{"id":94361,"date":"2026-02-20T00:01:53","date_gmt":"2026-02-20T03:01:53","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=94361"},"modified":"2026-04-01T01:32:22","modified_gmt":"2026-04-01T04:32:22","slug":"conexao-brasil-portugal-manuel-molarinho-fala-sobre-outra-vez-arroz-novo-disco-do-baleia-baleia-baleia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/20\/conexao-brasil-portugal-manuel-molarinho-fala-sobre-outra-vez-arroz-novo-disco-do-baleia-baleia-baleia\/","title":{"rendered":"Conex\u00e3o Brasil\/Portugal: Manuel Molarinho fala sobre \u201cOutra Vez Arroz\u201d, novo disco do Baleia Baleia Baleia"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pedro.m.salgado.5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pedro Salgado<\/a>, especial de Lisboa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2018, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/04\/02\/entrevista-baleia-baleia-baleia-portugal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em entrevista ao Scream &amp; Yell<\/a>, Manuel Molarinho afirmava que \u201cO <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/baleia_baleia_baleia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Baleia Baleia Baleia<\/a> produz uma sonoridade ligada ao instinto, \u00e0 emo\u00e7\u00e3o e \u00e0 ideia de n\u00e3o ter medo de ser um ato inesperado\u201d. Oito anos depois, encontramo-nos novamente numa esplanada no Chiado, e as suas palavras continuam a nortear o mais recente \u00e1lbum do duo portuense que nos preparamos para abordar, tal como diversas quest\u00f5es relativas ao grupo. \u201c<a href=\"https:\/\/salivadiva.bandcamp.com\/album\/outra-vez-arroz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Outra Vez Arroz<\/a>\u201d (2026) \u00e9 um disco de continuidade, combativo, ecl\u00e9tico e onde a banda exprime o seu desencanto relativamente ao futuro em fun\u00e7\u00e3o das guerras, do genoc\u00eddio, da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza num grupo restrito de pessoas e da aus\u00eancia de consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O single de \u00edndole punk \u201cNPC\u201d expressa o niilismo presente no trabalho, mas faixas como a insinuante \u201cDeixa O Frio Entrar\u201d (que versa sobre a possibilidade de acolhimento e na ideia de verdade para as pessoas que nos s\u00e3o queridas) e a cat\u00e1rtica \u201cHedoninho\u201d (uma enumera\u00e7\u00e3o dos pequenos e grandes prazeres da vida) servem de contraponto ao estado geral e conferem um tom positivo ao disco. Para al\u00e9m das m\u00fasicas citadas, destacam-se \u201cSobrestimulados\u201d (uma denuncia forte contra a gentrifica\u00e7\u00e3o) que demonstra a for\u00e7a roqueira do grupo e \u201cSuper-Agrobeto\u201d que representa uma tirada humorada sobre algu\u00e9m que vir\u00e1 salvar o mundo, dando a sua opini\u00e3o sobre tudo. \u201c\u00c9 a nossa m\u00fasica mais engra\u00e7adinha\u201d, diz Manuel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No novo \u00e1lbum, a interventiva \u201cAntifa Ao Contr\u00e1rio \u00c9 Ot\u00e1rio\u201d conta com a colabora\u00e7\u00e3o in\u00e9dita em disco de dois m\u00fasicos exteriores \u00e0 banda portuense (Evaya e Sc\u00faru Fitch\u00e1du) e sobre a eventualidade de estender, futuramente, as parcerias a artistas brasileiros, Molarinho destaca o valor da amizade como o fator decisivo. \u201cEu sempre fiz m\u00fasicas com amigos e se tivessem vontade de colaborar eu faria uma parceria com eles. Nesse sentido, podia fazer algo com Monch Monch, Tangolo Mangos e com a Sophia Chablau. Teria de ser com estas pessoas que eu considero amigas. Nunca fiz m\u00fasica s\u00f3 pelo interesse art\u00edstico, o lado humano \u00e9 que me interessa\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente ao selo Saliva Diva, do qual Manuel Molarinho e o baterista Ricardo Cabral fizeram parte da sua funda\u00e7\u00e3o, em 2020, o vocalista e