{"id":96220,"date":"2026-06-11T00:05:23","date_gmt":"2026-06-11T03:05:23","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=96220"},"modified":"2026-06-11T00:05:23","modified_gmt":"2026-06-11T03:05:23","slug":"entrevista-o-diretor-marcus-curvelo-fala-sobre-dor-luto-e-reconstrucao-pessoal-com-reparacao-seu-primeiro-longa-solo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/11\/entrevista-o-diretor-marcus-curvelo-fala-sobre-dor-luto-e-reconstrucao-pessoal-com-reparacao-seu-primeiro-longa-solo\/","title":{"rendered":"Entrevista: O diretor Marcus Curvelo fala sobre dor, luto e reconstru\u00e7\u00e3o pessoal com &#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221;, seu primeiro longa solo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/joao.paulo.barreto.824529\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perda de qualquer vaidade e a entrega de uma an\u00e1lise pessoal e psicol\u00f3gica diante da inevitabilidade da morte costuma levar o p\u00fablico a refletir sobre tais aspectos em suas pr\u00f3prias vidas. Na cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, tais a\u00e7\u00f5es denotam atitudes louv\u00e1veis de coragem e resili\u00eancia. Dono de uma filmografia repleta de curtas metragens e de um longa no qual o humor e a cr\u00edtica social se evidenciam de maneira sempre \u00e1cida e brilhante, o cineasta <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/marcus.curvelo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcus Curvelo<\/a> apresenta na 15\u00aa edi\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/olhardecinema.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Olhar de Cinema &#8211; Festival Internacional de Cinema de Curitiba<\/a>, &#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221;, seu primeiro longa-metragem solo na dire\u00e7\u00e3o. E \u00e9 justamente a percep\u00e7\u00e3o desse despir de vaidades e uma entrega sincera de sentimentos que invade o espectador ap\u00f3s a sess\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o n\u00e3o menos engra\u00e7ado e repleto de cr\u00edtica social, &#8220;Eu, Empresa&#8221; (2021), longa dirigido ao lado do cineasta Leon Sampaio, o diretor de curtas not\u00f3rios como &#8220;Joderismo&#8221; (2019), &#8220;Mamata&#8221; (2017) e &#8220;\u00d3timo Amarelo&#8221; (2016) seguiu um caminho diferente em seu novo trabalho no formato longa-metragem. A dor da perda de se pai, Joel, que faleceu em dezembro de 2021, foi que o levou, inicialmente, para o processo de cria\u00e7\u00e3o seu novo filme, cuja fagulha residia em um resgate da rela\u00e7\u00e3o entre eles dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a proposta de falar postumamente desse relacionamento, &#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221; j\u00e1 tinha desde seu rascunho uma abordagem que ia, obviamente, para al\u00e9m de qualquer ideia c\u00f4mica j\u00e1 vista antes e t\u00e3o marcante nos trabalhos de Curvelo. Junto a essa comicidade, no entanto, uma aproxima\u00e7\u00e3o auto-ficcional sempre foi algo, tamb\u00e9m, presente em sua filmografia. Aqui, ela se faz ainda mais evidente, mas a partir de um olhar documental e real. Dolorosamente real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em determinado momento do filme, Marcus registra sua m\u00e3e, S\u00f4nia, enquanto ela joga as cinzas de Joel ao mar. As cinzas voam ao vento marinho, misturam ao salitre e este se torna um elemento fundamental de an\u00e1lise em &#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221;. Ali, as met\u00e1foras atreladas \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o causada pelo oxidar advindo do oceano, que Marcus ilustra em diversos momentos, criam no espectador essa percep\u00e7\u00e3o de que algo para al\u00e9m de objetos tamb\u00e9m est\u00e1 sendo deteriorado. Mas, diante de seu t\u00edtulo, o filme de Curvelo serve como maneira de se reconstruir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta inicial do longa tinha como foco uma rela\u00e7\u00e3o paterna. Por\u00e9m, subitamente, isso mudou com a passagem de sua m\u00e3e, ap\u00f3s uma breve doen\u00e7a, o que o levou a ficar indefinido durante muito tempo. Em determinado momento, quando dona S\u00f4nia testou positivo para covid, Marcus e ela tiveram que ficar isolados em um quarto durante muito tempo. O diretor que, \u00e0 \u00e9poca, escrevia uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, levou seu computador e perguntou \u00e0 m\u00e3e o que ela achava