{"id":95641,"date":"2026-05-06T04:58:55","date_gmt":"2026-05-06T07:58:55","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=95641"},"modified":"2026-05-05T23:02:47","modified_gmt":"2026-05-06T02:02:47","slug":"entrevista-fbc-fala-sobre-tambores-cafezais-fuzis-guaranas-e-outras-brasilidades-seu-novo-album-voltado-ao-rock","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/06\/entrevista-fbc-fala-sobre-tambores-cafezais-fuzis-guaranas-e-outras-brasilidades-seu-novo-album-voltado-ao-rock\/","title":{"rendered":"Entrevista: FBC fala sobre \u201cTambores, Cafezais, Fuzis, Guaran\u00e1s e Outras Brasilidades\u201d, seu novo \u00e1lbum voltado ao rock"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/homeropivottojr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Homero Pivotto Jr.<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto tem gente do pr\u00f3prio rock tentando matar o estilo, h\u00e1 artistas de outros segmentos dando f\u00f4lego ao g\u00eanero que popularizou a guitarra el\u00e9trica no s\u00e9culo passado. Vem de Minas Gerais um exemplo: o rapper <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fbctadoido\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">FBC<\/a>, que come\u00e7ou a fazer m\u00fasica tocando em bandas de rock e, em seguida, adotou o som do hip-hop para trabalhar sua verve pol\u00edtica. Estabelecido como representante do rap, ele retoma o gosto pela urg\u00eancia que aprendeu com o punk\/hardcore e aplica isso com a contund\u00eancia das rimas &amp; poesias no novo \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/onerpm.link\/tcfgob\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaran\u00e1s e Outras Brasilidades<\/a>\u201d (2026). Tocando com outros m\u00fasicos ao vivo desde 2023, FBC assume de vez a for\u00e7a est\u00e9tica do rock a servi\u00e7o do ide\u00e1rio progressista no novo trampo que chegou ao mundo em 1\u00ba de maio (Dia do Trabalhador) \u2013 data escolhida propositalmente para celebrar a efem\u00e9ride dedicada a quem est\u00e1 na batalha di\u00e1ria por sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O lan\u00e7amento aposta no peso das bases instrumentais tocadas organicamente, junto com um flow sagaz adaptado ao rock. Em 13 faixas. que somam pouco mais de 30 minutos, FBC costura andamentos hardcore, folclore das religi\u00f5es de matriz africana (na sonoridade e na tem\u00e1tica), groove, scratches e regionalismos (principalmente do norte brasileiro). Tudo a servi\u00e7o de cr\u00edtica e an\u00e1lise pol\u00edticas ferinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/onerpm.link\/tcfgob\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaran\u00e1s e Outras Brasilidades<\/a>\u201d une 10 can\u00e7\u00f5es autorais com tr\u00eas releituras do tamb\u00e9m mineiro Jo\u00e3o Bosco (\u201cG\u00eanesis\u201d, \u201cO Ronco da Cu\u00edca\u201d e \u201cTiro de Miseric\u00f3rdia\u201d), marcando a primeira vez que FBC revisita temas de outros compositores. A escolha das vers\u00f5es corrobora com a narrativa do disco, centrada em tr\u00eas atos que acompanham um ciclo de exist\u00eancia, do parimento \u00e0 cova \u2013 um intervalo que envolve ancestralidade, conflitos, labuta, desejos e opress\u00e3o. Cada elemento do t\u00edtulo tem um significado dentro do contexto que vive a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTambores representam a heran\u00e7a da di\u00e1spora africana; cafezais aludem \u00e0 luta pela terra, \u00e0 viol\u00eancia latifundi\u00e1ria; fuzis simbolizam o poder do Estado e de como ele massacra o povo pobre; e guaran\u00e1s indicam os povos origin\u00e1rios\u201d, explica FBC, em entrevista exclusiva ao Scream &amp; Yell por telefone.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro single \u201cBandido Bom\u201d \u2013 cujo refr\u00e3o sacramenta que \u201cbandido bom \u00e9 bandido preso\u201d, apoiado por uma segunda voz que refor\u00e7a insistentemente o bord\u00e3o \u201csem anistia\u201d \u2013 d\u00e1 o tom. Tamb\u00e9m \u00e9 dessa faixa, disponibilizada em 17 de abril (Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores do Campo), o trecho que n\u00e3o deixa d\u00favida sobre a vis\u00e3o atenta do cidad\u00e3o cujo nome de registro \u00e9 Fabr\u00edcio Soares Teixeira: \u201cveja de quem era a coca\u00edna no avi\u00e3o da FAB \/ As joias e armas de Abu Dhabi \/ Veja bem, veja bem, veja bem \/ Quantos esc\u00e2ndalos seu politico de estima\u00e7\u00e3o tem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu entrei no rap para fazer pol\u00edtica. E, hoje, tenho a comodidade de fazer o que eu gosto, de fazer o que eu quero. E pela atual conjuntura do pa\u00eds, beirando um per\u00edodo que vai ser muito triste para n\u00f3s que temos um pensamento mais progressista, pois estamos \u00e0 beira do fascismo, acredito que o rock tem a f\u00faria necess\u00e1ria para lutar contra a m\u00e1quina\u201d, afirma FBC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As participa\u00e7\u00f5es especiais no novo registro pontuam as inten\u00e7\u00f5es de seu autor: o conterr\u00e2neo Djonga destaca a veia rapper, enquanto a carioca MC Taya (conhecida pelo seu \u201cfock\u201d, mescla de funk com rock) enfatiza o crossover de sonoridades. Junto ao compositor e vocalista, nas grava\u00e7\u00f5es, est\u00e1 um time de m\u00fasicos competentes que se revezam em distintas fun\u00e7\u00f5es: guitarras (Baka e Daniel Souza), baixo (Baka, Nathan Morais, Daniel Souza e Davi Horta), bateria (Glauco Mendes e Matheus Ramos), percuss\u00e3o (Lenis Rino e Bino), Scratch (DJ Cost) e efeitos (Baka, DJ Cost e Lenis Rino).