{"id":96106,"date":"2026-06-02T00:42:29","date_gmt":"2026-06-02T03:42:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=96106"},"modified":"2026-06-02T00:47:02","modified_gmt":"2026-06-02T03:47:02","slug":"entrevista-gabriela-bilo-num-papo-sobre-fotojornalismo-e-o-livro-juizo-final-que-documenta-a-tentativa-de-golpe-de-8-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/02\/entrevista-gabriela-bilo-num-papo-sobre-fotojornalismo-e-o-livro-juizo-final-que-documenta-a-tentativa-de-golpe-de-8-de-janeiro\/","title":{"rendered":"Gabriela Bil\u00f3: &#8220;Quando fotografo o poder, quero mostrar justamente que o rei est\u00e1 nu&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem acompanha o caos pol\u00edtico brasileiro nos \u00faltimos anos e os agitados bastidores do poder em Bras\u00edlia j\u00e1 deve ter se deparado com o nome de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gabriela.bilo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gabriela Bil\u00f3<\/a>, fot\u00f3grafa a servi\u00e7o do jornal Folha de S\u00e3o Paulo que vem, ano a ano, se destacando na cobertura da pol\u00edtica nacional, especialmente durante os anos do bolsonarismo, per\u00edodo em que acompanhou de perto manifesta\u00e7\u00f5es, elei\u00e7\u00f5es, ataques \u00e0 democracia e os desdobramentos do 8 de janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autodidata, moldada pela urg\u00eancia das ruas e pela \u00e9tica do \u201cdo it yourself\u201d herdada do punk rock, Gabriela aprendeu a fotografar na pr\u00e1tica, enfrentando as dificuldades financeiras e estruturais de uma profiss\u00e3o \u201cque paga muito mal e, ao mesmo tempo, \u00e9 muito cara\u201d, como afirma nesta entrevista. Seu olhar \u2014 ao mesmo tempo \u00e1cido, sat\u00edrico e atento aos detalhes \u2014 nasce, segundo ela, de uma curiosidade quase obsessiva: \u201cEu sempre fui muito voyeur. Gostava de observar as pessoas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2022, Bil\u00f3 lan\u00e7ou &#8220;<a href=\"https:\/\/amzn.to\/4vrTsfU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Verdade Vos Libertar\u00e1<\/a>\u201d (Editora F\u00f3sforo), obra vencedora do Pr\u00eamio Jabuti constru\u00edda em parceria com Pedro Inoue, Pedro Daltro, Cristiano Botafogo \u2013 os dois \u00faltimos respons\u00e1veis pelo \u201cMedo e Del\u00edrio em Bras\u00edlia\u201d, podcast vencedor no <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/02\/04\/scream-yell-os-melhores-de-2024\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pr\u00eamio Scream &amp; Yell em 2024<\/a>. Agora, o quarteto retorna ao debate pol\u00edtico com \u201c<a href=\"https:\/\/amzn.to\/4o5o2JE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ju\u00edzo Final\u201d<\/a> (tamb\u00e9m lan\u00e7ado pela F\u00f3sforo), livro que re\u00fane imagens e documentos sobre a tentativa de golpe no Brasil e seus desdobramentos. Mais do que um livro de fotografia, a obra se assume como um arquivo de mem\u00f3ria coletiva diante das tentativas de apagamento e revisionismo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista, Gabriela Bil\u00f3 fala sobre medo, fotografia, punk rock, estruturas de poder e o papel do fotojornalismo em tempos de intelig\u00eancia artificial e desinforma\u00e7\u00e3o entre outros assuntos. Para a fot\u00f3grafa, a imagem jornal\u00edstica ganha ainda mais import\u00e2ncia justamente em um momento em que a verdade passou a ser constantemente colocada em d\u00favida. \u201cO fotojornalismo hoje funciona quase como um selo de realidade\u201d, afirma. Confira a conversa na \u00edntegra!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96107 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1047\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo1-215x300.jpg 215w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gabriela, sua trajet\u00f3ria no fotojornalismo \u00e9 marcada pela cobertura intensa da pol\u00edtica brasileira e de momentos decisivos da nossa hist\u00f3ria recente. Como surgiu seu interesse pela fotografia e em que momento voc\u00ea percebeu que queria transformar isso em profiss\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu fui descobrindo a fotografia aos poucos. N\u00e3o sabia que fotojornalismo era uma profiss\u00e3o, nem que fotografia podia ser uma profiss\u00e3o. Sempre