baixista do Baleia Baleia Baleia destaca a vitalidade do mesmo em fun\u00e7\u00e3o de um panorama nem sempre fecundo e em que muitos selos acabam ao fim de poucos anos devido \u00e0 pouca rentabilidade financeira: \u201cO Saliva Diva est\u00e1 vivo e ativo, organizou mais de 100 concertos por ano desde o fim da pandemia, tem uma curadoria na ilha da Madeira, em Lisboa, no Porto e em Coimbra e tem tamb\u00e9m independ\u00eancia e capacidade para lan\u00e7ar o pr\u00f3ximo \u00e1lbum do Baleia Baleia Baleia, perfazendo 32 discos editados at\u00e9 ao momento. Por isso, s\u00f3 temos de ficar orgulhosos com o nosso trabalho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m de Portugal (onde se prepara atualmente para realizar 14 shows de apresenta\u00e7\u00e3o do novo disco entre fevereiro e abril), o duo portuense j\u00e1 atuou na Galiza (Espanha), B\u00e9lgica, Brasil e na Irlanda. A possibilidade de se apresentar em novos palcos internacionais e os objetivos futuros do grupo, constituem um desafio ao qual Manuel Molarinho responde com serenidade e pragmatismo. \u201cO futuro n\u00e3o nos preocupa muito e o importante \u00e9 tocar o mais poss\u00edvel. Mesmo que fosse s\u00f3 em palcos pequenos n\u00e3o nos chatear\u00edamos com isso. Se a m\u00fasica continuar a ser um ganha-p\u00e3o ou parte dele ent\u00e3o \u00e9 \u00f3timo, porque n\u00e3o ambiciono ter um emprego das 9h \u00e0s 17h. Claro que gostava de conhecer novos pa\u00edses e perceber como \u00e9 que o p\u00fablico reage \u00e0 nossa m\u00fasica. Mas, o importante \u00e9 que me sinta feliz no que fa\u00e7o\u201d, conclui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Lisboa para o Brasil, Manuel Molarinho conversou com o Scream &amp; Yell sobre o Baleia Baleia Baleia. Confira:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ou\u00e7a abaixo o \u00e1lbum na integra!<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"ANTIFA AO CONTRA\u0301RIO E\u0301 OTA\u0301RIO\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/o6cS4N4Fg2I?list=OLAK5uy_lxc1UA0pZcHrCiPNZ3MEchCJH574DT9L0\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como nasceu o \u00e1lbum \u201cOutra Vez Arroz\u201d (2026) e o que \u00e9 que voc\u00eas procuraram alcan\u00e7ar com este trabalho?<\/strong><br \/>\nO \u00e1lbum nasceu de maneira normal. Quando nos juntamos na sala de ensaios e nas passagens de som v\u00e3o saindo uns riffs e algumas coisas que n\u00f3s guardamos. Na realidade, h\u00e1 dois anos j\u00e1 t\u00ednhamos sido gentrificados na nossa sala de ensaios, no Porto, e fomos para outra. A atual criou alguns constrangimentos e temos ensaiado cada vez menos e agora vamos ser gentrificados novamente. Isto tem sido sempre uma demanda. Neste disco sentimos uma necessidade de nos isolarmos um pouco e o nosso t\u00e9cnico de som, Bruno Barroso, tinha uma sala em Chaves (cidade no norte de Portugal) e empurr\u00e1mos essa vontade de construir. Porque, a certa altura, fizemos duas mini resid\u00eancias em Chaves para pegarmos nas ideias que reunimos e construir qualquer coisa. Foi a primeira vez que sa\u00edmos para compor durante tr\u00eas ou quatro dias. Portanto, vem do processo normal de fazer m\u00fasica, estar em banda e ter menos tempo para ensaiar. Fomos apanhados numa curva, que \u00e9 diferente dos outros discos. Apesar dos \u00e1lbuns anteriores terem tido sempre uma toada interventiva e preocupada socialmente se calhar n\u00e3o estavam t\u00e3o chateados. Este disco \u00e9 mais desiludido. As coisas n\u00e3o est\u00e3o muito f\u00e1ceis, n\u00e3o vislumbramos um horizonte pr\u00f3spero e se calhar no mundo ningu\u00e9m est\u00e1 preparado para este chorrilho de informa\u00e7\u00e3o. Por essa raz\u00e3o, os ve\u00edculos criativos servem para depositar a nossa frustra\u00e7\u00e3o e construirmos algo que seja mais produtivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sinto que no novo trabalho a banda alargou o seu espectro musical adotando uma sonoridade mais suja e, tematicamente, versaram diferentes estados de esp\u00edrito. Concorda?