{"id":94739,"date":"2026-03-16T09:31:43","date_gmt":"2026-03-16T12:31:43","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=94739"},"modified":"2026-04-03T00:32:22","modified_gmt":"2026-04-03T03:32:22","slug":"sophia-chablau-a-gente-devia-ter-um-debate-mais-aprofundado-sobre-os-caminhos-da-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/16\/sophia-chablau-a-gente-devia-ter-um-debate-mais-aprofundado-sobre-os-caminhos-da-musica\/","title":{"rendered":"Sophia Chablau: &#8220;A gente devia ter um debate mais aprofundado sobre os caminhos da m\u00fasica&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ociocretino\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na estrada desde 2019, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/sophiachablau\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sophia Chablau<\/a> mant\u00e9m, aos 26 anos, uma das trajet\u00f3rias mais inquietas da cena independente brasileira recente. Com a <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/sophiachablaueumaenormeperdade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo<\/a> &#8211; ao lado de Theo Ceccato, Vicente Tassara e T\u00e9o Serson &#8211; lan\u00e7ou dois discos importantes do rock brasileiro nesta d\u00e9cada: o hom\u00f4nimo \u201cSophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo\u201d (2021), produzido por Ana Frango El\u00e9trico, e \u201cM\u00fasica do Esquecimento\u201d (2023), com produ\u00e7\u00e3o de Vitor Ara\u00fajo. J\u00e1 com a <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/besouromulher\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Besouro Mulhe<\/a>r, banda que integra desde antes de criar seu projeto mais conhecido, lan\u00e7ou o EP &#8220;Depois do Carnaval&#8221; (2019) e o \u00e1lbum &#8220;Volto Amanh\u00e3&#8221; (2023).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a Uma Enorme Perda de Tempo, Sophia passou por palcos como Lollapalooza Brasil, Primavera Sound S\u00e3o Paulo, Coala Festival, Se Rasgum, Casar\u00e3o e at\u00e9 o Primavera Sound Barcelona. A presen\u00e7a em grandes festivais marca a inser\u00e7\u00e3o dessa est\u00e9tica num circuito global onde \u201cser independente\u201d j\u00e1 n\u00e3o significa isolamento, mas negocia\u00e7\u00e3o constante com o mercado. Sophia parece ciente desse paradoxo: questiona a l\u00f3gica neoliberal da ind\u00fastria musical ao mesmo tempo em que constr\u00f3i, de forma pragm\u00e1tica, uma carreira sustent\u00e1vel. Entre ironia, vulnerabilidade e experimenta\u00e7\u00f5es, o quarteto consolidou um nome que procura evitar uma zona de conforto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se a m\u00fasica de Sophia nunca foi acomodada, sua postura p\u00fablica tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9. Em mar\u00e7o de 2024, no Lollapalooza Brasil, surgiu uma das primeiras provas: a palavra \u201cr\u00e9u\u201d apareceu projetada no tel\u00e3o antes de Sophia gritar \u201cBolsonaro r\u00e9u\u201d. A plateia respondeu com aplausos e um coro de \u201csem anistia\u201d. A frase \u201cPalestina livre\u201d tamb\u00e9m foi exibida durante o show. J\u00e1 em julho de 2025, na Semana do Rock promovida pela Prefeitura de S\u00e3o Paulo, a proje\u00e7\u00e3o da frase \u201cPalestina livre\u201d levou \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o. A banda afirma que houve censura: o tel\u00e3o foi desligado e o microfone cortado. A Prefeitura declarou que painel e som foram reduzidos preventivamente por supostas viola\u00e7\u00f5es contratuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em ambos os casos, o que estava em disputa n\u00e3o era apenas uma frase projetada, mas o estatuto da m\u00fasica ao vivo como espa\u00e7o de dissenso. Se em um palco o posicionamento foi absorvido como manifesta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, no outro foi anulado rapidamente. E quando Sophia Chablau soltou aquilo no microfone, n\u00e3o parecia interessada em agradar patrocinadores, curadores ou qualquer dessas entidades invis\u00edveis que hoje pairam sobre a m\u00fasica como fantasmas corporativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interessante \u00e9 que Sophia n\u00e3o soa como algu\u00e9m tentando reviver o rock pol\u00edtico dos anos 60, nem como uma panflet\u00e1ria profissional. Filha da escritora e produtora cultural Jeanne de Castro e do m\u00fasico Fabio Tagliaferri (parceiro de grava\u00e7\u00f5es de N\u00e1 Ozzetti, entre muitos outros), Sophia cresceu entre livros e acordes. Tentou o piano, ficou com o viol\u00e3o e desenvolveu uma escrita que j\u00e1 foi chamada de \u201cengra\u00e7adinha\u201d e \u201cesquisita\u201d. Formada em Geografia e ex-professora de cursinho popular na Vila S\u00f4nia, carregou para a m\u00fasica um pensamento estrutural sobre cultura e pol\u00edtica, questionando a l\u00f3gica neoliberal enquanto constr\u00f3i, na pr\u00e1tica, uma carreira sustent\u00e1vel sem abrir m\u00e3o do confronto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paralelamente \u00e0s duas bandas, Sophia ampliou seu universo musical: lan\u00e7ou \u201cHandycam&#8221; (2025) ao lado de Felipe Vaqueiro (Tangolo Mangos). H\u00e1 uma busca constante por deslocamento, como se cada projeto testasse novas fronteiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista, realizada antes da estreia no Centro da Terra antes do in\u00edcio <a href=\"https:\/\/centrodaterra.org.br\/sophia-chablau-2026\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">de sua temporada no m\u00eas de mar\u00e7o<\/a> (recebendo como convidados Ju\u00e7ara Mar\u00e7al, Dora Morelenbaum, Ava Rocha, Negro Leo, Z\u00e9 Ibarra e Vitor Ara\u00fajo, al\u00e9m da Uma Enorme Perda de Tempo), Sophia fala ao Scream &amp; Yell sobre cr\u00edtica e autocr\u00edtica, megalomania, o \u201cotimismo insano\u201d que a impede de ser fatalista e a persistente cren\u00e7a &#8211; talvez ing\u00eanua, talvez necess\u00e1ria &#8211; de que o palco ainda pode funcionar como \u00e1gora. Entre batalhas \u00edntimas e coletivas, ela prop\u00f5e: \u00e9 preciso declarar guerra, mas tamb\u00e9m somar for\u00e7as. Dito isso, pegue seu lugar na trincheira e acompanhe o papo abaixo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sophia Chablau &amp; Felipe Vaqueiro - Live at Sonus Art Fest\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qFcgrrLXChs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 participou de bandas como o Sophia Chablau E Uma Enorme Perda de Tempo, Besouro Mulher, lan\u00e7ou um disco com o Felipe Vaqueiro&#8230; O que essa temporada solo no Centro da Terra vai te permitir fazer que voc\u00ea n\u00e3o fez nesses outros projetos?<\/strong><br \/>\nOlha, eu acho assim: eu gosto muito de tocar com as pessoas que eu admiro. Eu sou compositora e componho para todos os projetos que participo, mas ao mesmo tempo eu nunca tive um projeto de int\u00e9rprete solo assim, s\u00f3 na minha onda. Claro que eu tamb\u00e9m acabo participando mesmo quando eu n\u00e3o estou necessariamente no projeto, como compositora de outras pessoas. Estou como compositora do Z\u00e9 Ibarra, pra Dora [Morelenbaum], pra Ana [Frango El\u00e9trico], enfim. J\u00e1 estive nesse lugar de ter composi\u00e7\u00f5es interpretadas por outras pessoas. Estava conversando com o Alexandre Matias [organizador da programa\u00e7\u00e3o do Centro da Terra] que eu tava querendo estudar essa coisa de interpretar, tocar can\u00e7\u00f5es minhas e dos outros, mas n\u00e3o queria fazer isso para lan\u00e7ar um material agora. E tamb\u00e9m queria pensar em como amadurecer isso. E eu acho que o palco \u00e9 um lugar muito importante pra fazer esse tipo de coisa. N\u00e3o adianta s\u00f3 ensaiar sozinha se n\u00e3o vai fazer um show. E acho que o palco do Centro da Terra acaba sendo um lugar legal pra isso. Mas eu n\u00e3o sou um lobo solit\u00e1rio, eu gosto de ir encontrando as pessoas e ir tocando (risos). E aos poucos saiu esse quadro de estar no palco, mas tamb\u00e9m de estar fazendo uma temporada de experi\u00eancias e trocas com algumas das pessoas com quem eu queria tocar junto. E eu tava precisando disso tamb\u00e9m, de fazer isso com as pessoas que eu mais queria tocar, sem ter a obrigatoriedade de pensar em lan\u00e7ar algo. E quando ele [Matias] me falou dessa oportunidade de fazer l\u00e1 no Centro da Terra, pareceu tipo um sonho da vida. Acho que vai ser uma temporada legal, tem a ver com o lance de eu procurar uma outra instrumenta\u00e7\u00e3o, diferente do que t\u00f4 acostumada a fazer nas bandas, e de ter essa troca no palco com algumas das pessoas que eu mais admiro na m\u00fasica. Acho que isso que vai ser de diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 tinha feito um show solo naquele Casa Bona uma vez, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nFiz algumas vezes. Mas ali n\u00e3o tinha bem bateria, um som de banda mesmo, como vai ter agora com a participa\u00e7\u00e3o do Theo Ceccato na bateria e do Marcelo Cabral no baixo. E essas participa\u00e7\u00f5es especiais dos meus amigos, convidados mesmo. Ent\u00e3o v\u00e3o ter varia\u00e7\u00f5es do tipo \u201ceu sozinha\u201d, \u201ceu com a banda\u201d, \u201ceu com os convidados\u201d, \u201ceu com os convidados e a banda\u201d, e a ideia \u00e9 misturar tudo isso, promover essa troca constante e experimentar coisas novas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sophia Chablau (part. Fabio Tagliaferri, Ana Frango El\u00e9trico e Beb\u00e9 Salvego)  @ Bona (4.5.2023)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2ze4hLwcoYA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que chamar essa temporada de \u201cGuerra\u201d? Tem alguma guerra interna que voc\u00ea est\u00e1 vivendo hoje ou quer provocar nas pessoas que v\u00e3o assistir?