{"id":94787,"date":"2026-03-20T00:01:22","date_gmt":"2026-03-20T03:01:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=94787"},"modified":"2026-04-08T10:50:28","modified_gmt":"2026-04-08T13:50:28","slug":"entrevista-historiador-social-rick-blackman-fala-sobre-seu-livro-babilonia-em-chamas-e-a-luta-antifascista-no-reino-unido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/20\/entrevista-historiador-social-rick-blackman-fala-sobre-seu-livro-babilonia-em-chamas-e-a-luta-antifascista-no-reino-unido\/","title":{"rendered":"Entrevista: Historiador social, Rick Blackman fala sobre seu livro \u201cBabil\u00f4nia em Chamas\u201d e a luta antifascista no Reino Unido"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rick Blackman \u00e9 um historiador social, m\u00fasico e ativista cuja obra tem se destacado por resgatar hist\u00f3rias esquecidas de luta pol\u00edtica, subculturas juvenis e m\u00fasica popular no contexto das transforma\u00e7\u00f5es sociais brit\u00e2nicas. Sua pesquisa alia rigor acad\u00eamico a uma experi\u00eancia vivida \u2014 como participante de movimentos antifascistas e como observador atento das interse\u00e7\u00f5es entre m\u00fasica, pol\u00edtica e cultura. Em obras anteriores como \u201cForty Miles of Bad Road\u201d (2014), Blackman j\u00e1 havia revelado narrativas praticamente apagadas ao explorar, por exemplo, a Stars Campaign for Interracial Friendship (SCIF) \u2014 uma iniciativa antirracista dos anos 1950 que muitos jamais ouviram mencionar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cBabylon&#8217;s Burning: Music, Subcultures and Anti-Fascism in Britain 1958-2020\u201d (2021), Blackman re\u00fane d\u00e9cadas de pesquisa e ativismo em uma an\u00e1lise profunda sobre tr\u00eas momentos cruciais em que jovens, m\u00fasica e pol\u00edtica se entrela\u00e7aram para enfrentar o avan\u00e7o de ideologias fascistas na Gr\u00e3-Bretanha. O livro argumenta que \u201ca m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 apenas trilha sonora de uma era social, mas instrumento de resist\u00eancia pol\u00edtica\u201d \u2014 uma ideia que Blackman desenvolve ao longo das mais de 300 p\u00e1ginas, conectando grupos como a SCIF, o movimento Rock Against Racism e sua encarna\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, Love Music Hate Racism, \u00e0s batalhas antirracistas que permearam a hist\u00f3ria brit\u00e2nica do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um olhar que combina an\u00e1lise cultural e pol\u00edtica, Blackman recusa interpreta\u00e7\u00f5es distantes ou meramente acad\u00eamicas sobre essas lutas. Como ele mesmo afirma, \u201co que geralmente vemos nos relatos convencionais \u00e9 um amontoado indistinto de adolescentes; eu vi rostos, vozes e escolhas deliberadas em campo de batalha cultural\u201d \u2014 frase reveladora de sua abordagem que mescla viv\u00eancia e pesquisa. Agora, \u201cBabylon\u2019s Burning\u201d est\u00e1 prestes a chegar ao Brasil &#8211; com o nome de \u201cBabil\u00f4nia em Chamas &#8211; Subcultura e antifascismo, 1958\u20132020\u201d &#8211; em edi\u00e7\u00e3o nacional, gra\u00e7as <a href=\"https:\/\/benfeitoria.com\/projeto\/babiloniaemchamas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a uma campanha de financiamento coletivo<\/a> promovida pela <a href=\"https:\/\/sobinfluencia.com\/produtos\/pre-venda-babilonia-em-chamas-1w7ni\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Editora Sob Influ\u00eancia<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista, Blackman discute as origens de sua pesquisa, as diferen\u00e7as entre os movimentos antifascistas que analisou, o papel das subculturas juvenis e o que suas descobertas podem nos ensinar em um momento global de ascens\u00e3o de ideias de extrema-direita. Ele explora, com honestidade e paix\u00e3o, como a m\u00fasica \u2014 de jazz e reggae a punk e hip-hop \u2014 tornou-se um terreno f\u00e9rtil de resist\u00eancia pol\u00edtica, e por que essas hist\u00f3rias continuam urgentes hoje.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Babil\u00f4nia em chamas \u2013 Subcultura e antifascismo, 1958-2020, por Rick Blackman\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cWTXhB0hLTs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cBabylon\u2019s Burning\u201d trata de tr\u00eas grandes movimentos musicais que enfrentaram o fascismo na Gr\u00e3-Bretanha. O que o inspirou a estruturar o livro em torno desses momentos hist\u00f3ricos espec\u00edficos?