{"id":95478,"date":"2026-05-01T00:01:09","date_gmt":"2026-05-01T03:01:09","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=95478"},"modified":"2026-04-29T17:53:19","modified_gmt":"2026-04-29T20:53:19","slug":"entrevista-renan-inquerito-fala-sobre-tireoide-disco-que-retrata-seu-tratamento-contra-o-cancer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/01\/entrevista-renan-inquerito-fala-sobre-tireoide-disco-que-retrata-seu-tratamento-contra-o-cancer\/","title":{"rendered":"Entrevista: Renan Inquerito fala sobre \u201cTireoide\u201d, disco que retrata seu tratamento contra o c\u00e2ncer"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ociocretino\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem discos que parecem planejados, executados e maturados por meses. Outros simplesmente precisam acontecer, como se fossem um \u201cexpurgo\u201d. \u201c<a href=\"https:\/\/onerpm.link\/tireoide\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tireoide<\/a>\u201d (2026), o d\u00e9cimo \u00e1lbum de <a href=\"https:\/\/www.renaninquerito.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renan Inqu\u00e9rito<\/a>, \u00e9 claramente do segundo tipo, como o pr\u00f3prio rapper paulista define. \u201cEle \u00e9 assim porque \u00e9 como uma poesia que voc\u00ea n\u00e3o consegue explicar, mas consegue sentir. Como um gol de bicicleta que n\u00e3o adianta fazer teoria, n\u00e3o adianta ser do time advers\u00e1rio. \u00c9 bonito, \u00e9 foda, \u00e9 tocante e pronto, t\u00e1 ligado?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado em abril, o disco nasceu a partir de um diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer de tireoide no fim de 2024 e carrega uma urg\u00eancia imposs\u00edvel de simular. N\u00e3o \u00e9 um \u00e1lbum conceitual sobre a doen\u00e7a num sentido cl\u00e1ssico, mas um registro feito durante o processo &#8211; entre consultas, exames, correrias, cirurgias e sess\u00f5es de tratamento. Parte dele foi gravada antes dos procedimentos para retirada do tumor, no limite do que ainda podia ser dito; o restante veio depois, j\u00e1 na recupera\u00e7\u00e3o. O resultado segue essa cronologia emocional: do choque da diagnose \u00e0 rotina brutal do tratamento, at\u00e9 um ep\u00edlogo que n\u00e3o \u00e9 somente uma cura, mas uma reconfigura\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria continuidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 momentos em que as letras soam diretas, quase sem filtro, como se a prioridade fosse registrar os sentimentos antes que fosse tarde. O medo maior n\u00e3o era s\u00f3 a morte, mas a possibilidade de perder a voz &#8211; instrumento central para um artista que tamb\u00e9m se enxerga como professor, poeta e comunicador. Isso atravessa o disco inteiro: cada verso carrega n\u00e3o s\u00f3 sentido, mas a urg\u00eancia de expressar o que est\u00e1 sentindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Musicalmente, a produ\u00e7\u00e3o de Pop Black ancora o trabalho no boombap, como um esqueleto para estabilidade. Beats, samples e batidas secas sustentam o peso das letras enquanto abrem espa\u00e7o para varia\u00e7\u00f5es de textura e participa\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas de convidados como Vih Mendes, Wesley Camilo, Dow Ra\u00edz e Lino Krizz. Esses feats aparecem de forma pontual nos refr\u00f5es; as estrofes permanecem \u00edntimas, cantadas por Renan. O centro de tudo \u00e9 a experi\u00eancia do autor e tudo ao redor orbita isso sem disputar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa l\u00f3gica se reflete nas faixas. Em \u201cElis N\u00e3o Sabe Nada\u201d, dedicada \u00e0 filha, a vulnerabilidade aparece sem tentativa de suaviza\u00e7\u00e3o. J\u00e1 no final, \u201cWit\u00f3ria com W\u201d funciona como um fechamento que afirma que ainda h\u00e1 voz, ainda h\u00e1 um caminho. Se o rap de Renan sempre foi marcado por sua leitura social do mundo, aqui o movimento se inverte; o corpo vira o territ\u00f3rio e a doen\u00e7a vira linguagem para expressar suas frustra\u00e7\u00f5es. \u201cTireoide\u201d n\u00e3o apresenta a experi\u00eancia em uma narrativa confort\u00e1vel nem oferece reden\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, pois o que mais aparece \u00e9 o medo, o desgaste e a incerteza, mas tamb\u00e9m a insist\u00eancia em seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim, &#8220;Tireoide\u201d funciona menos como um relato gen\u00e9rico de supera\u00e7\u00e3o e mais como registro de algu\u00e9m que, diante da possibilidade de desaparecer, escolheu falar tudo o que podia e conseguiu transformar esse impulso em um dos trabalhos mais diretos e honestos de sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um papo no in\u00edcio de abril com o Scream &amp; Yell, Renan explicou a hist\u00f3ria relatada no disco em detalhes e revelou que o \u00e1lbum ainda deve ganhar desdobramentos: um lan\u00e7amento em vinil, um livro em fase final de prepara\u00e7\u00e3o e uma turn\u00ea que come\u00e7a em maio &#8211; m\u00eas de conscientiza\u00e7\u00e3o sobre doen\u00e7as da tireoide &#8211; com <a href=\"https:\/\/www.sescsp.org.br\/programacao\/renan-inquerito-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">um show de estreia no Sesc Santo Amaro (SP) em 2 de maio<\/a>. Confira a conversa abaixo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TIREOIDE | RENAN INQU\u00c9RITO (\u00c1lbum Completo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/88YCL9TR6Po?