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo que segue, Fabr\u00edcio resgata sua forma\u00e7\u00e3o rocker, fala sobre o impacto do compromisso que \u00e9 o rap, esclarece suas prefer\u00eancias pol\u00edticas, analisa as pr\u00f3prias cren\u00e7as e, entre outros temas, adianta sobre um novo \u00e1lbum voltado ao ska no qual est\u00e1 trabalhando.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ou\u00e7a o \u00e1lbum na integra abaixo<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Album - TAMBORES, CAFEZAIS, FUZIS, GUARANAS E OUTRAS BRASILIDADES\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_magb-xfNkiMj2C8vGM84qkPF4TD5kFkgw\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu j\u00e1 vinhas apresentando um trabalho com banda completa ao vivo, mas agora assume de vez a est\u00e9tica rock (ainda que o rap siga como norte). Por que dessa escolha neste momento? E o que o p\u00fablico vai encontrar num trabalho mais rockeiro de um rapper?<\/strong><br \/>\nAssim, o FBC sempre foi roqueiro. Comecei no rap porque vi ali a oportunidade de fazer pol\u00edtica. Mas, desde meus 10 anos, eu tinha uma banda, toquei at\u00e9 meus 13 anos. Eram essas bandas de escola, de fundo de garagem. Eu tamb\u00e9m tocava bateria na renova\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica da igreja cat\u00f3lica. Ent\u00e3o, sempre fui do rock. Ali, com meus 13 ou 14 anos, descobri o qu\u00e3o era f\u00e9rtil o terreno do rap, o qu\u00e3o eu poderia ir longe e organizar minhas ideias e as pessoas que estavam ali comigo no movimento estudantil, nas lutas que eu participava no meu territ\u00f3rio \u2013 n\u00e3o sou de Belo Horizonte, e sim da regi\u00e3o metropolitana, da cidade de Santa Luzia. Ent\u00e3o, entrei no rap para fazer pol\u00edtica. E, hoje, tenho a comodidade de fazer o que eu gosto, de fazer o que eu quero. E pela atual conjuntura do pa\u00eds, beirando um per\u00edodo que vai ser muito triste para n\u00f3s que temos um pensamento mais progressista, pois estamos \u00e0 beira do fascismo, acredito que o rock tem a f\u00faria necess\u00e1ria para lutar contra a m\u00e1quina. A galera pode esperar o FBC de sempre: pol\u00edtico, contundente, uma pessoa que vai direto ao ponto, sempre radical e agora ainda muito mais revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cara, \u00e9 interessante tu falares isso porque o rock parece ter perdido, ao menos em parte, esse car\u00e1ter mais contestador. Muitos artistas antes vistos como conscientes est\u00e3o se mostrando conservadores. Tu achas que o rock ainda tem o potencial de ser sementinha revolucion\u00e1ria?<\/strong><br \/>\nEu acredito que o rock \u00e9 um g\u00eanero mais en\u00e9rgico, puxa para esse lado de extravasar, de roda punk, de voc\u00ea botar para fora o que est\u00e1 sentindo. (Mas) A coisa do pensamento neoliberal entrou em todos os g\u00eaneros. Foi algo, acredito, decorrente da coisa da digitaliza\u00e7\u00e3o, de a m\u00fasica ser mais virtual do que f\u00edsica. Sigo acreditando no rock hoje, porque s\u00e3o bolhas e bolhas. Nunca que o rock deixou de ter pessoas com esse pensamento libert\u00e1rio e revolucion\u00e1rio. A quest\u00e3o \u00e9 que se criaram bolhas e hoje \u00e9 dif\u00edcil de entender um g\u00eanero apenas por aquilo que chega para n\u00f3s, que \u00e9 vendido pelo algoritmo. Eu creio sim na energia do rock, na hist\u00f3ria do estilo, na pot\u00eancia que ele traz com a banda e na for\u00e7a que os shows apresentam. \u00c9 aquela coisa do bate-cabe\u00e7a, da roda punk. Pelo passado tamb\u00e9m, do p\u00f3s-guerra e de sempre ter sido um ritmo mais revolucion\u00e1rio. Venho com a linguagem mais punk, mais hardcore, pois a galera que fez m\u00fasica nessa linha tinha o pensamento mais libert\u00e1rio. Ent\u00e3o, penso que sim, que o rock pode resgatar as pessoas que est\u00e3o perdidas, que hoje n\u00e3o conseguem entender que arte \u00e9 pol\u00edtica em todos os seus \u00e2mbitos, em todas as suas nuances. Aposto que o rock pode ser essa fa\u00edsca para uma poss\u00edvel revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_95642\" aria-describedby=\"caption-attachment-95642\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-95642 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/sarcofago.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/sarcofago.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/sarcofago-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-95642\" class=\"wp-caption-text\"><em>As capas de &#8220;I.N.R.I&#8221;, do Sarc\u00f3fago, e de &#8220;S.C.A.