{"id":95183,"date":"2026-04-12T23:29:12","date_gmt":"2026-04-13T02:29:12","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=95183"},"modified":"2026-04-12T23:29:30","modified_gmt":"2026-04-13T02:29:30","slug":"entrevista-talvez-meu-pai-seja-negro-e-o-unico-filme-baiano-no-e-tudo-verdade-2026-a-diretora-flavia-santana-fala-sobre-a-obra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/04\/12\/entrevista-talvez-meu-pai-seja-negro-e-o-unico-filme-baiano-no-e-tudo-verdade-2026-a-diretora-flavia-santana-fala-sobre-a-obra\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Talvez Meu Pai Seja Negro&#8221; \u00e9 o \u00fanico filme baiano no \u00c9 Tudo Verdade 2026. A diretora Fl\u00e1via Santana fala sobre a obra"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/joao.paulo.barreto.824529\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenho infantil de uma \u00e1rvore geneal\u00f3gica feito pela crian\u00e7a Fl\u00e1via, aos 11 anos de idade, para um trabalho escolar, lhe fez descobrir que sua av\u00f3 Celina, na verdade, n\u00e3o era a sua av\u00f3. Seu pai, Ant\u00f4nio, ao ouvir da menina a pergunta sobre quem eram os pais de Celina lhe disse que, na verdade, Ben\u00edcia era a sua m\u00e3e biol\u00f3gica. A informa\u00e7\u00e3o, claro, teve um impacto imenso na mente da pequena Fl\u00e1via.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Corta para algumas d\u00e9cadas depois e a agora diretora, produtora e roteirista Fl\u00e1via Santana passa por uma aferi\u00e7\u00e3o de verifica\u00e7\u00e3o de autodeclara\u00e7\u00e3o perante uma banca de heteroidentifica\u00e7\u00e3o. O fato, que parece n\u00e3o ter uma liga\u00e7\u00e3o direta com aquele trabalho de escola de tantos anos atr\u00e1s, pelo contr\u00e1rio, acaba por criar na cineasta uma reflex\u00e3o sobre como aqueles momentos de introspec\u00e7\u00e3o e descobertas pessoais lhe afetaram na inf\u00e2ncia e continuaram a faz\u00ea-lo na sua vida adulta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na certid\u00e3o de nascimento de Ant\u00f4nio, sua cor consta como sendo branca. Na conversa que abre o filme \u201cTalvez Meu Pai Seja Negro\u201d, o homem e sua filha diretora falam sobre aquela informa\u00e7\u00e3o trazida pelo documento. Ant\u00f4nio Gomes Santana, de forma austera e decidida, diz \u00e0 filha que aquilo ser\u00e1 consertado. Naquele momento, ele aponta para sua pr\u00f3pria pele e diz que sua cor \u00e9 parda. Aquela constata\u00e7\u00e3o e processo de corre\u00e7\u00e3o legal da certid\u00e3o dar\u00e1 in\u00edcio a um mergulho individual por parte de Ant\u00f4nio, bem como familiar ao incluir nesse mesmo processo sua filha Fl\u00e1via, em uma s\u00e9rie de autoreflex\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00danica produ\u00e7\u00e3o baiana presente na sele\u00e7\u00e3o oficial do tradicional festival de document\u00e1rios <a href=\"https:\/\/etudoverdade.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c9 Tudo Verdade<\/a>, que, em sua 31\u00aa edi\u00e7\u00e3o acontecendo em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro, segue at\u00e9 o dia 19 de abril, \u201cTalvez Meu Pai Seja Negro\u201d foi exibido Cachoeira Doc 2025 e no Panorama Internacional Coisa de Cinema 2026. Em entrevista ao Scream &amp; Yell, a diretora Fl\u00e1via Santana falou sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o da obra e como foi esse compartilhar de um ponto t\u00e3o pessoal de sua vida com o p\u00fablico e aprofundou este e outros aspectos trazidos pelo seu filme. Confira!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-95184 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/1-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/1-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/1-copiar-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar do filme trazer um foco maior acerca do sentimento de seu pai em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele reencontro com suas pr\u00f3prias ra\u00edzes, gostaria de abrir essa entrevista lhe perguntando como esse mesmo processo de mergulho lhe afetou como pessoa e profissional do audiovisual?