{"id":96189,"date":"2026-06-09T11:22:17","date_gmt":"2026-06-09T14:22:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=96189"},"modified":"2026-06-09T11:24:20","modified_gmt":"2026-06-09T14:24:20","slug":"faixa-a-faixa-antropoceno-apresenta-no-ritmo-da-terra-mesclando-rock-vanguardista-com-ailton-krenak","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/09\/faixa-a-faixa-antropoceno-apresenta-no-ritmo-da-terra-mesclando-rock-vanguardista-com-ailton-krenak\/","title":{"rendered":"Antropoceno apresenta \u201cNo Ritmo da Terra\u201d, mesclando rock vanguardista com Ailton Krenak, faixa a faixa"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de introdu\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_renanguerra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><br \/>\nfaixa a faixa de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/sonhostomamconta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Antropoceno<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensar a m\u00fasica brasileira \u00e9 tamb\u00e9m pensar nos cruzamentos e nas encruzas geradas por trocas, ressignifica\u00e7\u00f5es, bem como por apagamentos e apropria\u00e7\u00f5es. Por isso, para repensar o nosso lugar na terra e no Brasil precisamos tamb\u00e9m revisitar possibilidades art\u00edsticas e est\u00e9ticas que reposicionam nossas no\u00e7\u00f5es de passado e futuro. <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_ailtonkrenak\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ailton Krenak<\/a> nos faz proposi\u00e7\u00f5es instigantes quando pensa em seu \u201cFuturo Ancestral\u201d (2022), quando nos diz \u201cse h\u00e1 futuro a ser cogitado, esse futuro \u00e9 ancestral, porque j\u00e1 estava aqui\u201d, pensando em um realinhamento ontol\u00f3gico com a natureza, atrav\u00e9s do resgate das tecnologias de resist\u00eancia desenvolvidas pelos povos que permaneceram conectados ao planeta como t\u00e1tica de sobreviv\u00eancia frente ao apagamento das subjetividades do processo colonial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a partir disso que se desenha o disco &#8220;<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/sonhostomamconta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No Ritmo da Terra<\/a>\u201d, de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/sonhostomamconta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Antropoceno<\/a>, projeto da artista Lua Viana. O trabalho articula o \u201cFuturo Ancestral\u201d de Ailton Krenak (lan\u00e7ado em livro pela Companhia das Letras) <a href=\"https:\/\/open.substack.com\/pub\/antropocenolua\/p\/o-futuro-ancestral-como-um-projeto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como um projeto est\u00e9tico<\/a>, reinterpretando elementos tradicionais da m\u00fasica brasileira e grava\u00e7\u00f5es da Floresta Amaz\u00f4nica sob a linguagem de rock\/metal experimental, criando um di\u00e1logo entre g\u00eaneros como afox\u00e9, MPB, capoeira e samba com influ\u00eancias futur\u00edsticas de post-rock, post-metal, art rock e glitch.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atrav\u00e9s de uma pr\u00e1tica de apropria\u00e7\u00e3o material das ferramentas impostas pelo processo colonial, Lua defende a desconstru\u00e7\u00e3o e subvers\u00e3o das influ\u00eancias ocidentais em prol da valoriza\u00e7\u00e3o de tecnologias ancestrais que, por serem comprovadamente m\u00e9todos eficazes de resist\u00eancia, s\u00e3o capazes de iluminar nosso caminho para uma verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o, pautada na autonomia de vis\u00f5es de mundo que andam na contram\u00e3o do capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Incorporando letras em portugu\u00eas, tupi antigo e iorub\u00e1 lit\u00fargico, o \u00e1lbum recontextualiza cantigas do candombl\u00e9 e da capoeira atrav\u00e9s de um design de som idiossincr\u00e1tico que articula ancestralidade e futurismo. Grava\u00e7\u00f5es da Floresta Nacional de Caraj\u00e1s s\u00e3o sampleadas para inserir o ouvinte dentro da densa atmosfera amaz\u00f4nica, que ecoa cantos de p\u00e1ssaros musicalizados para fazer a floresta cantar junto das percuss\u00f5es