{"id":94493,"date":"2026-02-28T00:10:05","date_gmt":"2026-02-28T03:10:05","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=94493"},"modified":"2026-04-02T00:03:21","modified_gmt":"2026-04-02T03:03:21","slug":"clovis-cosmo-apresenta-o-prognejo-com-vastopasto-um-musical-agroapocaliptico-no-triangulo-mineiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/28\/clovis-cosmo-apresenta-o-prognejo-com-vastopasto-um-musical-agroapocaliptico-no-triangulo-mineiro\/","title":{"rendered":"Entrevista: Cl\u00f3vis Cosmo apresenta o prognejo com \u201cVastopasto\u201d, um musical agroapocal\u00edptico no Tri\u00e2ngulo Mineiro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ociocretino\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Radicado na capital paulista, o pesquisador, escritor e m\u00fasico uberlandense <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/cloviscosmo_som\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cl\u00f3vis Cosmo<\/a> \u00e9 respons\u00e1vel por um disco bem singular da m\u00fasica brasileira contempor\u00e2nea. Passeando entre a distopia agroindustrial e o del\u00edrio musical, \u201c<a href=\"https:\/\/acervo-clovis-cosmo.super.site\/disco-completo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vastopasto: \u2026E Os Cerradofuturistas Sequestraram a Rel\u00f3giocomotiva<\/a>\u201d (2025) \u00e9 um \u00e1lbum que se apresenta como um musical ambientado em um Tri\u00e2ngulo Mineiro p\u00f3s-apocal\u00edptico, onde colapso ambiental e mem\u00f3ria hist\u00f3rica se misturam em uma obra conceitual doidona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVastopasto\u201d \u00e9 uma f\u00e1bula dist\u00f3pica na qual o progresso brasileiro virou caricatura e o amanh\u00e3 tem cheiro de pasto queimado. A narrativa do \u00e1lbum articula uma cr\u00edtica direta ao agro, ao extrativismo e \u00e0 l\u00f3gica de progresso que molda o interior do pa\u00eds. Trata-se de um \u00e1lbum sobre fascismo cotidiano, colapso ambiental e apagamento cultural, mas atravessado por humor \u00e1cido, exagero e s\u00e1tira. Sonoramente, Clovis rejeita uma produ\u00e7\u00e3o l\u00edmpida e aposta em timbres saturados, masteriza\u00e7\u00e3o em fita e uma est\u00e9tica artesanal, em que falhas e imperfei\u00e7\u00f5es fazem parte do discurso. O som \u00e9 \u00e1spero, como se tivesse sido registrado em K7s esquecidas enquanto algu\u00e9m narra o fim do mundo com sotaque do interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00fasica nasce do atrito entre tradi\u00e7\u00e3o sertaneja, can\u00e7\u00e3o popular brasileira e os gestos expansivos do rock progressivo, atravessados por psicodelia setentista e ecos da m\u00fasica barroca mineira. Para dar nome a essa colis\u00e3o, Cosmo cunhou o termo \u201cprognejo\u201d. Parece piada (e no in\u00edcio Cl\u00f3vis admite que era), mas at\u00e9 que faz sentido: a viola e a poeira do Tri\u00e2ngulo Mineiro s\u00e3o lan\u00e7adas numa engrenagem prog chapada que range, frita e devolve uma \u00f3pera agroapocal\u00edptica sem virtuosismo exibicionista, sertanejo sem romantiza\u00e7\u00e3o brega e psicodelia sem escapismo hippie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A recusa a formatos atuais tamb\u00e9m se estende \u00e0 circula\u00e7\u00e3o do disco: \u201cVastopasto\u201d foi lan\u00e7ado <a href=\"https:\/\/acervo-clovis-cosmo.super.site\/disco-completo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">de forma gratuita no site do artista<\/a> (contendo um extenso material de apoio para estudar seu contexto) e fora das grandes plataformas de streaming, refor\u00e7ando a ideia de uma escuta que exige aten\u00e7\u00e3o, tempo e envolvimento, totalmente