<\/strong><br \/>\nConcordo totalmente. Na parte instrumental, o nosso objetivo \u00e9 o de integrar coisas novas e neste trabalho a bateria tem uns ritmos mais vivos do que nos outros discos. Eu e o Ricardo Cabral repar\u00e1mos que a m\u00fasica acaba por estar em escalas maiores e a parte r\u00edtmica tem maior festividade. \u00c9 um fato engra\u00e7ado, porque as faixas s\u00e3o mais duras. N\u00f3s inclu\u00edmos no \u00e1lbum influ\u00eancias r\u00edtmicas ligadas \u00e0 terra, ou seja, elementos vivos que nos deixassem mais alegres e do ponto de vista textural introduzimos efeitos que n\u00e3o t\u00ednhamos acrescentado antes. Foi o caso de alguns pedais que eu j\u00e1 usava no formato solo, que s\u00e3o simula\u00e7\u00f5es de sintetizadores, e que funcionaram bem. Sim, \u00e9 um \u00e1lbum mais sujo em termos sonoros. Do ponto de vista l\u00edrico, isto sempre foi um olhar para n\u00f3s e para o que est\u00e1 ao nosso redor. Se calhar aprofundamos o niilismo. Mas, tamb\u00e9m para contrariar um pouco isso, porque faz parte do nosso processo, quando estamos muito niilistas temos de ir buscar for\u00e7as dentro de n\u00f3s. Por isso, abord\u00e1mos a quest\u00e3o do hedonismo e do prazer como salva\u00e7\u00e3o e igualmente do abra\u00e7o emp\u00e1tico e do acolhimento. Esses t\u00f3picos s\u00e3o quase imposi\u00e7\u00f5es para que n\u00e3o olhemos a vida da mesma forma e irmo-nos lembrando de olhar para os outros lados. Embora o panorama esteja complicado, h\u00e1 sempre o prazer de cantar, dan\u00e7ar, dar um abra\u00e7o e estarmos com algu\u00e9m e sentir esse calor. Isso tamb\u00e9m nos faz sentir vivos. Existe igualmente uma procura dentro de n\u00f3s de raz\u00f5es para continuar a construir e estarmos felizes no meio desta confus\u00e3o e encontrarmos um rumo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BALEIA BALEIA BALEIA - NPC\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DoFVkFruKEw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A interventiva \u201cAntifa Ao Contr\u00e1rio \u00c9 Ot\u00e1rio\u201d conta com a participa\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos Evaya e Sc\u00faru Fitch\u00e1du. Como surgiu esta colabora\u00e7\u00e3o e como avalia o contributo que eles deram \u00e0 faixa?<\/strong><br \/>\nPara al\u00e9m deles, tamb\u00e9m h\u00e1 um coro informal de v\u00e1rias pessoas que n\u00f3s juntamos e que foram cantar na nossa sala de ensaios, ao qual chamamos de Coro Informal Antifa. Uma das coisas que t\u00ednhamos reparado \u00e9 que o Baleia Baleia Baleia ao fim de tr\u00eas discos e apesar de gostarmos de tocar sozinhos (embora j\u00e1 tenha havido um par de concertos que fizemos com Matias Ferreira no segundo baixo) sentimos que estava na altura de ter uma contribui\u00e7\u00e3o. Na realidade, nunca nos fez sentido ter um &#8216;featuring&#8217; s\u00f3 porque sim, mas essa m\u00fasica tinha um espa\u00e7o que quer\u00edamos preencher. O <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/scurufitchadu\/?hl=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sc\u00faru Fitch\u00e1du<\/a> \u00e9 das principais vozes anti-fascistas da cena portuguesa presente, o trabalho dele \u00e9 superinteressante e n\u00f3s admiramo-lo bastante. Se pens\u00e1ssemos em algu\u00e9m para fazer uma participa\u00e7\u00e3o conosco seria sempre a primeira pessoa. Ele mostrou-se interessado em colocar vozes, n\u00f3s t\u00ednhamos a m\u00fasica, existiam partes em aberto e demos-lhe a abertura para escrever e cantar o que quisesse. Fomos apanhados de surpresa porque ele n\u00e3o p\u00f4de estar conosco e gravou \u00e0 parte e mandou-nos as faixas. Quando nos enviou a sua parte ficamos super surpreendidos da maneira mais positiva. Sentimos que a m\u00fasica ganhou e era o que faltava. A