<\/strong><br \/>\nO filme veio mesmo como um desejo e urg\u00eancia de tentar salvaguardar a mem\u00f3ria da minha fam\u00edlia paterna, num exerc\u00edcio de tentar remontar e contar uma hist\u00f3ria que foi estilha\u00e7ada, que temos pouco acesso a informa\u00e7\u00f5es, documentos e registros. E nessa jornada, nesse mergulho, que foi muito profundo, desafiador e importante, eu e meu pai iniciamos um processo de troca e reflex\u00f5es sobre a hist\u00f3ria dele e da nossa fam\u00edlia, que n\u00e3o t\u00ednhamos falado antes. Tamb\u00e9m n\u00e3o tinha tido a oportunidade de trocar com ele sobre temas que me atravessaram toda a vida, como quest\u00f5es relacionadas a identidade e pertencimento, por exemplo. Ent\u00e3o o filme, pra mim, sobretudo enquanto pessoa, foi muito importante, porque me aproximou ainda mais de meu pai, me proporcionou trocas e conex\u00f5es com pessoas muito generosas, me gerou reflex\u00f5es que reverberam na minha forma de me posicionar no mundo. E, principalmente, foi especial porque materializamos mem\u00f3ria: temos um filme que conta (parte) da nossa hist\u00f3ria, que \u00e9 nossa, mas, ao mesmo tempo, tem gerado identifica\u00e7\u00e3o por muitas e muitas pessoas que tamb\u00e9m tiveram as suas hist\u00f3rias e mem\u00f3rias de suas fam\u00edlias fragmentadas. E tenho percebido isso tamb\u00e9m como uma das grandes pot\u00eancias de todo esse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em determinado momento, vemos, durante um almo\u00e7o de fam\u00edlia, a discuss\u00e3o sobre o fato de sua av\u00f3 ter sido uma &#8220;dama de companhia&#8221;, algo que a privou de um crescimento social. Na conversa, vemos vis\u00f5es contrastantes sobre esse ponto, com seu pai encarando com normalidade aquela ideia de que a pessoa era considerada como parte da fam\u00edlia, quando sabemos que, no fundo, ela n\u00e3o era. No seu \u00edntimo, tanto como filha quanto como diretora que precisa trazer para o document\u00e1rio um ponto de reflex\u00e3o a partir daquele conflito de ideias, como aquela conversa e aquele atravessar de ideias que \u00e0s vezes se contrastam, outras concordam entre si em outros aspectos, lhe direcionou ao incluir a cena e a reflex\u00e3o desse encarar do processo de injusti\u00e7a social que sua av\u00f3 sofreu?<\/strong><br \/>\nEu acho que a hist\u00f3ria de minha av\u00f3 dialoga com muitas outras mulheres, tanto do passado, quanto do presente. Mulheres que saem do interior, para trabalhar em casas de fam\u00edlia nas capitais. No entanto, se tratando ainda da gera\u00e7\u00e3o dela, tinha o agravante de ser naturalizado que crian\u00e7as e jovens menores de idade fossem trabalhar &#8211; algo que \u00e9 inaceit\u00e1vel e hoje temos leis que regularizam isso no Estatuto da Crian\u00e7a e Adolescente. Entendo que para outras gera\u00e7\u00f5es, isso era \u201cnormal\u201d. Mas entendendo que isso n\u00e3o \u00e9 certo, senti a import\u00e2ncia de trazer esse questionamento na mesa, de me posicionar tamb\u00e9m, enquanto uma pessoa de outra gera\u00e7\u00e3o, num tempo em que estamos e precisamos, cada vez mais, n\u00e3o naturalizar absurdos, como trabalho infantil, racismo, machismo, homofobia, intoler\u00e2ncia religiosa, preconceitos e injusti\u00e7as sociais em geral. \u00c9 um momento que tensiona, mas que reflete tamb\u00e9m essa diferen\u00e7a de gera\u00e7\u00f5es entre mim e meu pai, e que nos coloca em um espa\u00e7o de troca, de reflex\u00e3o importante e necess\u00e1rio, acredito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse revisitar \u00e0s localidades do interior, alguns personagens surgem a ilustrar n\u00e3o somente a hist\u00f3ria de sua busca, mas acabam representando diretamente algo mais amplo, no caso, quest\u00f5es de identidade e pertencimento a um local. Foi o caso do carism\u00e1tico sr. Manuel. Ao visitar alguns daqueles lugares, essa reflex\u00e3o sobre aquelas pessoas tamb\u00e9m lhe ocorreu? De que modo lhe ajudou na concep\u00e7\u00e3o final do filme?