{"id":94551,"date":"2026-03-04T09:02:07","date_gmt":"2026-03-04T12:02:07","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=94551"},"modified":"2026-04-15T00:41:32","modified_gmt":"2026-04-15T03:41:32","slug":"entrevista-gaia-passarelli-fala-sobre-o-livro-deslumbre-historias-de-obsessao-musical-e-uma-vida-atravessada-pela-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/04\/entrevista-gaia-passarelli-fala-sobre-o-livro-deslumbre-historias-de-obsessao-musical-e-uma-vida-atravessada-pela-musica\/","title":{"rendered":"Entrevista: Ga\u00eda Passarelli fala sobre seu novo livro, \u201cDeslumbre\u201d, e uma vida atravessada pela m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ociocretino\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante muito tempo, falar de m\u00fasica foi o centro da vida de <a href=\"https:\/\/www.gaiapassarelli.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ga\u00eda Passarelli<\/a>. Antes das redes sociais moldarem por meio de timelines e algoritmos a forma como consumimos cultura, ela j\u00e1 estava presente: escrevendo, documentando cenas, descobrindo bandas e sonoridades. Como criadora do rraurl &#8211; um dos sites mais importantes da m\u00fasica eletr\u00f4nica no Brasil entre 1997 e 2016 &#8211; e depois como VJ da MTV em seus \u00faltimos anos, Ga\u00eda ajudou a formar repert\u00f3rio e a despertar curiosidade em diferentes gera\u00e7\u00f5es de ouvintes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, sua escrita tomou outro rumo. Vieram os livros \u201c<a href=\"https:\/\/www.gaiapassarelli.com\/p\/livros?open=false#%C2%A7mas-voce-vai-sozinha-historias-de-uma-mulher-viajando-o-mundo-globo-livros-2016\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mas Voc\u00ea Vai Sozinha?<\/a>\u201d (2016), reunindo textos sobre viagens solit\u00e1rias, e \u201c<a href=\"https:\/\/www.gaiapassarelli.com\/p\/ta-todo-mundo-tentando\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">T\u00e1 Todo Mundo Tentando<\/a>\u201d (2024), colet\u00e2nea de cr\u00f4nicas veiculadas e inspiradas <a href=\"https:\/\/www.gaiapassarelli.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por sua newsletter<\/a> que ganhou for\u00e7a durante a pandemia. A m\u00fasica, embora nunca ausente, parecia ocupar um segundo plano, como se fosse preciso ganhar uma certa dist\u00e2ncia de algo vivido com muita intensidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/www.terrenoestranho.com.br\/pagina-de-produto\/deslumbre-hist%C3%B3rias-de-obsess%C3%A3o-musical\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Deslumbre \u2013 Hist\u00f3rias de obsess\u00e3o musical<\/a>\u201d (Editora Terreno Estranho, 2025), sua terceira obra autoral, marca justamente esse retorno. Em vez de um livro de cr\u00edtica musical ou de reportagem no sentido tradicional, Ga\u00eda opta pelo caminho da mem\u00f3ria: um mapa afetivo de seu percurso pessoal, em que a m\u00fasica funciona como guia para atravessar sons e ambientes e movimentos que se estendem por mais de quatro d\u00e9cadas. Do contato com o p\u00f3s-punk e da cena g\u00f3tica paulistana \u00e0 explos\u00e3o da m\u00fasica eletr\u00f4nica e das raves nos anos 1990, passando pela experi\u00eancia agridoce de estar na MTV no momento em que a emissora tentava \u201ccolocar o M de m\u00fasica de volta no TV\u201d nos anos 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo do livro, surgem hist\u00f3rias que ajudam a dimensionar esse trajeto: a visita \u00e0 casa e est\u00fadio do renomado DJ John Peel, figura-chave do r\u00e1dio brit\u00e2nico e grande refer\u00eancia para quem sempre se interessou por novidades; a cria\u00e7\u00e3o do rraurl a partir de uma fascina\u00e7\u00e3o quase militante com a m\u00fasica eletr\u00f4nica; o ressentimento e a posterior reconcilia\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia televisiva; e a rela\u00e7\u00e3o direta, franca e sem moralismo com o uso de drogas (especialmente o ecstasy) no passado como parte indissoci\u00e1vel da cultura de pista de dan\u00e7a. Essas mem\u00f3rias s\u00e3o cronologicamente contextualizadas na obra por uma se\u00e7\u00e3o chamada Backstage, que re\u00fane listas e par\u00e1grafos curtos que mapeiam refer\u00eancias, discos e filmes relevantes para o entendimento da narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de revisitar conjunturas e per\u00edodos espec\u00edficos da vida da autora, o livro acompanha o esfor\u00e7o de transformar experi\u00eancia pessoal em algo compartilh\u00e1vel, sem cair na linguagem de um di\u00e1rio \u00edntimo ou em pura nostalgia. \u00c9 o retrato de algu\u00e9m que viveu intensamente certos momentos da m\u00fasica, reviu suas perspectivas com algum distanciamento e hoje entende o que aproveitar dessas experi\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta longa conversa com o Scream &amp; Yell, Ga\u00eda reflete sobre o pr\u00f3prio conceito de \u201cdeslumbre\u201d (termo que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro e carrega tanto encantamento quanto autocr\u00edtica), fala sobre amadurecer dentro da cultura musical e a n\u00e3o obrigatoriedade de opinar o tempo todo, o dia em que Elza Soares ensaiou em sua casa e saiu de l\u00e1 usando uma sand\u00e1lia emprestada, e a dificuldade de ainda se apaixonar por novidades como no passado. O que vem a seguir n\u00e3o \u00e9 apenas uma conversa sobre um novo lan\u00e7amento editorial, mas um mergulho em como a m\u00fasica atravessa uma vida. E que, apesar dos deslumbres, alegrias, percal\u00e7os e mudan\u00e7as de rota, a obsess\u00e3o com a m\u00fasica sempre continua.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94552 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre1-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para quem voc\u00ea acha que \u00e9 o \u201cDeslumbre\u201d? Voc\u00ea imagina esse livro sendo lido mais por quem viveu essas cenas ou por quem s\u00f3 as conhece de ouvir falar?<\/strong><br \/>\nAh, o livro \u00e9 para mim! (risos) Na verdade, para eu poder falar que publiquei mais um livro! (risos) Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por isso; pelo menos do que estou vendo de feedback at\u00e9 agora, ele pega muitas pessoas que ou viveram esses per\u00edodos de alguma forma ou que t\u00eam um interesse muito nerd em m\u00fasica. Porque, por exemplo, s\u00f3 vai reconhecer o nome do John Peel gente que est\u00e1 numa certa camada de profundidade. John Peel morreu faz mais de 10 anos, ningu\u00e9m fala dele hoje em dia. Mas eu vi algumas pessoas fazendo resenha falando algo como \u201ccaralho, ela foi na casa do John Peel\u201d, ent\u00e3o essa pessoa sabe! \u201cIf you know, you know!\u201d (risos) Ent\u00e3o, eu acho que pega pessoas que viveram esses momentos de alguma forma e outras que gostam muito de alguns tipos de m\u00fasica, porque ele n\u00e3o \u00e9 bem um livro muito ecl\u00e9tico, n\u00e9? \u00c9 rock ingl\u00eas, m\u00fasica eletr\u00f4nica europeia e americana. Acho que o momento mais ecl\u00e9tico musicalmente do livro \u00e9 a hora em que falo da MTV, porque ali eu t\u00f4 falando de bandas que eram muito daquele momento de 2011. E na real eu nem ia incluir a MTV no livro, isso foi uma coisa que fiz por \u00faltimo. \u201cAh, n\u00e3o quero falar da MTV, \u00e9 importante para mim me distanciar desse adesivo da ex-VJ\u201d. Mas conforme fui escrevendo os outros cap\u00edtulos, foi ficando claro para mim de que, bicho, tem que entrar, porque \u00e9 um momento musical importante. A internet estava mudando muito a forma como as pessoas consumiam, produziam e trocavam m\u00fasica. Estava fazendo com que muitas bandas independentes do mundo todo come\u00e7assem a ganhar propor\u00e7\u00e3o ali na esteira do Strokes. Ent\u00e3o, falei: &#8220;Putz, seria uma pena deixar isso de fora&#8221;. Por isso que acabei incluindo. Dito isso, acho que pessoas que t\u00eam carinho e apre\u00e7o pelo hist\u00f3rico da MTV Brasil tamb\u00e9m podem ler uma vers\u00e3o de como foi aquele final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que foi muito v\u00e1lido voc\u00ea dar a sua vers\u00e3o de como a MTV acabou.<\/strong><br \/>\n\u00c9, assim, quando me chamaram [para trabalhar na MTV], foram tr\u00eas DJs com recorte musical que chegaram ao mesmo tempo. As frases eram \u201ca gente precisa colocar o M de volta no TV\u201d, \u201ca MTV precisa voltar a falar sobre m\u00fasica\u201d. Mas \u00e9 claro que foi uma batalha perdida (risos) e tudo bem, mas eu tomei a decis\u00e3o de participar disso. Do tipo \u201ccara, vou satisfazer a minha vers\u00e3o adolescente que via VJs na TV&#8221;. \u201cVou passar a oportunidade de ser VJ? Claro que n\u00e3o, bora l\u00e1!