{"id":9378,"date":"2011-08-07T11:21:11","date_gmt":"2011-08-07T14:21:11","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9378"},"modified":"2011-08-28T23:06:01","modified_gmt":"2011-08-29T02:06:01","slug":"livros-brooklyn-de-colm-toibin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/07\/livros-brooklyn-de-colm-toibin\/","title":{"rendered":"Livro: Brooklyn, de C\u00f3lm T\u00f3ib\u00edn"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-9379\" title=\"brooklyn_colm\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/brooklyn_colm.jpg\" alt=\"\" width=\"266\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/brooklyn_colm.jpg 266w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/brooklyn_colm-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 266px) 100vw, 266px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/alegarcia\" target=\"_blank\">Alessandro Garcia <\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai de Eilis Lacey est\u00e1 morto. Seus irm\u00e3os mais velhos, trabalhando na Inglaterra. Na Irlanda do in\u00edcio dos anos 50, na pequena Enniscorthy, onde vive, h\u00e1 poucas perspectivas de emprego e casamento. Os dias de Eilis s\u00e3o preenchidos pela companhia da irm\u00e3 mais velha, Rose, da m\u00e3e e pelo trabalho na loja que odeia, da srta. Kelly. Diferente da calorosa e divertida Rose, Eilis \u00e9 introvertida, t\u00edmida e submissa: quase um estere\u00f3tipo do pequeno papel ent\u00e3o reservado aos personagens femininos nas rela\u00e7\u00f5es familiares daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 Eilis a protagonista de &#8220;Brooklyn&#8221; (Companhia das Letras, tradu\u00e7\u00e3o de Rubens Figueiredo, 304 p\u00e1ginas, R$39,50) romance de C\u00f3lm T\u00f3ib\u00edn. Limitada por um cotidiano med\u00edocre, Eilis sonha com um emprego onde possa exercer seus conhecimentos adquiridos em um curso de contabilidade \u2013 e largar de vez o servi\u00e7o na mercearia, entre manteigas e frios, onde a execr\u00e1vel srta. Kelly a trata com grosseria desmedida. Eilis tamb\u00e9m sonha com um namorado rom\u00e2ntico, entre um baile e outro na companhia de suas amigas Nancy e Annette, e em ser t\u00e3o admir\u00e1vel e graciosa quanto sua praticamente perfeita irm\u00e3 Rose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dias passam todos iguais, no entanto, por mais que sua irm\u00e3 se empenhe em tentar arranjar-lhe um emprego no escrit\u00f3rio onde trabalha. Assim tamb\u00e9m \u00e9 na vida amorosa, composta de pequenos flertes sem maiores conseq\u00fc\u00eancias. O consolo s\u00e3o os jantares em fam\u00edlia, nos quais sua irm\u00e3 diverte a ela e sua m\u00e3e com as hist\u00f3rias do clube de golfe do qual faz parte e as pequenas fofocas amorosas sobre as amigas. Nada parece andar na vida de Eilis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus dias s\u00f3 s\u00e3o abalados por um s\u00fabito arranjo de sua irm\u00e3 e m\u00e3e. Atrav\u00e9s do padre Flood, Eilis tem a possibilidade de morar e trabalhar nos Estados Unidos, no Brooklyn. Mais do que um convite, Eilis \u00e9 praticamente empurrada pela certeza da falta de op\u00e7\u00f5es em seu pa\u00eds, resultado de dias repletos de mesmice e pelo exemplo de seus irm\u00e3os que tamb\u00e9m seguiram o caminho da emigra\u00e7\u00e3o antes dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais simples seria conceituar Brooklyn como um \u201cBildungsroman\u201d. Crer que acompanhamos a forma\u00e7\u00e3o e o crescimento da personagem Eilis, da estagnada vidinha na Irlanda aos dias que se constroem nos Estados Unidos. No entanto, \u00e9 dif\u00edcil perceber seu crescimento. Se a autoridade familiar e masculina \u00e9 algo que devemos compreender como retrato da \u00e9poca, dif\u00edcil \u00e9 n\u00e3o sentir pena de Eilis e sua tend\u00eancia \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o irrestrita e imediata de tudo o que lhe \u00e9 imposto. De cara, ela \u00e9 praticamente \u201cinformada\u201d pela srta. Kelly, que lhe chama um dia \u00e0 mercearia, de que vai ser sua empregada. Da mesma forma acontece com sua mudan\u00e7a para os Estados Unidos \u2013 por mais que a quase invis\u00edvel perspectiva de um futuro seja fato, sua personalidade \u00e9 de quem baixa a cabe\u00e7a e concorda, sem maiores questionamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura de T\u00f3ib\u00edn \u00e9 l\u00edmpida. Sem quaisquer malabarismos formais, acompanhamos atrav\u00e9s de sua narrativa linear os dias