveis em cat\u00e1logo, j\u00e1 registrou mais de 4 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es e est\u00e1 com mais de 600 mil usu\u00e1rios ativos. No come\u00e7o de julho foi lan\u00e7ado o aplicativo para dispositivos m\u00f3veis com sistemas operacionais Android e iOS e as pr\u00f3ximas atualiza\u00e7\u00f5es incluem o lan\u00e7amento de um aplicativo dedicado a smart TVs e a disponibiliza\u00e7\u00e3o de uma ferramenta para download, que permitir\u00e1 aos usu\u00e1rios assistir aos conte\u00fados de forma offline.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marc\u00e9lia Cartaxo \u00e9 uma pe\u00e7a-chave na hist\u00f3ria da adapta\u00e7\u00e3o de \u201cA Hora da Estrela\u201d. No in\u00edcio dos anos 1980, enquanto circulava pelo Brasil com a pe\u00e7a \u201cBei\u00e7o de Estrada\u201d, na qual interpretava uma jovem na esperan\u00e7a de firmar um bom casamento, a diretora Suzana Amaral, ent\u00e3o em prepara\u00e7\u00e3o de seu primeiro longa-metragem, enxergou essa personagem, essa atua\u00e7\u00e3o de Cartaxo como algo que se encaixava perfeitamente no que ela buscava para a sua Macab\u00e9a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suzana Amaral era uma mulher na casa de seus 30 e tantos anos quando, em 1968, decidiu prestar vestibular para Cinema e TV na USP. Uma carreira no cinema, desejada desde a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, que come\u00e7a quando Amaral j\u00e1 era m\u00e3e de 9 filhos. Trabalhou na TV Cultura como rep\u00f3rter de rua, fazendo programas especiais e, a partir de meados de 1970, colocou na cabe\u00e7a que queria fazer fic\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m de curtas-metragens, de document\u00e1rios realizados para a TV e de miniss\u00e9ries, Suzana Amaral dirigiu tr\u00eas longas-metragens de fic\u00e7\u00e3o at\u00e9 a sua morte, em junho de 2020: \u201cA Hora da Estrela\u201d (1985), \u201cUma Vida em Segredo\u201d (2001, adaptado da obra de Autran Dourado) e \u201cHotel Atl\u00e2ntico\u201d (2009, adaptado da obra de Jo\u00e3o Gilberto Noll). Era uma cineasta de muitas ambi\u00e7\u00f5es e projetos &#8211; apesar da curta filmografia, ela dizia constantemente, em entrevistas, que tinha dezenas de projetos e roteiros escritos ao longo da vida, descontinuados por diversas raz\u00f5es, mas, sobretudo, pela dificuldade de encontrar financiamento em meio ao caos e \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas para a cultura no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta \u00e0 Marc\u00e9lia Cartaxo, cujo longo relato nesta entrevista d\u00e1 conta desses diversos obst\u00e1culos pelos quais passam boa parte dos artistas brasileiros, somos surpreendidos com uma mente inquieta, de mem\u00f3ria poderosa, de uma mulher de 62 anos de idade com uma bela carreira ainda em constru\u00e7\u00e3o, a julgar pelos in\u00fameros projetos como atriz, como roteirista e como diretora que ainda est\u00e3o por vir e que ela nos relata, com muita vivacidade, na conversa a seguir.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A HORA DA ESTRELA - Trailer\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lOxK50kbVNQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marc\u00e9lia, \u00e9 uma honra conversar com voc\u00ea.<\/strong><br \/>\nOlha, eu que tenho essa honra de poder conversar com voc\u00eas e falar de um projeto t\u00e3o lindo\u2026 40 anos e a gente percebe que ele est\u00e1 bem atual, que as nossas lutas se mant\u00eam, porque \u201cA Hora da Estrela\u201d diz muita coisa, a Macab\u00e9a tamb\u00e9m. E homenagear a Suzana Amaral, que n\u00e3o est\u00e1 aqui para poder falar lindamente do seu projeto, e a Clarice Lispector tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostar\u00edamos que voc\u00ea nos contasse sobre a sua forma\u00e7\u00e3o em Cajazeiras. Como foi o seu encontro com a Suzana Amaral ainda no in\u00edcio dos anos 1980 e como essa tradi\u00e7\u00e3o educacional da cidade impactou na sua vida e na sua carreira?<\/strong><br \/>\nEu nasci em Cajazeiras, na Para\u00edba. Sou filha de costureira e de agricultor. A gente morava numa rua chamada Higino Rolim, e foi a partir dessa rua, onde tinha muitas crian\u00e7as ociosas, cheias de energia\u2026 e a cidade \u00e9 muito bonita, ela tem um balde do a\u00e7ude, ela tem um p\u00f4r-do-sol que a gente assistia l\u00e1 da minha rua, e naquela \u00e9poca tinha muitos parques de divers\u00f5es que se armavam no final da rua. E foi assim que eu cresci, subindo e descendo essa rua, uma rua muito familiar, e aos poucos a gente foi embalado por uma gera\u00e7\u00e3o nova, que tamb\u00e9m tinha muito essa&#8230; \u00e2nsia da arte, que a gente fazia arte popular, o Carnaval, o S\u00e3o Jo\u00e3o, a paix\u00e3o de Cristo, e nesses tempos ociosos a gente brincava muito na rua. Muita bola, muita correria para l\u00e1 e pra c\u00e1, muitas brincadeiras de roda, e muita aprecia\u00e7\u00e3o naquele balde do a\u00e7ude, a gente tomava banho naquele a\u00e7ude, que era muito bom, muito gostoso. Um pouco mais na frente a gente come\u00e7ou a brincar de teatrinho na rua, brincava no reguinho da cal\u00e7ada, passava ali aquela pequena linha de esgoto no rego da cal\u00e7ada, a gente fazia muitas brincadeiras de barquinho e a criatividade n\u00e3o faltava. Quem lembra de todas aquelas brincadeiras de pi\u00e3o, de bola\u2026 e tudo isso a gente apreciou. Mas, quando o parque de divers\u00e3o ia embora, ficava aquele buraco, que era uma alegria muito contagiante, porque, a princ\u00edpio, tinha aquele som bem alto, aquelas luzes, aqueles brinquedos, aqueles jogos, e a criatividade da gente era imensa, porque naqueles jogos do parque, o dinheiro da gente era a carteira de cigarro. Quem tinha a carteira de cigarro mais cara era mais rico, n\u00e9? Porque nessa rua a gente tinha de vendedor de picol\u00e9 \u00e0 prostituta. Mas tinha uma fam\u00edlia