{"id":96306,"date":"2026-06-16T00:35:04","date_gmt":"2026-06-16T03:35:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=96306"},"modified":"2026-06-17T00:46:34","modified_gmt":"2026-06-17T03:46:34","slug":"entrevista-janaina-marques-e-veronica-cavalcanti-falam-sobre-fiz-um-foguete-imaginando-que-voce-vinha-premiado-no-olhar-de-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/16\/entrevista-janaina-marques-e-veronica-cavalcanti-falam-sobre-fiz-um-foguete-imaginando-que-voce-vinha-premiado-no-olhar-de-cinema\/","title":{"rendered":"Entrevista: Jana\u00edna Marques e Ver\u00f4nica Cavalcanti falam sobre o premiado &#8220;Fiz um Foguete Imaginando que Voc\u00ea Vinha&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/joao.paulo.barreto.824529\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos destaques da Mostra Competitiva Brasileira da <a href=\"https:\/\/olhardecinema.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">15\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Olhar de Cinema &#8211; Festival Internacional de Curitiba<\/a>, \u201cFiz um Foguete Imaginando que Voc\u00ea Vinha\u201d ganhou os pr\u00eamios de levou Melhor Atua\u00e7\u00e3o (para Ver\u00f4nica Cavalcanti e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/08\/entrevista-luciana-souza-fala-sobre-seu-papel-em-fiz-um-foguete-imaginando-que-voce-vinha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luciana Souza<\/a>) e Pr\u00eamio Olhar de Melhor Filme. Dirigido por Jana\u00edna Marques, \u201cFiz um Foguete Imaginando que Voc\u00ea Vinha\u201d trata do trauma de uma reconcilia\u00e7\u00e3o tardia entre Rosa e Dalva, filha e m\u00e3e, ap\u00f3s anos de uma aus\u00eancia for\u00e7ada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m trata da frustra\u00e7\u00e3o dessa reconcilia\u00e7\u00e3o acontecer somente no campo mental de Rosa, e do desejo de que o passado pudesse ter sido diferente. Do desejo de que, desse passado, um presente menos traumatizante pudesse surgir para ela. Infelizmente, a realidade amarga se sobrep\u00f5e ao sonho e esse desejo de uma filha que busca nesse relacionamento materno e imagin\u00e1rio um lugar de conforto se torna algo fugaz. Por\u00e9m, tal fugacidade deixa na vida de Rosa uma fagulha de reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao precisar passar por uma resson\u00e2ncia magn\u00e9tica em um exame, Rosa (vivida por Ver\u00f4nica Cavalcanti) \u00e9 orientada pela enfermeira a buscar relaxar durante o confinamento dentro do aparelho m\u00e9dico. &#8220;Pense em uma lembran\u00e7a feliz. Tente visualizar pelo m\u00e1ximo de tempo poss\u00edvel&#8221;. O olhar confuso de Rosa diante daquele pedido e todas as d\u00favidas que a necessidade daquele exame m\u00e9dico disparam em sua mente a levam para um est\u00e1gio de reencontro mental. Nele, uma viagem (ou fuga) em uma estrada do interior do Cear\u00e1 junto \u00e0 sua m\u00e3e, Dalva (vivida por Luciana Souza), liberta uma enxurrada de sentimentos. A reconcilia\u00e7\u00e3o surge de modo violento, mas n\u00e3o deixa de ser bem-vinda naquele turbilh\u00e3o que a mente de Rosa vive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a estrada percorrida por m\u00e3e e filha naquele carro decorado como ponto de venda de cachorro-quente (em uma tirada c\u00f4mica brilhante), juntamente aos diversos locais que ilustram aquele trajeto, v\u00e3o construindo essa lembran\u00e7a imagin\u00e1ria de Rosa. Um ponto de fuga em busca de um conforto mental para algu\u00e9m cuja trajet\u00f3ria a faz merecer um respiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia dom\u00e9stica, o feminic\u00eddio, assuntos t\u00e3o em evid\u00eancia na necess\u00e1ria den\u00fancia, foi o fator que, l\u00e1 atr\u00e1s, trouxe o momento de virada negativa na vida da ainda crian\u00e7a Rosa. Durante uma discuss\u00e3o de vizinhos, Dalva, sua m\u00e3e, resolve intervir antes que um marido violento mate sua esposa durante uma briga. Acusada de homic\u00eddio, Dalva \u00e9 presa e, assim, Rosa cresce sem a presen\u00e7a de sua progenitora e principal protetora. A discuss\u00e3o acerca de um tema urgente como o feminic\u00eddio se tornou algo central no longa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, a diretora Jana\u00edna Marques e a protagonista premiada Ver\u00f4nica Cavalcanti aprofundam o processo de cria\u00e7\u00e3o do filme. Confira!