de ocupar aquele tempo. &#8220;Como um processo para mim e para ela, sugeri que fiz\u00e9ssemos alguma coisa. Pra gente n\u00e3o enlouquecer. Para poder lidar com aquilo de uma forma menos dolorosa, sabe? E a\u00ed eu falei com ela que ia levar a c\u00e2mera para pode continuar aquele filme que comecei a fazer sobre meu pai. Falei para ela que ia ser um filme sobre o processo de cura dela. Que \u00edamos filmar esse desafio inteiro aqui&#8221;, pontua o diretor ao falar sobre como sua m\u00e3e acabou adentrando no filme de forma mais direta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Funcionando como uma maneira de trazer sanidade e leveza para ambos, al\u00e9m de uma forma de tirar o foco da gravidade de todos aqueles acontecimentos, as imagens captadas por Marcus demonstram muito do cuidado de um filho para com sua m\u00e3e. Nas conversas, dona S\u00f4nia sorri, fala sobre sua for\u00e7a em ainda conseguir subir escadas em um dia no qual teve alta hospitalar. Mas, al\u00e9m disso, ao se propor trazer aquele foco para sua m\u00e3e, Marcus acabou encontrando um modo de se ligar ainda mais a ela em um reconhecimento que ia al\u00e9m do afeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a partida de sua m\u00e3e, em fevereiro de 2024, Marcus n\u00e3o mexeu naquelas imagens por um ano e quatro meses. Foi somente em junho de 2025, ao lado do diretor de fotografia Danilo Umbelino e da produtora Luiza Maciel que Curvelo conseguiu se debru\u00e7ar sobre o que tinha guardado em sua c\u00e2mera e filmou outros trechos do longa que constroem mais profundamente todo simbolismo da produ\u00e7\u00e3o. Nesse processo, muito de sua sa\u00fade mental foi colocado em an\u00e1lise pr\u00f3pria. O cinema funcionando como um modo de cura. Do lado de c\u00e1, tamb\u00e9m nos sentimos contemplados. Neste papo com o Scream &amp; Yell, Marcus Curvelo aprofunda esse processo de repara\u00e7\u00e3o.]<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"REPARA\u00c7\u00c3O \/\/ TRAILER\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/1132080380?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"560\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write; encrypted-media; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 o primeiro longa qeu voc\u00ea dirige sozinho. Fiquei surpreso ao perceber uma abordagem mais dram\u00e1tica e bem diferente dos seus outros trabalhos, que tinham um apelo mais c\u00f4mico. Como foi essa mudan\u00e7a?<\/strong><br \/>\nAcho que sempre teve esse car\u00e1ter de auto-fic\u00e7\u00e3o nos meus filmes, mesmo nos mais c\u00f4micos. Mesmo sendo feitas com pouco recurso e tentando trazer para a linguagem, para a est\u00e9tica do filme, uma est\u00e9tica de um cinema h\u00edbrido e documental, &#8220;Mamata&#8221; e &#8220;Joderismo&#8221; eram, ainda assim, uma fic\u00e7\u00e3o. E desde ali tinha essa coisa de me colocar, de atuar, de trazer quest\u00f5es minhas. Tinha\/tem, porque nunca mais usei ele, mas era o personagem que eu chamo de Joder que est\u00e1 no &#8220;Eu, Empresa&#8221;, no &#8220;Mamata&#8221;, no &#8220;Joderismo&#8221;, e que n\u00e3o deixava de ser esse alter ego. S\u00f3 que fui indo mais pro document\u00e1rio. Acho que por quest\u00f5es tamb\u00e9m de experimentar, de entender que o que eu queria fazer estava mais para um lugar documental. Mas ainda ficcional, por isso h\u00edbrido. Mas mais para o document\u00e1rio, em termos de formato e de linguagem. Ent\u00e3o parei de usar o Joder, comecei a n\u00e3o mais usar nome nos meus personagens. \u00c0s vezes, eu me chamava de Marcus, \u00e0s vezes de um outro nome mais gen\u00e9rico. Enfim, n\u00e3o estava mais nesse campo da fic\u00e7\u00e3o exclusiva. E estava fazendo uma coisa mais pr\u00f3xima de mim, uma coisa mais pr\u00f3xima da gente, de n\u00f3s mesmos, mais para o document\u00e1rio. Acho que a gente tenta ser mais&#8230; n\u00e3o sei se transparente \u00e9 a palavra. Ser mais direto, talvez. N\u00e3o tem ali uma cortina da fic\u00e7\u00e3o para emba\u00e7ar muito. Quando estou fazendo fic\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes a com\u00e9dia vem para exagerar certos aspectos meus que s\u00e3o rid\u00edculos. Para exager\u00e1-los e fazer rir. S\u00f3 que estava caindo num lugar que n\u00e3o era muito eu, sabe? Eu estava vendo uma coisa meio caricata de mim mesmo. Dai eu quis me tirar desse centro da encena\u00e7\u00e3o. Do centro da hist\u00f3ria. N\u00e3o quero que seja um filme sobre o personagem Joder ou sobre o personagem Marcus. Eu vou ser um ve\u00edculo para contar essa hist\u00f3ria aqui. E a\u00ed vieram alguns curtas, como &#8220;A Destrui\u00e7\u00e3o do Planeta Live&#8221;, que passou em Tiradentes e tamb\u00e9m no Panorama em 2021. O &#8220;Qual \u00e9 a grandeza?