que tinha l\u00e1 a sua \u00f3tica, tinha l\u00e1 os advogados, os m\u00e9dicos e tamb\u00e9m muitas gera\u00e7\u00f5es que cresceram ali junto com a gente e aos poucos a gente foi indo para o quintal. No quintal a gente fazia aquelas pe\u00e7as de teatro, de Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, os contos de fada\u2026 eram fases, que a gente ia amadurecendo. Nessa \u00e9poca, a universidade l\u00e1 em Cajazeiras estava despontando, porque tinha \u00e1reas de humanas, Geografia, Hist\u00f3ria, todas aquelas coisas da pasta humanista. E a partir dali eles come\u00e7aram tamb\u00e9m a fazer uma semana universit\u00e1ria, na qual eles traziam todo tipo de arte, que era o teatro, o cinema, as artes pl\u00e1sticas, a feirinha na rua, o teatro na rua, e passava o dia todo a quest\u00e3o art\u00edstica acesa na nossa cidade. Era uma semana, a gente passava um ano esperando por esse movimento. E a gente ia pro quintal se organizar para poder ter sempre uma pe\u00e7a em movimento. Tinha tamb\u00e9m umas coisas, assim, que era disputa de rua. As crian\u00e7as tamb\u00e9m se manifestavam para vivenciar essas brincadeiras, e com essas disputas, a gente\u2026 o teatro, a dan\u00e7a, elas se expandiram mais no nosso grupo, que foi permanecendo. E numa semana universit\u00e1ria dessas, o Luiz Carlos Vasconcelos foi participar de um desses encontros universit\u00e1rios, e ele ia com Xuxu, que era o palha\u00e7o que ele tinha, levava muita bagagem, porque o Luiz Carlos tem uma forma\u00e7\u00e3o muito grande na \u00e1rea de teatro, e ele trazia bagagem de Eugenio Barba, trazia bagagem de muitas viagens que ele fazia pro Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Fran\u00e7a, Bras\u00edlia\u2026 e ele abriu uma escola em Jo\u00e3o Pessoa chamada Piollin. L\u00e1, ele armou o circo dele, tinha o circo e v\u00e1rios artistas que vinham de v\u00e1rios lugares se hospedar nesse lugar que Luiz Carlos ocupou em Jo\u00e3o Pessoa, para poder ter esse espa\u00e7o. E numa dessas viagens, em Cajazeiras, ele conheceu o grupo da gente, que a gente na \u00e9poca estava com uma pe\u00e7a chamada Seca, que era inspirada naquela m\u00fasica de Luiz Gonzaga, \u201cAsa Branca\u201d, e a partir daquela m\u00fasica a gente criou uma pe\u00e7a de teatro. E a gente tinha tamb\u00e9m no grupo um diretor chamado Eliezer Filho que era muito inteligente, e enquanto Eliezer, o irm\u00e3o e a irm\u00e3 ficavam na \u00e1rea, ali, lendo um livro dessa grossura, a gente ficava virando bicho na rua, brincando, criando, e quando a gente voltava para o quintal, Eliezer escrevia a m\u00e3o as pe\u00e7as e depois emprestava esse caderno a cada um de n\u00f3s para decorar os seus pap\u00e9is e depois a gente ia pro quintal ensaiar. Era muita confus\u00e3o na rua, porque a gente tinha que enfrentar os pais da gente, que interferiam. A gente pegava as coisas de casa e levava para a pe\u00e7a, e quando os pais da gente iam assistir, diziam: \u201cah, aquela toalha de mesa, de jeito nenhum, aquilo ali eu comprei e n\u00e3o \u00e9 pra usar assim, n\u00e3o\u201d. A\u00ed os pais interferiam nessas brincadeiras, porque a gente trazia tudo de casa. A gente fazia jogo de luz com aquelas latas de leite, pintava, fazia os nossos cen\u00e1rios. Toda criatividade manual. E era o que a gente aprendia. E no grupo tinha o bilheteiro, tinha o porteiro. A gente se revezava entre fazer os personagens e fazer essas coisas tamb\u00e9m, o iluminador\u2026 e sempre tinha essas confus\u00f5es. A gente tamb\u00e9m brincava com essas confus\u00f5es, porque quando a gente fazia as viagens, a\u00ed um n\u00e3o queria levar o cen\u00e1rio, s\u00f3 queria levar a sua mala\u2026 a\u00ed quando pintava um dinheirinho, uma miariazinha, a gente fazia confus\u00e3o por esse dinheiro que pintava. E a\u00ed o grupo foi se expandindo. Com essa entrada do Luiz Carlos, com a interfer\u00eancia do Luiz Carlos, a gente teve muitas orienta\u00e7\u00f5es. Naquela \u00e9poca ele dizia: \u201cvoc\u00eas est\u00e3o fazendo arte, voc\u00eas est\u00e3o fazendo teatro\u2026 \u00e9 muito profundo, porque s\u00e3o crian\u00e7as, sabe\u2026 e isso \u00e9 extremamente importante, porque \u00e9 isso que vai\u2026 voc\u00eas v\u00e3o dar um passo muito grande\u201d. E ele \u00e0s vezes ia l\u00e1, mexia na pe\u00e7a da gente, afinava uma coisa, afinava outra, at\u00e9 que um dia ele resolveu levar a gente para esse encontro na Escola Piollin, e l\u00e1 a gente recebeu muitas orienta\u00e7\u00f5es, porque ele levou v\u00e1rios grupos da Para\u00edba, que era de Cajazeiras, Pombal, Sousa, Guarabira, e com isso a gente teve essa prepara\u00e7\u00e3o de voz, de corpo, de interpreta\u00e7\u00e3o, de improvisa\u00e7\u00e3o. E l\u00e1, quando a gente tava, tamb\u00e9m fazia o trabalho dele. Ele criava uma pe\u00e7a na qual ele englobava todos, todos os elementos melhores do grupo. Ele escolhia os melhores para participar, fazer aquele papel, fazer outro. Ele criou uma pe\u00e7a de teatro chamada \u201cOs Pirralhos\u201d, que as prostitutas ficavam \u00e0 margem e os filhos das prostitutas\u2026 eles queriam fazer uma f\u00e1brica para poder pegar essas prostitutas para trabalhar na f\u00e1brica e botar os filhos tamb\u00e9m para trabalhar. E como os meninos eram crian\u00e7as, na \u00e9poca a gente era tudo crian\u00e7a, e a gente tem uma descend\u00eancia um pouco de judeu, que a gente \u00e9 aquelas crian\u00e7as muito cuidadas e avan\u00e7adas, mas muito mirrada, tudo magro, tudo&#8230; a gente demorou tamb\u00e9m a ser adulto. E foi a partir da\u00ed, tamb\u00e9m, que a gente come\u00e7ou a sentir a necessidade de escrever os nossos pr\u00f3prios textos, come\u00e7ar a falar coisas mais s\u00e9rias, como o misticismo religioso, a prostitui\u00e7\u00e3o, o barraco, a mis\u00e9ria, que era o que a gente via na nossa cidade. E foi a partir da\u00ed que a gente escreveu\u2026 que Eliezer e o grupo\u2026 escrevemos muitas pe\u00e7as dessas quest\u00f5es sociais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96715 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia3-300x212.