<\/p>\n<figure id=\"attachment_96307\" aria-describedby=\"caption-attachment-96307\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-96307 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/15Olhardecinema_Dia-13-06-22.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/15Olhardecinema_Dia-13-06-22.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/15Olhardecinema_Dia-13-06-22-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-96307\" class=\"wp-caption-text\"><em>Luciana Souza, Jana\u00edna Marques e Ver\u00f4nica Cavalcanti \/ Foto de Walter Thoms<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme traz esse tom de atua\u00e7\u00e3o que transparece bem em uma qu\u00edmica e equil\u00edbrio na sua constru\u00e7\u00e3o de personagem com a da Luciana Souza. Como foi esse processo de cria\u00e7\u00e3o para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nVer\u00f4nica Cavalcanti &#8211; Come\u00e7amos a trabalhar nesse filme ainda durante a pandemia, sabe? Um per\u00edodo bem delicado. Trabalhamos a prepara\u00e7\u00e3o de elenco ainda de forma virtual com o (cineasta) Armando Pra\u00e7a, que fez a prepara\u00e7\u00e3o de atores. Eu era louca para trabalhar com Luciana. J\u00e1 conhecia o trabalho dela, e acho que a sintonia entre n\u00f3s duas partiu dessa prepara\u00e7\u00e3o. E, tamb\u00e9m, daquele momento (pand\u00eamico) em que est\u00e1vamos. E partiu, tamb\u00e9m, de um momento em que eu, particularmente, estava com muita vontade de voltar a trabalhar. Depois de todo o isolamento, de todo o afastamento naquele per\u00edodo surreal, eu estava com muita vontade de voltar a trabalhar. E a primeira coisa que apareceu na minha frente foi esse roteiro incr\u00edvel e maravilhoso que, ao ler, eu fiquei enlouquecida. Pensei: \u201cTenho que fazer esse filme de todo jeito\u201d (risos). A prepara\u00e7\u00e3o de elenco foi feita de uma maneira completamente diferente. Nunca tinha feito uma prepara\u00e7\u00e3o virtual para trabalhar em um personagem. Mas acho que est\u00e1vamos muito movidos por esse momento. Por essa necessidade de se encontrar novamente, de trocar com o outro, de fazer o trabalho da gente como ator, que estava tudo parado. Est\u00e1vamos com muita vontade, com muito desejo assim de fazer o trabalho. E fizemos umas coisas, uns exerc\u00edcios, que foram muito importantes para essa qu\u00edmica entre a gente. Para essa aconchegar assim, sabe? Dessa m\u00e3e com essa filha, que era uma coisa bem diferente de tudo que eu j\u00e1 tinha feito. A gente escrevia cartas uma para outra, escolh\u00edamos m\u00fasicas que a gente cantava uma para outra. E havia muitas conversas com Jana\u00edna sobre quest\u00f5es do feminino, sobre nossas limita\u00e7\u00f5es, todas essas coisas que tem a ver com o universo feminino, com o nosso dia-a-dia, com nossas inquieta\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, foi um processo que, apesar de virtual, foi muito significativo. Um processo muito forte entre n\u00f3s. E quando nos encontramos em Fortaleza quinze dias antes come\u00e7ar a gravar, a gente estava como se tiv\u00e9ssemos vivido aquilo ao vivo e a cores. Est\u00e1vamos muito pr\u00f3ximas, muito familiarizadas uma com a outra. Luciana \u00e9 uma mulher incr\u00edvel. Uma mulher muito forte. Eu j\u00e1 sou meio que o contr\u00e1rio. E me apeguei muito a ela quando a conheci pessoalmente. Nos quinze dias que tivemos em Fortaleza para termos esse contato ao vivo, foi uma continuidade do que come\u00e7amos no virtual. E essa coisa dela ser minha m\u00e3e e dela, Luciana, ser a pessoa que ela \u00e9, de ter o perfil que ela tem, foi algo que eu misturava tudo, sabe? J\u00e1 estava tudo ali. Foi dessa forma. Luciana me ajudou com o tipo de pessoa que ela \u00e9. Ela j\u00e1 veio com isso a\u00ed para mim e isso j\u00e1 me abria caminhos para essa m\u00e3e que ia me levar a querer fazer essa viagem e encontrar esse lugar na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E para voc\u00ea na fun\u00e7\u00e3o de diretora, Janaina, esse processo de voltar a trabalhar ap\u00f3s o lockdown da pandemia tamb\u00e9m influenciou nessa sintonia com Luciana e Veronica?