{"id":94481,"date":"2026-02-27T11:54:08","date_gmt":"2026-02-27T14:54:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=94481"},"modified":"2026-03-27T01:18:30","modified_gmt":"2026-03-27T04:18:30","slug":"entrevista-e-faixa-a-faixa-nei-van-soria-revisita-a-propria-obra-em-espanhol-no-album-latinoamericano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/27\/entrevista-e-faixa-a-faixa-nei-van-soria-revisita-a-propria-obra-em-espanhol-no-album-latinoamericano\/","title":{"rendered":"Entrevista e Faixa a faixa: Nei Van Soria revisita a pr\u00f3pria obra em espanhol no \u00e1lbum &#8220;Latinoamericano&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista e fotos de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/diegoqueijo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Diego Queijo<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma tarde escaldante dos \u00faltimos dias de janeiro, Nei Van Soria recebeu o Scream &amp; Yell em seu est\u00fadio no centro de Porto (Forno) Alegre. \u00c9 no terceiro andar de um antigo pr\u00e9dio que ele mant\u00e9m o escrit\u00f3rio e o espa\u00e7o onde formata ideias, planos e obsess\u00f5es musicais. Um lugar que parece condensar d\u00e9cadas de hist\u00f3ria do rock ga\u00facho e tamb\u00e9m projetar seus pr\u00f3ximos passos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi ali que, ao longo de 2025, Nei gravou \u201c<a href=\"https:\/\/www.neivansoria.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Latinoamericano<\/a>\u201d, \u00e1lbum que chegou \u00e0s plataformas no \u00faltimo dia 23 de janeiro e que marca um movimento simb\u00f3lico em sua trajet\u00f3ria. O disco re\u00fane dez faixas de sua carreira solo e dos tempos de Cascavelletes, agora recriadas em espanhol, com novos arranjos e uma abordagem que preserva a ess\u00eancia, mas parece deslocar o ponto de vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coproduzido ao lado do baterista Leandro Schirmer e do baixista Juliano Pereira, \u201cLatinoamericano\u201d tamb\u00e9m nasce como um gesto estrat\u00e9gico: abrir o espectro. \u201cEu quero tocar para quem nunca me viu tocando\u201d, diz Nei. Depois de um 2024 em que fez menos shows do que de costume, o trabalho surge como plataforma de relan\u00e7amento art\u00edstico e geogr\u00e1fico. De acordo com ele, h\u00e1 conversas em andamento na Argentina, no Uruguai e na Espanha, com uma poss\u00edvel apresenta\u00e7\u00e3o em Barcelona, em outubro. Paralelamente, ele finaliza um document\u00e1rio sobre a pr\u00f3pria carreira, j\u00e1 gravado e em fase de edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que um simples projeto de vers\u00f5es, \u201cLatinoamericano\u201d parece funcionar como s\u00edntese de uma intui\u00e7\u00e3o antiga de que sua m\u00fasica sempre dialogou com o rock argentino, com a can\u00e7\u00e3o latino-americana e com uma identidade que ultrapassa fronteiras (sentimento, ali\u00e1s, que tamb\u00e9m acometeu um antigo parceiro de Cascavelletes, Frank Jorge, que chegou a passar uma temporada em Buenos Aires).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista, Nei revisita suas primeiras viagens a Buenos Aires, a descoberta de Charly Garc\u00eda, as tentativas de conquistar outros mercados, as dificuldades de cantar em outro idioma e o processo de reconstruir sua pr\u00f3pria obra sob uma nova luz. Faixa a faixa, ele comenta o disco como quem refaz o pr\u00f3prio mapa \u2014 n\u00e3o apenas geogr\u00e1fico, mas est\u00e9tico, afetivo e cultural.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Latinoamericano\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lcE8vDsrR9Ha2o3ZNKk38vfdsQDiiLD5c\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea foi \u00e0 Argentina pela primeira vez?