{"id":96524,"date":"2026-07-02T00:47:04","date_gmt":"2026-07-02T03:47:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=96524"},"modified":"2026-07-02T00:53:30","modified_gmt":"2026-07-02T03:53:30","slug":"entrevista-de-francisco-carbone-e-leandro-luz-do-tudo-e-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/07\/02\/entrevista-de-francisco-carbone-e-leandro-luz-do-tudo-e-brasil\/","title":{"rendered":"Entrevista: Eduardo Nunes fala sobre luto e influ\u00eancias enquanto aprofunda o olhar sobre seu novo filme, &#8220;Cinco da Tarde&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/frankarbone\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Francisco Carbone<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a>, do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tudoebrasilpod\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tudo \u00c9 Brasil<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tempo de Copa do Mundo e muito tem se falado sobre os alien\u00edgenas do futebol: a magia do argentino Lionel Messi, a \u201cmarra\u201d do franc\u00eas Kylian Mbapp\u00e9, a for\u00e7a do noruegu\u00eas Erling Haaland. No Brasil, como o futebol anda um tanto estremecido, ainda precisando convencer, contra um advers\u00e1rio de peso, que a sua nova faceta \u00edtalo-brasileira dar\u00e1 conta de trazer novas alegrias ao povo, voltemos os nossos olhos para o cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegou ao circuito, no meio do m\u00eas de junho, o terceiro longa-metragem de fic\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/edununescinema\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eduardo Nunes<\/a>, intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/cinco_da_tarde_filme\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cinco da Tarde<\/a>\u201d (2023), exibido pela primeira vez no Festival do Rio em um j\u00e1 long\u00ednquo 2023 e que s\u00f3 agora, quase tr\u00eas anos depois, encontra a oportunidade de um di\u00e1logo mais amplo com o p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eduardo Nunes \u00e9 um alien\u00edgena no cinema brasileiro. Filma como poucos e, como todo grande artista, alcan\u00e7a em sua artesania algo singular, intang\u00edvel. Basta, num relance, colocar os olhos em \u201cSudoeste\u201d (2011), seu primeiro longa, para constatar isso. Ou observar atentamente o uso da m\u00fasica combinada com os sil\u00eancios em \u201cUnic\u00f3rnio\u201d (2017) para entender que n\u00e3o estamos diante de uma obra comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunes filma com exatid\u00e3o e sem qualquer pressa, mas n\u00e3o por ser um bon vivant despreocupado com o mundo ao seu redor. Muito pelo contr\u00e1rio, o rigor se apresenta n\u00e3o apenas para suprir um desejo est\u00e9tico, mas consciente de suas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, de como \u00e9 e do que significa fazer cinema independente no Brasil. Ele \u00e9 um cineasta de Niter\u00f3i &#8211; cidade vizinha ao Rio de Janeiro, separadas pelas \u00e1guas da Ba\u00eda de Guanabara &#8211; e seu novo filme existe, principalmente, gra\u00e7as a dois elementos: primeiro, \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas, respons\u00e1veis pelo edital municipal vencido pelo projeto do \u201cCinco da Tarde\u201d antes da pandemia; segundo, pelo v\u00ednculo &#8211; de arte, de vida &#8211; estabelecido entre um diretor e uma atriz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">B\u00e1rbara Luz \u00e9 uma atriz mineira, filha de duas grandes figuras do teatro brasileiro (Eduardo Nunes conta isso melhor na entrevista abaixo), que fez a sua estreia no cinema em \u201cUnic\u00f3rnio\u201d &#8211; alguns anos depois ela acabou interpretando a Nalu em \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Ainda+Estou+Aqui\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ainda Estou Aqui<\/a>\u201d, o \u201cnosso\u201d vencedor do Oscar. \u00c9 a partir desse bonito encontro, proporcionado pelo cinema que, anos depois, o cineasta vai encontrar inspira\u00e7\u00e3o para escrever a personagem da Anabel, uma jovem que acaba de perder a av\u00f3 e encontra um acolhimento inesperado no apartamento de uma vizinha, a Meiko, jovem como ela, interpretada por Sharon Cho, estreante em longas-metragens. Analu Prestes e Miwa Yanaguizawa completam o elenco, que ainda traz Tunico Am\u00e2ncio, professor not\u00f3rio da UFF, interpretando um padre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCinco da Tarde\u201d d\u00e1 sequ\u00eancia a uma ideia de cinema burilada por Eduardo Nunes desde os seus primeiros curtas-metragens, realizados na universidade nos anos 1990 e 2000. Uma obra &#8211; e uma trajet\u00f3ria &#8211; que se desgarra do tipo de narrativa realista mais comumente associada ao cinema brasileiro contempor\u00e2neo, ainda que este seja um filme com uma veia mais pop e menos audacioso geogr\u00e1fica e temporalmente do que os anteriores &#8211; permanece, no entanto, ambicioso na maneira como faz fluir os longos planos, contando com uma movimenta\u00e7\u00e3o cuidadosa dos atores em cena e incorporando, de forma sutil, elementos fant\u00e1sticos associados \u00e0s quest\u00f5es existenciais das personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como canta Herbert Vianna na contestadora e reflexiva \u201cSka\u201d, presente em uma bonita cena em \u201cCinco da Tarde\u201d: \u201cA vida n\u00e3o \u00e9 filme, voc\u00ea n\u00e3o entendeu\u201d. A conversa abaixo \u00e9 preciosa porque Eduardo sabe discernir a vida da arte, mesmo que tudo pare\u00e7a misturado, e porque ele \u00e9 o tipo do diretor que, fortuitamente, mais abre do que fecha os horizontes de seus filmes quando discorre sobre eles.