&#8221;,&#8221; O Mediador&#8221; e, agora, o &#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com um tema t\u00e3o pessoal em rela\u00e7\u00e3o a sua fam\u00edlia com a perda de seus pais, &#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221; traz essa mudan\u00e7a em sua forma de fazer cinema e se torna um trabalho muito franco e revelador de sua pr\u00f3pria vida pessoal. Como se deram essas escolhas? Como esse filme lhe ajudou a lidar com todo esse processo do luto?<\/strong><br \/>\nO que aconteceu foi que nesse per\u00edodo que falei, desse caminho que \u00e9 mais narrativo, mais racional do ponto de vista do que eu quero fazer em rela\u00e7\u00e3o ao cinema, foi que a vida foi ficando mais grave. Quando lancei &#8220;Planeta Live&#8221; e os curtas seguintes, foi bem no contexto de pandemia. Foi nesse per\u00edodo que meu pai morreu. Ele teve uma queda muito grande de sa\u00fade por causa da pandemia, foi diagnosticado com dem\u00eancia e ficou muito isolado. Teve uma mudan\u00e7a muito grande, muito brusca, muito r\u00e1pida. Porque, apesar da idade avan\u00e7ada, ele era muito saud\u00e1vel. Tinha uma cogni\u00e7\u00e3o muito boa. Mas nos \u00faltimos meses de vida, ele j\u00e1 estava com um in\u00edcio de Alzheimer, o que resultou em uma mudan\u00e7a grande na minha rela\u00e7\u00e3o com meus pais. Eu voltei para casa, tamb\u00e9m. Estava morando fora e voltei para Salvador por dificuldade financeira na \u00e9poca da pandemia. Voltei para passar um tempo com eles para me reestruturar. E nesse per\u00edodo que eu voltei, ele estava nesse processo de Alzheimer. E em um ano, praticamente, ap\u00f3s eu ter voltado a morar com eles, a sa\u00fade dele foi ficando mais fr\u00e1gil. Ele morreu em dezembro de 2021. Bem nesse per\u00edodo que eu estava fazendo esses filmes. Eu gravei, ainda logo depois que ele morreu, dois curtas: &#8220;Garotos Ingleses&#8221; e o &#8220;Qual \u00e9 a Grandeza?&#8221;. E comecei a gravar &#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221; nesse momento. E eu estava, tamb\u00e9m, escrevendo uma disserta\u00e7\u00e3o para um mestrado que eu estava fazendo na Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da UFBA, que eu tinha entrado em 2020 e, com uma semana de aula, foi suspenso por conta da pandemia. Em 2021, eu estava retomando esse processo, come\u00e7ando a escrever a disserta\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou sendo sobre filmes de rituais de morte, e se transformou para outra coisa. Virou &#8220;Filmar para n\u00e3o morrer&#8221;, &#8220;Criatividade Existencial&#8221;. O cinema, a arte, como esse alicerce\/meio de atravessar desafios existenciais, seja a morte, seja doen\u00e7a, depress\u00e3o, separa\u00e7\u00e3o, guerra, ex\u00edlio, enfim. Me debrucei sobre cineastas que usavam o cinema para atravessar momentos dif\u00edceis da vida, para contar suas hist\u00f3rias. E um dos filmes que analisei foi um da Chantal Akerman, &#8220;No Home Movie&#8221; (2015), quando ela filma os \u00faltimos momentos da m\u00e3e dela, que foi uma figura muito presente no seu cinema. Ent\u00e3o, eu estava muito dentro desse clima, com essas coisas na cabe\u00e7a, essa dificuldade p\u00f3s-pandemia, com meu pai morrendo, com esse mestrado que tinha sido suspenso e estava voltando. E eu estava come\u00e7ando a escrever esses textos, indo para esse lugar mais documental, menos debochado, tentando ser mais direto nas representa\u00e7\u00f5es, mais cru. E comecei a filmar o &#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221; nesse contexto. Lembro que a primeira cena que filmei foi no meu anivers\u00e1rio de 35 anos. A primeira imagem que tenho \u00e9 a da minha m\u00e3e, estava fazendo tr\u00eas meses que meu pai tinha morrido. A gente n\u00e3o tinha jogado as cinzas dele ainda. E eu e minha m\u00e3e t\u00ednhamos feito um pacto de n\u00e3o demorar muito para espalhar essas cinzas em algum lugar. Ela tinha as cren\u00e7as dela de que n\u00e3o era bom ficar guardando por muito tempo as cinzas em casa, que era bom logo se desfazer. E naquele dia, falei com ela que ia fazer umas imagens da gente fazendo isso e que iria come\u00e7ar gravando no meu anivers\u00e1rio. E tem a imagem de eu soprando a vela e cantando