gostei de imagem, sempre fui muito voyeur. Tinha lunetas, telesc\u00f3pios e gostava de observar as pessoas. Quando entrei no jornalismo, usei a faculdade para experimentar diferentes \u00e1reas e aprender coisas novas. Acabei conseguindo um trabalho freelancer no fotojornalismo e percebi que gostava muito de estar nos lugares, observar as pessoas e capturar imagens. Foi algo que fui descobrindo atrav\u00e9s das experi\u00eancias. Acho que nunca houve exatamente um momento em que pensei: \u201cQuero transformar isso em profiss\u00e3o\u201d. Simplesmente aconteceu. Foi uma coisa que eu quis fazer cada vez mais, algo de que eu gostava muito. Aos poucos, isso foi tomando conta da minha vida e acabou virando minha profiss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais foram os principais desafios no in\u00edcio da sua carreira como fot\u00f3grafa, especialmente atuando em um campo t\u00e3o competitivo e muitas vezes hostil como o fotojornalismo pol\u00edtico?<\/strong><br \/>\nAcho que o principal desafio foi financeiro. \u00c9 uma profiss\u00e3o que paga muito mal e, ao mesmo tempo, \u00e9 muito cara. Equipamento custa caro. Eu tinha uma c\u00e2mera semiprofissional, enquanto outros profissionais j\u00e1 tinham lentes e equipamentos mais avan\u00e7ados, al\u00e9m da experi\u00eancia. Tamb\u00e9m havia toda a quest\u00e3o da estrutura. Eu n\u00e3o tinha carro e nem motorista que nem alguns fotojornalistas \u201cprofissionais\u201d. Muitas vezes, precisava pegar transporte p\u00fablico para chegar \u00e0s pautas, a p\u00e9 ou de bicicleta. Depois consegui ter meu carrinho. Tudo tinha um custo para mim. Uma curiosidade \u00e9 que o mesmo P\u00e1lio 1.0 eu tinha at\u00e9 outro dia, mas ele come\u00e7ou a dar problema e, infelizmente, tive que vende-lo depois de todos esses anos juntos. Foi muito dif\u00edcil nesse primeiro momento por causa da baixa remunera\u00e7\u00e3o e dos gastos para se manter trabalhando. Como o fotojornalismo \u00e9 muito competitivo, sobreviver nele \u00e9 complicado. Ent\u00e3o, meu primeiro grande desafio foi realmente o financeiro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96108 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu trabalho \u00e9 reconhecido pela capacidade de capturar imagens que sintetizam tens\u00f5es pol\u00edticas e simb\u00f3licas muito fortes. Como voc\u00ea desenvolveu esse olhar t\u00e3o preciso para o instante decisivo?<\/strong><br \/>\nAcho que esse olhar vem justamente do meu voyeurismo, desse gosto por observar as pessoas e os detalhes. Observar o jeito que algu\u00e9m pisca os olhos, se movimenta, a maneira como a luz bate. Sou uma pessoa muito curiosa. Acho que isso vem da curiosidade e da observa\u00e7\u00e3o atenta das pequenas coisas. Tento entender a beleza nisso, nas pequenas coisas. \u00c9 um exerc\u00edcio constante de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro \u201cJu\u00edzo Final\u201d funciona n\u00e3o apenas como um registro fotogr\u00e1fico, mas como uma esp\u00e9cie de documento hist\u00f3rico e pol\u00edtico. Em que momento voc\u00ea percebeu que esse material precisava se transformar em livro?<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 sabia que seria um livro antes mesmo de come\u00e7ar a fotografar. Quando o julgamento come\u00e7ou a se desenhar, pensei: \u201cIsso vai ser hist\u00f3rico\u201d. Seria o julgamento dos golpistas, algo que nunca aconteceu na hist\u00f3ria do pa\u00eds. Inclusive, eu j\u00e1 havia fechado com a editora para fazer um livro sobre esse tema antes mesmo da hist\u00f3ria acontecer, porque sabia da import\u00e2ncia hist\u00f3rica daquilo. Nesse caso, foi o contr\u00e1rio: o livro existia antes do material existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o processo de curadoria das imagens para \u201cJu\u00edzo Final\u201d? Deve ter sido dif\u00edcil escolher, entre tantos registros marcantes, quais entrariam nessa narrativa.