{"id":96335,"date":"2026-06-19T00:28:02","date_gmt":"2026-06-19T03:28:02","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=96335"},"modified":"2026-06-19T00:43:47","modified_gmt":"2026-06-19T03:43:47","slug":"entrevista-david-kilgour-repassa-discografia-solo-fala-do-the-clean-e-defende-que-a-primeira-ideia-e-a-melhor-ideia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/19\/entrevista-david-kilgour-repassa-discografia-solo-fala-do-the-clean-e-defende-que-a-primeira-ideia-e-a-melhor-ideia\/","title":{"rendered":"Entrevista: David Kilgour repassa discografia solo, fala do The Clean e do lo-fi, e defende que a primeira ideia \u00e9 a melhor ideia"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/hebertonbas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Heberton Barreira<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um breve passeio pela discografia de sua carreira solo, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/davidkilgour4\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">David Kilgour<\/a>, o eterno guitarrista e vocalista do The Clean, faz um coment\u00e1rio geral sobre cada \u00e1lbum, contando alguns detalhes do processo de produ\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o dos discos, de algumas faixas, de alguns crit\u00e9rios de ambienta\u00e7\u00e3o usada e sobre a decis\u00e3o de \u201cembelezar o m\u00ednimo poss\u00edvel\u201d. Kilgour conversa um pouco sobre algumas curiosidades do The Clean tamb\u00e9m, como o nome da banda ser inspirado em um personagem do filme de surf \u201cFree Ride\u201d (1977) e um uma tentativa frustrada de uma banda de adolescentes sairem de Dunedin, a segunda maior cidade da Ilha Sul da Nova Zel\u00e2ndia, e irem para Auckland, a maior cidade do pa\u00eds, numa van alugada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Kiwi indie (\u201cKiwi\u201d \u00e9 o apelido carinhoso que os neozelandeses usam para si mesmos. E tem tamb\u00e9m o p\u00e1ssaro nativo sem asas, encontrado nas florestas da Nova Zel\u00e2ndia) fala sobre a falsa impress\u00e3o de usarem o lo-fi como escolha est\u00e9tica: \u201cA gente n\u00e3o abra\u00e7ou o lo-fi. A \u00fanica coisa que fizemos foi tentar encontrar um jeito de gravar quando est\u00e1vamos satisfeitos, sabe? E a gente estava realmente interessado na fidelidade das grava\u00e7\u00f5es.\u201d Ainda assim, o The Clean conquistou f\u00e3s como Calexico, Pavement e Guided By Voices, os tr\u00eas presentes no tributo &#8220;God Save The Clean&#8221;, lan\u00e7ado em 1998 pela Flying Nun.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta conversa, David Kilgour fala, ainda, sobre seus projetos colaborativos com o poeta Sam Hunt, recorda o \u201csangue r\u00edtmico\u201d e a afinidade natural que tinha com seu irm\u00e3o na bateria, Hamish Kilgour, falecido em 2022, e comenta tamb\u00e9m que n\u00e3o descarta um novo projeto com o amigo Robert Scott (The Bats), com quem se encontra vez por outra para tratar de quest\u00f5es do The Clean.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conex\u00e3o entre o folk neozeland\u00eas e a viola caipira? Essa, David Kilgour nunca ouviu. Mas um ouvinte que aprecia a viola caipira de Cacai Nunes ou de Roberto Corr\u00eaa, ou dos \u00e1lbuns instrumentais de Almir Sater, dificilmente resistiria \u00e0 sonoridade das cordas de David Kilgour e Graeme Downes &#8211; outra figura tarimbada do \u201cDunedin Sound\u201d e na hist\u00f3ria do selo da Flying Nun Records com a banda The Verlaines. Ouvir os dedilhados em \u201cInstra 2\u201d do \u00e1lbum \u201cA Feather in the Engine\u201d \u00e9 como se aquecer \u00e0 beira da fogueira num frio de inverno melanc\u00f3lico. Ou como contemplar a vida selvagem no Pantanal. Ou, pelo menos, imaginar tudo isso, com o timbre, o reverb das cordas de a\u00e7o no seu headphone ou nas caixas de som da sua sala, na Alexa de sua cozinha, no seu quarto. Seja onde for, em qualquer toca de isolamento, os ecos das guitarras de Kilgour e Downes ressoam e persistem nas paredes do encantamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesses \u00faltimos cinco anos, David Kilgour tem aproveitado para gravar em seu est\u00fadio caseiro, e revela que vem disco novo por a\u00ed. N\u00e3o deu muitos detalhes sobre as composi\u00e7\u00f5es do novo \u00e1lbum, se ir\u00e1 herdar o clima soturno do \u00faltimo trabalho, o sublime \u201cBobbi\u2019es a Girl\u201d, ou se podemos esperar algo mais ensolarado. O novo \u00e1lbum tem previs\u00e3o de lan\u00e7amento para fevereiro de 2027, pela Merge Records. Aguardemos, ent\u00e3o, com a mesma certeza dos surfistas que se atiram ao mar com suas pranchas: de que a melhor onda ainda est\u00e1 por vir. Confira a conversa abaixo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Clean inducted into the NZ Music Hall of Fame\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GOQqJgm8eoc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra come\u00e7ar, s\u00f3 uma d\u00favida boba: David Kilgur ou David Kilgaur (risos)?