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cinco da Tarde | Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Fhtn80pCjqc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eduardo, obrigado por topar conversar com a gente. Esse \u00e9 o seu terceiro longa-metragem de fic\u00e7\u00e3o lan\u00e7ado nos cinemas&#8230;<\/strong><br \/>\nEu que agrade\u00e7o. \u00c9 um espa\u00e7o que a gente precisa para o filme. \u00c9 um lan\u00e7amento pequeno, e a gente sabe como \u00e9 dif\u00edcil manter os filmes em cartaz. N\u00e3o s\u00f3 conseguir o espa\u00e7o para os filmes, como manter os filmes em cartaz. Toda divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante. A minha grande quest\u00e3o com o lan\u00e7amento de um filme, s\u00f3 para a gente come\u00e7ar a conversa, \u00e9 que eu tenho certeza, tenho convic\u00e7\u00e3o disso, que todo filme tem o seu p\u00fablico, sabe? E nenhum filme atinge o p\u00fablico que poderia atingir. Ou seja, eu acho que o desejo de qualquer realizador, e \u00e9 o meu tamb\u00e9m, \u00e9 que o filme chegue nas pessoas que poderiam vir a gostar dele. Existe esse p\u00fablico em potencial. \u00c9 claro que entendo que o meu filme tem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, como qualquer outro filme, e que algumas pessoas v\u00e3o gostar e outras n\u00e3o. E o desejo \u00e9 que chegue nas pessoas que queriam gostar, n\u00e9? E \u00e0s vezes o tempo \u00e9 muito curto, \u00e0s vezes o filme fica uma, duas semanas em cartaz e as pessoas que eventualmente gostariam desse filme nem sabem que ele existiu. Ent\u00e3o eu acho que essa \u00e9 a grande frustra\u00e7\u00e3o para qualquer realizador, que o filme n\u00e3o chegue ao p\u00fablico que viria a gostar dele. Espa\u00e7os como esse, na imprensa, nas redes sociais, s\u00e3o muito importantes para que o filme alcance. Eu lembro de uma das entrevistas do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/20\/walter-salles-fala-sobre-ainda-estou-aqui-nosso-filme-fala-da-reconstrucao-da-memoria-de-uma-familia-e-da-memoria-de-um-pais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Walter Salles<\/a> naquele caminho pro Oscar, e ele sempre falava a mesma frase, naquele jeito Walter Salles de falar. Ele consegue ter um discurso de mod\u00e9stia dentro da proposta, e funciona bem, ent\u00e3o ele falava que o bonito desses pr\u00eamios, dessas indica\u00e7\u00f5es, \u00e9 que faz com que o filme possa ser mais visto. \u00c9 uma frase que ele repetia quase que a cada etapa das premia\u00e7\u00f5es do filme. E na verdade \u00e9 isso, eu acho que pr\u00eamios, toda essa m\u00eddia em cima, a principal consequ\u00eancia \u00e9 ampliar a possibilidade de mais pessoas verem o filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem essa coisa de lan\u00e7ar filmes de seis em seis anos. O \u201cSudoeste\u201d \u00e9 de 2011, o \u201cUnic\u00f3rnio\u201d de 2017 e o \u201cCinco da Tarde\u201d, que foi exibido pela primeira vez em 2023\u2026<\/strong><br \/>\nUm diretor bissexto, \u00e9\u2026 (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230;\u00e9 um filme sobre o luto, mas, segundo uma conversa que tivemos antes do filme ser lan\u00e7ado, voc\u00ea disse que a ideia come\u00e7ou a tomar corpo na pandemia. E que, revendo o filme, voc\u00ea estava tentando reaprender com ele. E tem uma participa\u00e7\u00e3o da sua m\u00e3e em uma cena, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><br \/>\nNa verdade, eu gostaria de filmar bem mais. N\u00e3o \u00e9 que eu fa\u00e7a isso\u2026 n\u00e3o \u00e9 um estilo Terrence Malick em in\u00edcio de carreira, de filmar a cada 15 anos. \u201cMeu Deus, vai fazer um filme!\u201d (risos). At\u00e9 porque acho que n\u00e3o existe essa expectativa,\u00a0 mas foram processos diferentes. O \u201cSudoeste\u201d era o meu primeiro longa, e acho que ele se caracteriza por ser um filme de fantasia, fica fora de uma ideia que a gente tem, erradamente, mas\u2026 que seria uma caracter\u00edstica de um cinema brasileiro&#8230; O \u201cSudoeste\u201d vai um pouco fora disso. Percebi isso nos pittings que eu fazia, que ele destoava um pouco da produ\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, e por isso ele\u2026 acho que as pessoas tinham dificuldade de compreender a exist\u00eancia daquele filme. E foi assim por dez anos, eu tentando conseguir esses recursos. O \u201cUnic\u00f3rnio\u201d eu consegui muito rapidamente, foi um recorde. Escrevi o roteiro do &#8220;Unic\u00f3rnio&#8221; em tr\u00eas noites, mandamos para um edital, e ele ganhou o primeiro edital. S\u00f3 que antes disso eu fiquei cinco anos com outro projeto, que era uma adapta\u00e7\u00e3o do Albert Camus, um livro, \u201cA Morte Feliz\u201d, que tamb\u00e9m n\u00e3o consegu\u00edamos e demorou. Ent\u00e3o acho que cada filme tem a sua hist\u00f3ria. E depois do \u201cUnic\u00f3rnio\u201d, tamb\u00e9m, era um outro projeto que n\u00e3o vinha. E indo para o \u201cCinco da Tarde\u201d, foi um edital da Prefeitura de Niter\u00f3i, onde eu moro, o primeiro edital. E a B\u00e1rbara &#8211; a gente deve falar dela depois, n\u00e9? &#8211; mas, a B\u00e1rbara Luz, que \u00e9 protagonista do \u201cCinco da Tarde\u201d, \u00e9 uma atriz incr\u00edvel. O primeiro longa dela foi o \u201cUnic\u00f3rnio\u201d. Ela tinha treze anos na \u00e9poca. Ela \u00e9 filha da In\u00eas e do Eduardo, que s\u00e3o os fundadores do Grupo Galp\u00e3o, e s\u00e3o pessoas de outro planeta. Um dia v\u00e3o descobrir o DNA verdadeiro dos dois e descobrir que n\u00e3o s\u00e3o terr\u00e1queos, porque s\u00e3o de uma generosidade inacredit\u00e1vel. E a B\u00e1rbara, a Babi, acho que ela n\u00e3o estava muito convicta de ser atriz, at\u00e9 pela experi\u00eancia com os pais. Ela foi selecionada para o \u201cUnic\u00f3rnio\u201d com treze anos. O filme teve uma carreira muito boa, foi para a Berlinale, ela viajou com o filme, e da\u00ed ela fez uma brincadeira depois, dizendo: \u201cSim, eu resolvi ser atriz\u201d. A gente \u00e9 muito amigo, a gente troca mensagens. Isso aos 15 anos, ela falou: \u201cResolvi ser atriz, mas eu quero ser atriz s\u00f3 dos seus filmes\u201d. A\u00ed eu falei: \u201cAh, Babi, n\u00e3o vai dar certo nunca porque eu filmo a cada seis anos, voc\u00ea vai trabalhar a cada seis tamb\u00e9m?\u201d (risos). Dois desempregados. E da\u00ed escrevi o roteiro do \u201cCinco da Tarde\u201d &#8211; essa volta por conta disso &#8211; para a B\u00e1rbara. Escrevi para ela. Coloquei nesse edital, era um roteiro em que se passava em poucas loca\u00e7\u00f5es, com pouco elenco, era um edital de pouco or\u00e7amento, ent\u00e3o escrevi j\u00e1 pensando nessas caracter\u00edsticas de produ\u00e7\u00e3o e ele ganhou. Era um roteiro que j\u00e1 tratava de luto, j\u00e1 tratava da perda da av\u00f3, mas da\u00ed veio a pandemia. E a gente n\u00e3o podia filmar, claro, e eu fui reescrevendo o roteiro e incorporei toda a quest\u00e3o da pandemia ao filme e tal. E acho que \u00e9 um filme, eu vejo hoje\u2026 \u00e9 um filme triste, assim\u2026 um dos coment\u00e1rios que li sobre o filme agora h\u00e1 pouco tempo, falava que \u00e9 um filme que fala sobre o luto e que \u00e9 algo que \u00e9 dif\u00edcil conversar sobre isso. E que \u00e9 interessante que exista um filme que fale sobre o luto. S\u00f3 que eu acho que, incorporando a pandemia, eu