{"id":95872,"date":"2026-05-21T00:35:21","date_gmt":"2026-05-21T03:35:21","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=95872"},"modified":"2026-05-21T00:35:21","modified_gmt":"2026-05-21T03:35:21","slug":"amilton-godoy-ha-muita-gente-boa-no-brasil-fazendo-musica-que-nao-e-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/21\/amilton-godoy-ha-muita-gente-boa-no-brasil-fazendo-musica-que-nao-e-brasileira\/","title":{"rendered":"Amilton Godoy: &#8220;H\u00e1 muita gente boa no Brasil fazendo m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 brasileira&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cprole\u201d de Heitor Villa-Lobos n\u00e3o em seus descendentes diretos, mas em m\u00fasicos de diversas gera\u00e7\u00f5es que assimilaram seu legado musical e fazem uso dele para criar novas obras. A partir desse conceito, o pianista <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/amiltongodoy\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Amilton Godoy<\/a> e o harmonicista <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gabrielgrossi\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gabriel Grossi<\/a> criaram o \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/2iEYvzWn1pLKiC620JKTIu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os Filhos de Villa<\/a>\u201d (2026), lan\u00e7ado nas plataformas de streaming no dia 5 de mar\u00e7o e com um vinil em edi\u00e7\u00e3o limitada saindo logo mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Godoy e Grossi pin\u00e7aram sete can\u00e7\u00f5es de compositores t\u00e3o distintos quanto Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Guinga e Aldir Blanc, Egberto Gismonti, Mauricio Einhorn e Durval Ferreira, Johnny Alf, Paulinho Nogueira, e somaram a elas duas de safra pr\u00f3pria, costurando um panorama precioso do legado de Villa-Lobos, com todas as obras interpretadas de forma muito pessoal em um duelo harmonioso de piano e harm\u00f4nica. O resultado \u00e9 um \u00e1lbum delicioso e um show ainda melhor, conforme ficou comprovado no mesmo 5 de mar\u00e7o, com a primeira apresenta\u00e7\u00e3o da turn\u00ea na sala Jardel Filho do Centro Cultural S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O material de imprensa apresenta o disco como um aparente paradoxo entre o erudito e o popular. Fato, mas n\u00e3o s\u00f3: apesar de todo o conhecimento te\u00f3rico que embasa a obra, ela \u00e9 um terreno f\u00e9rtil para a improvisa\u00e7\u00e3o que nasce da sensibilidade de ambos os artistas \u2013 que j\u00e1 haviam feito em 2012 o \u00f3timo \u201cVilla-Lobos Popular\u201d, esse focado na obra do homenageado. O \u00e1lbum mais recente, por\u00e9m, vai al\u00e9m, trazendo uma m\u00fasica ainda mais fluida, que permite enxergar uma das obras mais ricas brasileiras por um prisma bastante diferente do qual ela \u00e9 habitualmente apreciada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que esse disco tenha sa\u00eddo em 2026 t\u00e3o tenso \u00e9 um b\u00e1lsamo. E o pr\u00f3prio Amilton Godoy explica, em entrevista exclusiva para o Scream &amp; Yell, como \u201cOs Filhos de Villa\u201d vieram ao mundo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Teaser | Os Filhos de Villa - Amilton Godoy e Gabriel Grossi\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/A4FDx48A6PM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea e Gabriel Grossi delimitaram a \u201cgenealogia\u201d para chegar aos \u201cfilhos\u201d do Villa-Lobos? E por que esses nomes, entre tantos poss\u00edveis, entraram no repert\u00f3rio?