parab\u00e9ns com ela. Filmamos essas primeiras imagens nesse contexto. Ent\u00e3o, s\u00f3 para fechar o que voc\u00ea perguntou primeiro, esse contexto de ir para um lugar mais s\u00e9rio, cara, acho que foi isso. Uma motiva\u00e7\u00e3o criativa de sair um pouco da fic\u00e7\u00e3o e ir mais para o document\u00e1rio. Ir mais para um lugar de antropologia visual, de imagem mais perform\u00e1tica, e me colocar mais \u00e0 margem da hist\u00f3ria, n\u00e3o ser mais o centro. N\u00e3o ser uma coisa t\u00e3o identit\u00e1ria. E o momento que eu estava vivendo ali, que era um momento de p\u00f3s-pandemia, de morte do meu pai. De estar fazendo um mestrado que n\u00e3o era algo exatamente muito confort\u00e1vel para mim, e do tema do meu mestrado ser um tema que falava disso. Enfim, acho que foi por tudo isso que fui para esse lugar, e foi ficando uma coisa mais menos c\u00f4mica tanto na atua\u00e7\u00e3o e quanto nos filmes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96225\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reparacao-3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"460\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reparacao-3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reparacao-3-300x184.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Inicialmente, a ideia era falar da rela\u00e7\u00e3o com seu pai que faleceu em 2021. Como foi essa mudan\u00e7a para uma abordagem voltada, tamb\u00e9m, para sua m\u00e3e?<\/strong><br \/>\nNo come\u00e7o, o roteiro era muito sobre minha rela\u00e7\u00e3o com o meu pai. Exclusivamente sobre isso. E j\u00e1 tinha esse nome de &#8220;Repara\u00e7\u00e3o&#8221;. Porque nesse processo eu estava vivendo esses momentos mais dif\u00edceis, e que se agravaram muito nesse per\u00edodo de 2020 e 2021. Eu estava fazendo uma grande revis\u00e3o da minha vida, sabe? Existencial. Querendo, de alguma forma, tamb\u00e9m, me reparar. E fazendo at\u00e9 uma analogia com essa coisa da repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, do que a gente precisa enquanto humanidade, enquanto sociedade, reparar para poder sermos melhores. E, claro, fiz essa rela\u00e7\u00e3o inicial com essa quest\u00e3o da masculinidade, do pai e do filho. Do que ficava, do que eu reproduzia. Tinha j\u00e1 esses elementos da fuma\u00e7a, das cinzas. N\u00e3o era salitre ainda, era fuma\u00e7a. Do que se desfazia para criar um novo. Cinzas para destruir para criar um novo. Era meio que esse lugar assim de estar renascendo. Tem o lugar da morte, que \u00e9 a do meu pai, mas tamb\u00e9m quero que morra em mim um Marcus que eu n\u00e3o gosto mais, enfim. A hist\u00f3ria ia para esse lugar das melhores coisas e das piores coisas da minha rela\u00e7\u00e3o com ele, do que eu via, do que a gente tinha em comum. Tinha esse lugar, sabe, de heran\u00e7a, de melhorar, de renova\u00e7\u00e3o. Era mais nesse lugar. E quando minha m\u00e3e entrava no filme comigo, ela estava muito mais \u00e0 margem. Muito mais coadjuvante para mais contextualizar a rela\u00e7\u00e3o dela com o meu pai, a vinda dele para Salvador, quem ele era. Ela n\u00e3o tinha muito protagonismo nesse curta, que era o formato inicial. S\u00f3 que n\u00e3o deu muita liga. Eu estava montando o filme com muita dificuldade. Cheguei a fazer uma vers\u00e3o de quinze minutos e a mostrar para algumas poucas pessoas, mas n\u00e3o estava muito feliz com ele. Provavelmente, eu ia ficar mexendo e ia acabar lan\u00e7ando como curta, mesmo. E talvez tivesse seu valor como curta, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi nesse momento que sua m\u00e3e adoeceu?<\/strong><br \/>\nSim. S\u00f3 que quando ela adoeceu, inicialmente eu n\u00e3o estava pensando em filmar. Obviamente, nem passou pela minha a cabe\u00e7a continuar o filme. S\u00f3 que quando ela come\u00e7ou a ficar muito tempo em hospitais, teve um momento que ela come\u00e7ou a ter interna\u00e7\u00f5es muito longas. E eu ia para o hospital (com ela). Sou filho \u00fanico, os irm\u00e3os dela s\u00e3o todos idosos e meu pai tinha morrido. Ent\u00e3o, a nossa rede (de apoio) era muito pequena. Tinha uma tia minha que ficava mais com ela, mas ela tamb\u00e9m \u00e9 idosa. E a gente n\u00e3o tinha dinheiro para contratar cuidadora, enfermeira, essas coisas. Ent\u00e3o, eu passava praticamente muito tempo no hospital com ela. Tipo, muito tempo mesmo. Foi pouco tempo do diagn\u00f3stico at\u00e9 a morte dela, mas eu devo ter ficado, somando tudo, uns tr\u00eas meses dentro de