{"id":94611,"date":"2026-03-08T23:37:49","date_gmt":"2026-03-09T02:37:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=94611"},"modified":"2026-03-28T00:21:52","modified_gmt":"2026-03-28T03:21:52","slug":"com-a-noiva-maggie-gyllenhaal-cria-um-potente-e-urgente-protesto-contra-a-misoginia-e-sua-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/08\/com-a-noiva-maggie-gyllenhaal-cria-um-potente-e-urgente-protesto-contra-a-misoginia-e-sua-violencia\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: Com &#8220;A Noiva!&#8221;, Maggie Gyllenhaal cria um potente e urgente protesto contra a misoginia e sua viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/joao.paulo.barreto.824529\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escritora precoce em seu brilhantismo, a brit\u00e2nica Mary Shelley tinha apenas 19 anos quando, em 1816, foi desafiada pelo poeta Lord Byron a escrever uma hist\u00f3ria de terror. Do desafio, surgiu a ideia conceitual e um esbo\u00e7o do que viria a se tornar o cl\u00e1ssico livro \u201cFrankenstein ou o Prometeu Moderno\u201d, publicado inicialmente de forma an\u00f4nima um tempo depois, j\u00e1 em 1818. \u00c0 \u00e9poca, em um relacionamento proibido com o poeta Percy Bysshe Shelley, que era casado, Mary vivia com ele j\u00e1 h\u00e1 dois anos. Acabariam por se casar eventualmente e tiveram quatro filhos, sendo que tr\u00eas deles morreram ainda crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tragicidade de sua vida que parecia refletir sua maior obra escrita poucos anos antes, mais um golpe seria aplicado com o falecimento de Percy, morto por afogamento. Aos 24 anos, a escritora se viu vi\u00fava e m\u00e3e solteira, tendo que se dedicar \u00e0s fun\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas e ao sustento de seus filhos. Focada na escrita de outros romances, tamb\u00e9m trabalhou no lan\u00e7amento das obras do seu marido. Mary Shelley morreria de c\u00e2ncer cerebral trinta anos depois de Percy, aos 54 anos, em 1851.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez esse pre\u00e2mbulo biogr\u00e1fico soe redundante ao se abordar uma adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de \u201cA Noiva de Frankenstein\u201d, um dos derivados da obra de Shelley. Por\u00e9m, \u00e9 v\u00e1lido pontuar essa trajet\u00f3ria de Shelley por perceber que, ao se propor a escrever a nova adapta\u00e7\u00e3o, a diretora Maggie Gyllenhaal trouxe muito da dor de sua autora original para seu pr\u00f3prio roteiro e para a figura de sua personagem-t\u00edtulo. E essa dor acaba sendo traduzida pela roteirista para uma amplitude feminina atual como um todo, criando para seu p\u00fablico uma sintonia com essa ideia que se inicia desde seus primeiros momentos. \u00c9 quando conhecemos a jovem Ida, mas, antes dela, conhecemos a pr\u00f3pria Mary Shelley atrav\u00e9s da figura de Ida.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94614\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/anoiva3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"448\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/anoiva3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/anoiva3-300x179.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao colocar a autora em paridade com sua protagonista em um mon\u00f3logo inicial que denota de cara a proposta de seu filme, Gyllenhaal cria uma an\u00e1lise dram\u00e1tica diferenciada em seu estudo de personagem. Aqui, a futura noiva renascida dos mortos possui em sua consci\u00eancia a pr\u00f3pria Shelley que, em tempos diferentes, sofreu os mesmos abusos mis\u00f3ginos que ainda existem mais de 200 anos depois. Jessie Buckley entrega em sua atua\u00e7\u00e3o na pele de ambas mulheres um tom bem diferente do visto em sua brilhante constru\u00e7\u00e3o feminina em \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/24\/critica-hamnet-de-chloe-zhao-e-maggie-ofarrell-e-absolutamente-arrebatador\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hamnet<\/a>\u201d (2025), filme que deve lhe trazer o Oscar. Novamente sob a batuta da diretora de \u201cA Filha Perdida\u201d (2021), no qual tamb\u00e9m trabalhou, Buckley traz uma atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o menos brilhante em suas vers\u00f5es de Ida, tanto viva quanto renascida na pele da noiva, bem como na figura de Shelley, que interpela seus pensamentos em falas duras, mas necess\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um filme no qual a liberdade criativa de sua autora permite que personagens como o monstro de Frankenstein e sua noiva se tornem esp\u00e9cies de Bonnie e Clyde oriundos justamente da Chicago da d\u00e9cada de 1930. E as refer\u00eancias \u00e0 obra de Arthur Penn saltam aos olhos como a mesma rajada de balas a fechar o cl\u00e1ssico que criou a Nova Hollywood em 1969. Por\u00e9m, em vez de assaltantes de banco, apenas errantes trazidos de volta \u00e0 vida que n\u00e3o mais lhes pertencem, mas que causam na sociedade o mesmo furor e influ\u00eancia midi\u00e1tica que a dupla de ladr\u00f5es. Mas sem qualquer inten\u00e7\u00e3o de buscar um espa\u00e7o nessa mesma sociedade que, simultaneamente, os expurga e idolatra, ambos s\u00e3o s\u00f3 duas tr\u00e1gicas pobres criaturas que parecem ter encontrado no outro a raz\u00e3o para existir.