{"id":95744,"date":"2026-05-13T10:59:33","date_gmt":"2026-05-13T13:59:33","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=95744"},"modified":"2026-05-13T11:01:36","modified_gmt":"2026-05-13T14:01:36","slug":"entrevista-marcelo-cabral-fala-sobre-ramal-disco-solo-sem-contrabaixo-e-muitos-amigos-pelo-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/13\/entrevista-marcelo-cabral-fala-sobre-ramal-disco-solo-sem-contrabaixo-e-muitos-amigos-pelo-caminho\/","title":{"rendered":"Entrevista: Marcelo Cabral fala sobre \u201cRamal\u201d, disco solo sem contrabaixo e muitos amigos pelo caminho"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/amusicadofabio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fabio Machado<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A essa altura, o nome de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/cabralha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Cabral<\/a> n\u00e3o \u00e9 estranho para quem acompanha os movimentos da m\u00fasica brasileira nos \u00faltimos vinte anos. O contrabaixista e produtor n\u00e3o apenas foi parte essencial do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/03\/17\/passo-torto-ao-vivo-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Passo Torto<\/a> &#8211; em parceria com R\u00f4mulo Fr\u00f3es, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci &#8211; , mas tamb\u00e9m tocou e gravou com nomes t\u00e3o diversos como Met\u00e1 Met\u00e1, Criolo, Gui Amabis, Thiago Fran\u00e7a, Ju\u00e7ara Mar\u00e7al, Elza Soares e Lurdez da Luz (e essa \u00e9 a vers\u00e3o reduzida do curriculum).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se os graves do contrabaixo s\u00e3o o cart\u00e3o de visita mais conhecido de Cabral, seu trabalho solo mais recente tem como principal caracter\u00edstica a aus\u00eancia do instrumento. \u201c<a href=\"https:\/\/found.ee\/marcelocabral_ramal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ramal<\/a>\u201d (2026, YB Music) tem como base riffs de guitarra e levadas de bateria numa sonoridade instigante, que remete tanto \u00e0s primeiras influ\u00eancias punk\/hardcore como \u00e0s sonoridades mais vanguardistas que permeiam a vida e a discografia do instrumentista paulistano. De tradicional, \u201cRamal\u201d s\u00f3 tem a produ\u00e7\u00e3o, feita de forma anal\u00f3gica e com poucos takes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, Cabral assumiu as guitarras e vocais e chamou Biel Basile (O Terno) para compor o formato garageiro. Nas letras, contou com mais ajudantes de peso como Kiko Dinucci, R\u00f4mulo Fr\u00f3es, Fernando Catatau e Negro L\u00e9o, al\u00e9m de Sophia Chablau &#8211; que tamb\u00e9m canta em temas como \u201cQuem Vem me Acudir\u201d, \u201cO Her\u00f3i Vai Cair\u201d e \u201cSex S\u00edmbolo\u201d. A variedade de letristas garante uma paisagem l\u00edrica variada e et\u00e9rea, enquanto os instrumentos mant\u00eam tudo bem amarrado ao ch\u00e3o. Vale lembrar que o show de lan\u00e7amento do disco acontece no Sesc Pomp\u00e9ia(SP) dia 28\/5 &#8211; <a href=\"https:\/\/www.sescsp.org.br\/programacao\/marcelo-cabral-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ingressos aqui<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que leva um contrabaixista que gosta de tocar seu instrumento (e tamb\u00e9m de expandir os limites do mesmo, a exemplo do trabalho feito em \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/04\/06\/entrevista-romulo-froes-fala-sobre-boneca-russa-um-disco-de-separacao-de-luto-de-perda-de-derrota-de-frustracao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Boneca Russa<\/a>\u201d com R\u00f4mulo Fr\u00f3es) preferir a guitarra em um trabalho solo? Nesta entrevista feita para o Scream &amp; Yell por chamada de v\u00eddeo, Marcelo Cabral explica os caminhos para a constru\u00e7\u00e3o de \u201cRamal\u201d &#8211; que por incr\u00edvel que pare\u00e7a tamb\u00e9m passa pelo <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Test\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Test<\/a>, outro grande combo de guitarra-bateria do subterr\u00e2neo brasileiro. Confira a entrevista a seguir.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Marcelo Cabral - Ramal\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PL8EaHn_WNh-08D4OiAvvWgWRfx6k3fpc6\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sei que voc\u00ea toca outros instrumentos e j\u00e1 explorou outras sonoridades em trabalhos anteriores, mas acho que a maioria das pessoas conhece voc\u00ea pelo som do contrabaixo &#8211; seja ac\u00fastico ou el\u00e9trico &#8211; com muitos artistas que voc\u00ea j\u00e1 acompanhou. Ent\u00e3o, o que te levou a deixar os graves de lado dessa vez e trabalhar nesse formato de guitarra, bateria e voz no \u201cRamal\u201d?