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Renan, parab\u00e9ns pelo disco, ele est\u00e1 muito massa. Ele tem uma tem\u00e1tica e letras pesadas, mas acho que voc\u00ea soube equilibrar isso com um instrumental que ao mesmo tempo \u00e9 muito rico, mas de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nObrigado, meu amigo. S\u00f3 queria dizer que acho que esse disco \u00e9 visceral, cir\u00fargico. Um expurgo, para usar uma palavra meio hospitalar. Ele \u00e9 tudo isso, mas tamb\u00e9m \u00e9 terap\u00eautico. Traz alguma coisa que \u00e9 meio curativa assim. Ent\u00e3o \u00e9 louco falar isso porque parece um bagulho meio messi\u00e2nico da minha parte, mas n\u00e3o \u00e9, cara. Eu acho que ele tem isso porque ele \u00e9 verdadeiro, mano. Ele n\u00e3o foi pensado, arquitetado para ser assim. Ele \u00e9 assim porque \u00e9 como uma poesia que voc\u00ea n\u00e3o consegue explicar, mas consegue sentir. Como um gol de bicicleta que n\u00e3o adianta fazer teoria, n\u00e3o adianta ser do time advers\u00e1rio. \u00c9 bonito, \u00e9 foda, \u00e9 tocante e pronto, t\u00e1 ligado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 bem isso mesmo; \u00e9 um disco forte, mas tamb\u00e9m muito bonito, bem produzido\u2026<\/strong><br \/>\n\u00c9 louco porque esse disco foi produzido pelo Pop Black, que \u00e9 o meu parceiro de mais de 20 anos. S\u00f3 que o Pop Black \u00e9 MC, back vocal, um mano que cantava na igreja. E por conta da quest\u00e3o da negritude, ele conheceu o hip hop. N\u00e3o se encaixou na igreja porque grande parte dos evang\u00e9licos ignora essa quest\u00e3o dos negros e da sua musicalidade. E o hip hop abra\u00e7ou ele, e eu abracei tamb\u00e9m. Eu vi ele enveredar pro lado da produ\u00e7\u00e3o do zero, cara. Fui eu que ajudei a comprar o primeiro computador, o primeiro teclado. E a\u00ed quando chegou nesse momento da minha doen\u00e7a e decidi fazer m\u00fasicas, eu falei: &#8220;Eu n\u00e3o posso dividir isso com uma pessoa que n\u00e3o tenho intimidade\u201d. Desde o in\u00edcio decidi n\u00e3o publicizar a doen\u00e7a, s\u00f3 divulguei depois que eu j\u00e1 estava curado. E tinha que ser com ele, cara. Ele falou: &#8220;Renan, mas voc\u00ea quer que eu produza um disco inteiro?&#8221; Porque ele produziu coisas espor\u00e1dicas. E falei: &#8220;Chegou a hora, j\u00e1 faz 16 anos que voc\u00ea faz as coisas e a gente tem que encarar essa parada junto, mano. Eu quero que voc\u00ea encare comigo. Irm\u00e3o, tem que ser voc\u00ea&#8221;. E a\u00ed ele me ajudou, come\u00e7ou a mandar coisas que jamais achei que daria para falar sobre esse assunto naqueles instrumentais. Ele falou: &#8220;Renan, eu tenho que mandar coisas diferentes para voc\u00ea, sen\u00e3o o disco vai ficar todo igual&#8221;. E a\u00ed quando fui vendo, isso me ajudou a escrever sobre um tema t\u00e3o pesado de v\u00e1rias perspectivas diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi que voc\u00ea descobriu que estava com o c\u00e2ncer e come\u00e7ou a escrever as can\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nOlha que doido: eu lancei um disco de hip hop para crian\u00e7as, que \u00e9 o &#8220;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/abra.kbca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ABRAKB\u00c7A<\/a>&#8220;, em 2023. S\u00f3 que fiquei trabalhando nele a pandemia toda. Fiquei tr\u00eas anos trabalhando num disco para crian\u00e7as, depois lancei ele e fiz mais de 60 shows. Ent\u00e3o fiquei de 2020 at\u00e9 2025 s\u00f3 focado num projeto para crian\u00e7as. Ent\u00e3o fazia cinco anos que eu n\u00e3o lan\u00e7ava nada do Inqu\u00e9rito. E a\u00ed o Pop estava monstro nos beats, evoluindo e vivia me mandando beat. Um dia peguei um beat dele e falei: &#8220;Esse aqui \u00e9 muito bom, tenho que escrever alguma coisa. E esse beat \u00e9 pra gente grande, n\u00e3o \u00e9 para crian\u00e7a n\u00e3o\u201d. Escrevi uma m\u00fasica chamada \u201cPapo de Futuro\u201d. Inclusive falo muito do Pop nessa m\u00fasica: &#8220;Salve, meu mano Pop Black, aposto nos seus beats mais que bet&#8221;. Eu declaro meu amor aos beats dele nessa m\u00fasica. Mas como descobri o c\u00e2ncer: eu fui fazer a barba e o barbeiro falou: &#8220;Cara, voc\u00ea est\u00e1 com um caro\u00e7o grande aqui&#8221;. E a\u00ed eu virei o pesco\u00e7o e vi, porque quando eu olhava de frente n\u00e3o aparecia. Mas quando eu fazia assim, \u00f3, ele saltava. Ent\u00e3o, dependendo da posi\u00e7\u00e3o do meu pesco\u00e7o, o caro\u00e7o n\u00e3o era vis\u00edvel. Como eu estava deitado na cadeira do barbeiro, ele estava com a vis\u00e3o voltada para o meu pesco\u00e7o, com