<\/strong><br \/>\nKill-girl.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ok, (risos), uma coisa curiosa: a\u00ed na Nova Zel\u00e2ndia, tem um p\u00e1ssaro que n\u00e3o voa: kiwi. Kiwi \u00e9 tamb\u00e9m o apelido que voc\u00eas d\u00e3o para o neozeland\u00eas. O pass\u00e1ro Kiwi n\u00e3o consegue voar. Mas o indie kiwi \u2014 o som de Dunedin, a galera da Flying Nun <\/strong><strong>\u2014 esse sim, parece sempre ter asas. Antes da Internet, o The Clean j\u00e1 tocava nas r\u00e1dios universit\u00e1rias dos EUA. Voc\u00ea se sente um kiwi que aprendeu a voar de outro jeito?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o mesmo. \u00c9 engra\u00e7ado porque somos realmente muito isolados aqui. Ainda hoje somos isolados aqui em Dunedin. Ent\u00e3o tem algo a ver com isso \u2014 o p\u00e1ssaro que n\u00e3o voa. N\u00e3o sei, tem alguma conex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem um <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sdUUx5FdySs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">curta animado<\/a> sobre esse passarinho sem asas. J\u00e1 viu?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, acho que n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Posso te enviar o link no Youtube depois. \u00c9 triste, mas bem ousado.<\/strong><br \/>\nClaro. Pode enviar sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O nome The Clean veio de um personagem chamado Mr. Clean, de um filme de suf, de 1977. Mas tamb\u00e9m tinha um single dos Mumps chamado &#8216;I Like to Be Clean&#8217;. Qual das duas hist\u00f3rias \u00e9 a verdadeira? Ou as duas se misturaram com o tempo?<\/strong><br \/>\nAcho que meio que aconteceu ao mesmo tempo. A gente ouviu aquele single e por volta da mesma \u00e9poca vimos aquele filme de surf, que se chamava \u201cFree Ride\u201d, e tinha um personagem chamado Mr. Clean \u2014 era tipo um motoqueiro de cabe\u00e7a raspada. Parecia um bom nome para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E al\u00e9m do nome, voc\u00eas tamb\u00e9m curtiam o som dos Mumps, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nIsso mesmo. \u201cI Like to Be Clean\u201d era a m\u00fasica do The Mumps, isso mesmo. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=DrCxdpZMXvg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">D\u00e1 pra encontrar no YouTube<\/a>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"THE CLEAN | Tally Ho (1981) | 4k upscaled\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NJuWh5bYUUk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No livro do Richard Langston, &#8220;<a href=\"https:\/\/amzn.to\/4ejLMXl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Clean: In the Dreamlife You Need a Rubber Soul<\/a>\u201d, voc\u00ea falou de um \u201ccolapso existencial\u201d em Christchurch, na primeira tentativa de ir pra Auckland: &#8216;N\u00e3o podemos continuar, n\u00e3o podemos ir para Auckland, estamos loucos. Passamos a noite toda acordados tendo esse colapso.&#8217; O que exatamente fez voc\u00eas virarem o carro e voltarem pra casa?<\/strong><br \/>\nBem, a gente alugou uma van pra chegar em Christchurch, e \u00edamos deixar aquela van em Christchurch e pegar a van de um amigo, que, sabe, n\u00e3o estava consertada. A gente achava que estava. Ent\u00e3o, acho que n\u00e3o dava pra gente continuar at\u00e9 Auckland com a van alugada. Mas acho que tamb\u00e9m foi porque percebemos que n\u00e3o est\u00e1vamos prontos pra ir pra Auckland. Quer dizer, eu tinha 17 anos, sabe. Ent\u00e3o a gente sempre estava um pouco \u00e0 frente de n\u00f3s mesmos naquela \u00e9poca. Est\u00e1vamos tentando fazer coisas que n\u00e3o est\u00e1vamos realmente prontos pra fazer. E acho que foi uma das primeiras coisas assim que a gente fez. Mas \u00e9ramos bem jovens. Provavelmente foi uma boa ideia em retrospecto, mas a gente provavelmente pensou: \u201c&#8217;\u00c9 isso, nem vamos sair da cidade, talvez at\u00e9 pensamos em desistir\u201d. Mas n\u00e3o, claro, voltamos pra Dunedin e um baterista tinha largado o emprego e comprado uma van, e ele estava pronto pra ir pra Auckland, ent\u00e3o tentamos de novo alguns meses depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas n\u00e3o tinham neuras com tecnologia ou perfeccionismo. Voc\u00eas se consideravam lo-fi? Como uma m\u00fasica do The Clean ganhava forma?