{"id":9471,"date":"2011-08-17T09:42:40","date_gmt":"2011-08-17T12:42:40","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9471"},"modified":"2023-11-08T13:36:20","modified_gmt":"2023-11-08T16:36:20","slug":"livros-herzog-de-saul-bellow","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/17\/livros-herzog-de-saul-bellow\/","title":{"rendered":"Esse voc\u00ea precisa ler: &#8220;Herzog&#8221;, de Saul Bellow"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9472\" title=\"saul_below\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/saul_below.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Esse Voc\u00ea Precisa Ler<br \/>\n&#8220;Herzog&#8221;, de Saul Bellow<br \/>\npor Jonas Lopes<\/strong><br \/>\n<em>Texto publicado originalmente no Scream &amp; Yell em 04\/09\/2006<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Eu era como um pobre que mistura menos l\u00e1grimas a seu p\u00e3o seco se diz a si mesmo que dali a pouco um estranho vai lhe deixar toda sua fortuna. Para tornar a realidade suport\u00e1vel, somos todos obrigados a alimentar algumas pequenas loucuras dentro de n\u00f3s&#8221;<\/em><br \/>\n(Marcel Proust, \u00c0 Sombra das Mo\u00e7as em Flor)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moses Herzog est\u00e1 em crise. Seu segundo casamento acaba de fracassar. Sua esposa Madeleine o trocou por seu melhor amigo, Valentine. Sua filha est\u00e1 a centenas de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Seu filho do primeiro casamento o v\u00ea como uma figura exc\u00eantrica, distante, rid\u00edcula. Longe dos dias de acad\u00eamico brilhante, ele agora d\u00e1 aulas para adultos em uma escola noturna. Seu aguardado p\u00f3s-doutorado sobre o Romantismo resultou em &#8220;oitocentas p\u00e1ginas de argumenta\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica&#8221;. Todas as pessoas ao redor &#8211; amigos, irm\u00e3os, colegas de trabalho, a ex-sogra, o m\u00e9dico, o advogado &#8211; vinham tratando-o como a um louco, &#8220;e por algum tempo ele mesmo duvidara que estivesse s\u00e3o&#8221;. Ser\u00e1? &#8220;Se estou louco, tudo bem&#8221;, pensa. A \u00fanica pessoa que parece compreend\u00ea-lo \u00e9 sua jovem namorada argentina Ramona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele precisa de alguma forma dar a volta por cima. Herzog come\u00e7a a se sentir &#8220;confiante, alegre, l\u00facido e forte&#8221; e passa a escrever cartas para &#8220;todas as pessoas do mundo&#8221;. Afinal, &#8220;tinha sido tomado pela necessidade de tudo explicar, contar, justificar, p\u00f4r em perspectiva, esclarecer, corrigir&#8221;. As cartas s\u00e3o a forma que o protagonista do sexto romance de Saul Bellow, Herzog, de 1964, encontra para exorcizar os dem\u00f4nios internos que o v\u00eam acometendo depois das trag\u00e9dias pessoais. Ele nunca envia as cartas &#8211; o simples fato de escrev\u00ea-las ou imagin\u00e1-las o alivia. Entre os destinat\u00e1rios, as duas ex-esposas, o psiquiatra, o monsenhor que converteu Madeleine ao catolicismo; e tamb\u00e9m gente mais ilustre: Nietzsche. Adlai Stevenson. Heidegger. Deus. Ele mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Herzog inteiro se passa em poucos dias (fisicamente, ao menos; grande parte se passa na cabe\u00e7a de Moses, que reconta sua vida): Saul Bellow n\u00e3o precisa de mais do que isso para tra\u00e7ar um dos mais profundos perfis psicol\u00f3gicos de uma personagem que as \u00faltimas d\u00e9cadas viram. Herzog \u00e9 um po\u00e7o de contradi\u00e7\u00f5es que, em conflito, confundem-se e des\u00e1guam em sua personalidade. \u00c9 um intelectual brilhante, mas sua erudi\u00e7\u00e3o n\u00e3o impede que cometa atitudes inacreditavelmente juvenis. \u00c9 l\u00facido e consciente do qu\u00e3o pat\u00e9ticas s\u00e3o essas situa\u00e7\u00f5es, e mesmo assim n\u00e3o consegue conter os impulsos e torna a comet\u00ea-las. &#8220;Herzog era um pouco d\u00e9bil mental, nada