<\/strong><br \/>\nEnquanto fotografava, eu j\u00e1 pensava no livro. Inclusive, quando fiz a \u00faltima foto do Bolsonaro preso, pensei imediatamente: \u201cTenho a \u00faltima foto do livro\u201d. Era muito claro para mim o que precisava estar ali, porque fotografei pensando que aquilo era maior do que apenas o registro de um momento \u2014 era um registro da hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, enquanto fotografava, eu j\u00e1 fazia uma sele\u00e7\u00e3o mental. Eu sabia exatamente o que queria contar e como queria contar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96109 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro cobre desde o governo Bolsonaro at\u00e9 os desdobramentos do 8 de janeiro e sua pris\u00e3o (no come\u00e7o do governo Lula). Ao revisitar esse per\u00edodo para construir a obra, quais sentimentos mais voltaram \u00e0 tona?<\/strong><br \/>\nExiste uma indigna\u00e7\u00e3o muito grande, junto com uma sensa\u00e7\u00e3o forte de impot\u00eancia. Tamb\u00e9m aparece uma sensa\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia, no sentido de perceber que tudo aquilo estava acontecendo enquanto havia apenas um \u201cclima\u201d geral. Havia uma percep\u00e7\u00e3o desse clima, mas n\u00e3o havia certeza do que realmente estava sendo articulado. Foram coisas muito graves que foram feitas. Ent\u00e3o surge essa sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia, de como n\u00f3s somos cegos. \u00c9 quase um sentimento de trai\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande que gera isso: uma indigna\u00e7\u00e3o profunda e um choque. N\u00e3o \u00e9 que seja totalmente inesperado, porque havia sinais e um ambiente em forma\u00e7\u00e3o, mas ainda assim \u00e9 impactante perceber o n\u00edvel das articula\u00e7\u00f5es. Existiam planos muito graves, organizados, com hora, com pessoas espalhadas, com pessoas armadas. E isso causa espanto: como tanta coisa p\u00f4de acontecer sem que se tivesse dimens\u00e3o disso? Fica ent\u00e3o essa sensa\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia, de ingenuidade, de perceber: \u201ccaramba, eu nem fazia ideia de que isso existia\u201d. Ao mesmo tempo, a percep\u00e7\u00e3o de que havia coisas acontecendo por debaixo dos panos que n\u00e3o eram imaginadas naquele n\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acredita que \u201cJu\u00edzo Final\u201d tamb\u00e9m cumpre um papel de preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva, especialmente diante de tantas tentativas de apagamento e revisionismo pol\u00edtico?<\/strong><br \/>\nSim. \u201cJu\u00edzo Final\u201d tem esse papel de mem\u00f3ria coletiva. A ideia era fazer um livro cheio de evid\u00eancias, provas e documentos. N\u00e3o \u00e9 apenas uma narrativa: as coisas est\u00e3o registradas ali. Quando as pessoas dizem \u201cs\u00f3 quero ver os livros de hist\u00f3ria do futuro\u201d, eu penso: que livros ser\u00e3o esses? A hist\u00f3ria \u00e9 sempre reescrita a partir de quem est\u00e1 no poder. Nossa democracia \u00e9 muito fr\u00e1gil. Foi por muito pouco que n\u00e3o sofremos um golpe. Ent\u00e3o acho que precisamos escrever os nossos livros de hist\u00f3ria. Essa \u00e9, em parte, a proposta de \u201cJu\u00edzo Final\u201d: ser um livro de mem\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi trabalhar em parceria com Pedro Daltro, Cristiano Botafogo e Pedro Inoue na constru\u00e7\u00e3o dessa obra? De que forma o di\u00e1logo entre fotografia, texto e projeto gr\u00e1fico fortaleceu a mensagem do livro?<\/strong><br \/>\nFoi muito bom trabalhar com a equipe. A gente j\u00e1 tinha trabalhado junto em \u201cA Verdade Vos Libertar\u00e1\u201d, que ganhou o Jabuti. Ent\u00e3o esse livro acabou sendo mais f\u00e1cil, porque j\u00e1 nos entend\u00edamos muito bem. N\u00e3o tivemos conflitos. \u00c9 uma equipe muito tranquila, horizontal e formada por pessoas em quem eu confio muito. Todo mundo sabe exatamente o que faz. Acho que todos n\u00f3s entendemos a comunica\u00e7\u00e3o como algo plural. Quanto mais conseguimos reunir diferentes linguagens e informa\u00e7\u00f5es, mais forte o livro fica. Essa mistura entre fotografia, texto e projeto gr\u00e1fico fortaleceu muito a obra. Tamb\u00e9m foi interessante perceber como conseguimos criar trabalhos muito diferentes. \u201cA Verdade Vos Libertar\u00e1\u201d foi uma experi\u00eancia; \u201cJu\u00edzo Final\u201d \u00e9 outra completamente diferente. Acho muito bonito poder transitar entre formatos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96110 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O pref\u00e1cio de Marcelo Rubens Paiva traz uma dimens\u00e3o muito emocional e pol\u00edtica sobre esse per\u00edodo. Qual foi a import\u00e2ncia desse texto dentro da proposta do livro?