<\/strong><br \/>\nJanaina Marques &#8211; Trabalhar com a Vero e com a Luciana foi processo muito prazeroso. Porque tudo o que a gente conversava era compreendido com muita facilidade. Acho que porque o roteiro carrega um territ\u00f3rio muito feminino. Um territ\u00f3rio que nos atravessa. E todas n\u00f3s pudemos falar sobre esse territ\u00f3rio. Complementar esse territ\u00f3rio. Acho que fluiu de uma maneira muito org\u00e2nica. Primeiro porque esse roteiro foi filmado na pandemia. Era um momento onde o Brasil estava passando, por quest\u00f5es \u00f3bvias, por um processo muito sofrido e doloroso. E sinto que essa hist\u00f3ria carrega uma puls\u00e3o de vida. \u00c9 uma hist\u00f3ria pra cima. Ela n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria que faz com que a personagem termine sofrida. Pelo contr\u00e1rio! \u00c9 uma hist\u00f3ria sobre cura. Sobre resistir, sobreviver, viver. Ent\u00e3o, acho que a hist\u00f3ria chegou como um presente por uma quest\u00e3o de contextos sociais, por uma quest\u00e3o de experi\u00eancia existencial e por toda essa quest\u00e3o do feminino. N\u00e3o s\u00f3 para as atrizes, mas para todo mundo da equipe que estava precisando desse fogo de vida, dessa pun\u00e7\u00e3o de vida. Ent\u00e3o, foi prazeroso trabalhar nesse filme naquele momento espec\u00edfico da hist\u00f3ria mundial que foi a pandemia. E especificamente no Brasil onde, enfim, carreg\u00e1vamos todo um contexto tamb\u00e9m social espec\u00edfico diante da pol\u00edtica, diante de como o governo na \u00e9poca estava tratando a pandemia. Por tudo isso, o trabalho no filme significou um sopro, uma brisa. Encaramos isso com muita vontade. E as atrizes entraram nessa qu\u00edmica primeiro porque acho que elas entenderam muito r\u00e1pido a hist\u00f3ria. Segundo porque era algo que trazia cor e puls\u00f5es de vida. E acho que cada uma tinha algo a transmitir. E elas entraram em uma conex\u00e3o muito forte. Somos do Nordeste. Temos tantas coisas em comum. E essa alegria que \u00e9 muito natural do Nordeste. Ent\u00e3o, a gente abra\u00e7ou esse projeto com muita vontade. E isso chegou \u00e0 tela.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-96308 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/04-Veronica-Cavalcanti-as-Rosa-and-Luciana-Souza-as-Dalva-\u00a9-Delirio-FIlmes_-Mocambique-Audiovisual.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/04-Veronica-Cavalcanti-as-Rosa-and-Luciana-Souza-as-Dalva-\u00a9-Delirio-FIlmes_-Mocambique-Audiovisual.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/04-Veronica-Cavalcanti-as-Rosa-and-Luciana-Souza-as-Dalva-\u00a9-Delirio-FIlmes_-Mocambique-Audiovisual-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A partir do roteiro original de Pedro C\u00e2ndido e de Ta\u00eds Monteiro, como se deram as mudan\u00e7as para a inclus\u00e3o dos novos elementos mentais nessa estrutura da hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nJanaina Marques &#8211; O texto original carrega muito bem o DNA dessa hist\u00f3ria de mulheres. Uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia e, tamb\u00e9m, de sobreviv\u00eancia. A hist\u00f3ria possui, ainda, um tom c\u00f4mico. E \u00e9 uma hist\u00f3ria tamb\u00e9m sobre reconcilia\u00e7\u00e3o. Acho que o que foi acontecendo muito durante o processo e que \u00e9 algo muito natural foi que, ao ir desenvolvendo essa hist\u00f3ria, o caminho natural foi pensar de que forma a gente poderia contar essa hist\u00f3ria que estava no papel de uma maneira que fosse um pouco mais inovadora. De uma forma que torne o filme mais desafiador, digamos assim. E mesmo desafiador para