<\/strong><br \/>\nQuando eu estava na transi\u00e7\u00e3o entre o TNT e os Cascavelletes (nota: Nei entrou no TNT em 1984 e deixou a banda, junto com Flavio Basso aka J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3, em 1986 para montar o Cascavelletes). Eu tinha ouvido falar que em Buenos Aires existiam banjos. E eu estava numa fase de ouvir muita m\u00fasica country e estava a fim de comprar. No Brasil n\u00e3o tinha nada. A\u00ed eu peguei um \u00f4nibus e fui sozinho. E descobri Buenos Aires. E, em 1886, veio o Charly Garcia tocar em Porto Alegre (19 e 20 de junho de 1986, no finado Teatro da Ospa, que foi demolido e hoje d\u00e1 lugar a um pr\u00e9dio comercial na Avenida Independ\u00eancia) pela primeira vez. A\u00ed conheci o Fernando Samalea, baterista, e os outros m\u00fasicos, e come\u00e7ou uma rela\u00e7\u00e3o de amizade que foi crescendo ao longo dos anos. Eu ia (\u00e0 Buenos Aires) todos os anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quando voc\u00ea descobriu esse lado \u201clatino-americano\u201d mais forte?<\/strong><br \/>\nEu sempre fui. Mas a quest\u00e3o \u00e9 se dar conta do que se \u00e9. A gente vai descobrindo ao longo da vida. No tempo das bandas TNT e Cascavelletes, eu e o Fl\u00e1vio t\u00ednhamos uma estrat\u00e9gia, um plano, uma conspira\u00e7\u00e3o para conquistar o mundo pela m\u00fasica. Era um plano simples (risos). Ent\u00e3o sa\u00edamos todas as noites para conspirar, ter ideias, compor m\u00fasicas, e a nossa refer\u00eancia sempre foi Buenos Aires, que no s\u00e9culo 19 teve seu apogeu, junto com Paris e Londres. Mas, com o passar do tempo, amadurecendo musicalmente, entendendo um pouco mais os elementos que est\u00e3o permeados nas refer\u00eancias, mesmo as de fora e as daqui, do que a gente ouve em volta, eu me dei conta de que essa latinidade, ainda que no rock, tem uma caracter\u00edstica muito diferenciada do que a gente conhece como rock tradicional. Quando eu fui mixar o \u00e1lbum \u201cJardim Ingl\u00eas\u201d, em 1998, em Nashville, eu tinha ido antes a Los Angeles visitar uns amigos. Acabamos fazendo um som e tal. E eu achei que estava tocando um rock mais cl\u00e1ssico, no tempo mais 4&#215;4 e brit\u00e2nico poss\u00edvel. A gente acabou de tocar e o outro guitarrista, que era norte-americano, veio e disse: \u201cQue legal esse groove que voc\u00ea tem, \u00e9 muito diferente\u201d. E eu disse: \u201cComo assim?\u201d. Eu achei que eu estava super tradicional. Ent\u00e3o essas caracter\u00edsticas s\u00e3o algo que est\u00e1 permeado no tecido. E a ideia de fazer esse \u00e1lbum em espanhol me aproximou um pouco mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi?<\/strong><br \/>\nEu explorei, revisitei as refer\u00eancias do rock argentino que conhe\u00e7o a vida inteira. Mas com outros ouvidos. E conversando muito com o Samalea. Essa refer\u00eancia brasileira sempre esteve muito presente para eles tamb\u00e9m. E a m\u00fasica brasileira tem um outro molejo, uma outra batida, uma outra divis\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o de intervalos. Ela \u00e9 mais harm\u00f4nica e mais complexa. E isso gera uma admira\u00e7\u00e3o. Um pouco como a gente olha para os m\u00fasicos de jazz. \u00c9 uma outra estirpe. E a m\u00fasica brasileira traz na sua ess\u00eancia isso. \u00c9 um disco de vers\u00f5es de m\u00fasicas da minha carreira, mas embebido em uma outra roupagem, uma outra dimens\u00e3o, inclusive de grava\u00e7\u00e3o. Foi gravado ao vivo no meu est\u00fadio e depois levei para o Mario Breuer (Calamaro, Fito, Enanitos Verdes, Charly, etc.) mixar, que \u00e9 um engenheiro cl\u00e1ssico. Mixou todo mundo. E \u00e9 