pr\u00e1tico, embora intelectualmente ambicioso e de certa forma tamb\u00e9m arrogante&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saul Bellow era um romancista \u00e0 moda antiga. No discurso que fez ao receber o Pr\u00eamio Nobel, em 1976, atacou Alain Robbe-Grillet e o pessoal do nouveau roman por decretarem o fim do romance de personagens. Orgulhava-se por centrar seus livros nos indiv\u00edduos e, atrav\u00e9s deles, tentar entender um pouco mais o seu tempo, seu pa\u00eds e a condi\u00e7\u00e3o humana. N\u00e3o \u00e0 toa, Bellow, falecido em 2005, era tido como o mais russo dos autores norte-americanos. Por certo, como nos grandes romances de Dostoi\u00e9vski, seus protagonistas erram em busca de um sentido para a exist\u00eancia, alternando lucidez e filosofia com tormentos da alma, amor pelo sofrimento e falta de senso de rid\u00edculo. O pr\u00f3prio Herzog j\u00e1 foi comparado ao pr\u00edncipe Michkin, de O Idiota, e tamb\u00e9m aos protagonistas de Tchekhov. Bellow, como leitor, rejeitava as novidades passageiras. Recorria sempre a seus favoritos: franceses e russos do final do s\u00e9culo 19, Conrad, Shakespeare, o Antigo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse embate entre o arcaico e o moderno norteia Herzog. O romance \u00e9 um grito de desespero humanista &#8211; um pedido de socorro, um aviso do que est\u00e1 por vir, um libelo desencantado em defesa do indiv\u00edduo. Com o instinto dos g\u00eanios, Bellow anteviu os efeitos que a contracultura e as mudan\u00e7as sociais dos anos sessenta trariam: &#8220;Estavam demolindo e levantando edif\u00edcios. A avenida estava repleta de caminh\u00f5es que faziam concreto, trescalando cheiro de areia molhada e cimento. Embaixo, os bate-estacas batiam e golpeavam (&#8230;) na rua, os \u00f4nibus exalavam fuma\u00e7a venenosa de combust\u00edvel barato e os carros se amontoavam. Era sufocante, triturante, a horr\u00edvel confus\u00e3o das m\u00e1quinas e da multid\u00e3o desesperadamente resoluta&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio ao concreto, pessoas. As formigas humanas das rec\u00e9m-formadas massas s\u00e3o enquadradas num cotidiano mec\u00e2nico, cada vez mais apressado e menos reflexivo &#8211; o in\u00edcio de um processo cujos efeitos sentimos hoje mais do que nunca. Bellow levaria os contrastes urbanos ainda mais a fundo em O Planeta do Sr. Sammler, na famosa cena em que um negro persegue Arthur Sammler pelos becos de Nova York, encurrala-o e mostra-lhe seu membro. Por tr\u00e1s de tudo, afinal, est\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es, e elas est\u00e3o se deteriorando. H\u00e1 um trecho de Proust que sintetiza o comportamento de Moses Herzog:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No solit\u00e1rio, a reclus\u00e3o, mesmo sendo absoluta e durando at\u00e9 o fim da vida, tem muitas vezes por principio um amor desordenado da multid\u00e3o que o avassala tanto, acima de qualquer outro sentimento, que, n\u00e3o podendo obter, ao sair, a admira\u00e7\u00e3o do porteiro, dos transeuntes, do cocheiro ali parado, prefere nunca ser visto por eles e, por isso, renuncia a toda a atividade que o obrigasse a sair de casa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00e1 para n\u00e3o fazer refer\u00eancia a Proust (outro autor estimado por Bellow), quando a segunda esposa de Herzog se chama Madeleine? Como o biscoitinho de Marcel, a vis\u00e3o da ex-mulher traz ao nosso her\u00f3i muitas recorda\u00e7\u00f5es; diferentemente do franc\u00eas, as recorda\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o l\u00e1 muito positivas. Por ela, Herzog abandonou um bom cargo numa universidade e se mudou para uma casa de campo caindo aos peda\u00e7os, nos cafund\u00f3s da Nova Inglaterra. L\u00e1 eles conhecem Valentine Gerbach, que logo se torna o melhor amigo de Moses e depois amante de Madeleine. Ela, ali\u00e1s, \u00e9 um show \u00e0 parte: inteligent\u00edssima e