<\/strong><br \/>\nBom, antes de tudo, existe uma limita\u00e7\u00e3o natural nesse tipo de proposta. Muitos compositores brasileiros sofreram influ\u00eancia do Villa-Lobos. Pela import\u00e2ncia dele, acabou dando uma identidade cultural ao pa\u00eds. A partir dele, o Brasil passou a ser reconhecido como um pa\u00eds extremamente musical, com uma sonoridade pr\u00f3pria, resultado da nossa miscigena\u00e7\u00e3o. N\u00f3s temos influ\u00eancias africanas, portuguesas, europeias em geral \u2014 e cada regi\u00e3o do Brasil tem sua identidade musical. \u00c0s vezes, com poucas notas, voc\u00ea reconhece: \u201cisso \u00e9 Nordeste\u201d, por exemplo. A pulsa\u00e7\u00e3o de uma bossa nova n\u00e3o tem nada a ver com a de um bai\u00e3o \u2014 e ainda assim, tudo \u00e9 Brasil. Ent\u00e3o, imagine a dificuldade de escolher quem seriam esses \u201cfilhos diretos\u201d de Villa-Lobos. Dentro desse cen\u00e1rio, demos prioridade a compositores que tiveram uma influ\u00eancia mais evidente. Um exemplo claro \u00e9 Ant\u00f4nio Carlos Jobim. Ele \u00e9, sem d\u00favida, um dos maiores nomes da m\u00fasica brasileira e sempre reconheceu a influ\u00eancia de Villa-Lobos. Inclusive, incorporou elementos de obras dele em composi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias. Por isso ele \u00e9 o \u00fanico compositor com duas faixas no disco. Escolhemos \u201cChovendo na Roseira\u201d e \u201cGarota de Ipanema\u201d.No caso de \u201cChovendo na Roseira\u201d, o Gabriel quis muito gravar a m\u00fasica com uma abordagem diferente: em vez da valsa tradicional, trabalhamos com uma ideia de samba em tr\u00eas tempos, com uma levada que mistura o 3\/4 com uma pulsa\u00e7\u00e3o brasileira mais pr\u00f3xima da bossa nova. Fiz um arranjo baseado numa base que eu tinha bolado h\u00e1 muito tempo. J\u00e1 \u201cGarota de Ipanema\u201d ganhou uma releitura mais madura. Ela n\u00e3o \u00e9 mais aquela garota que ia \u00e0 praia, que era admirada s\u00f3 pelo seu corpo escultural \u2013 ela ganhou viv\u00eancia, ficou mais introspectiva, diferente, agora j\u00e1 \u00e9 uma senhora (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar desse peso do Jobim para o conceito, o disco abre com uma do Egberto Gismonti.<\/strong><br \/>\nSim. \u201cLoro\u201d \u00e9 muito marcante, muito brasileira, d\u00e1 para improvisar bastante em cima dela, sentir o som do Brasil. O Egberto Gismonti \u00e9 claramente influenciado por Villa-Lobos. A introdu\u00e7\u00e3o que usamos foi uma ideia do Gabriel, baseada na pe\u00e7a \u201cDan\u00e7a do \u00cdndio Branco\u201d. Essa \u00e9 uma m\u00fasica que eu tive a oportunidade de tocar quando eu estudava m\u00fasica erudita. Toquei muito as obras do Villa-Lobos, tanto que cheguei a participar de um concurso para escolher o melhor int\u00e9rprete dele, e acharam que eu devia ganhar (risos). Essas coisas todas me marcaram demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um nome que me surpreendeu na sele\u00e7\u00e3o de voc\u00eas foi o do Johnny Alf\u2026<\/strong><br \/>\nMe perguntam bastante isso, \u201cpor que Johnny Alf?\u201d Eu convivi particularmente com Johnny Alf quando ele tocava aqui em S\u00e3o Paulo. Tem um disco do Zimbo Trio chamado \u201cDecis\u00e3o\u201d (de 1969) em que a faixa-t\u00edtulo \u00e9 uma m\u00fasica dele. Acho que quase ningu\u00e9m sabe disso, ele conhecia muitas das obras do Villa-Lobos. A import\u00e2ncia do Johnny para a renova\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brasileira \u00e9 muito grande. Quando ele tocava no Rio, Jobim n\u00e3o podia entrar na boate, ent\u00e3o ficava ouvindo ele tocar de fora. O Johnny influenciou muita gente, por isso falei pro Gabriel que gostaria que ele estivesse no disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para essas releituras todas, como voc\u00eas fizeram para equilibrar a fidelidade \u00e0 obra original com a identidade de voc\u00eas dois?<\/strong><br \/>\nAcho que fizemos as duas coisas: buscamos respeitar a ess\u00eancia das composi\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m imprimir nossa identidade. O Gabriel \u00e9 um m\u00fasico extremamente criativo, com grande capacidade de improvisa\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, eu me preocupava em criar a melhor base poss\u00edvel para que ele pudesse se desenvolver livremente. E ele realmente se soltou muito no disco. A minha opini\u00e3o \u00e9 que ele tocou muito melhor que eu. Isso que eu t\u00f4 dizendo para voc\u00ea. Acho que ele aproveitou esse espa\u00e7o e se soltou de uma forma que eu ficava bamba de ver. Eu, como pianista, tenho que pensar muito no que posso fazer para dar ao solista a melhor base poss\u00edvel para que ele se sinta bem. E conforme o Gabriel ia tocando, improvisando, eu ficava besta de ver a capacidade que ele tem, o jeito que ele usa a imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outros dois \u201cfilhos do Villa\u201d s\u00e3o voc\u00eas mesmos (risos).