<\/strong><br \/>\nCome\u00e7ou como um acidente. Eu me deparei com a Campanha das Estrelas pela Amizade Interracial (SCIF) tarde da noite, quando estava no YouTube procurando m\u00fasica. A BBC tem um programa principal de atualidades chamado Panorama, e encontrei uma pequena reportagem sobre a SCIF, de 1959, que durava cerca de 7 ou 8 minutos. Eu nunca tinha ouvido falar dessa organiza\u00e7\u00e3o antes, ent\u00e3o fiquei intrigado. Passei semanas tentando descobrir mais sobre eles e percebi que absolutamente nada havia sido escrito sobre esse grupo. Comecei a pesquisar essa hist\u00f3ria perdida e meu primeiro livro, \u201cForty Miles of Bad Road\u201d, foi o resultado dessa investiga\u00e7\u00e3o sobre a SCIF.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu estava prestes a iniciar um doutorado na \u00e9poca e me ocorreu que nunca havia sido feita uma avalia\u00e7\u00e3o das tr\u00eas mais importantes organiza\u00e7\u00f5es musicais antifascistas do Reino Unido. Minha inten\u00e7\u00e3o era comparar os tr\u00eas grupos: quais eram as semelhan\u00e7as, quais eram as diferen\u00e7as, como operavam e que sucesso tiveram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, nunca havia sido realizado um estudo s\u00e9rio sobre organiza\u00e7\u00f5es antifascistas por algu\u00e9m que tivesse sido participante ativo desses movimentos. A maioria dos textos escritos sobre movimentos antifascistas vinha predominantemente de acad\u00eamicos, jornalistas e comentaristas, todos de classe m\u00e9dia e certamente n\u00e3o integrantes das organiza\u00e7\u00f5es sobre as quais escreviam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, eu queria examinar as subculturas juvenis e o papel que desempenharam nos tr\u00eas grupos\/per\u00edodos, tanto do lado antifascista quanto do lado pr\u00f3-fascista. Como esses grupos subculturais interagiam com a m\u00fasica e com as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ativas ao seu redor? Mais uma vez, esse tipo de pesquisa n\u00e3o havia sido realizado por algu\u00e9m que estivesse simultaneamente envolvido em movimentos subculturais e fosse um antifascista ativo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94789 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a Stars Campaign for Interracial Friendship, o Rock Against Racism e o Love Music Hate Racism diferiam em suas estrat\u00e9gias pol\u00edticas e impacto cultural?<\/strong><br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil dar uma resposta breve, mas, embora os tr\u00eas grupos tivessem semelhan\u00e7as, as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas em que cada um atuou os tornaram diferentes por defini\u00e7\u00e3o. A SCIF era, em grande parte, uma organiza\u00e7\u00e3o \u201cde cima para baixo\u201d. Liderada por celebridades, funcionava mais como um grupo de propaganda, utilizando o f\u00e1cil acesso de seus membros \u00e0 m\u00eddia para expressar uma posi\u00e7\u00e3o antirracista. Embora buscasse a participa\u00e7\u00e3o de jovens em sua periferia, por meio de bailes e concertos, a \u00eanfase estava em usar o poder das celebridades para se opor a grupos fascistas ativos e violentos da \u00e9poca. Duas outras diferen\u00e7as importantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es posteriores: a SCIF atuou apenas em Londres e durou pouco mais de um ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Rock Against Racism (RAR), embora tenha come\u00e7ado de maneira semelhante, tornou-se uma organiza\u00e7\u00e3o nacional que, ao mesmo tempo em que utilizava m\u00fasicos populares para destacar a posi\u00e7\u00e3o antirracista e antifascista, enfatizava a autoatividade de pessoas \u201ccomuns\u201d em suas comunidades locais. Essa mobiliza\u00e7\u00e3o por meio de grupos locais do RAR estava ligada a outra organiza\u00e7\u00e3o, a Anti Nazi League, que era mais confrontacional e buscava impedir que fascistas se mobilizassem nas ruas. O RAR tamb\u00e9m realizou grandes carnavais que reuniram mais de 100 mil pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Love Music Hate Racism (LMHR) \u00e9 diferente novamente, pois utiliza uma gama muito mais ampla de estilos musicais para desafiar o racismo e tem a educa\u00e7\u00e3o dos jovens como eixo central. A era digital exige que grande parte do trabalho do LMHR aconte\u00e7a online, com exibi\u00e7\u00f5es em massa, eventos virtuais e entrevistas com m\u00fasicos e artistas brit\u00e2nicos de grime, hip hop e pop. Shows locais e nacionais ainda acontecem, mas com menos frequ\u00eancia. O foco principal est\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o e nas atividades online.