distante do fluxo acelerado da economia digital. Tudo aponta para a mesma nega\u00e7\u00e3o central: a de transformar essa obra em produto r\u00e1pido e f\u00e1cil de ser digerido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gravado ao longo de cinco anos entre Uberl\u00e2ndia e S\u00e3o Paulo, quase integralmente por Cl\u00f3vis Cosmo em regime de one man band, o disco re\u00fane uma instrumenta\u00e7\u00e3o extensa \u2014 de guitarras, viol\u00f5es e teclados anal\u00f3gicos a flautas, clarinetes, violas, objetos cotidianos e ru\u00eddos processados. O resultado \u00e9 uma paisagem sonora que dialoga com a ideia de arquivo, ru\u00edna e arqueologia cultural, transformando o cancioneiro do interior em mat\u00e9ria de experimenta\u00e7\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista, Cl\u00f3vis Cosmo detalha o surgimento desse universo dist\u00f3pico, a pesquisa antropol\u00f3gica que sustenta o Prognejo, os dilemas de criar sozinho ao longo de tantos anos e as escolhas \u00e9ticas que atravessam sua m\u00fasica, como tratar um \u00e1lbum como linguagem em vez de mercadoria. Uma conversa que revela \u201cVastopasto\u201d n\u00e3o apenas como disco, mas como um poss\u00edvel registro arqueol\u00f3gico de um Brasil em colapso. Ou\u00e7a o disco abaixo, leia o papo a seguir e boa viagem.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cl\u00f3vis Cosmo - Vastopasto: ...E os Cerradofuturistas Sequestraram a Rel\u00f3giocomotiva - Album Completo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FLyHOAq2v0A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201dVastopasto\u201d nasce como um Agroapocalipse no Tri\u00e2ngulo Mineiro. Em que momento esse cen\u00e1rio dist\u00f3pico come\u00e7ou a se formar na sua cabe\u00e7a? Qual foi o estopim que deu origem a esse universo para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nAcho que foi uma constru\u00e7\u00e3o bastante gradual, atrav\u00e9s de sentimentos que foram se sedimentando e firmando uns aos outros. O agro \u00e9 uma constante em Uberl\u00e2ndia, e est\u00e1 em tudo, nos outdoors, nas vestimentas, na poeira, nas boiadas que ficam nos cantos e v\u00e1cuos da cidade, no tipo de riqueza e no tipo de pobreza. Eu sou uma pessoa bastante pessimista, acabo sempre vendo o mais grotesco em muita coisa. A pandemia, a ascens\u00e3o do fascismo, as grandes queimadas que deixavam o c\u00e9u encardido por semanas. Mas o momento em que a palavra \u201cVastopasto\u201d se firmou (e a partir da\u00ed fundamentou um rumo mais definido pro universo) foi numa viagem de \u00f4nibus atrav\u00e9s do estado de Goi\u00e1s, vizinho do Tri\u00e2ngulo. Por horas o \u00f4nibus ia andando e eu n\u00e3o via nenhuma \u00e1rvore, nem nada, s\u00f3 soja e pasto, por horas mesmo. Isso foi um choque grande de perceber assim, geograficamente. Um oceano de pasto, cinza e vago, \u00e9 isso que est\u00e3o fazendo do interior do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem uma pesquisa em antropologia sobre impactos culturais do Agro. Como esse estudo reverberou diretamente nas m\u00fasicas? Como foi equilibrar o papel de compositor, escritor e pesquisador dentro de um \u00fanico projeto?