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia3-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea vai para Jo\u00e3o Pessoa, com o Luiz Carlos Vasconcelos, \u00e9 a primeira vez que voc\u00ea vai para a capital?<\/strong><br \/>\n\u00c9 a primeira vez que o grupo vai. Essa primeira gera\u00e7\u00e3o, que era da fam\u00edlia dos Lira\u2026 os Lira j\u00e1 tinham os filhos mais velhos, \u00e9 uma fam\u00edlia que tem nove filhos. Os mais velhos j\u00e1 moravam l\u00e1, porque estudavam na universidade, andavam l\u00e1 na escola Piollin, para tamb\u00e9m ensinar a gente. E os mais novos ficavam\u2026 que eram a Soia, Nanego, Paula, Salvinho, esses meninos ficavam, mas como a gente j\u00e1 estava na fase de amadurecimento e, por exemplo, quando eu sa\u00ed para fazer \u201cA Hora da Estrela\u201d, eu j\u00e1 estava me preparando para fazer vestibular. Era a minha primeira prova de vestibular, e eu era a \u00fanica que n\u00e3o tinha nenhuma possibilidade de sair de Cajazeiras, porque eu n\u00e3o tinha fam\u00edlia, assim, que ia me (dar apoio financeiro)\u2026 para poder estudar l\u00e1. Eu ficava muito na aba da fam\u00edlia dos Lira, achando que, como a fam\u00edlia era grande, e eles moravam no Altiplano, que era um bairro que ainda estava come\u00e7ando, era um bairro que tinha casas populares, e eu via que n\u00e3o tinha possibilidade de entrar nessa fam\u00edlia porque j\u00e1 era numerosa. Eu fui criada muito presa. A minha m\u00e3e, era muito dif\u00edcil de deixar eu sair para qualquer lugar. Tinha que batalhar muito, tinha que fazer muita coisa escondida. Eu apanhei muito tamb\u00e9m por conta dessas coisas, de desobedecer, de querer ir para as casas, de querer brincar no quintal, porque minha m\u00e3e dizia: \u201cn\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o vai ser prostituta, voc\u00ea \u00e9 de fam\u00edlia\u201d. Ela tinha muito medo, os pais tinham muito medo, porque naquela \u00e9poca n\u00e3o era como os dias de hoje. Naquela \u00e9poca a comunica\u00e7\u00e3o era diferente, e os pais tinham que ficar muito atentos a essas coisas, porque qualquer coisa desandava a gente. Luiz Carlos batalhou muito, a gente teve que estudar bastante para poder dar conta da escola e n\u00e3o levar pau\u2026 e as coisas iam se complicando. Depois que a gente conheceu o Luiz Carlos, a gente passou um ano inteiro preparando uma pe\u00e7a para poder n\u00e3o perder essa oportunidade da viagem, de ir para Jo\u00e3o Pessoa, mas foi com a escola Piollin que eu tive a primeira oportunidade de conhecer, de fazer uma viagem dessa e de sair\u2026 e sair porque era com o grupo. Teve uma \u00e9poca que o teatro, eu acho que era 1980, na \u00e9poca, por a\u00ed, que o teatro era muito, muito&#8230; eu acho que era a maior a\u00e7\u00e3o cultural que a gente tinha, o teatro nessa \u00e9poca. A televis\u00e3o era em preto e branco, eu acho que ela j\u00e1 estava mudando, mas assim, eu n\u00e3o tive&#8230; a gente n\u00e3o teve muito televis\u00e3o, a gente n\u00e3o tinha televis\u00e3o em casa. A televis\u00e3o s\u00f3 entrou em casa quando aquela preto e branco j\u00e1 n\u00e3o era mais nada. A televis\u00e3o colorida s\u00f3 entrou em casa quando j\u00e1 estava na liquida\u00e7\u00e3o total desses aparelhos. A gente n\u00e3o tinha muita oportunidade de\u2026 a gente assistia nas casas, ficava um tempo na janela das casas, assistindo televis\u00e3o. Teve uma \u00e9poca que tinha um projeto muito bonito que nasceu, acho que no Rio de Janeiro, e se expandiu um pouco para as grandes capitais, um projeto que se chamava \u201cMambemb\u00e3o\u201d. Os melhores espet\u00e1culos do Sul vinham para o Nordeste e os melhores espet\u00e1culos do Nordeste iam para o Sul. Nessa \u00e9poca a gente estava com a pe\u00e7a \u201cBei\u00e7o de Estrada\u201d, de Eliezer, e a gente j\u00e1 tinha passado tamb\u00e9m pela escola Piollin e a\u00ed a pe\u00e7a estava muito bem afinada, junto com o Eliezer, com o Luiz Carlos e todo grupo, e a\u00ed a gente apresentou\u2026 nessa \u00e9poca tinha at\u00e9 tamb\u00e9m um pouco a quest\u00e3o da censura. E foi a\u00ed que a gente foi representando a Para\u00edba nesse projeto. Porque tinha projetos de Recife, de Alagoas, de Sergipe, da Bahia, e l\u00e1 no Rio de Janeiro eram grupos que vinham de Porto Alegre, de Curitiba, de Bras\u00edlia, do Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. E esse interc\u00e2mbio era muito bacana, sabe? Nessa \u00e9poca era um movimento art\u00edstico muito especial. Nessa \u00e9poca, Suzana estava procurando uma atriz para fazer um filme. E ela assistia todas as pe\u00e7as que vinham do Nordeste. E era tamb\u00e9m numa \u00e9poca que a Embrafilme estava acabando. E ela dizia: \u201ceu estou procurando uma atriz para fazer um filme\u201d. E o grupo todo se manifestou, ficou todo mundo feliz, todo mundo alegre: \u201ca gente vai fazer um filme no Rio de Janeiro\u201d. A gente apresentava tr\u00eas dias. Um dia ela veio s\u00f3 para ver a pe\u00e7a. No outro dia ela veio para trazer um livro, \u201cA Hora da Estrela\u201d. E no outro dia ela veio mesmo para me abordar. Para dizer que tinha gostado da pe\u00e7a, tinha gostado do meu personagem, e que me achava, assim, muito incr\u00edvel. Porque eu era muito contida, n\u00e3o tinha gestos largos, que eu falava com os olhos, falava com muito sentimento. Foi muito incr\u00edvel, porque eu n\u00e3o botava f\u00e9 de que eu ia fazer um filme. Eu achava que era um movimento do grupo, que era um movimento pra todo mundo, n\u00e9, que ia participar, fazer esse projeto, como era o desejo do grupo. A\u00ed a gente viveu essas coisas, fizemos todas essas apresenta\u00e7\u00f5es nesses lugares. Foi a primeira vez que a gente saiu