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu livro combina hist\u00f3ria cultural com an\u00e1lise pol\u00edtica. Como voc\u00ea equilibra a narrativa sobre m\u00fasica e subculturas com um exame rigoroso dos movimentos fascistas?<\/strong><br \/>\nNo Reino Unido, movimentos culturais e movimentos fascistas e antifascistas sempre estiveram ligados. Teddy Boys, o primeiro movimento subcultural da Gr\u00e3-Bretanha, formaram parte importante de um ressurgimento fascista no final dos anos 1950. Da mesma forma, os skinheads no final dos anos 1970 e os Casuals nos anos 2000. F\u00e3s de jazz e skiffle nos anos 1950, e de punk e reggae nos anos 1970, formaram a base da juventude que se opunha ao racismo e ao fascismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As subculturas s\u00e3o muito menos importantes na sociedade brit\u00e2nica atual, ent\u00e3o a base de participantes do LMHR vem de uma diversidade musical e est\u00e9tica mais ampla. A rela\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica, subculturas e fascismo j\u00e1 existia; a an\u00e1lise foi poss\u00edvel porque eu sabia o que procurar. Eu quis destacar o envolvimento dos jovens nesses movimentos, j\u00e1 que muitos historiadores falam desses grupos como uma massa indistinta de adolescentes, muitas vezes de forma depreciativa. Isso ocorre porque a maioria dos historiadores n\u00e3o \u00e9 de classe trabalhadora, n\u00e3o esteve envolvida em subculturas nem foi antifascista ativa. Eu tinha essa perspectiva \u00fanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que li\u00e7\u00f5es desses movimentos culturais antifascistas do passado voc\u00ea considera mais urgentes ou aplic\u00e1veis hoje?<\/strong><br \/>\nAutoatividade e urg\u00eancia. Ningu\u00e9m vai deter o crescimento preocupante das ideias de extrema-direita no mundo, exceto n\u00f3s mesmos. Em geral, os partidos pol\u00edticos estabelecidos cedem aos racistas e \u00e0 extrema-direita por medo de perder sua base eleitoral. A m\u00eddia tradicional tamb\u00e9m \u00e9 c\u00famplice. Portanto, precisamos confiar nas redes sociais e em nosso pr\u00f3prio potencial organizativo para nos opor ao fascismo. Os fascistas se apoiam no medo e na nossa incapacidade de reconhecer nosso pr\u00f3prio poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao pesquisar a ascens\u00e3o dos movimentos fascistas modernos na Gr\u00e3-Bretanha, que padr\u00f5es ou continuidades mais o surpreenderam?<\/strong><br \/>\nA maleabilidade deles. Nem todos os fascistas s\u00e3o os idiotas que costumam ser retratados. Eles aprenderam a se adaptar a novas situa\u00e7\u00f5es e, embora o n\u00facleo de sua pol\u00edtica permane\u00e7a o mesmo, perceberam como apresent\u00e1-la de diferentes formas e usar \u201ccultura\u201d em vez de ra\u00e7a como ferramenta de recrutamento. Tamb\u00e9m foram muito mais r\u00e1pidos em utilizar as redes sociais e a internet como instrumentos de propaganda e organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94791 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"483\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia3-300x193.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro destaca o papel das subculturas juvenis. Por que voc\u00ea acha que jovens e cenas musicais se tornaram repetidamente centrais na resist\u00eancia antifascista?<\/strong><br \/>\nDe modo geral, as pessoas s\u00e3o mais otimistas quando jovens e politicamente mais propensas \u00e0 esquerda. Al\u00e9m disso, a influ\u00eancia da m\u00fasica negra no Reino Unido n\u00e3o pode ser subestimada. Desde os anos 1950, praticamente toda subcultura teve no cora\u00e7\u00e3o a m\u00fasica negra americana ou caribenha. At\u00e9 mesmo o punk tinha o reggae como trilha sonora nos primeiros clubes de 1976\/77.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea nasceu no Norte de Londres e cresceu em Southall, no Oeste de Londres \u2014 uma \u00e1rea com forte hist\u00f3rico de multiculturalismo e luta pol\u00edtica. Como crescer em Southall moldou sua consci\u00eancia pol\u00edtica?