{"id":9400,"date":"2011-08-08T23:11:36","date_gmt":"2011-08-09T02:11:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9400"},"modified":"2025-09-05T10:57:02","modified_gmt":"2025-09-05T13:57:02","slug":"harmada-e-o-clube-dos-coracoes-surdos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/08\/harmada-e-o-clube-dos-coracoes-surdos\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: &#8220;O Clube dos Cora\u00e7\u00f5es Surdos&#8221;, o disco de estreia da Harmada"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/harmada_capa.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>p<\/strong><strong>or <a href=\"http:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os diversos jeitos de se classificar uma banda, um dos mais peculiares \u00e9 o da vergonha. \u00c9 o que diferencia grupos que tem e que n\u00e3o tem vergonha de fazer can\u00e7\u00f5es com apelo pop \u2013 como se, em algum momento perdido da hist\u00f3ria da m\u00fasica, algu\u00e9m tivesse decretado que fazer bonitos e f\u00e1ceis refr\u00f5es fosse um pecado capital. A Harmada, nova empreitada de Manoel Magalh\u00e3es, um dos melhores letristas da gera\u00e7\u00e3o anos 00, pertence claramente ao time das desavergonhadas. \u201cM\u00fasica Vulgar para Cora\u00e7\u00f5es Surdos\u201d, trabalho de estreia da banda \u2013 que al\u00e9m de Manoel nos vocais e guitarras, conta com Brynner Mota na guitarra solo, Juliana Goulart na bateria e Filipi Cavalcanti no baixo \u2013 est\u00e1 repleto de belas m\u00fasicas sobre amor, situadas em algum lugar entre a distor\u00e7\u00e3o do rock dos anos 90 e o charme de bandas como Travis e Coldplay.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, n\u00e3o se trata de um disco de amor simples: como o pr\u00f3prio nome do \u00e1lbum diz, s\u00e3o hist\u00f3rias para, mas tamb\u00e9m a respeito de cora\u00e7\u00f5es surdos. Os personagens das cr\u00f4nicas da Harmada s\u00e3o pessoas que querem se enganar, se deixam enganar ou querem enganar os outros, como se a felicidade a dois fosse algo intang\u00edvel. Mais: tratam-se de letras que a todo momento fazem men\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00fasica, ao cinema (&#8220;o filme terminou nessa sess\u00e3o \/ ningu\u00e9m espera mais qualquer atriz&#8221;), \u00e0 TV (&#8220;e vai passando na TV qualquer bobagem\u201d), \u00e0 clich\u00eas amorosos (&#8220;nessa luz t\u00e3o clich\u00ea \/ eu te encontro perdida\u201d) em uma metalinguagem que soa excessiva \u00e0 primeira vista, mas n\u00e3o \u00e9 deslocada, muito menos gratuita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como se o amor rom\u00e2ntico e bonito com que os personagens sonham fosse apenas poss\u00edvel dentro da arte, e n\u00e3o na realidade \u2013 tomando como realidade os espa\u00e7os em que tais personagens vivem, e n\u00e3o a realidade do ouvinte, em um claro exemplo de simulacro. Deu pra entender? (voc\u00ea assistiu \u201cInception\u201d? Conseguiu entender aqueles n\u00edveis diferentes de sonho que o filme prop\u00f5e? \u00c9 mais ou menos aquilo isso). Pensando dessa maneira, \u00e9 poss\u00edvel considerar a Harmada uma banda consciente das armas que tem na m\u00e3o \u2013 algo na linha do que diria Rob Fleming, ao questionar porque &#8220;ningu\u00e9m se preocupa com crian\u00e7as ouvindo milhares de can\u00e7\u00f5es sobre cora\u00e7\u00f5es partidos, rejei\u00e7\u00e3o, dor, mis\u00e9ria e perda&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o basta, por\u00e9m, apenas ter todo um arsenal \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e saber o que cada pequeno gatilho pode fazer \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m preciso us\u00e1-lo de maneira adequada. E a Harmada \u2013 nome inspirado em um livro do escritor ga\u00facho Jo\u00e3o Gilberto Noll \u2013 faz isso de maneira exemplar, ao misturar em propor\u00e7\u00f5es interessantes barulho e melodia para criar frases que ficam na cabe\u00e7a por muito tempo. \u00c9 o que acontece com a strokeana &#8220;Carlos e Cec\u00edlia&#8221;, com a vigorosa &#8220;Bairro Peixoto&#8221; \u2013 que lembra os momentos mais esporrentos do Weezer \u2013 ou com a bonita balada &#8220;Fa\u00e7a por Mim&#8221;, filha bastarda de Billy Corgan, s\u00f3 para citar tr\u00eas exemplos.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m o charme do clima jazzy que se estabelece ao final de &#8220;Luz Fria&#8221;, na qual, sobre uma cama criada por um sax, Manoel canta: &#8220;O que me faz chegar aqui eu j\u00e1 nem sei \/ Onde me leva esse amor \/ Pra torturar meu cora\u00e7\u00e3o&#8221;. Ou ainda, a sensa\u00e7\u00e3o asfixiante que &#8220;Sufoco&#8221;, a faixa de abertura do disco, atinge por volta da metade de sua dura\u00e7\u00e3o, ao falar de um casal em crise: &#8220;Por hora j\u00e1 n\u00e3o sonho mais por n\u00f3s\/Nem tento disfar\u00e7ar qualquer raz\u00e3o\/Se hoje o que eu preciso te mostrar \/ \u00c9 mais do que eu consigo te dizer \/ Perd\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma compara\u00e7\u00e3o com a Polar, a banda anterior de Manoel, se faz necess\u00e1ria. A tem\u00e1tica presente nas can\u00e7\u00f5es das duas bandas \u00e9, de certa maneira, a mesma \u2013 \u201cBairro Peixoto\u201d, por exemplo, soa como uma continua\u00e7\u00e3o de \u201cGabriela\u201d, do extinto conjunto. Por\u00e9m, a mensagem se torna diferente por culpa dos arranjos que acompanham tais temas. A Polar era herdeira do new acoustic