<\/strong><br \/>\nEu acho essa palavra &#8220;guerra\u201d uma palavra bonita. Digo, sonoramente eu acho bonita. Claro que o que ela significa \u00e9 uma coisa muito forte e estamos passando por isso em diversas partes do mundo. Mas \u00e9 uma palavra que vem aparecendo bastante na minha cabe\u00e7a e foi me chamando aten\u00e7\u00e3o. Tanto pelas guerras recentes quanto as que j\u00e1 aconteceram, mas pensei tamb\u00e9m em &#8220;guerras mentais\u201d mesmo. Tem tanta coisa que est\u00e1 rolando, tanto em pensamento de querer lutar e fazer o que se quer quanto pelo que se quer ser. E pelo lado da provoca\u00e7\u00e3o, a gente est\u00e1 vivendo numa era de massacres, genoc\u00eddio palestino, e \u00e9 quase como se quisessem que a gente se acostumasse a isso, a essas cenas horr\u00edveis. E numa guerra, se pressup\u00f5e que existe um lado que resiste, n\u00e9? Existe o outro lado, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o do ataque. Tem dois lados em guerra. Ent\u00e3o tem a ver com esse choque entre os dois lados tamb\u00e9m Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m tem a quest\u00e3o da guerra cultural que a gente est\u00e1 vivendo, tanto internacionalmente quanto aqui no pa\u00eds, para continuar fazendo arte. E eu quis chamar estes convidados, meus amigos, para uma esp\u00e9cie de extens\u00e3o dessa guerra, s\u00f3 que no palco. N\u00e3o como um duelo, mas porque a gente tem que somar for\u00e7as para questionar as coisas, come\u00e7ar uma guerra pessoal contra como as coisas est\u00e3o. E esse nome era uma forma de juntar tudo isso, com uma palavra forte, que tivesse todos esses significados ao mesmo tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual vai ser o repert\u00f3rio? Voc\u00ea pretende tocar m\u00fasicas antigas e novas? Dos seus convidados tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nSim, eu vou tocar m\u00fasicas que escolhi com muito carinho de cada um. Mas realmente tem a ver com a liga de cada pessoa, sabe? Tem a coisa de tocar minhas composi\u00e7\u00f5es, mas essas participa\u00e7\u00f5es esteticamente dominam o repert\u00f3rio, porque eu fui atr\u00e1s delas justamente por isso. Pra mim seria f\u00e1cil escolher apenas as minhas m\u00fasicas e o que eu gostaria, mas teve a inten\u00e7\u00e3o de sacar o que combinaria mais com o Z\u00e9, o que combinaria mais com a Ju\u00e7ara, o que combinaria mais com a Ava e o Leo. Essa coisa do encontro com elas. Tem umas sutilezas ali no meio, de pegar o que funcionaria melhor com cada um. Se pensar bem, \u00e9 como se eu estivesse meio que \u201cmontando bandas\u201d para cada uma dessas apresenta\u00e7\u00f5es. Apesar de ser um lance solo, tem essa proposta de tocar algo que seja dentro da coisa deles, mas sem ser exatamente \u201co hit da Ju\u00e7ara\u201d, \u201co hit da Ava\u201d, do Leo, da Dora. \u00c9 mais sobre a coisa de encontrar essas pessoas no palco e captar essas nuances do que pode surgir na apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c0 medida que voc\u00ea foi contando, pensei naquele projeto <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/09\/25\/tres-perguntas-anna-vis-fala-sobre-seu-novo-projeto-o-e-afirma-as-musicas-brasileiras-sao-experimentais-de-nascenca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quinta Lapa<\/a> que acontece na galeria Lapa, Lapa. Voc\u00ea j\u00e1 participou dele uma vez, como que foi?<\/strong><br \/>\nSim, foi em novembro do ano passado, com a Juliana Perdig\u00e3o. Cara, foi bem legal. Ali rolaram muitas m\u00fasicas novas tamb\u00e9m, eu e ela\u2026 Ela tocou uma que ela musicou do Oswald de Andrade, que eu inclusive tamb\u00e9m queria muito tocar nesses novos shows. Mas vai ser uma coisa bem diferente desta vez, com muitos convidados e uma noite diferente da outra.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sophia Chablau E Uma Enorme Perda De Tempo Live - Capim Sessions (Full Session)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/j1Tj2uCy_hs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea pensou nessa curadoria?<\/strong><br \/>\nCara, foi basicamente chamar pessoas que eu admiro e com quem eu gostaria de tocar junto. E fui fazendo uma listinha de pessoas que queria chamar. Engra\u00e7ado \u00e9 que eu fui chamando, mandando mensagem para elas e as coisas foram se encaixando. Na verdade, quando eu criei a parada, eu queria chamar todas as pessoas ao mesmo tempo, mas a\u00ed ia dar um show de umas tr\u00eas horas. A origem tinha a ver com uma megalomania assim, porque eu n\u00e3o ia ter nem agenda pra isso (risos)! Mas a\u00ed conversando com a Fran [Francesca Ribeiro, produtora) e com o Cabral [baixista] fomos resolvendo como ia fazer. Teve uma quest\u00e3o de alinhar o repert\u00f3rio dessas pessoas, marcar ensaios e esse tipo de coisa. E de tirar um pouco essa megalomania de querer fazer um show grande. Eu tinha uma proposta de chamar pessoas para tocar m\u00fasicas delas e que tinham algo que eu queria dizer por meio delas. E claro que tinha mais gente que eu gostaria de chamar, mas a\u00ed passaria de uma temporada s\u00f3. Mas alinhando tudo at\u00e9 que foi f\u00e1cil chamar as pessoas, elas confirmarem e ir combinando as datas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa temporada \u00e9 um laborat\u00f3rio para o pr\u00f3ximo disco com o Uma Enorme Perda de Tempo?