uma vista privilegiada, da\u00ed ele viu. Ent\u00e3o voltei para casa super encanado, mas no outro dia de manh\u00e3 eu tinha que gravar um clipe. J\u00e1 era tarde e n\u00e3o dava para ir no hospital. Da\u00ed a gente gravou o clipe embaixo de chuva o dia inteiro em S\u00e3o Paulo, eu cheguei em casa \u00e0 noite, tomei um banho e fui no hospital. E o cara j\u00e1 falou: &#8220;Cara, \u00e9 um cisto muito grande, vamos fazer um exame&#8221;. A\u00ed j\u00e1 deu que era tumor, \u201cvamos fazer bi\u00f3psia\u201d, \u201c\u00e9 maligno\u201d e j\u00e1 foi, t\u00e1 ligado? Tudo muito r\u00e1pido. E a\u00ed nesse per\u00edodo, eu estava fazendo essa m\u00fasica com o Pop, uma m\u00fasica com o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/09\/rodrigo-ogi-nill-artistas-independentes-acabam-ganhando-no-longo-prazo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[Rodrigo] Ogi<\/a> e outra m\u00fasica com a Malena [D&#8217;Alessio], que \u00e9 uma rapper da Argentina. No primeiro momento pensei em juntar essas m\u00fasicas todas, mas depois falei: &#8220;N\u00e3o tem nada a ver&#8221;. Ent\u00e3o tenho m\u00fasicas que n\u00e3o entraram nesse disco, que n\u00e3o est\u00e3o prontas, mas est\u00e3o em fase de constru\u00e7\u00e3o e que com certeza v\u00e3o virar singles futuramente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea come\u00e7ou o disco, tinha consci\u00eancia que estava fazendo um \u00e1lbum conceitual sobre o que passou?<\/strong><br \/>\nNada, nada, nada. Porque foi assim, \u00f3: o disco come\u00e7a a surgir como uma resposta. Por exemplo, quando algu\u00e9m recebe um diagn\u00f3stico de um c\u00e2ncer maligno com met\u00e1stase, como eu recebi, a perspectiva [de vida] \u00e9 muito pequena. Eu tive o privil\u00e9gio de n\u00e3o ser num \u00f3rg\u00e3o t\u00e3o vital como intestino ou est\u00f4mago. Foi na tireoide. Mas era um c\u00e2ncer raro, maligno, com met\u00e1stase. Ent\u00e3o a minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi: &#8220;Minha filha tem 3 anos. Eu n\u00e3o lembro de nada do meu pai, de quando eu tinha 3 anos. Ela n\u00e3o vai lembrar de nada\u201d. Isso para mim foi apavorador. E falei: &#8220;preciso escrever algo para ela ouvir um dia e lembrar que, apesar de eu ter vivido s\u00f3 tr\u00eas anos ao lado dela, a gente fez muita coisa\u201d. A gente foi pra praia, ia no parquinho, levava ela na escola, a gente ia tomar sorvete. \u201cMano, eu tenho que p\u00f4r isso no papel\u201d. Nunca ningu\u00e9m da minha fam\u00edlia teve c\u00e2ncer, ent\u00e3o eu n\u00e3o sabia nem lidar com isso. A primeira letra que escrevi foi para lidar com isso, certo? Depois as outras duas vieram no sentido dos medos que eu tinha na cirurgia, porque o m\u00e9dico sempre me alertou que tinha o risco de perder a voz, porque o c\u00e2ncer estava numa regi\u00e3o do pesco\u00e7o muito perto das cordas vocais. Ent\u00e3o, na hora da remo\u00e7\u00e3o dos tumores, poder\u00edamos danificar as cordas vocais. Isso era um risco iminente desde o primeiro dia de consulta. Como eu tinha medo de ficar sem voz, acelerei para gravar o m\u00e1ximo de m\u00fasica antes da cirurgia. Mas consegui gravar s\u00f3 tr\u00eas, porque as outras nem sequer existiam ainda. Falei \u201ceu vou gravar essas tr\u00eas, porque se eu ficar sem voz \u00e9 o m\u00e1ximo que eu consigo\u201d. Ent\u00e3o fui pra cirurgia em junho s\u00f3 com tr\u00eas m\u00fasicas gravadas. E de junho at\u00e9 dezembro eu fiz o resto das m\u00fasicas. E a\u00ed que come\u00e7ou a tomar forma, porque comecei a olhar e falei: &#8220;Bom, j\u00e1 fiz quatro, t\u00e1? J\u00e1 falei sobre isso, isso e isso, como eu posso falar agora?&#8221; A\u00ed o Pop me mandou um beat super animado e falei: &#8220;Cara, e se eu falar do dia que eu tive alta, como \u00e9 que vai ser?&#8221; A\u00ed ele mandou um outro beat meio sentimental. Falei: &#8220;Cara, vou falar aqui de como eu tinha medo de perder a voz&#8221;. A\u00ed quando eu vi foi tudo saindo, saca?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"RENAN INQU\u00c9RITO | Elis N\u00e3o Sabe Nada\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rs0x0hISKb0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas quanto tempo foi de matura\u00e7\u00e3o desse disco?<\/strong><br \/>\n\u00d3, eu descobri o meu c\u00e2ncer em outubro de 2024 e a\u00ed fiz a primeira m\u00fasica, que \u00e9 para a minha filha, \u201cElis N\u00e3o Sabe Nada\u201d. S\u00f3 que eu achava a m\u00fasica muito triste e falei: &#8220;N\u00e3o quero seguir com isso, j\u00e1 que t\u00f4 optando que n\u00e3o vou contar para ningu\u00e9m, n\u00e3o vou fazer uma m\u00fasica sobre isso.