{"id":94952,"date":"2026-03-29T00:01:23","date_gmt":"2026-03-29T03:01:23","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=94952"},"modified":"2026-04-16T00:28:56","modified_gmt":"2026-04-16T03:28:56","slug":"faixa-a-faixa-bruno-tenorio-detalha-naupenc-disco-em-que-experimenta-instrumentos-melodicos-como-vozes-ritmicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/29\/faixa-a-faixa-bruno-tenorio-detalha-naupenc-disco-em-que-experimenta-instrumentos-melodicos-como-vozes-ritmicas\/","title":{"rendered":"Bruno Ten\u00f3rio detalha &#8220;NAUPENC&#8221;, disco em que experimenta instrumentos mel\u00f3dicos como vozes r\u00edtmicas"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>introdu\u00e7\u00e3o por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.hominiscanidae.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Diego Albuquerque<\/a><\/strong><br \/>\nFaixa a faixa por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_brunotenorio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Ten\u00f3rio<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bruno Ten\u00f3rio \u00e9 um artista pernambucano atualmente radicado no Reino Unido que, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de quatro singles divulgados em espa\u00e7os interessantes como a NTS Radio em Londres, est\u00e1 lan\u00e7ando seu \u00e1lbum de estreia: &#8220;NAUPENC&#8221; (2026). O disco de 10 faixas marca uma grande transi\u00e7\u00e3o em sua trajet\u00f3ria musical: da performance predominantemente instrumental para uma identidade realizada como compositor e produtor, ao mesmo tempo em que aprofunda sua conex\u00e3o com as ra\u00edzes nordestinas, regi\u00e3o celebrada por sua riqueza r\u00edtmica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/drinkthecode\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">NAUPENC<\/a>&#8221; \u00e9 um trabalho predominantemente eletr\u00f4nico, com todo o projeto musical girando em torno do ritmo (Ten\u00f3rio \u00e9 baterista desde os 12 anos). Tr\u00eas faixas apresentam bateria ac\u00fastica, enquanto as sete restantes s\u00e3o constru\u00eddas a partir de padr\u00f5es eletr\u00f4nicos intrinsecamente interligados. Todos os sons s\u00e3o permeados por uma esp\u00e9cie de psicodelia mutante al\u00e9m da vibe retr\u00f4 futurista que se adapta as batidas. \u201c(Em &#8216;NAUPENC) A m\u00fasica \u00e9 constru\u00edda por meio de ostinatos e polirritmos sobrepostos, frequentemente executados por sintetizadores, com o conceito orientador de que instrumentos mel\u00f3dicos podem funcionar como vozes r\u00edtmicas\u201d, explica Bruno. \u201cA percuss\u00e3o e o design de som s\u00e3o intencionalmente focados em polirritmia, criando momentos em que o ritmo se torna melodia e a repeti\u00e7\u00e3o se torna narrativa emocional\u201d, complementa o artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As can\u00e7\u00f4es de &#8220;<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/drinkthecode\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">NAUPENC<\/a>&#8221; foram compostas e pensadas ao longo de alguns anos, influenciadas por ideias que acompanham Bruno desde seus tempos no Conservat\u00f3rio Pernambucano de M\u00fasica, sobretudo o estudo de polirritmia com Hugo Medeiros, e tamb\u00e9m as pr\u00e1ticas de conjunto de frevo e forr\u00f3, que refletem nos ritmos nordestinos que permeiam o \u00e1lbum. Co-produzido por Ten\u00f3rio, &#8220;NAUPENC&#8221; \u00e9 uma parceria com object blue e Mari Herzer, que tamb\u00e9m co-produziram e trabalharam como engenheiras de mixagem em faixas espec\u00edficas do disco, que tamb\u00e9m contou com a participa\u00e7\u00e3o de Bruno Saraiva (da Kalouv) como um dos co-produtores de cinco das faixas, e tamb\u00e9m na grava\u00e7\u00e3o de synth adicionais nessas m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do \u00e1lbum, Bruno Ten\u00f3rio tamb\u00e9m lan\u00e7a em parceria com o artista visual e designer gr\u00e1fico Raul Luna, o filme