<\/strong><br \/>\nBem, a gente n\u00e3o abra\u00e7ou o lo-fi. A \u00fanica coisa que fizemos foi tentar encontrar um jeito de gravar quando est\u00e1vamos satisfeitos, sabe? E a gente estava realmente interessado na fidelidade das grava\u00e7\u00f5es. Naquela \u00e9poca, todo mundo estava nessa de sons de bateria enormes, reverbs com gate, reverbs de placa, todo esse tipo de coisa. E a gente n\u00e3o era contra isso \u2014 a gente s\u00f3 queria gravar o mais natural poss\u00edvel, do jeito antigo. Pessoas tocando numa sala, tipo anos 60 ou 70. Acabamos usando quatro canais porque a gente tinha controle total. E ach\u00e1vamos que conseguimos gravar muito bem. Era assim que nossas composi\u00e7\u00f5es funcionavam. A gente escrevia separado e junto. Ent\u00e3o n\u00e3o tinha um &#8216;quem decidia&#8217; \u2014 acho que n\u00f3s tr\u00eas decid\u00edamos se uma m\u00fasica entraria ou n\u00e3o. N\u00e3o tinha chefe nesse sentido. Se tivesse um chefe, seria a pessoa com a melhor ideia. Mas sei que alguns de n\u00f3s traziam m\u00fasicas completamente prontas. Outras vezes a gente co-escrevia um pouco. Hamish e eu co-escrevemos bastante. Mais tarde, Bob e eu escrevemos cada vez mais juntos. Mas no come\u00e7o, a gente n\u00e3o se sentava pra escrever muito junto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Clean live (1989) &quot;Point That Thing Somewhere Else&quot;\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cMaZe_aIIfg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando o Robert Scott se uniu a voc\u00eas pouco depois l\u00e1 no in\u00edcio dos anos 80, certo?<\/strong><br \/>\nHamish e eu j\u00e1 t\u00ednhamos escrito algumas m\u00fasicas quando o Bob apareceu. A gente j\u00e1 tinha &#8216;Point That Thing Somewhere Else&#8217;, j\u00e1 tinha &#8216;Anything Could Happen&#8217;, algumas outras coisas que eu tinha escrito. Bob estava numa banda chamada Electric Blood. E ele j\u00e1 escrevia. Mas como compositor, ele s\u00f3 foi pegar o ritmo perto do fim da primeira fase do The Clean.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=The+Bats\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Da\u00ed ele foi montar o The Bats<\/a>. Isso foi uma separa\u00e7\u00e3o natural ou teve uma conversa do tipo &#8216;vamos cada um pro seu lado&#8217;?<\/strong><br \/>\nA gente j\u00e1 tinha acabado, ent\u00e3o \u2014 e ele estava morando com o Paul (Paul Kean) e a Kaye (Kaye Woodward), ent\u00e3o foi natural pra ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu irm\u00e3o Hamish disse uma vez que voc\u00eas tinham \u201csangue r\u00edtmico\u201d. Como era tocar com ele? Parecia que voc\u00eas se entendiam antes mesmo do som sair?<\/strong><br \/>\n\u00c0s vezes parecia isso, sim. A gente tinha uma afinidade natural. Acho que n\u00f3s tr\u00eas t\u00ednhamos uma afinidade natural ritmicamente. Mas, \u00e0s vezes quando est\u00e1vamos improvisando, havia momentos em que o Hamish me surpreendia. Eu estaria pensando em fazer alguma coisa na cabe\u00e7a \u2018s\u00f3 me acompanha\u2019, s\u00f3 sentindo, sabe? Houve momentos assim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Clean - Anything Could Happen\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7tf1wzg4rdE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na \u00e9poca do lan\u00e7amento do \u201cHere Come the Cars\u201d (1991), a revista Rip It Up disse que o disco trazia um retrato com verrugas e tudo. Voc\u00ea achou dessa forma tamb\u00e9m? Algo assustador seguindo para uma carreira solo?<\/strong><br \/>\nOoh, foi assustador? N\u00e3o sei (risos). N\u00e3o sei se foi assustador. Eu estava tentando sair debaixo da sombra do The Clean com certeza. Foi um esfor\u00e7o consciente de, talvez, n\u00e3o replicar o The Clean. Ent\u00e3o de certa forma \u00e9 um \u00e1lbum bem ac\u00fastico. Mas assustador? N\u00e3o mesmo. Eu estava bem confiante, acho. Eu tinha as m\u00fasicas. Achava que tinha as m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cSugar Mouth\u201d (1994) foi o primeiro disco seu com letras na capa. Mas voc\u00ea entrou no est\u00fadio com metade delas incompletas e repetia versos de uma m\u00fasica na outra. Voc\u00ea chegou a dizer algo como \u201cFoda-se, vai ser assim mesmo.\u201d Esse neg\u00f3cio de n\u00e3o ter que se levar t\u00e3o a s\u00e9rio ainda faz parte do seu m\u00e9todo?<\/strong><br \/>\nBem, eu acredito na primeira pegada, a melhor pegada \u2014 ou, sabe, a primeira ideia \u00e9 a melhor ideia. Geralmente acredito nisso. No que diz respeito \u00e0 m\u00fasica, (para) conseguir uma boa performance, sempre tem que ser capturada na segunda ou terceira tomada, e pra mim j\u00e1 era. Ent\u00e3o, totalmente. \u00c0s vezes a gente fica com as imperfei\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes imperfei\u00e7\u00f5es, de certa forma, d\u00e3o \u00e0 m\u00fasica uma certa longevidade por alguma raz\u00e3o. N\u00e3o sei por qu\u00ea.