{"id":95786,"date":"2026-05-15T00:01:17","date_gmt":"2026-05-15T03:01:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=95786"},"modified":"2026-05-14T16:13:34","modified_gmt":"2026-05-14T19:13:34","slug":"cinema-undertone-talvez-seja-o-filme-mais-assustador-que-ja-se-ouviu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/15\/cinema-undertone-talvez-seja-o-filme-mais-assustador-que-ja-se-ouviu\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Undertone&#8221; talvez seja o filme mais assustador que j\u00e1 se ouviu"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 \u00e9 mais do que can\u00f4nica a inspira\u00e7\u00e3o que Geezer Butler, membro fundador do Black Sabbath, credita ao cinema de terror dos anos 1950 e 1960 para a atmosfera funesta, sombria e sutilmente perigosa que sua banda experimentou criar \u2013 por consequ\u00eancia, lan\u00e7ando m\u00e3o da pedra angular do heavy metal. Mais do que isso: em sua biografia, \u201cInto The Void\u201d, o baixista elabora a inten\u00e7\u00e3o de canalizar, no som, a mesma sensa\u00e7\u00e3o amedrontadora que o cinema de terror conjurava nas telas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que quase sessenta anos tenham passado, pode-se dizer que o g\u00eanero finalmente internalizou uma proposta parecida. Afinal, uma coisa ficou bem clara desde o in\u00edcio da divulga\u00e7\u00e3o do horror canadense \u201cUndertone\u201d \u2013 do estreante Ian Tuason \u2013 que debutou em festivais no ano passado, para ganhar exibi\u00e7\u00f5es nos EUA em Mar\u00e7o de 2026 e chegar, agora, ao VOD: o longa-metragem, distribu\u00eddo pela A24, mira abertamente em proporcionar uma experi\u00eancia na qual o que se ouve \u00e9 t\u00e3o importante quanto aquilo que se v\u00ea. E, muitas vezes, ainda mais importante. Com um elenco impressionante de t\u00e3o enxuto, sem contar com grandes nomes e dispondo de escolhas est\u00e9ticas que contribuem para um aspecto (sempre) claustrof\u00f3bico e (\u00e0s vezes) surreal, \u201cUndertone\u201d \u00e9 um projeto com um objetivo muito bem definido. E acerta seu alvo mais do que erra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evy (Nina Kiri) \u00e9 uma jovem que enfrenta um verdadeiro inferno pessoal: o de servir como cuidadora da m\u00e3e (Michele Duquet), uma mulher em coma. O \u00fanico salvaguardo da mo\u00e7a \u00e9 o podcast \u201cThe Undertone\u201d, que ela apresenta junto ao amigo Justin (Adam DiMarco), com quem se comunica \u00e0 dist\u00e2ncia. Focado em relatos sobrenaturais, o programa encontra um novo t\u00f3pico instigante quando este \u00faltimo recebe um e-mail an\u00f4nimo, com um texto sem qualquer sentido aparente, e com dez arquivos de \u00e1udio em anexo. \u00c9 quando os dois co-apresentadores (e sua audi\u00eancia) passam a ser testemunhas auditivas daquilo que inicia como grava\u00e7\u00f5es corriqueiras do sono de um casal, para depois se revelar como o registro de macabros eventos. Em paralelo a isso, e compelida a desmentir o que acredita ser uma farsa, a c\u00e9tica Evy come\u00e7a a buscar por mensagens ocultas por tr\u00e1s de can\u00e7\u00f5es infantis \u2013 e se depara com enigmas mais sinistros do que poderia esperar. Algo relacionado ao perturbador caso que seu podcast procura desvendar e, para sua surpresa, com seu pr\u00f3prio drama pessoal, que agora se transforma gradualmente em tormento particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-95789\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/undertone3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/undertone3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/undertone3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a quantidade reduzida de int\u00e9rpretes envolvida em \u201cUndertone\u201d poderia dar pano para a manga do ceticismo, qualquer d\u00favida \u00e9 prontamente desarmada logo nos primeiros minutos do filme: expressiva, Nina Kiri exala versatilidade, com sua Evy transitando entre momentos de pleno auto-controle e p\u00e2nico descontrolado. Assim, a atriz comanda seu tempo de tela de modo \u00edmpar, interagindo com o espa\u00e7o insular da casa que sua personagem habita com a mesma naturalidade demonstrada em suas cenas com a m\u00e3e da jovem podcaster. Embora n\u00e3o apare\u00e7a efetivamente, no entanto, Adam DiMarco tamb\u00e9m se faz presente na pele (e na voz) de um Justin ao mesmo tempo deslumbrado e est\u00e1vel, mostrando o mesmo n\u00edvel de dedica\u00e7\u00e3o que trouxe destaque ao ator na segunda temporada da s\u00e9rie \u201cThe White Lotus\u201d. Ainda que quaisquer outras participa\u00e7\u00f5es sejam limitadas a apari\u00e7\u00f5es auditivas pontuais, o senso de envolvimento na trama tem, atrav\u00e9s do foco certeiro em sua protagonista e em seu drama pessoal, um dos principais alicerces para seu \u00eaxito enquanto obra de horror.