{"id":93691,"date":"2026-02-03T00:54:21","date_gmt":"2026-02-03T03:54:21","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=93691"},"modified":"2026-02-26T02:11:18","modified_gmt":"2026-02-26T05:11:18","slug":"chain-reactions-atesta-o-legado-inegavel-de-uma-das-maiores-obras-do-horror-massacre-da-serra-eletrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/03\/chain-reactions-atesta-o-legado-inegavel-de-uma-das-maiores-obras-do-horror-massacre-da-serra-eletrica\/","title":{"rendered":"\u201cChain Reactions\u201d atesta o legado ineg\u00e1vel de uma das maiores obras do horror:  &#8220;O Massacre da Serra El\u00e9trica&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o importa o qu\u00e3o r\u00e1pido, ou devagar, os anos e d\u00e9cadas se passem: o p\u00fablico em massa n\u00e3o parece sequer um pouco mais preparado para o impacto de \u201cO Massacre da Serra El\u00e9trica\u201d. O filme de Tobe Hooper (lan\u00e7ado originalmente em 1974 com o t\u00edtulo original \u201cThe Texas Chainsaw Massacre\u201d) obviamente chocou audi\u00eancias por onde passou em sua \u00e9poca. Desde ent\u00e3o, no entanto, a influ\u00eancia do longa-metragem \u2013 que inclui o status de \u00edcone pop conferido a seu principal antagonista, o grotesco Leatherface \u2013 vai muito, muito al\u00e9m do que se v\u00ea. Em grande parte, a celebra\u00e7\u00e3o do filme, mesmo mais de quarenta anos desde seu lan\u00e7amento, n\u00e3o se explica simplesmente pela riqueza de seu enredo, ou pelas in\u00fameras possibilidades que este abre. Remakes, reboots, videogames, quadrinhos, figuras colecion\u00e1veis e refer\u00eancias mil em outras obras podem, inclusive, ofuscar o fato de que todo este fasc\u00ednio, na verdade, se deve ao fato de que nada, desde ent\u00e3o, conseguiu sequer chegar perto do que Hooper almejou, e alcan\u00e7ou, em sua obra-prima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O principal objetivo de \u201cChain Reactions\u201d, ent\u00e3o, \u00e9 evidenciar n\u00e3o apenas o processo criativo de Hooper (que faleceu em 2017) como tamb\u00e9m as diferentes frentes nas quais os ecos de \u201cO Massacre&#8230;\u201d se fizeram, e se fazem, sentir mais. O document\u00e1rio, dirigido por Alexandre O. Philips e exibido pela primeira vez quando do quadrag\u00e9simo anivers\u00e1rio do longa, chega agora ao grande p\u00fablico via VOD, e apela n\u00e3o apenas \u00e0queles j\u00e1 familiarizados com o material que se prop\u00f5e a dissecar. Em grande parte, ali\u00e1s, o doc faz jus ao esp\u00edrito chocante \u2013 e surpreendente \u2013 do filme ao propor uma estrat\u00e9gia que desvia dos chav\u00f5es de produ\u00e7\u00f5es do g\u00eanero. Assim, ao inv\u00e9s de conciliar dezenas de entrevistas com personalidades que pouco, ou nada, podem adicionar \u00e0 discuss\u00e3o, Philips centra o foco de suas lentes em cinco personalidades distintas, cada uma impactada a seu pr\u00f3prio modo pela macabra e incr\u00edvel pel\u00edcula. Patton Oswalt (ator, roteirista e comediante), Takashi Miike (roteirista e cineasta), Alexandra Heller-Nicholas (cr\u00edtica de cinema), Stephen King (escritor), e Karyn Kusama (cineasta) explicam, cada um a seu modo, a maneira com a qual vivenciaram o filme, e o impacto que o mesmo teve em suas vidas pessoais, suas carreiras profissionais, e suas vis\u00f5es de mundo.<\/p>\n<p>\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93694 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chain3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chain3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chain3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos depoimentos coletados com cada um dos entrevistados, alguns aspectos se sobressaem, e ajudam a aprofundar a percep\u00e7\u00e3o do filme original em retrospecto. Oswalt, por exemplo, faz quest\u00e3o de rememorar seu primeiro contato com o longa \u2013 via uma fita VHS \u2013 como sendo um componente fundamental para a impress\u00e3o perturbadora, aflitiva e memor\u00e1vel de testemunhar as sangrentas desventuras de de Sally Hardesty (Marilyn Burns) e seus amigos. \u00c9 poss\u00edvel, de certo modo, identificar as coloca\u00e7\u00f5es de Patton como as mais condizentes com a reputa\u00e7\u00e3o \u201cmainstream\u201d que \u201cO Massacre&#8230;\u201d conquistou \u2013 o ator acaba, talvez involuntariamente, representando