manipuladora, abandona o marido quando sua situa\u00e7\u00e3o intelectual j\u00e1 n\u00e3o depende mais dele. Em um mundo onde o humanismo est\u00e1 em decad\u00eancia, compaix\u00e3o \u00e9 um valor falido. Bellow, venenoso, usa seu interlocutor para alfinetar as feministas que costumam tach\u00e1-lo de mis\u00f3gino: &#8220;Nunca entenderei as mulheres. O que elas querem? Comem salada e bebem sangue humano&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com toda a vontade de fazer as coisas direito, Herzog n\u00e3o acerta. Seus impulsos sempre o levam a flertar perigosamente com o pat\u00e9tico. Ele viaja de trem para visitar uma velha amiga na praia e relaxar do caos de Nova York. Chega na casa dela, sobe para se trocar e percebe que n\u00e3o deveria estar ali. Escreve um bilhete, sai escondido e volta para NY de avi\u00e3o, poucas horas depois de ter sa\u00eddo de l\u00e1. Em outra cena, ele v\u00ea sua filha depois de uma longa aus\u00eancia e a leva para passear. No seu bolso est\u00e1 uma arma de seu finado pai, que antes de pegar a crian\u00e7a ele havia tirado da gaveta de sua ex-madrasta moribunda. Herzog, claro, bate o carro, a pol\u00edcia descobre a arma carregada e sem registro e ele \u00e9 detido. Madeleine tem mais uma chance de provar seu desequil\u00edbrio mental: outro gol para ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suas fren\u00e9ticas cartas mentais, Herzog tenta entender o caos que o cerca. Sim, ele &#8220;diz&#8221; a Nietzsche, a patul\u00e9ia vive seus dias finais, aquela &#8220;ral\u00e9 comum, pr\u00e1tica, ladra, fedorenta, est\u00fapida, sem luzes&#8221;; s\u00f3 que as pessoas cultas ser\u00e3o levadas junto com elas: &#8220;a humanidade&#8221;, avisa ao pensador alem\u00e3o, &#8220;vive, principalmente, de acordo com id\u00e9ias pervertidas. Pervertidas, suas id\u00e9ias n\u00e3o s\u00e3o melhores que aquela do Cristianismo, que voc\u00ea condena&#8221;. A Heidegger, pergunta: &#8220;gostaria de saber a que o senhor se refere quando usa a express\u00e3o &#8216;a queda no cotidiano&#8217;. Quando ocorreu esta queda? Onde est\u00e1vamos, quando isso aconteceu?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com &#8220;tenta entender o caos&#8221; eu quero dizer &#8220;tenta entender a si mesmo&#8221;. Herzog nunca consegue descobrir se est\u00e1 louco, como afirmam Madeleine e Valentine, ou se \u00e9 o mundo que est\u00e1 errado. Ao assistir o julgamento de uma m\u00e3e que assassinara o pr\u00f3prio filho, s\u00f3 consegue exclamar: &#8220;N\u00e3o posso entender!&#8221;. Seus sentimentos quanto \u00e0 humanidade s\u00e3o, como tudo em Moses, paradoxais. Embora \u00e0s vezes a rejeite (&#8220;Ser\u00e1 que amo a humanidade? O suficiente para salv\u00e1-la se tivesse poder para mand\u00e1-la ao inferno?&#8221;), no caso do menino assassinado pela m\u00e3e, sofre com sinceridade: &#8220;n\u00e3o conhecia nada a n\u00e3o ser seus pr\u00f3prios sentimentos humanos, nos quais n\u00e3o achava nada \u00fatil. E se chorasse? Ou orasse? (&#8230;) e pelo que podia rezar na moderna, p\u00f3s&#8230; p\u00f3s-crist\u00e3 Am\u00e9rica? Justi\u00e7a? Justi\u00e7a e merc\u00ea? E afastar com preces a monstruosidade da vida, o sonho mau que ela \u00e9?&#8221;. Em seu sentimento de impot\u00eancia, Moses Herzog \u00e9 um niilista do niilismo. N\u00e3o \u00e9 que Deus esteja morto; Ele s\u00f3 \u00e9 a morte. E n\u00e3o h\u00e1 humanismo que resista a uma certeza dessas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de toda a reflex\u00e3o, Herzog \u00e9, em ess\u00eancia, um romance c\u00f4mico, daquela comicidade t\u00edpica dos judeus. N\u00e3o faz apenas rir; faz gargalhar, nos momentos mais inspirados. \u00c9 um dos livros que mais se aproximaram daquilo que Br\u00e1s Cubas queria dizer com algo escrito &#8220;com a pena da galhofa e a tinta da melancolia&#8221;. O pr\u00f3prio Herzog, no fim do livro, consegue rir de si mesmo e se conformar. &#8220;Posso ter