<\/strong><br \/>\nSim! Tanto que o primeiro show que a gente <del>vai fazer \u00e9<\/del> fez foi com a Uma Enorme Perda de Tempo. Nesse dia n\u00f3s vamos testar m\u00fasicas novas que a gente quer mostrar. Claro que a gente deve tocar m\u00fasicas que a gente j\u00e1 toca e gosta, mas a ideia tamb\u00e9m \u00e9 apresentar umas coisas novas que estamos arranjando. Mas o que vai ser diferente de um show normal nosso \u00e9 que eu falei pro pessoal &#8220;galera, bora tocar de uma forma pra gente se divertir, sem press\u00e3o de estar tudo certo&#8221;. Essa parada \u00e9 a principal inten\u00e7\u00e3o. Porque eu n\u00e3o tenho essa coisa de querer tocar sempre o mesmo arranjo perfeito. Pra mim \u00e0s vezes as melhores vers\u00f5es de uma m\u00fasica podem ser as que deram tudo diferente do esperado, ou at\u00e9 mesmo meio errado. Mas esses outros quatro shows com os convidados devem seguir um estilo mais parecido, no sentido de ter um repert\u00f3rio dedicado a eles. \u00c9 isso. <em>[Nota: no primeiro show com Uma Enorme Perda de Tempo, Sophia debutou nove m\u00fasicas in\u00e9ditas da banda, al\u00e9m de tocar \u201cAo Sul do Mundo\u201d, \u201cEu N\u00e3o Bebo Mais&#8221; e outras que j\u00e1 apareceram em apresenta\u00e7\u00f5es anteriores.]<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pensa em registrar em v\u00eddeo ou \u00e1udio essas apresenta\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nSim, porque pode ser legal capturar essas vers\u00f5es diferentes que v\u00e3o surgir. Se vamos usar para algo depois, n\u00e3o sei. Mas s\u00f3 pelo registro dessas parcerias, ouvir e ver essa outra forma de tocar essas m\u00fasicas delas j\u00e1 vai ter algo legal e diferente. Nas minhas m\u00fasicas tamb\u00e9m, porque a ideia \u00e9 ter essa troca, uma tentativa de procurar outras sonoridades e inspira\u00e7\u00f5es. \u00c9 um primeiro passo est\u00e9tico. Mas eu n\u00e3o vou ficar muito apegada na coisa de tocar tudo direitinho e perfeito para gravar e lan\u00e7ar. N\u00e3o \u00e9 esse o prop\u00f3sito. \u00c9 mais para documentar o que est\u00e1 acontecendo mesmo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Besouro Mulher - Torresmo (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mYtlodEPgLc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 disse que escreve quase sempre quando est\u00e1 triste. A tristeza ainda \u00e9 um motor criativo potente pra sua m\u00fasica ou isso mudou?<\/strong><br \/>\nOlha, j\u00e1 foi mais. Quando fiz o primeiro disco, eu era muito nova. Acho que eu j\u00e1 tinha sa\u00eddo de casa, mas hoje em dia estou mais velha e me coloco no lugar de compor sempre, todo dia. M\u00fasica virou trabalho. Apesar das pessoas falarem aquilo de \u201ctrabalhe com algo que voc\u00ea ama e passe a odiar isso&#8221;, eu acho que n\u00e3o rolou comigo. Agora eu tenho uma rotina de composi\u00e7\u00e3o e eu sento aqui nessa mesma mesa em que estou agora conversando com voc\u00ea, anoto umas coisas aqui [mostra folhas e cadernos ao redor] e vou trabalhando em cima disso, desde cedo at\u00e9 sair alguma coisa. Ent\u00e3o sim, eu j\u00e1 compus mais nessa onda de estar triste, gosto quando sai algo assim, mas j\u00e1 faz um tempo que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio acessar essa condi\u00e7\u00e3o de estar na merda pra sair algo. At\u00e9 porque voc\u00ea pode estar t\u00e3o na merda a ponto de ficar com a cabe\u00e7a bloqueada e n\u00e3o sair nada. Aqui no meu canto j\u00e1 tem um monte de papel, de palavras, frases, ent\u00e3o escrever m\u00fasica pra mim hoje em dia \u00e9 quest\u00e3o de pensar, pegar esses pap\u00e9is e tentar e tentar e tentar criar algo em cima. Quando existe um momento assim mais de introspec\u00e7\u00e3o acaba saindo uma m\u00fasica mais profunda ou coisa assim. Mas com essa coisa de me pegar para escrever todos os dias, n\u00e3o \u00e9 mais algo obrigat\u00f3rio estar triste n\u00e3o. Quando eu comecei a escrever usando a palavra &#8220;voc\u00ea\u201d foi uma baita descoberta. Porque antes era tudo \u201ceu, eu, eu\u201d. Caralho, sai dessa, sabe? Da\u00ed comecei a pesquisar, como usar mais &#8220;voc\u00ea\u201d, \u201cela\u201d, \u201cele\u201d, etc. O processo de escrever letra e compor virou uma pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 tentou estudar m\u00fasica e disse que n\u00e3o deu muito certo. Voc\u00ea segue teoria musical para compor suas can\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nSim, eu j\u00e1 tentei estudar pela teoria e tudo. Mas hoje em dia eu vou meio de ouvido mesmo. Tem coisa que \u00e9 muito r\u00e1pida. Parece at\u00e9 que \u00e9 meio instintivo. Mas talvez a minha cabe\u00e7a fique trabalhando enquanto eu vou pensando em outras coisas. Quando tentei estudar de verdade, o pessoal falava muito de teoria, mas s\u00f3 depois de tocar na pr\u00e1tica que eu ia entender de fato o que era. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o penso em teoria, mas a forma que eu uso \u00e9 quase espont\u00e2nea. Eu n\u00e3o penso em graus, em tons espec\u00edficos ou coisa assim\u2026 Claro que pelo fato de compor direto eu j\u00e1 fui entendendo o que funciona e o que n\u00e3o casa legal com minha voz, com o que estou fazendo no viol\u00e3o. Acho que de tanto fazer agora sai meio autom\u00e1tico ou por instinto. Mas n\u00e3o fico me baseando tanto em qual tipo de nota eu devo tocar em seguida ou coisa assim. E eu me dedico mais \u00e0s letras mesmo. Fico lendo livros, anoto palavras, fico escrevendo. Tamb\u00e9m acho que ouvir outras coisas prestando aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a melhor forma de aprender, isso que acho que me ajudou bastante. Eu absorvi muita coisa observando os outros. Tipo as minhas piras com m\u00fasica experimental libanesa: eu gosto muito de ouvir e sacar como funciona, mesmo se n\u00e3o vou usar aquilo em uma composi\u00e7\u00e3o minha, mas de alguma forma me ajuda nesse estudo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo - Segredo (Clipe) #MDE\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DfJnsP3ykbQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 chamou \u201cM\u00fasica do Esquecimento\u201d de um \u201cdisco esquisito e megaloman\u00edaco\u201d. O que ficou dessa megalomania e o que voc\u00ea quer deixar para tr\u00e1s?<\/strong><br \/>\nOlha, \u00e9 bem engra\u00e7ado porque esse disco mudou minha vida, n\u00e9? Ele mudou minha vida pra melhor e \u00e9 muito importante pra mim. Realmente abriu muitas portas pra banda. Mas o que \u00e9 esse lance da megalomania: \u00e9 que a gente estava pensando em fazer um som bem espec\u00edfico, um disco que foi feito para ser levado a s\u00e9rio. Porque tinha uma coisa de falar \u201ct\u00e1, a gente \u00e9 meio maluco e engra\u00e7ado\u201d mas teve gente que ouvia o primeiro disco e dizia que minhas m\u00fasicas eram engra\u00e7adas. Mas engra\u00e7adas por que? Ent\u00e3o a gente ficou meio com esse r\u00f3tulo. Acho que isso \u00e9 meio que n\u00e3o saber a hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira, que \u00e9 meio pautada por m\u00fasicas ir\u00f4nicas, tipo Jararaca e Ratinho at\u00e9 Noel Rosa, assim no in\u00edcio das primeiras can\u00e7\u00f5es gravadas. E s\u00f3 come\u00e7a a ficar mais &#8220;chato\u201d ou \u201cs\u00e9rio\u201d com a bossa nova tipo Vin\u00edcius de Moraes. E ao mesmo tempo tem um monte de coisa de bossa nova que os caras s\u00e3o zero careta, s\u00e3o uns doid\u00f5es. Ent\u00e3o essa influ\u00eancia ir\u00f4nica pra mim \u00e9 algo natural. Sei l\u00e1, quando eu cantava \u201cMo\u00e7as e Aeromo\u00e7as, Garotas, garotas de programa de TV\u201d e achavam que a gente seria s\u00f3 uma banda engra\u00e7adinha. E n\u00e3o acho que \u00e9 s\u00f3 um disco engra\u00e7ado, com piadinha. Tem &#8220;Fora do Meu Quarto\u201d e &#8220;Se Voc\u00ea\u201d ali, por exemplo. Da\u00ed nesse outro disco eu quis trazer novos elementos pras can\u00e7\u00f5es, pra mostrar que a gente estava conectado com essas outras refer\u00eancias. E eu acho que a gente conseguiu. Claro que tem coisas ali que eu gosto mais do que outras. Mas eu estava querendo mostrar que eu sei falar sobre as coisas de um outro jeito. E agora sei que eu posso falar dessas coisas do meu jeito sem sentir que \u00e9 uma coisa meio pueril. Teve um certo grau de seriedade que foi importante at\u00e9 pra gente validar um ao outro. Eu acho que as pessoas ouviram o primeiro disco de um jeito e a nossa inten\u00e7\u00e3o foi fazer algo mais profundo nesse outro e isso certamente est\u00e1 l\u00e1. Mas uma coisa da megalomania dele que eu n\u00e3o gostaria de levar pra frente \u00e9 de ter que quebrar a cabe\u00e7a com muito arranjo diferente pro est\u00fadio e pro palco, porque para fazer show a gente teve que fazer muitas adapta\u00e7\u00f5es. Eu tenho essa vontade de se jogar mais e fazer uns shows mais soltos, como deve ser esse do Centro da Terra. Ao mesmo tempo, acho que isso da megalomania tamb\u00e9m j\u00e1 cumpriu o seu papel e n\u00e3o precisamos fazer um \u201cM\u00fasica do Esquecimento II\u201d, saca? J\u00e1 foi, a gente n\u00e3o precisa ser levado sempre a s\u00e9rio. Mesmo sendo uma banda jovem, j\u00e1 provamos que conseguimos fazer isso. Teve um pouco a ver com isso tamb\u00e9m, j\u00e1 que \u201co jovem no Brasil nunca \u00e9 levado a s\u00e9rio\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 disse ser influenciada por Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Guilherme Arantes, Nelson Ned, mas que Negro Leo e Ana Frango El\u00e9trico mudaram sua forma de ver a can\u00e7\u00e3o. O que exatamente virou a chave ali?