um amigo meu h\u00e1 d\u00e9cadas. Ent\u00e3o eu sempre tive essa sonoridade do rock argentino tendo a brasilidade por natureza, por ter nascido aqui. Por mais que eu seja um roqueiro e n\u00e3o converse diretamente com o que se chama de \u201cm\u00fasica brasileira\u201d, o que eu fa\u00e7o \u00e9, sim, m\u00fasica brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a grava\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nGravamos o baixo, guitarra e bateria ao vivo. Depois, alguns overdubs e a voz, por conta da dic\u00e7\u00e3o e tal. O espanhol \u00e9 meu segundo idioma. E o Samalea e a Michelle Bliman (cantora, saxofonista e companheira do Samalea) me ajudaram na tradu\u00e7\u00e3o e nos detalhes. Ficou com um sotaque argentino, mas eu n\u00e3o queria que soasse perfeito\u2026 \u00c9 um estrangeiro cantando em espanhol, mas isso \u00e9 bem aceito l\u00e1. Lembro que, na primeira ou segunda vez que eu fui \u00e0 Argentina, vi o \u00e1lbum do David Lee Roth, o primeiro solo dele (\u201cEat &#8216;Em and Smile\u201d, de 1986), e o \u00e1lbum l\u00e1 era em espanhol (o t\u00edtulo foi lan\u00e7ado como \u201cSonrisa Salvaje\u201d). Com a voz gravada em espanhol. E isso me chocou. Porque os argentinos e o mundo hisp\u00e2nico aceitam muito bem estrangeiros cantando em espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tanto que, em muitos discos produzidos na Argentina e no Uruguai na \u00e9poca, os t\u00edtulos das m\u00fasicas impressos estavam em espanhol\u2026<\/strong><br \/>\nSim\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas o que primeiro chegou pra ti de m\u00fasica argentina?<\/strong><br \/>\nO Charly mesmo. Essa primeira vinda dele abriu esse universo. Conhecia j\u00e1, mas de forma difusa. \u201cCanci\u00f3n para mi Muerte\u201d, do Sui Generis, era bem conhecida. Enfim, o nome do Charly era conhecido, mas a m\u00fasica n\u00e3o muito. Ent\u00e3o teve uma coisa de descoberta. E o show foi afud\u00ea. Ficamos em choque. Ele estava acompanhado do Fricci\u00f3n, que era a banda do Samalea na \u00e9poca, na Argentina, e com o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Fito+P%C3%A1ez\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fito P\u00e1ez<\/a> (acompanhando Charly, a forma\u00e7\u00e3o ficou conhecida como \u201cLas Ligas\u201d). Foi a primeira forma\u00e7\u00e3o que veio. E o Daniel, o irm\u00e3o do Charly, era quem fazia a luz, e era s\u00f3 luz branca. Foi muito impactante. Era muito profissional. E, no Brasil, ainda est\u00e1vamos na fase de bandas de garagem. Todo mundo era muito amador. Depois, nos anos 1990, come\u00e7ou a melhorar um pouco, mas antes era ruim. Soava mal, era mal tocado e a estrutura era pouca. Como ainda \u00e9 hoje em v\u00e1rios lugares.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Charly Garc\u00eda - Teatro Da Ospa, Porto Alegre, Brasil (20\/06\/1986) - Video\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RLIRq4HN_tM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Charly estava tentando passar uma fronteira. E voc\u00ea tamb\u00e9m se aventurou na \u00e9poca dos Cascavelletes para sair do Rio Grande do Sul e ganhar outras capitais com a mudan\u00e7a para o Rio de Janeiro\u2026 Qual era o sentimento?<\/strong><br \/>\nPeixe fora d\u2019\u00e1gua total. Em uma das idas, eu estava no Morro Santa Marta. E a gente estava fazendo contato com o Lulu Santos, o Frejat, tentando armar entrevistas para aparecer na TV, e a\u00ed eu, todo branquelo, com cabel\u00e3o, de bota, e um guri come\u00e7ou a puxar conversa. Ele perguntou algo, eu respondi, e ele disse: \u201cDe que pa\u00eds que tu \u00e9s?