a pretens\u00e3o de muita escolha? Olho para mim mesmo e vejo pernas, coxas, p\u00e9s, uma cabe\u00e7a. Esta estranha organiza\u00e7\u00e3o, sei que morrer\u00e1 (&#8230;) O que voc\u00ea quer, Herzog? S\u00f3 isto &#8211; e n\u00e3o ser uma coisa solit\u00e1ria. Estou muito satisfeito em ser, ser somente como desejo, e permanecer na posse disto tanto tempo quanto puder&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele agora est\u00e1 pronto para finalmente se entregar \u00e0 ador\u00e1vel Ramona &#8211; seu amor pelo sofrimento ser\u00e1 colocado em banho-maria. E j\u00e1 pode abandonar as cartas. &#8220;Naquele momento, n\u00e3o tinha mensagens para ningu\u00e9m. Nada. Nem uma palavra&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS: Uma nota para lamentar o tratamento editorial recebido por Saul Bellow no Brasil. Sua obra, atualmente em dom\u00ednio da Rocco, vem sendo bastante negligenciada. Os \u00fanicos t\u00edtulos em cat\u00e1logo s\u00e3o os livros p\u00f3s-Nobel que, embora sejam muito bons (sobretudo Ravelstein, o \u00faltimo), n\u00e3o representam sua melhor fase. As obras-primas &#8211; Herzog, O Legado de Humboldt, O Planeta do Sr. Sammler, Henderson, o Rei da Chuva &#8211; s\u00f3 podem ser encontradas em sebos, em edi\u00e7\u00f5es da era mesoz\u00f3ica. Em um pa\u00eds s\u00e9rio, Bellow teria uma estante s\u00f3 para si, como acontece com autores best-sellers por aqui. Mas como estamos no Brasil&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trechos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;De in\u00edcio fazia notas desconexas. Eram fragmentos, s\u00edlabas sem sentido, exclama\u00e7\u00f5es, prov\u00e9rbios, cita\u00e7\u00f5es distorcidas ou, segundo o i\u00eddiche de sua m\u00e3e, trepverter &#8211; respostas que v\u00eam \u00e0 mente quando j\u00e1 estamos descendo as escadas. Escrevia, por exemplo: Morte &#8211; morrer &#8211; viver novamente &#8211; morrer de novo &#8211; viver. Ningu\u00e9m, morte nenhuma. A alma penitente de joelhos? Pode at\u00e9 ser \u00fatil. Esfrega o ch\u00e3o. Em seguida: Responda a um tolo de acordo com sua tolice e ele ser\u00e1 s\u00e1bio. N\u00e3o responda a um tolo de acordo com sua tolice e voc\u00ea ser\u00e1 tolo como ele. Escolha. Fazia tamb\u00e9m anota\u00e7\u00f5es como esta: Segundo Walter Winchell, J.S. Bach cal\u00e7ou luvas negras para compor uma missa de r\u00e9quiem. Nem Herzog sabia o que pensar de seus rabiscos. Abandonava-se \u00e0 excita\u00e7\u00e3o que os inspirava e \u00e0s vezes suspeitava que fossem um sintoma da desintegra\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o se assustava. Deitado no sof\u00e1 do apartamento kitchenette que alugara na Rua 17 imaginava ser uma ind\u00fastria de Hist\u00f3ria Pessoal e analisava a si mesmo, do nascimento \u00e0 morte. Escreveu num peda\u00e7o de papel: N\u00e3o posso justificar. Examinando sua vida, conclui que havia feito tudo errado &#8211; Tudo. Sua vida estava arruinada, mas desde que n\u00e3o houvera muito para come\u00e7ar, n\u00e3o havia muito para lamentar. No sof\u00e1 fedorento, enquanto meditava sobre os s\u00e9culos dezenove, dezesseis e dezoito, extraiu do \u00faltimo um ditado que gostava: Tristeza, Senhor, \u00e9 uma esp\u00e9cie de frivolidade&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Mas como descrever tal li\u00e7\u00e3o? A descri\u00e7\u00e3o poderia come\u00e7ar com sua selvagem desordem interna, ou mesmo com o fato de estar tremendo. E por qu\u00ea? Porque deixava o mundo inteiro pression\u00e1-lo. Por exemplo? Bem, por exemplo, o que significa ser um homem? Numa cidade. Num s\u00e9culo. Em transi\u00e7\u00e3o. Em uma massa. Transformado pela ci\u00eancia. Sob o poder organizado. Sujeito a mecanismos de controle tremendos. Num estado decorrente da mecaniza\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s o \u00faltimo fracasso das esperan\u00e7as radicais. Numa sociedade que n\u00e3o era comunidade nenhuma e