\u201d. Mas eu tive uma condi\u00e7\u00e3o na \u00e9poca que foi: \u201ctenho consci\u00eancia de que n\u00e3o vou entregar o formato de VJ que voc\u00eas est\u00e3o acostumados, que \u00e9 a gatinha jovem que vai estar de cal\u00e7a de cintura baixa e top mostrando a barriga. Eu n\u00e3o sou isso, sou outra coisa. Para poder mostrar a outra coisa que sou, preciso poder fazer a programa\u00e7\u00e3o musical do meu programa, sen\u00e3o n\u00e3o vale a pena para mim\u201d. Da\u00ed eu fiquei com 100% do controle criativo do Goo, pro bem e pro mal. Pro bem, porque eu pude passar videoclipe do Battles; pro mal porque a MTV n\u00e3o entendeu o que eu estava fazendo e cancelou o programa depois (risos). Mas o programa ia ser cancelado de qualquer forma, isso faz parte da programa\u00e7\u00e3o de TV; tem programas que v\u00eam e v\u00e3o. Eu tive muito ressentimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 MTV durante muito tempo e escrever sobre isso tamb\u00e9m foi uma forma de lidar com o meu pr\u00f3prio sentimento e ficar um pouco mais confort\u00e1vel com isso, eu acho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No livro voc\u00ea diz que a m\u00fasica funcionou como um mapa ao longo da sua vida. Como foi tentar organizar tudo ao escrever o livro? Houve algo que voc\u00ea teve que cortar e pensou \u201cn\u00e3o vai caber isso aqui, sen\u00e3o o livro vai ficar muito longo\u201d, algo assim?<\/strong><br \/>\nPutz, eu n\u00e3o tive a preocupa\u00e7\u00e3o de o livro ficar muito longo, porque eu escrevo muito em formato curto. Eu comecei escrevendo reportagem, depois eu passei por um per\u00edodo meio cronista, sempre trabalhando na concis\u00e3o, tinha que ser o mais curto poss\u00edvel. A\u00ed eu fui trabalhando esse livro falando \u201cgente, n\u00e3o vai nem dar um livro, v\u00e3o ser 50 p\u00e1ginas\u201d (risos). A\u00ed eu fui colocando ilustra\u00e7\u00e3o pro livro ficar mais gordinho (risos). Mas esse processo de voltar nessas mem\u00f3rias muito musicais fez eu naturalmente querer escutar as m\u00fasicas. \u00c0s vezes por precisar lembrar alguma coisa. \u201cMas de quem que era aquela m\u00fasica mesmo que era assim, assim, assado? De quando \u00e9 isso?\u201d. Porque afinal de contas, a gente est\u00e1 falando de 40 anos, n\u00e9? Ent\u00e3o tem coisas que tamb\u00e9m n\u00e3o lembrava direito. &#8220;Mas essa m\u00fasica que t\u00f4 pensando, ela \u00e9 desse per\u00edodo mesmo ou t\u00f4 fazendo confus\u00e3o?\u201d. Precisava checar. Por causa disso, acabei passando quase um ano ouvindo muita m\u00fasica e tendo muita vontade de falar delas de forma mais espec\u00edfica. E da\u00ed no texto \u00e0s vezes n\u00e3o cabia alguma coisa muito pontual que eu queria colocar. Como a primeira vez que ouvi Prodigy, que foi muito impactante para mim. \u00c9 uma das bandas do per\u00edodo dessa m\u00fasica eletr\u00f4nica mais pop da virada dos anos 90 pra 2000, das bandas que eu gosto muito at\u00e9 hoje, acho foda e que as pessoas deviam gostar mais. Mas tipo, putz, n\u00e3o estava cabendo no texto exatamente naquele momento. Da\u00ed por isso acabei criando aquelas listas que vem depois de cada cap\u00edtulo, para que eu pudesse falar dessas coisas com mais\u2026 N\u00e3o com mais profundidade, porque s\u00e3o par\u00e1grafos breves, mas que eu pudesse falar dessas coisas de forma mais objetiva e misturar um pouco m\u00fasica, videoclipe, \u00e1lbum, livro e filme, porque s\u00e3o v\u00e1rias refer\u00eancias que formam um universo, n\u00e9? Ent\u00e3o no primeiro cap\u00edtulo eu falo muito do [Espa\u00e7o] Retr\u00f4, que \u00e9 muito minha base, e se eu quisesse incluir ali o momento que eu falo do filme \u201cDogs in Space\u201d (1986), junto com a primeira vez que ouvi Christian Death, vai pegando umas tangentes e vai ficando meio dif\u00edcil de acompanhar o texto. Pensei: &#8220;talvez eu possa tratar isso como lista e todo mundo gosta de listas&#8221;. Ent\u00e3o funcionou, mas foi um processo de relembrar, voltar em muitas coisas do passado. E por isso que tem um cap\u00edtulo no final que \u00e9 sobre hoje, para ele n\u00e3o ficar 100% saudosista tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94553 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"564\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre2-300x226.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ficou legal essa forma que voc\u00ea achou para falar um pouco mais sobre as m\u00fasicas e artistas, com essa se\u00e7\u00e3o chamada Backstage. Parecem notas de rodap\u00e9, mas n\u00e3o exatamente neste formato.<\/strong><br \/>\nCome\u00e7ou como nota de rodap\u00e9 na real. A\u00ed eu olhei e falei: &#8220;Gente, vai ficar parecendo aqueles livros acad\u00eamicos que cada cap\u00edtulo tem 60 notas de rodap\u00e9. Fica mais simp\u00e1tico colocar numa listinha\u201d (risos). Eu fiz <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=PL_WYi6E7Z4mXqGEoPpZ9nzN8rgqEkRp9s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma playlist no YouTube<\/a> tamb\u00e9m que tem tudo que eu cito em todos os cap\u00edtulos. Eu ia fazer no Spotify, mas peguei meio birra com o Spotify e tem muita coisa que l\u00e1 n\u00e3o tem e no YouTube tem, ent\u00e3o acabei fazendo l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No livro voc\u00ea cita que, quando a sua fam\u00edlia se mudou para Moema e montou um est\u00fadio de ensaio em casa, l\u00e1 ensaiavam de Tit\u00e3s at\u00e9 a banda do Amado Batista. Como funcionava isso? Voc\u00ea n\u00e3o se interessou em ver os ensaios porque n\u00e3o era o tipo de som que voc\u00ea gostava ou havia uma certa prote\u00e7\u00e3o por parte dos seus pais para que isso n\u00e3o acontecesse?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o tinha prote\u00e7\u00e3o nenhuma por parte dos meus pais. Eu acho que eu n\u00e3o tinha nenhum interesse mesmo. Eu achava legal \u201cah, os Tit\u00e3s est\u00e3o aqui em casa, massa\u201d, mas tamb\u00e9m n\u00e3o estava nem a\u00ed pro Tit\u00e3s naquela \u00e9poca (risos). Tipo, \u201cfoda-se, esses caras s\u00e3o velhos\u201d (risos). N\u00e3o, n\u00e3o ligava mesmo. A pessoa que sou hoje em dia teria uma rela\u00e7\u00e3o totalmente diferente com isso. Tipo, \u201cporra, os Tit\u00e3s est\u00e3o ensaiando l\u00e1, deixa eu ver\u201d. Tem uma coisa importante: aquele era um est\u00fadio de ensaio e n\u00e3o de grava\u00e7\u00e3o. Era numa sala muito grande, ent\u00e3o ele servia para bandas grandes que \u00e0s vezes estavam passando por S\u00e3o Paulo e precisavam de um espa\u00e7o amplo para colocar todo mundo. Eu tenho poucas lembran\u00e7as de me interessar pelo que estava acontecendo ali, mas tem duas hist\u00f3rias que talvez funcionem como anedota, que n\u00e3o est\u00e3o no livro. Uma foi a \u00e9poca que a galera do Black Uhuru, uma banda de reggae, veio pro Brasil e a minha m\u00e3e me colocou para ser int\u00e9rprete deles, porque eu falo ingl\u00eas desde cedo. E foi muito maluco (risos)! Eu sendo int\u00e9rprete do Black Uhuru que estava na minha casa e eu nem a\u00ed pra reggae. Hoje em dia eu acho legal, mas nunca foi um tipo de som que eu gostava assim. Mas o meu padrasto nessa \u00e9poca tinha uma banda de reggae chamada N\u00f4made, que inclusive chegou a tocar na MTV e a concorrer no VMB. E por causa do N\u00f4made o pessoal do Black Uhuru acabou caindo na minha casa. Na \u00e9poca eu levei o guitarrista, que era um cara branco, cabeludo, cujo nome n\u00e3o vou me lembrar agora, para dar um rol\u00ea na Galeria do Rock em S\u00e3o Paulo. A troco de qu\u00ea? (risos) Tamb\u00e9m n\u00e3o sei, mas ele achou tudo muito interessante. E teve a \u00fanica visita no est\u00fadio que de fato teve um impacto para mim e que eu lembro com muito carinho, foi um pouco mais para a frente, na minha \u00e9poca de m\u00fasica eletr\u00f4nica e que eu j\u00e1 estava envolvida com outras coisas. J\u00e1 estava rolando o Hell\u2019s [Club, casa noturna de m\u00fasica eletr\u00f4nica em S\u00e3o Paulo]. E a Elza Soares veio do Rio de Janeiro para ensaiar l\u00e1 em casa. Ainda n\u00e3o tinha rolado essa redescoberta dela que rolou por parte de novas gera\u00e7\u00f5es, mas ela nunca parou de se apresentar, n\u00e9? Ela foi artista a vida inteira. Eu lembro que a minha m\u00e3e estava muito emocionada que a Elza iria em casa. Ela estava tipo \u201cvoc\u00eas n\u00e3o t\u00e3o entendendo, \u00e9 a Elza Soares\u201d e eu \u201cah, n\u00e3o sei quem \u00e9\u201d e ela \u201ccomo assim?&#8221; (risos). E minha m\u00e3e \u00e9 muito conversadeira, ela e a Elza acabaram fazendo amizade, porque ela tamb\u00e9m era essa pessoa muito dispon\u00edvel. E olha a situa\u00e7\u00e3o, que loucura: a Elza estava sem sapato para fazer o show, porque ela tinha esquecido a sand\u00e1lia dela no Rio de Janeiro. A gente cal\u00e7ava o mesmo n\u00famero e a minha m\u00e3e veio perguntar se eu tinha alguma sand\u00e1lia de salto que eu pudesse emprestar para ela. Por um acaso eu tinha acabado de comprar uma sand\u00e1lia plataforma cor de vinho num brech\u00f3 dois dias antes, n\u00e3o tinha nem usado. Da\u00ed eu levei para ela na cozinha, ela tomando caf\u00e9 na mesa. Eu tipo: &#8220;Ah, eu tenho essa, voc\u00ea quer?