<\/strong><br \/>\nSinto que o estudo surgiu para dar sentido e repert\u00f3rio a um sentimento mais gutural, anterior e mais intuitivo. Ao mesmo tempo, para entender meu lugar, da minha fam\u00edlia e a hist\u00f3ria da nossa forma de ser, de pensar, tive a necessidade de come\u00e7ar a ler muita coisa neste campo. O Tri\u00e2ngulo Mineiro n\u00e3o foi amplamente retratado na literatura hist\u00f3rica\/social no Brasil, ent\u00e3o fui achando o que consegui. Tem uns poucos bons textos sobre o assunto, muita coisa da pr\u00f3pria UFU [Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia]. Uma das primeiras coisas que fiz foi a entrevista com meu av\u00f4 M\u00e1rio, que est\u00e1 na faixa 10 (&#8220;&#8230;E os Cerradofuturistas Sequestraram a Rel\u00f3giocomotiva&#8221;), onde ele me contou muito da hist\u00f3ria &#8211; e deu uma aten\u00e7\u00e3o enorme para a Ferrovia Mogiana, que marcou muito o Tri\u00e2ngulo, por representar um \u00edcone do progresso e o translado com as grandes cidades. Ent\u00e3o me baseei na rota da Mogiana para organizar as cidades do universo, A Capital (Bras\u00edlia), O Complexo Industrial Descascalho (S\u00e3o Paulo) e o Vastopasto (Tri\u00e2ngulo Mineiro \/ Uberl\u00e2ndia), numa rela\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 do nosso tempo real. Muito do universo vem de releituras do Brasil arcaico (Col\u00f4nia, Imp\u00e9rio), combinadas com absurdos intern\u00e9ticos e contempor\u00e2neos. <a href=\"https:\/\/acervo-clovis-cosmo.super.site\/disco-completo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No site que n\u00f3s fizemos<\/a>, tem uma bibliografia bem legal dos textos mais importantes para a ideia. Acho que para equilibrar tudo foi uma coisa de compress\u00e3o e descompress\u00e3o, uma coisa descansa, nutre e impulsiona a outra, dai assim vamos andando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea passou cinco anos compondo e gravando o \u00e1lbum. Houve algum momento em que o projeto te escapou das m\u00e3os ou se transformou de forma inesperada?<\/strong><br \/>\nQuando eu me mudei para S\u00e3o Paulo, em 2023, o disco (que j\u00e1 estava uns 65% gravado) ficou um pouco atribulado e confuso, em partes pela crise de adaptar ao ritmo da metr\u00f3pole, que me impactou mentalmente, e tamb\u00e9m por uma compara\u00e7\u00e3o que passei a ter com artistas mais \u201cprofissionalizados\u201d ou \u201ccapacitados\u201d, embebidos no mercado daqui. Ao mesmo tempo, estar longe de Uberl\u00e2ndia me botou em perspectiva a respeito da import\u00e2ncia desse trabalho e tamb\u00e9m daquilo que eu n\u00e3o conseguia observar estando imerso ali. De certa forma, isso real\u00e7ou as especificidades e consegui ver quais partes de mim sentiam muita falta de l\u00e1 e quais sentiam algum acolhimento aqui. Desenvolvi um respeito muito maior pelo Tri\u00e2ngulo, quanto mais fui me aprofundando, entendendo os problemas e deixando secar o sentimento dolorido dessa coisa toda.<\/p>\n<figure id=\"attachment_94497\" aria-describedby=\"caption-attachment-94497\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-94497 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-94497\" class=\"wp-caption-text\"><em>Arte da capa de \u201cVastopasto: \u2026E Os Cerradofuturistas Sequestraram a Rel\u00f3giocomotiva\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No disco, h\u00e1 viol\u00f5es, guitarras, teclados anal\u00f3gicos, flautas, clarinetes, sintetizadores e at\u00e9 objetos do cotidiano. Qual foi a l\u00f3gica curatorial para escolher timbres e texturas do universo sonoro do \u201cVastopasto\u201d?<\/strong><br \/>\nA l\u00f3gica foi sempre a de invocar o apocalipse como aconteceu na hist\u00f3ria &#8211; atrav\u00e9s de um colapso Agro-Digital, com toda a hist\u00f3ria do colapso de Uberaba 2. Ent\u00e3o busquei sempre um som que fosse estragado de forma ligeiramente bonita, em alguns momentos mais industrial, em outros mais pastoril, mas tamb\u00e9m um som que incomodasse, que n\u00e3o fosse simplesmente agrad\u00e1vel &#8211; sempre remetendo ao sert\u00e3o. Acho que timbre mexe muito com uma coisa t\u00e1ctil, no sentido mesmo de toque &#8211; de \u00e1speros, lisos, macios, arredondados, ocos, densos, etc. Escutar as coisas na vida \u00e9 como se elas estivessem nos tocando, e de fato em termos f\u00edsicos, est\u00e3o. Vale a leitura do Murray Schaffer e do seu conceito de paisagem sonora, que me impactou demais. Gosto muito dos timbres de grava\u00e7\u00f5es antigas e zuadas, esse aspecto de \u201clost media\u201d, ou de um registro distorcido que de certa forma representa melhor seu lugar no tempo-espa\u00e7o do que se fosse puro&#8230; tipo os sertanejos mais antigos (alguns discos do Tonico e Tinoco, a &#8220;Velha Morada&#8221; do Pena Branca e Xavantinho, etc) al\u00e9m das grava\u00e7\u00f5es mais fritadas mesmo, do \u201cSubreino dos Metazo\u00e1rios\u201d (Marconi Notaro), do \u201cPa\u00eabir\u00fa\u201d (Lula C\u00f4rtes\/Z\u00e9 Ramalho), do Faust, do \u201cHisscivilization\u201d (Jupiter Ma\u00e7\u00e3)&#8230; Ent\u00e3o busquei um pouco aquele tipo de destrui\u00e7\u00e3o que constr\u00f3i cen\u00e1rios. Muitos objetos do dia a dia, se voc\u00ea processar digitalmente, conseguem criar uns sons doidassos. Tamb\u00e9m me vali dos instrumentos que tive acesso ao longo do tempo, e que fui aprendendo a tocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea apresenta o prognejo como uma linguagem musical pr\u00f3pria, unindo viola, modas sertanejas e arranjos progressivos. Em que ponto essa combina\u00e7\u00e3o deixou de ser experimento e virou um g\u00eanero na sua cabe\u00e7a? Voc\u00ea j\u00e1 enxerga outros artistas al\u00e9m de voc\u00ea e sua banda explorando isso?<\/strong><br \/>\nDesde da concep\u00e7\u00e3o do disco eu j\u00e1 tinha esse rumo, de buscar esse som espec\u00edfico, a princ\u00edpio muito na linguagem da s\u00e1tira do agronejo, mas a coisa foi se consolidando com o estudo mesmo. Tive que deixar de ser imbecil e ativamente estudar a m\u00fasica da minha regi\u00e3o, ao inv\u00e9s de negar aquilo como sempre fiz &#8211; este processo me ensinou muito. Quase que ca\u00ed num ponto assim amargo pra mim quando consegui perceber um \u201cm\u00e9todo\u201d sendo formulado. Se voc\u00ea n\u00e3o toma cuidado, fica emburacado no seu pr\u00f3prio padr\u00e3o. Por sorte, o prognejo \u00e9 infinito, e fica enjoativo quando se repete igualzinho, ent\u00e3o as novas coisas precisam sempre ser mais prog e mais nejo ainda, se n\u00e3o nem desenvolvo. Hoje descobri outras coisas que tem muito a ver com o prognejo, inclusive a Tet\u00ea Esp\u00edndola, que para mim \u00e9 uma pioneira do g\u00eanero, e muitos outros artistas do passado, que j\u00e1 traziam essa mistura. O Tempero do Nejo est\u00e1 em muita coisa, algumas coisas que at\u00e9 nem se consideram assim. Com o pessoal da banda, principalmente com o Jos\u00e9 e o Jo\u00e3o, falo muito nisso quando achamos que algum som que estamos ouvindo tem o nejo. Eles, ali\u00e1s, no trabalho da Oblomov, desenvolvem um som que tem o sertanejo muito presente, apesar de muitas vezes de forma sutil, na abertura de vozes, nas guitarras violadas e no clima espraiado e \u201csolar\u201d. O Victor Jos\u00e9 (Antiprisma), violeiro da banda, est\u00e1 trabalhando num disco maluco centrado na viola caipira, com bastante pesquisa neste tema, que pra mim \u00e9 mais um expoente do prognejo de primeira qualidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_94498\" aria-describedby=\"caption-attachment-94498\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-94498\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-94498\" class=\"wp-caption-text\"><em>Arte da contracapa de \u201cVastopasto: \u2026E Os Cerradofuturistas Sequestraram a Rel\u00f3giocomotiva\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea toca praticamente tudo no disco. Foi por escolha est\u00e9tica ou necessidade pr\u00e1tica?