{"id":95113,"date":"2026-04-08T00:50:37","date_gmt":"2026-04-08T03:50:37","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=95113"},"modified":"2026-04-08T08:44:37","modified_gmt":"2026-04-08T11:44:37","slug":"ao-vivo-mac-demarco-mostra-em-sao-paulo-a-saida-que-kurt-cobain-nao-teve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/04\/08\/ao-vivo-mac-demarco-mostra-em-sao-paulo-a-saida-que-kurt-cobain-nao-teve\/","title":{"rendered":"Em noite sold out, Mac DeMarco mostra em S\u00e3o Paulo a sa\u00edda que Kurt Cobain n\u00e3o teve"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a><br \/>\nfotos de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fernandoyokota\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fernando Yokota<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda noite esgotada na Audio, em 5 de abril de 2026 (de uma turn\u00ea brasileira praticamente toda ela sold out produzida pela Balaclava Records), Mac DeMarco reafirmou sua rela\u00e7\u00e3o quase afetiva com o p\u00fablico paulistano &#8211; uma mistura de culto, piadas internas e catarse coletiva que poucos artistas contempor\u00e2neos sustentam com tanta naturalidade e sem artif\u00edcios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem por S\u00e3o Paulo faz parte de uma turn\u00ea de nove datas no pa\u00eds &#8211; Bras\u00edlia, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Florian\u00f3polis, Porto Alegre e S\u00e3o Paulo. Na capital paulista, duas noites lotadas reuniram cerca de seis mil pessoas no total, consolidando um v\u00ednculo que foi constru\u00eddo com sua primeira apresenta\u00e7\u00e3o por aqui em 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio da carreira solo, DeMarco operou como uma esp\u00e9cie de elo tardio entre o indie lo-fi e uma linhagem de figuras exc\u00eantricas como R. Stevie Moore e Ariel Pink. Seu \u201cslacker rock\u201d, \u201cblue wave\u201d, ou ainda o autodenominado \u201cjizz jazz\u201d nunca foi apenas um estilo musical, mas um equil\u00edbrio entre um balan\u00e7o pregui\u00e7oso e uma nostalgia difusa que j\u00e1 dava as caras e agora marca o pop contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-95116 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac4-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas muita coisa mudou desde sua \u00faltima passagem pelo Brasil, no Lollapalooza 2018. S\u00f3brio desde 2020 e cada vez mais buscando um caminho longe dos excessos que antes faziam parte de sua est\u00e9tica, Mac se retirou de grandes cidades norte-americanas como Nova York e Los Angeles para ter uma vida mais silenciosa no interior do Canad\u00e1. E suas can\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m seguiram esse reflexo, assumindo uma sonoridade cada vez mais calma e minimalista em seu disco recente &#8211; &#8220;Guitar\u201d, de 2025. Mas ser\u00e1 que essa sua nova faceta bem mais pacata seria bem recebida por aqui?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DeMarco subiu ao palco \u00e0s 21h10 acompanhado por Alec Meen (teclados), Daryl Johns (baixo), Phillippe Melanson (bateria) e do guitarrista brasileiro Pedro Martins (que abriu a noite com um set solo enxuto e elegante, marcado por uma MPB jazzy quase progressiva). \u201cObrigado por vir ao nosso show hoje\u201d, disse ele, humild\u00e3o. Mas desde os primeiros acordes de \u201cShining\u201d e \u201cFor the First Time\u201d, o coro da plateia foi imediato e se repetiria ao longo de toda a apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Marquinhos\u201d (como os f\u00e3s carinhosamente se referiram a ele diversas vezes durante a noite) apresentou-se de forma mais focada em cantar do que tocar sua guitarra Silvertone 1448, mas ainda apoiado em humor nonsense e sua presen\u00e7a de palco desajeitada. Se antes o canadense encarnava o slacker embriagado com um cigarro permanente na boca, agora ele assumia a figura curiosa do \u201ccrooner de meia-idade\u201d, como ele pr\u00f3prio ironiza.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-95117 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felizmente, abandonar os excessos n\u00e3o diluiu seu carisma. Sim, ele ainda \u00e9 um carinha simples e desengon\u00e7ado no palco, que parece n\u00e3o ligar muito de usar bon\u00e9 e headphones tortos em apenas uma das orelhas e uma cal\u00e7a que mais parecia parte de um uniforme de eletricista. Mas DeMarco conduziu o show com a simplicidade de um frontman que estabelecia uma rela\u00e7\u00e3o direta com o p\u00fablico, com momentos mais vulner\u00e1veis e menos blindado pela atitude cool que marcou sua fase inicial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o p\u00fablico devolvia com grande engajamento ao longo do repert\u00f3rio. No show, \u201cSalad Days\u201d e \u201cOn The Level\u201d viraram hinos cantados a plenos pulm\u00f5es por uma plateia que ria, gritava e se deixava levar pelo momento. E o pr\u00f3prio Mac parecia olhar pra isso com orgulho, como se capitaneasse um karaok\u00ea de suas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao vivo, as faixas de \u201cGuitar\u201d ganham corpo sem perder a intimidade. \u201cHome\u201d e \u201cHoly\u201d soam mais abertas e menos introspectivas do que nas vers\u00f5es de est\u00fadio. Mas a performance ainda preservava algo do esp\u00edrito zombeteiro que o consagrou. Em \u201cRock and Roll\u201d, DeMarco tremulou uma bandeira do Brasil jogada ao palco, enrolando o pano no baixista e