e dos sintetizadores. Para isso, ela usa um universo percussivo com atabaques, agog\u00f4s, berimbaus, caxixis, pandeiros e tamborins, criando um di\u00e1logo com sonoridades e ritmos folcl\u00f3ricos, mas que aqui aparecem manipulados, distorcidos e reinterpretados por uma variedade de t\u00e9cnicas experimentais de m\u00fasica eletr\u00f4nica, criando uma ponte entre os ritmos da m\u00fasica popular brasileira e a linguagem de g\u00eaneros como post-rock, art rock e metal vanguardista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lua Viana \u00e9 uma musicista e produtora carioca que reside em S\u00e3o Paulo. Desde 2020, quando deu in\u00edcio a seu trabalho solo de shoegaze\/ blackgaze como \u201c<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/sonhostomamconta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sonhos tomam conta<\/a>\u201d, cria paisagens sonoras de forma independente, direto de seu quarto. Seu estilo \u00e9 definido por um senso particular de textura e uma habilidade de evocar atmosferas on\u00edricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lua passou a cultivar certa notoriedade em c\u00edrculos de m\u00fasica online a partir de 2021, quando lan\u00e7ou seu \u00e1lbum debut \u201cwierd\u201d e assinou com a gravadora estadunidense Longinus Recordings. Sendo parte de uma cena de emo-shoegaze digital que emergiu de espa\u00e7os como o site Rate Your Music, ela fez uma s\u00e9rie de colabora\u00e7\u00f5es com artistas sul-coreanos que tamb\u00e9m est\u00e3o assinados pela sua gravadora, como o \u00e1lbum split \u201cDownfall of the Neon Youth\u201d, lan\u00e7amento em conjunto com Parannoul e Asian Glow. Em 2025, fez uma mudan\u00e7a radical na sua carreira, aposentando seu trabalho como \u201csonhos tomam conta\u201d para se dedicar a uma nova identidade art\u00edstica: Antropoceno, um projeto experimental que chega agora ao seu disco \u201cNo Ritmo da Terra\u201d &#8211; este trabalho \u00e9 o segundo disco de uma trilogia em torno da obra e do pensamento de Ailton Krenak, iniciada em 2025 com o \u00e1lbum \u201cNatureza Morta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para desdobrar todos os meandros desse trabalho, Lua destrinchou \u201cNo Ritmo da Terra\u201d, seu disco assinado sob a alcunha de Antropoceno, em um faixa a faixa exclusivo e detalhado para o Scream &amp; Yell. Confira agora:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Antropoceno - No Ritmo da Terra (full album)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7dXZ86U5hd8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01) Avamunha &#8211;<\/strong> A Avamunha \u00e9 o nome dado ao toque dos atabaques que marca o in\u00edcio do xir\u00ea nos terreiros de candombl\u00e9. Sua dan\u00e7a conta a chegada dos orix\u00e1s na Terra, e por isso o toque \u00e9 utilizado para reunir e dispersar os filhos de santo. No contexto do \u00e1lbum, essa Avamunha \u00e9 dedicada para Exu, j\u00e1 que, na tradi\u00e7\u00e3o do Candombl\u00e9, Exu sempre deve comer primeiro. Assim, j\u00e1 fica expl\u00edcito a partir do primeiro momento o car\u00e1ter espiritual dessas can\u00e7\u00f5es, elas s\u00e3o cultos aos orix\u00e1s. O \u00e1lbum busca fazer uma representa\u00e7\u00e3o do Brasil atrav\u00e9s de sua cultura popular (de forma an\u00e1loga a autores como Guimar\u00e3es Rosa), encontrando na musicalidade da macumba uma representa\u00e7\u00e3o meton\u00edmica das tradi\u00e7\u00f5es populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02) Pe rembi\u2019urama &#8211;<\/strong> Essa faixa dialoga diretamente com a arte de capa. O verso de abertura \u201cAju-ne ix\u00e9 pe rembi\u2019urama\u201d foi uma frase proferida pelo colono alem\u00e3o Hans Staden quando foi feito prisioneiro pelos Tupinamb\u00e1, sabendo que tinham a inten\u00e7\u00e3o de devor\u00e1-lo. Ela \u00e9 cantada da perspectiva de um fantasma: o empres\u00e1rio-pastor representado na arte de capa de Poty Galaco recupera a mem\u00f3ria ancestral do mission\u00e1rio da pintura de No\u00e9 Leon (\u201cMission\u00e1rio sendo comido pela on\u00e7a\u201d, que inspirou a releitura de Galaco) e aceita seu destino: \u201cA-\u00ee-potar \u00eeaguara