<\/strong><br \/>\nCara, n\u00e3o lembro exatamente o que pensei quando disse isso antes, mas acho que o que me inspirou neles foi a forma como eles usavam as palavras e a escolha delas nas melodias, sem ser uma coisa t\u00e3o tradicional. Primeiro que era uma coisa muito contempor\u00e2nea pra mim, ouvir e me espelhar nessas pessoas. N\u00e3o \u00e9 como dizer \u201cah, eu quero escrever como os caras escreviam nos anos 60\u201d, sabe? Se voc\u00ea comparar com m\u00fasicas que rolam nas r\u00e1dios, s\u00e3o melodias mais f\u00e1ceis, com pouca varia\u00e7\u00e3o de palavras. Mas no caso deles, \u00e9 diferente, \u00e9 quase outra linguagem e m\u00e9trica. Uma outra disposi\u00e7\u00e3o de palavras que cabem para escrever uma melodia. E a n\u00e3o obrigatoriedade de falar sobre voc\u00ea mesmo para fazer uma letra. \u00c9 mais de voc\u00ea saber manipular a escrita, a disposi\u00e7\u00e3o das palavras, etc. \u00c9 dif\u00edcil pra caralho compor nas m\u00e9tricas do Leo. E as palavras que Ana usava, eram umas coisas meio sinest\u00e9sicas\u2026 Uma est\u00e9tica que me atraiu muito e que eu n\u00e3o tinha visto ainda. Tudo bem que penso que \u00e9 o tipo de impacto que uma pessoa de 19 anos como eu tinha ao ter contato com essas coisas pela primeira vez. Mas realmente me pareceu bem diferente e inspirador. Essa coisa da contemporaneidade, do pessoal tentar uma outra forma de fazer as coisas do jeito delas, sem procurar repetir f\u00f3rmulas e ir atr\u00e1s de outras ideias. Isso que me deixou interessada de verdade neles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 formada em Geografia e deu aula em cursinho popular. O que a Geografia te ensinou ou se reflete na sua carreira como musicista?<\/strong><br \/>\nAcho que o estudo da Geografia me ajudou a perceber a import\u00e2ncia do que a gente faz aqui no Brasil. Acho que isso puxou um lado de ler e de pensar, de aprender e me aprofundar sobre as coisas. De pegar certos dados e interpretar isso e ajudar a pensar sobre o real estado das coisas. \u00c9 uma mat\u00e9ria muito foda pra te estimular a pensar. E isso acabou refletindo na maneira como eu me interesso por m\u00fasica, cultura e pessoas tamb\u00e9m. Com certeza eu teria uma mentalidade muito diferente se n\u00e3o tivesse feito Geografia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sophia Chablau e Uma Enorme Perda De Tempo - Del\u00edcia\/Lux\u00faria (Clipe)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_Ezj_7WGUrY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas humanit\u00e1rias e bem puxadas para a esquerda. Como \u00e9 tentar fazer uma carreira sustent\u00e1vel na m\u00fasica, sendo cr\u00edtica \u00e0 l\u00f3gica neoliberal que trata m\u00fasica como bolsa de valores?<\/strong><br \/>\nOlha, como compositora, eu acho que tenho uma grande facilidade de acabar gravando as minhas m\u00fasicas e me fixar no meu repert\u00f3rio. E eu penso em m\u00fasica como cultura, como uma forma de mudan\u00e7a, de contesta\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o tive que abrir m\u00e3o de coisas que achava importante no que fa\u00e7o. Eu sei que nesse meio posso ser uma exce\u00e7\u00e3o, uma grande exce\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que eu quero que essa exce\u00e7\u00e3o vire a regra. E eu tento despertar essa consci\u00eancia e questionamentos nos meus amigos. Eu tenho o sonho de poder passar isso para as pessoas, e n\u00e3o alimentar o pensamento de que tudo vai dar errado ao fazer isso. \u00c9 como quando voc\u00ea gosta de um som, se sente tocado por aquilo porque \u00e9 especial pra voc\u00ea e quer que outras pessoas tamb\u00e9m conhe\u00e7am. A gente tem que ter espa\u00e7os de discuss\u00e3o para esse tipo de coisa. E eu acho que m\u00fasica \u00e9 uma coisa que tem que ser pensada al\u00e9m do mercado. Politicamente isso \u00e9 necess\u00e1rio. Mas nos espa\u00e7os que a gente teria que discutir esse tipo de coisa, a gente acaba falando sobre sei l\u00e1, coisas do mercado. Networking, fazer contatos, essas coisas. Mas culturalmente o que \u00e9 isso? Porque eu acho que o que a cultura neoliberal quer \u00e9 exatamente isso: n\u00e3o que a gente discuta cultura de verdade, mas o que o mercado quer. E repensar essa estrutura faz parte de um debate m\u00faltiplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que a divis\u00e3o entre os selos musicais dificultam esse tipo de di\u00e1logo entre as bandas e artistas? Acabam virando concorrentes?<\/strong><br \/>\nEu s\u00f3 posso falar por mim mesma e assim, eu tenho uma boa rela\u00e7\u00e3o com o Selo Risco. O que eu acho que falta \u00e9 uma reflex\u00e3o maior entre os selos e as bandas sobre o que fazer e dar um apoio maior para criar esses espa\u00e7os de discuss\u00e3o que comentei. Eu tenho muito respeito pelo trabalho das pessoas, mas tamb\u00e9m acho que a gente devia ter um debate mais aprofundado sobre os caminhos da m\u00fasica. Eu acho muito foda quem est\u00e1 indo na contram\u00e3o de um lance que virou f\u00f3rmula e todo mundo est\u00e1 fazendo. Isso que eu sinto falta at\u00e9 na cr\u00edtica tamb\u00e9m: de ser mais ousado, de contestar algo que est\u00e1 rolando. Esteticamente eu n\u00e3o concordo com muita coisa que vem junto nesse meio da m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que j\u00e1 teve que fazer alguma concess\u00e3o na sua vida art\u00edstica at\u00e9 agora?