\u201d. Ele achou que eu n\u00e3o era daqui. E aquilo foi um choque de realidade, de certa forma. E, no Rio, a gente queria expandir o nosso universo e fazer shows. O Alem\u00e3o (Humberto Gessinger, do Engenheiros do Hawaii) j\u00e1 estava pipocando, fazendo excurs\u00f5es. E a gente queria entrar nessa coisa mais nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas se apresentaram nos dias 9 e 10 de janeiro de 1990 no Rocka-ula, no Teatro Ipanema. E pouco depois voc\u00ea saiu dos Cascavelletes e foi para a Argentina gravar seu primeiro \u00e1lbum solo. Ou seja, voc\u00ea teve contato com outras barreiras depois\u2026<\/strong><br \/>\nA barreira cultural \u00e9 mega importante, a lingu\u00edstica \u00e9 mais alta ainda. Porque brasileiro n\u00e3o aceita gente de fora cantando em portugu\u00eas. Lembre-se do vexame que foi o Sting cantando \u201cFragile\u201d (\u201cFr\u00e1gil\u201d, de 1991). N\u00e3o d\u00e1 para entender o idioma em que ele est\u00e1 cantando. Foi muito mal assessorado tentando cantar em portugu\u00eas. E n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. O que eu fiz para fazer vers\u00f5es desse meu \u00e1lbum em espanhol: eu domino o idioma, falo fluentemente, tenho vocabul\u00e1rio grande, e ainda assim precisei de bastante ajuda ao longo de todo o processo para soar legal. N\u00e3o \u00e9 perfeito e nem tinha a inten\u00e7\u00e3o de ser perfeito, mas alguns amigos espanh\u00f3is reconheceram como rock argentino pelo sotaque.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Fragil\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7r_2VRLlUpk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fito disse certa vez, em entrevista ao Marcelo Fr\u00f3es, que Porto Alegre foi a porta de entrada do rock argentino no Brasil. Por que Porto Alegre?<\/strong><br \/>\nGeografia e cultura. O espanhol, para n\u00f3s, \u00e9 muito pr\u00f3ximo. A gente tem uruguaios e argentinos que v\u00eam passar as f\u00e9rias nas praias. E, para a gente, \u00e9 a mesma dist\u00e2ncia de ir a S\u00e3o Paulo. Tem a coisa do ga\u00facho tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/25\/docs-circo-voador-olho-nu-e-cone-sul\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tudo isso aqui era uma regi\u00e3o s\u00f3<\/a>, que foi politicamente se dividindo ao longo da hist\u00f3ria. Ent\u00e3o existe uma similaridade de viv\u00eancia que faz sentido. Acho que tudo isso sutilmente fundamenta o comportamento, a cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a ambi\u00e7\u00e3o com esse disco \u00e9 chegar l\u00e1 ou \u00e9 ampliar aqui?<\/strong><br \/>\nEu queria s\u00f3 gravar, lan\u00e7ar e fazer show. Minha ambi\u00e7\u00e3o com esse disco \u00e9 isso. Poder fazer as minhas coisas com uma dedica\u00e7\u00e3o quase que total. O que eu n\u00e3o posso hoje. Eu tenho que me desdobrar em v\u00e1rios, como muitos outros artistas brasileiros. Eu tenho uma carreira assim porque eu sempre me desdobrei. S\u00f3 de carreira solo eu tenho 14 discos lan\u00e7ados e estou ainda produzindo regularmente. Se n\u00e3o est\u00e1 vindo daqui, vai vir de outro lugar, e a banda tem que seguir tocando. Eu acredito nessa tese de construir carreira e construir legado. E a m\u00e1gica da m\u00fasica pode acontecer a qualquer momento, mesmo depois de o cara morrer. Ent\u00e3o tem que ter um desprendimento para agir conscientemente dessa forma, que \u00e9 o que eu fa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas lan\u00e7ar um \u00e1lbum hoje em dia faz a gente inevitavelmente cair na pergunta das plataformas digitais, que parecem subjulgar os artistas ao meio de reprodu\u00e7\u00e3o\u2026<\/strong><br \/>\nSim, houve uma despersonifica\u00e7\u00e3o. O artista deixou de ter import\u00e2ncia quando, na verdade, ele \u00e9 a grande hist\u00f3ria. \u00c9 como algu\u00e9m que faz o design daquela roupa que tu acha que \u00e9 do caralho. A arte est\u00e1 a\u00ed. A roupa n\u00e3o pode ficar descolada do artista. A imagem, as ideias e o conceito do artista precisam estar colados, ser unificados, e as plataformas dividiram. Fudeu. E, com a IA, \u00e9 o crep\u00fasculo dos deuses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi o processo de escolha do repert\u00f3rio?