depois colocando em cima dos amplificadores. Em \u201cAnother One\u201d, plantou uma bananeira. Em outro momento, dan\u00e7ou com o baixista antes de subir em suas costas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-95114 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac-3.jpg\" alt=\"\" width=\"2160\" height=\"1440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac-3.jpg 2160w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac-3-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac-3-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2160px) 100vw, 2160px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, talvez o momento mais emblem\u00e1tico sobre o contraste entre o velho e o novo DeMarco foi em \u201cOde to Viceroy\u201d; originalmente um retrato totalmente romantizado do h\u00e1bito de fumar cigarros, a can\u00e7\u00e3o ganhou novas implica\u00e7\u00f5es diante de um artista que abandonou esse v\u00edcio. Mas alguns f\u00e3s ainda se apegam a essa imagem e acenderam cigarros na plateia, como se tentassem homenagear de forma banal um passado que seu autor j\u00e1 deixou para tr\u00e1s. Mas para ele, n\u00e3o h\u00e1 mais sentido na estrofe \u201cvou te fumar at\u00e9 morrer&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As faixas mais antigas funcionaram como gatilhos imediatos para o canto em un\u00edssono.\u201cFreaking Out the Neighborhood\u201d, foi impulsionada por uma contagem junto do p\u00fablico e recebida com grande festa. \u201cMoonlight on the River\u201d ganhou um momento bonito com f\u00e3s emocionados. \u201cChamber of Reflection\u201d veio mais acelerada e celebrat\u00f3ria e foi tocada como um falso encerramento do show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a camisa desabotoada e guitarra em m\u00e3os, Mac iniciou o bis, com \u201cMy Kind of Woman\u201d, que selou a noite com um coro absoluto da plateia. O vocalista parecia menos um \u00eddolo distante e mais um velho amigo agradecendo aos companheiros por terem passado em sua casa.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-95115 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/mac1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que fica \u00e9 um artista que se afastou um pouco da caricatura que o tornou famoso em memes, mas que ainda entende perfeitamente o que seu p\u00fablico busca: can\u00e7\u00f5es bonitas e uma conex\u00e3o intensa com o int\u00e9rprete no palco, ainda que entre uma piada e outra. Mac DeMarco amadureceu, mas sabe que crescer n\u00e3o significa necessariamente abandonar quem voc\u00ea foi, mas aprender a conviver com essa vers\u00e3o anterior de si mesmo &#8211; principalmente diante de milhares de pessoas que ainda amam essa vers\u00e3o. E h\u00e1 algo de generoso na forma como ele conduz esse encontro. E, naquela noite na Audio, isso foi mais do que suficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o imaginar que, em algum universo alternativo menos cruel, Kurt Cobain (que faleceu na mesma data do show, 32 anos antes) talvez se sentiria realizado se tivesse seguido uma dire\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de DeMarco. Depois de estourar com o Nirvana, Cobain se viu preso na armadilha de se tornar s\u00edmbolo e porta-voz involunt\u00e1rio de uma gera\u00e7\u00e3o. O sucesso impunha uma tens\u00e3o quase irreconcili\u00e1vel entre sua integridade art\u00edstica e exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00e9cadas depois, DeMarco parece ter encontrado uma forma de afrouxar essas engrenagens: reconfigura sua persona, desacelera para reduzir excessos e segue cada vez mais em seus pr\u00f3prios termos e ritmo. No fim, ao conduzir uma casa lotada com leveza e visivelmente se divertir com isso, fica a sensa\u00e7\u00e3o de que ele sabe exatamente o que est\u00e1 fazendo. E que \u00e9 poss\u00edvel existir na m\u00fasica sem ser totalmente consumido por ela.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mac DeMarco - Salad Days @ Audio, S\u00e3o Paulo - 05\/04\/2026\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WouAHVjXsH0?list=PL6gBQKY5zwa1hnvemLHjCJJDJRUesMDv_\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>.\u00a0<\/em><br \/>\n<em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/fernandoyokotafotografia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Yokota<\/a>\u00a0\u00e9 fot\u00f3grafo de shows e de rua. Conhe\u00e7a seu trabalho:\u00a0<a href=\"http:\/\/fernandoyokota.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/fernandoyokota.com.br<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"DeMarco conduziu o show com a simplicidade de um frontman que estabelecia uma rela\u00e7\u00e3o direta com o p\u00fablico\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/04\/08\/ao-vivo-mac-demarco-mostra-em-sao-paulo-a-saida-que-kurt-cobain-nao-teve\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":101,"featured_media":95122,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,3],"tags":[8159],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95113"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/101"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95113"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95113\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95123,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95113\/revisions\/95123"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95122"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}