&#8221;, de FBC<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conheci teu trabalho no primeiro \u00e1lbum \u201cS.C.A\u201d (2018), porque a capa emulava a foto do \u00e1lbum de estreia do Sarc\u00f3fago, o \u201cI.N.R.I\u201d (1987), primeiro CD que adquiri na vida. Esse disco da banda mineira de death\/black metal fomentou em mim, de alguma maneira, o lance do n\u00e3o conformismo. Mas, com o tempo, come\u00e7aram a circular informa\u00e7\u00f5es de que integrantes do grupo tinham um vi\u00e9s mais conservador. Enfim\u2026 aproveitando esse relato, gostaria de saber se a cena mineira de metal \u2013 encabe\u00e7ada pelo Sepultura, o pr\u00f3prio Sarc\u00f3fago, al\u00e9m de bandas como The Mist, Overdose, Holocausto, Sextrash e por a\u00ed vai \u2013 te influenciou de alguma maneira?<\/strong><br \/>\nSempre fui da linha mais punk. Do punk para o grunge. Quando comecei a visitar Belo Horizonte, ali por 2004, para curtir as cenas que aconteciam, isso j\u00e1 era coisa do passado. Essa movimenta\u00e7\u00e3o do rock j\u00e1 estava fria, j\u00e1 era mais protagonizada pelas bandas de pop rock, tipo Skank, Jota Quest, Patu Fu e Tianast\u00e1cia. Ent\u00e3o, fui mais da linha de bandas de garagem de Santa Luzia mesmo, que era puxado para o punk rock. A gente se encontrava para ouvir Garotos Podres, o vinil do Bad Brains, gostava de tocar Nirvana. Gost\u00e1vamos dessa coisa mais Sid Vicious e n\u00e3o curt\u00edamos tanto nomes como The Clash. Nosso neg\u00f3cio era mais bate-estaca. Eu comecei a me interessar por rock porque meus primos tinham uma banda de punk que se chamava Rockslides \u2013 eles eram skatistas. Assim, nosso rol\u00ea sempre foi mais esse, do punk ao ska. Inclusive, j\u00e1 estou fazendo meu pr\u00f3ximo \u00e1lbum que vai ser de ska.\u00a0Porque conversa muito com o punk. \u00c9 um estilo que tem a ver com coisas que a gente gosta de fazer, que \u00e9 beber cerveja, jogar bola, fumar um, andar de skate e namorar, t\u00e1 ligado? Claro, tamb\u00e9m abordar pol\u00edtica, a situa\u00e7\u00e3o do bairro. N\u00e3o tive muito contato com essa galera do metal n\u00e3o, mas a ideia da capa de \u201cS.C.A\u201d surgiu no contexto da cena rap mineira. Como o Djonga j\u00e1 estava bem dentro do mainstream no rap e fez a releitura da capa do Clube da Esquina (no disco \u201cHeresia\u201d, de 2018) pensamos assim: eu sou mais underground. Como ele pegou ali o Milton Nascimento, o Clube da Esquina, ent\u00e3o vou pegar o Sarc\u00f3fago, com a capa de \u201cI.N.R.I\u201d. A galera gostou muito, at\u00e9 hoje recebo elogio disso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"8. BANDIDO BOM - FBC, BAKA (feat. Daniel Souza, DJ Cost, Bino, Glauco Mendes)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jEkHQyLSYKU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pelo primeiro single de \u201c<a href=\"https:\/\/onerpm.link\/tcfgob\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaran\u00e1s e Outras Brasilidades<\/a>\u201d, deu para se ter uma no\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum como um todo. Nessa m\u00fasica de trabalho, chamada \u201cBandido Bom\u201d, a guitarra ganha destaque, com uma esp\u00e9cie de solo no meio da faixa, algo na pilha Rage Against the Machine. Isso segue nas outras composi\u00e7\u00f5es? (Nota: a entrevista foi realizada antes de o \u00e1lbum ser lan\u00e7ado).<\/strong><br \/>\nVejo a guitarra como a alma do rock. \u00c9 ela que traz peso e distor\u00e7\u00e3o. Quem assina as guitarras a\u00ed \u00e9 o Baka, que \u00e9 o produtor, trabalhou com o Rosa Neon (extinta banda pop belo-horizontina que, al\u00e9m de Baka, tinha em suas fileiras Luiz Gabriel Lopes, Mariana Cavanellas, Marina Sena e Marcelo Tofani) e ainda no \u00e1lbum da Gaby Amarantos (vencedor do Pr\u00eamio APCA de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/26\/apca-elege-os-melhores-de-2025-nas-artes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Melhor Disco de 2025<\/a> e, tamb\u00e9m, do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/20\/scream-yell-os-melhores-discos-nacionais-de-2025\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pr\u00eamio Scream &amp; Yell<\/a>). E as coincid\u00eancias dizem muito, j\u00e1 que o nome do disco da Gaby \u00e9 \u201cRock Doido\u201d (2025). Baka \u00e9 um cara que j\u00e1 ganhou Grammy e vem a\u00ed com algumas produ\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m na guitarra, sendo algumas tocadas pelo Daniel Souza. Quem assina a bateria \u00e9 o Glauco Mendes, que \u00e9 o baterista do Lagum, foi tamb\u00e9m da saudosa banda Tianast\u00e1cia e \u00e9 bem conhecido aqui na regi\u00e3o. Quem est\u00e1 mixando e masterizando \u00e9 o Marcelinho Guerra, que tamb\u00e9m \u00e9 um Grammy winner daqui da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a galera que trabalhou no \u00e1lbum est\u00e1 mais habituada dentro do conceito do que \u00e9 fazer rock, de como deve soar, como deve ser trabalhada a textura e tal. Estou muito feliz de ter feito um trampo totalmente org\u00e2nico, porque o rock \u00e9 visceral, e eu consegui fazer o \u00e1lbum dessa forma. \u00c9 