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"David Kilgour - No No No (1994) \u2014HD version 2024\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/v9U0lHEShsM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No terceiro disco, \u201cDavid Kilgour &amp; The Heavy Eights\u201d (1997), tem a participa\u00e7\u00e3o de uma americana indie chamada Barbara Manning cantando em &#8216;Locked in Blue&#8217;. Como ela entrou nessa?<\/strong><br \/>\nEla estava na Nova Zel\u00e2ndia fazendo turn\u00ea, e ela era amiga. Ela voltou algumas vezes. Ela fez um disco aqui chamado \u201cBarbara Manning in New Zealand\u201d. Acho que deve ter sido na segunda vez que ela veio..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse disco foi descrito pela <a href=\"https:\/\/dunedinsoundtapes.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dunedin Sound Tapes<\/a> como uma mistura da atmosfera calorosa de \u201cHere Come the Cars\u201d com a sonoridade mais limpa de \u201cSugar Mouth\u201d. Voc\u00ea sentiu que foi nesse \u00e1lbum que finalmente encontrou sua voz solo?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei. \u00c9 uma boa pergunta. Me senti bem confiante depois de fazer o \u201cHere Come the Cars\u201d. Achei que ele era muito bom. Senti que comecei muito bem ali. Com aquele terceiro \u00e1lbum, \u201cHeavy Eights\u201d, foi um disco bem f\u00e1cil de fazer. De novo, eu confiante no est\u00fadio. Mas n\u00e3o, acho que n\u00e3o encontrei minha voz ali, n\u00e3o. Ainda estou procurando. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea disse \u00e0 Rip It Up que uma das suas partes favoritas do disco \u00e9 aquela guitarra solta no final de &#8216;Chop Me In Half&#8217;, que entra e sai no sil\u00eancio quando a r\u00edtmica morre. A ideia apareceu por acaso no est\u00fadio ou foi de forma planejada?<\/strong><br \/>\nAquela foi meio planejada. A gente sabia o que estava fazendo, acho que sim. Gosto muito do som da guitarra nessa m\u00fasica. Foi um som legal, texturas legais. Mas, foi planejada com certeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No \u00e1lbum \u201cA Feather in the Engine\u201d (2001), todos os arranjos foram feitos pelo Graeme Downes, do Verlaines?<\/strong><br \/>\nSim. Aquelas notas de encarte s\u00e3o dif\u00edceis de ler. Ele fez os arranjos das cordas em &#8216;Instra 2&#8217;. Tem uma m\u00fasica ali que tem um quarteto de cordas me acompanhando \u2014 ele fez o arranjo daquela, eu acho. E ele pode ter tocado baixo em outra m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cFrozen Orange\u201d (2004) foi o primeiro disco em que voc\u00ea deixou outra pessoa \u2014 o Mark Nevers \u2014 tomar as r\u00e9deas da produ\u00e7\u00e3o. Como foi abrir m\u00e3o do controle pela primeira vez?<\/strong><br \/>\nAh, foi bom. Eu queria que fosse tanto meu \u00e1lbum quanto dele, ent\u00e3o meio que tira um pouco do peso de voc\u00ea. \u00c9 um al\u00edvio ter outra pessoa tomando algumas decis\u00f5es por voc\u00ea. Quer dizer, o que eu realmente quero fazer \u00e9 subir ali e tocar as m\u00fasicas o melhor poss\u00edvel, e a\u00ed talvez embelezar o m\u00ednimo poss\u00edvel \u2014 mas embelezar. E \u00e9 bom ter outra pessoa dando as ordens. Foi bom.<\/p>\n<figure id=\"attachment_96337\" aria-describedby=\"caption-attachment-96337\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-96337\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/david1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/david1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/david1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/david1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96337\" class=\"wp-caption-text\"><em>Discografia solo de David Kilgour<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Pitchfork, no review desse disco, te chamou de um artista que nunca decepciona. Voc\u00ea se sente confort\u00e1vel com esse r\u00f3tulo ou ele te pressiona de alguma forma?<\/strong><br \/>\nAceito. Aceito. Estou surpreso por ainda estar aqui fazendo m\u00fasica (risos). Ainda estou aqui, sabe? Ent\u00e3o aceito com certeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 verdade que \u201cThe Far Now\u201d ia ser um disco de teclados? Mas voc\u00ea comprou uma Gibson ac\u00fastica e parece que mudou tudo. Voc\u00ea tinha dito: &#8216;Finalmente tinha uma boa Gibson e queria esprem\u00ea-la no \u00e1lbum.&#8217; Voc\u00ea mudou de ideia mesmo?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o me lembro disso, na verdade. Nem lembro de ter dito isso ou pensado isso. Mas me lembro de ter comprado a guitarra Gibson, sim (risos). Muitas vezes come\u00e7o com uma ideia para um \u00e1lbum (que nem sempre funcionam) \u2014 tipo, no \u201cEnd Times Undone\u201d (2014), eu pensei: \u201cCerto, vamos fazer esse \u00e1lbum num ambiente bem seco, um som bem seco, sem reverb, sem som de ambiente, esse tipo de coisa.