<\/strong><br \/>\nS\u00e3o m\u00fasicas que j\u00e1 fizeram algum sucesso. Escolhi sozinho, sou muito individualista para essas coisas. Penso em lan\u00e7ar em vinil tamb\u00e9m em algum momento. Coloquei em uma ordem que fosse convidativa, ent\u00e3o \u201cJardim Ingl\u00eas\u201d \u00e9 a primeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>NEI VAN SORIA APRESENTA &#8220;LATINOAMERICANO&#8221; FAIXA A FAIXA<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_94484\" aria-describedby=\"caption-attachment-94484\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-94484\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-94484\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de Diego Queijo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01 &#8211; Jard\u00edn Ingl\u00e9s (Jardim Ingl\u00eas, 1998)<\/strong><br \/>\n\u201cA vers\u00e3o original tem uma quest\u00e3o de pros\u00f3dia. Tive que reaprender para encaixar e ficar bacana. \u00c9 uma das faixas mais ouvidas. Tem um lance de m\u00e3o direita no piano, na ponte, que eu fiz e ficou legal. A\u00ed, em vez da orquestra, fiz a melodia na guitarra. Estou aprendendo a cantar melhor, apesar de a voz estar pior. D\u00e1 mais trabalho um pouco. Aprendi tamb\u00e9m ao longo dos anos. E a composi\u00e7\u00e3o da letra foi bem literal. Eu estava na casa de um amigo em Londres, a princesa tinha morrido, estava esperando para jantar, minha esposa escrevendo uns postais. \u00c9 s\u00f3 uma observa\u00e7\u00e3o do entorno. Hoje, com a velocidade, as pessoas parecem mais passivas diante de tudo. A arte tem essa possibilidade de te transportar, de alterar o campo de vis\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02 &#8211; Estamos Vos y Yo (Isso Inclui Voc\u00ea, 1995)<\/strong><br \/>\n\u201cA primeira que gravei na minha carreira solo, em Buenos Aires, com parte da banda do Charly Garcia na \u00e9poca. Fernando Samalea (bateria), Fabi\u00e1n von Quintiero (teclados), Fernando Lupano (baixo) e o Choly no piano. O Choly vive na Espanha hoje e gravou novamente o piano nesta nova vers\u00e3o quase 40 anos depois. Na parte do meio dessa m\u00fasica, a m\u00e9trica est\u00e1 bem diferente em um trecho, mas ficou do caralho. Acho que a gente foi muito feliz.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_94486\" aria-describedby=\"caption-attachment-94486\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-94486 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-94486\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de Diego Queijo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03 &#8211; El Tiempo (O Tempo, 1998)<\/strong><br \/>\n\u201c\u00c9 uma parceria com o Thedy Corr\u00eaa (Nenhum de N\u00f3s). M\u00fasica linda. A gente teve sorte de encaixe. Eu tinha a m\u00fasica e ele tinha a letra. E com poucos retoques de ambas as partes, encaixamos de forma perfeita. E virou isso aqui. Parece f\u00e1cil transpor para o espanhol, mas tem m\u00e9tricas e express\u00f5es idiom\u00e1ticas que no Brasil fazem sentido e que l\u00e1 n\u00e3o. \u00c9 uma m\u00fasica conhecida, linda, e o Thedy tamb\u00e9m ficou contente de ter essa vers\u00e3o. Eu liguei para ele para pedir autoriza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 uma parceria. Mudou