o primeiro que eu sinto que tem essa carga viva, pesada e contundente do que \u00e9 estar sentindo-se pertencente \u00e0 uma cena. Acho que a galera do rock vai se sentir contemplada com o disco nesse momento do pa\u00eds. Precisamos muito de pessoas que quebrem essa l\u00f3gica neoliberal e n\u00e3o tenham medo de perder f\u00e3s ou patroc\u00ednio, que fa\u00e7am arte pela arte. N\u00e3o que a arte tenha algum compromisso com o artista, mas o artista tem que ter um compromisso com a arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ter uma banda vai na contram\u00e3o do padr\u00e3o para um artista como tu, que poderia excursionar s\u00f3 com DJ. Principalmente na quest\u00e3o financeira, j\u00e1 que envolve mais gente e, consequentemente, gera mais custos. Por que a op\u00e7\u00e3o por reunir esse um grupo de m\u00fasicos?<\/strong><br \/>\nAcredito no capital humano. Minha banda tem grandes mestres, e aprendo muito com eles, quero a cada dia estreitar essa rela\u00e7\u00e3o. \u00c9 a primeira vez que eles v\u00e3o participar de um \u00e1lbum meu em que eles come\u00e7am do in\u00edcio e fazem parte de todo o processo de produ\u00e7\u00e3o. S\u00e3o grandes mestres, merecem estar comigo, e eu mere\u00e7o estar com eles. Criamos uma sintonia bacana. Eles t\u00eam muito a me ensinar, e eu queria demais que eles pudessem aproveitar essa vitrine que v\u00e3o ter viajando comigo e que, mais e mais, pessoas conhe\u00e7am eles. S\u00e3o m\u00fasicos excelentes, respeitados e elogiados, por todos que v\u00eam me cumprimentar. Tanto o baterista, o baixista, o guitarrista, o saxofonista, que \u00e9 o grande maestro da banda, o Jackson Ganga. Vejo como time, sabe? Se estivesse pensando em dinheiro, eu continuaria fazendo \u00e1lbum de miami bass, j\u00e1 estaria no meu quinto \u00e1lbum nessa levada. Penso no futuro, que o horizonte da hist\u00f3ria vai julgar de forma correta e absoluta aqueles que fizeram pela arte e os que fizeram pelo hype, apenas pela quest\u00e3o de lucro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FBC - O Amor, o Perd\u00e3o e a Tecnologia Ir\u00e3o nos Levar para Outro Planeta (Full Album)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/04KsztuWNxQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 quanto tempo voc\u00eas est\u00e3o com esse conjunto?<\/strong><br \/>\nFoi 2023, quando eles participaram das grava\u00e7\u00f5es de \u201cO Amor, o Perd\u00e3o e a Tecnologia Ir\u00e3o nos Levar para Outro Planeta\u201d. Desde ent\u00e3o, estamos nesse casamento a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Saindo um pouco da parte instrumental para falar da l\u00edrica. Tuas letras deixam claro teu posicionamento pol\u00edtico, sendo que algumas juntam esse flow consciente com um apelo dan\u00e7ante \u2013 o que pode at\u00e9 parecer uma dualidade. Um exemplo \u00e9 \u201cPol\u00edcia Covarde\u201d, do EP \u201cBaile\u201d (2021). Esse mistura de consci\u00eancia e som que bate legal na pista \u00e9 intencional, pensada previamente?<\/strong><br \/>\nAs crian\u00e7as adoram essa. Isso \u00e9 muito louco. Acho que tudo vai do momento, porque sou uma pessoa que faz m\u00fasica primeiramente para mim. A idealiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em nenhum momento permeia o processo criativo. Crio porque quero escutar a m\u00fasica, adoro ouvir minhas composi\u00e7\u00f5es, viajar e colocar do meu primeiro CD at\u00e9 o \u00faltimo. Realmente componho para mim. A quest\u00e3o de conseguir fazer com que as pessoas ou\u00e7am \u00e9 porque acho que mere\u00e7o sim ganhar um dinheiro, dar uma condi\u00e7\u00e3o melhor para minha fam\u00edlia. Mere\u00e7o trabalhar com m\u00fasica. S\u00f3 que, quando penso na arte,\u00a0 foco em mim. N\u00e3o percebo isso como ego\u00edsmo, e sim como um compromisso com a arte. J\u00e1 que ela primeiro tem que fazer sentido na minha cabe\u00e7a, nos meus ouvidos, no meu corpo, no meu sangue, no meu cora\u00e7\u00e3o e nos meus ossos, sabe? Tamb\u00e9m na minha realidade, na circunst\u00e2ncia na qual eu vivo. Depois, coloco no mundo e comparo com a rea\u00e7\u00e3o das pessoas para ver se essas vozes da minha cabe\u00e7a fazem sentido ou n\u00e3o. N\u00e3o sou de nenhum g\u00eanero, n\u00e3o perten\u00e7o a nenhum lugar. Sou um prolet\u00e1rio e os prolet\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam p\u00e1tria. A na\u00e7\u00e3o do prolet\u00e1rio \u00e9 o mundo, s\u00e3o os trabalhadores do mundo. E para mim s\u00f3 existem dois tipos de m\u00fasica: a boa e a ruim. Gosto da boa, seja de qual estilo for. Ent\u00e3o, por isso que eu me sinto livre e com energia para fazer qualquer tipo de som em qualquer lugar, com qualquer tipo de pessoa, em qualquer tipo de ambiente. Para mim \u00e9 uma coisa bem natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Continuando na quest\u00e3o da poesia e do flow: quando te falei meu nome (Homero), tu comentaste sobre os livros \u201cIl\u00edada\u201d e \u201cOdiss\u00e9ia\u201d, o que indica interesse por literatura. Tu l\u00eas bastante?