mim, tamb\u00e9m, como diretora. Como uma pessoa que ama a linguagem cinematogr\u00e1fica e de que forma a linguagem cinematogr\u00e1fica pode apertar e nutrir esse roteiro. E a\u00ed, tivemos duas consultorias de roteiro. Uma foi com Daniel Tavares, que fez algo muito determinante durante essa consultoria. Guardei isso para mim e fiquei martelando aquilo. E houve um novo processo no BRLab, onde passei por uma imers\u00e3o. Principalmente com uma das consultoras, que falou sobre algumas coisas do territ\u00f3rio feminino. Fui dormir e no dia seguinte me levantei e cheguei para meu companheiro, Pablo (Arellano), que \u00e9 roteirista do filme, e disse: &#8220;Pablo, acho que a hist\u00f3ria deveria ser assim&#8221;. E come\u00e7ou a dizer: &#8220;Acho que a protagonista n\u00e3o deveria ser a Dalva, mas, sim a Rosa&#8221;. Comecei a narrar para ele uma esp\u00e9cie de sinopse do filme. E o Pablo, que escutava aquilo, entendeu que ali estavam os pilares para reconstruir, digamos assim, uma hist\u00f3ria, mas dentro de uma camada que \u00e9 do c\u00f3digo mental. Ent\u00e3o, basicamente o que aconteceu com esse filme \u00e9 que ele deixou de ter uma camada realista, naturalista e adentrou em um territ\u00f3rio de c\u00f3digo mental nesse processo. E, nesse sentido, eu ca\u00ed em cheio. Sou uma pessoa que gosta muito da linguagem cinematogr\u00e1fica. Gosto muito de encarar os desafios formais dentro do cinema. A forma do filme \u00e9 o que mais me instiga. E a\u00ed foi quando esse filme me agarrou em cheio. Foi quando chegamos todos. Porque foi um processo coletivo de descobertas. Todos juntos chegamos a essa hist\u00f3ria final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme discute de maneira bem forte a quest\u00e3o da luta contra feminic\u00eddio. Veronica, ter acesso a um roteiro que discute isso de forma t\u00e3o poderosa nesse sentido e inserir esse poder na sua atua\u00e7\u00e3o te levou a uma constru\u00e7\u00e3o diferente de sua personagem?<\/strong><br \/>\nVeronica Cavalcanti &#8211; Sim. E foi uma quest\u00e3o que me emocionou muito. Porque, claro, essa quest\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 um fato que me toca profundamente. E o in\u00edcio de todo o inferno na vida de Rosa \u00e9 o fato da m\u00e3e ter sido presa porque defendeu uma mulher numa situa\u00e7\u00e3o de feminic\u00eddio. A partir dali, ela perde a m\u00e3e e segue s\u00f3. E ela s\u00f3 reencontra essa m\u00e3e nesse plano da imagina\u00e7\u00e3o com tudo que ela cria depois nessa viagem para elas duas. Ent\u00e3o, acho super importante ter isso no filme. \u00c9 algo, como eu disse, que me emociona muito. \u00c9 uma quest\u00e3o que necessita de um olhar e de leis. Que necessita t\u00e3o absurdamente de uma consci\u00eancia masculina sobre v\u00e1rias coisas a respeito da mulher. E acho lindo que o filme tenha todas essas mulheres. Um elenco feminino enorme. E cada mulher que aparece no filme, para mim, \u00e9 uma pot\u00eancia no sentido de mostrar: &#8220;Olha a minha luta!&#8221; \u00c9 a caminhoneira, \u00e9 a mulher que administra a pousada, \u00e9 a cantora da pousada. A pr\u00f3pria companheira da m\u00e3e dela, tamb\u00e9m. Eu queria muito que o filme dialogasse com esse olhar de sensibilidade para a mulher, para o ser feminino. Para as suas quest\u00f5es e para a batalha dela na vida. Para o lugar que ela tem o direito de ocupar, sabe? Para tudo isso. Para o que ela quer fazer da vida dela. Para os limites que ela quer ultrapassar. Acho que o filme fala muito sobre isso e eu queria muito que ele despertasse esse olhar assim de mostrar v\u00e1rias camadas de mulheres, de situa\u00e7\u00f5es. E tudo para chegar a um lugar que a gente precisa, n\u00e9? Um lugar de respeito, de compreens\u00e3o. Um lugar em que somos legitimadas nas nossas potencialidades. Ent\u00e3o, acho que o filme fala muito sobre isso. Eu sinto muito isso o tempo todo no filme A cada presen\u00e7a de uma mulher que aparece assim. Sinto isso muito forte.