depreciava a pessoa. Em virtude do multiplicado poder dos n\u00fameros, que tornavam a pessoa desdenh\u00e1vel. Que consumia bilh\u00f5es em despesas militares contra inimigos externos, mas n\u00e3o gastava para ter ordem dentro de casa. O que abriu caminho para a selvageria e a barb\u00e1rie em suas pr\u00f3prias cidades grandes. Ao mesmo tempo, a press\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas que descobriram o que esfor\u00e7os e pensamentos unidos em comum acordo podem conquistar. Enquanto megatoneladas de \u00e1gua formam organismos no fundo dos oceanos. Enquanto as mar\u00e9s d\u00e3o polimento \u00e0s pedras. Enquanto os ventos escavam os rochedos. A beleza da supermaquinaria descortina uma vida nova para a humanidade inumer\u00e1vel. Voc\u00ea lhes negaria o direito de existir? Pediria a eles que trabalhassem e passassem fome, enquanto voc\u00ea desfruta Valores antiquados? Voc\u00ea &#8211; voc\u00ea mesmo \u00e9 filho dessa massa e irm\u00e3o de todo o resto. Ou ent\u00e3o \u00e9 um ingrato, um diletante, um idiota. Pronto, Herzog, pensou Herzog, j\u00e1 que voc\u00ea est\u00e1 pedindo um exemplo, a\u00ed est\u00e1 como s\u00e3o as coisas&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><em><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Mas qual \u00e9 a filosofia dessa gera\u00e7\u00e3o? N\u00e3o que Deus est\u00e1 morto; esse ponto foi ultrapassado h\u00e1 muito tempo. Talvez pudesse ser estabelecido: a morte \u00e9 Deus. Essa gera\u00e7\u00e3o pensa (e este \u00e9 seu pensamento dos pensamentos) que nada fiel, vulner\u00e1vel e fr\u00e1gil pode ser dur\u00e1vel ou ter poder duradouro. A morte espera por estas coisas assim como um ch\u00e3o de cimento espera por uma l\u00e2mpada que cai. A fr\u00e1gil concha de vidro perde seu min\u00fasculo v\u00e1cuo com um estrondo, e \u00e9 tudo. \u00c9 assim que ensinamos metaf\u00edsica uns para os outros. Voc\u00ea pensa que a Hist\u00f3ria \u00e9 a Hist\u00f3ria dos cora\u00e7\u00f5es amorosos? Seu tolo! Olhe para estes milh\u00f5es de mortos. Pode sentir pena deles, sofrer por eles? N\u00e3o pode nada! H\u00e1 mortos demais. N\u00f3s os queimamos at\u00e9 cinzas, e os enterramos com escavadoras de terraplanagem. A Hist\u00f3ria \u00e9 a hist\u00f3ria da crueldade, e n\u00e3o do amor, como pensam os homens ternos. Fizemos experi\u00eancias com todas as capacidades humanas para ver qual \u00e9 forte e admir\u00e1vel, o provamos que nenhuma \u00e9. Existe somente senso pr\u00e1tico. Se o velho Deus existe, deve ser um assassino. Mas o \u00fanico deus verdadeiro \u00e9 a morte. Eis a realidade, sem ilus\u00f5es covardes. Herzog ouvia aquilo como se estivesse sendo dito lentamente dentro de sua cabe\u00e7a. Sua m\u00e3o estava molhada e ele soltou o bra\u00e7o de June. Talvez o desmaio tivesse sido provocado n\u00e3o pelo acidente, mas pela premoni\u00e7\u00e3o de tais pensamentos. A n\u00e1usea era somente apreens\u00e3o, excita\u00e7\u00e3o, a intensidade insuport\u00e1vel de tais id\u00e9ias&#8221;. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Jonas Lopes\nHerzog nunca consegue descobrir se est\u00e1 louco, como afirmam Madeleine e Valentine, ou se \u00e9 o mundo que est\u00e1 errado.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/17\/livros-herzog-de-saul-bellow\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":122,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[4772,4941],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9471"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/122"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9471"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9471\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58581,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9471\/revisions\/58581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9471"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9471"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}