{"id":95360,"date":"2026-04-24T00:01:39","date_gmt":"2026-04-24T03:01:39","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=95360"},"modified":"2026-04-23T23:25:43","modified_gmt":"2026-04-24T02:25:43","slug":"critica-angine-de-poitrine-mostra-que-existe-vida-alem-do-hype-com-vol-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/04\/24\/critica-angine-de-poitrine-mostra-que-existe-vida-alem-do-hype-com-vol-ii\/","title":{"rendered":"Critica: Angine de Poitrine mostra que existe vida al\u00e9m do hype com \u201cVol II\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQual o valor do m\u00e9rito art\u00edstico frente ao hype de um meme?\u201d Essa \u00e9 apenas uma de muitas perguntas complicadas demais para respostas simples que o mundo se v\u00ea for\u00e7ado a encarar nos dias atuais. \u00c9 tamb\u00e9m, com toda certeza, o dilema que pegou de surpresa muitos dos entusiastas de m\u00fasica pop (ou n\u00e3o) que se depararam com a grava\u00e7\u00e3o da performance do duo franco-canadense <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/anginedepoitrine\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Angine de Poitrine<\/a> para a r\u00e1dio independente americana KEXP, disponibilizada em fevereiro de 2026. Isto \u00e9, presumindo que pelo menos alguns destes incautos internautas tenham se disposto a buscar saber mais sobre a dupla de instrumentistas fantasiados tal qual personagens do Castelo R\u00e1-Tim-Bum, executando faixas que se aproximam do jazz e do math rock sem se atrelar a nenhum dos dois, sob o aval de uma emissora que se consolidou como uma vitrine para o que h\u00e1 de melhor na m\u00fasica alternativa de todos os lugares do mundo. N\u00e3o que qualquer pessoa pudesse ser julgada por n\u00e3o procurar se informar mais sobre apenas uma de muitas manifesta\u00e7\u00f5es culturais que o algoritmo das m\u00eddias sociais e das plataformas de streaming manifesta todos os dias, claro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Angine de Poitrine - Full Performance (Live on KEXP)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0Ssi-9wS1so?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles capazes de vencer a fadiga inescap\u00e1vel nos dias de conex\u00e3o virtual cr\u00f4nica devem ter se surpreendido, ent\u00e3o, ao descobrir que o projeto musical, cujos dois integrantes se apresentam sob os pseud\u00f4nimos Khn (guitarra e contrabaixo) e Klek (bateria) de Poitrine, n\u00e3o apenas j\u00e1 possu\u00eda um disco lan\u00e7ado (\u201cVol I\u201d, de 2024) como estava prestes a lan\u00e7ar seu segundo LP. Com o t\u00edtulo de \u201c<a href=\"https:\/\/m.releaseradar.ca\/anginedepoitrine-vol2lk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vol II<\/a>\u201d, e lan\u00e7ado neste mesmo abril, o \u00e1lbum \u00e9 exatamente o que se poderia esperar do duo tendo em vista a apresenta\u00e7\u00e3o em que despontaram para o grande p\u00fablico. Ao ponto, ali\u00e1s, de sua session servir como uma esp\u00e9cie de aperitivo para o repert\u00f3rio mais fresco. Literalmente: das seis can\u00e7\u00f5es do disco novo, tr\u00eas comp\u00f5em o repert\u00f3rio do show na KEXP (dispon\u00edvel, na integra, acima).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tracklist relativamente curto surpreende, no entanto, pela dura\u00e7\u00e3o impressionante das faixas: \u201cFabienk\u201d, a abertura, d\u00e1 a t\u00f4nica n\u00e3o apenas pela atmosfera intricada de compassos quebrados alternados com passagens dan\u00e7antes e irresist\u00edveis, mas tamb\u00e9m por ser a segunda can\u00e7\u00e3o mais longa do repert\u00f3rio. E, mesmo assim \u2013 em um processo que se repete com a segunda faixa, a mais truncada \u201cMata Zyklek\u201d \u2013 n\u00e3o \u00e9 como se a extens\u00e3o das faixas fizesse tanta diferen\u00e7a na audi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de um trabalho impressionante de produ\u00e7\u00e3o, que valoriza as nuances instrumentais ao mesmo tempo em que real\u00e7a as (breves) interven\u00e7\u00f5es de vocais, o uso de instrumentos microtonais tamb\u00e9m ajuda, em muito, a criar uma experi\u00eancia que triunfa atrav\u00e9s da imers\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Angine de Poitrine - Vol.II (Album int\u00e9gral)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ggng4bexzuY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe aqui um adendo: instrumentos microtonais possibilitam o uso de intervalos menores de notas, tamb\u00e9m por isso chamados de microintervalos. Embora a incorpora\u00e7\u00e3o da microtonalidade remonte, inclusive, ao Renascentismo (apesar de seus estudos datarem de muito tempo antes), n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que instrumentos com tais possibilidades s\u00e3o incorporados por projetos dispostos a desafiarem suas audi\u00eancias. Em que pese, por\u00e9m, a populariza\u00e7\u00e3o t\u00edmida do estilo pelos australianos do King Gizzard &amp; the Lizard Wizard (cujo \u201cFlying Microtonal Banana\u201d, de 2017, colocou o termo na boca dos indies), aqui sua incorpora\u00e7\u00e3o \u00e9 bem mais, digamos, \u201cdid\u00e1tica\u201d. Basta ouvir a cadenciada \u201cSarniezz\u201d para que a diferen\u00e7a seja