<\/strong><br \/>\nHmmm\u2026 [pensa um pouco]. Ter Instagram foi uma concess\u00e3o. Eu acho horr\u00edvel ter que usar, mas uso porque preciso. Tem coisas que a gente ainda tem que divulgar por l\u00e1 porque sen\u00e3o n\u00e3o atinge as pessoas. O lance de ter que postar direto, essas coisas. Infelizmente ainda n\u00e3o consegui criar uma alternativa vi\u00e1vel a isso. Mas se pudesse, eu n\u00e3o usaria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sophia Chablau &amp; Felipe Vaqueiro - Viciado em carinho (videoclipe oficial) #Handycam\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kr-65JLqj_c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea l\u00ea as cr\u00edticas que fazem sobre a sua banda? Voc\u00eas lidam bem com isso?<\/strong><br \/>\nLeio sim. Leio todas! Como eu falei antes, do questionamento: eu acho que \u00e9 v\u00e1lido, tem que haver esse debate, tem que discutir a est\u00e9tica das coisas. \u00c9 importante para o amadurecimento das coisas. Eu j\u00e1 levei umas cr\u00edticas foda que eu tomei na cabe\u00e7a, porque eu enxerguei que era algo que realmente fazia sentido. E eu levei isso pra mim a partir dali. Como algo a aprender. Mas eu gosto de ler at\u00e9 as cr\u00edticas maldosas, que algu\u00e9m fez s\u00f3 pra encher o saco. D\u00e1 pra perceber quando o pessoal capricha nesse sentido, acho que vale a pena ler nem que seja pra rir da gente mesmo (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas \u00e9 muito f\u00e1cil pra um cr\u00edtico passar do ponto, ser pau no cu e exagerar.<\/strong><br \/>\nMas eu acho que cr\u00edtico tem que ser pau no cu mesmo! Eu acho que a cr\u00edtica \u00e9 importante\u2026 Tem que ser corajoso pra escrever. Mas eu tamb\u00e9m quero responder se achar que \u00e9 necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A cena independente tem bandas e artistas mais cr\u00edticos ao mercado, como o Nig\u00e9ria Futebol Clube. Al\u00e9m deles, quem mais voc\u00ea acha que se encaixa nessa vis\u00e3o mais contestadora?<\/strong><br \/>\nEu cheguei a fazer uma m\u00fasica pro Nig\u00e9ria Futebol Clube. Eu acho foda o lance da contesta\u00e7\u00e3o, pela rebeldia que tamb\u00e9m acho necess\u00e1ria. Essa coisa provocadora. Mas eu tamb\u00e9m acho que muitos desses convidados que est\u00e3o participando desse meu esquema tem algo disso. Ava Rocha e Negro Leo\u2026 O Jonnata Doll. Todos vindo de lugares bem diferentes. Eu, a Dora, o Z\u00e9 e o Vitor por exemplo s\u00e3o pessoas que eu me interessei pela arte deles e sempre temos uns papos sobre arte e o que est\u00e1 rolando. Tem que acender essa chama de que d\u00e1 pra mudar, entendeu? Porque o que eu mais vejo \u00e9 gente que quer mudar as coisas. Mas voltando ao Nig\u00e9ria, a gente conversa, sei que j\u00e1 rolou uma troca de que de alguma forma a gente meio que ajudou a inspir\u00e1-los\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sei que a banda existe porque eles se encontraram indo pra um show da Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim, verdade! Isso \u00e9 foda. Ent\u00e3o assim, pra mim s\u00f3 da gente ter feito isso de alguma forma j\u00e1 considero um feito (risos)! Mas no geral no meio das bandas acho que o debate ainda tem que crescer mais, essa qualidade contestadora tem que crescer. \u00c9 quest\u00e3o das bandas trocarem mais ideias entre elas sobre aspectos musicais, culturais, conversar sobre composi\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para uma carreira, shows, turn\u00eas. Por isso eu acredito em shows, acredito no encontro das pessoas, em manifesta\u00e7\u00f5es. O encontro de pessoas diferentes, de classes sociais e pa\u00edses diferentes, faz com que a gente perceba que existem outras realidades, que a gente preste mais aten\u00e7\u00e3o no outro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo - Embara\u00e7o total (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2CgFjsIE5eA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 disse que \u201csofre de otimismo insano\u201d. Voc\u00ea consegue conciliar esse otimismo com a situa\u00e7\u00e3o atual do mundo?<\/strong><br \/>\nCara, Eu acho que sim, a gente t\u00e1 vivendo uns tempos foda, mas em algum lugar, vai ter a nossa sa\u00edda disso. N\u00e3o tem como. J\u00e1 passamos por coisas horr\u00edveis e cada merda que acontece, se for olhar de outro ponto de vista, acaba deixando a gente mais forte. N\u00e3o \u00e9 um lance de positividade t\u00f3xica; se a gente seguir em frente pra tentar mudar as coisas e deixar tudo um pouquinho melhor pra cada um, j\u00e1 \u00e9 uma baita vit\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 pra ser uma coisa meio Poliana, \u00e9 mais pensando que aparece uma dificuldade e a gente tem que arranjar um outro jeito de atravessar isso. Se a gente ficar pensando que o mundo t\u00e1 sempre acabando, vai t\u00e1 fazendo o jogo do outro lado. E pra quem veio antes da gente, pra essas pessoas o mundo j\u00e1 acabou, mas no final das contas a gente est\u00e1 aqui sobrevivendo. O que tem pra fazer agora \u00e9 se juntar, se organizar e atravessar isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea \u00e9 sempre otimista; voc\u00ea na verdade n\u00e3o \u00e9 fatalista, certo?