<\/strong><br \/>\nA guitarra foi o meu primeiro instrumento. Eu nunca fui aquele moleque que toca desde pequenininho, mas eu tinha uma guitarra, e tocava um pouquinho, assim, ouvia muito&#8230; Eu ouvia praticamente s\u00f3 punk e rock. Foi uma coisa de moleque, minha inf\u00e2ncia inteira foi dentro do skate, competia e tal. A guitarra \u00e9 o instrumento forte ali desse universo, que sempre me acompanhou, mesmo eu n\u00e3o tocando, mas ela (continuava) na minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed, depois, quando parei de competir nos campeonatos (de skate), em 1990, mais ou menos, comecei a tocar mais, e voltei pra guitarra. Em 1994, decidi ser m\u00fasico, entrei numa escola super legal, todo mundo tocava l\u00e1, e eu s\u00f3 tocava guitarra e viol\u00e3o. Depois de um tempo l\u00e1 dentro da escola, (o professor) falou: \u201cCara, pega o baixo ali\u201d.\u00a0 Eu j\u00e1 tinha tirado umas coisinhas (no baixo) s\u00f3 de curioso. E ele falou: \u201cCara, voc\u00ea tem um neg\u00f3cio com o baixo, segue com ele\u201d. E eu fui empurrando os dois, levando\u2026 de repente, tamb\u00e9m tinha um baixo ac\u00fastico l\u00e1, comecei a me experimentar com ele. Mais pra frente fui estudar com um franc\u00eas, o Thibault (Delor), e mergulhei muito no baixo ac\u00fastico. Foi o instrumento que eu estudei na minha vida. Mas (com) a guitarra sempre junto: a guitarra, o viol\u00e3o, todos juntos. Depois, o sintetizador, e fui aprendendo a produzir, fui produzindo intuitivamente na minha cabe\u00e7a. Depois, (trabalhando) com outras pessoas, voc\u00ea vai aprendendo com as experi\u00eancias dos outros, vendo como cada um trabalha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a guitarra e o viol\u00e3o &#8211; principalmente o viol\u00e3o &#8211; era meio onde nasciam as composi\u00e7\u00f5es, sabe? Voc\u00ea falava assim: \u201cAh, vou fazer uma m\u00fasica\u201d. A\u00ed, naturalmente, eu pegava o viol\u00e3o e vou cantarolando alguma coisa, vou criando uma m\u00fasica, crio um peda\u00e7o, uma introdu\u00e7\u00e3o, ou \u00e0s vezes s\u00f3 um pedacinho de um acorde ou dois, e falo: \u201cAh, isso aqui t\u00e1 legal, vou registrar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a pandemia, eu estava ali querendo come\u00e7ar a levantar um disco como se fosse uma continua\u00e7\u00e3o do \u201cMotor\u201d, meu primeiro disco, que s\u00e3o as (primeiras) composi\u00e7\u00f5es que quis gravar, tinha elas no computador. Na \u00e9poca, eu n\u00e3o tinha nem inten\u00e7\u00e3o de fazer show. Depois, fui me experimentando, comecei a cantar todas. No disco tem um monte de participa\u00e7\u00e3o. (Mas) Eu falei: \u201cAh, vou experimentar cantar, mudar o tom, ver se elas ficam legais\u201d. Fui curtindo isso pra caramba e pensei: \u201cVou fazer meu show, acho que vai ser legal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed (no per\u00edodo da pandemia), eu estava come\u00e7ando a fazer j\u00e1 isso, meio que uma continua\u00e7\u00e3o do \u201cMotor\u201d, com um estilo de can\u00e7\u00e3o, harmonia, melodia, fazendo uns arranjos, produzindo em casa. E de repente, me bateu: \u201cN\u00e3o, eu quero fazer um disco de guitarra, estou com m\u00f3 saudade de tocar guitarra\u2026\u201d. Saudade mesmo, de voltar a ligar a guitarra no amplificador, pisar no fuzz. J\u00e1 estava experimentando um monte de coisas, j\u00e1 era uma coisa que estava vindo. Mas eu j\u00e1 estava fazendo o show do \u201cMotor\u201d mais el\u00e9trico, j\u00e1 vinha fazendo esse show sem o viol\u00e3o, eu, Gui Held (fazendo) guitarras e a Maria Beraldo nos sopros, clarone e clarinete. Eu estava curtindo cada vez mais isso, mas pensei: \u201cAh, j\u00e1 que vou em busca das m\u00fasicas na guitarra, ent\u00e3o vou compor na guitarra\u201d. E fui fazendo umas m\u00fasicas, intuitivamente, e fui fazendo elas praticamente todas numa regi\u00e3o do grave, acho que por j\u00e1 querer que sa\u00edssem umas levadas mais pesadas, sabe? Ca\u00e7ando elas, n\u00e3o assim, uns acordezinhos no agudo, uma coisa que normalmente na guitarra voc\u00ea vai mais pra esses lugares, desse registro m\u00e9dio e agudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu fui com elas pro grave eu falei: \u201cCara, j\u00e1 est\u00e1 soando m\u00f3 bem, est\u00e1 legal aqui, eu sozinho\u201d, e eu estava muito pr\u00f3ximo do Biel (Basile, baterista) nos \u00faltimos anos, atrav\u00e9s do Sessa e de um monte de coisa que a gente tem feito junto. Falei pra ele: \u201cCara, vamos ver se de repente rola de ser s\u00f3 n\u00f3s dois. Vai ser guitarra e bateria, e \u00e9 isso, porque \u00e9 uma coisa cerebral. Eu acho que vai dar certo e vai ser legal&#8221;. Meto o grave na guitarra, at\u00e9 aprendi depois um neg\u00f3cio com o Kiko (Dinucci), est\u00e1vamos vendo um show do Test, que o Jo\u00e3o (Kombi), o guitarrista do Test, ele liga a sa\u00edda da guitarra num ampli de guitarra e outro de