<\/strong><br \/>\nRa\u00e7a e racismo eram \u2014 e continuam sendo \u2014 parte do cotidiano, mesmo em uma cidade multicultural como Londres. Isso me transformou na pessoa que sou hoje. Eu e meus amigos nos tornamos antirracistas comprometidos, em grande parte gra\u00e7as ao RAR. N\u00e3o era \u2014 e ainda n\u00e3o \u00e9 \u2014 poss\u00edvel se engajar na pol\u00edtica no Reino Unido sem que a quest\u00e3o racial fosse um fator.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea descreveu seu envolvimento adolescente com o Rock Against Racism como algo que mudou sua vida. Pode compartilhar uma mem\u00f3ria espec\u00edfica desse per\u00edodo que influenciou o rumo da sua vida e carreira?<\/strong><br \/>\nEntre as muitas mem\u00f3rias marcantes, o assassinato do ativista antirracista Blair Peach pela pol\u00edcia foi decisivo. Ele participava de um protesto contra fascistas em Southall, que tinha uma grande popula\u00e7\u00e3o negra e asi\u00e1tica. Esse evento, somado \u00e0 m\u00fasica que eu ouvia na \u00e9poca \u2014 The Clash, The Jam e The Ruts \u2014 e \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do RAR, me fez perceber que havia pessoas dispostas a arriscar a pr\u00f3pria vida pelo que acreditavam, e que pol\u00edtica e antirracismo eram s\u00e9rios demais para n\u00e3o me envolver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como m\u00fasico, compositor, arranjador e produtor, de que maneira sua pr\u00e1tica art\u00edstica influenciou sua escrita hist\u00f3rica e pol\u00edtica?<\/strong><br \/>\nTento n\u00e3o ser did\u00e1tico. Acredito que deve haver um elemento de sugest\u00e3o tanto na m\u00fasica quanto na hist\u00f3ria. Isso n\u00e3o significa que obras pol\u00edticas mais diretas n\u00e3o tenham seu lugar \u2014 Gil Scott-Heron e Public Enemy s\u00e3o dois exemplos. Mas deixar que as pessoas tirem suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es pode ser mais eficaz do que dizer exatamente o que pensar. Para mim, uma das melhores m\u00fasicas pol\u00edticas \u00e9 \u201cWake Up Everybody\u201d, de Harold Melvin &amp; the Blue Notes \u2014 uma mensagem pol\u00edtica simples, aberta \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o e muito eficaz.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Harold Melvin &amp; The Blue Notes - Wake up Everybody (Official Audio) ft. Teddy Pendergrass\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OOxoeGL3tTo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea atua tamb\u00e9m como professor de Hist\u00f3ria Moderna Brit\u00e2nica, Europeia e Americana. De que forma sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica influencia sua abordagem do ativismo e da hist\u00f3ria cultural?<\/strong><br \/>\nMeu ponto de partida \u00e9 sempre a classe trabalhadora. Sou historiador social. Em qualquer lugar do mundo, \u00e9 a din\u00e2mica entre classes que \u00e9 fundamental para compreender a sociedade. Esses antagonismos impulsionam as mudan\u00e7as. Desenvolvimentos pol\u00edticos n\u00e3o acontecem por acaso ou no v\u00e1cuo; sempre h\u00e1 raz\u00f5es para mudan\u00e7as, para o bem ou para o mal. O papel do historiador social \u00e9 documentar essas transforma\u00e7\u00f5es com precis\u00e3o e honestidade, enfatizando a classe trabalhadora, que frequentemente \u00e9 marginalizada ou ignorada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu fasc\u00ednio vital\u00edcio pelas subculturas \u00e9 evidente no livro. O que o atrai nelas como objeto de estudo e como voc\u00ea define seu potencial pol\u00edtico?<\/strong><br \/>\nFui atra\u00eddo pelas subculturas inicialmente pelas roupas e pela m\u00fasica. Muitas vezes, as \u00fanicas coisas que os jovens podem controlar s\u00e3o o que vestem e o que ouvem. Fui punk no final de 1977 e, quando a vitalidade do punk come\u00e7ou a diminuir, passei a integrar o revival mod. A energia e o esp\u00edrito de rebeldia do punk permanecem comigo at\u00e9 hoje. O potencial pol\u00edtico das subculturas \u00e9 latente; s\u00e3o os acontecimentos hist\u00f3ricos que definem como ele se manifesta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea divide seu tempo entre Liverpool e Londres. Essas duas cidades representam energias culturais ou pol\u00edticas diferentes para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nHoje moro em Londres, mas Liverpool \u00e9 diferente como antiga cidade industrial ligada ao com\u00e9rcio transatl\u00e2ntico de escravizados. Ainda assim, a cidade permanece fortemente inclinada \u00e0 esquerda politicamente. M\u00fasica e futebol s\u00e3o suas caracter\u00edsticas definidoras. Londres \u00e9 muito maior e mais visivelmente multicultural. Apesar das diferen\u00e7as, as semelhan\u00e7as s\u00e3o maiores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Olhando para sua trajet\u00f3ria \u2014 de ativista e m\u00fasico a historiador e autor \u2014 como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o entre pesquisa acad\u00eamica e ativismo em sua pr\u00f3pria vida?