<\/strong><br \/>\nUm pouco dos dois. Eu gosto bastante de trabalhar sozinho, \u00e9 uma forma que encontrei ao longo dos anos de testar minha pr\u00f3pria l\u00f3gica e exercitar isso at\u00e9 o limite, construindo o cen\u00e1rio que der na telha, sem precisar passar pelo atrito e pela perda que a comunica\u00e7\u00e3o inevitavelmente imp\u00f5e aos processos. Esta redoma \u00e9 um ambiente seguro para dar voz ao pior e ao melhor que eu carrego, pra poder quem sabe deixar de carregar. Quando se trabalha em grupo (coisa que \u00e9 tamb\u00e9m imprescind\u00edvel na vida) os resultados podem espanar um pouco mais do ponto focal, combinando v\u00e1rias perspectivas sobre aquela mesma est\u00e9tica. A depender da obsess\u00e3o, isso \u00e9 complicado. Al\u00e9m disso, s\u00e3o poucas as pessoas com quem sinto uma resson\u00e2ncia grande no som, e muitas delas convidei para participar gravando alguma coisa, ou tocando na banda ao vivo. Agora que acabei o disco, fiquei um pouco enjoado de ficar gravando sozinho, ent\u00e3o estou fazendo muitas coisas novas com outras pessoas. Isso cria uma circula\u00e7\u00e3o, um aprendizado e um respiro muito importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea decidiu n\u00e3o lan\u00e7ar o disco nas grandes plataformas como Spotify, Apple Music e Amazon Music, chamando-as de abusivas. Em que momento essa decis\u00e3o deixou de ser s\u00f3 conceito e virou uma postura \u00e9tica concreta? Como voc\u00ea pretende divulgar organicamente o disco e construir p\u00fablico fora dos mecanismos tradicionais?<\/strong><br \/>\nCara, isso \u00e9 uma doidera. Hoje j\u00e1 se sabe bastante sobre o teor doentio do streaming, em especial do \u201cspotfai\u201d, que trabalha incessantemente pela eros\u00e3o da m\u00fasica e de seus trabalhadores em prol do seu pr\u00f3prio ac\u00famulo, sob um verniz de \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o do acesso\u201d. Com o fortalecimento de IA\u2019s, muitas destas empresas adicionaram silenciosamente novas clausulas nos seus termos de uso. N\u00f3s, ao subir o som l\u00e1, estamos licenciando de forma vital\u00edcia qualquer altera\u00e7\u00e3o ou c\u00f3pia deste atrav\u00e9s de \u201ctecnologias j\u00e1 existentes e que possam ser inventadas no futuro\u201d. Isto sem contar nas \u201cfalsas bandas\u201d, promovidas pela plataforma e chupinhadas de cria\u00e7\u00f5es de artistas reais. Al\u00e9m disso, apoiam a ind\u00fastria b\u00e9lica dos massacres do Oriente M\u00e9dio e do imperialismo como um todo. Eu n\u00e3o compactuo com isso e, apesar da contradi\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o acredito na efic\u00e1cia pol\u00edtica do boicote. Isso tudo \u00e9 uma quest\u00e3o que me veio mais do est\u00f4mago do que da cabe\u00e7a: n\u00e3o acho que o \u201cVastopasto\u201d v\u00e1 diferenciar um centavo na renda bilion\u00e1ria desta galera; no entanto, o Spotify tambem nunca fez nada por mim (e nem por quase nenhuma banda\/projeto independente, na minha vis\u00e3o), ent\u00e3o, se um dia n\u00f3s formos subir o disco l\u00e1, vai ter que valer a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a segunda parte da pergunta, n\u00e3o fa\u00e7o a menor ideia. Hoje tenho a alegria de ter pessoas ao meu redor que acreditam no projeto e conseguem pensar o que eu n\u00e3o consigo. Neste sentido, acreditamos que a l\u00f3gica de escuta deste som exige uma \u201ccircunspec\u00e7\u00e3o\u201d que v\u00e1 agregar na experi\u00eancia, sabe? Acredito que a raridade do disco pode intensificar sua exist\u00eancia, criar um artefato. Muito em breve se deus quiser n\u00f3s