hospital com ela. E comecei a levar meu computador para escrever a disserta\u00e7\u00e3o. Porque, enfim, era muito tempo ocioso. A gente est\u00e1 ali o tempo todo mais para uma companhia e, claro, tamb\u00e9m para cuidados e ajudar nas coisas. Mas na maior parte do tempo, ficamos muito ociosos. Ent\u00e3o comecei a escrever. E para ela era bom tamb\u00e9m que ela via que eu estava ali, tamb\u00e9m, ocupado. Ent\u00e3o, ela, de alguma forma, ficava mais \u00e0 vontade. Porque n\u00e3o havia necessidade de justificar minha presen\u00e7a ali ou de sentir que eu estava passando muito tempo com ela, sentir que havia alguma esp\u00e9cie de sobrecarga sobre mim. Claro que n\u00e3o tinha. Mas, enfim, ela era muito preocupada com essas coisas, tamb\u00e9m. Ela dizia: &#8216;&#8221;Ah, que bom que voc\u00ea est\u00e1 trabalhando, tamb\u00e9m. \u00c9 \u00f3timo. Voc\u00ea n\u00e3o vai deixar de fazer suas coisas, n\u00e9?&#8221; Tinha essa preocupa\u00e7\u00e3o dela. E foi passando o tempo e teve uma interna\u00e7\u00e3o mais longa. Durou um m\u00eas e foi a \u00faltima interna\u00e7\u00e3o dela. E eu, nessa minha pesquisa da escrita da disserta\u00e7\u00e3o, sobre essa quest\u00e3o existencial de filmar para n\u00e3o morrer, sobre o cinema como ferramenta para enfrentar desafios existenciais e todo esse tipo de coisa, me veio essa ideia: &#8216;Puxa, eu devia, talvez, estar filmando isso aqui. Devia estar dando continuidade ao filme que falava do meu pai, falava da morte dele. Minha m\u00e3e estava muito mais nesse processo e, talvez, ela tenha que ser protagonista, talvez ela tenha que entrar no filme. Talvez, enfim, seja bom para gente&#8221;. Eu pensava assim. Teve um momento em que ela ficou numa semi-UTI individual, porque ela, devido \u00e0s interna\u00e7\u00f5es, teve covid num determinado momento. Por conta do contato hospitalar. E teve que ficar isolada na UTI e foi o momento em que est\u00e1vamos s\u00f3 eu e ela. E eu tamb\u00e9m n\u00e3o podia sair do quarto, porque eu tamb\u00e9m peguei covid, talvez. N\u00e3o sei. Eu fiz um teste depois que deu negativo, mas claramente peguei porque estava no quarto isolado com ela. Tipo, coisa de cinco ou seis dias sem sair de um quarto. Tomando banho dentro do quarto, fazendo tudo dentro do quarto. Eu n\u00e3o podia sair pelo corredor do hospital. E ent\u00e3o, como um processo para mim e para ela, sugeri que fiz\u00e9ssemos alguma coisa pra gente n\u00e3o enlouquecer. Para poder lidar com aquilo de uma forma menos dolorosa, sabe? No dia que tive uma janela para sair do hospital, falei para ela que ia voltar com a c\u00e2mera para pode continuar aquele filme que comecei a fazer sobre meu pai. E falei para ela que ia ser um filme sobre o processo de cura dela. Falei que gente ia filmar esse desafio inteiro aqui. Porque tinha essa coisa que a gente falava muito sobre momentos de muito sofrimento, de muita luta, sabe? De estar naquele dia muito mal com efeitos muito graves da quimioterapia. E falar daquela for\u00e7a: &#8220;Estamos passando por um momento dif\u00edcil, aqui. Mas a gente vai chegar l\u00e1&#8221;. Era como registrar isso para mostrar pelo o que passamos. Mostrar que sobrevivemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96226\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reparacao-2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"460\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reparacao-2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reparacao-2-300x184.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como ela reagiu \u00e0 proposta?<\/strong><br \/>\nEu disse a ela tudo isso e ela deu uma risada. Achou inusitado, e falou: &#8220;T\u00e1 bom&#8221;. Eu perguntei: &#8220;Voc\u00ea se incomoda de eu filmar voc\u00ea nesse estado no hospital? Voc\u00ea n\u00e3o acha estranho, bizarro, rid\u00edculo ou invasivo?&#8221; Ela respondeu: &#8220;N\u00e3o, porque \u00e9 o seu trabalho. Voc\u00ea est\u00e1 fazendo o que voc\u00ea precisa fazer. Vamos nessa.