syk-\u00fbama xe iuk\u00e1-rama res\u00e9\u201d \/ \u201cEu quero que a on\u00e7a chegue para me matar\u201d. A representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica desse contato entre a on\u00e7a e o colonizador \u00e9 uma alus\u00e3o expl\u00edcita ao car\u00e1ter antropof\u00e1gico do \u00e1lbum. Essa imagem simboliza as reflex\u00f5es defendidas no ensaio publicado como acompanhamento: \u201cUm projeto de emancipa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cultural brasileira precisa passar pela desconstru\u00e7\u00e3o e, principalmente, pela subvers\u00e3o das influ\u00eancias ocidentais em prol da retomada de dispositivos ancestrais que s\u00e3o capazes de nos fornecer uma autonomia em constru\u00e7\u00e3o de valores, princ\u00edpios e subjetividades. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio inverter as rela\u00e7\u00f5es de conflito inerentes \u00e0 pr\u00e1tica sincr\u00e9tica, submetendo as tecnologias ocidentais e suas aspira\u00e7\u00f5es futur\u00edsticas aos interesses de nossa soberania.\u201d Essa imagem dialoga com as grava\u00e7\u00f5es de p\u00e1ssaros, rios e outros animais da Floresta Amaz\u00f4nica para defender, de um lado, um realinhamento ontol\u00f3gico com a natureza: para que possamos desconstruir o excepcionalismo humano que enxerga os outros animais como seres inferiores, pensamento esse que permite a mentalidade extrativista que equivale o organismo abundante em vivacidade que \u00e9 a floresta a um mero recurso a ser explorado. Por outro lado, as multinacionais e demais agentes imperialistas interessados em explorar os recursos naturais da Amaz\u00f4nia (a maior reserva de terras raras do mundo) precisam ter medo da floresta, entender que precisam deix\u00e1-la em paz, para seu pr\u00f3prio bem. Precisamos defender um projeto de soberania, para que os brasileiros possam ter autonomia sobre nossos pr\u00f3prios recursos \u2013 e possamos escolher n\u00e3o explor\u00e1-los. A floresta precisa ficar de p\u00e9, viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03) Ayaba Oxum &#8211;\u00a0<\/strong>A m\u00fasica \u00e9 dedicada para minha m\u00e3e Oxum, a orix\u00e1 associada \u00e0s \u00e1guas doces, a beleza, o amor, as artes e o encantamento. Especificamente, Oxum Opara, a qualidade de Oxum que tamb\u00e9m est\u00e1 associada a Ians\u00e3, possuindo assim uma caracter\u00edstica dupla de do\u00e7ura e intensidade. Os orix\u00e1s s\u00e3o for\u00e7as da natureza, eles representam os mecanismos que constroem a sintaxe da vida. Oxum \u00e9 o rio, e por isso ela \u00e9 associada ao encantamento: \u00e9 a for\u00e7a da cria\u00e7\u00e3o que permite que a vida flores\u00e7a ao seu redor. Nesta m\u00fasica, busquei sincretiz\u00e1-la com o rio Amazonas, o que \u00e9 refletido na estrutura do som: o rio nasce calmo, mas \u00e0 medida que seus afluentes chegam, ele se torna mais poderoso. Na passagem instrumental, conforme o rio flui, mais e mais instrumentos de percuss\u00e3o entram na dan\u00e7a. Ao final da m\u00fasica, se torna esse som massivo que representa todo o poder do maior e mais volumoso rio do planeta. Os vocais n\u00e3o s\u00e3o meras palavras, s\u00e3o texturas que visam invocar a orix\u00e1. Enquanto repito essa cantiga de Oxum (muito provavelmente a mais popular, presente em diversos marcos da m\u00fasica brasileira que a homenagearam, como \u201cO Canto de Oxum\u201d de Vin\u00edcius de Moraes &amp; Toquinho, \u201cMan Ferimann\u201d, do Met\u00e1 Met\u00e1 e \u201cCanto de Oxum\u201d de Maria Beth\u00e2nia), a correnteza do rio fica mais forte, mais barulhenta e mais poderosa. Ao final da m\u00fasica, as vozes explodem em gritos, e o rio encontra o Oceano Atl\u00e2ntico: chegamos \u00e0 Pororoca (do tupi: \u201cexplos\u00e3o\u201d), um fen\u00f4meno ensurdecedor que produz as ondas mais longas do planeta, devido ao seu enorme fluxo de \u00e1guas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04) Oy\u00e1 Dewo &#8211;<\/strong> A m\u00fasica \u00e9 dedicada para Ians\u00e3, a orix\u00e1 associada aos ventos, raios e tempestades. Na primeira parte, \u00e9 narrado o It\u00e3 (uma das hist\u00f3rias que justificam os fundamentos do Candombl\u00e9) onde