vamos conseguir coisas maiores e melhores, tamb\u00e9m com m\u00eddia f\u00edsica e formas de acesso mais diretas e calorosas com as pessoas (shows de muitos formatos, audi\u00e7\u00f5es, eventos educacionais e criativos, exposi\u00e7\u00f5es e feiras). Eu compro a ideia de estar fora de moda, acho que isso \u00e9 um produto vend\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea descreve o disco como \u201cregistro arqueol\u00f3gico\u201d das lutas dos Cerradofuturistas e apenas o \u201cprimeiro ato\u201d da saga. O que j\u00e1 existe sobre os pr\u00f3ximos cap\u00edtulos desse universo?<\/strong><br \/>\nA sequ\u00eancia deste primeiro disco vai sair em 2026, e j\u00e1 est\u00e1 em andamento. Desta vez, ao inv\u00e9s de um arco narrativo enorme, envolvendo come\u00e7o-meio-e-fim, as m\u00fasicas v\u00e3o focar mais em epis\u00f3dios, localidades, criaturas e personagens espec\u00edficos de todo o \u201cVastopasto\u201d, sendo uma coisa mais despretensiosa, afim de ilustrar melhor muitos dos elementos que existem ali e acabaram n\u00e3o tendo destaque na saga dos Cerradofuturistas. Tudo ainda dentro do escopo do prognejo, acho at\u00e9 que mais bem polido. N\u00e3o se tratando somente de m\u00fasica, teremos tamb\u00e9m o livro-jogo para RPG de mesa, que j\u00e1 est\u00e1 bastante desenvolvido e a\u00ed sim o p\u00fablico vai ter acesso ao mundo completo e tudo que tem por al\u00ed.<\/p>\n<figure id=\"attachment_94499\" aria-describedby=\"caption-attachment-94499\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-94499\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/clovis3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-94499\" class=\"wp-caption-text\"><em>Clovis Cosmo e sua banda<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em algum momento voc\u00ea teme que o universo dist\u00f3pico do disco se aproxime demais da realidade\u2026 ou isso j\u00e1 est\u00e1 acontecendo?<\/strong><br \/>\nQuando eu pensei no colapso dos Agroreatores de Uberaba 2 &#8211; que deu origem ao \u201cVastopasto\u201d &#8211; foi por volta de 2022, e era algo que j\u00e1 dava pra sentir o cheiro. Em Uberaba 2, eles deram um jeito de converter a energia vital do solo diretamente em informa\u00e7\u00e3o digital, para armazenar nos HD\u2019s que sustentavam o Simulacro, onde era mantida sedada a popula\u00e7\u00e3o. Hoje, o latif\u00fandio n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 de gado e soja, com a cess\u00e3o de terras enormes no Brasil para os DataCenters de IA, j\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o. Quanto ao Agro propriamente dito, ele segue ativo e grande, muito maior do que n\u00f3s conseguimos imaginar estando no contexto urbano. Acho que infelizmente a tend\u00eancia do Brasil \u00e9 cada vez mais o \u201cVastopasto\u201d, espalhado pelo sert\u00e3o inteiro, com conglomerados urbanos megalopolescos e prensados aqui e ali. Sinto que hoje o pr\u00f3prio apocalipse j\u00e1 se tornou clich\u00ea, e o desespero vai se futilizando enquanto produto. Nesse sentido, talvez surja at\u00e9 uma brecha pra gente olhar pra outras coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ouvindo o disco e checando o v\u00eddeo da apresenta\u00e7\u00e3o do show &#8220;Do Prognejo ao Vasto Pasto\u201d, identifiquei sonoridades que me remeteram a algo de Cidad\u00e3o Instigado, Mutantes, Tom Z\u00e9, Flaviola e o Bando do Sol, Lula C\u00f4rtes, Quintal de Clorofila. Esses artistas chegaram a te influenciar? Quais seriam suas outras influ\u00eancias?