&#8221; Foi inclusive uma frase muito bonita e que me marcou muito: &#8220;N\u00e3o, porque \u00e9 o seu trabalho&#8221;. Ah, essa frase, para mim, foi a maior valida\u00e7\u00e3o que eu j\u00e1 tive na vida sobre fazer cinema. E tamb\u00e9m a maior autoriza\u00e7\u00e3o que ela podia ter dado para filmar. Filmei as primeiras imagens dela no hospital nesse momento. Foram poucas imagens que fiz no hospital, sempre nesse esquema de document\u00e1rio direto, de observa\u00e7\u00e3o e tal. Filmei, tamb\u00e9m, quando ela teve alta e voltou pra casa. Porque era um momento tamb\u00e9m importante para ela, pois estava com muita dificuldade de subir as escadas da casa quando voltou dessa \u00faltima interna\u00e7\u00e3o. E a gente mora no terceiro andar num pr\u00e9dio de escadas. Ent\u00e3o, ela estava praticando muito na fisioterapia antes de voltar pra casa. Estava muito preocupada com esse momento. E eu a filmei subindo as escadas e, para ela, foi uma coisa muito empoderadora conseguir subir, sabe? Ela pediu para ver as imagens e para mandar as imagens para a irm\u00e3 dela. &#8220;Olha como eu consegui subir!&#8221;, ela disse para minha tia. Nesse lugar de supera\u00e7\u00e3o que a gente estava conversando. As \u00faltima imagens que tenho dela, logo depois que ela sobe as escadas, ela est\u00e1 dentro de casa, conversamos um pouco, e ela fala sobre isso. &#8220;Voc\u00ea viu como subi, como mandei bem?&#8221; Ela empolgada e comentando: &#8220;Agora s\u00f3 amanh\u00e3 que vou fazer outra coisa. Vou descansar no final de semana. E a\u00ed, depois, ela arrumando as roupas que estavam sobre a cama. Depois ela foi tomar um banho. Essas imagens s\u00e3o as \u00faltimas que fiz dela. Foram essas do hospital nessa \u00faltima interna\u00e7\u00e3o, e essa volta pra casa. Duas semanas depois, ela morreu. Porque apesar dela estar nesse momento, de ter alta e estar se sentindo melhor, a doen\u00e7a j\u00e1 estava em um est\u00e1gio muito avan\u00e7ado. E ela teve um mal s\u00fabito em casa e n\u00e3o conseguiu chegar ao hospital. Morreu na ambul\u00e2ncia. Mas foi nesse processo. Defendi o meu mestrado um m\u00eas depois que ela morreu e fiquei com essas imagens dela sem saber muito o que fazer. E sem coragem de voltar para elas, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme trabalha esses s\u00edmbolos de morte, de vida, de supera\u00e7\u00e3o. Como foi essa cria\u00e7\u00e3o da parte mais perform\u00e1tica para ligar esses elementos?<\/strong><br \/>\nEu estava com essas imagens de document\u00e1rio direto, mas precisava dar uma forma, um rumo para elas. Estava faltando alguma uma coisa. Faltava uma camada que, justamente, colocasse esses elementos todos que estavam presentes ali de morte, de destrui\u00e7\u00e3o, salitre, coisas quebradas, necessidade de renascimento. Ao mesmo tempo que enquanto algo definha, algo nasce. Enfim, tinham esses temas todos. E eu estava com esse tema da fuma\u00e7a na cabe\u00e7a, porque quando minha m\u00e3e e minha irm\u00e3 jogam as cinzas do meu pai na praia, eu via essas cinzas voltando por causa do vento e elas pareciam fuma\u00e7a. E essa fuma\u00e7a parecia salitre e tudo se misturava. Eu estava com essas ideias na cabe\u00e7a e esse grande tema da repara\u00e7\u00e3o, dessa morte, dessa coisa que se destr\u00f3i, que se acaba. Do que fica disso, enfim. Dessa destrui\u00e7\u00e3o, desse final. Foi nesse momento que vieram duas colabora\u00e7\u00f5es muito importantes, que foi o Danilo Umbelino, fot\u00f3grafo de praticamente todos os meus filmes. Porque tem essa coisa de que muitas vezes eu filmei s\u00f3, mas de muitos anos para c\u00e1, venho filmando com o Danilo, nesse processo de mudan\u00e7a. Podemos falar, tamb\u00e9m, de maturidade enquanto diretor, de maturidade narrativa. Enfim, de estar com essa parceria com o Danilo e gente conseguir elaborar de forma mais trabalhada e mais pensada a imagem, enfim. E outra pessoa tamb\u00e9m que entrou no processo \u00e9 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/27\/entrevista-luisa-maciel-fala-sobre-seu-primeiro-curta-metragem-agulha-exibido-na-mostra-de-cinema-de-tiradentes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a Luiza Maciel<\/a>\u00a0 que fez um curta que estava agora em Tiradentes e no Panorama, o &#8220;Agulha&#8221;, e que produziu &#8220;Jamex&#8221;, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/11\/09\/entrevista-ramon-coutinho-fala-sobre-seu-primeiro-longa-metragem-jamex-e-o-fim-do-medo-uma-distopia-de-quintal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o longa do Ramon (Coutinho)<\/a>. Para pensar em como transformar esses elementos todos em performance visual. Ent\u00e3o, com eles dois, pensamos nessa coisa de realmente ter fuma\u00e7a no filme. Ent\u00e3o, aquela primeira cena que tem a fuma\u00e7a saindo do mar foi o que a Luiza trouxe. Tinha essa coisa do salitre que voc\u00ea falou, por exemplo. Eu queria condensar, vamos dizer assim. O mar, esse lugar onde eu joguei as cinza dos meus pais. Esse lugar