<\/strong><br \/>\nO Marcelo \u00e9 uma figura hist\u00f3rica muito relevante e simb\u00f3lica, tanto nas lutas do passado quanto nas do presente. O texto dele faz um apanhado po\u00e9tico bel\u00edssimo e d\u00e1 um tom muito importante ao livro. Ele refor\u00e7a ainda mais o peso hist\u00f3rico desse momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Durante os anos de bolsonarismo, o trabalho de jornalistas e fot\u00f3grafos esteve constantemente sob ataque. Em algum momento voc\u00ea sentiu medo real de exercer sua profiss\u00e3o? Como lidou com isso?<\/strong><br \/>\nSim, houve muitas situa\u00e7\u00f5es tensas. Cobertura de 7 de Setembro em que quase apanhei, cobertura do acampamento golpista em que tive medo real pela minha integridade f\u00edsica, al\u00e9m do pr\u00f3prio 8 de janeiro. Manifesta\u00e7\u00f5es da extrema direita contra a imprensa costumam ser muito tensas. D\u00e1 at\u00e9 um gelado na espinha. E, sinceramente, \u00e0s vezes eu enfrento e \u00e0s vezes n\u00e3o. Eu respeito muito o meu medo. Quando sinto muito medo, recuo, porque entendo que existe algo me alertando ali. Eu ou\u00e7o muito os meus instintos. E isso n\u00e3o \u00e9 algo do passado. Ainda continuo lidando com esse tipo de situa\u00e7\u00e3o, principalmente em per\u00edodos eleitorais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual voc\u00ea acredita ser o papel do fotojornalismo em tempos de radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, desinforma\u00e7\u00e3o e ataques \u00e0 democracia?<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9 o mesmo, independentemente do tempo: a defesa do interesse social e da democracia. N\u00e3o apenas do fotojornalismo, mas do jornalismo como um todo. Eu n\u00e3o acredito em jornalismo imparcial, porque ele tem um lado: o interesse social e a democracia. E acho que, principalmente na era da intelig\u00eancia artificial, o fotojornalismo ganha ainda mais relev\u00e2ncia e credibilidade. Vamos ver cada vez mais imagens falsas e fake news, e as pessoas v\u00e3o perguntar: \u201cT\u00e1, mas quem fez essa foto?\u201d O nome por tr\u00e1s da imagem passa a funcionar como um selo de credibilidade. Isso torna o papel do fotojornalismo ainda mais importante.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96111 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muitas vezes uma fotografia consegue comunicar mais do que p\u00e1ginas inteiras de an\u00e1lise. Voc\u00ea acredita que a imagem ainda tem esse poder de ruptura e conscientiza\u00e7\u00e3o social?<\/strong><br \/>\nAcredito, sim. Vivemos em um mundo em que as pessoas n\u00e3o conseguem assistir nem a 15 segundos de v\u00eddeo. A aten\u00e7\u00e3o \u00e9 medida em segundos. Nesse contexto, a fotografia tem um poder enorme, porque comunica em mil\u00e9simos de segundo. Historicamente, fotos j\u00e1 mudaram guerras. Ent\u00e3o acredito, sim, nesse poder. Claro que, muitas vezes, voc\u00ea est\u00e1 pregando para convertidos. Existem bolhas muito fechadas, umas lavagens cerebrais em que n\u00e3o adianta mostrar imagens ou argumentos porque a pessoa simplesmente n\u00e3o vai acreditar. Mas ainda assim acho importante continuar tentando. Sempre existe algu\u00e9m disposto a parar e pensar: \u201cN\u00e3o, espera a\u00ed, deixa eu pensar aqui.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em um cen\u00e1rio dominado pela velocidade das redes sociais e pela circula\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea de imagens, como preservar profundidade e responsabilidade no trabalho fotojornal\u00edstico?<\/strong><br \/>\nAcho que, justamente por causa da velocidade e da quantidade de fake news, o fotojornalismo acaba se fortalecendo. As pessoas sabem que aquela imagem \u00e9 real, feita por um ser humano identificado. \u00c9 quase um selo de realidade. Ent\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que parece, esse cen\u00e1rio acaba fortalecendo o fotojornalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem ministrado cursos e seu trabalho tem inspirado muitos jovens fot\u00f3grafos que desejam ingressar nesse universo. Que conselho voc\u00ea daria para quem est\u00e1 come\u00e7ando e sonha em viver de fotografia documental e fotojornalismo?