&#8221; E ela aceitou, fez o show com a minha sand\u00e1lia e ficou com ela para levar pro Rio. E a\u00ed acho que foi uma das primeiras coisas de m\u00fasica brasileira que eu olhei e falei: &#8220;Nossa, mas isso \u00e9 foda, essa mulher \u00e9 um absurdo&#8221; e comecei a seguir a Elza naquela \u00e9poca. Mas isso porque calhou dela estar na minha casa e fazer amizade com a minha m\u00e3e. Eu fa\u00e7o parte de uma gera\u00e7\u00e3o musical que a gente tinha uma coisa de n\u00e3o ouvir m\u00fasica brasileira. Principalmente MPB, samba. Eu s\u00f3 virei essa chavinha muito na maturidade, demorei mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas \u00e9 uma bela hist\u00f3ria essa, n\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 escreveu a respeito\u2026<\/strong><br \/>\nQuando ela morreu, eu cometi aquele aquele pecado de escrever sobre o outro falando de si. Escrevi isso na minha newsletter na \u00e9poca. Mas foi uma lembran\u00e7a muito querida e contei porque teve essa coisa da minha m\u00e3e vir chamar e falar: &#8220;Escuta, tem uma pessoa hist\u00f3rica na nossa casa nesse momento\u201d. Ela me fez tirar foto com a Elza e falou: &#8220;Um dia voc\u00ea vai me agradecer&#8221;. E eu: &#8220;Ah, t\u00e1 bom&#8221; (risos). E aconteceu mesmo!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94554 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"538\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre3-300x215.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/deslumbre3-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Deslumbre\u201d mistura mem\u00f3ria, jornalismo e cr\u00f4nica cultural. O que que foi mais dif\u00edcil de equilibrar: a precis\u00e3o factual ou a fidelidade emocional das suas lembran\u00e7as?<\/strong><br \/>\nTem muita coisa pessoal que n\u00e3o entrou no livro por achar que n\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o e o momento para fazer uma an\u00e1lise do passado em p\u00fablico. Muita coisa da minha adolesc\u00eancia, que s\u00e3o assuntos que eu simplesmente n\u00e3o sou afim de tocar no momento. Talvez numa biografia futura, vai saber o que vai acontecer. Mas em rela\u00e7\u00e3o ao factual, essa foi a primeira vez que trabalhei num livro com uma pessoa de checagem. O <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/07\/21\/entrevista-marcelo-viegas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Viegas<\/a>, que trabalha com o pessoal da [editora] <a href=\"https:\/\/www.terrenoestranho.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Terreno Estranho<\/a>, pegou o texto e foi checando tudo: data de ano de lan\u00e7amento do disco que menciono, grafia do nome da m\u00fasica, integrantes das bandas, tudo assim. Esse \u00e9 um processo que eu nunca tinha passado. Foi t\u00e3o bom porque tinha tanto erro\u2026 (risos) N\u00e3o erros grosseiros, mas tanto detalhe que de fato precisava dessa aten\u00e7\u00e3o editorial de um outro olhar. E a gente passou umas semanas trocando e-mail. Ele dizia: &#8220;Olha aqui voc\u00ea fala isso, mas eu encontrei n\u00e3o sei o qu\u00ea. O que exatamente voc\u00ea est\u00e1 falando?&#8221;. Ent\u00e3o, teve muito desse trabalho. Essas duas coisas n\u00e3o foram dif\u00edceis, mas acho que teve essa necessidade de equilibrar o que eu quero contar que \u00e9 meu e o que eu quero contar que \u00e9 geracional, porque faz parte da literatura. Voc\u00ea quer falar daquilo que \u00e9 objetivo e pessoal para falar de algo que \u00e9 universal, maior. Ent\u00e3o acho que acabei escolhendo esse formato meio ensaio para conseguir atingir um pouco esse efeito. Estou falando de coisas que aconteceram comigo, mas pessoas que gostam dessas m\u00fasicas ou que viveram essa \u00e9poca v\u00e3o reconhecer alguma coisa tamb\u00e9m. Assim n\u00e3o cai naquela coisa meio diarinho, n\u00e9? \u201cAi, eu era uma adolescente, tadinha de mim. Eu fui morar em Moema\u201d, coitada, n\u00e9? (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado voc\u00ea comentar isso, porque tem partes no livro que voc\u00ea reconhece certos privil\u00e9gios que voc\u00ea tinha. Poderia ter dado essa ideia do tipo \u201cnossa, ela ficou revoltada porque foi morar em Moema?\u201d, mas logo em seguida voc\u00ea explica melhor a situa\u00e7\u00e3o. E at\u00e9 achei que o t\u00edtulo do livro, &#8220;Deslumbre\u201d, parece uma autocr\u00edtica tamb\u00e9m. Seria isso?<\/strong><br \/>\nSim! E no rol\u00ea da noite, principalmente no mais clubber, para onde eu fui parar ali a partir do Hell&#8217;s Club, \u201cdeslumbre\u201d e \u201cdeslumbrado\u201d tem uma conota\u00e7\u00e3o negativa. \u201cAi, fulano t\u00e1 deslumbrado, fulana t\u00e1 deslumbrada, que saco. N\u00e3o para quieta essa deslumbrada\u201d. E tamb\u00e9m \u00e9 uma coisa muito comum, porque a pessoa come\u00e7a a se envolver com aquele universo que \u00e9 todo novo e super legal e se deslumbra. E esse deslumbre tem essa conota\u00e7\u00e3o negativa da pessoa que est\u00e1 ali toda \u201cmuito high na pr\u00f3pria luz\u201d, n\u00e9? Mas ele tem um lado positivo tamb\u00e9m, porque \u00e9 bonito se deslumbrar com algo que voc\u00ea est\u00e1 conhecendo. Acho que escolhi esse t\u00edtulo porque fui essa jovem muito deslumbrada com coisas em v\u00e1rios momentos da vida e provavelmente enchi o saco de algumas pessoas com isso um pouco (risos). Mas o que \u00e9 ser jovem, n\u00e9? \u00c9 isso. Mas s\u00e3o deslumbres que eu hoje, com quase 50 anos, olho para tr\u00e1s at\u00e9 com um certo carinho assim, tipo, \u201cque legal que eu tive uma experi\u00eancia como o Hell\u2019s\u201d, por exemplo. Uma experi\u00eancia musical e pessoal muito intensa. Que bom que eu fui capaz de me deslumbrar tanto com aquilo, porque estar no Hell\u2019s promoveu uma mudan\u00e7a total na minha vida. Por causa do Hell\u2019s Club que eu criei o rraurl, comecei a escrever sobre m\u00fasica, fui parar na MTV e etc. Ent\u00e3o foi um deslumbre com a m\u00fasica eletr\u00f4nica que durou uns bons 10 anos. Demorei para superar essa fase (risos). Mas trouxe muitas coisas legais para mim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Escrever um livro t\u00e3o pessoal te trouxe algum tipo de pudor? Ou ao contr\u00e1rio, uma sensa\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o com o que voc\u00ea viveu?<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, nem um nem outro; me levou para um outro lugar. Vou explicar. Eu tenho quatro livros publicados; desses, tr\u00eas s\u00e3o livros de mem\u00f3ria e eu n\u00e3o tenho nem 50 anos. N\u00e3o tenho idade para ter tr\u00eas livros de mem\u00f3ria publicados! \u00c9 tipo \u201cque tanto assunto essa mulher tem?\u201d (risos) Mas assim, o meu primeiro livro \u00e9 um de hist\u00f3rias que vivi no meu per\u00edodo de rep\u00f3rter de viagem. Meu segundo \u00e9 um livro de cr\u00f4nicas relacionadas \u00e0 vida em S\u00e3o Paulo, que tem algumas experi\u00eancias de fic\u00e7\u00e3o ali no meio. Mas \u00e9 bem cr\u00f4nica mesmo, bem focado nesse formato. E o terceiro \u00e9 um livro de mem\u00f3rias relacionadas \u00e0 m\u00fasica. Eles fecham um projeto, juntos eles formam uma trilogia de mem\u00f3rias que s\u00e3o um pouco cr\u00f4nicas, um pouco ensaio, e se relaciona muito com o mundo nos \u00faltimos 10, 15 anos, etc. Para mim, esse projeto est\u00e1 conclu\u00eddo. O que tem acontecido muito comigo \u00e9 querer me descolar da minha experi\u00eancia ou desse texto muito viciado no jornalismo, que \u00e9 de onde eu venho, para escrever fic\u00e7\u00e3o. O \u201cT\u00e1 Todo Mundo Tentando\u201d j\u00e1 tem algumas experi\u00eancias de fic\u00e7\u00e3o ali no meio que gosto muito. Acho que isso \u00e9 o mais importante: que eu gostei muito de fazer. E meu pr\u00f3ximo livro, que ainda n\u00e3o tem data, ainda estou trabalhando nele, \u00e9 um livro s\u00f3 de fic\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, acho que o resultado foi esse. \u00c9 claro que eu fa\u00e7o escolhas, tem um monte de coisa que aconteceu na minha vida que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. Nesse livro, da parte da MTV teve um amig\u00e3o meu, Ronaldo Bressane, que \u00e9 escritor, ele fez uma leitura cr\u00edtica dele e trouxe tipo, \u201cporra mas eu sei de tal coisa que voc\u00ea n\u00e3o colocou, tem isso, tem aquilo\u201d. Mas n\u00e3o, essas coisas eu n\u00e3o quero colocar. S\u00e3o escolhas que a gente faz. Mas n\u00e3o tem a ver com pudores ou moralismos; \u00e9 que tem coisas da vida que s\u00e3o privadas e tudo bem. S\u00e3o coisas que podem ser exploradas de outras formas na fic\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Ent\u00e3o a beleza da fic\u00e7\u00e3o justamente t\u00e1 a\u00ed!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ga\u00eda Passarelli se prepara para o VMB 2011\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HhN8g1b8AdI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No livro voc\u00ea fala abertamente sobre drogas, de uma forma bem direta, bem franca. N\u00e3o teve nenhum tipo de receio de se abrir tanto sobre o assunto, por causa do seu filho, sua fam\u00edlia?