a m\u00e9trica do refr\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04 &#8211; Susie (Susie, 1998)<\/strong><br \/>\n\u201cEssa ficou muito boa. E, no original, a gente pronunciava \u201cSuzy\u201d, e, em espanhol, \u00e9 \u201cSussi\u201d. Eu acho que o rock de l\u00e1 e o rock daqui de alguma forma bebem nas mesmas fontes, que s\u00e3o, claro, o rock ingl\u00eas, com algumas idiossincrasias de sonoridade fon\u00e9tica. Podem ser coisas impercept\u00edveis para quem n\u00e3o est\u00e1 cruzando fronteiras, e essas foram algumas reflex\u00f5es que tive no processo desse disco.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05 &#8211; Me Voy a Quedar (Eu vou ficar, 2001)<\/strong><br \/>\n\u201c\u00c9 uma balada. Sempre fui um baladeiro, escrevi muitas, adoro. &#8216;Sob Um C\u00e9u de Blues&#8217; (cl\u00e1ssico dos Cascavelletes) \u00e9 essencialmente minha. A letra \u00e9 minha e do Fl\u00e1vio, \u00e9 uma parceria, mas \u00e9 o tipo de ritmo e harmonia que eu gosto mais. Sou roqueiro, mas a balada, para mim, tem uma diferencia\u00e7\u00e3o. Sutileza.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_94488\" aria-describedby=\"caption-attachment-94488\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-94488 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-94488\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de Diego Queijo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06 &#8211; Vos y Yo (Voc\u00ea e Eu, 2001)<\/strong><br \/>\n\u201cEssa eu coloquei um piano Rhodes. Est\u00e1 bem rock and roll. Gravada em um take s\u00f3. Fizemos v\u00e1rias sess\u00f5es, claro, mas pegamos um take. O que demorou mais em todo o disco foram os vocais. Levei meses. E o Mario Breuer mixou l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07 &#8211; Princesa Pelirroja (2024)<\/strong><br \/>\n\u201cO nome original dela j\u00e1 era esse em espanhol mesmo, mas a m\u00fasica era em portugu\u00eas. Ent\u00e3o peguei a grava\u00e7\u00e3o original, j\u00e1 que fazia um ou dois anos que a gente tinha gravado, e s\u00f3 coloquei a voz diferente e uma nova mixagem. Eu fui a Buenos Aires para resolver essa e outras letras com o Samalea.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08 &#8211; Los Angeles (Os Anjos, 2001)<\/strong><br \/>\n\u201c\u00c9 legal porque tem um groove. Foi dif\u00edcil achar o ponto dela. Deu trabalho. Fizemos dois takes diferentes e constru\u00edmos ela. Para mim n\u00e3o soava t\u00e3o bem, n\u00e3o sei se \u00e9 a m\u00e9trica. Ent\u00e3o dava um n\u00f3. Mas, com o tempo, a gente aprende a se mover melhor com as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e m\u00e9ritos. Eu aprendi a entender isso com o fato de cantar. Sempre quis cantar assim ou assado, mas entendi que a minha voz \u00e9 minha. N\u00e3o vou parecer com um ou com outro. E as pessoas reconhecem a minha voz, ou reconhecem o jeito que eu toco, e isso \u00e9 um m\u00e9rito. \u00c9 superdif\u00edcil ser reconhecido por uma caracter\u00edstica f\u00edsica tua. O jeito de caminhar, o jeito de tocar guitarra, como soa, como fala. \u00c9 \u00fanico. E, quando envolve a arte que se faz, agrega outra camada. \u00c9 diferente de outras coisas. No sertanejo, por exemplo, tudo o que chega est\u00e1 com a mesma imposta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se sabe quem \u00e9 quem. Tem 10, 20 duplas diferentes, com nuances, mas tudo em um molde s\u00f3. Todo mundo tenta entrar no molde e n\u00e3o respeita a pr\u00f3pria natureza. Ent\u00e3o respeito minhas caracter\u00edsticas enquanto me diferencio do resto.