o p\u00fablico em geral, que acabou ajudando a converter o longa em uma produ\u00e7\u00e3o quase m\u00edtica em sua morbidez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O depoimento de Takashi Miike, no entanto, talvez seja o mais iluminador de todos \u2013 em grande parte, talvez, por se relacionar com o material analisado de maneira menos \u201c\u00f3bvia\u201d. O diretor japon\u00eas, considerado um dos mais celebrados cineastas de horror de sua gera\u00e7\u00e3o gra\u00e7as a produ\u00e7\u00f5es chocantes como \u201cAudition\u201d (1999), proporciona uma correla\u00e7\u00e3o entre a crueza da viol\u00eancia de Leatherface e de sua fam\u00edlia com a brutalidade gr\u00e1fica que se tornou marca registrada de muito do cinema oriental desde os anos 1980. Sob esta \u00f3tica, projetos marcantes de horror, como \u201cEvil Dead Trap\u201d (de Toshiharu Ikeda, 1988), \u201cTetsuo\u201d (de Shinya Tsukamoto, tamb\u00e9m de 1988) ou \u201cJu-On\u201d (de Takashi Shimizu, 2002) acabam quase ressignificados. Al\u00e9m de ajudar a esclarecer as diferentes perspectivas pelas quais mesmo uma obra t\u00e3o difundida pode ser absorvida sob a \u00f3tica de uma cultura diferente, o depoimento de Miike tamb\u00e9m serve como o atestado definitivo do porque grande parte das produ\u00e7\u00f5es japonesas refeitas por diretores e est\u00fadios orientais \u00e9 fundamentalmente incapaz de fazer jus \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora explorem perspectivas muito diferentes, as impress\u00f5es compartilhadas por Alexandra Heller-Nicholas e Stephen King acabam sendo complementares entre si, muito por lidarem com o mesmo conceito: o de ruptura com o conhecido, com o pr\u00e9-estabelecido. A cr\u00edtica de cinema australiana rememora com precis\u00e3o a conex\u00e3o sentida entre o sufocante calor do Texas representado na tela e a aridez dos desertos de seu pa\u00eds natal. Seu ponto mais interessante, entretanto, tem a ver com o estabelecimento de uma tend\u00eancia que seria seguida a fundo no cinema de terror nos anos que se seguiriam. Por acaso ou por estrat\u00e9gia, Hooper acabaria fazendo da j\u00e1 citada personagem de Marilyn Burns a primeira \u201cfinal girl\u201d da hist\u00f3ria do cinema; o termo seria propriamente cunhado n\u00e3o muito tempo depois, se referindo \u00e0 hoje difundida ideia de uma solit\u00e1ria sobrevivente de um brutal percal\u00e7o. Se, nos anos e d\u00e9cadas subsequentes, a f\u00f3rmula seria modificada com generosas (e bem-vindas) doses de empoderamento. Se Sigourney Weaver, Linda Hamilton e Neve Campbell puderam correr de seus algozes, por\u00e9m, foi apenas porque Sally Hardesty um dia precisou cambalear.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tipo de ruptura do qual Stephen King fala, entretanto, \u00e9 muito mais relacionado \u00e0 percep\u00e7\u00e3o popular do horror como algo mais mundano \u2013 e, consequentemente, mais perturbador. At\u00e9 a virada da d\u00e9cada de 1960 para os anos 70, o cinema de terror era mais relacionado \u00e0s atmosf\u00e9ricas, apesar de caricatas, interpreta\u00e7\u00f5es de Christopher Lee e Boris Karloff. Foi Roman Polanski, com seu \u201cO Beb\u00ea de Rosemary\u201d (1968) quem primeiro aproximou, de verdade, o horror cinematogr\u00e1fico do mundo real. Se \u201cO Exorcista\u201d (de William Friedkin, 1973) e \u201cA Profecia\u201d (de Richard Donner, 1976) assustaram espectadores ao mostrar impress\u00f5es mais mundanas do terror e subverter conceitos estabelecidos de cren\u00e7a religiosa, foi \u201cO Massacre&#8230;\u201d que acabou pavimentando o territ\u00f3rio para o experimentalismo na sutil tradi\u00e7\u00e3o do susto na s\u00e9tima arte. Isso, vale dizer, respingou at\u00e9 mesmo nas adapta\u00e7\u00f5es de obras do pr\u00f3prio King: Tobe Hopper terminou dirigindo a miniss\u00e9rie \u201cSalem\u2019s Lot\u201d em 1979.