<\/strong><br \/>\nDesses a\u00ed, sou man\u00edaco por Flaviola, Lula C\u00f4rtes, Quintal de Clorofila. Mutantes e Tom Z\u00e9 curto bastante tamb\u00e9m, e Cidad\u00e3o Instigado nunca escutei (vou escutar depois dessa). Para mim alguns discos imprescind\u00edveis para minha forma\u00e7\u00e3o e formula\u00e7\u00e3o do \u201cVastopasto\u201d s\u00e3o \u201cNo Subreino dos Metazo\u00e1rios\u201d (Marconi Notaro), \u201cOlias of Sunhillow\u201d (Jon Anderson), os dois primeiros do Oswaldo Montenegro, \u201cS\u00e3o Piau\u00ed\u201d (Clodo Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio), o \u201cEstrada da Vida\u201d (Milion\u00e1rio e Jos\u00e9 Rico) o \u201cLa Leyenda del Tiempo\u201d (Camaron de La Isla), \u201cCantoria 1\u201d (Elomar, Geraldo Azevedo, Xangai, Vital Farias), o \u201cRevolver\u201d (Walter Franco) o disco hom\u00f4nimo do Rodger Rog\u00e9rio e Teti, al\u00e9m de quase tudo da Barca do Sol, do Syd Barrett, do Gok\u00e7en Kaynatan, do Jupiter Ma\u00e7\u00e3. Poderia falar muito mais, mas acho que o essencial mesmo \u00e9<br \/>\npor a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A banda que o acompanhou na apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por Victor Jos\u00e9 (viola caipira), Marco Benvegnu (clarinete e percuss\u00e3o), John Di Lallo (sintetizador), Jos\u00e9 Eduardo (bateria) e Jo\u00e3o Queiroz (baixo). Voc\u00ea pretende manter a mesma forma\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos shows? Existem outras datas agendadas?<\/strong><br \/>\nPretendo sim. Em alguns casos, faremos s\u00f3 com partes do grupo, quando as circunst\u00e2ncias pedirem um formato mais ac\u00fastico ou enxuto por exemplo, mas em geral, essa forma\u00e7\u00e3o consegue transpor ao vivo a sonoridade do disco de forma muito fiel, e todo mundo toca muito, conseguindo tamb\u00e9m trocar de instrumentos quando necess\u00e1rio, com o b\u00f4nus de serem todos grandes amigos e pessoas que eu admiro. Estamos organizando j\u00e1 muitas empreitadas para 2026, e tenho f\u00e9 que vamos conseguir circular bastante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cl\u00f3vis Cosmo @ Centro da Terra (7.10.2025)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-8uQ1waDH7I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cl\u00f3vis Cosmo e Desvairada Ergotkestra Apresentam Pleno Inferno (Live in Feirinha do Amor)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-I8bnL1xRww?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Aos peregrinos do oriente - Victor Jos\u00e9 (part. Cl\u00f3vis Cosmo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hmJ8u5sGJPE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A m\u00fasica de Clovis nasce do atrito entre tradi\u00e7\u00e3o sertaneja, can\u00e7\u00e3o popular brasileira e rock progressivo, atravessados por psicodelia setentista e ecos da m\u00fasica barroca mineira\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/28\/clovis-cosmo-apresenta-o-prognejo-com-vastopasto-um-musical-agroapocaliptico-no-triangulo-mineiro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":101,"featured_media":94496,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[8103],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94493"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/101"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94493"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94493\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":94502,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94493\/revisions\/94502"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94496"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94493"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94493"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94493"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}