entendo que \u00e9 uma coisa como um luto coletivo, sabe? A ideia era que, de alguma forma, nas imagens, no som, no andar dos personagens a gente tivesse essa ideia de que est\u00e3o todos vivendo um momento de luto. \u00c9 o que eu sentia na \u00e9poca da pandemia, acho que \u00e9 o que muita gente sentiu na \u00e9poca da pandemia. Era quase uma coisa palp\u00e1vel, no ar, a gente olhava pelas janelas, as ruas vazias, toda aquela confus\u00e3o, o momento que o Brasil passava tamb\u00e9m. A gente foi incorporando isso ao roteiro. A gente filmou um pouquinho depois da pandemia, no final de 2021. J\u00e1 estava liberado, usando todos os protocolos de seguran\u00e7a da pandemia. E \u00e9 claro, a gente estava muito impregnado por tudo o que tinha acabado de acontecer. E numa das cenas, no parque, a minha m\u00e3e aparece, ela aparece sentadinha num banco, que \u00e9 quando a menina imagina como seria se a av\u00f3 dela estivesse ali. E a minha m\u00e3e, na \u00e9poca, estava com 90 anos. Ficou feliz de estar ali, at\u00e9 dirigiu a cena, falou: \u201cEsse rapaz n\u00e3o est\u00e1 andando r\u00e1pido demais?\u201d. Ela faleceu cinco meses depois e nunca viu o filme. A\u00ed foi todo o processo de finaliza\u00e7\u00e3o, depois que ela faleceu, que eu fui para Portugal, a gente finalizou o filme l\u00e1. Eu ficava revendo o filme, e eu achava o filme muito falso, eu achava o filme\u2026 falando de coisas que eu n\u00e3o teria capacidade de falar com sinceridade. Me parecia isso, porque eu estava vivendo aquele luto. E eu olhava o filme, que se tratava do mesmo tema, e me parecia falso. E me irritava, principalmente a rela\u00e7\u00e3o da Anabel com a morte. Ela tinha uma rela\u00e7\u00e3o de irrita\u00e7\u00e3o, de raiva, de impaci\u00eancia, o que para mim era ruim. Eu tinha que finalizar o filme e era obrigado a ficar vendo v\u00e1rias vezes, e foi dif\u00edcil essa finaliza\u00e7\u00e3o. Depois que eu voltei ao Brasil, eu tinha que ficar revendo o filme para aprovar a mixagem final, ent\u00e3o eu vi ele cinco, seis vezes em casa, sozinho, em um projetorzinho que eu tenho. E cada vez que eu via, eu falava: \u201c\u00c9, n\u00e3o\u2026 funciona, \u00e9 sincero\u201d. A\u00ed o outro: \u201c\u00c9, acho que sim\u201d. A terceira: \u201c\u00c9, t\u00e1 bacana e tal\u201d. E a\u00ed, uma coisa t\u00e3o curiosa: o filme come\u00e7ou a me explicar como era o processo de luto, sabe? E curiosamente, quando eu fiz o filme, eu n\u00e3o tinha vivido nenhum luto recentemente. Perdi meu pai h\u00e1 mais de 20 anos, 25 anos. Ent\u00e3o fiz o filme sem estar vivenciando aquilo. E quando fui viver, depois que fiz o filme, aos poucos, n\u00e3o de imediato, ele foi me passando uns aprendizados de sil\u00eancios, de necessidade das pessoas serem sinceras no seu pr\u00f3prio mundo. Acho que a Anabel \u00e9 muito agressiva, mas ela est\u00e1 vivendo as coisas da forma como ela sente. A Meiko, ela \u00e9 mais s\u00e1bia, vamos dizer assim, mas talvez porque ela j\u00e1 viveu o luto h\u00e1 tempos. Estou passando agora por uma situa\u00e7\u00e3o curiosa, que a Mariana, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/cinco_da_tarde_filme\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que est\u00e1 fazendo as redes sociais<\/a>, ela vive com a companheira dela e h\u00e1 pouco tempo elas perderam um gatinho, coisa de quatro meses atr\u00e1s. E eu n\u00e3o sei se voc\u00eas acompanham os posts\u2026 se voc\u00ea puder depois entrar no Instagram do \u201cCinco da Tarde\u201d (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/cinco_da_tarde_filme\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@cinco_da_tarde_filme<\/a>)&#8230; s\u00e3o textos lindos, super, super bonitos. Ela reviu o filme v\u00e1rias vezes, e ela me escrevia: \u201cEdu, como voc\u00ea sabe que \u00e9 assim? Como que voc\u00ea sabe que o luto \u00e9 assim? S\u00e3o sentimentos t\u00e3o \u00edntimos, e que eu n\u00e3o sei nem falar pra pessoa ao lado, mas quando eu vejo o filme, estou percebendo que ele est\u00e1 falando da mesma coisa que estou vivendo\u201d. E isso pra mim \u00e9 t\u00e3o bonito. Do filme ser sincero no assunto que aborda. De alguma forma, com todas as caracter\u00edsticas que o filme tem, um filme lento, um filme silencioso, mas dentro disso que ele prop\u00f5e, ele \u00e9 sincero. Hoje, \u00e9 claro, \u00e9 o \u00faltimo filme que eu fiz, o mais recente, mas \u00e9 o que eu mais gosto, \u00e9 o que me parece mais verdadeiro na proposta dele.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"UNIC\u00d3RNIO | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/j41_dL67JTk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 interessante como voc\u00ea falou sobre a escrita do roteiro do \u201cUnic\u00f3rnio\u201d e de como ela foi r\u00e1pida. Quer\u00edamos saber como foi o processo para escrever o \u201cCinco da Tarde\u201d, se foi r\u00e1pido tamb\u00e9m, e o que voc\u00ea acessou naquele momento, j\u00e1 que o luto n\u00e3o era uma coisa ainda presente. Quais eram os lugares que voc\u00ea foi para escrever e se voc\u00ea pode dividir com a gente algumas inspira\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e narrativas do filme.<\/strong><br \/>\nTenho uma coisa que me provoca quando escrevo o roteiro que s\u00e3o as situa\u00e7\u00f5es um pouco fora da normalidade. \u00c9 como se fosse uma palavra muito usada em document\u00e1rios, como se fosse um dispositivo que eu usaria para os personagens. Pego personagens e tento criar um elemento que, de alguma forma, estreme\u00e7a eles. E a\u00ed eu vou tentando desenvolver como eles reagem a isso. O \u201cSudoeste\u201d \u00e9 um pouco isso, \u00e9 uma personagem que entende que a vida dela dura um \u00fanico dia. Eu defini como a Clarice vai reagir a isso e as pessoas. O \u201cUnic\u00f3rnio\u201d \u00e9 isso, s\u00e3o duas mulheres, a menina e a m\u00e3e, vivendo numa cabana em que o pai n\u00e3o volta. Ent\u00e3o, aquelas duas, naquele elemento isolado de tudo, e como elas reagem a isso. E o \u201cCinco da Tarde\u201d, o ponto inicial era esse, duas pessoas vivendo luto, claustrof\u00f3bicas, sem poder sair dos pr\u00f3prios apartamentos, e como elas reagiriam a isso. O meu processo de constru\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco esse. Eu tento criar uma situa\u00e7\u00e3o limite, ou com algum dispositivo, vamos dizer assim, que provoque os personagens, e vou tentando entender o comportamento deles. O in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o do \u201cCinco da Tarde\u201d foi isso: eu tinha limites de produ\u00e7\u00e3o, podia ter duas loca\u00e7\u00f5es no m\u00e1ximo, poucos atores. E eu gosto muito desses filmes de c\u00e2mara, vamos dizer assim, onde voc\u00ea coloca ali quatro instrumentos pra tocar e v\u00ea qual m\u00fasica vai sair. E a\u00ed, claro, por exemplo, tem cineastas que me dizem muito, que vai desde uma refer\u00eancia mais \u00f3bvia, que \u00e9 de um cinema asi\u00e1tico, que passa por Ozu, Naruse e toda essa turminha que \u00e9 incr\u00edvel. H\u00e1 pouco tempo uma pessoa falou, e eu, claro, tinha percebido, no \u201cPersona\u201d (1966) do Bergman, voc\u00ea tem duas pessoas enclausuradas no espa\u00e7o. Mas assim, s\u00e3o refer\u00eancias que v\u00eam quase que esteticamente. Talvez o Ozu um pouco mais tematicamente. Mas o cinema do Ozu trata muito da rela\u00e7\u00e3o familiar, aqui nem tanto. Essas influ\u00eancias, at\u00e9 mesmo os primeiros filmes que eu fiz, o Tarkovsky, que era muito mencionado, o B\u00e9la Tarr. Hoje, um cineasta que me diz muito \u00e9 o Nuri Bilge Ceylan, mas isso tudo eu vejo mais como uma influ\u00eancia pra mim de vida do que de arte. \u00c9 como se esses filmes me ensinassem uma forma de ver o mundo. E, a partir dessa forma que eu estabeleci de ver o mundo, eu vou tentando fazer os filmes. Ent\u00e3o n\u00e3o chega a ser uma influ\u00eancia indireta. \u00c9 claro que quando voc\u00ea p\u00f5e ali, no \u201cCinco da Tarde\u201d, as duas atrizes de costas para a c\u00e2mera, com a janela de fundo, num plano m\u00e9dio, voc\u00ea fala: \u201cah, aquele \u00e9 o Ozu\u201d. \u00c9, Ozu, aquele \u00e9! (risos). E ainda mais uma das atrizes tendo ascend\u00eancia asi\u00e1tica e tal. Acho que nesse ponto \u00e9 como uma homenagem, mas acho que o filme em si, por exemplo, ele tem mais uma caracter\u00edstica do cinema do Mizoguchi, que vai para uma quest\u00e3o da fantasmagoria, no \u201cConto da Lua Vaga\u201d (1953), da exist\u00eancia ou n\u00e3o das pessoas, do que do Ozu, nesse ponto. Apesar dos enquadramentos, a fixidez, o rigor no enquadramento do \u201cCinco da Tarde\u201d mais para o cinema do Ozu, eu acho que tem esse elemento da fantasmagoria, da exist\u00eancia ou n\u00e3o daqueles personagens. Eu trato assim, sabe? As influ\u00eancias v\u00e3o muito por esse caminho de me influenciarem, e da\u00ed isso vai para o filme. O filme \u00e9 o que eu penso, \u00e9 o que eu enxergo do mundo. \u00c9 um pouco assim, voc\u00ea falando de adapta\u00e7\u00e3o, o \u201cUnic\u00f3rnio\u201d \u00e9 adaptado de dois contos da Hilda (Hist). Um conto chamado \u201cO unic\u00f3rnio\u201d e outro chamado \u201cMatamoros\u201d. E o filme tem pouqu\u00edssimos di\u00e1logos. Geralmente uma adapta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria tenta buscar as palavras do autor, da autora, n\u00e9? E eu li muito sobre o \u201cUnic\u00f3rnio&#8221;, e quando a gente estreou o filme, ele passou na Flip dentro de uma edi\u00e7\u00e3o em que a Hilda Hilst foi homenageada, ent\u00e3o ali voc\u00ea tinha muitos \u201chilstianos\u201d e especialistas na obra da Hilda, e me deu\u2026 eu estava na mesa da Flip, imagina, com toda a Unicamp sentada ali, onde \u00e9 o n\u00facleo de estudos da Hilda. E o filme foi muito elogiado no sentido da adapta\u00e7\u00e3o da obra. Depois eu fui at\u00e9 convidado para escrever um dos textos do dossi\u00ea Hilda Hilst e tal, e eu fiquei pensando: \u201cmas \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o aparentemente t\u00e3o distante\u201d. E a\u00ed eu fui entendendo, pelo que foi escrito do filme, que na verdade ele era isso, uma leitura da minha leitura da Hilda. Eu colocava ali a forma como eu lia a Hilda. E eu acho que, no fundo, \u00e9 a forma mais sincera que voc\u00ea tem de fazer uma adapta\u00e7\u00e3o. \u00c9 justamente colocar a sua leitura, do que voc\u00ea est\u00e1 vendo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_96530\" aria-describedby=\"caption-attachment-96530\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-96530\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"554\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde3-300x222.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96530\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Cinco da Tarde&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pegando carona nessa conversa sobre refer\u00eancias, o Ozu tinha um diretor de fotografia muito fiel ao lado dele, o Y\u00fbharu Atsuta. Gostar\u00edamos que voc\u00ea falasse do seu Atsuta, do Mauro Pinheiro Jr. E de como \u00e9 curioso que voc\u00ea tenha alternado entre o preto e branco e o colorido nos seus filmes.<\/strong><br \/>\nO Mauro \u00e9 um grande amigo. A gente conversou ontem por telefone, a gente se conhece desde quando ele tinha 17 e eu tinha 19 anos, ent\u00e3o a gente cresceu junto. Quando o Mauro come\u00e7ou a dirigir eu fui buscar o carro dele na concession\u00e1ria, ele morrendo de medo e a gente vindo fazendo barbaridades ali, tentando conduzir\u2026 a gente \u00e9 amigo h\u00e1 quase 40 anos. Eu nunca filmei sem o Mauro. Nunca fiz um filme que ele n\u00e3o fosse o fot\u00f3grafo. A gente estudou junto na UFF. Ele seria o fot\u00f3grafo dos filmes que eu faria de qualquer forma, pela nossa hist\u00f3ria de companheirismo. A sorte \u00e9 que ele \u00e9 um grande fot\u00f3grafo. Eu podia ter pego\u2026 ele podia ser um fot\u00f3grafo med\u00edocre (risos), mas eu dei muita sorte. Um outro colaborador de muitos anos \u00e9 o Fl\u00e1vio Zettel, que tamb\u00e9m estudou comigo na UFF e montou todos os filmes. A gente era da mesma turma, eu, Mauro e o Fl\u00e1vio, n\u00f3s tr\u00eas. Ele tamb\u00e9m \u00e9 um grande montador, fez as montagens da s\u00e9rie \u201dOs Outros\u201d, est\u00e1 na Globo h\u00e1 muitos anos, \u00e9 um cara que \u00e9 muito especial nessa combina\u00e7\u00e3o. Sabe, Leandro, eu j\u00e1 nem sei mais onde eu termino e onde o Mauro come\u00e7a, onde o Mauro termina e onde eu come\u00e7o, nesse conceito de imagem, porque est\u00e1 muito misturado, desde os curtas. Claro que ele faz trabalhos com v\u00e1rios realizadores e cada filme tem a sua particularidade. Eu acho que um fot\u00f3grafo tem que entender o conceito do filme, as caracter\u00edsticas do diretor e tentar reproduzir l\u00e1 na tela. Ent\u00e3o eu acho que a minha rela\u00e7\u00e3o com Mauro \u00e9 diferente da dele com os outros realizadores. Tanto que os filmes t\u00eam uma coer\u00eancia est\u00e9tica, nossa, n\u00e9, diferente do trabalho que ele faz com outros realizadores. Eu preparo muito