<\/strong><br \/>\nSim. Inclu\u00edmos duas m\u00fasicas autorais: uma minha e outra do Gabriel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-95874 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/devilla.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/devilla.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/devilla-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/devilla-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como essas faixas pr\u00f3prias que voc\u00eas escolheram traduzem a influ\u00eancia do Villa-Lobos?<\/strong><br \/>\nO meu \u201cChoro\u201d tem uma levada bem brasileira e nasce de uma preocupa\u00e7\u00e3o antiga: a de renovar a linguagem do choro, que muitas vezes ficava presa a formas mais tradicionais. Eu sempre achei importante atualizar harmonias e estruturas. Fiz esse choro em uma \u00e9poca em que tinha uma excurs\u00e3o por um trabalho do Banco do Brasil, e muitos m\u00fasicos se cruzavam nos eventos. Ent\u00e3o, num palco \u00e0s vezes estava o Arthur Moreira Lima, eu, o Egbert Gismonti, v\u00e1rios pianistas, o Andr\u00e9 Geraissatti \u2013tudo gente que gosta de m\u00fasica brasileira. N\u00f3s conversamos um dia sobre o choro brasileiro n\u00e3o poder ser sempre daquela mesma forma, mais primitiva. O pessoal que toca choro, se voc\u00ea observar bem, toca sempre do mesmo jeito, que era a maneira que o Jacob (do Bandolim) tocava. Os tradicionalistas usavam sempre as mesmas harmonias. Era a \u00e9poca de ouro do choro, imagina eu me metendo na vida deles (risos). Me lembro que na \u00e9poca mostrei para ele um choro do K-Ximbinho, \u201cEu Quero \u00c9 Sossego\u201d, com uma distribui\u00e7\u00e3o de harmonia diferente que eu tinha feito, e eles gostaram. Eu achava importante que houvesse essa renova\u00e7\u00e3o. E o Wagner Tiso, o Hermeto, fizeram umas coisas lindas. Lembra o \u201cChoro de M\u00e3e\u201d, do Wagner? Ent\u00e3o, fizeram coisas muito bonitas nesse per\u00edodo. Foi quando eu fiz esse choro que eu dediquei pro meu filho, que tinha nascido havia pouco tempo. Isso tudo \u00e9 coisa de mais de 40 anos atr\u00e1s, 50 anos, talvez. Mas ele ainda \u00e9, pra mim, uma boa representa\u00e7\u00e3o brasileira do choro, que \u00e9 um g\u00eanero que sempre esteve presente na obra desses eruditos brasileiros. Voc\u00ea pega desde o Ernesto Nazar\u00e9 at\u00e9 o Villa-Lobos, sempre uns choros muito bonitos, inclusive algumas pe\u00e7as para viol\u00e3o tamb\u00e9m; Eu achei que poder\u00edamos dar uma colher de ch\u00e1 para n\u00f3s, n\u00e9, e assinar como filhos do Villa tamb\u00e9m (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o \u201cDe Cora\u00e7\u00e3o\u201d, do Gabriel\u2026<\/strong><br \/>\nO Gabriel produz muita coisa, sempre. Ele me mandou umas m\u00fasicas dele assim j\u00e1 bem avan\u00e7adas. Entre elas, veio essa da\u00ed, que tem uma pegada de bossa nova, mais suave. Eu gostei muito dessa m\u00fasica, e a gente encontrou uma uma levada boa para ela, \u00e9 gostosa de tocar. A\u00ed l\u00e1 no concerto [de lan\u00e7amento], puxa, eu dei gra\u00e7as a Deus na hora que essa m\u00fasica entrou! (risos) Eu j\u00e1 tinha tocado duas ou tr\u00eas bem dif\u00edceis antes, eu fui falar com o p\u00fablico e n\u00e3o conseguia, n\u00e3o tinha nem g\u00e1s para falar (risos). Eu estava cansado, pensei: &#8220;Puxa, eu preciso tocar um uma balada, um refresco&#8221;. E essa m\u00fasica estava no programa. Eu falei: &#8220;\u00c9 essa que vai agora\u201d (risos). Porque voc\u00ea tem que pensar at\u00e9 nisso, n\u00e9? Esses compositores exigem uma performance e h\u00e1 um desgaste f\u00edsico \u2013 pelo menos no meu caso, um cara mais novo provavelmente tira isso de letra. Mas eu (aos 85 anos) j\u00e1 tenho que tomar um pouco de cuidado com isso. A \u201cDe Cora\u00e7\u00e3o\u201d traz um refresco que acho imprescind\u00edvel em uma apresenta\u00e7\u00e3o de m\u00fasica instrumental, sabe? O m\u00fasico tem que ter uma hora em que ele assenta a poeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sobre os compositores mais contempor\u00e2neos? Voc\u00eas optaram por n\u00e3o incluir nomes mais recentes?