Ians\u00e3 cria o axex\u00ea, o rito funer\u00e1rio pelo qual os iniciados passam depois de morrer. A segunda parte da m\u00fasica, interpretada pela voz angelical de Gabi d\u2019Oy\u00e1 (nome quent\u00edssimo da cena paulista de R&amp;B e Neo-Soul), \u00e9 uma cantiga tradicional para Ians\u00e3 \u2013 do iorub\u00e1, \u201cMarewo Oy\u00e1 Dewo\u201d significa que \u201cOy\u00e1 chegou com o Marewo\u201d, a folha sagrada do dendezeiro respons\u00e1vel por espantar as energias frias de esp\u00edritos perturbadores. Para proteger os vivos, Ians\u00e3 afasta e conduz os mortos para o Orum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05) \u00ccranti Od\u00e9 &#8211;<\/strong> Essa can\u00e7\u00e3o foi formada pela uni\u00e3o de algumas cantigas tradicionais do Candombl\u00e9 para Ox\u00f3ssi, o orix\u00e1 da ca\u00e7a, da prosperidade e da busca por solu\u00e7\u00f5es na vida. Ox\u00f3ssi foi muito importante para que o projeto de Antropoceno fosse poss\u00edvel, j\u00e1 que trouxe para perto de mim v\u00e1rias pessoas incr\u00edveis que deram contribui\u00e7\u00f5es essenciais. Uma delas foi Pai Viny, Ogan do terreiro que frequento (ou seja, uma lideran\u00e7a religiosa escolhida pelo orix\u00e1, respons\u00e1vel por tocar os instrumentos sagrados e performar as cantigas para os orix\u00e1s durante os ritos do Candombl\u00e9). Essa m\u00fasica foi cantada por Pai Viny, tive a honra de receber sua participa\u00e7\u00e3o especial nesse disco<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06) Futuro Ancestral &#8211;<\/strong> A can\u00e7\u00e3o traz uma refer\u00eancia a duas cantigas para Oxum. Do iorub\u00e1, \u201c\u00d2sun e l\u00f3ol\u00e1 Ayaba imol\u00e8 l\u00f3omi\u201d se traduz para \u201cOxum, senhora que \u00e9 tratada com todas as honras, senhora dos esp\u00edritos das \u00e1guas\u201d. \u201c\u00ccy\u00e1 d\u00f2 s\u00ecn m\u00e1a gb\u00e8 \u00ecy\u00e1 wa oro\u201d se traduz para \u201cA m\u00e3e do rio a quem cultuamos nos proteger\u00e1. M\u00e3e que nos guiar\u00e1 nas tradi\u00e7\u00f5es e costumes.\u201d O restante da letra \u00e9 composto por trechos do livro \u201cFuturo Ancestral\u201d de Ailton Krenak e \u00e9 atrav\u00e9s dessa m\u00fasica que sua filosofia se faz expl\u00edcita. Ailton considera que a mentalidade extrativista que est\u00e1 sendo respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o do planeta est\u00e1 intimamente associada a uma vis\u00e3o de mundo antropoc\u00eantrica que considera os humanos superiores aos outros animais e seres vivos do planeta. Para fazer uma defesa da floresta e dos demais recursos naturais que s\u00e3o indispens\u00e1veis para a manuten\u00e7\u00e3o da vida, \u00e9 necess\u00e1rio um realinhamento ontol\u00f3gico com a natureza, ou seja, precisamos nos reaproximar das outras formas de vida e colocar nosso cora\u00e7\u00e3o no ritmo da Terra. \u201cO corpo de barro vai animar a maquina\u00e7\u00e3o do mundo A pot\u00eancia transcendente que suplanta a mediocridade, vamos experimentar a vida Vamos nos espraiar para outros organismos ao nosso redor Por conflu\u00eancias de narrativas, se h\u00e1 um futuro a ser vivido, ele \u00e9 ancestral.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07) Xe Anama (Cora\u00e7\u00e3o no Ritmo da Terra) &#8211; <\/strong>Essa m\u00fasica \u00e9 uma homenagem ao meu bisav\u00f4, um homem ind\u00edgena que viveu 102 anos e teve a hist\u00f3ria das origens de sua fam\u00edlia apagada, e \u00e0 sua filha, minha querida av\u00f3. Sua letra \u00e9 formada pela colagem de cinco textos que criam um di\u00e1logo entre si. O primeiro \u00e9 uma entrevista que minha v\u00f3, Leontina Viana, concedeu para mim. Nessa entrevista, ela conta as lembran\u00e7as que guarda de seu pai, sua fam\u00edlia, e a vida rural que levava na sua inf\u00e2ncia, quando vivia na ro\u00e7a, refletindo com carinho sobre esse modo de vida em contato direto com a natureza. Em seguida, conta sobre uma viagem recente que fez para o munic\u00edpio de Itaocara (RJ), onde cresceu. Ela conta sobre o estado de completo abandono que o lugar se encontra atualmente: os rios secaram, e aquele lugar que antes estava cheio de vida agora est\u00e1 morto. O