\u201d E isso foi completamente por \u00e1gua abaixo no final daquele disco. Quer dizer, n\u00e3o \u00e9 nada seco. Ent\u00e3o, voc\u00ea come\u00e7a com ideias que nem sempre funcionam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Numa entrevista sobre o \u201cThe Far Now\u201d, voc\u00ea disse que tudo que voc\u00ea tinha feito como artista solo foi \u00e0 sombra do The Clean. Voc\u00ea disse agora h\u00e1 pouco que, no in\u00edcio da sua carreira solo, estava tentando sair dessa sombra. Ela te incomoda ainda de alguma forma?<\/strong><br \/>\nSei que n\u00e3o me incomoda porque ela paga as contas (risos). Mas s\u00e9rio, \u00e9 maravilhoso que, 50 anos depois ou seja l\u00e1 o que for, as pessoas ainda estejam interessadas naquilo e ainda queiram falar sobre isso. Isso me surpreende. N\u00e3o levo isso como garantido \u2014 n\u00e3o mesmo. Mas ainda vivo daquela m\u00fasica daqueles primeiros dias. Ent\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel pra mim, realmente. Acho que as coisas do The Clean meio que subsidiaram o trabalho solo de certa forma. Porque o trabalho solo n\u00e3o foi nem de perto t\u00e3o bem quanto as coisas do The Clean.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"david kilgour playing chord\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_uS3iPsBk8E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea fez dois discos com o poeta Sam Hunt \u2014 \u201cFalling Debris\u201d (2008) e \u201cThe 9th\u201d (2015). Como nasceu essa parceria e como funcionava a cria\u00e7\u00e3o entre voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nBem, eu conhecia a poesia dele. Ele \u00e9 um poeta famoso na Nova Zel\u00e2ndia desde meados dos anos sessenta, s\u00e9culo passado. E eu esbarrei com ele, e ele tamb\u00e9m me conhecia. A gente estava num avi\u00e3o, na verdade, e sentamos um ao lado do outro. E foi assim que nos conhecemos. Sempre pensei em fazer um disco com ele \u2014 colocar m\u00fasica por tr\u00e1s da poesia dele \u2014 e foi isso que decidimos fazer. Ele vinha para Dunedin e a gente o acompanhava. \u00c0s vezes a gente s\u00f3 sentava, com um viol\u00e3o ac\u00fastico e tocava alguma coisa, e ele podia dizer: \u201cEi, talvez eu tenha um poema pra isso.\u201d Ent\u00e3o foi uma colabora\u00e7\u00e3o nesse sentido. A gente tinha um pouquinho pr\u00e9-preparado, talvez umas duas ou tr\u00eas coisas que a gente sabia o que ia fazer com elas. Mas o resto a gente foi resolvendo na hora ao longo de cerca de uma semana. Ele \u00e9 um ser humano incr\u00edvel. N\u00e3o consigo dizer o suficiente sobre o Sam, mas posso dizer isso, que cara incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cLeft by Soft\u201d (2011) foi gravado numa cabana no Catlins, cerca de duas horas ao sul de Dunedin. Thomas Bell tocava baixo, produzia e ainda cozinhava pra banda. Voc\u00eas passavam a manh\u00e3 relaxando, gravavam de tarde at\u00e9 de noite. Como foi a grava\u00e7\u00e3o nesse isolamento?<\/strong><br \/>\nA principal coisa era fugir das distra\u00e7\u00f5es, eu acho \u2014 olha, depois de ter feito isso, acho que as distra\u00e7\u00f5es poderiam ter sido muito boas pra gente (risos). Mas a gente estava num acampamento escoteiro no meio do nada, bem na costa, no mato. Ent\u00e3o era um pr\u00e9dio bem grande na verdade, e a sala principal onde a gente trabalhava era uma grande sala de jantar, na verdade, uma sala de madeira. Ent\u00e3o foi uma \u00f3tima sala pra gravar. Mas n\u00e3o era muito confort\u00e1vel l\u00e1.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"David Kilgour and the Heavy Eights - Left By Soft\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Izh37eZEGcE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Numa entrevista sobre esse disco, voc\u00ea disse: \u201cQuanto mais voc\u00ea pensa na m\u00fasica e quanto mais trabalha nela, pior ela fica\u201d. Isso volta naquela sua resposta sobre as imperfei\u00e7\u00f5es.<\/strong><br \/>\nAcho que isso vem da ideia de que a primeira ideia \u00e9 a melhor ideia, e ent\u00e3o tentar manter a ess\u00eancia de qualquer ideia com a qual voc\u00ea est\u00e1 trabalhando. \u00c9 f\u00e1cil pensar demais e trabalhar demais em algo a ponto de voc\u00ea esquecer de onde veio ou por que aquilo te comoveu, ou voc\u00ea perde algo que aquilo tinha. Sempre carreguei isso comigo, e \u00e9 da\u00ed que isso vem, na verdade. Mas ao mesmo tempo, eu posso trabalhar em algo repetidamente, especialmente quando estou gravando. Mas no que diz respeito \u00e0 composi\u00e7\u00e3o, compor \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu \u00faltimo \u00e1lbum solo, \u201cBobbie&#8217;s a Girl\u201d, saiu em 2019, e voc\u00ea fez turn\u00ea naquele ano. Depois disso, voc\u00ea subiu no palco de novo poucas vezes, certo?