para conhecer o Brasil. A gente passou por Bras\u00edlia, Curitiba, Porto Alegre, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, e foi uma alegria imensa. E quando a gente chegou em S\u00e3o Paulo, a gente conheceu a Rosi Campos. A Rosi aconselhou a gente a ficar um tempo mais, para ter mais apresenta\u00e7\u00f5es no sul, e levou a gente para o festival de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto. E com isso a gente precisou ficar alojado, acho que uns tr\u00eas, quatro dias na casa dela. Ela botou essa meninada toda, eram mais ou menos umas quinze pessoas. Luiz Carlos estava junto, Buda Lira tamb\u00e9m estava junto para poder acompanhar a gente. Porque era uma negocia\u00e7\u00e3o com os pais da gente, que tinha que ter gente respons\u00e1vel para poder viajar. E foi assim que o grupo foi se expandindo. A gente fez uma apresenta\u00e7\u00e3o muito linda em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto. Tanto que muitas outras vezes o grupo voltou a participar desse festival, mas j\u00e1 sem a minha presen\u00e7a, porque j\u00e1 estava\u2026 quando a gente voltou para a Cajazeiras, depois desse \u201cboom\u201d todo, de ter passado por esse Mambemb\u00e3o\u2026<\/p>\n<figure id=\"attachment_96716\" aria-describedby=\"caption-attachment-96716\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-96716 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96716\" class=\"wp-caption-text\"><em>Marc\u00e9lia Cartaxo em cena de &#8220;A Hora da Estrela&#8221; com Jos\u00e9 Dumont<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como o m\u00e9todo de trabalho com a Suzana Amaral influencia o seu trabalho ainda hoje?<\/strong><br \/>\nUm m\u00eas depois, Suzana Amaral escreve a primeira carta. Eu peguei a carta, corri, fui l\u00e1 mostrar para um amigo meu no grupo. Ele disse: \u201cn\u00e3o, calma, porque s\u00f3 tem\u2026 essa carta s\u00f3 chegou para voc\u00ea. E a\u00ed eu fui aos poucos percebendo que ela queria que eu que fizesse a Macab\u00e9a, o personagem. E aos poucos ela foi me dirigindo, em outras cartas. Ela escreveu oito cartas. E foi me dirigindo. Eu tive problemas com a minha fam\u00edlia para poder sair, porque a minha m\u00e3e n\u00e3o queria de jeito nenhum que eu fosse viajar, principalmente sozinha para S\u00e3o Paulo, n\u00e9? Se fosse com o grupo, com a filha de Maria Lira, com a filha de Raul Mita e outras pessoas, a\u00ed tudo bem, mas sozinha, n\u00e3o. Foi uma confus\u00e3o para poder sair de Cajazeiros. Depois o grupo ficou muito enciumado, porque eles achavam que era minha culpa, porque eu n\u00e3o queria levar ningu\u00e9m, eu queria ir sozinha. E foi uma grande maturidade do grupo. E aos poucos eles foram me abandonando. Eles passaram cinco anos sem falar comigo. E aos poucos foi chegando os Lira, foi chegando o pessoal, mas foi assim\u2026 umas coisas vividas, apesar de ser muito intensa, mas foram um pouco dolorosas, pelo fato de\u2026 das consequ\u00eancias de tudo isso. E Suzana Amaral foi muito legal, falou com a minha m\u00e3e, que ela n\u00e3o se preocupasse porque ela que ia cuidar de mim. E embora a comunica\u00e7\u00e3o naquela \u00e9poca fosse muito dif\u00edcil, porque na hora de falar com Suzana, tive que levar a minha m\u00e3e para as casas onde tinha telefone e \u00e0s vezes tinha que levar pro orelh\u00e3o, porque a gente n\u00e3o tinha essas coisas em casa. Mas foi muito incr\u00edvel, porque todo esse processo me fez fazer um personagem que tudo que eu buscava estava ali, estava ali na minha hist\u00f3ria, estava ali na minha vida. At\u00e9 mesmo a quest\u00e3o da solid\u00e3o, do medo, da inseguran\u00e7a, estava tudo ali. E depois tinha uma aproxima\u00e7\u00e3o muito grande do personagem que eu fazia na pe\u00e7a de Eliezer, que era V\u00e9u de Noiva, a \u00faltima filha que morava na beira da estrada, e essa filha tinha que se casar e essa fam\u00edlia era renegada pela sociedade, n\u00e3o podia entrar na cidade, n\u00e3o podia ir para a igreja, n\u00e3o podia participar da prociss\u00e3o. E a\u00ed a velha, com todo sacrif\u00edcio, que S\u00f4nia Lira fazia muito bem, tinha uma mazela na perna, botava uma pedra na cabe\u00e7a e ia para a prociss\u00e3o para poder a filha se casar e tirar toda a fam\u00edlia do fogo do inferno, que era da prostitui\u00e7\u00e3o. Era muito lindo ver essa crian\u00e7ada toda fazendo e a gente fazendo com muito amor, muita emo\u00e7\u00e3o e abra\u00e7ando a arte. Suzana Amaral captou tudo isso. Na \u00faltima carta, ela manda a passagem, que foi, assim, o \u00e1pice do neg\u00f3cio. Porque foi mais ou menos esse dia que eu estava contando \u00e0 minha m\u00e3e, que a passagem ia chegar e que eu precisava ir, e que ela tinha que deixar porque era uma oportunidade que eu tinha, uma oportunidade \u00fanica. Procurei muita gente na cidade para poder falar com ela, para poder ela baixar a guarda. Ela chorava muito, porque ela tinha muito medo. As not\u00edcias que vinham daquele lugar eram not\u00edcias muito pesadas, de coisas que a gente ouvia no r\u00e1dio, os notici\u00e1rios. Ent\u00e3o, acaba que ela, com muito sentimento, acabou deixando ir, e fez um pijama para eu n\u00e3o passar frio, comprou uma malinha pequenininha, uma n\u00e9cessairezinha para poder levar frango, farofa, coisas para comer na estrada, p\u00e3o, bolacha, frutas. Eu sa\u00ed dali arrasada. Eu me lembro como se fosse hoje, sa\u00ed dali muito arrasada, com medo, mas enfrentando, n\u00e9? Porque achava\u2026 a minha imagina\u00e7\u00e3o l\u00e1 do outro lado era completamente diferente. A\u00ed eu fiz a viagem. Suzana Amaral disse: \u201cn\u00e3o, eu n\u00e3o vou mandar passagem de avi\u00e3o, vou mandar passagem de \u00f4nibus, que \u00e9 para poder voc\u00ea sentir o personagem, voc\u00ea ver as Macab\u00e9as, voc\u00ea fazer essa viagem de tr\u00eas dias\u201d. E foi assim que eu fui. Quando eu cheguei na rodovi\u00e1ria em S\u00e3o Paulo, Suzana Amaral n\u00e3o estava, demorou essa comunica\u00e7\u00e3o. E aos poucos\u2026 eu ficava nervosa, com a mala na m\u00e3o, pra l\u00e1 e pra c\u00e1, demorou quase uma meia hora\u2026 porque eu achava que ia descer do \u00f4nibus e j\u00e1 ia dar de cara com ela, n\u00e9? E foi tamb\u00e9m aquela \u00fanica vez que eu tinha visto ela. Foram aqueles dias que eu estava ali, aqueles tr\u00eas dias que ela chegou ali. De repente chega Cac\u00e1, filha dela, com uma plaquinha, o nome \u201cMarc\u00e9lia\u201d, a\u00ed eu corri e abracei Cac\u00e1 e disse (entusiasmada): \u201coi, sou eu, sou Marc\u00e9lia!