<\/strong><br \/>\nMinha fam\u00edlia, meus pais sabem. Meu filho j\u00e1 tem 21 anos e \u00e9 totalmente capaz de lidar com isso (risos)! Apesar que teve um dia que a gente estava conversando aqui em casa que eu contei algo na mesa do almo\u00e7o sobre tomar \u00e1cido que ele ficou meio \u201ch\u00e3?\u201d e eu \u201cah\u2026\u201d (risos). N\u00e3o \u00e9 como se ele n\u00e3o soubesse o que \u00e9 \u00e1cido, ele tem 21 anos, n\u00e9? Mas assim, eu acho mesmo que a \u00fanica forma de falar sobre drogas \u00e9 com honestidade, sabe? Eu fui usu\u00e1ria de drogas em v\u00e1rias etapas na minha vida, n\u00e3o sou mais. Ainda bem, nunca vou voltar a ser. Hoje em dia eu n\u00e3o quero conviver com gente que usa, porque acho que vi muito de perto o que as drogas s\u00e3o capazes de fazer ao longo do tempo. E o deslumbre tem muito a ver com droga tamb\u00e9m. Ecstasy em especial. Eu n\u00e3o sei como \u00e9 o ecstasy que as pessoas est\u00e3o tomando hoje, mas rapaz, o que a gente estava tomando ali em meados dos anos 90\u2026 A primeira vez que tomei, eu acordei no dia seguinte e falei: &#8220;T\u00e1, minha vida agora \u00e9 isso&#8221;. Assim, \u201ceu quero tomar de novo todo dia\u201d (risos). Muito impactante, uma coisa muito intensa, muito forte e a sensa\u00e7\u00e3o inicial \u00e9 muito positiva. Depois, \u00e9 claro, ele vai cobrar seus pre\u00e7os. Ent\u00e3o, j\u00e1 paguei os meus pre\u00e7os a\u00ed, n\u00e3o preciso pagar de novo, j\u00e1 sei como \u00e9. Mas \u00e9 isso. Acho que a \u00fanica forma de olhar pros momentos da minha vida que usei drogas \u00e9 com honestidade. E seria meio moralista em especial falar sobre a cena de m\u00fasica eletr\u00f4nica sem citar drogas. No Retr\u00f4 n\u00e3o rolava tanto, era muito gor\u00f3, cacha\u00e7a mesmo, bebida barata e maconha da pior qualidade (risos). Depois a coisa foi ficando mais sofisticada, mas acho que seria muito hip\u00f3crita da minha parte tentar falar sobre o per\u00edodo da m\u00fasica eletr\u00f4nica que vivi sem falar da import\u00e2ncia que o ecstasy teve\u2026 O ecstasy est\u00e1 totalmente ligado ao impacto que essa cultura de pista teve. A pessoa n\u00e3o tem que tomar ecstasy para curtir isso, de fato n\u00e3o tem. Mas se ela tomar, a experi\u00eancia vai ser outra. Ent\u00e3o, espero que o livro n\u00e3o tenha passado a ideia de \u201cgalera, drogas \u00e9 bom\u201d (risos)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o acho que tem. At\u00e9 porque depois voc\u00ea fala o pre\u00e7o que te custou, n\u00e9? Como foi para voc\u00ea e tudo mais\u2026<\/strong><br \/>\n\u00c9, por estar mais velha hoje, ano que vem eu fa\u00e7o 50, n\u00e9? Eu vi ao longo dos \u00faltimos 10 anos, em especial, o pre\u00e7o que isso cobra das pessoas que n\u00e3o pararam de beber e n\u00e3o pararam de usar drogas como coisa di\u00e1ria. Ent\u00e3o acho que por isso mesmo \u00e9 muito importante poder falar de drogas com franqueza, porque \u00e9 bom, \u00e9 \u00f3timo, \u00e9 super gostoso mas o depois tamb\u00e9m existe, n\u00e9? N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma coisa ou outra. Ent\u00e3o para responder \u00e0 tua pergunta de forma mais objetiva, essa \u00e9 uma coisa que eu n\u00e3o tentei censurar. E tem o aspecto sexo tamb\u00e9m, n\u00e9? Sexo n\u00e3o \u00e9 uma coisa muito presente no livro, porque no Retr\u00f4 e depois nesse come\u00e7o do Hell\u2019s era muito maluco, porque ecstasy \u00e9 uma coisa muito t\u00e1til, n\u00e9? Tocar as pessoas, se abra\u00e7ar, ficar passando a m\u00e3o no rosto do outro&#8230; Mas o que a gente vivia ali, pelo menos no come\u00e7o, era uma coisa t\u00e3o afetuosa, carinhosa, de amigo, que tinha pouqu\u00edssima conota\u00e7\u00e3o sexual. At\u00e9 tinha, mas ali n\u00e3o era uma coisa de pega\u00e7\u00e3o das pessoas nuas na pista de dan\u00e7a trepando em p\u00fablico. N\u00e3o que isso n\u00e3o tenha acontecido (risos). Mas era uma coisa muito de carinho. E naquele meu come\u00e7o no Retr\u00f4, a gente era todo mundo muito jovem. Ent\u00e3o, por um lado tinha aqueles horm\u00f4nios muito alterados ali. Todo mundo ali no meio encontrando uma familiazinha, se cuidando. Ent\u00e3o tinha essa coisa muito cuidadosa tamb\u00e9m. Da\u00ed acho que \u00e9 por isso que no livro sexo n\u00e3o \u00e9 uma coisa t\u00e3o presente. Poderia ser, mas acho que escolhi contar de outro jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da forma que voc\u00ea conta do ecstasy no livro, realmente n\u00e3o enxerguei como uma forma sexual, er\u00f3tica ou o que seja. Pensei mais em sensa\u00e7\u00f5es mesmo, que seria a coisa mais forte que voc\u00ea parecia ter na lembran\u00e7a. Pelo menos essa foi a minha leitura.<\/strong><br \/>\n\u00c9, que bom! Porque acho que \u00e9 meio por a\u00ed mesmo. Porque sei que hoje em dia, por exemplo, existe um cen\u00e1rio de chemsex, n\u00e9? As pessoas se drogam para trepar em lugares e usam ecstasy tamb\u00e9m. Mas o que a gente estava vivendo naquela \u00e9poca era uma coisa, primeiro muito ligada \u00e0 m\u00fasica, muito musical e segundo muito muito carinhosa mesmo. Carinhosa de um jeito afetuoso. Todo mundo come\u00e7ou a tomar ecstasy e ficou muito fofo. E durante um per\u00edodo foi maravilhoso, porque todo mundo parou de cheirar p\u00f3. Acho que durante uns seis meses assim ningu\u00e9m mais usava coca\u00edna. Depois as pessoas foram voltando para esse barranco. Mas durante seis meses, um ano, foi super legal (risos)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Reparei que o Espa\u00e7o Retr\u00f4 fica na mesma rua do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bolorsp\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bar Bolor<\/a>, onde voc\u00ea fez o primeiro evento de lan\u00e7amento do \u201cDeslumbre\u201d. Isso foi de prop\u00f3sito ou foi uma coincid\u00eancia?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, foi totalmente de prop\u00f3sito (risos)! O Bolor fica n\u00e3o s\u00f3 na mesma rua como a poucos metros de onde era o Retr\u00f4 original. Era num im\u00f3vel um pouco mais perto do Largo da Santa Cec\u00edlia, que \u00e9 uma casa que n\u00e3o existe mais e hoje em dia \u00e9 um estacionamento. Eu j\u00e1 tinha passado na frente do Bolor algumas vezes e pensado \u201cparece legal aqui\u201d, mas nunca tinha parado para entrar. Da\u00ed o Nilson, que \u00e9 o publisher da Terreno [Estranho], falou: &#8220;P\u00f4, o lan\u00e7amento podia ser no Bolor, que \u00e9 do lado do Retr\u00f4&#8221;. E eu \u201ct\u00e1, maravilha!\u201d E ele n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 pertinho, como tem uma festa que eles fazem que \u00e9 de ex-frequentadores do Retr\u00f4. Ent\u00e3o tem tudo a ver mesmo, achei super adequado fazer l\u00e1. Mas tamb\u00e9m porque esse \u00e9 um livro que eu n\u00e3o queria fazer o lan\u00e7amento naquele esquema muito tradicional de livraria, que as pessoas ficam ali na fila no p\u00e9 da mesa para pegar e autografar. Nada contra esse tipo de lan\u00e7amento, que tamb\u00e9m \u00e9 uma del\u00edcia (risos). Mas acho que esse livro pede um outro tipo de lan\u00e7amento. E o Nilson entendeu isso super bem e acho que funcionou. Quer dizer, quase funcionou porque foi na \u00faltima semana \u00fatil de 2025 e estava tudo super ca\u00f3tico, confuso, um monte de gente n\u00e3o conseguiu ir, mas ainda assim super rolou. Ficou cheio, a gente vendeu muito livro, foi massa!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea come\u00e7a a relatar suas impress\u00f5es do Retr\u00f4 no livro, me lembrou quando comecei a vir para S\u00e3o Paulo. Sou de Santos e comecei a vir para c\u00e1 para ver shows de bandas de amigos l\u00e1 pelo in\u00edcio dos anos 2000. Voc\u00ea comenta aquela coisa dos lugares com \u201cest\u00e9tica de fal\u00eancia com a decora\u00e7\u00e3o feita de sucata\u201d e me lembrou um pouco um dos primeiros lugares que fui aqui em S\u00e3o Paulo, o Juke Joint. Ou o nome era SubJazz? Eu n\u00e3o lembro ao certo.<\/strong><br \/>\nJuke Joint. Um era o nome da festa, o outro era o nome do lugar, n\u00e9? O Juke Joint era o nome do lugar. Eu fui muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele ficava ali na Frei Caneca, n\u00e9? Lembro que quando entrei l\u00e1, pensei: &#8220;Nossa, quero tocar aqui&#8221;. Porque era basicamente um por\u00e3o e eu curtia esse tipo de coisa mais tosca. Mas enfim, uma outra coisa que voc\u00ea escreveu no livro foi \u201cestar numa turma era tudo que eu queria\u201d. Naquela \u00e9poca o pessoal se relacionava muito mais pelo tipo de m\u00fasica que cada um ouvia, mas hoje em dia isso parece um pouco diferente, porque os mais jovens ouvem de tudo. Como voc\u00ea enxerga essas diferen\u00e7as?