baixo. Ent\u00e3o o de baixo \u00e9 a guitarra, mas \u00e9 pesada, gorda. Pensei: \u201cAcho que vai dar certo\u201d. E deu super certo. Eu estava at\u00e9 aberto a gravar com o Biel, levantar (as m\u00fasicas) ali, e se a m\u00fasica estiver pedindo um baixo aqui, eu gravo o baixo, ou chamo algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas come\u00e7ou a ficar muito legal sendo n\u00f3s dois, ter um espa\u00e7o, a guitarra pesada do jeito que eu queria, e ele tamb\u00e9m, que \u00e9 um cara que&#8230; n\u00e3o s\u00f3 toca pra caralho, mas que tem uma intelig\u00eancia tocando. E vir nesses lugares de acompanhar, sendo guitarra e bateria, como fazer disso a maneira mais quente ali, que n\u00e3o fique assim: &#8220;p\u00f4, t\u00e1 faltando um baixo a\u00ed, n\u00e9?&#8221; Ent\u00e3o come\u00e7ou a rolar bem e a gente seguiu, mas sempre aberto, e de repente ficou uma certeza: \u201dCara, acho que al\u00e9m de tudo ainda vai dar um show super legal\u201d. Tipo, n\u00f3s dois, (um formato que) vai dar conta, vai ser divertido, f\u00e1cil de tocar por a\u00ed, e vai ter uma autenticidade legal tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Marcelo Cabral - Ar\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/f9U2o4oWkho?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Legal, eu n\u00e3o esperava essa conex\u00e3o com o Test, mas faz sentido. Voc\u00ea falou do Biel, e ouvindo o disco d\u00e1 pra perceber logo de cara que o \u201cRamal\u201d \u00e9 um disco onde tem esse elemento r\u00edtmico bem importante ali, n\u00e3o s\u00f3 na bateria dele, mas tamb\u00e9m nos riffs de guitarra, na sua voz, tem os padr\u00f5es r\u00edtmicos ali. Era uma coisa que voc\u00ea j\u00e1 tinha em mente quando come\u00e7ou a trabalhar nos temas?<\/strong><br \/>\n\u00c9, sabe quando voc\u00ea j\u00e1 vai\u2026 (pausa) Por exemplo, no \u201cMotor\u201d eu ia buscando umas harmonias, uns encadeamentos, espontaneamente arpejando [<em>nota do redator: arpejo \u00e9 uma sequ\u00eancia de notas referente a um acorde, portanto \u201carpejar\u201d seria o ato de tocar esses arpejos<\/em>] para achar uns caminhos mel\u00f3dicos, harm\u00f4nicos, assim, bonitos. Na guitarra, eu j\u00e1 estava querendo exatamente o oposto. E a\u00ed, consciente mesmo, fui ca\u00e7ar uma levada assim, tipo (a m\u00fasica) \u201cAr\u201d. [<em>come\u00e7a a cantarolar o riff inicial da m\u00fasica<\/em>] \u201cTchugumd\u00e9gudumgarumgudum\u2026\u201d Foi uma coisa meio &#8220;deixa eu ver o que que sai\u201d e ficou legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui separando umas coisinhas. (Outra can\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum) \u201cQuem vem me Acudir\u201d: [cantarola o riff inicial] \u201cP\u00e9m! P\u00e9m! P\u00e9m-p\u00e9m-p\u00e9m!\u201d Tipo, n\u00e3o \u00e9 nem um acorde amontoado, que eu seguro as notas tudo junto. O que importa \u00e9 a primeira (nota) do grave que d\u00e1 o [<em>cantarola de novo, enfatizando as notas graves<\/em>] \u201cP\u00e9m! P\u00e9m! P\u00e9m-p\u00e9m-p\u00e9m!\u201d O resto \u00e9 uma ma\u00e7aroca pra pesar mesmo. Fui indo atr\u00e1s exatamente disso, de j\u00e1 buscar esse movimento de cara na m\u00fasica, e n\u00e3o depois querer trazer isso, sabe? J\u00e1 nascer disso da\u00ed, assim, do movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m do Biel, eu vi que a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/16\/sophia-chablau-a-gente-devia-ter-um-debate-mais-aprofundado-sobre-os-caminhos-da-musica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sofia Chablau<\/a> \u00e9 a presen\u00e7a mais constante no disco. Ela foi coautora da m\u00fasica\u201dSex S\u00edmbolo\u201d e tamb\u00e9m colaborou em outras can\u00e7\u00f5es. Como surgiu essa parceria?<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 tinha escutado o disco dela e meio na \u00e9poca que ela lan\u00e7ou esse \u00faltimo (\u201cM\u00fasica do Esquecimento\u201d, de 2023) com a (banda) Uma Enorme Perda de Tempo, fiquei super f\u00e3. Falei: \u201cP\u00f4, essa menina \u00e9 demais&#8221;. A\u00ed fui gravar com a Yma e o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/04\/15\/fernando-catatau-o-cidadao-instigado-e-quem-me-chamou-de-volta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">(Fernando) Catatau<\/a> e ela estava l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a gente ficou como aquelas amizades que&#8230; \u00e9 meio raro, mas \u00e0s vezes voc\u00ea fica amigo pra caramba em cinco minutos da pessoa, sabe. Tem algumas pessoas que acontecem isso. E ficamos: \u201cP\u00f4, a gente precisa fazer alguma coisa, n\u00e3o sei o qu\u00ea\u201d, \u201c\u00c9, p\u00f4, j\u00e1 j\u00e1 vai aparecer\u201d. A\u00ed surgiu o disco do (Felipe) Vaqueiro. N\u00e3o lembro se ela j\u00e1 tinha gravado a voz comigo (antes), mas foi uma coisa meio tudo junto e