experimental &#8220;<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/drinkthecode\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">NAUPENC<\/a>&#8220;, dirigido por Luna (assista no final do texto). O filme se passa num passado alternativo, que remete a um Brasil alternativo nos anos 1980, no qual o pa\u00eds \u00e9 uma pot\u00eancia nuclear e o programa NAUPENC surge como uma esp\u00e9cie de terapia alternativa. O protagonista \u00e9 inicialmente submetido a um processo em que seu corpo \u00e9 plenamente escaneado, e submerso em um l\u00edquido verde de cura. Ap\u00f3s o scan, ele \u00e9 transportado ao meio digital onde, ap\u00f3s um processo similar ao de fecunda\u00e7\u00e3o, ele passa a ser representado pelo \u00edcone tradicional de um mouse de computador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo, Bruno Ten\u00f3rio comenta, faixa a faixa, todo o processo por tr\u00e1s de &#8220;NAUPENC&#8221;. D\u00e1 o play no \u00e1lbum aqui e leia o papo abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"NAUPENC\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lx0izjzAcP7UvJnCT2FJ3rugOJ7OxKs_k\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01- Dissociando &#8211;<\/strong> Uma das primeiras a ser escritas, &#8220;Dissociando&#8221; come\u00e7ou a partir de uma id\u00e9ia composicional que o King Crimson usava nos anos 80, em m\u00fasicas como &#8220;Frame By Frame&#8221;, &#8220;Neal and Jack and Me&#8221;, &#8220;Three of a Perfect Pair\u2026&#8221; e que o TOOL tamb\u00e9m utilizou muito ao longo da carreira em m\u00fasicas tipo &#8220;Vicarious&#8221;. \u00c9 usar um padr\u00e3o r\u00edtmico (X), nesse caso executado por uma das guitarras, e outra guitarra executando o mesmo padr\u00e3o r\u00edtmico subtraindo a sua \u00faltima subdivis\u00e3o (X-1). Exemplo: uma guitarra est\u00e1 em 7 (14) e a outra est\u00e1 em 13. Os dois padr\u00f5es v\u00e3o come\u00e7ar juntos e v\u00e3o saindo de sincronia, a guitarra em 14 vai tocar 13 vezes e a guitarra em 13 vai tocar 14 vezes o mesmo padr\u00e3o at\u00e9 que os dois padr\u00f5es (ou duas guitarras) entrem em sincronia de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O padr\u00e3o inicial que \u00e9 tocado por um timbre agudo meio bell, que come\u00e7a em 7, a partir de algumas repeti\u00e7\u00f5es subtrai uma subdivis\u00e3o tamb\u00e9m, a cada 4 repeti\u00e7\u00f5es, ou seja 7 7 7 6, essencialmente um padr\u00e3o em 27. Ele fica bem de fundo nessa parte. N\u00e3o obstante, fiz uma reprise dele em &#8220;Quase Indo&#8221; que foi adicionado no final, mas que senti que amarrou o final do \u00e1lbum pro in\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das refer\u00eancias de Tool e King Crimson, lembro de ter ideias, como o hook de synth da introdu\u00e7\u00e3o, em que eu estava me referenciando em coisas do The Knife, principalmente nos riffs em pentat\u00f4nica que eles usam muito, como numa m\u00fasica como &#8220;A Tooth For An Eye&#8221;. Outras refer\u00eancias foram Autechre em alguns dos padr\u00f5es r\u00edtmicos percussivos, e o estilo linear e ca\u00f3tico das baterias do The Mars Volta e Death Grips.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael Cadena do Canga\u00e7o regravou essas guitarras polirr\u00edtmicas da introdu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, que escrevi e gravei quando estava compondo a vers\u00e3o demo dela. Ele tamb\u00e9m gravou outras camadas, algumas r\u00edtmicas e de car\u00e1ter mais de fundo, no final da m\u00fasica, al\u00e9m de algumas guitarras tocando notas soltas, meio et\u00e9reas, na introdu\u00e7\u00e3o, que me lembraram partes que Alex Lifeson gravou em discos do Rush dos anos 80 como o &#8220;Grace Under Pressure&#8221;. Ele tamb\u00e9m gravou, dessa vez na parte eletr\u00f4nica\/ do meio da m\u00fasica, os swells de guitarra bem esparsos, e que contrastam com as batidas pulsantes eletr\u00f4nicas dessa parte.