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FIZ UM FOGUETE IMAGINANDO QUE VOC\u00ca VINHA | TRAILER COMPLETO\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XWKbLw0k-28?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando houve a mudan\u00e7a de protagonismo do roteiro original, tamb\u00e9m foi trazida essa proposta de mudan\u00e7a para trazer o foco para essa discuss\u00e3o, Janaina?<\/strong><br \/>\nJanaina Marques &#8211; Na verdade, foram os quatro que escreveram. A Ta\u00eds Monteiro, o Pedro Candido, o Pablo Arellano e a Xenia Rivery. Eu participei muito, assim, acompanhando todo o processo de roteiro e, claro, dando ideias, mas a escrita partiu desses quatro roteiristas juntos. Eu sinto que \u00e9 um filme que, al\u00e9m de falar que a imagina\u00e7\u00e3o e o afeto s\u00e3o armas poderosas de resist\u00eancia hoje em dia, sinto que \u00e9 um filme que fala muito sobre sororidade. \u00c9 muito bonito para mim pensar que uma filha que entra em um colapso mental e precisa se salvar porque, por alguma raz\u00e3o, acredita que est\u00e1 morrendo, quase com uma crise de p\u00e2nico, escolhe fazer essa viagem mental com a m\u00e3e. Nessa jornada interior, que, de alguma maneira, dentro da m\u00e1quina de resson\u00e2ncia, ela \u00e9 motivada a fazer, \u00e9 muito bonito para mim que essa busca dela por uma mem\u00f3ria feliz, uma lembran\u00e7a feliz, seja um mem\u00f3ria com sua m\u00e3e. \u00c9 muito bonito para mim que essa filha que, de alguma maneira, foi afastada da m\u00e3e em vida e tem o trauma que ela carrega, escolha fazer essa viagem mental com sua m\u00e3e, sabe? Para mim, \u00e9 um filme que fala de ancestralidade, de sororidade, de quem a gente carrega dentro de n\u00f3s mesmos. E quem podemos buscar tamb\u00e9m nesses mist\u00e9rios da vida dentro de n\u00f3s mesmos como uma chance de resistir e para se salvar. A quest\u00e3o do feminic\u00eddio est\u00e1 inserida no roteiro de um forma muito inteligente, no meu ponto de vista. Porque acho que fala muito da personagem de Dalva. E acho que ajuda muito a compreender esse processo de desconstru\u00e7\u00e3o da protagonista, da Rosa. Primeiro porque Dalva revela no filme que foi um acidente. Que ao tentar defender a vizinha, ela mata o vizinho. E nesse processo de defender a mulher, ela acaba presa. Ent\u00e3o, ao ser presa, ela acaba n\u00e3o se livrando dos julgamentos dos vizinhos, dos julgamentos do pr\u00f3prio marido que faz com que Rosa escute por toda vida que a m\u00e3e foi criminosa, que a m\u00e3e n\u00e3o prestava. \u00c9 justamente a desconstru\u00e7\u00e3o dessa camada que o filme, de alguma maneira, aborda. A desconstru\u00e7\u00e3o que n\u00f3s temos de todo o julgamento que recebemos. N\u00e3o s\u00f3 de n\u00f3s mesmos, mas de outras pessoas. Ent\u00e3o, acabamos por criar ideias de outras pessoas. E de n\u00f3s mesmas, tamb\u00e9m. E em algum momento, precisamos nos libertar desses julgamentos, dessas ideias e temos que buscar a ess\u00eancia dessas pessoas. Porque, basicamente o que Rosa acessa \u00e9 que m\u00e3e dela \u00e9 muito mais do que qualquer julgamento. Ela \u00e9 uma mulher cheia de desejos. \u00c9 uma mulher com defeitos, tamb\u00e9m. Mas \u00e9 uma mulher cheia de vida. E essa vida \u00e9 o que a Rosa precisa. Essa mulher que \u00e9 capaz de amar chega a um territ\u00f3rio de pris\u00e3o, de penitenci\u00e1ria. E isso \u00e9 muito metaf\u00f3rico e simb\u00f3lico. Essa mulher que tamb\u00e9m ama outras mulheres. O grande amor da vida dela \u00e9 uma outra mulher. Ent\u00e3o, de alguma maneira, o filme \u00e9 pura sororidade. S\u00e3o mulheres que se unem. S\u00e3o mulheres que se salvam. S\u00e3o mulheres que de alguma maneira escolhem por elas mesmas estarem juntas para resistir. H\u00e1 for\u00e7as que as oprimem e que as matam, tamb\u00e9m. Acho que \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme, por ser uma viagem interior, trabalha bem, em sua dire\u00e7\u00e3o de arte, esses aspectos on\u00edricos, colocando em sua constru\u00e7\u00e3o c\u00eanica essa ambienta\u00e7\u00e3o a denotar o estado mental da protagonista. Como se deu essa constru\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nJanaina Marques &#8211; Eu acho que o cinema \u00e9 o territ\u00f3rio perfeito para a gente trabalhar o campo da imagina\u00e7\u00e3o, do desejo, dos sonhos, dos medos, das dores e dos traumas. Toda essa escolha de fazer um filme inserido do c\u00f3digo mental \u00e9 muito consciente nesse sentido. E quando voc\u00ea escolhe fazer um filme que tem como cerne uma jornada interior, subconsciente de uma personagem, voc\u00ea pensa: \u201ccomo eu vou, de alguma maneira, trabalhar imagem e som e unir a isso?