&#8221; O disco foi tomar forma pr\u00f3ximo da minha cirurgia, em junho. Porque a\u00ed eu tinha uma perspectiva de cura e me animei. E no per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o, como eu tive que ficar de molho, foi quando o disco cresceu, porque fiquei muito tempo parado, muito tempo escrevendo. Ent\u00e3o, vamos dizer assim: o disco come\u00e7a l\u00e1 quando ganho o diagn\u00f3stico, s\u00f3 que decola a partir do per\u00edodo final do tratamento e da cirurgia. Se voc\u00ea for ver, o disco segue a cronologia da doen\u00e7a: ele \u00e9 mais triste no come\u00e7o, porque \u00e9 o per\u00edodo do diagn\u00f3stico. \u00c9 um per\u00edodo sem esperan\u00e7a, triste. A\u00ed vem o per\u00edodo do tratamento, que \u00e9 de se levantar contra a doen\u00e7a, de luta pela vida, de correria. Vai no m\u00e9dico, faz exame, vai atr\u00e1s do rem\u00e9dio, briga com conv\u00eanio, fica na fila do SUS. dorme no hospital de madrugada, briga por um exame. E a\u00ed, esse per\u00edodo \u00e9 o maior, o que mais tem m\u00fasica e depois vem o da cura, que assim como o diagn\u00f3stico, \u00e9 um lance curto que durou s\u00f3 tr\u00eas m\u00fasicas. Ent\u00e3o o miolo do disco \u00e9 o tratamento, a maior parte. A\u00ed voc\u00ea vai me falar \u201cpor que que a cura durou s\u00f3 tr\u00eas m\u00fasicas?\u201d Porque o que aconteceu foi o seguinte, mano. Eu falei: &#8220;eu quero terminar esse disco numa m\u00fasica que fale de cura, porque \u00e9 essa a imagem que eu quero deixar. Eu n\u00e3o quero terminar o disco na bad. Independente do que for acontecer, o ponto final vai ser na cura\u201d. Quase que numa utopia, como se isso pudesse realmente influenciar na cura, saca? Do ponto de vista, talvez, da f\u00e9, da espiritualidade, da intui\u00e7\u00e3o, da esperan\u00e7a, eu vou acabar falando de cura para que a doen\u00e7a n\u00e3o volte mais. T\u00e1 ligado? Na minha cabe\u00e7a, quando esse disco finaliza, a doen\u00e7a tamb\u00e9m se finaliza. Na minha cabe\u00e7a, foi importante concretizar para fechar o ciclo, para terminar a travessia. Eu n\u00e3o gostaria de fazer um outro disco sobre isso, porque n\u00e3o \u00e9 algo feito sob encomenda. \u00c9 um disco de um processo doloroso. N\u00e3o fiz terapia durante a doen\u00e7a, a n\u00e3o ser a quimioterapia, mas a minha terapia, o meu tratamento foi a produ\u00e7\u00e3o do disco. Entre sess\u00f5es de quimioterapia e de est\u00fadio. Pode parecer uma met\u00e1fora, algo meio rom\u00e2ntico, meio ut\u00f3pico. Eu tamb\u00e9m sei que \u00e9, mas no fim cada um tem uma f\u00e9. N\u00e3o sou um cara religioso hoje, mas me apeguei nisso. Isso foi a minha obsess\u00e3o. Eu dormi, acordei e eu s\u00f3 lembrava que estava doente quando ia no m\u00e9dico, quando eu tinha que fazer exame. Cara, eu n\u00e3o dei nem ben\u00e7a. Fiquei dando ibope pro disco, pras letras. Me apeguei nisso para tentar esquecer, para tentar ignorar mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que entendo voc\u00ea abra\u00e7ar o tema no disco e depois querer se afastar dele, porque \u00e9 como se voc\u00ea falasse \u201ceu j\u00e1 superei isso, agora vamos falar de outras coisas\u201d, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim! E tamb\u00e9m, olha que louco. Quando eu estava fazendo o final do disco, eu estava vivendo. Quando fui gravar o clipe das primeiras m\u00fasicas, eu n\u00e3o estava mais naquele clima. Foi at\u00e9 dif\u00edcil entrar no clima, porque era muito f\u00fanebre, muito bad. Um clima que eu j\u00e1 tinha passado. E demorei para entender que era necess\u00e1rio que esse clima estivesse no disco, que eu n\u00e3o podia apag\u00e1-lo. Mas tamb\u00e9m relutei muito em reviver esses climas, porque eu n\u00e3o estava mais naquilo, cara. Tipo, n\u00e3o foi nada de atua\u00e7\u00e3o, foi vivenciado na pele. Ent\u00e3o hoje eu n\u00e3o tenho como fazer uma m\u00fasica daquele jeito, porque eu n\u00e3o tenho um diagn\u00f3stico de um c\u00e2ncer maligno sem perspectiva de cura, que eu vou morrer daqui uns dias, que minha filha vai crescer sem pai. Aquilo naquele momento ecoou na minha cabe\u00e7a, hoje n\u00e3o. Passei por cirurgias, fiz a quimio, fui acompanhado por um monte de m\u00e9dicos, j\u00e1 entendo muito mais da minha doen\u00e7a, perspectivas do que ela tem, o que ela me traz. Ent\u00e3o, a minha mente dificilmente retorna naquela sensa\u00e7\u00e3o. Por isso foi importante registrar naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea falou, existia o risco de afetar a sua voz e n\u00e3o voltar a cantar. Como voc\u00ea lidou com isso, com a possibilidade de n\u00e3o mais se apresentar ao vivo?<\/strong><br \/>\nEra o meu maior medo. Eu vou falar que eu tinha mais medo disso do que de morrer. Porque eu pensava assim \u201cmorreu, mano, morreu\u201d. Ficar vivo sem poder falar\u2026 N\u00e3o precisava nem cantar, mano, mas sem poder falar&#8230; Cara, eu lembro que um m\u00e9dico que eu fui falou: &#8220;Ah, Renan, mas a\u00ed voc\u00ea ressignifica sua vida\u201d e tal, meio good vibe. E eu estava puto, e falei: &#8220;Ressignifica voc\u00ea, mano! Eu n\u00e3o tenho como. Eu sou professor, poeta e cantor, cara. Fodeu, mano. N\u00e3o sei como vai ser,\u201d. Era o meu maior medo, cara. Tanto que tenho uma m\u00fasica no disco chamada \u201cRelevo da Voz\u201d que s\u00f3 fala sobre isso. Eu falo assim: &#8220;Dentro do meu eu, v\u00e1rios n\u00f3s, m\u00f3 medo de perder a voz, mas eu me inspirei nas \u00e1guas do Tapaj\u00f3s e vi que a rima \u00e9 o rio, o rap \u00e9 a foz&#8221;. Ent\u00e3o o lance da voz pegava muito. Toda vez que ficava pensando nisso, eu ficava muito triste, muito bad. E percebia que precisava parar de pensar, porque sen\u00e3o ia prejudicar o meu tratamento, minha recupera\u00e7\u00e3o e tudo que eu precisava atravessar. Ent\u00e3o tentei n\u00e3o pensar, mas por exemplo, quando acordei das cirurgias, a primeira coisa que eu fazia era tentar usar minha voz. &#8220;Oi, algu\u00e9m est\u00e1 me ouvindo? T\u00f4 falando, al\u00f4, c\u00e2mbio, testando&#8221;. T\u00e1 ligado, mano?