um filme, at\u00e9 porque o or\u00e7amento \u00e9 pequeno, ent\u00e3o eu fa\u00e7o storyboard do filme inteiro, eu desenho o filme inteiro. Fico meses pensando a ordem da filmagem. Sou meio obcecado, porque eu sei o quanto custa t\u00e1 ali, n\u00e9? Ent\u00e3o eu fico tentando fazer isso com cuidado. E a\u00ed, nesse processo, a gente tem\u2026 um desejo que o Mauro procura ter nos filmes que ele faz \u00e9 ter mais tempo de prepara\u00e7\u00e3o, ele acha que isso tem que ser incorporado aos projetos, aos or\u00e7amentos dos filmes, de voc\u00ea ter mais tempo de conversa sobre o filme. E no caso do \u201cCinco da Tarde\u201d, a gente estava na pandemia, ent\u00e3o a gente n\u00e3o tinha o que fazer. A gente fazia chamadas de v\u00eddeo imensas sobre o filme. E ele prop\u00f4s um processo interessante, que ele n\u00e3o tinha lido o roteiro, e a\u00ed ele ia lendo o roteiro comigo sem saber o que ia acontecer. E na leitura do roteiro, ele ia propondo imagens. E a\u00ed, por exemplo, ele n\u00e3o sabia que a av\u00f3 ia aparecer. Como um espectro, n\u00e9? E a\u00ed ele falava: \u201cn\u00e3o, mas isso, isso, isso\u201d, e era interessante porque era uma primeira leitura onde j\u00e1 vinham surgindo leituras, propostas de imagens. E nesse ponto, a quest\u00e3o do preto e branco do \u201cSudoeste\u201d e do \u201cCinco da Tarde\u201d s\u00e3o propostas diferentes, mas eu acho que as duas passam por uma quest\u00e3o de fuga da realidade. Acho que o preto e branco traz essa caracter\u00edstica, da pr\u00f3pria qualidade da imagem, que \u00e9 fugir do registro do real. No \u201cSudoeste\u201d, esse preto e branco funciona por uma quest\u00e3o de uma fantasia, de um mundo que n\u00e3o existe. O nosso mundo, de uma forma geral, as pessoas enxergam colorido. O preto e branco traz essa fuga. E o \u201cCinco da Tarde\u201d, al\u00e9m disso, eu acho que al\u00e9m de nublar essa fronteira entre o real e o imagin\u00e1rio, ele tamb\u00e9m traz essa carga do\u2026 que \u00e9 um preto e branco, no \u201cCinco da Tarde\u201d, com mais sombras, com mais contrastes. Ele traz essa quest\u00e3o do triste, do melanc\u00f3lico. Acho que a proposta vai nesse caminho. \u00c9 uma colabora\u00e7\u00e3o que eu acho que eu vou ter para o resto da vida com o Mauro. Nunca vou descobrir o que seria fazer um filme sem o Mauro. Mas a gente tem aprendido muito, sabe? Os primeiros filmes eram bem dif\u00edceis, a nossa rela\u00e7\u00e3o. Eu acho que cada um queria impor, assim, de alguma forma, um tra\u00e7o autoral na imagem. E era uma briga nossa, assim, \u00e0s vezes, em set mesmo. E acho que os dois foram ficando mais velhos, mais cansados (risos). N\u00e3o sei se foi isso. Ou mais s\u00e1bios, talvez. E a\u00ed a gente foi aprendendo a respeitar o filme. A nossa luta j\u00e1 era pelo filme e n\u00e3o pela nossa vaidade. Os \u00faltimos dois filmes, o \u201cCinco da Tarde\u201d e esse mais recente que foi filmado no Paran\u00e1, o \u201cTempo da Delicadeza\u201d, foram filmagens muito, muito tranquilas. E acho que \u00e9 um processo que\u2026 eu espero ainda fazer alguns filmes e acho que vai ser cada vez mais tranquilo. E \u00e9 uma parceria que n\u00e3o d\u00e1 mais pra desfazer. Acho que \u00e9 isso daqui pra frente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SUDOESTE - Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8mPhbSYyMdA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a m\u00fasica do filme? Como ela atravessa o desenho de som, sempre t\u00e3o sutil? Nesse filme tem a presen\u00e7a do Paulo Furtado, mais conhecido como <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=The+Legendary+Tigerman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Legendary Tigerman<\/a>.<\/strong><br \/>\nO Paulo Furtado na m\u00fasica foi uma surpresa. Eu n\u00e3o conhecia o trabalho dele, n\u00e3o conhecia o The Legendary Tigerman. O filme foi finalizado em Portugal, o \u201cCinco da Tarde\u201d, em parceria com a Bando \u00e0 Parte, que \u00e9 do Rodrigo Areias, e o Rodrigo \u00e9 muito amigo do Paulo. Tem uma cena, Leandro, voc\u00ea vai lembrar, n\u00e3o sei se o Francisco\u2026 que \u00e9 a cena em que elas dan\u00e7am e ali no fundo \u00e9 o Paralamas que toca, que \u00e9 uma m\u00fasica que eu gosto muito e que eu gostaria de usar, mas que a gente n\u00e3o tinha os direitos ainda. E o Rodrigo sugeriu o Furtado porque ele era roqueiro. E a\u00ed eu falei: \u201cn\u00e3o, aquela m\u00fasica ele vai compor bem e tal\u201d. Foi por isso. E a\u00ed a gente conseguiu os direitos da m\u00fasica do Paralamas. O Roberto Berliner ajudou a gente e tal. E o Paulo Furtado j\u00e1 estava no filme, eu falei: \u201cmeu Deus, eu tenho um filme intimista, com um roqueiro fazendo\u201d. E ele \u00e9 uma figura maravilhosa, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/26\/entrevista-legendary-tigerman-fala-sobre-zeitgeist-seu-novo-album-composto-em-paris\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o Paulo Furtado<\/a>. E a gente foi conversando e ele tinha passado, curiosamente, por um luto do pai dele. O pai dele tinha morrido h\u00e1 poucos meses. Ele foi vendo o filme e foi deixando o filme\u2026 e ele fez uma trilha bel\u00edssima, que eu acho que \u00e9 muito, eu n\u00e3o sei\u2026 eu acho que o Paulo tamb\u00e9m \u00e9 um cara muito vers\u00e1til, n\u00e9? Ele fez coisas mais instrumentais, fora daquele\u2026 fora o The Legendary Tigerman, existe o Paulo Furtado ali. Para mim \u00e9 uma m\u00fasica que pega muito essa solid\u00e3o das personagens, uma quest\u00e3o mais intimista delas. E acho que um pouco pelo Paulo tamb\u00e9m estar vivendo esse momento. Mas eu estou agora passando por uma experi\u00eancia nova tamb\u00e9m. Os m\u00fasicos dos filmes \u00e9 o que mais muda. Eu nunca repeti um m\u00fasico, ent\u00e3o \u00e9 sempre uma nova descoberta, um novo processo. Esse pr\u00f3ximo filme tamb\u00e9m eu estou trabalhando com uma pessoa nova e a gente est\u00e1 come\u00e7ando a se conhecer.