<\/strong><br \/>\nUm pouquinho, n\u00e3o muito. Acho que fiz umas duas ou tr\u00eas apresenta\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos cinco anos (risos). A (pandemia da) Covid atrapalhou isso por um tempo, mas, tamb\u00e9m, n\u00e3o tenho escrito muito. E normalmente s\u00f3 fa\u00e7o turn\u00ea se tenho um disco novo ou se somos convidados pra tocar em algum lugar, e a gente recebe convites de vez em quando. Mas n\u00e3o, n\u00e3o tenho tocado muito n\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"David Kilgour &amp; the Heavy Eights - Comin&#039; On (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/k8WXo_CzaAE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cBobbie&#8217;s a Girl\u201d \u00e9 um disco misterioso, quase sem letras. A perda da sua m\u00e3e pesou bastante no clima das can\u00e7\u00f5es? Voc\u00ea sentiu que as palavras n\u00e3o dariam conta daquele luto?<\/strong><br \/>\nEu diria que se faz um pouco de drama demais sobre isso, de que o \u00e1lbum era sobre morte. Talvez cerca de um ter\u00e7o do \u00e1lbum esteja relacionado a isso. E por causa do clima daquelas faixas, certo, isso fez com que fosse um \u00e1lbum melanc\u00f3lico. Ent\u00e3o qualquer outra coisa que a gente criasse, melanc\u00f3lica, a gente iria juntar com esse material. Ent\u00e3o ele tem um clima, com certeza, parte dele. Eu sempre gostei de instrumentais tamb\u00e9m, ent\u00e3o nunca tive problema com instrumentais, e nunca tive problema com letras m\u00ednimas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando em instrumental, voc\u00ea j\u00e1 ouviu a viola caipira? Porque em discos como \u201cA Feather in the Engine\u201d e \u201cBobbie&#8217;s a Girl\u201d, aquele som do seu viol\u00e3o com delay e reverb me lembra, de alguma maneira, a nossa viola caipira. \u201cInstra 2\u201d, por exemplo, as cordas remetem a um instrumental do Cacai Nunes ou Roberto Corr\u00eaa, m\u00fasicos brasileiros tocadores de viola caipira. Ricardo Vignini, Z\u00e9 Helder&#8230; Os mais conhecidos aqui s\u00e3o Almir Sater e Renato Teixeira. J\u00e1 bateu um brasileiro desses no seu radar, no feed do Instagram, por exemplo?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, acho que n\u00e3o. Tirando os \u00f3bvios de muito, muito tempo atr\u00e1s, acho que voc\u00ea deve conhecer os caras do jazz. Eu conhe\u00e7o outros. Mas tinham alguns artistas brasileiros grandes nos anos 60, que tiveram alguns hits e que tocavam aqui na Nova Zel\u00e2ndia. S\u00e9rgio Mendes \u00e9 brasileiro? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim (risos)<\/strong><br \/>\nArtistas bem antigos assim. Tem mais um que conhe\u00e7o tamb\u00e9m \u2014 hum, tenho o \u00e1lbum aqui. Comprei outro dia, na verdade. Ah, mem\u00f3ria p\u00e9ssima, mem\u00f3ria p\u00e9ssima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Numa entrevista, voc\u00ea disse que estava cansado de escrever versos e refr\u00f5es \u2014 &#8216;bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1&#8217;, nas suas palavras. Que voc\u00ea prefere algo mais largado, relaxado. Voc\u00ea encara essa forma de tocar como uma terapia?<\/strong><br \/>\nM\u00fasica \u00e9 definitivamente uma forma de terapia. A gente precisa de m\u00fasica. Faz bem pra gente. Sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea disse que ver o Lou Reed em 1975 foi seu \u201cmomento Elvis Presley\u201d e que voc\u00ea foi <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2012\/02\/05\/o-minimalismo-e-o-rock-and-roll\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">atra\u00eddo pelo minimalismo<\/a>. Mas voc\u00ea nunca conseguiu abandonar aquela veia pop, ela aparece at\u00e9 na distor\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea junta uma coisa com a outra?<\/strong><br \/>\nO pop e o barulho? N\u00e3o sei. Suponho que muitos artistas dos anos 60 que eu gosto faziam isso. Jimi Hendrix fazia isso. O Velvet Underground com certeza conseguia ir da grande beleza ao barulho maravilhoso. A gente sempre tentava fazer algo diferente e se fosse barulhento, quem se importa? Se \u00e9 bom pra lan\u00e7ar, grava. Tudo depende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 falou que v\u00ea m\u00fasica visualmente, e que pintar te ajuda a sonhar acordado. Pode explicar como funciona isso?<\/strong><br \/>\nEu sonho acordado bastante. Acho que \u00e9 importante n\u00e3o fazer nada \u00e0s vezes, sabe, sonhar acordado. Acho que pintar \u00e9 s\u00f3 algo diferente pra fazer, e \u00e9 uma pausa de fazer outras coisas. Mas sim, muitas vezes eu acho que geralmente penso na m\u00fasica visualmente. De alguma forma, sim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"David Kilgour - Looks like I&#039;m running out\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-9ygLV4pBOI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O v\u00eddeo de &#8216;Looks Like I&#8217;m Running Out&#8217; juntou sua paix\u00e3o por surf e m\u00fasica. Esperar a onda certa \u00e9 parecido com esperar a m\u00fasica certa aparecer?