<\/strong><br \/>\nGosto de ler porque nascemos em um mundo onde temos de aceitar e conviver com v\u00e1rios acordos que foram feitos antes de n\u00f3s. Somos obrigados a falar uma l\u00edngua que a gente n\u00e3o escolheu, a viver num pa\u00eds com uma nacionalidade que n\u00e3o foi op\u00e7\u00e3o nossa\u2026 Enfim, tudo que nos \u00e9 entregue n\u00e3o foi decis\u00e3o nossa. Ent\u00e3o, o mundo nunca foi melhor nem nunca pior do que est\u00e1. Procuro sempre saber qual foi o ponto de vista, de partida do racioc\u00ednio, de quem veio antes de mim. Por isso que gosto de ouvir m\u00fasica, de ler livros, de conversar com as pessoas mais velhas, de ver filmes, de conhecer lugares hist\u00f3ricos e de viajar. Por isso que gosto de viver, cara. Entendendo o passado, podemos mudar o presente. E, fazendo isso, constru\u00edmos o futuro. Quero um futuro melhor para todo mundo. Desejo que as pessoas que cheguem depois de mim venham em um momento melhor, com circunst\u00e2ncias melhores, em um mundo melhor. E por isso que jamais vou deixar de estudar enquanto eu puder aprender, puder ler, tiver sa\u00fade para me interessar por coisas novas ou pensamentos que j\u00e1 foram perpetuados na hist\u00f3ria. Cara, eu amo filosofia, hist\u00f3ria geral, hist\u00f3ria da biologia, da geografia, da arquitetura, da m\u00fasica, do nosso pa\u00eds. Amo a hist\u00f3ria das pessoas, dos povos origin\u00e1rios. Sou apaixonado por curiosidades e cultura pop. Adoro conhecimento. Acho que estar vivo \u00e9 sentir a vida de fato, todo dia aprender algo novo. Sou do hip-hop, e isso significa n\u00e3o ficar parado, estudar, buscar conhecimento. \u00c9 a minha forma, a melhor forma, de n\u00e3o parar, de n\u00e3o estacionar e de estar em constante evolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que as minhas letras sempre trazem algo fresco, novo, em cada trabalho. A cada dia eu estou descobrindo e aprendendo coisas novas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pena que, infelizmente, a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem acesso a isso por falta de condi\u00e7\u00f5es. A pessoa vai l\u00e1, trabalha, \u00e0s vezes acorda 4h da manh\u00e3 para pegar um \u00f4nibus e estar no trabalho \u00e0s 8h. A\u00ed trampa 8 horas por dia, chega em casa 22h extremamente cansada. Que vontade vai ter de ler?<\/strong><br \/>\nSim, sem tempo nem para descansar. T\u00e1 a\u00ed a escala 6&#215;1 que a gente tem que lutar contra. O ser humano, o trabalhador, deve ter o direito de lazer, de descanso. Deve ter direito tamb\u00e9m a procrastinar, ter um dia de n\u00e3o fazer nada. O \u00f3cio tamb\u00e9m \u00e9 algo construtivo, que faz bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pegando o gancho dessa tua fala, que \u00e9 um posicionamento mais progressista, mais \u00e0 esquerda. Lembrei da tua filia\u00e7\u00e3o \u00e0 Unidade Popular pelo Socialismo (UP). S\u00e3o raros os artistas que se conectam diretamente a partidos pol\u00edticos e ainda fazem quest\u00e3o de tornar isso p\u00fablico. O que percebes como pr\u00f3s e contras de n\u00e3o deixar d\u00favida sobre de que lado est\u00e1s? Tipo, perde muito p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nAh, o p\u00fablico \u00e9 o de menos, sabe? O mais triste \u00e9 ver como as marcas se comportam diante de uma radicaliza\u00e7\u00e3o t\u00e3o expl\u00edcita do artista. Sobre o p\u00fablico, penso ser bom que aqueles que n\u00e3o se pareiam com esse pensamento retirem-se agora. Al\u00e9m disso, quero a cada dia estar mais perto de marcas que se preocupam com a natureza, com o bem-estar social, com minimizar os danos de tantos anos de explora\u00e7\u00e3o escravagista e tempo de patriarcado. Penso que mais marcas v\u00e3o surgindo com esse pensamento da quest\u00e3o social. Temos como exemplo a Kenner e a Xeque Mate, das quais sou embaixador. Elas me apoiam totalmente e estritamente em todos os meus posicionamentos e concordam com as minhas falas e as pautas que eu defendo. Acredito que o p\u00fablico \u00e9 o de menos, pois tem plateia tanto \u00e0 esquerda quanto \u00e0 direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema s\u00e3o as pessoas no muro, que se dizem apol\u00edticas. Essas s\u00e3o as piores, porque quem est\u00e1 em cima do muro sempre cai para a direita. E no primeiro momento que puder se mostrar, uma pessoa de car\u00e1ter d\u00fabio, ela vai exercer essa coisa nojenta que \u00e9 o fascismo, o racismo, o machismo, a xenofobia, a homofobia. Busco mais esse lugar \u00e0 esquerda, n\u00e3o da esquerda radical, mas da revolucion\u00e1ria, que realmente luta pela quebra do sistema, pelo fim do status quo. De negativo, tem a decep\u00e7\u00e3o com algumas entidades, marcas e pessoas que conseguem influenciar em certo n\u00edvel a sociedade. De aspectos positivos tem a galera que encontramos nessa luta e que enriquece mais os objetivos, que agrega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o pessoas com as quais converamos, debatemos e constru\u00edmos uma ideia e uma identidade do Brasil. Precisamos de um pa\u00eds mais justo, que respeita suas mulheres, que defende seus povos origin\u00e1rios e n\u00e3o serve s\u00f3 ao interesse dos pol\u00edticos de direita e \u00e0 burguesia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"10. OS PORCOS VEM A\u00cd - FBC, BAKA (part. DJ Cost, Glauco Mendes)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TrBvq96NJc0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E j\u00e1 chegaste ser atacado pessoalmente? Ou soube de algu\u00e9m que ouviu a tua m\u00fasica e mudou de uma opini\u00e3o mais fechada para algo mais libert\u00e1rio?