come\u00e7aram a surgir coisas, porque voc\u00ea quer que aconte\u00e7a alguma coisa que est\u00e1vamos fazendo juntos. Ela me mostrou uma m\u00fasica nova. Come\u00e7amos a ficar amigos de parceria, trocar ideia, rolou uma abertura de um com o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu tinha na minha cabe\u00e7a que queria uma voz que abrisse essas (minhas) melodias, assim, na ponta, algo que a voz feminina d\u00e1. Mas eu queria uma mina, e uma roqueira, sabe? Esse registro agudo (da voz), mas de algu\u00e9m que j\u00e1 \u00e9 dessa linguagem, que n\u00e3o precisa explicar nada. S\u00e3o inten\u00e7\u00f5es, n\u00e9? N\u00e3o adianta voc\u00ea falar pra uma pessoa que \u00e9 de um outro rol\u00ea que &#8220;aqui \u00e9 mais forte, aqui \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o mais\u2026 sei l\u00e1, mais profunda&#8221;, que \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 a da pessoa, n\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Sofia, no que eu a conheci, pensei: \u201cPronto, achei a pessoa que eu queria pra gravar as vozes\u201d. E junto estava toda essa coisa j\u00e1 vindo ali, do disco do Felipe Vaqueiro com ela (&#8220;Handycam&#8221;, de 2025) e ela gravando no meu, e depois a gente come\u00e7ou a fazer um monte de coisa juntos. A\u00ed j\u00e1 falei: \u201cTenho uma m\u00fasica aqui, posso te mandar?\u201d E ela: \u201cL\u00f3gico\u201d. Fui l\u00e1 na casa dela, depois ela veio aqui, mostrei como estava o processo. E ela se tornou parceira e amiga, entrou pro som de uma maneira f\u00e1cil.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Marcelo Cabral - Quem Vem Me Acudir (feat. Sophia Chablau)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tj4Lh35VWQI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muito bom. E al\u00e9m dela, temos outros convidados neste trabalho, muita gente que voc\u00ea j\u00e1 conhecia de outros tempos como Fernando Catatau, Kiko Dinucci, Romulo Fr\u00f3es, Negro L\u00e9o, Rodrigo Campos, Alice Coutinho e Douglas Germano. Voc\u00ea j\u00e1 tinha visualizado nesses convites qual m\u00fasica seria mais interessante pra cada um colocar a sua contribui\u00e7\u00e3o ou foi algo mais org\u00e2nico?<\/strong><br \/>\nTanto no \u201cMotor\u201d quanto nesse (novo \u00e1lbum), eu normalmente componho e deixo as m\u00fasicas respirarem. A\u00ed dou um play e fico escutando, porque eu n\u00e3o fa\u00e7o letra. E deixo brotar quem eu acho que teria a ver com aquele universo. Tipo, a do Catatau. Eu j\u00e1 estava com \u201cTarde Azul\u201d pronta fazia algum tempo. Eu fui assistir o Catatau numa temporada que ele fez no Centro da Terra (em S\u00e3o Paulo), ele estava l\u00e1 toda segunda-feira. E a\u00ed, assistindo, eu falei: \u201cP\u00f4, aquela m\u00fasica minha \u00e9 do Catatau, pronto, vou mandar pra ele&#8221;. N\u00e3o tinha a menor d\u00favida que era pra ele letrar aquele ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o resto foi exatamente dessa mesma forma. Quando eu estava fazendo \u201cQuem Vem Me Acudir\u201d, n\u00e3o era \u201cQuem Vem Me Acudir\u201d (ainda), era s\u00f3 uma melodia com a guitarra. Falei: \u201cCara, isso aqui o Negro L\u00e9o vai conseguir fazer um neg\u00f3cio legal\u201d. E a\u00ed sempre vem algo que voc\u00ea n\u00e3o espera. Voc\u00ea n\u00e3o sabe que brisa que vai bater na pessoa, de assunto. (Deixei) em aberto, n\u00e3o falei nada pra ningu\u00e9m: \u201cP\u00f4, essa daqui \u00e9 a cara do Kiko, essa daqui \u00e9 a cara do Rodrigo Campos, essa daqui acho que \u00e9 do Romulo, essa daqui \u00e9 da Alice Coutinho\u201d&#8230; Deixei para ver o que que vinha, espontaneamente, sabe?\u00a0 Algo que \u00e0s vezes voc\u00ea n\u00e3o consegue explicar direito.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Marcelo Cabral - O Hero\u0301i Vai Cair (feat. Sophia Chablau)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xZoneE2_ByI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Frank Zappa - Peaches En Regalia (Visualizer)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FoYdeEDdtK4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tenho uma pergunta que \u00e9 mais uma curiosidade porque quando fui ouvir, eu achei muito semelhante: A m\u00fasica \u201cO Her\u00f3i Vai Cair\u201d tem uma introdu\u00e7\u00e3o com uma virada de bateria que achei muito parecida com \u201cPeaches em Regalia\u201d do Frank Zappa, que tamb\u00e9m tem essa id\u00e9ia da introdu\u00e7\u00e3o da bateria e depois j\u00e1 entra no tema. Provavelmente foi s\u00f3 uma coincid\u00eancia, mas existe alguma conex\u00e3o? E aproveitando a pergunta, voc\u00ea teve alguma refer\u00eancia de outros artistas nessa m\u00fasica ou em outros temas do disco?