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02- Denial &#8211;<\/strong> Essencialmente uma faixa de interl\u00fadio. Definitivamente a m\u00fasica que foi escrita mais rapidamente. Feita como parte de um exerc\u00edcio numa aula de composi\u00e7\u00e3o de trilha sonora, em que a tarefa era escrever algo para ilustrar uma cena rec\u00e9m escrita. Toda a composi\u00e7\u00e3o e timbres de synth da m\u00fasica foram feitos e escolhidos em menos de 15 minutos. Passei mais de um ano com ela na vers\u00e3o do export que eu fiz no final dessa aula, e ficou inalterada at\u00e9 eu me juntar com Rena (object blue) em setembro do ano passado para terminar a produ\u00e7\u00e3o e mix de metade das m\u00fasicas do disco, incluindo &#8220;Denial&#8221;. Grande parte do que fizemos juntos na produ\u00e7\u00e3o foi criar camadas extras que soassem como p\u00e1ssaros e sons da natureza. Ela tem uma vibe meio trilha de filme cyberpunk anos 80 tipo &#8220;Blade Runner&#8221;, uma est\u00e9tica que influenciou muito o filme (\u00e1lbum visual) que acompanha o disco.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03- Submerso &#8211;<\/strong> Primeira m\u00fasica a ter suas ideias iniciais concebidas, por\u00e9m s\u00f3 foi finalizada dois anos depois, seis meses dentro do processo de composi\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum, ap\u00f3s j\u00e1 ter escrito &#8220;Dissociando&#8221; (1) e &#8220;Anedonia&#8221; (8). Lembro de ter a m\u00fasica &#8220;The Captain do Silent Shout&#8221; (The Knife) na cabe\u00e7a, e o clima soturno do \u00e1lbum foi definitivamente uma grande influ\u00eancia nessa \u00e9poca e nessa m\u00fasica espec\u00edfica do \u00e1lbum. A segunda metade da m\u00fasica tem uns padr\u00f5es mel\u00f3dicos nos synths que me lembram Aphex Twin, talvez por que eu estava com a \u201c4\u201d em mente quando escrevi.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04- Naupenc &#8211;<\/strong> Essa faixa \u00e9 essencialmente duas m\u00fasicas, sendo que os primeiros tr\u00eas minutos s\u00e3o uma esp\u00e9cie de introdu\u00e7\u00e3o ambient &#8211; eu estava muito tentando ser Autechre nessa parte. Numa \u00e9poca em que eu estava particularmente obcecado e descobrindo as coisas do final dos anos 90 deles (&#8220;Envane&#8221;, &#8220;LP5&#8221;, &#8220;EP7&#8243;&#8230;), acho que a influ\u00eancia transpareceu aqui. Al\u00e9m disso, eu queria fazer algo que soasse sem andamento, ent\u00e3o toda essa introdu\u00e7\u00e3o est\u00e1 totalmente fora da grade\/click no projeto, e instrumentos como o synthbass, os keys, t\u00e3o em unidades de compasso\/andamento completamente distintos e a ideia \u00e9 que ficasse essa massa sonora central com esses instrumentos fora de sync meio \u201cperif\u00e9ricos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda se\u00e7\u00e3o da m\u00fasica \u00e9 mais club oriented, tipo um&#8230; techno industrial? Tenho muito orgulho do synth bass dessa parte por que foi feito de uma forma muito aleat\u00f3ria. Nessa \u00e9poca (final de 2020) eu usava uma controladora MIDI, que nem funciona mais, e o cabo que conecta ela a interface de \u00e1udio estava meio bugado. Ent\u00e3o quando voc\u00ea gravava a controladora usando ele, ele captava a informa\u00e7\u00e3o midi de uma forma errada, lembro de tocar algo aleatoriamente que soava como muito menos coisas, e quando fui ouvir era como se o cabo tivesse dividido v\u00e1rias das informa\u00e7\u00f5es midi em outras novas informa\u00e7\u00f5es midi, de uma forma perfeita, e at\u00e9 hoje foi o momento que eu mais senti na vida que eu escrevi algo que n\u00e3o fui eu que escrevi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A outra camada mel\u00f3dica principal nessa parte, al\u00e9m do synth bass, que \u00e9 um synth mais distorcido que entra depois, tamb\u00e9m passou por esse \u201cprocesso de muta\u00e7\u00e3o\u201d atrav\u00e9s desse cabo defeituoso. O drop que rola aproximadamente em 5 minutos de m\u00fasica \u00e9 um dos poucos drops do \u00e1lbum e pra mim o cl\u00edmax da m\u00fasica. Ap\u00f3s