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro alicerce tem a ver \u2013 como n\u00e3o? \u2013 com o uso magistral do som. Entre a sutileza de alinhar o uso de barulhos incidentais com ilumina\u00e7\u00e3o ambiente e a min\u00facia de preservar o car\u00e1ter d\u00fabio nas grava\u00e7\u00f5es transmitidas pelo podcast, o maior acerto do planejamento auditivo e est\u00e9tico de Ian Tuason e equipe est\u00e1 em deixar o suficiente para a imagina\u00e7\u00e3o do espectador. Ao inv\u00e9s de se amparar em truques baratos a fim de mascarar resolu\u00e7\u00f5es pouco satisfat\u00f3rias de roteiro apenas para jogar a tarefa de interpreta\u00e7\u00e3o nas costas de sua audi\u00eancia, o diretor opta por incorporar mitologias existentes no mundo real em servi\u00e7o da pr\u00f3pria hist\u00f3ria, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Assim, o longa nunca parece buscar ser mais do que poderia (ou deveria) ser, mantendo o foco na narrativa de sua personagem central e apenas fazendo refer\u00eancia a elementos externos quando estritamente necess\u00e1rio. Mesmo o aprofundamento da hist\u00f3ria pregressa dos personagens existe, aqui, no que diz respeito diretamente \u00e0 narrativa que est\u00e1 sendo contada, e ouvida. Tudo isso faz com que seja ainda mais lastim\u00e1vel o n\u00e3o-lan\u00e7amento de \u201cUndertone\u201d aos cinemas brasileiros: a profundidade de uma produ\u00e7\u00e3o como esta seria infinitamente mais palp\u00e1vel (e aterrorizante) com uma capacidade maior de som.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Undertone (2026) | A24 | Trailer Legendado\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Epz-aSIli58?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande carta na manga desta produ\u00e7\u00e3o, no entanto, \u00e9 saber lan\u00e7ar m\u00e3o de elementos t\u00e9cnicos de maneira inventiva sem nunca tirar o foco do aspecto pessoal, quase intimista, da narrativa. Tuason j\u00e1 falou sobre como a experi\u00eancia de cuidar dos pais, que sofreram de c\u00e2ncer terminal em meados de 2020, acabou influenciando na feitura do roteiro e na caracteriza\u00e7\u00e3o da personagem central. As escolhas e rompantes emocionais de Evy no filme, embora por vezes dolorosos de testemunhar, dificilmente suscitam outra coisa sen\u00e3o a empatia de quem j\u00e1 se viu em posi\u00e7\u00e3o semelhante: se deparar com uma situa\u00e7\u00e3o que escapa ao controle, e se ver impotente diante da ineg\u00e1vel natureza da mortalidade s\u00e3o, afinal, elementos inerentes \u00e0 experi\u00eancia humana, seja agora ou em qualquer outro momento do passado. N\u00e3o fosse pelos esperados elementos sobrenaturais, \u201cUndertone\u201d poderia facilmente passar como um drama dos mais instigantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 raro ver, nos dias atuais, o termo \u201cp\u00f3s-horror\u201d sendo jogado de um lado para o outro \u2013 especialmente no que diz respeito \u00e0s produ\u00e7\u00f5es lan\u00e7adas e distribu\u00eddas pela A24. Se o est\u00fadio se tornou sin\u00f4nimo de qualidade e inventividade (embora ocasionalmente divisivo), por outro lado, suas incurs\u00f5es no g\u00eanero do cinema \u201cde medo\u201d s\u00e3o, n\u00e3o raro, marcadas por projetos nos quais elementos aterrorizantes, e especialmente sobrenaturais, acabam sendo subvertidos em prol da explora\u00e7\u00e3o dos rinc\u00f5es mais in\u00f3spitos da psiqu\u00ea humana. Desde tempos imemoriais, filmes de terror s\u00e3o (re)conhecidos como portais por meio dos quais espectadores podem se deparar com os vislumbres mais horripilantes da imagina\u00e7\u00e3o humana. \u201cUndertone\u201d se sobressai, tal qual v\u00e1rios outros lan\u00e7amentos contempor\u00e2neos, ao sublinhar a audi\u00e7\u00e3o, este instinto t\u00e3o primitivo, como a principal janela para um tipo diferente de terror \u2013 atmosf\u00e9rico, intimista e imprevis\u00edvel \u2013 com resultados \u00edmpares. O cinema de terror, tal qual os filmes que cativaram Geezer Butler e muitos outros, \u00e9 historicamente apontado como um dos catalisadores para o medo do escuro; o principal legado de \u201cUndertone\u201d, agora e nos anos que se seguir\u00e3o, \u00e9 salientar, provocar ou mesmo despertar um outro tipo de medo: o do sil\u00eancio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-95787 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/undertone2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"937\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/undertone2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/undertone2-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>\u2013\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4cfQaQO-YD4\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4cfQaQO-YD4\">,<\/a>\u00a0tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A grande carta na manga da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 saber lan\u00e7ar m\u00e3o de elementos t\u00e9cnicos de maneira inventiva sem nunca tirar o foco do aspecto pessoal, quase intimista, da narrativa.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/15\/cinema-undertone-talvez-seja-o-filme-mais-assustador-que-ja-se-ouviu\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":95788,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[8222],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95786"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95786"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95786\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95790,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95786\/revisions\/95790"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95788"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95786"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95786"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95786"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}