<\/p>\n<figure id=\"attachment_96528\" aria-describedby=\"caption-attachment-96528\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-96528 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96528\" class=\"wp-caption-text\"><em>Eduardo Nunes e seu &#8220;Cinco da Tarde&#8221; no Festival Internacional de Filmes do Nepal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou que o filme funciona como uma resposta para a B\u00e1rbara Luz, uma de suas protagonistas, porque ela tinha falado que s\u00f3 queria trabalhar com voc\u00ea. \u00c9 interessant\u00edssimo ver o percurso dela do \u201cUnic\u00f3rnio\u201d para o \u201cCinco da Tarde\u201d. Voc\u00ea fala sobre melancolia, e eu concordo com voc\u00ea, \u00e9 um filme que tem um teor melanc\u00f3lico, mas acho que a gente sempre \u00e9 colocado para fora desse processo por conta da personagem da Sharon Cho. Voc\u00ea poderia comentar como foi o encontro com esse outro elemento? Como foi essa pesquisa, essa busca? Como se deu essa cria\u00e7\u00e3o de qu\u00edmica ou n\u00e3o-qu\u00edmica entre a B\u00e1rbara e a Sharon? Porque s\u00e3o pessoas que, em tese, est\u00e3o se conhecendo naquele momento e, ao mesmo tempo, existe uma conex\u00e3o natural entre elas. Como foi essa dire\u00e7\u00e3o de atores?<\/strong><br \/>\nEu tive muita sorte, Francisco. Como o filme se passa em poucas loca\u00e7\u00f5es, basicamente dois apartamentos, que \u00e9 um est\u00fadio que a gente conseguiu reproduzir os dois apartamentos, a gente teve uma facilidade, que \u00e9 o sonho de quase qualquer realizador, que \u00e9 filmar na ordem. A B\u00e1rbara para mim \u00e9 um acontecimento, n\u00e3o \u00e9 nem uma atriz, sabe? Ela\u2026 ela\u2026 nunca vi ningu\u00e9m assim. Ela \u00e9 de uma naturalidade, uma verdade, uma beleza mesmo no atuar. Na \u00e9poca em que a gente j\u00e1 tinha filmado o \u201cCinco da Tarde\u201d, ela comentou comigo que estava para fazer testes para um filme, um longa, e ela n\u00e3o poderia dizer qual era. E ela falou assim: \u201colha, Edu, eu n\u00e3o tenho nenhum trabalho recente, eu posso mandar o link do filme para o diretor?\u201d. E a gente n\u00e3o tinha estreado. E eu falei: \u201cT\u00e1, Babi, vai, manda, pronto\u201d. E a\u00ed ela mandou e depois ela me escreveu: \u201cAh, Edu, eu passei\u201d. Claro que n\u00e3o s\u00f3 pelo link, mas o filme ajudou, ela fez testes e tudo, e falou: \u201cAh, vou fazer o filme\u201d. E depois eu fui descobrir que era o \u201cAinda Estou Aqui\u201d. E esse filme, que \u00e9 um filme lindo, t\u00e3o importante na nossa filmografia e tal. E hoje a B\u00e1rbara mora na Fran\u00e7a, ela estuda teatro na Sorbonne. Para quem n\u00e3o queria ser atriz, fez o \u00fanico filme ganhador do Oscar e estuda teatro na Sorbonne, nada mal (risos). E ela \u00e9 de uma humildade, de uma simplicidade comovente. Ela trabalha em Paris para poder at\u00e9 pagar a universidade. Ent\u00e3o quando o \u201cAinda Estou Aqui\u201d estreou em Veneza, ela pegou um trem da Fran\u00e7a para a It\u00e1lia, apresentou o filme no tapete vermelho de Veneza, ficou ao lado do Waltinho, falou que o Waltinho estava nervoso, segurava a m\u00e3o dela, assim, e a\u00ed no dia seguinte da exibi\u00e7\u00e3o do filme ela volta para a Fran\u00e7a e vai trabalhar no restaurante que ela trabalha para pagar a faculdade e tal. E \u00e9 isso, vida de uma atriz que est\u00e1 come\u00e7ando uma carreira linda. E a B\u00e1rbara tem uma\u2026 a gente conseguiu estabelecer no \u201cUnic\u00f3rnio\u201d uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a muito grande um no outro. Acho que isso \u00e9 essencial para qualquer dire\u00e7\u00e3o de atores, de atrizes, voc\u00ea confiar na pessoa que est\u00e1 atuando, e a pessoa que est\u00e1 atuando confiar no diretor. Ent\u00e3o a gente tem uma troca ali muito \u00fanica, e eu consigo estabelecer isso com quase todo o elenco. O meu primeiro trabalho na dire\u00e7\u00e3o \u00e9 criar uma rela\u00e7\u00e3o, criar uma ponte de contato, uma ponte onde o que eu falo\u2026 aquela pessoa que est\u00e1 escutando confia, sabe? E no que a pessoa est\u00e1 atuando, ela sabe que est\u00e1 atuando e que eu estou observando daquele jeito. Ent\u00e3o quando voc\u00ea cria esse tr\u00e2nsito de informa\u00e7\u00e3o, de di\u00e1logo, tudo fica muito mais f\u00e1cil. E a Sharon, eu acho uma atriz incr\u00edvel. Ela tem uma experi\u00eancia de uma s\u00e9rie da HBO, que \u00e9 o \u201cAl\u00e9m do Guarda-Roupa\u201d, que \u00e9 uma s\u00e9rie do universo K-Pop, que fez bastante sucesso e tal, e o \u201cCinco da Tarde\u201d \u00e9 o primeiro longa dela. Foi tamb\u00e9m um teste que a Sharon passou, e ela tem uma coisa muito interessante que \u00e9&#8230; ela \u00e9 muito sincera nas descobertas dela. Tudo ela olha e ela se surpreende, e ela expressa aquilo. E ela tem uma caracter\u00edstica de atua\u00e7\u00e3o que \u00e9 com o m\u00ednimo. \u00c0s vezes com um olhar, com uma respira\u00e7\u00e3o, com uma forma de andar, \u00e9 tudo muito calculado e m\u00ednimo, que funciona muito, muito bem. E como eu estava dizendo no in\u00edcio da resposta, a gente conseguiu filmar na ordem, ent\u00e3o eram duas atrizes que n\u00e3o se conheciam, a Sharon e a B\u00e1rbara, eram estranhas, e eram duas personagens que tamb\u00e9m n\u00e3o se conheciam. Ou dentro da hist\u00f3ria elas se conheceram muitos anos atr\u00e1s, ou n\u00e3o se viam h\u00e1 muitos anos. Ent\u00e3o, o processo de aproxima\u00e7\u00e3o das personagens foi o mesmo processo de aproxima\u00e7\u00e3o das atrizes. E acho que, por isso, o filme \u00e9 t\u00e3o sincero nas caracter\u00edsticas, na rela\u00e7\u00e3o. No final, sem dar muito spoiler, antes do final, quando elas se abra\u00e7am, aquele abra\u00e7o \u00e9 um abra\u00e7o muito verdadeiro entre duas atrizes, sabe? Que se descobriram, que se conheceram e que foram amadurecendo durante aqueles 8, 10 dias de filmagem. Isso \u00e9 rar\u00edssimo, voc\u00ea poder filmar na ordem. Eu acho que a gente conta nos dedos os filmes que foram feitos assim. A gente fez porque o desenho de produ\u00e7\u00e3o permitia, mas eu adoraria ter recursos para sempre fazer isso no filme. Seria perfeito. Mas, assim, fazendo jus ao resto do elenco, j\u00e1 que a gente est\u00e1 falando do elenco, a gente tem a Miwa e a Analu Prestes, que s\u00e3o duas atrizes maravilhosas. A Miwa tem um trabalho muito longo e constante de dire\u00e7\u00e3o de teatro, e eu acho que ela atua menos do que do que eu gostaria. Eu gostaria de ver a Miwa em mais filmes, mais s\u00e9ries, mas ela se dedica muito \u00e0 dire\u00e7\u00e3o. E ela gostou muito de ter feito o filme. A primeira vez que a gente falou, era uma participa\u00e7\u00e3o, era um ou dois dias de filmagem, e a Miwa falou\u2026 ela n\u00e3o falou comigo, falou com a produ\u00e7\u00e3o: \u201cOlha, desculpa, a gente n\u00e3o gosta muito de participa\u00e7\u00e3o, que geralmente quando convidam uma atriz asi\u00e1tica ela vai para um estere\u00f3tipo no que a gente entende como a vis\u00e3o desses personagens no\u2026\u201d. Eu n\u00e3o a conhecia, e falei para a produ\u00e7\u00e3o: \u201cGente, posso escrever uma carta para ela?