ele, a se\u00e7\u00e3o final da m\u00fasica, ou terceira parte, foi toda feita em cima dessa progress\u00e3o de acordes que foi praticamente roubada de &#8220;Windowlicker&#8221; de Aphex Twin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O final foi uma das partes mais trabalhosas de fazer por que eu queria retomar a ideia inicial da m\u00fasica de ter uma ambiguidade r\u00edtmica, e o padr\u00e3o da bateria \u00e9 praticamente um bai\u00e3o, mas come\u00e7ando num lugar diferente do compasso, uma semicolcheia adiantada. Ent\u00e3o isso tornou muito confuso na hora de escrever e arranjar as partes de synth do final, por que como \u00e9 tudo muito baseado no ritmo, e tem essa ambiguidade r\u00edtmica, esse groove do final da m\u00fasica se voc\u00ea come\u00e7a a escutar a partir de um momento espec\u00edfico, sem ser da cabe\u00e7a do compasso, come\u00e7a a soar como outra coisa&#8230; pra mim, talvez por que sou de Recife, um bai\u00e3o. Mas lembro de ter essa dificuldade com esse final e ter que dar play do come\u00e7o do compasso, ou ter que sempre contar os tempos pra conseguir me achar, mas consegui escrever todas as partes em cima da batida principal.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05- Sleepless &#8211;<\/strong> Escrita a partir de um groove de bateria usando o polirritmo de 7 contra 3, eu transcrevi ele no ableton usando som de drum machine e a m\u00fasica foi constru\u00edda em cima disso. Al\u00e9m dele, criei outro groove varia\u00e7\u00e3o, que usei como o primeiro groove a ser tocando na introdu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, e novamente no interl\u00fadio. A m\u00fasica foi toda feita em cima dessas duas batidas, e o desafio pra mim foi mant\u00ea-la interessante at\u00e9 o final, tendo essa proposta repetitiva. Acho que as escolhas de timbres de synth, criando diferentes texturas ao longo da m\u00fasica, somado \u00e0s varia\u00e7\u00f5es que Rena (object blue) criou em cima de elementos como os hi hats, usando automa\u00e7\u00f5es de efeitos, sends pra reverbs\/delays&#8230; al\u00e9m das melodias no cl\u00edmax da m\u00fasica, tudo isso ajudou a criar um senso de narrativa, e acho que a natureza repetitiva dos grooves ajudaram a criar uma vibe mais imersiva nessa faixa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Graphie - Bruno Ten\u00f3rio\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3r830rPvr0w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06- Graphie &#8211;<\/strong> A faixa mais club-oriented do \u00e1lbum, foi muito escrita atrav\u00e9s das de duas premissas b\u00e1sicas: fazer algo dan\u00e7ante, e usar o m\u00e1ximo de s\u00edntese granular poss\u00edvel. Eu tinha sido introduzido a esse tipo de s\u00edntese poucos meses antes e estava muito empolgado a aprender a mexer no granulator no ableton. Muitas das camadas percussivas, que soam bastante met\u00e1licas, foram obtidas atrav\u00e9s desse tipo de s\u00edntese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa m\u00fasica passou alguns meses praticamente toda escrita, at\u00e9 que do nada um dia eu consegui finalmente termina-la, quando eu tive a ideia para a ponte (que pra mim, talvez pela progress\u00e3o de acordes dessa parte, ficou com uma vibe bem Daft Punk na \u00e9poca do &#8220;Discovery&#8221;), a\u00ed a m\u00fasica meio que encaixou. Depois s\u00f3 ficou faltando um senso de cl\u00edmax maior no encerramento. Foi quando eu tive a ideia da melodia do final, que pra mim acabou sendo a melhor parte da m\u00fasica, e tamb\u00e9m a melhor melodia do \u00e1lbum. Essa e a seguinte no \u00e1lbum s\u00e3o provavelmente minhas favoritas.