<\/strong><br \/>\nA gente carrega as influ\u00eancias que ouvimos desde crian\u00e7a, n\u00e9? De tudo que a gente imaginar, vai ficando nos nossos ouvidos. E tem \u00e9poca que voc\u00ea est\u00e1 ouvindo alguma coisa mais loucamente ali no repeat, algum disco, algu\u00e9m que voc\u00ea est\u00e1 pirando, aquilo l\u00e1 vai ficar mais presente e tal. Mas, tipo, esse som que voc\u00ea falou do Zappa, eu nem sei qual que \u00e9. S\u00e3o coincid\u00eancias da m\u00fasica e da arte que est\u00e3o por a\u00ed, uma virada (de bateria) e cai na levada, \u00e9 uma levada que \u00e9 um ritmo, uma levada que existe, \u00e1 a\u00ed no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m foi um outro processo, como eu gosto muito de pensar com calma. Uma \u00e9poca eu estava: \u201cCara, quem que eu vou chamar pra gravar?\u201d J\u00e1 havia pensado no Biel, obviamente, mas tamb\u00e9m tinha pensado em chamar v\u00e1rios bateristas. \u201cEssa daqui \u00e9 mais a cara de n\u00e3o sei quem, vou chamar n\u00e3o sei quem\u2026\u201d E falei: \u201cN\u00e3o, acho que s\u00f3 o Biel vai ser legal pra caralho\u201d, porque a gente estava fazendo muita coisa (juntos), eu vendo ele mandando muito bem em tudo quanto \u00e9 tipo de onda, sempre dentro do estilo dele, com uma pegada dele, mas uma pessoa muito vers\u00e1til.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed tamb\u00e9m foi legal que eu cheguei l\u00e1 com ele, e j\u00e1 estava com as m\u00fasicas prontas &#8211; letra, melodia, mapa, o que repete. N\u00e3o (algo) preso\u2026 \u201c\u00d3, se quiser, vamos repetir seis vezes aqui, cada um, vamos tocar\u201d. Mas eu n\u00e3o falei nada pra ele, nenhuma m\u00fasica. Falei: \u201c\u00d3, tem essa daqui, \u00f3\u201d [cantarola de novo o riff de \u201cQuem Vem me Acudir\u201d] ou puxava uma outra. \u00c1s vezes falava assim: \u201cEssa daqui tem uma cara meio\u2026\u201d tipo \u201cCompanheiro Estelar\u201d com o Rodrigo (Campos), meio que poderia ser o nascer de um samba, alguma coisa assim. Mas falei: \u201cAcho que ela tem uma coisa que pode ficar com um temperinho meio latino, de alguma maneira\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, sabe? \u00c0s vezes s\u00f3 uma coisa assim, mas n\u00e3o falava: \u201cQuero que voc\u00ea fa\u00e7a isso, a refer\u00eancia \u00e9 essa, vamos p\u00f4r isso, vamos tentar fazer algo bem na onda\u201d. N \u00e3o foi por ai. Acho que \u00e9 uma coisa que enriquece quando voc\u00ea j\u00e1 conhece a pessoa: \u201cVou chamar tal saxofonista porque \u00e9 dessa onda, ele vai chegar, vai apavorar\u2026\u201d J\u00e1 ajuda muito pro neg\u00f3cio crescer. Ent\u00e3o, com ele foi a mesma coisa. Mas n\u00e3o levei nada que eu colocasse uma diretriz. Conhe\u00e7o muito bem ele (Biel), n\u00e3o sabia o que ele ia fazer, o que \u00e9 mais legal ainda. Estava em aberto, mas sabendo ali no dia-a-dia, tocando com ele, que ia vir coisa boa da\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 veio coisa maravilhosa. Acabava de tocar e ele levantava e eu falava: \u201cPorra, Biel, foda!\u201d Toda m\u00fasica que terminava, eu falava isso. \u201cCaralho, muito bom, muito bom. Vamos gravar? Vamos gravar\u201d. E j\u00e1 emendando para meio que outro assunto da grava\u00e7\u00e3o. A gente levantava, tocava um pouco: \u201cPorra, t\u00e1 legal pra caralho, hein? Ser\u00e1 que a gente j\u00e1 n\u00e3o grava?\u201d T\u00e1, ent\u00e3o j\u00e1 vamos gravar. E j\u00e1 ia assim, quente, sabe? N\u00e3o fizemos dez ensaios, depois grava\u00e7\u00e3o\u2026 A gente j\u00e1 foi j\u00e1 meio conhecendo as m\u00fasicas, tocando \u00e0 vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Montava a m\u00fasica e da\u00ed voc\u00eas dois j\u00e1 gravavam juntos ali na hora, \u00e9 isso? E voc\u00eas gravaram de forma anal\u00f3gica, na fita, em vez de ser no digital, certo?<\/strong><br \/>\nIsso. O Biel e o Sessa t\u00eam um est\u00fadio juntos, e a\u00ed o Sessa tem esse gravador de rolo que \u00e9 demais e que tem uma textura muito espec\u00edfica, muito bonita. Tamb\u00e9m tem uma coisa que a fita j\u00e1 leva voc\u00ea a n\u00e3o fazer dez, quinze takes. Fica ali, tipo, dois, tr\u00eas takes\u2026 a pr\u00f3xima m\u00fasica, n\u00e3o sei, acabou o rolo. O pr\u00f3ximo rolo, n\u00e3o tem. N\u00e3o est\u00e1vamos no Abbey Road, n\u00e9, pra voc\u00ea ficar gravando rolos e rolos de uma m\u00fasica s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, foi tudo coisa que veio pra um lado bom, at\u00e9 pela experi\u00eancia que a gente j\u00e1 tinha (tendo) gravado dois discos l\u00e1, os dois do Sessa, esses dois \u00faltimos, gravado mais umas outras coisas tamb\u00e9m, da Anelis\u2026 J\u00e1 tinha gravado um monte de coisa em fita, a\u00ed falei: \u201cCara, eu acho que vai ficar legal em fita isso da\u00ed \u201c. Porque a fita tem uma saturada e um \u201cquente\u201d que ela n\u00e3o clipa, n\u00e3o estoura, d\u00e1 uma compactada, uma comprimida natural dela, de uma maneira quente. Em vez de estourar, o que iria