\u201d. A\u00ed ela me levou para casa de Suzana, fiquei um tempo, uma semana l\u00e1, e depois elas resolveram fazer um teste. Foi a minha maior decep\u00e7\u00e3o, porque eu n\u00e3o tinha ido para fazer o teste, j\u00e1 tinha ido para\u2026 porque quando essas cartas chegavam, eu me preparava em casa. Eu ia para o espelho, falava. Os di\u00e1logos que tinha no livro, n\u00e9? Falava as coisas que Suzana Amaral me dirigia, no livro. Pedia para que eu fosse na rua, andar, conhecer as Macab\u00e9as. Pediu para eu fazer uma camisola, que \u00e9 aquela camisola que eu visto, que uso l\u00e1 no filme, para poder fazer as cenas. E ela botou uma coisa, assim, muito linda nas cartas, ela dizia: \u201colha, observa&#8230; muita concentra\u00e7\u00e3o\u201d. Porque, para ela dizer tudo isso, \u00e9 porque o personagem era mais pra dentro do que pra fora, do que essa euforia da gente, tem os movimentos mais amplos, tem esse movimento mais dilatado, n\u00e9? Ela ia falando do personagem e dizia assim: \u201colha&#8230; concentra\u00e7\u00e3o, quando voc\u00ea for come\u00e7ar a ler o livro, voc\u00ea pare, respire, respire muito, fique ali uns cinco minutos\u2026 \u00e9 para voc\u00ea se concentrar, ficar pensando na Macab\u00e9a, nas coisas dela, nas pessoas que ela vai encontrar, no Ol\u00edmpico, na Gl\u00f3ria, na cartomante, nas Marias, no seu Raimundo\u201d; ela ficava dizendo isso nas cartas. \u201cE depois voc\u00ea&#8230; observe, voc\u00ea depois vai dar uma volta na rua para observar as Macab\u00e9as, como \u00e9 que elas andam, como \u00e9 que elas falam, como \u00e9 que elas respiram, como \u00e9 que elas sentem\u2026 s\u00f3 observar, \u00e9 s\u00f3 olhar\u2026 depois tem a quest\u00e3o da mem\u00f3ria da emo\u00e7\u00e3o, aquelas coisas que voc\u00ea viveu na sua pe\u00e7a, quando estava naqueles momentos dif\u00edceis, por exemplo, que voc\u00ea sonhava, que aquele sonho todo se acabou, e a\u00ed voc\u00ea ficou muito sentida\u2026 ou alguma coisa que tocou muito voc\u00ea e que mexe com seus sentimentos\u201d. A\u00ed ela disse: \u201cmem\u00f3ria corp\u00f3rea\u2026 \u00e9 como \u00e9 que voc\u00ea vai andar, como \u00e9 que voc\u00ea vai vestir, como \u00e9 que voc\u00ea vai se expressar, como \u00e9 que voc\u00ea vai olhar para o Ol\u00edmpico, para a Gl\u00f3ria, como \u00e9 que voc\u00ea vai se sentir botando aquele batom, tomando aquele rem\u00e9dio\u2026 e depois tem o ritmo, como \u00e9 que vai ser esse ritmo, como \u00e9 que voc\u00ea vai falar, como \u00e9 que voc\u00ea vai conversar com o Ol\u00edmpico, conversar com a Gl\u00f3ria, falar da Coca-Cola, falar que voc\u00ea gosta de ser atriz, como \u00e9 que voc\u00ea vai se comunicar com o r\u00e1dio\u201d. E tem a caracteriza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 vestir a roupa, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 arrumar o cabelo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a maquiagem, mas \u00e9 todo esse sentimento que voc\u00ea est\u00e1 emprestando para esse personagem, a sua alma, o seu ser, a sua forma de respirar, a sua forma de sentir, de desejar, de amar, de querer o mundo. Essas coisas assim, como a Suzana falava, do jeito que ela me conduzia, me tocou muito. E depois ela dizia assim: \u201colha, esses elementos que estou te dando, que \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o, a observa\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria da emo\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria corp\u00f3rea, ritmo e caracteriza\u00e7\u00e3o, \u00e9 para toda a vida, isso aqui, quando voc\u00ea for fazer um teste, s\u00f3 basta voc\u00ea ler uma cena e voc\u00ea se questionar dentro desse movimento aqui, dessas palavras, que voc\u00ea vai\u2026 vai ser luz, vai ser estrela, vai ser tudo na sua vida\u201d. \u00c9 a partir dessas coisas que eu parto para qualquer outro personagem que eu vou pegar na minha vida, sabe? \u00c9 a partir desses elementos que, quando me convidam para fazer um personagem, at\u00e9 hoje, eu tenho que ir l\u00e1 na rua Higino Rolim, l\u00e1 no Grupo Terra, l\u00e1 naquela fam\u00edlia daquela rua, e lembrar daquelas coisas todas, daquelas pessoas, de Dona Liuzete, de Dona J\u00falia, de Dona Vic\u00eancia. E dos amigos, daquela gera\u00e7\u00e3o, daquela universidade, daquelas pessoas, daquela plateia, daquela\u2026 sabe? Eu tenho que ir ali para poder encher esses personagens de for\u00e7a, de coragem, de luta. Do que eles podem me dar, ainda hoje, com todo esse amadurecimento que eu tenho. Quando, por exemplo, eu peguei uma Laurita, que teve a prepara\u00e7\u00e3o, que sempre tem um preparador que vai preencher a gente, que vai abrir muitas outras camadas que a gente nem imaginava, porque assim, quando a gente vai fazer um personagem, os personagens \u00e0s vezes n\u00e3o v\u00eam do interior, eles j\u00e1 est\u00e3o na capital, j\u00e1 est\u00e3o vivendo aquele \u201cboom\u201d daquele lugar. E quando vem um preparador, que j\u00e1 vem com essas bagagens todas, e soma com esse bocadinho que eu tenho, e soma com esse grande universo, com essa grande dilata\u00e7\u00e3o dos personagens, \u00e9 que a gente come\u00e7a a conscientizar que o mundo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aquilo ali, o mundo \u00e9 bem maior. Quanto mais a gente mexe, mais dilatado ele fica. E \u00e9 assim que eu vou construindo, porque o meu mundo \u00e9 bem pequenininho, a minha m\u00e3e me prendeu muito, e \u00e0s vezes quando eu caio num trabalho, eu fico apavorada, porque, gente, eu nunca fui nesse lugar, eu nunca vi isso, eu nunca li isso, eu nunca estudei isso, eu nunca\u2026 mas \u00e9 sempre um aprendizado, um aprendizado imenso, que \u00e0s vezes deixa a gente calado, entupido, n\u00e3o imaginava que o ser humano era assim, que o ser humano tinha essa possibilidade, que tinha essa for\u00e7a, que tinha essa for\u00e7a dentro da gente, que tinha essa\u2026 sabe? (risos).