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94615 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/anoiva4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"448\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/anoiva4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/anoiva4-300x179.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maggie Gyllenhaal compreende o poder desse arco dram\u00e1tico e investe fundo no mesmo. O Frankenstein de Christian Bale surge do mesmo modo que outras de suas vers\u00f5es, mas com um aspecto n\u00e3o t\u00e3o grotesco e inumano, mas apenas em busca de uma parceira. O modo como descreve um \u00fanico aperto de m\u00e3o como sendo seu primeiro toque na pele de uma mulher \u00e9 de partir o cora\u00e7\u00e3o. E a entrega f\u00edsica do ator, mesmo j\u00e1 n\u00e3o sendo novidade, ainda impressiona em mais um papel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sabendo das possibilidades imag\u00e9ticas e cinematogr\u00e1ficas de uma trama que se passa na Chicago de Al Capone e na Nova York da Lei Seca, a diretora utiliza, junto \u00e0 dire\u00e7\u00e3o de arte e ao figurino (cria\u00e7\u00e3o da lend\u00e1ria Sandy Powell), toda a liberdade metalingu\u00edstica de seu roteiro. Brincando com a ideia de vermos o monstro e a noiva como estrelas do cinema, o filme nos leva a momentos de fuga mental nos quais a dan\u00e7a, a m\u00fasica e o glamour fr\u00e1gil e pl\u00e1stico do per\u00edodo ganham um paralelo e uma rima visual apropriados com a grotesca apar\u00eancia da criatura de Frankenstein que baila sob holofotes mentais ao lado do seu amor.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A NOIVA! l Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Yk8oW7wky1g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remetendo ao subestimado \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/07\/cinema-coringa-delirio-a-dois-e-controverso-e-sim-tao-divisivo-quanto-se-pode-pensar-e-isso-e-muito-bom\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Coringa &#8211; Del\u00edrio a Dois<\/a>\u201d (2024), \u201cA Noiva!\u201d (&#8220;The Bride!&#8221;, 2025) traz uma estrutura semelhante de escape imagin\u00e1rio atrav\u00e9s da catarse oriunda da insanidade e da viol\u00eancia. Com trilha sonora da mesma Hildur Gu\u00f0nad\u00f3ttir, que comp\u00f4s a partitura da dualogia de Todd Phillips, essa refer\u00eancia se torna ainda mais evidente. E se na marca do rosto de Jessie Buckley est\u00e1 justamente um s\u00edmbolo semelhante ao da influ\u00eancia da maquiagem do personagem de Joaquin Phoenix como uma figura p\u00e1ria da sociedade, em sua protagonista, Gyllenhaal traz uma reflex\u00e3o mais urgente e necess\u00e1ria. A marca, aqui, \u00e9 fixa. N\u00e3o \u00e9 opcional. N\u00e3o sai com \u00e1gua. Equivale \u00e0s cicatrizes emocionas e f\u00edsicas que ela acumulou em vida e voltou ap\u00f3s a morte para expurgar. A marca em seu \u00e9 rosto, do mesmo modo como lutar contra a repress\u00e3o e contra a misoginia, \u00e9 algo constante. Com seu texto, uma den\u00fancia \u00e9 colocada em pr\u00e1tica e encontra na noiva uma representante dessa luta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com seus cabelos ondulados a remeter \u00e0 ic\u00f4nica figura de Elsa Lanchester no papel t\u00edtulo do filme de 1935, \u201cA Noiva de Frankenstein\u201d, a noiva de Jessie Buckley cria uma identidade pr\u00f3pria e independente de seu referencial masculino de pertencimento contido no seu t\u00edtulo. Na vers\u00e3o de Gyllenhaal, ela n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m. Ela \u00e9 apenas A Noiva. E sua exclama\u00e7\u00e3o se faz necess\u00e1ria como o mesmo grito de basta que sociedade precisa ouvir em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s brutalidades vistas contra mulheres.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94612 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/anoiva1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1099\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/anoiva1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/anoiva1-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Trata-se de um filme no qual a liberdade criativa de sua autora permite queFrankenstein e sua noiva se tornem Bonnie e Clyde\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/08\/com-a-noiva-maggie-gyllenhaal-cria-um-potente-e-urgente-protesto-contra-a-misoginia-e-sua-violencia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":94613,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[8114],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94611"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94611"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94611\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":94618,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94611\/revisions\/94618"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94613"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94611"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94611"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94611"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}