no digital fazer aqueles barulhinhos chatos, assim, que voc\u00ea n\u00e3o quer, na fita isso da\u00ed vai pra um lugar legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agora, falando tamb\u00e9m sobre as parcerias, mas n\u00e3o s\u00f3 no caso do \u201cRamal\u201d. Queria falar um pouco sobre o \u201cBoneca Russa\u201d, que hav\u00edamos comentado um pouco antes da entrevista come\u00e7ar. Tive a oportunidade de conversar com o R\u00f4mulo e vi voc\u00eas l\u00e1 na Casa de Francisca, e acho que fica bem claro que voc\u00ea \u00e9 uma parte integral do trabalho, ainda que a hist\u00f3ria seja do R\u00f4mulo. Gostaria que voc\u00ea dividisse um pouco como foi a sua abordagem nesse \u00e1lbum, em rela\u00e7\u00e3o aos arranjos de contrabaixo ac\u00fastico e uso de efeitos.<\/strong><br \/>\nQuando <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/04\/06\/entrevista-romulo-froes-fala-sobre-boneca-russa-um-disco-de-separacao-de-luto-de-perda-de-derrota-de-frustracao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ele me falou de fazer o disco s\u00f3 n\u00f3s dois<\/a>, j\u00e1 de cara achei como se estivessen me dando um presente. Falei: \u201dPorra, vai ser legal pra caralho\u201d. Porque eu adoro, fico criando aqui, estou com uma ideia j\u00e1 faz um tempinho de fazer um disco s\u00f3 de baixo ac\u00fastico, eu sozinho. Ent\u00e3o, eu j\u00e1 tenho essa pira com baixo ac\u00fastico h\u00e1 muitos anos e (\u00e9 algo) profundo, de ficar experimentando coisas nele, passando por filtros, objetos, vendo o que eu posso tirar de sons diferentes, meio brincando, como se fosse uma coisa meio de crian\u00e7a. \u201cEsse aqui com esse aqui, ah, esse aqui \u00e9 legal, \u00e9, esse aqui mais ou menos\u2026\u201d e somando coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele (R\u00f4mulo) veio com o viol\u00e3o no primeiro dia que fizemos (as m\u00fasicas do disco), ficamos ensaiando aqui em casa nesse quartinho que \u00e9 o meu est\u00fadio\u2026 (ele) tocava um pouco s\u00f3 pra eu entender a m\u00fasica, sabe? Tipo: \u201cSol menor, ah t\u00e1, tararam tararam, pronto, acabou\u201d. S\u00f3 pra ficar com ela na cabe\u00e7a. A\u00ed eu j\u00e1 falava: \u201cAgora, fica sem o viol\u00e3o porque a\u00ed eu vou soltar aqui pro lugar que eu quiser\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu fiquei com uma coisa assim: \u201cCara, como esse disco tem esse tema todo, eu vou por um movimento nele\u201d. N\u00e3o vai ser uma aberra\u00e7\u00e3o (risos) porque o tema j\u00e1 \u00e9 na voz dele, nas letras, as melodias e as harmonias j\u00e1 s\u00e3o dele. Ent\u00e3o pensei: \u201cAcho que eu j\u00e1 vou ir tentando\u201d. E tamb\u00e9m, como a gente tem uma abertura boa, acho que ele j\u00e1 veio pensando em mim, querendo que eu quebrasse isso. De novo, tipo, eu n\u00e3o fui na dele em nenhuma, assim, desrespeito absoluto (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Romulo Fro\u0301es - Vaso ruim\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iEjf_B93xSM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sem uma preocupa\u00e7\u00e3o com a harmonia original ou com a forma?<\/strong><br \/>\n\u00c9, (mas) com a harmonia meio que era, tipo, se \u00e9 F\u00e1 sustenido, Si com sexta e tal, eu respeitei isso, s\u00f3 que abrindo (os arranjos) do meu jeito e me desconectando do ritmo que ele puxou, do andamento e da inten\u00e7\u00e3o que ele puxou. Fiz assim: \u201cAh, pera\u00ed, que acho que eu pensei numa coisa\u201d, e a\u00ed, tipo, est\u00e1 s\u00f3 dentro do tom dele. O resto eu fui e falei: \u201cEu acho que vai ficar legal, que que voc\u00ea est\u00e1\u2026 (achando)\u201d? A\u00ed fu\u00e7ando, \u201cAh, legal isso aqui\u201d. Aquela primeira (\u201cA Hora M\u00e1gica\u201d) que come\u00e7a com o arco, espontaneamente fui falar: \u201cAcho que vai ser um neg\u00f3cio legal, um arco aqui meio cortante\u201d e ele falando (as letras), n\u00e3o exatamente uma coisa assim andando a harmonia, s\u00f3 uma coisa assim: [cantarola o in\u00edcio da m\u00fasica]. Meio indo nas inten\u00e7\u00f5es dele, como ele quisesse. Teve uma onda ali que a gente foi muito comprando a do outro assim, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eu que fui super jogando pra onde eu achava que seria legal. De brotar pra n\u00e3o ter o perigo tamb\u00e9m, porque o tema j\u00e1 \u00e9 denso, de n\u00e3o ficar um neg\u00f3cio assim, tudo meio pra tr\u00e1s e carregado, sen\u00e3o o disco teria que ter cinco m\u00fasicas (risos). A pessoa j\u00e1 acabou com a pessoa assim (risos). J\u00e1 cortou os pulsos assim, n\u00e9? Mas eu fiquei pensando tamb\u00e9m e falei: \u201cT\u00e1, agora j\u00e1 veio pra c\u00e1, ent\u00e3o vou tentar um neg\u00f3cio miudinho no arco\u2026\u201d Mais cerebral, no sentido de ficar tentando passar a perna em mim mesmo. \u201cAgora eu vou tentar jogar