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chain Reactions - Official Trailer (2025) Patton Oswalt, Stephen King\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8j5SPOgAY7c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O depoimento de Karyn Kusama, embora mais t\u00e9cnico, acaba conciliando todos os pontos de vista exibidos anteriormente \u2013 o que s\u00f3 faz com que seu posicionamento, por \u00faltimo, seja mais apropriado. Al\u00e9m de abordar o inovador uso de efeitos totalmente pr\u00e1ticos no filme (sobretudo na tomada inicial, com o cad\u00e1ver exibido no cemit\u00e9rio) e a supera\u00e7\u00e3o de precariedades em favor da constru\u00e7\u00e3o de uma atmosfera irresist\u00edvel \u2013 tal qual as exibi\u00e7\u00f5es de explos\u00f5es solares, entrecortadas com breves flashes de restos mortais sendo fotografados, durante os cr\u00e9ditos iniciais \u2013 a diretora fala com propriedade sobre os aspectos sociais do filme. Mais especificamente, sobre como o enredo aborda, quase secretamente, a derrocada do modelo de vida norte-americano que se sucedeu ao esc\u00e2ndalo de Watergate e \u00e0 humilhante derrota dos EUA no Vietn\u00e3, na mesma \u00e9poca. A marginaliza\u00e7\u00e3o de determinadas culturas de vida, principalmente em ambientes mais afastados e hostis, acabou resultando na brutaliza\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es, desesperadas ao testemunhar a queda de uma estrutura dentro da qual viviam. A cineasta, de forma bastante perspicaz, acaba desvendando o mist\u00e9rio por tr\u00e1s do apelo longevo que o longa de Tobe Hooper tem: por mais implac\u00e1vel que possa ser, o filme for\u00e7a suas audi\u00eancias a encararem uma realidade desconfort\u00e1vel, perturbadora, sangrenta, e (infelizmente) at\u00e9 hoje bastante atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reafirma\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia de \u201cO Massacre da Serra El\u00e9trica\u201d n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno recente. Afinal, entre continua\u00e7\u00f5es cada vez mais tenebrosas (falando de qualidade) e transposi\u00e7\u00f5es para outras m\u00eddias (como os quadrinhos ou os videogames), a renova\u00e7\u00e3o dos conceitos que o longa trouxe \u00e0 frente pela primeira vez \u00e9 uma influ\u00eancia pra l\u00e1 de importante no cinema de horror contempor\u00e2neo. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o identificar tra\u00e7os da aridez sanguin\u00e1ria que Hooper conjurou em novos cl\u00e1ssicos do g\u00eanero, como \u201cX \u2013 A Marca da Morte\u201d (2019). No entanto, a elabora\u00e7\u00e3o de um longa deste tipo, apresentado de maneira t\u00e3o realista, granular e febril a ponto de chocar espectadores mesmo tantos anos depois, talvez diga tanto sobre o mundo no qual seus f\u00e3s habitam agora quanto sobre o que testemunhou suas primeiras exibi\u00e7\u00f5es. A mensagem de \u201cO Massacre&#8230;\u201d, brutalizada e m\u00f3rbida, bate fundo no seio de uma sociedade insensibilizada pela viol\u00eancia, e nos desafia a encarar dem\u00f4nios antigos que habitam a sociedade ocidental. \u201cChain Reactions\u201d faz jus a tudo isso ao escolher a dedo seus cinco depoentes, tomando seu tempo para jogar luz sobre as muitas mudan\u00e7as e construir uma esp\u00e9cie de tese conjunta, e definitiva sobre uma obra que incomoda e intriga. Quase como um espelho, que mostra ao p\u00fablico o lado mais b\u00e1rbaro e grotesco de uma organiza\u00e7\u00e3o social que mutila seres humanos tal qual, por que n\u00e3o, uma serra-el\u00e9trica.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93692 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chain1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chain1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chain1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4cfQaQO-YD4\">\u00a0Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4cfQaQO-YD4\">,<\/a>\u00a0tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ao longo dos depoimentos coletados com cada um dos entrevistados, alguns aspectos se sobressaem, e ajudam a aprofundar a percep\u00e7\u00e3o do filme original em retrospecto.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/03\/chain-reactions-atesta-o-legado-inegavel-de-uma-das-maiores-obras-do-horror-massacre-da-serra-eletrica\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":93695,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93691"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93691"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93691\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":93697,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93691\/revisions\/93697"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93695"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}