movement, que no come\u00e7o da d\u00e9cada trouxe \u00e0 tona bandas como Travis, Keane e Coldplay, investindo muitas vezes em bem tramadas rela\u00e7\u00f5es entre piano, guitarras e violinos \u2013 mas que se tornavam impratic\u00e1veis ao vivo, como declarou Manoel em recente entrevista ao Scream &amp; Yell. J\u00e1 a Harmada se aproveita dos elementos de can\u00e7\u00e3o que a Polar usava \u2013 como a condu\u00e7\u00e3o com um instrumento \u00e0 frente em um ritmo que cresce, at\u00e9 trazer a bateria \u00e0 tona explodindo no refr\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m coloca outros \u2013 como a distor\u00e7\u00e3o nas guitarras, ou baterias marciais e cavalares \u2013 transformando o que poderia ser um vulgar &#8220;d\u00e8ja vu do rock ingl\u00eas&#8221; em baladas e rocks que merecem aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As aspas do par\u00e1grafo acima n\u00e3o s\u00e3o em v\u00e3o: trata-se de um dos versos de &#8220;Avenida Dropsie&#8221;, a melhor dentre as catorze faixas de \u201cM\u00fasica Vulgar para Cora\u00e7\u00f5es Surdos\u201d. \u201cAvenida Dropsie\u201d \u00e9 o nome de uma hist\u00f3ria do quadrinista Will Eisner, e tamb\u00e9m de uma pe\u00e7a da Sutil Companhia de Teatro. Ao in\u00edcio, h\u00e1 a instigante narra\u00e7\u00e3o do ator Guilherme Weber \u2013 da Sutil \u2013 interpretando justamente as frases iniciais do texto de Eisner. Ao iniciar a melodia, os versos se sucedem feito slides ou frames mostrando cenas urbanas: &#8220;a cor negra no cinema \/ A dist\u00e2ncia na TV \/ A Esta\u00e7\u00e3o Consola\u00e7\u00e3o \u00e0s tr\u00eas (&#8230;) a noite inteira relembra os motivos \/ As cores no mesmo lugar \/ Os bares fechando \/ As ruas vazias&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apoiados num arranjo que se estabelece num crescendo, os versos de &#8220;Avenida Dropsie&#8221; desembocam em uma ponte que mostra a passagem do tempo: &#8220;Horas inteiras perdidas em claro \/ Anos inteiros passados em casa&#8221;. Juntos, tudo parece culminar para o \u00e1pice em um refr\u00e3o explosivo, em um sof\u00e1 solit\u00e1rio (&#8220;Esque\u00e7a esse barulho e v\u00e1 dormir \/ Sozinha \/ Com os olhos na televis\u00e3o&#8221;). Ap\u00f3s pouco mais de cinco minutos de cora\u00e7\u00f5es destro\u00e7ados, Weber retorna para declamar: &#8220;No cent\u00e9simo ano da Avenida Dropsie, oito pr\u00e9dios foram incendiados e destru\u00eddos. A Avenida Dropsie foi praticamente toda demolida. Apenas um pr\u00e9dio permaneceu em p\u00e9&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final de &#8220;Avenida Dropsie&#8221;, o que fica \u00e9 uma s\u00edntese n\u00e3o s\u00f3 dessas catorze can\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m da vida de muitas pessoas que ainda sonham, talvez, com amores de com\u00e9dia rom\u00e2ntica de 90 minutos, com direito a happy ending e letrinhas subindo no final \u2013 e se assemelham, portanto, \u00e0s personagens de \u201cM\u00fasica Vulgar para Cora\u00e7\u00f5es Surdos\u201d. Existe, por\u00e9m, uma diferen\u00e7a: o cora\u00e7\u00e3o surdo dessas pessoas n\u00e3o est\u00e1 imune \u00e0 for\u00e7a e \u00e0 poesia deste belo \u00e1lbum. Vale o teste.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sufoco\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/J3JfRqUzq5U?list=OLAK5uy_lzwri80Cmrv2ojUzt86bwkXjdFqxwGcVc\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>&#8211; Bruno Capelas \u00e9 estudante de jornalismo e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pergunte ao Pop<\/a><\/em><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Scream &amp; Yell entrevista Harmada, por Jorge Wagner (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/05\/23\/entrevista-harmada\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; CDs: Blubell, Harmada e Los Porongas, 1000 Toques por Adriano Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/07\/cds-blubell-harmada-e-los-porongas\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Baixe &#8220;M\u00fasica Vulgar para Cora\u00e7\u00f5es Surdos&#8221; gratuitamente na Trama Virtual (<a href=\"http:\/\/tramavirtual.uol.com.br\/_harmada_\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Guilherme Weber fala sobre &#8220;Avenida Dropsie&#8221; para o Scream &amp; Yell (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/mais\/dropsie.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Trilhas Sonoras de Amor Perdidas&#8221;, da Sutil Cia de Teatro, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/04\/trilhas-sonoras-de-amor-perdidas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Harmada lan\u00e7a um disco de belas m\u00fasicas sobre amor entre a distor\u00e7\u00e3o do rock anos 90 e o charme de bandas como Travis e&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/08\/harmada-e-o-clube-dos-coracoes-surdos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1165],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9400"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9400"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9400\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":91009,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9400\/revisions\/91009"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9400"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9400"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9400"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}