participa\u00e7\u00e3o da<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/evaya___\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Evaya<\/a> \u00e9 um pouco diferente, porque veio na sequ\u00eancia de uma ideia que possu\u00edamos s\u00f3 que pretend\u00edamos uma segunda voz para completar. Nos concertos, tocamos uma vers\u00e3o da Evaya (admiramos muito o que ela faz) e depois pusemos o coro para gritar em for\u00e7a \u201cN\u00e3o passar\u00e3o\u201d. J\u00e1 que \u00edamos utilizar uma colabora\u00e7\u00e3o numa m\u00fasica, ao menos que fosse em for\u00e7a. Foi uma experi\u00eancia para n\u00f3s, porque nunca t\u00ednhamos passado por isto. Ter uma m\u00fasica, estar a gravar com algu\u00e9m externo que participou nela, e como \u00e9 que iriamos reagir a isso era algo de novo. Mas, foi tudo muito fixe (legal) e as ideias foram ao s\u00edtio com bastante facilidade. O coro contou com 20 e tal pessoas que participaram via WhatsApp e como n\u00e3o podiam estar presentes mandaram a faixa de voz e n\u00f3s inclu\u00edmos na m\u00fasica. Tratou-se de uma bela experi\u00eancia e \u00e9 uma das can\u00e7\u00f5es do disco que achamos positivas. No fundo, exprime que enquanto houver cora\u00e7\u00e3o e soubermos dar a m\u00e3o uns aos outros o \u00f3dio n\u00e3o passa. Era a faixa em que fazia sentido participar em conjunto com membros da nossa comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas fizeram um tour no Brasil <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/07\/tres-perguntas-direto-do-porto-baleia-baleia-baleia-desembarca-no-brasil-para-shows-ideias-energia-e-suor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em novembro de 2024<\/a> em conjunto com Monch Monch (o projeto de Lucas Monch). Que recorda\u00e7\u00f5es guarda dos shows, de tocar com os Tangolo Mangos e a Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo e da recetividade do p\u00fablico brasileiro?<\/strong><br \/>\nTenho muitas saudades. Em primeiro lugar, focando-me nas dificuldades, quando vou para fora fico com uma melhor no\u00e7\u00e3o do pa\u00eds onde vivo. De fato, em Portugal h\u00e1 muitas queixas e existem imensas coisas que deviam ser melhoradas. Mas, senti uma realidade no undergound brasileiro ainda mais dura. \u00c9 extremamente dif\u00edcil, porque as dist\u00e2ncias s\u00e3o maiores e n\u00e3o \u00e9 igualmente f\u00e1cil arrastar p\u00fablico. Isso depende geralmente ou exclusivamente das bilheteiras e as pessoas est\u00e3o dispostas a pagar menos por raz\u00f5es sociais. O que eu verifiquei \u00e9 que os m\u00fasicos de l\u00e1, que s\u00e3o incr\u00edveis, tocavam pelo Uber e pelo jantar. Deparar-nos com essa realidade tamb\u00e9m \u00e9 bom, porque Portugal apesar de tudo tem um underground que \u00e9 preocupado e a maior parte das associa\u00e7\u00f5es e dos bares querem garantir que h\u00e1 uma dignidade no tratamento e d\u00e3o-te comida e dormida ou qualquer coisa. Claro que foram todos espetaculares conosco, mas \u00e9 ainda mais dif\u00edcil. Isso fez-nos admirar imenso as pessoas que est\u00e3o l\u00e1 a tentar fazer o mesmo que n\u00f3s. Mas, h\u00e1 o outro lado da hist\u00f3ria, porque a forma de estar e acolher \u00e9 um pouco diferente. \u00c9 mais alto astral e a energia est\u00e1 sempre em cima. Toc\u00e1mos rodeados de m\u00fasicos inacredit\u00e1veis e pass\u00e1mos uma semana na Bahia, mais concretamente em Salvador, quando decorria o Inverno em Portugal, e n\u00f3s est\u00e1vamos dentro do mar morno (risos). Depois, passeamos por S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e fomos at\u00e9 Minas Gerais. Tamb\u00e9m tivemos muita sorte com os shows que apanhamos e esse com a Sophia Chablau e com Monch Monch l\u00e1 no Rio era numa festa que \u00e9 o Fechamento. Basicamente, aquilo era um escrit\u00f3rio pequeno, mas quando fazem a festa na rua tem caracter\u00edsticas muito espec\u00edficas, porque passa o el\u00e9trico (bonde). Quando isso acontece, \u00e9 mesmo junto aos m\u00fasicos e eles t\u00eam de se encolher e depois voltam a ficar perto uns dos outros e \u00e9 uma festa que arrasta centenas de pessoas para a rua. N\u00f3s, que eramos completos desconhecidos, est\u00e1vamos a atuar num Rio de Janeiro carregado de pessoas. Tocar com os Tangolo Mangos em Salvador tamb\u00e9m nos garantiu uma casa cheia. Ali\u00e1s, n\u00f3s tivemos tr\u00eas ou quatro espa\u00e7os repletos de p\u00fablico, pela forma como aquilo foi preparado. Nesse aspecto, foi o pr\u00f3prio Lucas Monch que organizou. Isso permitiu-nos ter uma experi\u00eancia muito vasta. Desde atuar numa cozinha, que era um palco em Juiz de Fora, que foi incr\u00edvel, e tocar para centenas de pessoas no Rio. Passamos um pouco por tudo e acabamos por criar amigos, porque tamb\u00e9m fizemos o tour com o pessoal que tocou com Monch Monch l\u00e1. Tratou-se do sentimento de estar em tourn\u00e9, conhecer as pessoas e passar horas seguidas ao volante. Viemos completamente refrescados por uma nova cena, a admirar v\u00e1rios m\u00fasicos que n\u00e3o conhec\u00edamos e a sermos muito acarinhados. Ficamos tamb\u00e9m com a no\u00e7\u00e3o de que estamos num underground privilegiado onde existe uma humaniza\u00e7\u00e3o. Era importante que os espa\u00e7os fossem devidamente apoiados porque a vida n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 n\u00fameros.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BALEIA BALEIA BALEIA | E Se o Diabo Quiser | ao vivo n&#039;O Salgado Faz Anos Fest\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ApReZhdy9gM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Baleia Baleia Baleia \u00e9 uma das bandas mais ativas ao n\u00edvel de palco no panorama alternativo portugu\u00eas. Ao fim de quase 300 shows realizados em Portugal e no exterior, o que \u00e9 que vos continua a motivar nos espet\u00e1culos? A ades\u00e3o do p\u00fablico ou a capacidade de se superarem como m\u00fasicos?<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9 o todo. H\u00e1 uma \u00e2nsia dentro de n\u00f3s tr\u00eas de jogar fora os nossos demonios, digo n\u00f3s tr\u00eas porque o Bruno Barroso sendo o nosso t\u00e9cnico de som principal esteve em 90% dos nossos concertos ou mais. Um dia de palco significa acordarmos, encontrarmo-nos, bebermos caf\u00e9, conversamos, carregarmos o material, estarmos com o corpo ativo e seguidamente entrarmos num mundo que at\u00e9 agora \u00e9 desconhecido, que \u00e9 a casa onde vamos tocar. Depois conhecemos as pessoas nesse espa\u00e7o, damo-nos com elas e ficamos a saber como \u00e9 que passam as dificuldades e sobre a cena. \u00c0s vezes d\u00e1 para humanizar e outras n\u00e3o tanto e quando tocamos libertamos tudo. Quando dou um concerto sinto-me mais leve e melhor. Estou sempre a p\u00f4r tudo em causa e para quem \u00e9 m\u00fasico no underground a ideia de desistir \u00e9 uma coisa que aparece pelo menos uma vez por ano, mas passa. Por isso, toco e fico mais feliz. \u00c9 claro que ter um projeto consequente e com ades\u00e3o de p\u00fablico amplia. No entanto, aumenta quando as pessoas est\u00e3o pr\u00f3ximas, porque quando os palcos t\u00eam dois metros de altura e o p\u00fablico est\u00e1 a 30 metros essa dist\u00e2ncia n\u00e3o nos faz perceber o calor. N\u00f3s adoramos tocar em palcos para muita gente pela quest\u00e3o dos coros como aconteceu no festival Bons Sons e no Paredes de Coura e \u00e9 uma coisa que nunca t\u00ednhamos ouvido com as pessoas a cantarem mais alto do que n\u00f3s. Os nossos momentos do cotidiano e as desconfian\u00e7as desaparecem, diluem e toda a gente est\u00e1 numa catarse e fica leve. Como disse antes, ter uma banda consequente amplia esse sentimento, mas j\u00e1 toquei em grupos menos populares e era sempre espetacular. Adoro tocar ao vivo, viajar e comer fora. \u00c9 um dia de indulg\u00eancia porque como e bebo mais. Fa\u00e7o