<\/strong><br \/>\nAcho importante ter estrat\u00e9gia e estudar muito o trabalho de outros fot\u00f3grafos. Mais do que ver tutorial ou fazer aula, \u00e9 importante pegar a c\u00e2mera, fotografar e observar. Quando estiver em eventos com outros fot\u00f3grafos, observe o que eles fizeram, tente entender as escolhas de cada um e reflita sobre o que cada imagem pode significar. \u00c9 uma profiss\u00e3o dif\u00edcil de entrar, mas existe espa\u00e7o, sim. Principalmente para novos olhares. Vivemos um momento de democratiza\u00e7\u00e3o da imagem e da informa\u00e7\u00e3o. Hoje, com as redes sociais, \u00e9 poss\u00edvel construir uma carreira de maneiras que antes n\u00e3o existiam. Ent\u00e3o meu conselho \u00e9: trabalhe o seu olhar, estude o seu olhar e a sua pr\u00f3pria imagem.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96112 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo6.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo6.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo6-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe alguma habilidade ou sensibilidade que voc\u00ea considera indispens\u00e1vel para quem quer atuar nessa \u00e1rea, al\u00e9m do dom\u00ednio t\u00e9cnico da c\u00e2mera?<\/strong><br \/>\nExiste uma habilidade que eu acredito ser essencial na profiss\u00e3o, para al\u00e9m da t\u00e9cnica: n\u00e3o ser covarde. E isso n\u00e3o tem a ver exatamente com coragem, mas com um tra\u00e7o de personalidade. N\u00e3o ser covarde no sentido do tipo de car\u00e1ter que voc\u00ea tem. Isso, para mim, \u00e9 essencial, porque \u00e9 o que vai guiar sua \u00e9tica, suas decis\u00f5es e suas rela\u00e7\u00f5es com as pessoas \u2014 tanto quando voc\u00ea est\u00e1 com a c\u00e2mera na m\u00e3o quanto quando n\u00e3o est\u00e1. A covardia no car\u00e1ter, um car\u00e1ter covarde, \u00e9 a pior coisa que voc\u00ea pode ter. Ent\u00e3o, \u00e9 n\u00e3o ser covarde. E \u00e9 importante lembrar: n\u00e3o \u00e9 o oposto de coragem, porque coragem \u00e9 algo mais elaborado, \u00e9 outra coisa. Aqui se trata dessa caracter\u00edstica de um ser humano covarde, na vida, nas atitudes, nas posturas. Ent\u00e3o, uma caracter\u00edstica e uma sensibilidade que considero essenciais \u00e9 justamente a aus\u00eancia de covardia na personalidade de algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em entrevista ao Marcelo Tas, no programa Provoca ano passado, voc\u00ea comentou sobre sua rela\u00e7\u00e3o com o punk rock. De que forma essa est\u00e9tica, postura ou filosofia de enfrentamento influenciam sua forma de fotografar e de estar no mundo?<\/strong><br \/>\nSou muito do \u201cdo it yourself\u201d. Tenho essa postura de enfrentamento, de desmistificar o poder, de desafiar a autoridade. Aprendi a fotografar nas ruas, nas manifesta\u00e7\u00f5es. Foi justamente essa postura que me trouxe at\u00e9 aqui. Tamb\u00e9m existe minha vis\u00e3o pol\u00edtica, porque acredito que tudo \u00e9 pol\u00edtico. Acho que isso vem muito do punk: viver politicamente. Sou autodidata. Aprendi a fotografar sozinha, pegando a c\u00e2mera e experimentando. N\u00e3o tenho medo de experienciar coisas novas e tentar sair do padr\u00e3o. Tudo isso o punk rock me trouxe.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96113 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo7.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo7.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo7-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O punk costuma carregar uma dimens\u00e3o de urg\u00eancia, contesta\u00e7\u00e3o e inconformismo. Voc\u00ea enxerga esses elementos tamb\u00e9m no seu trabalho fotogr\u00e1fico?<\/strong><br \/>\nEu acho que falei um pouco na pergunta anterior sobre essa dimens\u00e3o da urg\u00eancia, da contesta\u00e7\u00e3o e do inconformismo. \u00c9 isso: a subcultura, a vontade de transforma\u00e7\u00e3o, o inconformismo pol\u00edtico, o entendimento de que d\u00e1 para construir um mundo melhor e esse sentimento quase an\u00e1rquico. IIsso tudo existe dentro de mim e \u00e9 muito inquietante ver as estruturas de poder por cima. Eu sinto que essas estruturas de poder n\u00e3o significam nada para mim. A minha fotografia est\u00e1 muito ligada a isso. Eu me vejo como algu\u00e9m bem ir\u00f4nica, com uma s\u00e1tira, uma acidez nas imagens. Acho que isso vem desse deboche em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s estruturas de poder \u2014 uma coisa de questionamento constante: \u201cquem voc\u00ea pensa que voc\u00ea \u00e9?