<\/strong><br \/>\nExato! Eu odeio esse pensamento de \u201cj\u00e1 acabou, j\u00e1 era\u201d. \u00c9 s\u00e9rio, s\u00f3 releva e continua!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acredita que estamos vivendo um momento de repolitiza\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o brasileira?<\/strong><br \/>\nAcho, mas n\u00e3o exatamente repolitiza\u00e7\u00e3o, porque sempre teve gente que escrevia de forma pol\u00edtica. Em que momento a m\u00fasica brasileira foi despolitizada? Ta\u00ed o rap e o hip hop, por exemplo. Teve o Black Pantera tamb\u00e9m. Talvez hoje em dia esteja mais forte do que sei l\u00e1, h\u00e1 dez anos atr\u00e1s. Para muita gente \u00e9 mais f\u00e1cil n\u00e3o dizer nada, mas acho que n\u00e3o tem mais como n\u00e3o tocar em assuntos pol\u00edticos. Tem ficado cada vez mais evidente qual que \u00e9 o seu lado. Isso \u00e9 uma forma meio burguesa de lidar com a can\u00e7\u00e3o. Depois do que rolou aqui com aqueles quatro anos dif\u00edceis pra caralho com Bolsonaro, que da\u00ed veio o Lula mas agora vem o Trump e a situa\u00e7\u00e3o na Palestina, precisa falar. N\u00e3o d\u00e1 mais pra fugir disso. Tem muita coisa acontecendo e eu percebo que quanto mais pessoas falarem contra isso, vamos ganhando mais for\u00e7a. E talvez nem seja coisa para a gente conseguir uma vit\u00f3ria de verdade agora, mas sim daqui a alguns anos. Tem que fazer planos futuros, se organizar. Todas as mudan\u00e7as que aconteceram no mundo precisaram de tempo. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A experi\u00eancia em Portugal e a rela\u00e7\u00e3o com o selo Cuca Monga mudaram sua percep\u00e7\u00e3o de m\u00fasica no Brasil? Voc\u00ea pensa numa turn\u00ea mais extensa fora daqui?<\/strong><br \/>\nEssa passagem por Portugal foi uma coisa bem legal, mas tamb\u00e9m meio complexa. Foi uma turn\u00ea por quatro cidades, e uma delas foi Lisboa, onde fica a sede da Cuca Monga. Quando eu voltei, demorou um tempo pra eu voltar ao normal, fiquei meio depr\u00ea. Fiquei muito pensando nessa sensa\u00e7\u00e3o de sair [do pa\u00eds] e depois voltar. Me deu vontade de viajar mais, conhecer a vida. Conhecer outras culturas e experi\u00eancias em sociedade, n\u00e3o s\u00f3 fora do pa\u00eds mas dentro dele tamb\u00e9m. Mas o que rolou \u00e9 que eu fui muito bem recebida l\u00e1. A r\u00e1dio em Portugal funciona de outro jeito, h\u00e1 muito espa\u00e7o para pessoas fazendo coisas legais e diferentes. Fiz grandes amigos quando passei por l\u00e1, amigos que gosto pra caralho. E acho que tamb\u00e9m consegui abrir os olhos dessas pessoas, que n\u00e3o tinham muita ideia da segrega\u00e7\u00e3o que tem entre eles l\u00e1 e n\u00f3s aqui. E essas pessoas j\u00e1 vieram pro Brasil inclusive, porque eu enchi o saco para que elas tivessem essa outra perspectiva daqui. Foi bom pra mim tamb\u00e9m porque descobri umas coisas sobre os meus privil\u00e9gios e os n\u00e3o-privil\u00e9gios. \u00c9 bom ter essa ponte e transformar a cabe\u00e7a. Foi da hora e gostaria de fazer de novo, mesmo que n\u00e3o fosse a trabalho, pra tocar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo - Idas e Vindas do Amor @ Coala Festival, SP - 17\/9\/2023\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-u2oNg2XPB8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo + Ana Frango El\u00e9trico - Pop cabecinha (ao vivo no CCSP)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/c4fjTjxxVvA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Besouro Mulher - P\u00e3o Franc\u00eas @ Casa RCKB, S\u00e3o Paulo (12\/8\/2023)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/caORUNNbOv8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na estrada desde 2019, Sophia Chablau mant\u00e9m, aos 26 anos, uma das trajet\u00f3rias mais inquietas da cena independente brasileira recente.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/16\/sophia-chablau-a-gente-devia-ter-um-debate-mais-aprofundado-sobre-os-caminhos-da-musica\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":101,"featured_media":94741,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7547,3],"tags":[6874],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94739"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/101"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94739"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94739\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":94769,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94739\/revisions\/94769"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94741"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}