<\/p>\n<figure id=\"attachment_96717\" aria-describedby=\"caption-attachment-96717\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-96717\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/marcelia5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96717\" class=\"wp-caption-text\"><em>Marc\u00e9lia Cartaxo com Suzana Amaral durante as filmagens de &#8220;A Hora da Estrela&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marc\u00e9lia, \u00e9 lindo te ouvir falar, muito bonito mesmo. Quer\u00edamos fazer uma ponte entre \u201cA Hora da Estrela\u201d e os dias de hoje. O filme est\u00e1 completando 40 anos, foi relan\u00e7ado com essa efem\u00e9ride e, na revis\u00e3o, mais uma vez me bateu como ele \u00e9 violento, como tem viol\u00eancia dentro desse filme, como tudo \u00e9 muito pesado. Voc\u00ea tinha consci\u00eancia, naquela \u00e9poca, de que a Macab\u00e9a sofria tanta viol\u00eancia, inclusive vinda desse principal di\u00e1logo dela, com o Ol\u00edmpico? E como voc\u00ea v\u00ea essas imagens hoje? Elas ainda te provocam, isso ainda \u00e9 muito forte?<\/strong><br \/>\nNa \u00e9poca que eu fiz o filme, eu n\u00e3o o via t\u00e3o dilatado assim, sabe? Eu via o filme\u2026 que ela era ing\u00eanua\u2026 ing\u00eanua \u00e9 uma palavra muito\u2026 sublime, assim, \u00e9 uma coitadinha, ela \u00e9 pequenininha, ela \u00e9\u2026 mas, para esses dias de hoje, e quanto mais eu vejo gente falando de \u201cA Hora da Estrela\u201d, mais dor as pessoas passam. Meu Deus, eu realmente era muito ing\u00eanua, porque quando eu vivi esse personagem, Suzana Amaral tinha essa dimens\u00e3o, porque quando ela me botou para poder fazer esse personagem, na \u00e9poca das filmagens, ela n\u00e3o deixava ningu\u00e9m chegar perto de mim, mas ningu\u00e9m, nem a filha dela, ningu\u00e9m. Ela me pegava, botava sentada. Ela que ia me pegar, ela que ia me buscar l\u00e1 na produtora, porque ela n\u00e3o deixou eu ficar em hotel, n\u00e3o deixou eu pegar avi\u00e3o, nem pra ir nem pra voltar. Ela n\u00e3o deixava eu ir para lugar nenhum, para n\u00e3o macular essa personagem. Na \u00e9poca das filmagens ela pegava\u2026 tinha um banco que ela pegava\u2026. pegava essa cadeira e me botava virada para a parede. O filme todo, o processo todo, do in\u00edcio ao fim, ningu\u00e9m era para chegar perto de mim, n\u00e3o era para perguntar nada. E nos dias de folga, ai daquele que fosse me pegar pra levar pra algum lugar. Um dia a filha dela ficou t\u00e3o chateada com ela, t\u00e3o emocionada com a minha pris\u00e3o, que um dia ela foi l\u00e1, me catou, me botou na moto e me levou pro mundo, pra S\u00e3o Paulo. Isso foi numa noite: \u201cvamos passear\u201d. Me botou na moto, me botou o capacete e me levou. Ela n\u00e3o queria que eu comesse pizza, ela n\u00e3o queria que eu fosse pra shopping, ela n\u00e3o queria que eu fosse pra bar, ela n\u00e3o queria que eu fosse pra lugar nenhum. Eu passei as quatro semanas do filme totalmente isolada. As \u00fanicas pessoas que eu falava era com quem eu contracenava, e era aquele momento ali, o momento da cena e pronto. Um dia eu chorei muito, chorei muito, fiquei muito, muito triste, muito abatida com isso, saudade de casa, saudade do grupo, saudade de tudo, do meu lugar, da minha casa. A\u00ed ela chegou pra mim e disse: \u201colha, um dia voc\u00ea vai me agradecer\u201d. E at\u00e9 hoje eu agrade\u00e7o profundamente \u00e0 Suzana Amaral, porque eu vejo que, quando a gente come\u00e7a a dilatar a hist\u00f3ria, realmente, da Macab\u00e9a, foi muito sofrimento, foi muita rejei\u00e7\u00e3o daqueles personagens. Aquelas palavras batem profundamente. Quando voc\u00ea assiste ao filme, aquelas palavras batem, que ela n\u00e3o tinha nada, ela n\u00e3o tinha um mundo, ela n\u00e3o tinha nada. Ela realmente era uma Macab\u00e9azinha, sabe? E a\u00ed quando voc\u00ea l\u00ea o livro da Clarice Lispector, que ela diz que ela mesmo n\u00e3o tinha coragem de ser mulher, porque a mulher\u2026 ela iria ter pena, iria ter um sentimento profundo por aquele personagem, que chegaria um momento que ela nem conseguiria escrever aquele livro. Ela precisou ser homem, ela precisou ser um personagem bem duro para poder enfrentar essa mis\u00e9ria que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 da Macab\u00e9a, \u00e9 a nossa mis\u00e9ria. A nossa mis\u00e9ria \u00e9 bem maior do que a gente imagina. \u00c9 a dor dessas mulheres, a dor dessas mulheres invisibilizadas, a dor dessas mulheres exploradas, a dor dessas mulheres que apanham, a dor dessas mulheres que n\u00e3o t\u00eam valor, que n\u00e3o t\u00eam\u2026. n\u00e3o t\u00eam nada, n\u00e3o t\u00eam nada, sabe? E s\u00e3o muitas, apesar de umas terem muito e outras n\u00e3o terem nada, mas o sofrimento \u00e9 maior do que a gente imagina, porque \u00e9 mulher\u2026 E Macab\u00e9a, eu acho que ela \u00e9 uma coisa, assim\u2026 uma vez eu vi uma professora dizer assim: \u201colha, esse filme \u00e9 importante para todas as adolescentes verem porque \u00e9 um filme que vai dizer tudo o que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 para ser\u2026 \u00e9 para a mulher assistir a esse filme e dizer assim: ah, isso aqui eu n\u00e3o quero ser, eu n\u00e3o quero ser Macab\u00e9a\u201d. Ent\u00e3o