<\/strong><br \/>\nSim, provavelmente. Mas, sabe, voc\u00ea pode garantir que a onda provavelmente vai vir, no surfe tem previs\u00e3o. Na m\u00fasica n\u00e3o tem previs\u00e3o. (risos, gesticula juntando as m\u00e3os como pedindo em ora\u00e7\u00e3o, esperando uma can\u00e7\u00e3o cair do c\u00e9u) \u201cOh, por favor!\u201d (risos) Voc\u00ea sabe que vai ser alguma coisa. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a. Mas \u00e9 meio parecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 disse que nostalgia pode ser assustadora e que prefere desconstruir m\u00fasicas antigas ao vivo. Quando voc\u00ea toca &#8216;Tally Ho&#8217; hoje, voc\u00ea tenta se reconectar com o jovem de 16 anos ou quer destruir essa imagem pra fazer algo novo?<\/strong><br \/>\nBem, acho que com aquela m\u00fasica em particular, &#8216;Tally Ho&#8217;, sempre que a gente toca \u2014 ou costumava tocar \u2014 a gente simplesmente atacava ela. E eu atacava a m\u00fasica como se eu fosse um louco de 16 anos, suponho. Quase atacava a ponto de ficar bem punk e bem solta. Ent\u00e3o de certa forma, talvez eu me conecte com a minha juventude quando toco aquela m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea disse que sem Peter Gutteridge o The Clean talvez n\u00e3o existisse. Existe algum timbre de guitarra ou uma pegada sua no baixo hoje que dialoga com o estilo dele?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. N\u00e3o mesmo. Voc\u00ea conhece o Snapper, a banda que o Peter formou depois? Eles s\u00e3o muito dif\u00edceis de encontrar. N\u00e3o est\u00e3o no Spotify, n\u00e3o est\u00e3o no Bandcamp. Mas d\u00e1 pra achar algumas m\u00fasicas no YouTube. Procura. Ele seguiu o caminho dele totalmente. \u00c9 bem interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua \u00faltima parceria com Robert Scott foi no The Clean mesmo? No \u00e1lbum \u201cMister Pop\u201d (2009)? Ele lan\u00e7ou no ano passado o \u201cCorner Coming Up\u201d com o The Bats. Voc\u00eas se encontram de vez em quando? J\u00e1 chegaram a pensar em outro projeto juntos?<\/strong><br \/>\nSim, Bob e eu mantemos contato. Ele n\u00e3o mora muito longe, e sempre tem algum assunto do The Clean pra conversar. Ent\u00e3o a gente sempre se fala. E recentemente a gente tocou \u2014 teve o lan\u00e7amento de um livro aqui em Dunedin, e o Bob e eu tocamos com Josh, baterista de uma banda local chamada Pearly. A gente tocou por meia hora, s\u00f3 m\u00fasicas do The Clean nesse lan\u00e7amento de livro. E curiosamente, depois disso, recebemos umas cinco propostas de shows \u2014 as pessoas querem que a gente toque. Mas n\u00e3o sabemos se vamos ou n\u00e3o. A gente gostou muito, apesar disso. Foi divertido. Mas seria estranho fazer isso sem o Hamish. Acho que se a gente fizer alguma coisa no futuro, n\u00e3o faria sob o nome do The Clean. Mas n\u00e3o descartaria o Bob e eu fazermos coisas juntos. Quer dizer, sei que ele tem um \u00e1lbum solo saindo em breve, ent\u00e3o\u2026<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Clean - Getting Older\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/72-FPkrWVkw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo agora? Planejando um \u00e1lbum novo?<\/strong><br \/>\nTenho um \u00e1lbum solo saindo no in\u00edcio do ano que vem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ano que vem?<\/strong><br \/>\nTenho gravado aqui em casa nos \u00faltimos cinco anos. Tudo que precisei de banda, levei para um est\u00fadio para terminar. Ent\u00e3o o disco todo veio da casa, na verdade \u2014 do est\u00fadio caseiro. \u00c9 mais um \u00e1lbum solo de certa forma, mas tem muita gente tocando nele. O baterista morreu (Taane Tokona), e arranjamos outro baterista que nos ajuda de vez em quando. O Tony (Tony de Raad), o antigo guitarrista, mora em Seattle agora. Ent\u00e3o s\u00f3 restamos eu e o Tom (Thomas Bell), ele tem feito a engenharia e mixagem pra mim. E tamb\u00e9m o Nick Roughan, que gravou os tr\u00eas primeiros \u00e1lbuns solo, tenho trabalhado com ele um pouco tamb\u00e9m aqui em Dunedin. Ent\u00e3o, deve sair em fevereiro do ano que vem pela Merge Records. E eles devem relan\u00e7ar \u201cGetting Older\u201d, 45 RPM, do The Clean, e o EP \u201cGreat Sounds Great\u201d, em vinil, acho que em novembro. Vou fazer alguns shows no ano que vem\u2026.