que, ao mesmo tempo, traz esse salitre que destr\u00f3i as coisas aqui de casa. Esse sempre foi um tema aqui em casa. Desde que eu era crian\u00e7a. Moramos perto da praia aqui no Costa Azul (bairro da orla mar\u00edtima de Salvador). Tudo quebrava por causa do salitre. Aparelho eletr\u00f4nico ficava com defeito, computador ficava com defeito. O meu carro enferrujou inteiro. As paredes ficavam com problema por conta do salitre. Isso sempre foi uma quest\u00e3o. E a\u00ed vem esse meu lugar de querer ser uma pessoa melhor; de querer deixar para tr\u00e1s velhos h\u00e1bitos; de querer ser mais funcional; de querer manter as coisas consertadas, funcionando, vamos dizer assim. De querer estudar, querer pesquisar, entender esse salitre. De onde vem essa destrui\u00e7\u00e3o? E, ao mesmo tempo, esse lugar de onde vem a destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 onde est\u00e3o meus pais, onde est\u00e1 essa vida. Ent\u00e3o, tem esse mist\u00e9rio. Tem esse lugar e, de alguma maneira, se conecta com ele. Se conecta com esse lugar que tem a morte, que tem a destrui\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m que tem mem\u00f3ria. E a\u00ed, para poder de alguma forma, arredondar, encapsular e trazer simbologia para todas essas ideias que eu estava tendo, para essas imagens de document\u00e1rio direto, senti a necessidade de fazer essas imagens mais perform\u00e1ticas no mar e com esse objeto que pode ser um captador, pode ser um objeto de pesquisa, de estudo. Pode ser um objeto de realismo fant\u00e1stico. Porque me interessava muito essa coisa do cientista que vai no lugar que est\u00e1 contaminado, mas \u00e9 muito importante para ele estar ali em termos de curiosidade, de pesquisa. \u00c9 importante, cientificamente falando, que ele esteja ali. Por mais que, ao estar ali, ele possa se contaminar com aquele ambiente. Ele possa at\u00e9 morrer tamb\u00e9m. \u00c9, por exemplo, as pessoas que v\u00e3o at\u00e9 hoje <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/12\/tres-series-high-fidelity-my-brillant-friend-chernobyl\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em Chernobyl<\/a> fazer pesquisa, essa sequ\u00eancia inteira imaginei assim, sabe? Tipo, estou indo ali, nesse lugar que tem essa destrui\u00e7\u00e3o, mas eu preciso estar aqui, preciso olhar para isso, preciso conhecer isso aqui, preciso tocar. Ent\u00e3o, teve essa coisa, esse momento. E essas imagens v\u00eam dessa parceria com o Danilo e com a Luiza. A gente fez isso juntos e \u00e9 o que fecha o filme. S\u00e3o as \u00faltimas imagens que eu fa\u00e7o. E a partir dessas imagens, todas que tem fuma\u00e7a, que tem salitre, que tem m\u00e1scara, que tem essa coisa que eu pesquisei e descobri que tem uma forma caseira de tirar a salitre das coisas, que era vinagre com amido de milho. Goma, n\u00e9? Para voc\u00ea fazer aquela pasta. Essa ideia de passar no rosto veio, tamb\u00e9m, da Luiza. Ent\u00e3o, a partir desse momento que consigo, vamos dizer assim, condensar todos esses s\u00edmbolos de morte, de repara\u00e7\u00e3o, de cinza, de fuma\u00e7a, de salitre. Desse mar que destr\u00f3i e tamb\u00e9m, acolhe um lugar de vida e de p\u00f3s-vida dos meus pais. Tem um lugar, tamb\u00e9m, vamos dizer, de carinho por esse lugar. \u00c9 o lugar que, tamb\u00e9m, preserva de alguma forma os meus pais e os restos mortais deles. \u00c9 desse mar, tamb\u00e9m, que vem destrui\u00e7\u00e3o. E essa destrui\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito simb\u00f3lica para mim. Acho que agora expliquei demais o filme talvez (risos)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96227 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reparacao-4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"460\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reparacao-4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reparacao-4-300x184.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi nesse ponto que voc\u00ea percebeu que tinha um material que poderia ir al\u00e9m de um curta-metragem?