de Eilis no Brooklyn, onde se estabelece como vendedora em uma loja de departamentos, ao mesmo tempo em que faz um curso noturno de contabilidade. Morando em uma pens\u00e3o para irlandesas, logo se deslumbra com as pequenas regalias que o outro pa\u00eds lhe oferece, do aquecimento constante em seu quarto \u00e0 facilidade de acesso \u00e0s roupas da moda. E os bailes realizados na par\u00f3quia do padre Flood, no Brooklyn, n\u00e3o tardar\u00e3o a lhe apresentar um interesse rom\u00e2ntico, um casamenteiro \u00edtalo-americano cheio de boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 justamente o personagem Tony, seu namorado americano, quem evidencia o que \u00e9, provavelmente, um dos maiores defeitos de &#8220;Brooklyn&#8221;: a falta de nuances de seus personagens. Assim como ele se mostra um rapaz confi\u00e1vel, amoroso e bondoso, sem quaisquer atitudes que possam amea\u00e7ar esta impress\u00e3o pelo leitor, a personagem da srta. Kelly \u00e9 uma megera, Rose \u00e9 a do\u00e7ura e perfei\u00e7\u00e3o em pessoa, e padre Flood \u00e9 quase um g\u00eanio da l\u00e2mpada pronto a realizar qualquer pedido de Eilis, resolver qualquer problema, arranjar qualquer situa\u00e7\u00e3o, contribuindo para manter os dias dela sem nenhuma atribula\u00e7\u00e3o naquele pa\u00eds estranho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta constru\u00e7\u00e3o t\u00e3o manique\u00edsta contribui para uma atmosfera de novela que impregna a trama toda, com uma protagonista fr\u00e1gil cujos dias vamos acompanhando mais por curiosidade do que pela real necessidade de v\u00ea-la superando obst\u00e1culos. H\u00e1 uma melancolia que nos conquista, \u00e9 verdade, em parecermos ser os \u00fanicos companheiros de uma Eilis solit\u00e1ria e saudosista. Sua fragilidade e timidez nos fazem ter vontade de proteg\u00ea-la (e algumas vezes tamb\u00e9m de lhe dar um empurr\u00e3o, para que se imponha um tanto!), mas suas transforma\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o pequeninas e comezinhas que o romance custa a engrenar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, \u00e9 quando se ressalta uma interessante estrat\u00e9gia armada por T\u00f3ib\u00edn que nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e9 fisgada. Mais do que um invent\u00e1rio de uma nova e deslumbrante vida, o autor se ampara no detalhismo do pequeno particular da vida da personagem, construindo praticamente um espelho para a hist\u00f3ria de Eilis. Mesmo nos Estados Unidos, quase tudo replica seus dias na Irlanda \u2013 da chefe um tanto intransigente \u00e0s amigas irlandesas, dos bailes nos sal\u00f5es de dan\u00e7a \u00e0s \u201cm\u00e3es\u201d: a sra. Kehoe, dona da pens\u00e3o, logo a acolhe com certos cuidados maternos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este eco acaba se tornando mais forte na medida em que o romance se aproxima do fim e Eilis precisa decidir se sua vida realmente sofreu uma reviravolta tamanha que valha a pena sua perman\u00eancia em outro pa\u00eds ou se sua volta \u2013 justificada por uma trag\u00e9dia \u2013 precisa mesmo acontecer. \u00c9 exatamente este jogo de lev\u00edssimo deslocamento e op\u00e7\u00e3o pelo comum, pela min\u00facia, que acaba sendo seu trunfo. Da mesma forma um final n\u00e3o surpreendente \u2013 mas n\u00e3o por isso desinteressante \u2013 deixa claro sua inten\u00e7\u00e3o de mostrar o quanto tamb\u00e9m as pequenas decis\u00f5es modificam uma vida inteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Alessandro Garcia (siga <a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/alegarcia\" target=\"_blank\">@alegarcia<\/a>) \u00e9 escritor e assina o blog  <a href=\"http:\/\/alessandrogarcia.com\" target=\"_blank\">http:\/\/alessandrogarcia.com<\/a>. Autor de &#8220;A sordidez das pequenas coisas&#8221; (N\u00e3o Editora, 2010).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Alessandro Garcia\nMais do que um invent\u00e1rio de uma nova e deslumbrante vida, C\u00f3lm T\u00f3ib\u00edn se ampara no detalhismo da vida da personagem.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/07\/livros-brooklyn-de-colm-toibin\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9378"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9378"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9378\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9562,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9378\/revisions\/9562"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}