segundo texto \u00e9 um trecho de \u201cFuturo Ancestral\u201d onde Ailton descreve uma ideia do antrop\u00f3logo Eduardo Viveiros de Castro: \u201cA urbaniza\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 tardia. Ainda nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, havia campanhas para as pessoas sa\u00edrem do campo e irem para os centros urbanos, o que acarretou um grande \u00eaxodo rural. Muita gente saiu da zona rural para liberar a \u00e1rea para o agroneg\u00f3cio e foi passar fome nas cidades. (\u2026) o Brasil se especializou na produ\u00e7\u00e3o de pobres. (&#8230;)\u201d O terceiro texto \u00e9 mais um trecho de Futuro Ancestral. \u201cN\u00e3o podemos nos render \u00e0 narrativa de fim de mundo que tem nos assombrado, porque ela serve para nos fazer desistir de nossos sonhos, e dentro de nossos sonhos est\u00e3o as mem\u00f3rias da Terra e de nossos ancestrais. (&#8230;)\u201d O quarto texto \u00e9 uma reinterpreta\u00e7\u00e3o de \u201cSe Anama\u201d, uma cantiga tradicional do povo tupinamb\u00e1 cantada em Nheengatu, a l\u00edngua geral amaz\u00f4nica \u2013 muito pr\u00f3xima ao tupi antigo, a l\u00edngua geral paulista predominante na costa do Brasil durante os s\u00e9culos XVII \u2013 XIX. Em tupi antigo, o pronome \u201cse\u201d (literalmente \u201ceu\u201d ou \u201cmeu\u201d) \u00e9 pronunciado como \u201cxe\u201d. Em ambas as l\u00ednguas, a express\u00e3o significa \u201cmeu parente\u201d ou \u201cmeu familiar\u201d. O quinto e \u00faltimo texto \u00e9 um poema que escrevi para meu bisav\u00f4. 102 anos de conex\u00e3o com a terra, com esse solo Podem tentar te apagar, mas esse la\u00e7o n\u00e3o vai se desatar Porque eu vou me lembrar, de ti recordar pra sempre Sua mem\u00f3ria n\u00e3o vai se apagar, sua vida vai perdurar O rio pode at\u00e9 secar mas eu vou chor\u00e1-lo inteiro de volta O rio pode at\u00e9 secar mas eu vou chor\u00e1-lo inteiro de volta O rio pode at\u00e9 secar mas eu vou chor\u00e1-lo inteiro de volta O rio pode at\u00e9 secar mas eu vou chor\u00e1-lo inteiro de volta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08) A Terra e o C\u00e9u &#8211;<\/strong> O nome da can\u00e7\u00e3o faz refer\u00eancia \u00e0 express\u00e3o \u201cAbya Yala\u201d, a forma que alguns povos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica do Sul se referem ao continente em que habitamos. O refr\u00e3o da m\u00fasica reinterpreta um dos cantos mais famosos nas rodas de capoeira. Na letra da m\u00fasica, se fazem duas sauda\u00e7\u00f5es (uma para a Terra, e outra para o C\u00e9u). Paran\u00e1 au\u00ea, em tupi antigo, \u00e9 uma sauda\u00e7\u00e3o ao rio grande. Epa Bab\u00e1, em iorub\u00e1, \u00e9 uma sauda\u00e7\u00e3o para Oxal\u00e1, o orix\u00e1 pai associado ao ar e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana e do mundo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96192 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Cover-art-Arte-de-Capa-por-@g4laco.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Cover-art-Arte-de-Capa-por-@g4laco.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Cover-art-Arte-de-Capa-por-@g4laco-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Cover-art-Arte-de-Capa-por-@g4laco-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Incorporando letras em portugu\u00eas, tupi antigo e iorub\u00e1 lit\u00fargico, o \u00e1lbum recontextualiza cantigas do candombl\u00e9 e da capoeira atrav\u00e9s de um design de som idiossincr\u00e1tico que articula ancestralidade e futurismo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/09\/faixa-a-faixa-antropoceno-apresenta-no-ritmo-da-terra-mesclando-rock-vanguardista-com-ailton-krenak\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":96191,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,3],"tags":[8251],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96189"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96189"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96189\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96194,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96189\/revisions\/96194"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}