<\/strong><br \/>\nV\u00e1rias pessoas j\u00e1 me disseram que em algum momento eu fui crucial para uma retomada do pensamento progressista, para uma identifica\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o sei se pode se dizer identit\u00e1ria \u2013 de ser poss\u00edvel achar o seu lugar no mundo. Sei que v\u00e1rias pessoas sentem o que a gente sente em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, mas elas precisam de algu\u00e9m que explique o que est\u00e1 acontecendo no cora\u00e7\u00e3o e na mente delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre agress\u00e3o, j\u00e1 tentaram me bater num show no Rio de Janeiro, em 2020 ou 2022, no Jockey Club. Me arremessaram garrafas, copos e ofenderam de tudo quanto \u00e9 palavr\u00e3o. Tentaram pular a grade para me agredir, mas rapidamente j\u00e1 fui retirado do palco, encaminhado para a van e levado ao hotel. Mas n\u00e3o tenho muito medo disso. Costumo dizer que o artista, s\u00e9rio e compromissado com a arte, n\u00e3o tem que pensar em agradar ningu\u00e9m. N\u00e3o tem como entreter todo mundo, agradar gregos e troianos. Em nossa caminhada e constru\u00e7\u00e3o art\u00edstica, vamos criar inimigos. E o inimigo n\u00e3o pode ser o seu semelhante, o seu igual, as pessoas que est\u00e3o com o barco na mesma dire\u00e7\u00e3o que o seu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inimigos s\u00e3o aqueles contr\u00e1rios ao que voc\u00ea acredita, como racistas, burgueses, os que acreditam que o Brasil \u00e9 constru\u00eddo para os brancos, as pessoas que creem que os portugueses libertaram os ind\u00edgenas de uma situa\u00e7\u00e3o de barb\u00e1rie. Se for para fazer inimigos, que sejam os reacion\u00e1rios, os conservadores, aqueles que fazem a f\u00e9 de muleta e que a usam para enganar o povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como que tu come\u00e7aste a forjar esse teu posicionamento mais \u00e0 esquerda? Tu j\u00e1 moraste em ocupa\u00e7\u00e3o, pelo que vi em entrevistas tuas.<\/strong><br \/>\n\u00c9 algo que me acompanha desde a adolesc\u00eancia. Como te disse: entrei no rap para fazer pol\u00edtica, n\u00e3o entrei para a pol\u00edtica para fazer rap. Eu n\u00e3o me filiei ao UP para angariar mais p\u00fablico, mas sim porque \u00e9 um movimento natural. Eu j\u00e1 deveria ter feito isso h\u00e1 tempos, nos quatro anos e meio em que morei na ocupa\u00e7\u00e3o da UP. N\u00e3o me filiei antes porque n\u00e3o tinha tempo, nem sa\u00fade mental e f\u00edsica para isso. Entretanto, hoje tenho. Pensamento \u00e9 assim: o objeto observado est\u00e1 em constante movimento. E nessa const\u00e2ncia, a gente vai aprendendo diariamente. \u00c9 um movimento natural essa filia\u00e7\u00e3o ao UP. Esse pensamento, racioc\u00ednio e posicionamento \u00e9 uma coisa que est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o. A cada dia eu estou construindo mais e mais minha base intelectual e de como eu acho que as coisas devem ser levadas. De como eu devo gerir minha carreira e quais atitudes tomar, de que forma eu devo me comportar com a minha arte, sabe? Acredito que a cada dia eu vou refinando essa ideia, atingindo e apontando para lugares onde vai ser mais assertiva a conduta. Acredito que foi uma atitude acertada me filiar a UP. Eu busquei no partido n\u00e3o um palanque, mas sim um lugar onde eu possa estar com as pessoas semelhantes a mim, que acreditam nas coisas que eu acredito, que t\u00eam condutas e comportamentos parecidos com o meu. Isso ajuda a criar um grande campo de estudo para que eu possa aprender diariamente mais sobre a luta prolet\u00e1ria, a luta camponesa, a luta oper\u00e1ria, a luta dos estudantes, a luta dos trabalhadores em geral. Para que a minha arte se torne mais libert\u00e1ria e revolucion\u00e1ria, porque o povo oprimido precisa de um norte. As pessoas sentem a revolta de trabalhar seis dias e descansar um, de dar sua vida no trabalho e receber pouco. As pessoas s\u00f3 precisam de algu\u00e9m que explique, que verbalize, ilustre de uma forma que elas possam entender \u2013 que n\u00e3o seja uma linguagem totalmente acad\u00eamica, mas tamb\u00e9m que n\u00e3o seja uma linguagem baseada apenas no senso comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pode-se dizer que as tuas letras t\u00eam mais de autobiogr\u00e1fico ou de observa\u00e7\u00f5es tuas do cotidiano ao redor?