<\/strong><br \/>\nSim. A minha m\u00e3e morreu em fevereiro de 2024 e fiquei parado de fevereiro de 2024 at\u00e9 maio, junho de 2025, que foi quando chamei o Danilo e a Luiza e a gente finalizou o filme a partir dessas performances, dessas imagens. Foi quando comecei a montar para o longa. A\u00ed eu comecei a ver um filme e entendi que dava para ser um longa-metragem. Porque, at\u00e9 ent\u00e3o, estavam essas imagens do meu pai, as imagens da minha m\u00e3e, mas o que \u00e9 que conectava? Qual era a camada para n\u00e3o ser s\u00f3 uma hist\u00f3ria sobre meus pais? Para n\u00e3o ser uma hist\u00f3ria caseira de algu\u00e9m que filmou os pais para guardar de lembran\u00e7a. O que poderia trazer de uma reflex\u00e3o maior? Isso veio nesse momento a partir dessas parcerias com Danilo e com Luiza. E montei o filme durante o segundo semestre inteiro de 2025. e finalizei no come\u00e7o de 2026 o filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se coloca no filme sem qualquer reserva ou vaidades ao falar de quest\u00f5es de sa\u00fade mental. Como isso se encaixou no filme e em que momento voc\u00ea decidiu abordar essas quest\u00f5es ?<\/strong><br \/>\nEu achei que era importante me mostrar em um lugar de vulnerabilidade f\u00edsica e emocional, pois tem ali os meus pais, especialmente minha m\u00e3e, tamb\u00e9m em um momento de vulnerabilidade, mas n\u00e3o somente isso. Tem um momento de vulnerabilidade dela f\u00edsica. Est\u00e1vamos juntos nesse processo. Eu acho que, tamb\u00e9m, n\u00e3o tinha como fazer um filme sobre a morte dos meus pais e como isso me afetou e qual era minha rela\u00e7\u00e3o com eles, se eu n\u00e3o fosse, tamb\u00e9m, de forma muito radical, muito honesto. E at\u00e9 para de alguma forma me lembrar, lembrar para mim mesmo porque que eu fiz esse filme e porque que eu cheguei, tamb\u00e9m, nesses lugares, sabe? Eu acho que era importante eu me mostrar tamb\u00e9m, sim. J\u00e1 que eu falo de repara\u00e7\u00e3o, porque eu preciso ser reparado? O que eu preciso reparar? Enfim, acho que era importante fazer isso. N\u00e3o segurar. Ser muito honesto, muito vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quase como um expurgo?<\/strong><br \/>\nMais do que um expurgo, tamb\u00e9m, eu acho uma coisa sobre lidar frontalmente com a tristeza, lidar frontalmente com luto. Lidar frontalmente com essas quest\u00f5es para, justamente, elas n\u00e3o virarem sintomas piores. Como essa coisa do corte. Eu acho que se a gente consegue lidar com as coisas de frente, al\u00e9m, claro, de fazer terapia e cuidar da cabe\u00e7a, acho que \u00e9 esse lugar de encarar, mesmo, o luto. De encarar a tristeza. De ser vulner\u00e1vel e mostrar isso. Enfim, para poder elaborar mesmo, n\u00e9? Mas, para mim, foi mais um lugar de elabora\u00e7\u00e3o de muita coisa que estava dentro de mim. Do que significou esse per\u00edodo de perda dos meus pais, do que significou esse per\u00edodo de pandemia, esse per\u00edodo de mestrado que atrasou. Esse per\u00edodo de muitas d\u00favidas e de n\u00e3o estar vivendo a vida que eu queria levar. De querer ter mais dinheiro, querer ter mais organiza\u00e7\u00e3o, querer ser uma pessoa melhor. \u00c9 entender porque, ent\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o que voc\u00ea queria ser? Acho que tem que se olhar muito frontalmente, assim. E j\u00e1 que eu estou fazendo um filme sobre isso, acho que tem que banca esse lugar de mostrar, de n\u00e3o ter vergonha. Acho que tem que mostrar. Acho que, tamb\u00e9m, \u00e9 o que pode se conectar com as pessoas. Acho que \u00e9 o que pode, de alguma forma, fazer com que as pessoas se conectem, tamb\u00e9m. Por verem essa vulnerabilidade, n\u00e3o sei. Talvez.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-96223 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dois.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1056\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dois.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/dois-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A proposta inicial do longa tinha como foco uma rela\u00e7\u00e3o paterna. Por\u00e9m, subitamente, isso mudou com a passagem de sua m\u00e3e, ap\u00f3s uma breve doen\u00e7a&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/11\/entrevista-o-diretor-marcus-curvelo-fala-sobre-dor-luto-e-reconstrucao-pessoal-com-reparacao-seu-primeiro-longa-solo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":96224,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[8254,3818],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96220"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96220"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96220\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96228,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96220\/revisions\/96228"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96224"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}