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9, \u00e9 a sua principal ferramenta de express\u00e3o tamb\u00e9m, n\u00e9?<\/strong><br \/>\n\u00c9 isso: \u00e9 express\u00e3o, mano. Nem estou falando de trabalho. Estou falando de um cara que \u00e9 comunicador, que fala, Para mim seria muito dif\u00edcil.<\/p>\n<figure id=\"attachment_95480\" aria-describedby=\"caption-attachment-95480\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-95480 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tireoide.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tireoide.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tireoide-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tireoide-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-95480\" class=\"wp-caption-text\"><em>Capa do \u00e1lbum &#8220;Tireoide&#8221;, de Renan Inqu\u00e9rito<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao disco: o que voc\u00ea acha que o Pop Black trouxe para a sonoridade desse \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\n\u00d3, mano, ele \u00e9 um produtor de rap, n\u00e9? Tem produtores que produzem v\u00e1rios tipos de m\u00fasica. N\u00e3o que ele n\u00e3o seja capaz, mas a trajet\u00f3ria dele \u00e9 produ\u00e7\u00e3o de rap. Ningu\u00e9m vai chamar ele para fazer disco de sertanejo ou de pagode. Ent\u00e3o quando o chamei, j\u00e1 sabia que ia ser um disco rapz\u00e3o, boombap raiz. Eu j\u00e1 sabia porque \u00e9 o estilo dele e tudo bem. S\u00f3 que a\u00ed no meio do caminho, como a gente conhece muita gente e muitos m\u00fasicos quiseram ajudar, a gente come\u00e7ou a colocar participa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o a gente fez algo que j\u00e1 havia feito em outros discos, que \u00e9 misturar as batidas eletr\u00f4nicas sequenciadas com instrumentos org\u00e2nicos e ac\u00fasticos. Ent\u00e3o o disco tem muito sopro, flauta, saxofone, trompete, trombone, percuss\u00e3o, teclado. Isso foi se somando depois \u00e0queles beats do Pop Black, e isso deu uma grandeza. Valorizaram ainda mais os beats. Ent\u00e3o aquilo que no come\u00e7o ia ser quase que artesanal, ficou glorioso. Tanto que n\u00f3s mixamos o disco em Los Angeles. Quando o Jo\u00e3o pegou o disco para mixar, ele falou: &#8220;Cara, em que est\u00fadio voc\u00eas fizeram?&#8221; N\u00f3s falamos: &#8220;Cara, na sala da casa do Pop\u201d. A gente s\u00f3 gravou voz num est\u00fadio profissional, mas tudo foi feito em home studio, que \u00e9 na sala da casa dele. At\u00e9 n\u00f3s ficamos surpresos. Eu acho que essa qualidade tem a ver com a sintonia que eu tenho com ele e com o esmero que eu tenho e que ele foi obrigado a ter pela responsa que joguei no colo dele. E isso \u00e9 o resultado do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00e1 pra sacar que deu muito certo essa qu\u00edmica entre voc\u00eas. Queria saber tamb\u00e9m sobre as participa\u00e7\u00f5es dos m\u00fasicos. Tem Vih Mendes, Wesley Camilo, Dow Ra\u00edz e Lino Krizz. Como surgiram esses feats?<\/strong><br \/>\nQuando a gente come\u00e7ou a fazer o disco, comecei a perceber que por falar do c\u00e2ncer, n\u00e3o tinha que ter nenhum feat rapeando comigo, rimando, porque todas as letras eram muito pessoais. Voc\u00ea pode ver que todos os feats s\u00e3o nos refr\u00f5es, porque as estrofes s\u00e3o todas muito pessoais, muito intr\u00ednsecas ao meu eu, ao meu problema, ao meu atravessamento. E essas s\u00e3o pessoas que a gente admira, somos f\u00e3 e algumas delas a gente tem a sorte, o privil\u00e9gio de ter no nosso hall de amigos em outros projetos. Por exemplo, o Wesley Camilo, ele \u00e9 o produtor do &#8220;ABRAKB\u00c7A&#8221;, que \u00e9 o meu projeto para crian\u00e7as. Ent\u00e3o a gente tem uma proximidade muito grande. Hoje ele \u00e9 o maior Talk Box do Brasil, eu acho que ele executa como ningu\u00e9m. E o Talk Box n\u00e3o \u00e9 um instrumento comum, n\u00e3o \u00e9 qualquer pessoa que faz, \u00e9 toda uma t\u00e9cnica e tal. Ele \u00e9 um tecladista monstro e apaixonado pelo Talk Box. Ele veio para tocar e acabou editando duas m\u00fasicas porque o Pop estava sobrecarregado. Ele falou: &#8220;D\u00e1 aqui essas duas que eu vou editar&#8221;. \u00c9 um trampo bra\u00e7al mec\u00e2nico e chato, mas ele fez para ajudar. O Lino Krizz eu sou f\u00e3 h\u00e1 muito tempo. Na carreira solo dele, ele como Os Metralhas com o irm\u00e3o dele, ele com Racionais, ele com DJ Hum no Motir\u00f4, Lino Crizz &amp; Gueto Jam\u2026 Enfim, sou f\u00e3 do Lino