<\/strong><br \/>\nInclu\u00edmos sim \u2014 eu vejo o Guinga como um nome recente (sorri). Para mim, ele \u00e9 um representante importante dessa continuidade. Ele traz harmonias sofisticadas e uma linguagem pr\u00f3pria, mas ainda dialoga com essa tradi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m inclu\u00edmos Paulinho Nogueira, com \u201cBachianinha\u201d, que j\u00e1 no nome remete diretamente a Villa-Lobos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bachianinha n 1 (Paulinho Nogueira) | &quot; Os Filhos de Villa&quot; com Amilton Godoy e Gabriel Grossi .\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9GGQC3hgAsA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acredita que ainda existem caminhos inexplorados na obra de Villa-Lobos? Por exemplo, releituras em outros estilos, interpreta\u00e7\u00f5es mais el\u00e9tricas?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida. Ali\u00e1s, voc\u00ea t\u00e1 dando uma ideia bom para produzir um disco, hein? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom, em Bras\u00edlia, o projeto Esperando Rei Zula lan\u00e7ou um EP s\u00f3 com reinterpreta\u00e7\u00f5es reggae e ska da obra do Villa-Lobos, \u201cJamaichianas Brasileiras\u201d&#8230;<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sabia disso! Eu acho que o Villa-Lobos \u00e9 uma fonte infinita de pesquisa. Se voc\u00ea examinar cada obra dele, vai ver como ele foi pioneiro na na maneira de colocar as harmonias e as ideias musicais. Por exemplo, no nosso trabalho anterior, pegamos \u201cEstrela do C\u00e9u \u00c9 Lua Nova\u201d, que ele fez pra coral, e n\u00f3s fizemos, eu e Gabriel, um arranjo para gaita e piano. Aquilo originalmente \u00e9 para coral, mas \u00f4 m\u00fasica bonita! Voc\u00ea sabe que eu a toco no piano at\u00e9 hoje, e \u00e0s vezes eu toco em algum lugar onde todo mundo fica assim, \u201cp\u00f4, mas que m\u00fasica \u00e9 essa?\u201d \u00c9 t\u00e3o legal tocar aquilo no piano, porque o piano tem esse poder de s\u00edntese, voc\u00ea encontra o jeito de adaptar o sinf\u00f4nico para algo que voc\u00ea d\u00e1 um jeito de tocar com as duas m\u00e3os, entendeu? Ent\u00e3o, tem muita coisa ainda a ser pesquisada. Isso \u00e9 um recado para mim tamb\u00e9m, para outros colegas meus e para outros m\u00fasicos: por que n\u00e3o colocar outros tipos de instrumentos, eletrificar? Isso \u00e9 importante. Estou sempre atr\u00e1s de fazer m\u00fasica brasileira, desde a \u00e9poca do Zimbo Trio, estudar e descobrir outros jeitos. Agora, imagina a complexidade da obra do Villa-Lobos. Haja conhecimento para voc\u00ea poder mexer, saber que escala usar\u2026 Ent\u00e3o, tem muito a ser pesquisado, muito a ser experimentado, mas quem se propor a isso precisa buscar o conhecimento compat\u00edvel com a obra com que eles v\u00e3o trabalhar para n\u00e3o descaracterizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mudando um pouco de tema: voc\u00ea tem mais de sete d\u00e9cadas de carreira e acompanhou muitas transforma\u00e7\u00f5es no mercado musical. Hoje, com o acesso facilitado \u00e0 m\u00fasica, voc\u00ea acha que a aprecia\u00e7\u00e3o ficou mais f\u00e1cil ou mais dif\u00edcil?<\/strong><br \/>\nVivemos uma fase de transi\u00e7\u00e3o constante. O acesso \u00e9 maior, mas existe o risco de perdermos nossa identidade. Muitas vezes, confundimos \u201cm\u00fasica feita no Brasil\u201d com \u201cm\u00fasica brasileira\u201d \u2014 e n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. H\u00e1 muita gente boa no Brasil fazendo m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 brasileira, a levada n\u00e3o \u00e9 brasileira, as ra\u00edzes harm\u00f4nicas n\u00e3o est\u00e3o dentro daquilo que n\u00f3s temos. A m\u00fasica brasileira conquistou seu espa\u00e7o internacional por causa da sua originalidade, especialmente com a bossa nova. Isso n\u00e3o pode ser perdido. E um caminho para que isso n\u00e3o se perca \u00e9 educa\u00e7\u00e3o musical. Sem isso, n\u00e3o existe forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico. As