\u201d Pensei que o caminho mais, digamos, atraente para mim nessa jornada era do artif\u00edcio, mesmo. Aqui no Cear\u00e1, assim como na Bahia, e em in\u00fameras cidades do Brasil, a gente tem uma paisagem muito, digamos, tur\u00edstica. E uma das coisas que passava muito pela minha cabe\u00e7a era como transformar essa paisagem em algo que trouxesse uma atmosfera mais on\u00edrica que nos permitisse trabalhar em uma esp\u00e9cie de artif\u00edcio, mesmo. Ent\u00e3o, toda a constru\u00e7\u00e3o muito trabalhada, seja atrav\u00e9s da fotografia, da dire\u00e7\u00e3o de arte, do som, teve muito a ver com uma quest\u00e3o relacionada a pensar o sonho, como o sonho acontece, como a quest\u00e3o do desejo, da fun\u00e7\u00e3o da vida. Teve tamb\u00e9m uma ideia de que Rosa poderia estar redesenhando a vida dela. Por isso, as cores s\u00e3o muito vivas. Porque cada quadro parece uma pintura. Como se a Rosa estivesse pintando a pr\u00f3pria vida. Ent\u00e3o, tem isso tamb\u00e9m. E a quest\u00e3o dos enquadramentos, a quest\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o das cores, mesmo. Isso para quebrar as camadas naturalistas e realistas, que \u00e9 onde a gente n\u00e3o est\u00e1. O filme trabalha isso e tamb\u00e9m trabalha com um intuito muito consciente de trazer confus\u00f5es que s\u00e3o muito naturais do lado humano. Na verdade, a vida n\u00e3o faz sentido. O natural da vida \u00e9 n\u00e3o fazer sentido. E de alguma maneira, eu sinto que o roteiro constr\u00f3i uma hist\u00f3ria que atinge, sim, um sentido. As pessoas saem desse filme entendendo o que \u00e9 que acontece com a personagem. Saem desse filme captando o sentimento da personagem. Mas, ao mesmo, tempo \u00e9 tamb\u00e9m um filme que talvez n\u00e3o entrega todas as pe\u00e7as de bandejas. N\u00e3o entrega tudo bem mastigado. Como talvez faria um filme, digamos assim, linear e narrativo. Aqui n\u00e3o. Aqui, tamb\u00e9m estamos abertas a gerar perguntas. E n\u00e3o em dar todas as respostas. E nesse sentido, convidamos o p\u00fablico a entrar nesse processo. E ao p\u00fablico participar, mesmo, desse filme. E \u00e9 isso que a gente acha bonito nesse processo. De o filme coloca o espectador, digamos assim, como um participante ativo ao assistir o filme.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Foguete_Cartaz-Alternativo_pt.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cFiz um Foguete Imaginando que Voc\u00ea Vinha\u201d ganhou os pr\u00eamios de levou Melhor Atua\u00e7\u00e3o (para Ver\u00f4nica Cavalcanti e Luciana Souza) e Pr\u00eamio Olhar de Melhor Filme.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/16\/entrevista-janaina-marques-e-veronica-cavalcanti-falam-sobre-fiz-um-foguete-imaginando-que-voce-vinha-premiado-no-olhar-de-cinema\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":96309,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[8267,3818],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96306"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96306"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96306\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96313,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96306\/revisions\/96313"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96309"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96306"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96306"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96306"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}