o neg\u00f3cio l\u00e1 pra frente\u201d, ent\u00e3o, com os baixos, socar aqui uma baqueta aqui\u2026 Teve v\u00e1rias coisas que eu nunca tinha feito, que vem da vontade: \u201cPrecisa de uma outra coisa, pera\u00ed\u201d. [Faz onomatop\u00e9ias como se estivesse batucando no contrabaixo] Taca, taca, tucaca, tucaca, taca, taca, taca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiquei ca\u00e7ando ritmos diferentes ali e tamb\u00e9m j\u00e1 estava pensando em fazer de uma maneira que, do (mesmo) jeito que a gente grava, j\u00e1 est\u00e1 pronto o show, n\u00e9? Porque depois, no est\u00fadio, eu poderia fazer 10 takes de baixo, a\u00ed um outro arco, a\u00ed n\u00e3o sei o que. Depois, o disco vira um neg\u00f3cio gigante e no show voc\u00ea fala: \u201cPutz\u2026\u201d. O que eu vou poder fazer, n\u00e9? O que que eu consigo fazer sozinho e que tenha um drive legal assim, uma engrenagem boa pra cada m\u00fasica? \u201cAgora aqui vamos se enterrar nas profundezas, ent\u00e3o vamos pro arco, nem na n\u00e9voa ali\u201d. Brincando com v\u00e1rias paisagens&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 legal ter esse pensamento do ao vivo tamb\u00e9m, me parece que \u00e9 uma cabe\u00e7a tamb\u00e9m de produtor sua, certo? N\u00e3o s\u00f3 pensar na parte de executar, mas tamb\u00e9m como tudo isso vai soar l\u00e1 na hora?<\/strong><br \/>\nSim, acho que espontaneamente voc\u00ea j\u00e1 vai carregando essas coisas. A\u00ed voc\u00ea fala: bom, j\u00e1 tem uma \u201cfortona\u201d, ent\u00e3o essa daqui vai ser mais pra c\u00e1, aqui uma circular, agora eu vou fazer um negocinho bem meio caixinha de m\u00fasica na \u201cOlga\u201d (faixa do disco em homenagem \u00e0 filha de R\u00f4mulo), sabe? [imita os sons iniciais da m\u00fasica] pim, tim, tim, tim, tim, tim, tim, uma coisa assim, sabe? Fiquei pensando nela e ela foi pra esse lado, e assim a gente foi criando cada uma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom, estamos chegando ao final do tempo da entrevista, mas voltando ao \u201cRamal\u201d: voc\u00eas fizeram um primeiro ensaio no Mam\u00e3e Bar tocando as m\u00fasicas do disco, certo? Tem mais shows previstos com essa forma\u00e7\u00e3o? Qual a expectativa para mostrar esse trabalho ao vivo?<\/strong><br \/>\nAh, tem sim. Estamos indo atr\u00e1s agora dos shows, vai ter um lan\u00e7amento no Sesc, em 28 de maio. Mas vai ter mais, com certeza. Marcar shows, lembrando de lugares pelo Brasil, conectando todo mundo, estou super afim de fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A apresenta\u00e7\u00e3o do Mam\u00e3e Bar j\u00e1 foi super legal pra testar o show e falar: pronto, era isso. Feliz pra caralho, deu certo, o Biel (na bateria), o repert\u00f3rio que eu estava na cabe\u00e7a est\u00e1 rolando, vai ter a Sofia tamb\u00e9m no show, mas n\u00e3o s\u00f3 participa\u00e7\u00e3o especial, ela vai estar na banda, fazendo guitarra e voz. Vamos criar mais ainda, eu quero p\u00f4r mais umas m\u00fasicas que estou terminando, ter mais umas in\u00e9ditas pra fechar um repert\u00f3rio inteiro novo. Fiquei experimentando umas m\u00fasicas antigas minhas, trazendo pra uma outra roupagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a\u00ed eu n\u00e3o estava curtindo e falei: \u201cAh, quer saber, vou fazer mais m\u00fasica nova\u201d. Ent\u00e3o, fiz mais umas novas tamb\u00e9m, que depois, mais pra frente, eu quero fazer um EP, sabe, com mais umas quatro (m\u00fasicas). Ent\u00e3o, j\u00e1 est\u00e1 quase tudo alinhado, vai rolar os shows, e a\u00ed vou vendo como as coisas v\u00e3o se desenrolando. Mas com certeza, para o show do lan\u00e7amento, mandei fazer um vinil, que eu espero muito que fique pronto (a tempo). Capaz que fique pronto logo mais, no come\u00e7o de maio, se tudo der certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para finalizar: se voc\u00ea pudesse elencar tr\u00eas trabalhos da sua discografia, seja solo ou como parte de outros projetos, quais seriam?<\/strong><br \/>\nOs tr\u00eas discos que pensei, de tr\u00e1s pra frente: um que \u00e9 bem forte aqui pra mim \u00e9 o \u201cPasso El\u00e9trico\u201d, o segundo \u00e1lbum do Passo Torto (de 2013). Que at\u00e9 tem esse neg\u00f3cio: no primeiro do Passo Torto era tudo ac\u00fastico, viol\u00f5es, cavaco e contrabaixo; a\u00ed, no \u201cPasso El\u00e9trico\u201d a gente eletrificou tudo &#8211; o Kiko foi pra guitarra, Rodrigo na guitarra e o baixo ac\u00fastico j\u00e1 estava com um monte de pedais. Um disco feito por n\u00f3s quatro (eu, R\u00f4mulo, Rodrigo e Kiko) e s\u00f3 com composi\u00e7\u00f5es nossas. Acho que \u00e9 a primeira vez que tem uma m\u00fasica minha, se n\u00e3o me engano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tem uma coisa muito especial, porque eu comecei a compor justamente por causa deles, por estar em tanto contato com eles, que s\u00e3o