sentida mais profundamente \u2013 e isso sem nem precisar de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em m\u00fasica ou algo do tipo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUtzp\u201d chega a lembrar um pouco os trabalhos de bandas como o Battles, caminhando na corda entre o abstrato e o pop. \u00c9 poss\u00edvel que seja a mais \u201camig\u00e1vel\u201d das can\u00e7\u00f5es apresentadas. E, paradoxalmente, talvez seja por isso mesmo a mais esquec\u00edvel do novo trabalho. Pasme: com quase sete minutos (!), trata-se da mais longa faixa aqui. Mais curta, e com certeza mais marcante, \u201cYor Zarad\u201d faz uso esperto de microfonias para chamar a aten\u00e7\u00e3o para as guitarras de Khn \u2013 ao final, em apenas mais uma de v\u00e1rias contradi\u00e7\u00f5es, o que se sobressai aqui s\u00e3o as espert\u00edssimas levadas de bateria de Klek, que poderiam facilmente figurar em um disco do black midi. Tudo isso acaba arrematado pela excel\u00eancia, e \u201cgrud\u00eancia sonora\u201d, de \u201cAngor\u201d. Por mais que leve algum tempo para engatar, a can\u00e7\u00e3o derradeira \u00e9 uma das mais instigantes do novo repert\u00f3rio, e talvez seja a melhor ao transpor a abordagem diferenciada dos visuais da dupla para o \u00e2mbito sonoro. Pode n\u00e3o ser a melhor do \u00e1lbum, mas com certeza \u00e9 forte candidata ao posto de favorita.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Angine de Poitrine \u2013 Mata Zyklek | Ubisoft Rooftop Session (Live - POP Montr\u00e9al 2025)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ws3EAdMpEVA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boa parte da relev\u00e2ncia de \u201cVol II\u201d est\u00e1 na forma com a qual a sonoridade ao vivo do Angine de Poitrine \u00e9 bem transposta para o est\u00fadio. Com sua equipe de produ\u00e7\u00e3o igualmente oculta atr\u00e1s de pseud\u00f4nimos (os respons\u00e1veis pela grava\u00e7\u00e3o e pela mixagem do disco s\u00e3o creditados, respectivamente, como Glegg e Tek De Poitrine), d\u00e1 para imaginar que o processo de cria\u00e7\u00e3o e formata\u00e7\u00e3o de um trabalho como este \u00e9 o mais insular poss\u00edvel. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel supor que, se n\u00e3o fosse pelo apelo do estranhamento e da incredulidade de espectadores incautos, um trabalho como este dificilmente seria capaz de quebrar a proverbial \u201cbolha\u201d que isola aqueles afeitos a estruturas menos convencionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O quanto vale, ent\u00e3o, o talento e o m\u00e9rito art\u00edstico (ambos ineg\u00e1veis) frente ao hype de redes sociais (ef\u00eamero por natureza)? \u00c9 desafiador procurar tra\u00e7ar o futuro do Angine de Poitrine, com toda a inventividade que j\u00e1 demonstraram ser mais do que capazes de conjurar, quando a ilus\u00e3o da novidade e da intriga algor\u00edtmica se esva\u00edrem. Poderiam ser apenas um caso como o do Future Islands, que finalmente apareceu para o grande p\u00fablico, ap\u00f3s anos de batalha fora do mainstream, depois de uma energ\u00e9tica e memor\u00e1vel performance no programa de David Letterman, em 2014. Mas os tempos definitivamente n\u00e3o s\u00e3o mais os mesmos, e, ao contr\u00e1rio do grupo de synthpop \u2013 que voltou, com energias renovadas, ao mesmo underground que os conhecia de longa data \u2013 o Angine de Poitrine representa uma anomalia musical que vai muito, muito al\u00e9m de seus figurinos singulares. Voltar para um nicho no qual se sobressaem (o math rock, ou a m\u00fasica experimental como um todo) n\u00e3o seria, de modo algum, um dem\u00e9rito; na pior das hip\u00f3teses, seria o testamento de uma \u00e9poca onde, a despeito de uma esp\u00e9cie de TDAH cultural, um duo anticonvencional, com apelo comercial no m\u00ednimo discut\u00edvel, conseguiu o feito de capturar o imagin\u00e1rio popular de milhares de pessoas ao redor do mundo. Nos dias atuais, apesar dos pesares, \u00e9 dif\u00edcil pensar em um legado maior que este.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Angine De Poitrine - Full Live Performance @ Club Soda Montreal 2026\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/p5yza2YWmDA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4cfQaQO-YD4\">\u00a0Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4cfQaQO-YD4\">,<\/a>\u00a0tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Angine de Poitrine representa uma anomalia musical que vai muito, muito al\u00e9m de seus figurinos singulares.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/04\/24\/critica-angine-de-poitrine-mostra-que-existe-vida-alem-do-hype-com-vol-ii\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":95361,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,3],"tags":[8171],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95360"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95360"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95360\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95363,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95360\/revisions\/95363"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95361"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}