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07- Perman\u00e1culo &#8211;<\/strong> Essa m\u00fasica, a mais longa do disco, \u00e9 definitivamente a mais progressiva. Ela tem 10 minutos e \u00e9 dividida em cinco se\u00e7\u00f5es principais, cada uma com em m\u00e9dia dois minutos de dura\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica toda foi constru\u00edda em cima desse mesmo loop de bateria em 5\/4, que escrevi numa pr\u00e1tica de bateria umas semanas antes. Esse loop\/groove, por sua vez, foi inspirado nas linhas de bateria que Hugo Medeiros escreveu, em m\u00fasicas do Rua do Absurdo, como \u201cPalavra\u201d, do \u201cLimbo\u201d (2014), disco esse que teve uma influ\u00eancia absurda em mim no ano levando a composi\u00e7\u00e3o dessa m\u00fasica. Al\u00e9m disso, nessa \u00e9poca eu estudava com Hugo no curso t\u00e9cnico de bateria do Conservat\u00f3rio Pernambucano de M\u00fasica, e a forma dele de pensar ritmo e de uso composicional de polirritmos, e na m\u00fasica centrada no ritmo, tiveram um impacto muito grande em mim e nesse disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa m\u00fasica, junto com &#8220;Dissociando&#8221;, \u00e9 a que mais faz uso de polirritmos. O groove da bateria e o baixo, o cerne da m\u00fasica, tocam em 5, mas o chimbau est\u00e1 em 3. Na primeira se\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, ap\u00f3s a bateria e o baixo e, posteriormente, percuss\u00f5es (paus-de-chuva, semente, congas, bongos, todas estas gravadas por Thiago Duarte, no est\u00fadio Casona, em Recife, onde tamb\u00e9m foram gravadas todas as baterias do disco), s\u00e3o introduzidos dois padr\u00f5es em dois synths diferentes, um em 3 e outro em 5. Logo ap\u00f3s, um timbre agudo bell em 4 \u00e9 introduzido. Ritmicamente a m\u00fasica \u00e9 muito baseada nesse polirritmo de 5:3:4 (5 contra 3 contra 4). Ap\u00f3s esses elementos, entra na m\u00fasica a primeira melodia principal, tocada por um synth vst simulando minimoog, pra mim essa parte era pra ter uma vibe meio anos 70 em rela\u00e7\u00e3o a tipo de som de synth anal\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda se\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, tem uma melancolia que tamb\u00e9m \u00e9 muito inspirada no Autechre dos anos 90, mas dessa vez mais nos \u00e1lbuns iniciais, como o &#8220;Amber&#8221;, principalmente pelo tipo de ambi\u00eancia nesses trabalhos atrav\u00e9s do uso de pads \u201cquentes\u201d. A terceira se\u00e7\u00e3o pra mim sempre foi feita com a inten\u00e7\u00e3o de soar como o \u00e1pice de uma cerim\u00f4nia ritual\u00edstica, que tem tudo a ver com o conceito do filme. Ela \u00e9 onde se faz mais presente as congas e bongos gravados por Thiago. Durante o processo de produ\u00e7\u00e3o, eu e Bruno (Saraiva) nos divertimos muito criando v\u00e1rias e v\u00e1rias camadas de noise para essa parte. A se\u00e7\u00e3o termina com esse crescendo cacof\u00f4nico de percuss\u00f5es e noise synths.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quarta se\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s esse crescendo, tem como proposta soar como um al\u00edvio depois do caos, e serve como uma ponte para a parte final, com a bateria ac\u00fastica com baquetas pela primeira vez na m\u00fasica, em ess\u00eancia tocando uma parte de heavy metal moderno. Essa quinta e \u00faltima se\u00e7\u00e3o, o final da m\u00fasica, novamente faz uso da t\u00e9cnica King Crimson\/TOOL de \u201cdeslocamento\u201d de padr\u00f5es r\u00edtmicos, por falta de um termo melhor, dessa vez tocados por tr\u00eas synths diferentes, o principal deles tem um som bem plucky, e espalhados no campo est\u00e9reo. Isso cria esse senso de movimento entre cada ciclo come\u00e7ando em um lugar diferente do panorama, em momentos diferentes.