\u201d Voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 um ser humano como eu. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 melhor do que eu. Isso n\u00e3o faz sentido nenhum. Voc\u00ea (classe pol\u00edtica) tem apenas uma caneta na m\u00e3o, foi eleito para estar a\u00ed. Mas quem \u00e9 voc\u00ea sem o nosso voto? Quem \u00e9 voc\u00ea sem as massas? Ent\u00e3o eu acho que isso est\u00e1 completamente ligado \u00e0 fotografia e ao punk rock. \u00c9 uma linha muito clara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe alguma conex\u00e3o entre sua forma de observar o poder e essa forma\u00e7\u00e3o mais ligada \u00e0 contracultura e \u00e0 resist\u00eancia?<\/strong><br \/>\nComo disse, as minhas fotos t\u00eam essa caracter\u00edstica sat\u00edrica e \u00e1cida. Gosto de \u201cdespir\u201d o poder, mostrar que o rei est\u00e1 nu. Quero democratizar a informa\u00e7\u00e3o para que as pessoas entendam que nada \u00e9 inacess\u00edvel. O poder est\u00e1 nas massas, est\u00e1 nas pessoas. Quando fotografo o poder, quero mostrar justamente isso: que o rei est\u00e1 nu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao longo da sua carreira, houve alguma imagem espec\u00edfica que voc\u00ea fez e pensou imediatamente: \u201cessa foto vai ficar para a hist\u00f3ria\u201d?<\/strong><br \/>\nSim. A foto que fiz no 8 de janeiro, na vidra\u00e7a do Pal\u00e1cio, com a rampa ao fundo cheia de pessoas. Naquele momento eu sabia que era uma foto hist\u00f3rica. Pensei que, se perdesse todas as outras imagens, aquela era a que eu gostaria de guardar. Tamb\u00e9m senti isso com a foto em frente ao Congresso no mesmo dia e com a foto do Bolsonaro preso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois de \u201cJu\u00edzo Final\u201d, o que ainda te move como fot\u00f3grafa? O que voc\u00ea sente que ainda precisa registrar, denunciar ou contar atrav\u00e9s da imagem?<\/strong><br \/>\nHoje penso menos no que \u201cprecisa\u201d ser feito e mais no que me toca de verdade. N\u00e3o penso em legado. Sou ate\u00edsta e n\u00e3o acredito em algo depois da morte. Ent\u00e3o, para mim, importa mais a experi\u00eancia de viver. O que me move \u00e9 pensar nas estruturas de poder e no potencial de transforma\u00e7\u00e3o social, porque isso faz sentido para mim como ser humano. Mas atualmente tamb\u00e9m tenho vontade de explorar outras linguagens, me aproximar mais da arte, experimentar coisas novas pela fotografia e sair um pouco do hard news. Quero fotografar mais aquilo que tenho vontade de fotografar. N\u00e3o penso mais em obriga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenho que fazer nada al\u00e9m de viver. O que vier \u00e9 lucro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-96114 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo8.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1018\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo8.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/juizo8-221x300.jpg 221w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Gabriela Bil\u00f3 fala sobre medo, fotografia, punk rock, estruturas de poder e o papel do fotojornalismo em tempos de intelig\u00eancia artificial e desinforma\u00e7\u00e3o entre outros assuntos.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/02\/entrevista-gabriela-bilo-num-papo-sobre-fotojornalismo-e-o-livro-juizo-final-que-documenta-a-tentativa-de-golpe-de-8-de-janeiro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":96115,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,6589,9,4833],"tags":[6126,8242],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96106"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96106"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96106\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96119,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96106\/revisions\/96119"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96115"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96106"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96106"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96106"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}