e imaginei ele cantando essa m\u00fasica desde o dia que eu fiz. E a\u00ed foi todo um processo, porque eu n\u00e3o tinha proximidade com ele. Quem me ajudou foi o Dexter; um dia eu estava com ele, que ligou pro Lino e a gente conversou. Ele foi muito gentil; gravou, fez tudo e mandou para n\u00f3s porque ele estava na correria. Agora a Vih Mendes, cara, \u00e9 uma revela\u00e7\u00e3o da m\u00fasica preta brasileira. Ela j\u00e1 foi finalista do [reality show] \u00cddolos, \u00e9 uma menina de 22 anos que cola aqui no sarau que eu fa\u00e7o, a Parada Po\u00e9tica. E a\u00ed, olha que louco, ela veio primeiro participar da turn\u00ea do &#8220;ABRAKB\u00c7A&#8221; e a\u00ed agora nesse disco fez todos os backing vocals. Ela participa como feat, mas toda m\u00fasica que tem um back vocal tem ela. Ent\u00e3o ela \u00e9 uma grande parceira e amiga. Sobre o Dow Ra\u00edz, a gente queria algu\u00e9m com uma voz de reggae de rasta, e a\u00ed convidamos. Ele tamb\u00e9m tinha participado do nosso show \u201cCorpo e Alma\u201d no passado, ent\u00e3o a gente estava pr\u00f3ximo. E tem uma m\u00fasica que \u00e9 uma batalha [\u201cBatalha de Sangue&#8221;] e a gente quis gravar essa m\u00fasica ao vivo. E a\u00ed eu chamei o Bob 13 da Batalha da Aldeia e o Ikki019, que \u00e9 o apresentador da Batalha do C\u00e1lice, que foi onde a gente gravou. Eu juntei esses dois mais o p\u00fablico da batalha num dia normal. Levamos o nosso engenheiro de \u00e1udio que \u00e9 o M\u00e1rio Porto e ele microfonou a batalha. A gente avisou a galera que era uma grava\u00e7\u00e3o, mas que a gente queria fazer num take s\u00f3, porque eu n\u00e3o queria perder a naturalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se algu\u00e9m que est\u00e1 passando por um diagn\u00f3stico parecido ouvir esse disco, o que voc\u00ea gostaria que essa pessoa sentisse?<\/strong><br \/>\nMeu mano, eu fiz esse \u00e1lbum pensando em me curar. Eu nem pensava num terceiro [indiv\u00edduo]. Quando olho para tr\u00e1s, nunca fiz nenhuma letra que fosse para algu\u00e9m que n\u00e3o fosse eu. E j\u00e1 s\u00e3o mais de 130 letras. Quando encontro as pessoas na rua, elas falam: &#8220;Cara, voc\u00ea contou a minha hist\u00f3ria&#8221;, \u201ccara, serviu para mim\u201d. E vejo como n\u00f3s somos singulares, mas tamb\u00e9m somos plurais; como n\u00f3s somos particulares, mas universais. Como periferia \u00e9 periferia em qualquer lugar. Como dificuldade \u00e9 dificuldade em qualquer lugar. Ent\u00e3o j\u00e1 tenho esses feedbacks de pessoas que est\u00e3o usando as m\u00fasicas nesse sentido e fico muito feliz. Eu fico lisonjeado, agradecido e com vontade de n\u00e3o parar de fazer m\u00fasica. Porque no fim eu fa\u00e7o m\u00fasica para me curar, mas acabo curando outras pessoas. Acho que o cara que est\u00e1 tocando um saxofone l\u00e1 no alto de um pr\u00e9dio, ensaiando dentro do seu apartamento, sem saber, ele est\u00e1 sendo trilha sonora na vida de outras pessoas que est\u00e3o ouvindo de tabela e que precisavam ouvir uma melodia naquele momento. \u00c9 muito da hora. \u00c9 a coisa talvez mais maravilhosa da arte, que \u00e9 ser mensageiro de algo que voc\u00ea n\u00e3o tem ideia de que est\u00e1 l\u00e1 no telegrama. Essa \u00e9 a beleza da arte, da m\u00fasica. E o quanto voc\u00ea pode dar for\u00e7a para outra pessoa contando o que passou tamb\u00e9m, isso \u00e9 muito foda, cara.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TIREOIDE - RENAN INQU\u00c9RITO\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/thElgO52f2Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pensa em estender essa obra para outros desdobramentos, seja musical ou n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim, cara! Vou te contar: n\u00f3s mandamos o vinil pra f\u00e1brica ontem. O vinil vai sair daqui 60 dias e eu ia lan\u00e7ar junto com o disco o livro \u201cTireoide\u201d. S\u00f3 n\u00e3o lancei porque n\u00e3o tive pernas para terminar a diagrama\u00e7\u00e3o a tempo, mas agora ele est\u00e1 pronto. Basicamente vou fazer o que eu fiz nos meus livros anteriores, que \u00e9 pegar pontos fortes das letras e reorganizar no papel, tanto do ponto de vista da ordem cronol\u00f3gica, quanto do ponto de vista espacial. Sou um poeta concreto, ent\u00e3o vou brincar com a concretude no papel. E outra coisa que me fez recuar tamb\u00e9m foi poder elaborar um pouco mais o design, a diagrama\u00e7\u00e3o do livro. E tamb\u00e9m porque estou na d\u00favida se o livro chama-se &#8220;Tireoide\u201d ou &#8220;Metamorfose\u201d, com a palavra \u201camor\u201d em destaque, \u201cmeta-amor-fose\u201d. Que \u00e9 o lance da das tr\u00eas fases da lagarta, da borboleta. Estou at\u00e9 pensando, porque na cenografia a gente usou essas imagens das fases da borboleta. Estou pensando em criar uma subdivis\u00e3o dentro do livro, como se a fase lagarta fosse o per\u00edodo em que eu me arrastava, o per\u00edodo do diagn\u00f3stico; a fase casulo, quando me tranquei no est\u00fadio no meu quarto, fui escrever, fui criar; e a fase borboleta quando ta\u00ed o disco, n\u00e9? Ent\u00e3o estou pensando nisso, mas no m\u00e1ximo vai sair junto com o vinil, daqui dois meses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Saindo um pouco do &#8220;Tireoide\u201d, sei que voc\u00ea \u00e9 formado em Geografia pela Unicamp, mestre pela mesma universidade e doutor pela Unesp. Vou te fazer a mesma pergunta <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/16\/sophia-chablau-a-gente-devia-ter-um-debate-mais-aprofundado-sobre-os-caminhos-da-musica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que fiz para a Sophia Chablau<\/a>, pois ela tamb\u00e9m se formou em Geografia e deu aulas: voc\u00ea acha que ter estudado Geografia, ter lecionado, tem a ver com a sua arte, com suas letras?