<\/strong><br \/>\nEu acho que \u00e9 dif\u00edcil a gente colocar todos os jovens de hoje num pacote s\u00f3, sabe? Eu acho que a obsess\u00e3o musical ainda existe. O tipo de jovem que ainda \u00e9 muito ligado em m\u00fasica ainda existe. Como aquele que \u00e9 muito ligado em figuras pop, por exemplo. T\u00e1 a\u00ed os fandoms de artistas que n\u00e3o me deixam mentir (risos)! Acho que inclusive eles nunca foram t\u00e3o fortes. Mas de modo geral, a gente vive um momento em que as pessoas escutam de tudo mesmo. Quando eu era adolescente, era assim: voc\u00ea gostava de punk e n\u00e3o podia ouvir metal, sen\u00e3o ia ser expulso da turma. Falando com certo exagero, mas era isso: voc\u00ea levava muito a s\u00e9rio aquele movimento no qual estava imerso. Mas \u00e9 claro que tamb\u00e9m sempre teve gente que gostava de tudo, de m\u00fasica pop e que n\u00e3o se ligava tanto assim em m\u00fasica da mesma forma que a gente, n\u00e9? A gente tem tend\u00eancia a ser um pouco exagerado. Ent\u00e3o acho que \u00e9 isso: ainda existe, mas por causa da internet a gente percebe tudo de forma muito fragmentada. E essa fragmenta\u00e7\u00e3o fez com que os nichos tamb\u00e9m ficassem muito fechados em si mesmos, meio invis\u00edveis para quem \u00e9 de fora.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"John Peel&#039;s Record Box (1\/4)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4GebrWLppW8?list=PLLlZWzASNbnP--P4x8SvAyV3bMbjmZRYs\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre essa quest\u00e3o do deslumbre de descobrir uma coisa nova: \u00e0s vezes passo m\u00fasicas e artistas novos para amigos e muitos deles n\u00e3o tem mais interesse, paci\u00eancia ou tempo para acompanhar lan\u00e7amentos. Acho que isso acontece porque pessoas da nossa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o v\u00e3o se apaixonar mais da mesma forma que aconteceu quando ouviram Nirvana ou The Cure pela primeira vez, por exemplo. Ent\u00e3o tento enxergar aquilo com o contexto de hoje em dia. Por exemplo, o King Gizzard and the Lizard Wizard, que \u00e9 uma banda mais recente e a gera\u00e7\u00e3o mais nova acha fenomenal. \u00c9 legal, mas n\u00e3o tem um disco excelente do in\u00edcio ao fim. Se pensar nos tempos de hoje, \u00e9 louv\u00e1vel que eles soltem tantos discos por ano e se mantenham inventivos e relevantes. Mas se usar a r\u00e9gua do pessoal que gosta de rock cl\u00e1ssico, dificilmente uma banda atual vai atingir a import\u00e2ncia de Led Zeppelin, Queen ou algo assim. Voc\u00ea acha que os mais velhos tem que baixar um pouco a expectativa para se interessar por algo novo ou ainda consegue descobrir coisas que te deixam \u201cdeslumbrada\u201d?<\/strong><br \/>\nHum, putz\u2026 Eu acho que ainda encontro coisas que me deixam deslumbrada, mas elas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente musicais. Tenho muito deslumbre com livros, com literatura. De chegar num autor ou numa autora e pensar &#8220;Meu Deus, eu quero ficar mergulhada nisso aqui&#8221;. A gente n\u00e3o t\u00e1 falando de m\u00fasica, mas de arte, de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, n\u00e9? Ent\u00e3o acho que est\u00e1 tudo ali. Eu tenho muito isso com cinema, que \u00e0s vezes eu dou umas piradas assim. Depois da m\u00fasica, outra coisa muito importante da minha vida s\u00e3o os filmes. Eu quase virei cr\u00edtica de cinema em algum momento, mas ainda bem que n\u00e3o fui por esse caminho, porque \u00e9 mais falido que a cr\u00edtica musical, n\u00e9? Tem ainda menos espa\u00e7o, \u00e9 dif\u00edcil (risos). \u00c9 a dura vida do jornalista cultural. Mas no meu livro tem o \u00faltimo cap\u00edtulo sobre o John Peel; ele tinha essa capacidade muito bonita de continuar se deslumbrando com coisas novas que apareciam. Isso depois de 40 anos de carreira e literalmente milhares de bandas e programas ao vivo que ele gravou. No est\u00fadio dele que visitei, embaixo da mesa dele, tinha uma caixa de madeira onde ele guardava os singles que ele mais ouvia no momento, antes de falecer. Isso at\u00e9 virou um conte\u00fado, tem no Youtube. E o que tinha ali eram bandas novas daquela \u00e9poca, de 2004. Tinham singles do White Stripes, por exemplo. P\u00f4, ele estava super conectado com o que rolava, pela natureza do trabalho dele. Porque ele era um radialista, mas tamb\u00e9m podia ter se tornado um cara que parou l\u00e1 em 1986. Isso aconteceu com um monte de gente, mas ele nunca parou. Eu sempre olhei para ele com certa inveja ou talvez cobi\u00e7a, querendo um pouco imitar isso, sabe? Tipo, ser uma pessoa que manja de m\u00fasica, talvez mais do que qualquer outra (risos). E porque ele sempre foi muito curioso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas que estavam acontecendo. O John Peel passou por m\u00fasica eletr\u00f4nica, rock, dub, reggae, metal e m\u00fasica celta. Quando voc\u00ea olha o arquivo de coisas que ele gravou, \u00e9 muito grande. Ele ficou muito ligado com esse universo do indie rock ingl\u00eas, mas ao mesmo tempo passou por muitas coisas. Me pergunto como ele estaria lidando com m\u00fasica hoje, sabe? Se ele ainda poderia ser um farol pra gente nesse sentido ou se tamb\u00e9m teria sofrido o que a gente sofreu, de n\u00e3o saber muito para onde ir, porque tem coisa demais. Mas o que voc\u00ea estava falando do King Gizzard and the Lizard Wizard agora h\u00e1 pouco: eu percebi muito isso com o Geese. N\u00e3o me liguei tanto e vejo as pessoas falando \u201cah, o Geese \u00e9 uma puta banda&#8221;. Galera, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/02\/entrevista-a-gente-amaria-ir-a-america-do-sul-avisa-o-geese-em-papo-sobre-estrada-cena-de-nova-york-e-getting-killed\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e9 s\u00f3 uma banda legal<\/a>, fiquem calmos! Mas pra gente que j\u00e1 carrega muita refer\u00eancia, talvez esteja ficando cada vez mais dif\u00edcil encontrar alguma coisa de fato nova sem ficar comparando com o passado. Eu ou\u00e7o o Geese e falo: &#8220;T\u00e1, mas o menino canta igual ao moleque do Clap Your Hands And Say Yeah, que j\u00e1 cantava igual ao David Byrne. E o que tem aqui exatamente que voc\u00eas est\u00e3o gostando tanto?\u201d (risos). Mas para algu\u00e9m que est\u00e1 chegando na m\u00fasica agora, talvez ouvir isso seja foda sim. E que legal, espero que pintem v\u00e1rios Geeses por a\u00ed. Mas voltando ao John Peel, eu n\u00e3o consegui me tornar essa pessoa que est\u00e1 sempre acompanhando o que est\u00e1 rolando de novo, porque p\u00f3s-MTV, foi uma coisa na minha vida que eu quis cortar. \u00c9 muita coisa, eu n\u00e3o aguento, eu n\u00e3o quero ficar emitindo opini\u00e3o sobre tudo, eu vou fechar essa portinha e vou ver e ouvir outras coisas. E foi nessa \u00e9poca que eu comecei a ouvir muita MPB, jazz, o que tamb\u00e9m me abriu muitas portas pro passado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre se distanciar um pouco da m\u00fasica&#8230; No livro voc\u00ea diz \u201cpassei anos sem escrever sobre m\u00fasica, meio que por trauma com a exposi\u00e7\u00e3o televisiva\u201d. O que aconteceu exatamente? Voc\u00ea teve algum stalker ou s\u00f3 sentiu a necessidade de se resguardar?<\/strong><br \/>\nPutz, eu tive uma certa exposi\u00e7\u00e3o televisiva, mas quando a gente pensa que quem \u00e9 famoso mesmo \u00e9 tipo Ang\u00e9lica e o Luciano Huck\u2026 sabe? (risos). Uma pessoa como eu fala: &#8220;Ai, mas a exposi\u00e7\u00e3o televisiva&#8221;, parece que est\u00e1 fazendo um drama, mas de fato eu lidei muito mal com estar na TV, com a expectativa das pessoas em rela\u00e7\u00e3o ao que eu deveria fazer. Sinto que eu n\u00e3o aproveitei esse momento da forma como poderia, apesar de ter me trazido muitas coisas legais tamb\u00e9m. Comecei toda uma carreira posterior por causa da \u00e9poca que estava na MTV. Isso foi legal, mas at\u00e9 ir pra MTV, eu era uma pessoa que tinha perfil fechado no Twitter. Eu fazia um site de m\u00fasica eletr\u00f4nica super alternativo chamado rraurl. N\u00e3o estava acostumada a estar em um festival de m\u00fasica e algu\u00e9m vir falar comigo, pedir para tirar uma foto. E eu nunca passei por situa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis tipo ter um stalker. Ainda bem, n\u00e3o queria ter passado (risos)! Mas passei por muita gente me xingando na internet, por exemplo. Hoje em dia, acho que nem ligaria para isso. Falaria: &#8220;Ai, foda-se voc\u00ea, fala a\u00ed o que voc\u00ea quiser&#8221;. Mas na \u00e9poca essas coisas me machucavam muito, no sentido de me fazer duvidar de mim mesma. Por um lado, achava que estar na TV, falando de m\u00fasica na MTV, era uma coisa muito legal. Por outro lado, depois ia ver os coment\u00e1rios no Facebook e as pessoas estavam l\u00e1 falando \u201cai, mas quem ela pensa que \u00e9? Ela \u00e9 metida, mas \u00e9 gorda, ela \u00e9 velha\u201d. Porque eu n\u00e3o estava dentro do padr\u00e3o \u201cgatinha de MTV\u201d: eu j\u00e1 era m\u00e3e, eu tinha 30 e tantos anos (risos)! N\u00e3o acho que ningu\u00e9m tinha obriga\u00e7\u00e3o de ficar me elogiando na internet, mas ver esses coment\u00e1rios de forma muito direta me fez muito mal, no sentido de me deixar muito insegura, duvidando de mim mesma. Eu vejo os epis\u00f3dios da MTV que gravei, tenho alguns arquivados, e o que eu vejo \u00e9 uma pessoa muito nervosa (risos), n\u00e3o sabendo direito o que est\u00e1 fazendo, apesar de estar falando de coisas muito legais. Eu tenho um puta de orgulho do [programa] Goo, porque a gente trouxe um monte de bandas. Falo \u201ca gente\u201d porque era uma equipe, n\u00e9? A gente trouxe um monte de bandas \u00f3timas antes de todo mundo. As pessoas gostavam do que a gente estava trazendo. Mas est\u00e1 claro para mim que eu n\u00e3o estava confort\u00e1vel naquele papel. Ent\u00e3o, quando a MTV acabou mesmo, teve um encerramento em 2013 e eu fiquei at\u00e9 o final. Ainda tive umas experi\u00eancias com internet, mas uma hora olhei e falei: &#8220;N\u00e3o \u00e9 isso que eu quero fazer (risos)! Quero usar a exposi\u00e7\u00e3o que tive nesse momento para fazer outras coisas\u201d, que de fato foi o que aconteceu. Mas a internet pode ser muito cruel, e a MTV tamb\u00e9m nem sempre era um espa\u00e7o muito sadio. Acho que tem v\u00e1rias coisas que hoje eu seria capaz de lidar com mais maturidade, mas na \u00e9poca me abalaram muito. E n\u00e3o sou a \u00fanica; se voc\u00ea conversar com outras VJs mulheres, voc\u00ea vai ouvir os mesmos relatos de muita depress\u00e3o, muita ansiedade. E na \u00e9poca a gente n\u00e3o estava nem tendo conversa sobre depress\u00e3o e ansiedade, n\u00e9? Dito isso, quando recebi o convite para ir para MTV em 2010 e tomei a decis\u00e3o consciente de aceitar, o que pensei foi: &#8220;Eu vou usar essa experi\u00eancia para poder me validar como a rep\u00f3rter cultural que quero ser.&#8221; E consegui: sa\u00ed da MTV escrevendo para a Folha [de SP], ent\u00e3o beleza. Pena que depois a Folha j\u00e1 n\u00e3o era mais um lugar t\u00e3o legal para trabalhar. O jornalismo cultural j\u00e1 estava mudando muito.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Goo MTV - Abertura - MTV 2011\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cfsvdklUas0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O jornalismo cultural perdeu o espa\u00e7o para editorias de entretenimento e famosos. Mas ainda tem gente que gosta de escrever sobre cultura, m\u00fasica, mesmo que n\u00e3o tenha um retorno enorme ou seja na base da colabora\u00e7\u00e3o. Por exemplo, o fato de ainda ter o Scream &amp; Yell, o Marcelo Costa manter o site no ar h\u00e1 25 anos, \u00e9 bem legal, n\u00e9?<\/strong><br \/>\n\u00c9 super, super! Eu pensei muito nisso quando o <a href=\"https:\/\/trabalhosujo.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Trabalho Sujo<\/a> fez 30 anos e o Scream &amp; Yell fez 25, n\u00e9? Em 2027 o rraurl faria 30 anos tamb\u00e9m, ent\u00e3o a gente \u00e9 tudo contempor\u00e2neo. E o momento que eu me desliguei do rraurl, ele acabou. S\u00e3o momentos diferentes, mas quando eu sa\u00ed de l\u00e1 me deu um al\u00edvio, bicho (risos)! \u201cN\u00e3o vou mais ter que pensar nisso!\u201d Porque era muita press\u00e3o, era muito cansativo. A gente tentava pagar todo mundo, precisava fazer dinheiro e eu n\u00e3o sou boa de fazer dinheiro, nunca fui. Ent\u00e3o era muito dif\u00edcil mesmo. Falo isso porque olho pro Trabalho Sujo, pro Scream &amp; Yell e falo: &#8220;Caralho, s\u00e3o guerreiros&#8221;. Mas chegar com 25 anos de atividade \u00e9 muita coisa. Pensa em uma revista de cultura que tem 25 anos hoje em dia? N\u00e3o existe mais. Tirando os gringos l\u00e1 fora, n\u00e3o existe mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre o rraurl, no livro voc\u00ea fala que ficou desanimada com os descaminhos do site, que sofria tanto com a competi\u00e7\u00e3o de blogs e redes sociais, quanto da sua inaptid\u00e3o para o empreendedorismo. Mas o que rolou exatamente?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tem nada muito espec\u00edfico para falar; o rraurl tomou tr\u00eas processos que eu n\u00e3o podia falar, mas eles j\u00e1 passaram, s\u00f3 que n\u00e3o sou de falar sobre eles. Mas foi uma coisa que me desanimou muito do tipo, \u201cporra cara, eu fiquei batalhando e fazendo d\u00edvidas por causa dessa cena aqui, por mais de 10 anos. Agora voc\u00eas v\u00e3o me processar, vai tomar no cu\u201d (risos)! Tem um monte de coisas que n\u00e3o estariam acontecendo se a gente n\u00e3o tivesse ajudado a movimentar esse cen\u00e1rio. \u201cEnt\u00e3o vai se foder\u201d (risos)! Quando sa\u00ed do rraurl, eu estava muito brava e desanimada com o cen\u00e1rio mesmo, n\u00e3o com pessoas espec\u00edficas, mas a forma como as coisas foram acontecendo foi deixando claro para mim que n\u00e3o era ali que eu queria estar. Mas falando enquanto ve\u00edculo, era o momento em que primeiro os blogs e depois o Facebook ficaram muito grandes e o rraurl foi perdendo o motivo de existir, ficando muito dif\u00edcil e a gente n\u00e3o conseguia ter essa ideia t\u00e3o clara de \u201cestamos criando um arquivo vivo que vai ser importante e relevante no futuro\u201d. Era s\u00f3 um puta trabalho. \u201cComo \u00e9 que a gente vai manter isso aqui? Isso custa dinheiro para manter, como \u00e9 que a gente vai fazer?\u201d Quando o rraurl come\u00e7ou em 97, foi comigo, o Gil Barbara e o Camilo Rocha. O Gil n\u00e3o \u00e9 a pessoa do texto, nunca foi; o lance dele era mais bastidores de tecnologia mesmo e trabalha com isso at\u00e9 hoje. E o Camilo pegou um emprego na Gazeta Mercantil e n\u00e3o tinha mais tempo de escrever pro site. E eu fiquei muito com a responsabilidade de, se o site for acontecer, vou ter que escrever nele. Ent\u00e3o comecei a escrever para poder atualizar o site. E anos depois, quando o rraurl come\u00e7ou a virar um neg\u00f3cio mesmo, fiquei nessa situa\u00e7\u00e3o de novo. Eu n\u00e3o tinha ningu\u00e9m que faria um departamento comercial desse site, ent\u00e3o eu tive que fazer. Fui capaz de aprender a escrever, mas n\u00e3o era capaz de aprender a ser um departamento comercial, que \u00e9 uma outra coisa completamente diferente (risos)! E eu nem queria isso. Ent\u00e3o foi ficando muito dif\u00edcil mesmo. Mas hoje em dia, tamb\u00e9m olho para esse momento com muito carinho e orgulho. Acho que a gente fez um neg\u00f3cio muito legal, uma coisa rara mesmo. Mas que durou o tempo que podia durar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94555 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/rrraul.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/rrraul.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/rrraul-300x180.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pensa ainda em voltar a escrever sobre m\u00fasica de uma forma mais aut\u00f4noma?<\/strong><br \/>\nSim. Na real, quando o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Massari\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Massari<\/a> e o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/11\/23\/tres-perguntas-nilson-paes-editora-terreno-estranho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nilson<\/a> me convidaram para fazer o livro em 2023, a gente foi tomar um caf\u00e9, e eles \u201ca gente tem essa editora&#8230; A gente queria te convidar para fazer um livro assim, assado\u201d. A primeira coisa que eu pensei foi: &#8220;Ah, eu n\u00e3o quero escrever sobre m\u00fasica&#8221;. Mas o Massari \u00e9 um cara super legal, todo mundo adora e eu tamb\u00e9m adoro ele. E os livros que a Terreno faz s\u00e3o muito bonitos, ent\u00e3o fiquei tipo \u201cp\u00f4, eu n\u00e3o quero [falar sobre m\u00fasica], mas ser\u00e1 que eu n\u00e3o consigo ter uma ideia?\u201d E da\u00ed acabou rolando o livro nesse formato que \u00e9 de mem\u00f3rias, mas muito sobre m\u00fasica. Escrever esse livro me fez voltar para v\u00e1rios assuntos com maturidade, uma cabe\u00e7a totalmente diferente da que eu tinha h\u00e1 15 anos, 20 anos, com recursos de texto que de fato n\u00e3o tinha quando era uma uma jovem aprendendo a escrever. Eu tenho uma newsletter que chama \u201cT\u00e1 Todo Mundo Tentando\u201d, onde escrevo sobre v\u00e1rias coisas. Menos sobre m\u00fasica, mas eu j\u00e1 entendi que m\u00fasica vai ser um assunto muito importante nela esse ano. Inclusive, estou fazendo um ano inteiro de conte\u00fado sobre o Bowie. Ent\u00e3o vai ter a\u00ed 12 meses para eu desfiar essa obsess\u00e3o de vida inteira que eu tenho com Bowie (risos). Esse \u00e9 um projeto que fiz no site da MTV, chamado \u201cDavid Bowie do dia\u201d que quase todos os dias eu publicava alguma coisa contando alguma curiosidade sobre a vida do Bowie, porque ele \u00e9 um po\u00e7o sem fundo de assunto, bicho! Quanto mais voc\u00ea sabe, mais aparece coisa para voc\u00ea saber. Do tipo, \u201cBowie teve uma coluna numa revista de arte contempor\u00e2nea em Nova York nos anos 2000\u201d. H\u00e3? (risos). Pois \u00e9, est\u00e1 ele l\u00e1 falando sobre arte. Apareceu uma coisa para mim esses dias que eu nunca soube que o Bowie fez uma apresenta\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum de Drum\u2019n\u2019 Bass dele, o \u201cEarthling\u201d, num clube underground em Londres, em 96, e nunca soube disso. Ent\u00e3o eu fiz isso, e na \u00e9poca ningu\u00e9m se importou com o \u201cDavid Bowie do dia\u201d, eu s\u00f3 fiquei fazendo porque era afim. E como o site da MTV saiu do ar e foi apagado, n\u00e3o tenho esse arquivo, mas estou refazendo nas edi\u00e7\u00f5es de sexta-feira da minha newsletter. Eu tenho uma lista de temas que fiz \u00e0 m\u00e3o e n\u00e3o paro de colocar itens ali. D\u00e1 para durar uns 5 anos (risos)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre coisas que a gente descobre sobre o Bowie at\u00e9 hoje: outro dia apareceu para mim um v\u00eddeo com o Henry Rollins falando quando ele conheceu o Bowie. Foi algo como &#8220;Oi, Henry, gosto dos seus livros\u201d e ele, \u201cnossa, voc\u00ea conhece meus livros?