eu achei uma coisa muito legal, dessa professora ter falado tudo \u00e0s claras. Eu n\u00e3o me lembro o nome dela, foi uma vez na internet que eu vi e eu achei lindo de ver. Ela disse: \u201colha, todo mundo tem que ver, porque n\u00e3o \u00e9 assim que a gente tem que ser tratada, a gente tem que ser tratada\u2026 a gente tem que se dar valor, a gente tem que ser feliz, tem que ser amiga uma das outras, porque quando a gente consegue ser forte, a gente consegue ter direitos, consegue ser tudo na vida. Ent\u00e3o eu acho que \u201cA Hora da Estrela\u201d, cada vez mais, se comunica. N\u00e3o s\u00f3 com as mulheres, mas tamb\u00e9m com os homens, para poder eles entenderem que o lugar da gente n\u00e3o \u00e9 ali, n\u00e3o \u00e9 aquele bocadinho, n\u00e3o \u00e9 aquele pouquinho, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra viver, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra usar, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra\u2026. ent\u00e3o \u00e9 muito triste a hist\u00f3ria da Macab\u00e9a. At\u00e9 hoje eu ainda represento todas elas, mas cada uma com um nome diferente, com uma profiss\u00e3o diferente, com muitos desejos, com muita vontade de ir e vir, mas todas podadas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MULHERES EXTRAORDIN\u00c1RIAS - MARCELIA CARTAXO\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pCQ0si9oRl8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marc\u00e9lia, para terminar essa entrevista, uma \u00faltima quest\u00e3o. Voc\u00ea foi a primeira atriz (ou ator) brasileira a ganhar um pr\u00eamio no Festival de Berlim. Depois de voc\u00ea, vieram a Ana Beatriz Nogueira pelo \u201cVera\u201d do S\u00e9rgio Toledo, em 1987, e depois s\u00f3 a Fernanda Montenegro por \u201cCentral do Brasil\u201d, em 1998. Nesse Festival de Berlim no qual voc\u00ea \u00e9 premiada, a presidente do j\u00fari era a Gina Lollobrigida, que ganhou a alcunha de \u201ca mulher mais bela do mundo\u201d ali nos anos 1950. Voc\u00ea ganhou esse pr\u00eamio, ali\u00e1s, de um j\u00fari composto basicamente por homens, com exce\u00e7\u00e3o da Gina e da cr\u00edtica francesa Fran\u00e7oise Maupin. Tantos anos depois desse e dos in\u00fameros pr\u00eamios que o filme recebeu no Festival de Bras\u00edlia, depois de uma trajet\u00f3ria t\u00e3o bonita, com v\u00e1rios percal\u00e7os de Governo, descontinua\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil, voc\u00ea al\u00e9m de atriz, come\u00e7ou a trilhar tamb\u00e9m uma carreira como diretora. Seja como atriz ou como diretora, o que voc\u00ea est\u00e1 buscando hoje?<\/strong><br \/>\nHoje, al\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o ser meu carro chefe, que \u00e9 a minha sobreviv\u00eancia, \u00e9 a minha maior descoberta, \u00e9 o que me move mais, eu tenho insistido bastante na quest\u00e3o de ainda ser\u2026 de ser diretora. Eu tenho um amigo, que \u00e9 o Daniel Obeidi, ele \u00e9 de Campinas e a gente tem uma parceria. A gente est\u00e1 a\u00ed com quatro filmes, quatro roteiros preparados pra gente poder deslanchar. S\u00f3 algum edital aprovar os nossos projetos. Tenho batalhado muito nos editais, por exemplo, da Para\u00edba. E ele tem batalhado tamb\u00e9m nos editais mais nacionais. E tenho maior f\u00e9 de que eu vou realmente entrar um pouco nesse caminho da dire\u00e7\u00e3o, porque a gente est\u00e1 com roteiros muito legais, que t\u00eam sido cada vez mais amadurecidos. Tem um roteiro muito incr\u00edvel, que \u00e9 um dos \u00faltimos agora, que eu estou aqui nessa pegada, que \u00e9 a\u2026 eu vivi uma pe\u00e7a chamada \u201cNossa Voz\u201d, logo no in\u00edcio da minha carreira, que eu fazia no Laura Alvim, e que essa pe\u00e7a fala da \u00e9poca da ditadura, e eu estou com muito desejo de fazer esse filme. Ele j\u00e1 est\u00e1 sendo roteirizado, ele \u00e9 de Luiz Lima, ele que escreveu na \u00e9poca, e foi uma pe\u00e7a muito, muito incr\u00edvel, muito pesada. A gente fazia duas sess\u00f5es e ela tem muito pano pras mangas. A gente tem aqui na Para\u00edba um\u2026 como eu posso dizer\u2026 um estudante que foi torturado, dessa \u00e9poca, e at\u00e9 hoje a fam\u00edlia procura junto com a justi\u00e7a os direitos, a justi\u00e7a nesse caso. A gente est\u00e1 inserindo esse caso dentro do nosso roteiro e quer realizar esse filme, quer contar essa hist\u00f3ria. Na \u00e9poca da pe\u00e7a de teatro, ela foi muito importante. Luiz, o autor, ele recebeu uma encomenda do pessoal do Tortura Nunca Mais, que na \u00e9poca era um grupo que tinha no Rio de Janeiro, que fazia luta para conquistar e ter os direitos de saber como foi a hist\u00f3ria, o que aconteceu, e essas pessoas serem reconhecidas na justi\u00e7a, o caso delas, e a gente est\u00e1 nessa batalha. Eu acho que a gente vai come\u00e7ar a dar o primeiro passo por a\u00ed. E depois temos outros filmes, roteiros bastante interessantes que eu gosto muito. Tem um roteiro que se chama \u201cDesejo e sanidade\u201d, que \u00e9 a hist\u00f3ria de uma professora que se envolve com a aluna. Isso a\u00ed quem vai dirigir \u00e9 o Bertrand Lira. Tem um outro que chama \u201cMaria Cabor\u00e9\u201d, que \u00e9 a hist\u00f3ria de uma negra muito linda, que a gente quer contar a hist\u00f3ria dela tamb\u00e9m. E tem tamb\u00e9m l\u00e1 em Sousa, na Para\u00edba, tem um pessoal que s\u00e3o ciganos e eles est\u00e3o l\u00e1 naquele lugar, abandonados. Na \u00e9poca tinha um prefeito que chamava Mar\u00eds e ele prometeu dar umas terras, dar um lugar melhor para esses ciganos. Esse cara morreu e os ciganos perderam tudo, eles est\u00e3o l\u00e1 como se fossem mendigos. A gente tem uma hist\u00f3ria para poder ver o que a gente pode fazer por eles e pode tamb\u00e9m contar essa hist\u00f3ria, porque eles est\u00e3o assim\u2026 juntar as quest\u00f5es do passado com os momentos que est\u00e3o acontecendo com eles agora. Eu acho uma pegada