<\/strong><br \/>\nOlha que doido, mano. No come\u00e7o eu relutava em assumir isso, sabe? Porque achava que n\u00e3o tinha nada a ver e tal, porque entrei velho na universidade, eu tinha 22 anos e eu j\u00e1 fazia rap h\u00e1 10 quase. Mas, p\u00f4, hoje, mais maduro, \u00e9 ineg\u00e1vel. N\u00e3o tem como n\u00e3o dizer; eu fiquei 12 anos dentro de uma universidade estudando ci\u00eancias humanas. Eu tive aula com soci\u00f3logos, historiadores, antrop\u00f3logos e cientistas pol\u00edticos. Cara, isso me deu uma bagagem e com certeza fez eu me apaixonar ainda mais pelo of\u00edcio do rap cr\u00edtico social. Do rap consciente, vamos dizer assim. Eu j\u00e1 vinha dessa linha, mas acho que refinou muito mais. Agora, na quest\u00e3o de dar aula, eu n\u00e3o aprendi na universidade. A gente aprende a dar aula na sala de aula, n\u00e9? E sobretudo na sala de aula n\u00e3o formal, que \u00e9 na Funda\u00e7\u00e3o Casa, no CRAS [Centro de Refer\u00eancia de Assist\u00eancia Social], no CREAS [Centro de Refer\u00eancia Especializado de Assist\u00eancia Social], no CAPS [Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial], ou seja, dando aula para pessoas em vulnerabilidade, para uma turma que tem pessoas de diferentes idades, de diferentes n\u00edveis de escolaridade, saca? Gente que est\u00e1 ali porque foi obrigado. Aprendi a dar aula \u201capagando inc\u00eandio\u201d. Tem v\u00e1rias coisas que fa\u00e7o que d\u00e3o certo, que as pessoas at\u00e9 falam que \u00e9 uma metodologia, mas foi um inc\u00eandio que eu consegui apagar, mano. Mas para esse que eu apaguei, teve outros 10 que morreu todo mundo queimado, que n\u00e3o consegui apagar. Metodologia \u00e9 um nome bonito para algo que d\u00e1 certo um dia e \u00e9 replicado por outras pessoas. Mas antes de dar certo, deu ruim para caramba. E v\u00e1rias pessoas ficaram no meio do caminho e n\u00e3o insistiram at\u00e9 dar certo. E algumas insistiram, insistiram e um dia deu certo. E a\u00ed chamaram, batizaram, deram uma roupa bonita chamada \u201cmetodologia\u201d. Por tr\u00e1s de toda a metodologia, tem muito fracasso, muita frustra\u00e7\u00e3o, muita derrota, muito tombo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. E pode ter metodologia, mas cada ser humano tem nuances diferentes. O que pode dar certo para um pessoal numa classe, n\u00e3o necessariamente pode dar certo para outras classes ou escolas, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nCara, quando voc\u00ea falou da geografia, eu lembrei de uma parada. Sou da zona norte de S\u00e3o Paulo, do Jardim Peri. A gente andava horas de \u00f4nibus para ir at\u00e9 o centro da cidade. E a minha av\u00f3, os meus tios, meus pais sempre falaram: &#8220;Hoje n\u00f3s vamos pra cidade\u201d, como se mor\u00e1ssemos em um s\u00edtio. Mor\u00e1vamos na periferia, mas nem sabia o que era essa palavra, meus familiares nunca usaram. A gente usava palavras mais gen\u00e9ricas, menos t\u00e9cnicas, como \u201cfavela\u201d. Mor\u00e1vamos nas bordas, na periferia da cidade, mas eu n\u00e3o sabia de nada disso. Mas \u00e9 uma coisa que nunca saiu da minha cabe\u00e7a: &#8220;vamos pra cidade\u201d. Depois, mais tarde, estudando geografia e sobretudo Milton Santos, entendi que minha fam\u00edlia n\u00e3o se sentia parte da cidade. N\u00e3o s\u00f3 pela dist\u00e2ncia que ela estava do centro, mas pela dist\u00e2ncia que ela estava dos equipamentos e servi\u00e7os que a cidade oferecia. E n\u00e3o era s\u00f3 dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, era tamb\u00e9m dist\u00e2ncia social. E a\u00ed quando o metr\u00f4 chega no Tucuruvi, a gente fica um pouco mais pr\u00f3ximo da cidade. Pega um \u00f4nibus, vai at\u00e9 o Tucuruvi e tem acesso ao metr\u00f4, que \u00e9 um grande s\u00edmbolo da modernidade. E a\u00ed o Milton falava que existe uma desigualdade social, mas tamb\u00e9m uma desigualdade espacial. Se voc\u00ea olhar para S\u00e3o Paulo, por exemplo, voc\u00ea tem uma expectativa de vida que diminui \u00e0 medida que voc\u00ea vai pra periferia. E a expectativa de vida no [bairro dos] Jardins chega a 86 anos. A expectativa de vida na periferia \u00e9 70, 72. \u00c0 medida que voc\u00ea se afasta do centro tamb\u00e9m diminui a qualidade e a expectativa de vida. Fui linkando aquilo que aprendi com a geografia, com tudo que