<\/strong><br \/>\nPara mim, s\u00e3o insepar\u00e1veis. Como disse Karl Marx: \u201cOs fil\u00f3sofos apenas interpretaram o mundo de v\u00e1rias maneiras; o que importa \u00e9 transform\u00e1-lo\u201d. N\u00e3o vejo sentido em an\u00e1lises pol\u00edticas autocentradas diante de dilemas reais como pobreza, guerra, racismo e sexismo \u2014 quest\u00f5es que figuras como Donald Trump exploram politicamente. Precisamos de ativismo e da documenta\u00e7\u00e3o desse ativismo para conter o crescimento da extrema-direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em breve \u201cBabylon\u2019s Burning\u201d ser\u00e1 publicado no Brasil, como voc\u00ea acha que os leitores brasileiros podem se relacionar com as experi\u00eancias descritas no livro, especialmente considerando a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do Brasil de movimentos pol\u00edticos impulsionados pela m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nA m\u00fasica \u00e9 universal. Mesmo quando n\u00e3o se entende a l\u00edngua, a mensagem pode atravessar barreiras. Bob Marley \u00e9 compreendido no mundo todo. A m\u00fasica pode expressar impot\u00eancia e tamb\u00e9m empoderar. Isso foi verdadeiro no Movimento dos Direitos Civis nos EUA nos anos 1960, no Reino Unido nos anos 1970 e no Brasil dos anos 1960 com a Tropic\u00e1lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 seu conhecimento ou percep\u00e7\u00e3o da cultura musical e pol\u00edtica brasileira, e voc\u00ea v\u00ea paralelos entre os movimentos musicais antifascistas da Gr\u00e3-Bretanha e formas de resist\u00eancia cultural no Brasil?<\/strong><br \/>\nAdoro e coleciono discos de Bossa Nova, um movimento cultural muitas vezes injustamente criticado, mas fundamental na contribui\u00e7\u00e3o do Brasil ao mundo. Como guitarrista, \u00e9 um estilo desafiador e prazeroso de tocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Politicamente, foi positivo ver Jair Bolsonaro perder para Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Ele n\u00e3o perdeu por acaso; movimentos sociais e oposi\u00e7\u00e3o ativa criaram as condi\u00e7\u00f5es para isso. O mesmo ocorreu em ditaduras anteriores no Brasil e em outros lugares \u2014 o fascismo portugu\u00eas, por exemplo, n\u00e3o desapareceu sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pobreza, racismo hist\u00f3rico, viol\u00eancia contra mulheres, sub-representa\u00e7\u00e3o feminina e ataques \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT continuam sendo problemas graves no Brasil \u2014 assim como no Reino Unido. Nosso papel \u00e9 articular essas lutas com o antifascismo em uma for\u00e7a coesa por mudan\u00e7a positiva. As diferen\u00e7as culturais podem variar, mas, no essencial, a luta \u00e9 a mesma. Podemos aprender uns com os outros.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94790 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1061\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/babilonia2-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em \u201cBabylon&#8217;s Burning\u201d, Blackman re\u00fane d\u00e9cadas de pesquisa e ativismo em uma an\u00e1lise profunda sobre tr\u00eas momentos cruciais em que jovens, m\u00fasica e pol\u00edtica se entrela\u00e7aram\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/20\/entrevista-historiador-social-rick-blackman-fala-sobre-seu-livro-babilonia-em-chamas-e-a-luta-antifascista-no-reino-unido\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":94788,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7547,3],"tags":[8125,5096],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94787"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94787"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94787\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":94792,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94787\/revisions\/94792"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94788"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}