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma colcha de retalhos. Tem a minha experi\u00eancia, intelig\u00eancia e o meu saber emp\u00edrico. Por\u00e9m, tamb\u00e9m tem conhecimento dos manuais te\u00f3ricos de todo o meu estudo e de como eu pego essa compreens\u00e3o e a trago para o cotidiano, para circunst\u00e2ncias do dia a dia, e como eu fa\u00e7o a cr\u00edtica e como eu trabalho meu pensamento cr\u00edtico sobre a realidade. N\u00e3o posso deixar de dizer que, grande parte do que eu escrevo, baseia-se na minha experi\u00eancia. Acho que a minha intelig\u00eancia, a minha pr\u00e1tica de vida diz muito no fim desse processo criativo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FBC - Assaltos e Batidas (O Curta)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ljr2Ioyp6Ec?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pergunto por que, por exemplo, com o \u00e1lbum \u201cAssalto e Batidas\u201d saiu um curta, de mesmo nome, no qual podemos identificar viv\u00eancias que uma parcela da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 acostumada (viol\u00eancia e explora\u00e7\u00e3o social, por exemplo).<\/strong><br \/>\nO curta \u00e9 baseado na minha comunidade, em hist\u00f3rias que a gente ouve e tamb\u00e9m nas que acontecem em todas as comunidades. Mas com um detalhamento de um corte mais te\u00f3rico, mais aprofundado na teoria marxista e na luta dos trabalhadores. Fazemos esse paralelo entre a luta organizada e a luta do dia a dia, no senso comum do trabalhador, do que ele vive na realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando no \u00e1lbum anterior: nesse registro h\u00e1 samples de Racionais. Foi pedida autoriza\u00e7\u00e3o dos caras? Como tem a situa\u00e7\u00e3o de que o D2 usou refer\u00eancia ao quarteto rapper paulista sem avisar previamente e eles n\u00e3o gostaram, fiquei com essa curiosidade.<\/strong><br \/>\nO Coyote (um dos produtores de \u201cAssaltos &amp; Batidas\u201d) conhece a galera dos Racionais, ent\u00e3o a gente acionou eles. Acho que o primeiro contato foi ainda no processo de produ\u00e7\u00e3o e rolou tranquilo. Teve um acordo e foi de boa a gente poder trabalhar usando sample deles. Sou favor\u00e1vel a ter essa comunica\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 uma propriedade intelectual deles. E ainda tem a hist\u00f3ria e a grandeza dos Racionais que temos de respeitar sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu cresceste bastante desde que come\u00e7ou, mas mostra-se inquieto e apto a ir al\u00e9m. Mas esse corre tem um pre\u00e7o, que \u00e9 abdicar de muitas situa\u00e7\u00f5es da vida pessoal. Como tu concilias a luta art\u00edstica com o lado pessoal, principalmente a fam\u00edlia?<\/strong><br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9 que eu sou um cara caseiro, saio do trabalho e vou para casa. Quando n\u00e3o estou no trabalho, estou em casa. Quando n\u00e3o tenho compromisso profissional, estou curtindo uma cachoeira, um rio, com a minha fam\u00edlia. Ou estou fazendo um churrasco na minha quebrada \u2013 ainda moro no morro Cabana do Pai Tom\u00e1s. Para mim \u00e9 bem tranquilo, nunca fui de jogar bola com a galera, de ficar em mesa de boteco. J\u00e1 tem 17 anos que eu sou casado com a minha esposa, tenho tr\u00eas filhos com ela e meu rol\u00ea \u00e9 esse. Ou estou aqui no est\u00fadio, que fica perto de casa, ou estou curtindo o rol\u00ea com a minha fam\u00edlia. Trabalhei poucas vezes com carteira assinada, e em todas elas fui demitido durante os tr\u00eas meses de experi\u00eancia. Fa\u00e7o rap desde os meus, sei l\u00e1, 14 anos, e sempre estive perto da minha fam\u00edlia. E tem as fases, n\u00e9, da inf\u00e2ncia. Agora meu filho est\u00e1 na adolesc\u00eancia, naquele per\u00edodo meio imposs\u00edvel, mas a gente lembra de como foi, como nos comportamos com os nossos pais. A\u00ed o cora\u00e7\u00e3o fica mais mole, d\u00e1 para entender que o tempo passa muito r\u00e1pido e s\u00e3o fases da vida. Sei que a tend\u00eancia \u00e9 sempre desacelerar. J\u00e1 trabalhei mais, hoje eu trabalho bastante, mas n\u00e3o de forma exaustiva. Fa\u00e7o o que gosto, e isso \u00e9 viver como se quer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como come\u00e7ou tua conex\u00e3o com o rap e com a cultura hip-hop?<\/strong><br \/>\nO gatilho para realmente pensar \u201c\u00e9 isso que eu quero para minha vida\u201d foi o Sabotage. Quando escutei o \u201cRap \u00e9 Compromisso\u201d, aquilo ali mudou tudo. O flow do Sabotage era maravilhoso. Logo em seguida ele foi assassinado, e eu vi o impacto que o Sabotage teve na minha gera\u00e7\u00e3o. Foi ali que eu decidi que todas as minhas lutas, tudo que eu acredito e que eu quero ser est\u00e1 no rap. Eu tinha um entendimento no come\u00e7o apenas do rap nacional. S\u00f3 que a\u00ed colei, no ano de 2007, na batalha de MC embaixo do Viaduto de Santa Tereza (BH) e descobri o movimento hip-hop. Entendi que o rap era s\u00f3 um elemento de uma cultura maior, e nisso minha cabe\u00e7a explodiu, nunca mais fui o mesmo. Estou nessa busca por conhecimento at\u00e9 hoje, porque o hip-hop \u00e9 isso: n\u00e3o ficar parado. Sempre entendi que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 transformadora, e o Sabotage mudou minha vida. Ele foi uma das pessoas que me incentivou nos piores momentos \u2013 quando era adolescente, a situa\u00e7\u00e3o era muito prec\u00e1ria ali no come\u00e7o dos anos 2000, l\u00e1 em Santa Luzia. E o Sabotage foi um amigo, um irm\u00e3o, um professor. Quando ele morreu, eu estava assistindo televis\u00e3o, veio aquele plant\u00e3o ao vivo, e aquilo mudou minha vida. Falei: \u201cp\u00f4, por esse cara a\u00ed, eu vou tentar ser uma pessoa melhor\u201d. E o rap mudou minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu disseste que tocou com banda de igreja. Al\u00e9m disso, usa uma corrente de S\u00e3o Jorge que sempre te acompanha e chegou a fazer um post sobre o orix\u00e1 no dia dele (23 de abril, data desta entrevista). \u00c9s uma pessoa de f\u00e9? E como essa cren\u00e7a atravessa teu trabalho?