cresci vendo. Quando o governo come\u00e7a a usar a palavra \u201cperiferia\u201d, ele usa de forma t\u00e9cnica, come\u00e7a a aparecer em documentos p\u00fablicos na d\u00e9cada de 70, como um lugar longe, pobre, desassistido, prec\u00e1rio e violento. E quando a classe art\u00edstica, antes do hip hop, no samba, no teatro e outros movimentos culturais populares, come\u00e7am a usar o termo \u201cperiferia\u201d, n\u00e3o \u00e9 no sentido depreciativo, mas de se apropriar dele de forma orgulhosa. \u201cEu sou da periferia, somos da periferia. Somos fortes porque temos que vencer duas vezes para estar aqui. N\u00e3o temos acesso, temos que andar para estudar, temos que andar para se apresentar\u201d. Ent\u00e3o, olha que louco; a classe art\u00edstica se apropria do termo periferia para se empoderar. Ent\u00e3o foi a classe art\u00edstica que fez o termo \u201cperiferia\u201d ser sin\u00f4nimo de pot\u00eancia e de resist\u00eancia. Hoje em dia \u00e9 slogan da Globo, n\u00e9? \u201cFavela n\u00e3o \u00e9 car\u00eancia, \u00e9 pot\u00eancia\u201d. A gente nem usava a palavra pot\u00eancia, mas a gente j\u00e1 pensava o termo como uma pot\u00eancia. A gente usava a camiseta escrito \u201c100% periferia\u201d, t\u00e1 ligado? A gente tinha orgulho daquilo, n\u00e3o esvaziava o sentido, a gente s\u00f3 preenchia, n\u00e9? E eu primeiro conheci o termo atrav\u00e9s do rap, das letras do GOG e do Racionais. Periferia \u00e9 periferia em qualquer lugar. Quando comecei a andar pelo Brasil, vi que independente da quebrada, do CEP, do DDD, do sotaque ou da g\u00edria, era tudo periferi. Ent\u00e3o o rap e a geografia se encontraram nesse meio do caminho a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea ainda d\u00e1 aulas?<\/strong><br \/>\nEu parei de dar aula em 2023, de maneira formal. O \u00faltimo lugar que lecionei foi na UFABC [Universidade Federal do ABC]. Na verdade, eu j\u00e1 tinha parado de dar aula em 2015. E eu s\u00f3 voltei por conta da pandemia. Fiquei sem trampo, a\u00ed fui procurar aula. E na pandemia eu fui pai tamb\u00e9m. A\u00ed voltei dar aula por isso. Quando a pandemia acabou, os bagulho come\u00e7ou a milh\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o deu mais para dar aula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quais s\u00e3o os pr\u00f3ximos passos al\u00e9m do lan\u00e7amento em vinil e do livro? Tem shows, turn\u00ea, algum festival?<\/strong><br \/>\nPr\u00f3ximos passos: vinil, livro e turn\u00ea j\u00e1 no forno. Por qu\u00ea? O show est\u00e1 pronto. J\u00e1 est\u00e1 pronto o figurino, a cenografia, o repert\u00f3rio, tudo. Mapa de luz, som, banda, tudo ensaiado. N\u00f3s j\u00e1 temos alguns shows marcados e estamos tentando aumentar o n\u00famero de datas, mas por enquanto o que posso confirmar \u00e9 o lan\u00e7amento em S\u00e3o Paulo no dia 2 de maio no Sesc Santo Amaro e no dia 16 de maio no Centro de Conviv\u00eancia Campinas. Tem dia 22 de maio no Sesc Santo Andr\u00e9 e 12 de junho em Piracicaba. E a\u00ed tem outros que ainda est\u00e3o em negocia\u00e7\u00e3o, mas nossa ideia \u00e9 ter uma turn\u00ea de pelo menos uns 10 shows desse disco. Tem dois clipes prontos: da m\u00fasica \u201cElis N\u00e3o Sabe Nada\u201d e depois da m\u00fasica \u201cBatalha de Sangue\u201d, que a gente gravou ao vivo na batalha. E assim, os shows se concentraram em maio por conta de ser o m\u00eas da tireoide, porque na verdade a gente ainda n\u00e3o conseguiu fechar nada nesse sentido, mas a gente tamb\u00e9m quer fazer a\u00e7\u00f5es que extrapolem apresenta\u00e7\u00f5es musicais. A gente quer fazer um bagulho junto com uma galera da faculdade de medicina, com a associa\u00e7\u00e3o da tireoide. A gente quer ir num congresso de tireoide. A gente quer entrar com a nossa arte nesse meio tamb\u00e9m e dialogar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TIREOIDE (Audi\u00e7\u00e3o | Show)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/egy1SAuaNUA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de Rafael Berezinski.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Lan\u00e7ado em abril, o disco nasceu a partir de um diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer de tireoide no fim de 2024 e carrega uma urg\u00eancia imposs\u00edvel de simular.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/01\/entrevista-renan-inquerito-fala-sobre-tireoide-disco-que-retrata-seu-tratamento-contra-o-cancer\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":101,"featured_media":95481,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4833,3],"tags":[8194],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95478"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/101"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95478"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95478\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95482,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95478\/revisions\/95482"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95481"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}