pessoas t\u00eam que ser incentivadas a estudar um instrumento. Est\u00e1 mais do que provado que isso faz bem pra alma, pra cabe\u00e7a. Ouvir e tocar faz bem pras pessoas. Voc\u00ea n\u00e3o imagina o quanto: liga uns circuitos, umas conex\u00f5es novas entre os neur\u00f4nios, porque voc\u00ea tem que coordenar um monte de coisa. Daqui a pouco n\u00f3s temos a\u00ed uma intelig\u00eancia artificial que vai estar fazendo tudo, mas o sentimento \u00e9 algo que s\u00f3 n\u00f3s, humanos, temos. A intelig\u00eancia artificial pode melhorar a base, mas como \u00e9 que ela vai improvisar, interpretar? Quando se tem educa\u00e7\u00e3o musical, a gente melhora o n\u00edvel da plateia. Melhorando o n\u00edvel da plateia, essa plateia n\u00e3o vai engolir qualquer coisa. E essa plateia que saiu de l\u00e1, que estudou, n\u00e3o aceita essas coisas. n\u00e3o vai querer s\u00f3 ficar fazendo gin\u00e1stica num palco. A m\u00fasica, principalmente quando \u00e9 instrumental, ela tem um mundo l\u00e1 dentro. Se voc\u00ea come\u00e7a a entrar naquele mundo, voc\u00ea come\u00e7a a sentir aqui (aponta para o cora\u00e7\u00e3o) uma coisa diferente, que voc\u00ea passa pra plateia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra encerrar, eu queria falar algo que eu considero not\u00e1vel, e n\u00e3o por uma quest\u00e3o de etarismo, longe disso. Mas voc\u00ea est\u00e1 com 85 anos. E ainda est\u00e1 se expondo, procurando novas formas de express\u00e3o. Est\u00e1 com novos e antigos parceiros, o Gabriel mesmo \u00e9 um parceiro de longa data, mas de outra gera\u00e7\u00e3o, com outras refer\u00eancias. Mesmo quando revisita o passado, voc\u00ea faz de um jeito diferente.<\/strong><br \/>\n(risos) Sim. Eu boto a cara pra bater, \u00e9 assim que se fala?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A pergunta nem \u00e9 bem uma pergunta. \u00c9 mais essa constata\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea n\u00e3o se conforma com o papel que a sociedade relegaria para voc\u00ea, ou com as expectativas do seu p\u00fablico.<\/strong><br \/>\nEu prefiro ser como eu sou. Porque tenho que estar bem em paz comigo mesmo. Fico me questionando o que \u00e9 que eu tenho que fazer, querendo saber o que mais posso entregar. Eu t\u00f4 conseguindo fazer coisas com essa idade, e ainda estou se eu perguntasse pro Alt\u00edssimo porque eu ainda estou aqui. Por alguma raz\u00e3o deve ser, entendeu? Eu sei que existe uma raz\u00e3o maior para todos n\u00f3s. Estamos num processo de evolu\u00e7\u00e3o. Eu quero que o meu esp\u00edrito continue sendo enriquecido por verdadeiras propriedades, n\u00e3o pela mat\u00e9ria que eu vou deixar. Eu tenho que voltar pro lugar da onde vim melhor do que quando cheguei.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Os Filhos de Villa\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_n21QC9wkrCEYFc1vly7D55_hL4puhAWMU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e<\/em><em>\u00a0autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/o-evangelho-segundo-odair-censura-igreja-e-o-filho-de-jose-e-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de Jos\u00e9 e Maria<\/a>\u201c. A foto que abre o texto \u00e9 de Giulliana Dias.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Godoy e Grossi pin\u00e7aram sete can\u00e7\u00f5es da \u201cprole\u201d de Heitor Villa-Lobos, coisas de Tom e Vinicius, Guinga e Aldir Blanc, Egberto Gismonti, Mauricio Einhorn e Durval Ferreira, Johnny Alf e Paulinho Nogueira \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/21\/amilton-godoy-ha-muita-gente-boa-no-brasil-fazendo-musica-que-nao-e-brasileira\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":95875,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4833,3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95872"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95872"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95872\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95876,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95872\/revisions\/95876"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95875"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}