<\/strong><br \/>\nIr para Brej\u00f5es foi um grande presente! \u00c9ramos um grupo de sete pessoas e fomos muito bem acolhidos por todo mundo que encontramos. Foi um momento de perceber mesmo o quanto o direito \u00e0 mem\u00f3ria \u00e9 mesmo um privil\u00e9gio para poucos. As hist\u00f3rias das fam\u00edlias, pessoas, cidades, est\u00e3o fragmentadas, e muitas vezes se perdem com a partida de uma pessoa mais velha. E isso pudemos perceber bem nos nossos dias l\u00e1. Ent\u00e3o, esses encontros, essas trocas com essas pessoas, evidenciam tamb\u00e9m a dificuldade que \u00e9 tentar remontar o passado. Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m evidencia algo que acho muito especial: a generosidade das pessoas do interior, de Brej\u00f5es, e o interesse genu\u00edno de todas elas em nos ajudar. Isso me emocionou muito!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme aborda com muita propriedade a quest\u00e3o da aferi\u00e7\u00e3o de verifica\u00e7\u00e3o de autodeclara\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia da banca de heteroidentifica\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica p\u00fablica de cotas raciais. Unir um tema t\u00e3o pessoal e familiar seu e de seu pai a um aspecto de reflex\u00e3o mais amplo e que traz diversos outros fatores de discuss\u00f5es que v\u00e3o do social ao pol\u00edtico foi algo que lhe preocupou? Em que ponto essa proposta narrativa e anal\u00edtica se tornou o norte do filme?<\/strong><br \/>\nTratar de temas como mem\u00f3ria, apagamentos e identidade racial a partir de uma viv\u00eancia pessoal foi muito desafiador, sobretudo por compartilhar esse espa\u00e7o \u00edntimo, da minha fam\u00edlia e nossa hist\u00f3ria, em uma obra audiovisual. O filme, a partir de uma montagem muito cuidadosa, realizada por Nin La Croix, se prop\u00f4s, politicamente e afetivamente, a provocar reflex\u00f5es e buscar gerar conex\u00e3o com outras pessoas e fam\u00edlias que, de alguma forma, se identificam com a nossa hist\u00f3ria. Todo o processo foi feito com muito afeto, muita verdade e sem pretens\u00e3o de trazer respostas concretas. O pr\u00f3prio t\u00edtulo j\u00e1 traz incertezas, a d\u00favida, e acredito que a\u00ed est\u00e1 a for\u00e7a do cinema tamb\u00e9m: de ser essa ferramenta que possa colaborar para gerar discuss\u00f5es, provocar reflex\u00f5es e ampliar perspectivas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-95185 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/TMPSN_Cartaz-Final-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1061\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/TMPSN_Cartaz-Final-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/TMPSN_Cartaz-Final-copiar-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cTalvez Meu Pai Seja Negro\u201d foi exibido Cachoeira Doc 2025 e no Panorama Internacional Coisa de Cinema 2026.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/04\/12\/entrevista-talvez-meu-pai-seja-negro-e-o-unico-filme-baiano-no-e-tudo-verdade-2026-a-diretora-flavia-santana-fala-sobre-a-obra\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":95186,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95183"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95183"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95183\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95187,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95183\/revisions\/95187"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95186"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95183"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95183"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95183"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}