super compositores. Os caras comp\u00f5em pra caramba, alto n\u00edvel. E ao inv\u00e9s de eu ficar ressabiado, tipo: \u201cp\u00f4, nem vou compor, j\u00e1 t\u00f4 com os caras aqui\u201d, fui fazendo e eles foram me dando uma for\u00e7a, e quando eu vi j\u00e1 estavam nascendo as parcerias. Eu fui curtindo muito compor, e acabou entrando ali a \u201cIsaurinha\u201d, talvez mais uma, uma parceria com o Rodrigo. Mas eu canto em uma outra tamb\u00e9m, e eu nunca tinha cantado, gravado (em est\u00fadio)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, um outro que acho de 2014, \u00e9 um trabalho que eu produzi do Vicente Barreto, eu amo esse disco, chamado \u201cCambaco\u201d. Que s\u00e3o umas m\u00fasicas incr\u00edveis de lindas do Vicente. Eu no baixo, Rodrigo Campos de guitarra e Serginho Machado de bateria. Um disco incr\u00edvel, maravilhoso, o Vicente \u00e9 um super cantor e compositor. A gente nem tocou muito ele por a\u00ed, mas \u00e9 um disco que amo demais. E foi o primeiro disco que eu produzi sozinho &#8211; eu j\u00e1 tinha produzido o primeiro da Lurdez da Luz com o Daniel Bozzio, tinha feito o \u201cN\u00f3 na Orelha\u201d e o \u201cConvoque seu Buda\u201d do Criolo. Mas a\u00ed esse foi o primeiro que o Vicente me chamou e pediu para produzir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E um outro que eu tamb\u00e9m gosto demais, \u00e9 do MC Sombra, que se chama \u201cFant\u00e1stico Mundo Popular\u201d (de 2014). Esse eu produzi com o Daniel Bozzio, que \u00e9 um grande parceiro, a gente j\u00e1 fez muita coisa juntos na vida. Esse disco tem uma coisa que a gente ficou mais ou menos um ano produzindo. E a\u00ed ficava recortando samples, ficava uma tarde inteira s\u00f3 fu\u00e7ando beats, fazendo uns laborat\u00f3rios no est\u00fadio do Daniel, e o Sombra trazendo, finalizando m\u00fasicas, ele j\u00e1 tinha algumas. E a gente foi decupando esse disco nesse processo, e eu acho um disca\u00e7o. Fico muito feliz e honrado de ter feito, e tamb\u00e9m com um dos artistas que eu acho um dos maiores do mundo. Acho uma coisa descomunal o n\u00edvel do Sombra, de talento, de ideia, super aut\u00eantico\u2026 \u00e9 um dos grandes caras da hist\u00f3ria da m\u00fasica pra mim, um swing, um flow que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esse \u00e1lbum do sombra tem uma coisa luxuosa que \u00e9 a mixagem do Scotty Hard, que \u00e9 um cara de Nova Iorque muito foda. E v\u00e1rias participa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m. Fui fazendo, sampleando, produzindo os beats, e tamb\u00e9m chamando pra participar, igual o processo que eu te falei das m\u00fasicas (no \u201cRamal\u201d) que eu ficava vendo pra quem mandar as letras, nesse disco (do Sombra) eu pensava: \u201cAh, aqui vou chamar o Kiko Dinucci pra gravar guitarra\u201d. Ou fazia uma sess\u00e3o de percuss\u00e3o com o Maur\u00edcio Bad\u00e9\u2026 Fui chamando um monte de gente assim, quando j\u00e1 tinha uns esqueletos bons de cada m\u00fasica, uns beats j\u00e1 montados. \u00c9 um disco que gosto muito.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Passo Torto - Passo El\u00e9trico (Full Album)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/boaGz8FofYU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vicente Barreto - Cambaco - Full Album\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mRRy8Ni_SVk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sombra - Rap do Brasil\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QI4sGjsFiGg?list=PL7eyShCOjS_ZdZoEBlT_Gth1fRR4cChnN\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/amusicadofabio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fabio Machado<\/a>\u00a0\u00e9 m\u00fasico e jornalista (n\u00e3o necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills &amp; the Chase e outros projetos.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O que leva um contrabaixista que gosta de tocar seu instrumento (e de expandir seus limites) preferir a guitarra em um trabalho solo? Esse \u00e9 um dos temas dessa conversa!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/13\/entrevista-marcelo-cabral-fala-sobre-ramal-disco-solo-sem-contrabaixo-e-muitos-amigos-pelo-caminho\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":143,"featured_media":95750,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4833,3],"tags":[8220],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95744"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/143"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95744"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95744\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95752,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95744\/revisions\/95752"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95750"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}