\u201d. Escrevi uma carta para a Miwa, explicando o que era o filme. E ela me ligou e falou: \u201cEdu, por que voc\u00ea n\u00e3o falou isso antes?\u201d. E a\u00ed ficamos amigos, ela fez o filme, adorou. A Analu gosta muito do filme tamb\u00e9m. A gente n\u00e3o abordou isso ainda na conversa, mas eu tentei fazer um filme, apesar de eu n\u00e3o vivenciar isso, mas eu tentei fazer um filme muito respeitoso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura asi\u00e1tica. A Sharon, por exemplo, tem uma ascend\u00eancia coreana. A Miwa, uma ascend\u00eancia japonesa. Japon\u00eas \u00e9 japon\u00eas, coreano \u00e9 coreano. Enfim, n\u00e3o vamos misturar, n\u00e9? E a\u00ed nas personagens, a ideia era justamente que a Miwa fosse uma m\u00e3e japonesa, a m\u00e3e da personagem, da Meiko, e a Meiko era uma personagem que a m\u00e3e era japonesa e o pai coreano. Estou em S\u00e3o Paulo\u2026 e em S\u00e3o Paulo voc\u00ea tem uma comunidade muito grande japonesa, a maior do mundo fora do Jap\u00e3o, e coreana tamb\u00e9m muito grande. E voc\u00ea tem muitos, hoje, que s\u00e3o pais ou m\u00e3es coreanas, e pai ou m\u00e3e japoneses. Voc\u00ea tem uma nova gera\u00e7\u00e3o que vem dessa combina\u00e7\u00e3o entre japoneses e coreanos. E busquei isso, e tem v\u00e1rias piadas no filme sobre o que \u00e9 ser japon\u00eas, o que \u00e9 pensar de uma forma asi\u00e1tica, que \u00e9 um pouco tentar colocar esses estere\u00f3tipos e questionar eles dentro do que a gente&#8230; de nossa vis\u00e3o, que \u00e0s vezes \u00e9 um pouco rosa sobre essa cultura.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cinco da Tarde \/ Five afternoon\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lby9zh2A2Qg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eduardo, acho que agora a gente caminha para o fim dessa entrevista. Queria pedir para voc\u00ea fazer as \u00faltimas observa\u00e7\u00f5es sobre o filme considerando como voc\u00ea coloca em di\u00e1logo temas diversos sempre numa rela\u00e7\u00e3o com as inf\u00e2ncias ou com as juventudes. Quero dizer, justamente quando os nossos sentimentos est\u00e3o mais \u00e0 flor da pele. No \u201cSudoeste\u201d eu me lembro bem daquela cena da chuva, com as crian\u00e7as brincando no quintal, para al\u00e9m, \u00f3bvio, de toda a aventura, digamos assim, da protagonista e o fato do filme ser uma fantasia. No \u201cUnic\u00f3rnio\u201d h\u00e1 aquela rela\u00e7\u00e3o da B\u00e1rbara [Luz] com a Patr\u00edcia [Pillar], m\u00e3e e filha com sentimentos muito profundos, de carinho e tudo, mas sobretudo de raiva, rejei\u00e7\u00e3o, inveja. E a\u00ed a gente chega no \u201cCinco da Tarde\u201d, no qual a gente tem essas duas jovens garotas lidando com esse luto, um mais recente, o outro mais antigo, e por que esse interesse nesse momento? Voc\u00ea falou que usa o termo dispositivo para situar os personagens, mas n\u00e3o s\u00f3 isso. Al\u00e9m de coloc\u00e1-los em uma situa\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tamb\u00e9m traz um perfil de personagem que se comunica.<\/strong><br \/>\nPergunta boa, vou tentar falar pouco. \u00c9 dif\u00edcil, assim, quando voc\u00ea come\u00e7a a escrever um roteiro, \u00e9 uma p\u00e1gina em branco, n\u00e9? Enfim, \u00e9 um clich\u00ea isso, mas \u00e9 verdade. E acho que a gente est\u00e1 muito aberto \u00e0s primeiras ideias que v\u00e3o chegando. E geralmente comigo vem muito essa mem\u00f3ria de uma inf\u00e2ncia, uma inf\u00e2ncia minha, uma inf\u00e2ncia de uma forma geral. Talvez porque \u00e9 um momento de estabelecer rela\u00e7\u00f5es com o mundo. Acho que nesse processo da inf\u00e2ncia, e no amadurecimento, voc\u00ea come\u00e7a a criar suas pr\u00f3prias regras de como voc\u00ea vai lidar com o mundo. Para mim, isso \u00e9 fascinante. Eu&#8230; eu n\u00e3o sei, assim, eu sou um cara muito certinho na minha organiza\u00e7\u00e3o, tenho uma agenda com tudo escrito aqui, o que eu tenho que fazer a cada hora, e fazer cinema \u00e9 uma coisa que me perturba muito. \u00c9 dif\u00edcil fazer cinema. Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que vai acontecer daqui a uma semana, daqui a dois meses, daqui a\u2026 dois anos menos ainda, voc\u00ea n\u00e3o sabe nem se vai ficar vivo. N\u00e3o te d\u00e1 estabilidade nenhuma. A forma como eu fa\u00e7o filmes, sem ter contratos pr\u00e9-estabelecidos\u2026 eu levanto meus projetos, eu busco produtoras, parcerias, ent\u00e3o est\u00e1 muito distante da estabilidade que, dentro das minhas caracter\u00edsticas, eu gostaria de ter. E muitas vezes fico perguntando por que fa\u00e7o isso comigo, sabe? Porque bagun\u00e7o a minha vida desse jeito? Acho um pouco, Leandro, que de alguma forma \u00e9 uma tentativa de manter o que eu sempre fui. Eu estava conversando ontem com o Patrick aqui em S\u00e3o Paulo, a gente foi a um restaurante e a gente ficou conversando, a gente n\u00e3o se encontrava a dois anos, e eu falei da casa onde eu moro em Niter\u00f3i, que eu j\u00e1 estou h\u00e1 26 anos, no meu apartamentinho, e eu falei: \u201cNossa, ser\u00e1 que eu nunca consigo mudar\u201d; e das rela\u00e7\u00f5es que eu tenho com o Mauro, com o Fl\u00e1vio, com tudo mundo. A\u00ed o Patrick falou: \u201cEduardo, no fundo voc\u00ea \u00e9 um conservador\u201d. Eu falei: \u201cSer\u00e1 que \u00e9 isso?\u201d. A\u00ed ele: \u201c\u00c9, conservador nesse sentido de n\u00e3o sair de casa, ver as mesmas pessoas sempre\u201d. E eu acho que nesse sentido&#8230; eu tive uma inf\u00e2ncia, quando eu tinha uns 10, 12 anos, eu fazia filmes desenhados no papel, projetorzinho de slides. Hoje a nova gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem a menor ideia do que seja um slide, n\u00e9? Mas \u00e9 um projetor em que voc\u00ea projeta quadrados transparentes na parede. Eu tinha um projetorzinho de slides, fazia filmes num papel n\u00e3o t\u00e3o grosso, desenhava quadro a quadro, e eu fiz mais de 30 filminhos assim, desenhando quadro a quadro, cada filme tinha 50, 60\u2026 isso aos 10 anos de idade. Meus vizinhos eram o p\u00fablico que eu tinha.<\/p>\n<figure id=\"attachment_96531\" aria-describedby=\"caption-attachment-96531\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-96531\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"553\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde4-300x221.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96531\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Cinco da Tarde&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o \u00e0 toa o \u201cCinco da Tarde\u201d vai coexistir nos cinemas com \u201cDia D\u201d, do Spielberg.