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 disse que viajar desperta uma energia criativa meio melanc\u00f3lica, e que Dunedin ser longe de tudo te ajuda a ficar em paz. Sendo um artista t\u00e3o ligado a\u00ed, ser\u00e1 que essa \u201cmelancolia da estrada\u201d \u00e9 o que te impede de ficar parado?<\/strong><br \/>\nAcho que sim, especialmente viajando sozinho. Percebi essa melancolia, talvez, porque voc\u00ea est\u00e1 olhando pra tr\u00e1s enquanto voa pra longe de seja l\u00e1 do que voc\u00ea est\u00e1 se afastando. Eu com certeza percebia isso quando era mais jovem, quando viajava. N\u00e3o sei por qu\u00ea. Talvez seja s\u00f3 saudade de casa mesmo (risos). Mas \u00e9 verdade, sim, voc\u00ea est\u00e1 certo. Viajar \u00e9 uma pausa. Ent\u00e3o deixa sua mente divagar, e talvez seja isso que acontece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre punks e hippies: voc\u00ea disse que os punks eram s\u00f3 os hippies de cabelo curto, mas no fundo com os mesmos ideais. Os hippies constru\u00edam suas pr\u00f3prias comunidades. Os punks constru\u00edam suas pr\u00f3prias bandas e gravadoras. Ent\u00e3o o \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d \u00e9 a verdadeira conex\u00e3o pra voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nSim, sim. Muito parecidos, na verdade. Mas tamb\u00e9m o sonho hippie era ir pro campo e ser autossuficiente e ter sua pr\u00f3pria comunidade e fazer suas pr\u00f3prias coisas. N\u00e3o t\u00e3o diferente, na verdade, da coisa punk. Houve coisas boas no punk. Quer dizer, as pessoas discordariam disso \u2014 tenho certeza que havia racismo em todo lugar \u2014 mas quer dizer, ele acolhia todo mundo. Voc\u00ea podia ser gay, podia ser negro, podia ser asi\u00e1tico, podia ser mulher \u2014 todo mundo era bem-vindo pra subir no palco e tocar guitarra e tentar. Coisas \u00f3timas surgiram disso. A comunidade, a abertura pra todo mundo de certa forma. E os hippies eram iguais, na verdade. Exceto que os hippies n\u00e3o gostavam de caipiras \u2014 nem os punks. Os hippies eram contra a sociedade, e os punks tamb\u00e9m. \u00c9 um movimento de certa forma. Mas a coisa toda do &#8216;fa\u00e7a voc\u00ea mesmo&#8217; com certeza foi uma grande inspira\u00e7\u00e3o. Os Buzzcocks lan\u00e7aram seu pr\u00f3prio compacto, \u201cSpiral Scratch\u201d e coisas assim. Mas tamb\u00e9m toda aquela coisa hippie \u2014 se voc\u00ea olhar fotografias antigas do John Lydon e de todos aqueles caras do Clash, quando eram adolescentes, todos tinham cabelo comprido at\u00e9 as costas. Todos hippies, sabe. Fumando maconha e ouvindo Can. (risos) Mott the Hoople e Roxy Music. Roxy Music \u2014 grande banda de crossover ali, certo? (risos)<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"David Kilgour and the Heavy Eights - Fish (The Clean), Port Noise 2025\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8d-HuLaiJIg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"David Kilgour - Live at The Others Way Festival 2016\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JZ9GzaphvYQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"David Kilgour &amp; the Heavy Eights - Christopher Columbus (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/a3WpVgSixm4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Clean - Safe in the Rain (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vnqwE7la2JI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Clean - Beatnik\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ol3JHWlSRzc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/hebertonbas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Heberton Barreira<\/a> \u00e9 estudante de jornalismo, bandolinista e animador stop-motion. Criador do @<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/yayatedance\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">yayatedance<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nesses \u00faltimos cinco anos, David Kilgour tem aproveitado para gravar em seu est\u00fadio caseiro, e revela que vem disco novo por a\u00ed.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/19\/entrevista-david-kilgour-repassa-discografia-solo-fala-do-the-clean-e-defende-que-a-primeira-ideia-e-a-melhor-ideia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":164,"featured_media":96338,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4833,3],"tags":[8269,8270],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96335"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/164"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96335"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96335\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96342,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96335\/revisions\/96342"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96338"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}