bastante interessante porque, de certa forma, s\u00e3o povos que t\u00eam uma hist\u00f3ria linda e que essas hist\u00f3rias est\u00e3o se perdendo durante o tempo. E a gente pode adquirir um pouco esse resgate, tamb\u00e9m, at\u00e9 para contar o que realmente est\u00e1 acontecendo nos dias de hoje. Por que eles perderam a for\u00e7a? Por que eles perderam a arte? Eu falo isso l\u00e1 na cidade do interior, que eles est\u00e3o l\u00e1, e eles s\u00e3o muitos. \u00c9 um desejo mesmo de dirigir, um desejo de conhecer mais o Brasil, um desejo de estar no cinema brasileiro, de contar, recontar e de viver tamb\u00e9m as coisas boas. E aprender com esses diretores, com esses preparadores, e \u00e9 isso\u2026 \u00e9 o amor pela arte, \u00e9 a voz. A gente quer dizer alguma coisa, fica se co\u00e7ando para poder\u2026 (risos) e torcendo muito para que os nossos produtos sejam reconhecidos. Essa plataforma, nossa senhora, \u00e9 maravilhosa. Essa plataforma \u00e9 uma oportunidade enorme dos brasileiros se encontrarem com o cinema brasileiro, se encontrarem com a nossa arte, e com as quest\u00f5es em tudo. Porque a gente tem que ter muito cuidado com a nossa cultura, com a nossa educa\u00e7\u00e3o, com a sa\u00fade. Esse SUS tem que permanecer, porque ele \u00e9 muito importante pra gente. A maioria dos brasileiros passam por ali. Aqueles que n\u00e3o t\u00eam seus planos de sa\u00fade\u2026 eu sou uma delas. Qualquer coisa eu tenho que cair ali, porque eu n\u00e3o tenho outro caminho, n\u00e3o. E a arte \u00e9 assim\u2026 a arte tem que ser ind\u00fastria, ela n\u00e3o pode ser mais: entra um presidente\u2026 sabe? Quando n\u00e3o gosta da arte, mata a gente tudinho, a\u00ed quando entra outro que gosta, quando a gente t\u00e1 ascendendo, t\u00e1 chegando no \u00e1pice, t\u00e1 chegando nas pessoas, a\u00ed entra um e corta. Eu acho que isso tem que acabar. A gente tem que ter uma luta muito grande para o artista ter espa\u00e7o. E eu acho que esse espa\u00e7o \u00e9 important\u00edssimo porque a gente tem voz, a gente vai saber falar, vai saber arrastar o povo para ter essa comunica\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer oficial - La hora de la estrella (1985), dir. Suzana Amarazal [4K]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PLM2Dfd2-VY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente sabe que voc\u00ea est\u00e1 embarcando em uma viagem nova com o S\u00e9rgio Machado. Desejamos boa sorte nessas filmagens novas, nesse pr\u00f3ximo projeto, e que a gente possa se reencontrar muito rapidamente.<\/strong><br \/>\nMuito rapidamente! Eu fiquei muito feliz com esse convite do S\u00e9rgio. Ele disse que escreveu para mim e para o Bruno Gagliasso, esse filme, e pra mim \u00e9 uma honra muito grande, porque quando eu comecei a fazer os meus curtas-metragens, era pra escrever pra mim, porque ningu\u00e9m escrevia pra mim. Eu n\u00e3o tinha oportunidade. Passei muito tempo fora do mercado, muito tempo sem fazer filme. De \u201cMadame Sat\u00e3\u201d (2002) pra c\u00e1 foi que as coisas come\u00e7aram a se abrir um pouco. E a\u00ed quando o S\u00e9rgio fala isso, pronto, eu me derreto toda, eu digo: \u201cmeu Deus, que coisa boa, que apare\u00e7am mais S\u00e9rgios que me botem na roda, que me fa\u00e7am ser vis\u00edvel (risos). Pois t\u00e1, muito obrigada, eu que agrade\u00e7o e at\u00e9 um breve\u2026 se Deus quiser.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Entrevista publicada originalmente no podcast Tudo \u00c9 Brasil.\u00a0<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/5GuMDCnnj5llKHpxNQhPxr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ou\u00e7a aqui<\/a><\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CINE AFRO - Madame Sat\u00e3 (2002)  Trailer\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CYuFdZUxsmI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Marc\u00e9lia Cartaxo - recebe o trof\u00e9u Oscarito em 2025 | Cinejornal\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-ubgESY6Y-U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"LISPECTORANTE | Marc\u00e9lia Cartaxo como voc\u00ea nunca viu!\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EZ1cJ7fkV0o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw2y1ecqCW_KBoFqtTKVBQEK\">@leandro_luz<\/a>) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a \u00e1rea de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programa\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de cr\u00edtica no\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/screamyell.com.br\/site\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw263alYeTRQy1GYVR0TXsQG\">Scream &amp; Yell<\/a>\u00a0e nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw1BTqnliQ9DvtqDHkpafqt5\">Tudo \u00c9 Brasil<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3TjpLW5o8SaVAAdNU3jD2Z\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3DtKMpqv1bp5QVCI6MvWbM\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cA Hora da Estrela\u201d, de Suzana Amaral, est\u00e1 no top 1 da Tela Brasil, plataforma de streaming gratuita brasileira, desde que ela foi lan\u00e7ada no dia 30 de maio de 2026\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/07\/17\/entrevista-marcelia-cartaxo-fala-de-a-hora-da-estrela-filme-que-lhe-rendeu-um-urso-de-prata-no-festival-de-berlim\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":96712,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4,4833],"tags":[8296,8297],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96710"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96710"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96710\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96722,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96710\/revisions\/96722"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96712"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}