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sou religioso, abomino todo tipo de religi\u00e3o, de doutrina\u00e7\u00e3o, de filosofia dogm\u00e1tica. Mas sou uma pessoa de f\u00e9, sim. Eu acredito nas pessoas. Tenho f\u00e9 na natureza, no futuro. Olho para a ci\u00eancia e \u00e9 inexor\u00e1vel a imagem de Deus, como somos perfeitos, e como o universo funciona de forma t\u00e3o sincronizada. Acredito que existe algo sim. Se s\u00e3o seres de quinta, quarta, d\u00e9cima dimens\u00e3o, n\u00e3o sei dizer. Esse \u00e9 um grande mist\u00e9rio, ningu\u00e9m morreu e voltou para falar como \u00e9. Sinto uma energia, uma coisa no universo que cinge todos n\u00f3s seres vivos. E pela matem\u00e1tica do acaso \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o acreditar que existe uma for\u00e7a maior que nos rege, que nos guarda e ilumina. Algo forte para mim \u00e9 como o ser humano tem o poder da cria\u00e7\u00e3o e de moldar o seu ambiente. Isso me move. Entender que Deus \u00e9 todo mundo sorrindo ao mesmo tempo, e a real da vida \u00e9 fazer a vida ser melhor para geral. Essa \u00e9 a f\u00e9 que eu carrego comigo. Tenho uma rela\u00e7\u00e3o forte com S\u00e3o Jorge, com Ogum, n\u00e3o sei explicar. Tento levar uma vida em prol do outro. N\u00e3o necessariamente quer dizer que voc\u00ea vai sair distribuindo marmitex. Acho que a gentileza j\u00e1 cumpre bem esse papel, o cuidado com a natureza, acreditar em causas justas e necess\u00e1rias. Essa \u00e9 a minha f\u00e9: crer num mundo melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Relacionando isso com teu relato sobre Sabotage, de como ele te ajudou, ou at\u00e9 salvou, considera a arte \u2013 aqui especificamente a m\u00fasica \u2013 uma entidade capaz de servir como suporte para as pessoas em momentos dif\u00edceis?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito louco, porque para mim a arte \u00e9 conseguir expressar a real beleza, que todo mundo sabe o que \u00e9. \u00c9 a aplica\u00e7\u00e3o do conhecimento, a a\u00e7\u00e3o e o conhecimento da intui\u00e7\u00e3o. A arte \u00e9 tudo aquilo que a gente intui e consegue personalizar, personificar e materializar. E isso \u00e9 a f\u00e9, n\u00e3o tem como fazer isso sem acreditar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FBC, ogoin, linguini - O Que Nos Impede (feat. Nathan Morais, Pepito)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/F-8ZEL2-JNQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FBC - Na\u0303o Vai Fazer Falta (feat. Pepito, Daniel Souza, Nathan Morais, Gabruga)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YpTAKXGdO7I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FBC - ASSALTOS E BATIDAS (AO VIVO NO CIRCO VOADOR) SHOW COMPLETO\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0n3Mrdo4RJk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001755294131\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Homero Pivotto Jr.<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, vocalista da\u00a0<a href=\"https:\/\/diokane.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Diokane<\/a>\u00a0e respons\u00e1vel pelo videocast\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCY71eKJzuBUXpyDV2IFeP8Q\/videos?view_as=subscriber\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Ben Para Todo Mal<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fabr\u00edcio resgata sua forma\u00e7\u00e3o rocker, fala sobre o impacto do compromisso que \u00e9 o rap, esclarece suas prefer\u00eancias pol\u00edticas e analisa as pr\u00f3prias cren\u00e7as.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/06\/entrevista-fbc-fala-sobre-tambores-cafezais-fuzis-guaranas-e-outras-brasilidades-seu-novo-album-voltado-ao-rock\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":52,"featured_media":95643,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4833,3],"tags":[5948],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95641"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/52"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95641"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95641\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95645,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95641\/revisions\/95645"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95643"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}