\u201d e ele: &#8220;Sim, eu j\u00e1 li alguns&#8221;. E a\u00ed ele o chamou para almo\u00e7ar e eles come\u00e7am a conversar sobre v\u00e1rios assuntos, e o Bowie pergunta \u201cvoc\u00ea j\u00e1 viu tal bal\u00e9? \u00c9 muito bom, voc\u00ea deveria ir\u201d e o Rollins \u201cn\u00e3o\u201d, sem saber o que responder direito. Parece que o Bowie se ligava em muitas coisas ao mesmo tempo.<\/strong><br \/>\n\u00c9, eu vi esse v\u00eddeo! \u00c9 parte da beleza dele, n\u00e9? Esse v\u00eddeo faz parte de uma s\u00e9rie de v\u00eddeos que a BBC fez na primeira semana do ano. Tem o tem um do Neil Tennant tamb\u00e9m, do Pet Shop Boys, tem um da Kate Moss, um do Brian Molko [Placebo], de v\u00e1rias pessoas contando esse tipo de lembran\u00e7as e todas elas v\u00e3o nessa dire\u00e7\u00e3o do Bowie chegar e falar uma coisa totalmente inesperada. Do tipo, \u201cp\u00f4, mas ele gostava disso?\u201d Sim! E acho que tem essa qualidade que \u00e9 muito parecida com o John Peel, de estar ligado, de ter disponibilidade intelectual e curiosidade suficiente para se ligar em v\u00e1rias coisas ao mesmo tempo, sem ficar preso no nicho do tipo, \u201ceu vou falar com o Henry Rollins sobre bal\u00e9\u201d (risos)! Muito bom!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas sobre essa coisa de escrever sobre m\u00fasica: eu j\u00e1 fiz um ensaio disso no ano passado, fazendo uma s\u00e9rie de conte\u00fados sobre a Lana Del Rey, porque \u00e9 uma artista que eu gosto muito e que o Goo foi o primeiro programa a passar na TV. Depois ela super estourou, as adolescentes passaram a idolatrar e achei t\u00e3o curioso acompanhar isso. Tipo, a namorada do meu filho gosta da Lana del Rey! Mas por causa do disco novo dela que em breve sairia, eu comecei a fazer uma s\u00e9rie que foi falando de todos os discos dela, mas da\u00ed a gata n\u00e3o lan\u00e7ou o disco novo e eu tive que continuar a s\u00e9rie, meio que morrendo (risos). Espero que saia esse ano, mas j\u00e1 foi um ensaio de como fazer com a voz de escritora que tenho hoje, do que eu falaria sobre m\u00fasica. N\u00e3o tendo nenhuma obriga\u00e7\u00e3o de falar na TV, de falar com um p\u00fablico X ou Y. O que eu posso falar quando n\u00e3o tenho obriga\u00e7\u00e3o de falar isso? Assim \u00e9 legal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Henry Rollins cuenta como fue conocer a David Bowie\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GEAmyTQ0Y_8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu j\u00e1 assinei a sua newsletter, mas n\u00e3o tive contato com o rraurl, porque demorei para me interessar por m\u00fasica eletr\u00f4nica. Lendo aqueles par\u00e1grafos curtos da se\u00e7\u00e3o chamada Backstage no livro pensei \u201cd\u00e1 vontade de ler mais coisas dela falando sobre m\u00fasica\u201d. Mas me deu uma coisa meio \u201cp\u00f4, quando ela escreveu sobre m\u00fasica, eu n\u00e3o aproveitei e o site n\u00e3o est\u00e1 mais no ar&#8221;, entende?<\/strong><br \/>\nAs coisas que eu escrevia no rraurl, principalmente no come\u00e7o, eram muito de agenda. Do tipo: \u201cvai rolar a festa X com o DJ Y\u201d e eram muito militantes. A gente tinha uma milit\u00e2ncia clubber, raver, muito forte. Falar isso hoje em dia parece t\u00e3o bobo\u2026 mas a gente era muito ing\u00eanuo. A gente acreditava muito no poder transformador da m\u00fasica. A gente queria que as pessoas conhecessem aquela m\u00fasica tamb\u00e9m. Do tipo \u201cjovens que est\u00e3o indo nas raves, elas s\u00e3o maravilhosas, aproveitem muito isso\u201d. Mas, bicho, ter tido a experi\u00eancia de ir numa rave com ingresso a R$5 e cada um levava sua bebida no bandej\u00e3o de qu\u00edmica da USP em 1994, era outro rol\u00ea. Voc\u00ea chegava, via o que estava acontecendo e falava: &#8220;T\u00e1, isso aqui tem uma capacidade de mudar o mundo de alguma forma. Todo mundo tinha que estar aqui vivendo o que a gente t\u00e1 vivendo\u201d, porque era muito euf\u00f3rico e muito aberto. E eu acho que isso se relaciona muito com a internet tamb\u00e9m, porque al\u00e9m de acreditar no poder da m\u00fasica, a gente tinha muito o sonho da \u201cinternet livre\u201d. \u201cA internet chegou e est\u00e1 mudando as coisas\u201d, \u201ca internet t\u00e1 permitindo que todo mundo fale\u201d. E olha s\u00f3 onde a gente veio parar por causa disso! (risos) Enfim, a gente achava que ia dar certo. Ent\u00e3o tinha um deslumbre muito forte com essa cena e o rraurl foi motivado por isso. \u201cA gente quer que mais gente tenha acesso a isso que a gente est\u00e1 conhecendo e as festas tenham mais pessoas e a gente quer conhecer os outros DJs que est\u00e3o por a\u00ed, que a gente ainda n\u00e3o conhece\u201d, etc. Ent\u00e3o, por isso que os textos do come\u00e7o do rraurl eram muito de divulga\u00e7\u00e3o. Por causa do rraurl, eu comecei a ser convidada a escrever para outros sites e eu tive que aprender como fazia, como falar sobre tal disco. \u201cComo \u00e9 que eu falo sobre isso? O que eu tenho para falar? O que eu acho desse disco?\u201d (risos). Ent\u00e3o eu fui aprendendo na marra e isso acabou dando depois na MTV, n\u00e9? \u201cEu vou falar sobre essas bandas, esses artistas, essas cenas que eu gosto, mas o que eu tenho a dizer sobre elas para esse p\u00fablico da MTV?\u201d Acho que o p\u00fablico na \u00e9poca tinha tipo 13 anos e a gente fez esse programa de Math Rock que o diretor do MTV deve ter olhado e falou: &#8220;Eu vou cancelar esse programa! Esse programa n\u00e3o vai passar pra grade do ano que vem, porque tipo, que porra essa mulher t\u00e1 falando?&#8221; Sim, mas mesmo assim eu fiz (risos)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu lembro que voc\u00ea comenta no livro que voc\u00eas tocaram Battles. Mas nessa \u00e9poca eu j\u00e1 n\u00e3o estava acompanhando mais MTV\u2026<\/strong><br \/>\n\u00c9. Ningu\u00e9m estava (risos)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas lembro que quando eu passava pelo canal e aparecia a propaganda do Goo, anunciando as coisas que tocariam, eu pensava \u201cdeve ser legal esse programa\u201d. Mas infelizmente nunca vi porque n\u00e3o acompanhava os hor\u00e1rios.<\/strong><br \/>\nE nem tem na internet. Eu brigava muito por isso, tipo \u201ca gente precisa colocar o programa no ar, precisa colocar o programa no Facebook\u201d, e ouvia de volta \u201cmas n\u00e3o pode por causa da Abril, da Viacom\u201d. Era uma batalha meio perdida. E durante um tempo teve no YouTube, mas depois foi meio que sumindo&#8230; Aproveitando o que a gente est\u00e1 falando, mas indo para um outro lugar: eu acho que tem uma coisa importante desse e de outros livros que est\u00e3o sendo publicados agora, tipo o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/01\/a-entrevista-ping-pong-e-para-mim-o-mais-proximo-da-entrevista-real-diz-marcelo-costa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">livro do Scream &amp; Yell<\/a>, o <a href=\"https:\/\/heartmerch.com.br\/products\/pre-venda-sounds-like-us-livro-marcador-sacola?srsltid=AfmBOoqLRw4IrL8iQSHTPxghiQ5vk8XHgaDJWGmNSauSzi58YImhwyeA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">livro do Sounds Like Us<\/a>, o livro \u201c<a href=\"https:\/\/www.veneta.com.br\/shop\/bate-estaca-como-djs-drag-queens-e-clubbers-salvaram-a-noite-de-sao-paulo-262\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bate Estaca<\/a>\u201d do Camilo Rocha, a nova edi\u00e7\u00e3o do \u201c<a href=\"https:\/\/www.ubueditora.com.br\/babado-forte.