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08- Anedonia &#8211;<\/strong> Essa \u00e9 basicamente uma m\u00fasica de rock experimental ou rock eletr\u00f4nico. Os primeiros dois riffs de viol\u00f5es pra mim tem uma vibe meio Opeth, enquanto o terceiro tem uma vibe meio Porcupine Tree. Essa m\u00fasica foi escrita quando eu estava numa fase ouvindo muito o primeiro disco solo de John Frusciante, o &#8220;Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt&#8221;, onde ele usa muito, ao longo do disco todo, esse som de guitarra invertido que acaba criando esse clima meio melanc\u00f3lico e fantasmag\u00f3rico. No final da m\u00fasica eu tamb\u00e9m acho uma parte que mostra minha influ\u00eancia de John Frusciante, mas mais o estilo dele no Red Hot p\u00f3s &#8220;Californication&#8221;\/&#8221;By The Way&#8221;, discos solo anos 2000, nessa coisa de tocar os acordes em tr\u00edade dedilhando. Essa m\u00fasica tamb\u00e9m contou com Rafael Cadena, que regravou todos meus viol\u00f5es e guitarras que eu escrevi durante o processo de composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>09- Waste &#8211;<\/strong> A faixa mais pesada do disco, ela \u00e9 pela maior parte do tempo uma mistura de hardcore techno\/gabber com o uso de breakbeat por cima. Ela tem uns synths meio Squarepusher\/Aphex Twin que eu acho que serve pra dar um contraste a todo o peso e distor\u00e7\u00e3o das batidas e do synth bass. O final \u00e9 pra mim uma grande homenagem ao Death Grips. Foi a \u00faltima parte a ser escrita da m\u00fasica e tamb\u00e9m do \u00e1lbum, j\u00e1 que essa foi a \u00faltima m\u00fasica a ser escrita. Tem uns noise synths no come\u00e7o da m\u00fasica que eu tamb\u00e9m adicionei no final do processo de produ\u00e7\u00e3o, que me lembra muito alguns noises que o The Prodigy fazia num disco tipo o &#8216;Fat of the Land&#8221;.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10- Quase Indo &#8211;<\/strong> Acho que essa m\u00fasica funciona bem como uma faixa de encerramento, tanto pelo final, que pra mim sempre soou muito como um \u00f3bvio final de \u00e1lbum, mas tamb\u00e9m por sua vibe meio melanc\u00f3lica, que soa como uma esp\u00e9cie de despedida. Musicalmente, a batida dela \u00e9 basicamente um trap, mas os elementos mel\u00f3dicos trazem essa vibe mais melanc\u00f3lica, e a batida vai se moldando para algo mais breakbeat-oriented tamb\u00e9m. Assim como &#8220;Waste&#8221;, essa m\u00fasica pra mim tem uns elementos bem Squarepusher, mas dessa vez mais no synthbass que rola da metade da m\u00fasica pro final. O final da m\u00fasica, ali\u00e1s, usa um padr\u00e3o r\u00edtmico id\u00eantico ao do come\u00e7o de &#8220;Dissociando&#8221; em 27. (7776) Isso foi uma das \u00faltimas coisas a ser escritas, e deliberadamente for\u00e7ado pra criar um senso de coes\u00e3o e circularidade. N\u00e3o obstante, eu acho que funcionou e deu um encerramento bom pro \u00e1lbum.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BRUNO TEN\u00d3RIO: NAUPENC\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QWjgCgTvLkM?start=1&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Diego Albuquerque \u00e9 o criador do blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.hominiscanidae.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hominis Canidae<\/a>, um dos maiores reposit\u00f3rios de discos brasileiros da \u00faltima d\u00e9cada. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da m\u00fasica brasileira, de norte a sul do pa\u00eds.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"introdu\u00e7\u00e3o por\u00a0Diego Albuquerque Faixa a faixa por\u00a0Bruno Ten\u00f3rio Bruno Ten\u00f3rio \u00e9 um artista pernambucano atualmente radicado no Reino Unido que, ap\u00f3s uma s\u00e9rie \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/29\/faixa-a-faixa-bruno-tenorio-detalha-naupenc-disco-em-que-experimenta-instrumentos-melodicos-como-vozes-ritmicas\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":103,"featured_media":94956,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7550,3],"tags":[8133],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94952"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/103"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94952"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":94965,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94952\/revisions\/94965"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94956"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}