<\/strong><br \/>\nSim (risos). Para a minha sorte, vamos dizer assim (risos). Eu acho que, de alguma forma, o fazer cinema hoje \u00e9 tentar permanecer aquela pessoa que eu fui, sabe? Manter aquilo vivo ainda, esse contar hist\u00f3rias. Quando come\u00e7o a escrever, essa parte da inf\u00e2ncia pro amadurecimento, que \u00e9 justamente estabelecer a rela\u00e7\u00e3o com o mundo, me atrai muito. No &#8220;Cinco da Tarde\u201d, \u00e9 claro, s\u00e3o duas jovens, s\u00e3o p\u00f3s-adolescentes, mas eu acho que as conversas que surgem ali s\u00e3o quest\u00f5es que talvez tenham surgido pela primeira vez na inf\u00e2ncia delas. Por exemplo, o momento em que as duas est\u00e3o de frente para o aqu\u00e1rio e a Anabel fala: \u201cNossa, deve ser triste ser um peixinho, viver nesse aqu\u00e1rio pra l\u00e1 e pra c\u00e1\u201d. Talvez sejam coisas que uma crian\u00e7a pense. Talvez o adulto j\u00e1 n\u00e3o olhe para o aqu\u00e1rio. E a\u00ed a Meiko diz: \u201cN\u00e3o, pode ser que n\u00e3o, pode ser que os peixes tenham vivido a vida inteira ali e n\u00e3o saibam que existe um mundo fora daquele aqu\u00e1rio\u201d. E esse tipo de observa\u00e7\u00e3o, eu acho que s\u00f3 algu\u00e9m que est\u00e1 num processo de descoberta de mundo pode fazer. Indo para a sua pergunta e n\u00e3o alongando tanto\u2026 eu fui l\u00e1 na minha inf\u00e2ncia e voltei, enfim (risos), eu acho que mais que tudo, nessa caracter\u00edstica que voc\u00ea est\u00e1 tra\u00e7ando dos personagens, o que me interessa \u00e9 esse processo de descoberta constante do mundo, da gente ter novos olhares para coisas ordin\u00e1rias. Eu acho que a nossa tend\u00eancia ao envelhecer, ao amadurecer \u00e9 voc\u00ea achatar o seu olhar, a sua audi\u00e7\u00e3o, a sua forma de estar em contato com o mundo. O cinema que eu proponho \u00e9 um cinema que tenta desconcertar um pouco isso. Talvez por isso o formato da janela do \u201cUnic\u00f3rnio\u201d, talvez por isso os sil\u00eancios excessivos no filme, talvez por isso os tempos estendidos. \u00c9 do tipo, &#8220;olha para isso aqui&#8221;\u2026 e a pessoa vai falar: \u201cok, j\u00e1 vi\u201d. N\u00e3o, olha de novo, continua a olhar, continua a escutar isso. Pode ser que voc\u00ea encontre aqui alguma coisa que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 habituado a encontrar. Indo para os personagens e juntando o que \u00e9&#8230; \u00e9 engra\u00e7ado eu falar isso agora, eu nunca tinha percebido isso, esse racioc\u00ednio est\u00e1 surgindo agora, mas eu acho que vem um pouco, assim, de eu propor ao espectador um processo de redescoberta do mundo. \u00c9 o que eu gostaria que os filmes provocassem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Obrigado, Eduardo, a gente deseja a melhor sorte para essa estreia.<\/strong><br \/>\nObrigado pelas palavras. Acho que isso \u00e9 muito importante, da gente ir para as salas de cinema. A gente sabe que desde a pandemia as salas est\u00e3o com muito menos p\u00fablico do que tinham antes, de uma forma geral, e o cinema brasileiro em especial. A gente tem esses n\u00fameros de mais da metade dos filmes n\u00e3o chegam a mil espectadores, e aquilo que a gente conversou no in\u00edcio, o meu grande desejo \u00e9 que o filme chegue a quem venha a gostar dele. Eu acho que os meus filmes t\u00eam uma caracter\u00edstica que funciona muito bem em uma sala de cinema que \u00e9 o processo de imers\u00e3o, um processo de ambienta\u00e7\u00e3o forte que uma sala de cinema prop\u00f5e. E a\u00ed eu friso aqui, pe\u00e7o para que as pessoas que querem ver o filme, vejam nessa primeira semana, de quinta at\u00e9 domingo, porque os cinemas funcionam numa m\u00e9dia de p\u00fablico, ent\u00e3o para o filme continuar em cartaz \u00e9 importante que as pessoas assistam ele agora, nesse fim de semana pr\u00f3ximo. E obrigado pelo tempo de voc\u00eas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu sei que ele vai estrear em Portugal tamb\u00e9m no segundo semestre, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><br \/>\nSim, a gente tem um distribuidor, a Nitrato Filmes, l\u00e1 em Portugal, do Am\u00e9rico Santos, ele escreveu ontem e falou: \u201cEu vi que estreou no Brasil\u201d. Eu acho que ele queria estrear antes l\u00e1 (risos). A\u00ed deve estrear agora no segundo semestre em Portugal. Talvez eu esteja l\u00e1 em setembro, eu vou finalizar o outro filme l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Entrevista publicada originalmente no podcast Tudo \u00c9 Brasil. <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/00JvFnPc5hnQPF5HiIatws\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ou\u00e7a aqui<\/a><\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96527 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/cincodatarde-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw2y1ecqCW_KBoFqtTKVBQEK\">@leandro_luz<\/a>) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a \u00e1rea de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programa\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de cr\u00edtica no\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/screamyell.com.br\/site\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw263alYeTRQy1GYVR0TXsQG\">Scream &amp; Yell<\/a>\u00a0e nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw1BTqnliQ9DvtqDHkpafqt5\">Tudo \u00c9 Brasil<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3TjpLW5o8SaVAAdNU3jD2Z\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3DtKMpqv1bp5QVCI6MvWbM\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cCinco da Tarde\u201d d\u00e1 sequ\u00eancia a uma ideia de cinema burilada por Eduardo Nunes desde os seus primeiros curtas-metragens, realizados na universidade nos anos 1990 e 2000.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/07\/02\/entrevista-de-francisco-carbone-e-leandro-luz-do-tudo-e-brasil\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":96532,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4,4833],"tags":[8280],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96524"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96524"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96524\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96537,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96524\/revisions\/96537"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96532"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}