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>09 &#8211; Lobo Estep\u00e1rio (Lobo da Estepe, 1989)<\/strong><br \/>\n\u201c\u00c9 uma m\u00fasica emblem\u00e1tica. Um folk rock. &#8216;Lobo Estep\u00e1rio&#8217; \u00e9 <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2025\/01\/28\/02-um-livro-que-marcou-a-sua-adolescencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o nome do livro<\/a> (no original, \u2018Der Steppenwolf\u2019, de Hermann Hesse, publicado em 1927) em espanhol. Nessa vers\u00e3o, tamb\u00e9m quis construir outra coisa. Bebi no rock argentino, com mais teclados, um pouco mais viagem, um pouco Peter Gabriel, busquei outras inspira\u00e7\u00f5es. Mas, no meio, eu fa\u00e7o uma refer\u00eancia \u00e0 origem cl\u00e1ssica da m\u00fasica, ao viol\u00e3o. E, no fim, a gente enlouquece. Eu toco todos os teclados. Tem elementos cl\u00e1ssicos do rock argentino, com camadas. A percuss\u00e3o \u00e9 do Schirmer tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10 &#8211; Jessica Rose (J\u00e9ssica Rose, 1987)<\/strong><br \/>\n\u201cAchei que seria interessante para um p\u00fablico que n\u00e3o me conhece ouvir e depois entender que isso faz parte de uma outra fase. Que foi importante, que passou h\u00e1 muito tempo, mas existe. E tratei de fazer vers\u00f5es muito diferentes das originais mesmo. Gostei tanto que fiz vers\u00f5es em portugu\u00eas das vers\u00f5es em espanhol e n\u00e3o lancei. Est\u00e3o guardadas. Est\u00e3o prontas, mixadas e finalizadas para lan\u00e7ar em algum momento. Fazia sentido trazer essa m\u00fasica para a atualidade, com um olhar fresco e descolar um pouco. N\u00e3o queria que soasse como Cascavelletes. Tinha que estar inserida no meu spectrum visual desse momento e desse disco. Tinha que estar conversando com essa sonoridade, que \u00e9 uma coisa de power trio com alguns overdubs, mas poderia ser outra m\u00fasica. Se eu colocasse outra letra, seria outra m\u00fasica, ningu\u00e9m diria que era &#8216;J\u00e9ssica Rose&#8217;. E tem uma homenagem a &#8216;Candy&#8217; (Iggy Pop) no meio da grava\u00e7\u00e3o. Eu lembro que &#8216;Candy&#8217;, l\u00e1 (na Argentina), era uma m\u00fasica forte, ent\u00e3o trouxemos um elemento, uma parte.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_94487\" aria-describedby=\"caption-attachment-94487\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-94487 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/neivansoria3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-94487\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de Diego Queijo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u2013 Diego Queijo \u00e9 jornalista! Acompanhe:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/diegoqueijo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">instagram.com\/diegoqueijo<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nei revisita suas primeiras viagens a Buenos Aires, a descoberta de Charly Garc\u00eda, as dificuldades de cantar em outro idioma e o processo de reconstruir sua pr\u00f3pria obra&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/27\/entrevista-e-faixa-a-faixa-nei-van-soria-revisita-a-propria-obra-em-espanhol-no-album-latinoamericano\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":140,"featured_media":94489,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2319],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94481"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/140"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94481"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94481\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":94492,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94481\/revisions\/94492"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94489"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}