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Babado Forte<\/a>\u201d da Erika Palomino, o \u201c<a href=\"https:\/\/www.terrenoestranho.com.br\/pagina-de-produto\/jardim-quita%C3%BAna-cr%C3%B4nicas-de-paix%C3%A3o-pol%C3%ADtica-e-cultura-pop\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jardim Quita\u00fana<\/a>\u201d do Rodrigo Carneiro. Estou falando de alguns que eu lembro agora, mas tem outros. Eles est\u00e3o ajudando a registrar movimentos art\u00edsticos, coisas que aconteceram, que a gente acha que v\u00e3o ficar registradas para sempre na internet, mas elas n\u00e3o v\u00e3o. Tem muita coisa que j\u00e1 precisei pesquisar pro \u201cDeslumbre\u201d que n\u00e3o encontrei. Se quiser saber sobre o Retr\u00f4, n\u00e3o tem. Tem umas fotos ruins perdidas nos grupos de Facebook que daqui a pouco tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00e3o existir mais e uns relatos e uma mat\u00e9ria ou outra de TV, mas \u00e9 pouca coisa. Ent\u00e3o esses livros s\u00e3o mem\u00f3ria, mas tamb\u00e9m s\u00e3o reportagem, s\u00e3o importantes para deixar registrado algo que aconteceu. O livro do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bateestaca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Camilo<\/a> em especial, acho super importante porque essa cena da m\u00fasica eletr\u00f4nica brasileira movimentou muita gente. Gerou empregos e dinheiro, artistas brasileiros que foram para a gringa e depois voltaram gigantes. Essas coisas s\u00e3o importantes para o mercado, sabe? Tem um impacto cultural a\u00ed. Mas pela internet ser muito fragmentada e baseada no urgente, no agora, sem o livro do Camilo talvez a gente n\u00e3o soubesse de onde veio o [DJ] Marky, que ainda hoje \u00e9 um dos maiores DJs do mundo, sabe? O \u201c<a href=\"https:\/\/musicnonstop.uol.com.br\/loja\/livro-todo-dj-ja-sambou-osvaldo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Todo DJ J\u00e1 Sambou<\/a>\u201d da Cl\u00e1udia Assef tamb\u00e9m, que j\u00e1 teve duas edi\u00e7\u00f5es. S\u00e3o registros de algo que parece bobagem porque \u00e9 \u201cah \u00e9 pista, \u00e9 balada\u201d, mas n\u00e3o; isso \u00e9 m\u00fasica e \u00e9 comportamento, n\u00e9? \u00c9 importante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Globo Rep\u00f3rter - Gangues de Rua - 1991 - 3\u00aa Parte\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cLW_AkhBMC8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E de certa forma, parte do seu livro tamb\u00e9m faz um pouco disso ao falar sobre o Hells e como voc\u00ea descobriu essa cena eletr\u00f4nica aqui em S\u00e3o Paulo, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nFaz! Eu tentei fazer isso tamb\u00e9m no cap\u00edtulo sobre o Retr\u00f4, porque eu queria dar uma explica\u00e7\u00e3o do que eram as tribos urbanas pros jovens de hoje, sabe? Que era um conceito muito forte naquele per\u00edodo e que hoje em dia eu sei que ainda existe, mas eu acho que \u00e9 uma coisa muito de cultura da internet, porque as pessoas n\u00e3o precisam estar fisicamente num lugar. Os metaleiros em S\u00e3o Paulo, eles n\u00e3o precisam estar reunidos na porta da Woodstock Discos igual eles ficavam nos anos 90. Hoje em dia eles est\u00e3o online, mas se voc\u00ea passasse na porta da Woodstock Discos ali na Pra\u00e7a da Bandeira em 1996, tinha centenas de metaleiros aos finais de semana. E estavam ali por qu\u00ea? Porque queriam encontrar pessoas com gostos em comum. Estavam ali vivendo em bando, em turma, em tribos, n\u00e9? E fazendo a pesquisa pro livro, achei muitas reportagens sobre tribos urbanas nesse per\u00edodo. Tem do Estad\u00e3o, tem uma \u00f3tima da Globo, do Caco Barcellos na pista do Retr\u00f4. Ent\u00e3o esse registro faz a gente lembrar que isso foi importante, que de fato aconteceu e impactou v\u00e1rias pessoas. E se n\u00e3o fosse o Caco Barcellos ter ido fazer uma reportagem muito doida na madrugada do Retr\u00f4, talvez a gente nem tivesse essas cenas que me lembraram que o Retr\u00f4 tinha uma decora\u00e7\u00e3o toda feita de sucata com os manequins desconjuntados. Eu olhei e falei: &#8220;Nossa, era muito mais feio do que eu imaginava\u201d. Eu lembrava que era feio, mas \u00e9 muito pior\u201d (risos)! Ent\u00e3o, esse registro \u00e9 v\u00e1lido. E a gente est\u00e1 falando de coisas muito pessoais, por isso que sempre vai esbarrar nessa coisa da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ga\u00eda, pra gente finalizar aqui, queria te perguntar: quais s\u00e3o seus pr\u00f3ximos projetos?<\/strong><br \/>\nObrigado por perguntar, porque isso para mim \u00e9 super importante! O primeiro \u00e9 mais imediato, que na real \u00e9 a fase nova da newsletter. A \u201c<a href=\"https:\/\/www.gaiapassarelli.com\/t\/ttmt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">T\u00e1 Todo Mundo Tentando<\/a>\u201d \u00e9 um projeto super pessoal que existe desde 2021 e que foi tomando propor\u00e7\u00f5es que eu n\u00e3o imaginava que ia fazer 5 anos de vida, mas a\u00ed estamos. Que bom! \u00c9 um projeto que eu gosto muito de fazer porque levou minha escrita para outros lugares. E tudo que eu fiz na minha vida, sempre fui meio fazendo e meio descobrindo. E a newsletter \u00e9 assim tamb\u00e9m, mas eu tenho um planejamento de conte\u00fado muito legal para 2026 e em especial falando de m\u00fasica, falando do Bowie e falando de outras coisas. Ent\u00e3o, para quem leu e gostou do \u201cDeslumbre\u201d, vai encontrar mais sobre isso ali, principalmente nas de sexta-feira. E o segundo projeto \u00e9 o meu livro de fic\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um livro de contos que ainda n\u00e3o terminei, ent\u00e3o n\u00e3o sei o que vai acontecer, mas \u00e9 um projeto que eu j\u00e1 estou desenvolvendo h\u00e1 3 anos, que s\u00e3o hist\u00f3rias meio de crime, porque olha, estou contando porque eu quero contar isso, n\u00e9? O meu namorado F\u00e1bio, que \u00e9 funcion\u00e1rio p\u00fablico, \u00e9 de j\u00fari popular, ent\u00e3o ele \u00e9 chamado para ser j\u00fari popular em casos absolutamente escabrosos que acontecem em S\u00e3o Paulo. Toda vez que ele vai, ele volta contando uma hist\u00f3ria horr\u00edvel, sempre coisas muito ruins. E eu me baseei nessas hist\u00f3rias. N\u00e3o estou contando a hist\u00f3ria de ningu\u00e9m, \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, mas eu me baseei nessas hist\u00f3rias para escrever um livro de hist\u00f3rias passadas em regi\u00f5es diversas de S\u00e3o Paulo, que s\u00e3o totalmente ficcionais. E \u00e9 isso, \u00e9 um um trabalho novo que estou gostando muito de fazer, que eu n\u00e3o vou publicar na newsletter, mas que acho que estreia um novo momento de carreira, porque eu acho que esse livro \u201cDeslumbre\u201d de fato fecha um conjunto e agora posso fazer outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea est\u00e1 pensando em fazer outros eventos liter\u00e1rios para divulgar o livro? Voc\u00eas pretendem fazer outros eventos assim?<\/strong><br \/>\nSim. Agora no primeiro semestre, a gente quer fazer pelo menos alguma a\u00e7\u00e3o de lan\u00e7amento por m\u00eas para p\u00fablicos diferentes. Teve um que rolou no Ponta de Lan\u00e7a, bem diferente do que rolou no Bolor. Teve uma mesa de conversa com o Camilo Rocha e o Rodrigo Carneiro, mediado pela Camila Yahn. Da\u00ed \u00e9 uma forma de mostrar como o livro conversa muito com o livro deles. Tem uma tem\u00e1tica comum do jornalismo cultural e d\u00e1 para atrair tamb\u00e9m um outro p\u00fablico que n\u00e3o p\u00f4de ir no final do ano. Ent\u00e3o temos ideias do que fazer para fevereiro, mar\u00e7o e abril. A gente tem um lan\u00e7amento em Santos (SP) em 6 de mar\u00e7o, um lan\u00e7amento no Rio e mais um evento em S\u00e3o Paulo, em 12 de mar\u00e7o no Bar Alto, junto com debate com outras pessoas. Mas tem v\u00e1rias ideias de coisas que a gente ainda vai fazer em fevereiro, mar\u00e7o, abril, ent\u00e3o quem n\u00e3o foi nesses vai ter chance de ir nos outros.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-94558 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/gaia_rodrigo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/gaia_rodrigo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/gaia_rodrigo-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de Hernandes \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em vez de um livro de cr\u00edtica musical ou de reportagem no sentido tradicional, Ga\u00eda opta pelo caminho da mem\u00f3ria: um mapa afetivo de seu percurso pessoal\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/04\/entrevista-gaia-passarelli-fala-sobre-o-livro-deslumbre-historias-de-obsessao-musical-e-uma-vida-atravessada-pela-musica\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":101,"featured_media":94557,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[181],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94551"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/101"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94551"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94551\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":94561,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94551\/revisions\/94561"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94557"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}