coisas que n\u00e3o faria no dia a dia ou exagero. H\u00e1 tamb\u00e9m um lado desafiante que \u00e9 o de pensar como \u00e9 que poderei melhorar a intensidade ao vivo. Por isso, h\u00e1 sempre algo a aprimorar. No fundo, \u00e9 uma cont\u00ednua supera\u00e7\u00e3o. Estamos a caminho dos 300 shows e pensamos como nos mantemos interessados a fazer isto. Al\u00e9m disso, temos de pensar que o palco \u00e9 um teste \u00e0 nossa capacidade de nos conectarmos com as pessoas \u00e0 nossa volta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostaria de deixar uma mensagem para os leitores do Scream &amp; Yell?<\/strong><br \/>\nEm 2018 diz\u00edamos que seria lindo tocar no Brasil. Entretanto, passaram-se seis anos e fizemos um tour l\u00e1 (risos). Desde que isso aconteceu, a vontade \u00e9 de voltar. \u00c9 \u00f3bvio que h\u00e1 pessoas que j\u00e1 nos conhecem, seguem o Baleia Baleia Baleia nas redes sociais e est\u00e3o atentas aos nossos passos. Acho que temos, pelo menos, a hip\u00f3tese do \u00e1lbum chegar organicamente a mais pessoas, que nos escutem e mandem uma mensagem para matar saudades. Atuar no Brasil novamente est\u00e1 no nosso pensamento. Mas, h\u00e1 uma dificuldade. N\u00f3s fomos l\u00e1 com o apoio da GDA e de outra forma seria imposs\u00edvel, porque sem o apoio financeiro (sobretudo para as viagens) torna-se muito dif\u00edcil de concretizar. O Baleia Baleia Baleia n\u00e3o tem dimens\u00e3o para garantir palcos que por si s\u00f3 pagassem as viagens. Se n\u00e3o conseguirmos uma situa\u00e7\u00e3o similar n\u00e3o teremos a disponibilidade para nos aventurarmos dessa forma. Ainda assim, a hip\u00f3tese de voltar existe e temos vontade. N\u00f3s recebemos mensagens de pessoas que viram os nossos shows e diziam: \u201cVoltem, voltem!\u201d. Isso deixa-nos muito sensibilizados porque fomos bastante felizes l\u00e1. Vivemos um m\u00eas no Brasil, que \u00e9 algo que n\u00e3o estamos habituados a fazer. A \u00fanica coisa que efetuamos era atuar e nos outros dias \u00edamos ver concertos. Era uma vida superlivre e em que tivemos um contato muito grande com a cultura underground. Os calores s\u00e3o diferentes e nada contra o de Portugal, mas o calor brasileiro deixa-nos imensas saudades.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-94363 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/baleia3_2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/baleia3_2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/baleia3_2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Pedro Salgado (siga&nbsp;<a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@woorman<\/a>) \u00e9 jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010 contando novidades da m\u00fasica de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado&nbsp;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/pedro-salgado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 do est\u00fadio <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tsunami.alert\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tsunami.alert<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Duo portuense lan\u00e7a disco que exprime desencanto com as guerras, o genoc\u00eddio, a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e a aus\u00eancia de consci\u00eancia de classe.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/20\/conexao-brasil-portugal-manuel-molarinho-fala-sobre-outra-vez-arroz-novo-disco-do-baleia-baleia-baleia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":7,"featured_media":94362,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2723,47],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94361"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94361"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":94387,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94361\/revisions\/94387"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}