{"id":93654,"date":"2026-02-01T11:57:08","date_gmt":"2026-02-01T14:57:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=93654"},"modified":"2026-03-14T03:27:21","modified_gmt":"2026-03-14T06:27:21","slug":"a-estrada-do-the-bats-ate-sua-11a-curva-corner-coming-up","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/01\/a-estrada-do-the-bats-ate-sua-11a-curva-corner-coming-up\/","title":{"rendered":"A estrada do The Bats at\u00e9 sua 11\u00aa curva: \u201cCorner Coming Up\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/hebertonbas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Heberton Barreira<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mais pura e resiliente linhagem do rock independente raramente segue um caminho linear. Muitas vezes, ela brota de finais inesperados e floresce em solo f\u00e9rtil de convic\u00e7\u00e3o tranquila. A hist\u00f3ria dos The Bats, uma das forma\u00e7\u00f5es mais consistentes e cativantes a emergir da Nova Zel\u00e2ndia, come\u00e7a precisamente assim: com um colapso. Em meados de 1982, a dissolu\u00e7\u00e3o do seminal The Clean deixou o baixista Robert Scott &#8220;sem uma banda e vivendo do aux\u00edlio-desemprego&#8221;, como documenta Matthew Goody no livro &#8220;<a href=\"https:\/\/amzn.to\/4qVzuZ0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Needles &amp; Plastic: Flying Nun Records, 1981-1991<\/a>&#8221; (2022). Mas, longe de se render, Scott, nunca parando de compor, come\u00e7ou a tocar com colegas m\u00fasicos, um processo org\u00e2nico que, ainda em 1982, cristalizou-se no The Bats.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A forma\u00e7\u00e3o que se estabeleceu \u2013 Scott nos vocais e guitarra, a parceira de jam e colega de casa Kaye Woodward na guitarra, Paul Kean (ex-Toy Love) no baixo e Malcolm Grant (dos Builders) na bateria \u2013 tornava viva desde o primeiro dia uma atitude anticomercial. A banda via seu projeto como um &#8220;hobby&#8221;, com o seu primeiro show a acontecer numa festa de anivers\u00e1rio. N\u00e3o havia inten\u00e7\u00e3o nenhuma em fazer daquilo uma carreira em tempo integral, n\u00e3o havia uma pose despretensiosa, mas sim o prazer pela m\u00fasica acima da exposi\u00e7\u00e3o. Este era o princ\u00edpio orientador do grupo. Kaye Woodward admitiu ao tradicional jornal The Press, num trecho citado por Goody: &#8220;Recebemos muitas ofertas de shows, mas houve um momento em que estar\u00edamos tocando com frequ\u00eancia demais e n\u00f3s os recusamos&#8221;. Esta paci\u00eancia, esta recusa em se esgotar, tornou-se a pedra angular de uma carreira que, agora em 2025, est\u00e1 atravessando cinco d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/thebats1.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sonoridade, desde o EP de estreia &#8220;By Night&#8221; (1984), era imediatamente identific\u00e1vel. No livro &#8220;<a href=\"https:\/\/amzn.to\/4qUe52l\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Dunedin Sound: Some Disenchanted Evening<\/a>&#8221; (2016), Ian Chapman traduz a sua ess\u00eancia de forma precisa: uma &#8220;arte mel\u00f3dica cativante com um toque cortante&#8221;. Eram can\u00e7\u00f5es folk-pop envoltas num manto de guitarras jangle, harmonizadas pelos vocais serenos e complementares de Scott e Woodward, mas com uma energia contida que mantinha a m\u00fasica sempre em evolu\u00e7\u00e3o. Apesar do car\u00e1cter rudimentar das primeiras sess\u00f5es, como o pr\u00f3prio Scott admitiu, havia ali uma semente de autenticidade que prometia florescer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua primeira obra-prima, &#8220;Daddy&#8217;s Highway&#8221; (1987), nasceu de forma quase acidental durante uma turn\u00ea europeia em 1986, gravada num est\u00fadio caseiro de oito canais em Glasgow. O m\u00e9todo, segundo o baixista Paul Kean, era um puro e singelo hobby: &#8220;Era apenas n\u00f3s quatro, basicamente, tomando nosso tempo, curtindo&#8221;. Quando o \u00e1lbum finalmente foi lan\u00e7ado, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de atrasos log\u00edsticos que refletiam as lutas do selo neozeland\u00eas Flying Nun, foi aclamado como um ponto de virada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A composi\u00e7\u00e3o estava se tornando mais ambiciosa e personagens fict\u00edcios como Mr Earwig e Claudine estavam ficando pelo caminho em favor de um ponto de vista mais centrado em Scott. Nos EUA, a revista Forced Exposure saudou &#8220;Daddy&#8217;s Highway&#8221; com um &#8220;Wow and double wow!&#8221; de Jimmy Johnson, celebrando a sua qualidade &#8220;humilde, arrepiante e sem esfor\u00e7o&#8221;. Apesar deste reconhecimento crescente, a banda manteve o seu curso singular. Robert Scott e companhia desaceleraram o progresso da banda em vez de buscar sucesso comercial. O que poderia ter sido o fim para muitas bandas, tornou-se o in\u00edcio de uma lenda. Mesmo fazendo pausas para a fam\u00edlia e outros trabalhos, eles continuaram a lan\u00e7ar discos not\u00e1veis \u2013 como &#8220;The Law of Things&#8221; (1990) e &#8220;Fear of God&#8221; (1991) \u2013 e a fazer turn\u00eas ocasionais, mantendo a m\u00fasica sempre como uma paix\u00e3o, nunca uma obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93656 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bats3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bats3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bats3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maturidade art\u00edstica dos The Bats encontrou sua express\u00e3o plena em &#8220;Silverbeet&#8221; (1993) e &#8220;Couchmaster&#8217; (1995). Enquanto o primeiro mostra a banda se reencontrando em um som mais caseiro ap\u00f3s anos de turn\u00ea, o segundo consolida com composi\u00e7\u00f5es mais robustas. Lan\u00e7ados quando o grunge dominava as r\u00e1dios, esses discos foram um ato de resist\u00eancia tranquila &#8211; a prova de que os The Bats haviam encontrado seu caminho \u00fanico: fazer m\u00fasica atemporal, no seu pr\u00f3prio ritmo, longe de qualquer moda passageira. Uma rota que, n\u00e3o por acaso, viria a influenciar e ecoar no trabalho de bandas fundamentais do indie rock, como Pavement, Guided By Voices, Superchunk e Yo La Tengo, que carregam, seja declarada ou sutilmente estampada em suas guitarras, a heran\u00e7a sonora dos &#8220;morcegos&#8221; neozelandeses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seu regresso no novo mil\u00e9nio com uma trilogia de discos robustos \u2013 &#8220;At The National Grid&#8221; (2005), &#8220;The Guilty Office&#8221; (2008) e &#8216;Free All The Monsters&#8221; (2011) \u2013 demonstrou n\u00e3o um renascimento, mas uma simples continua\u00e7\u00e3o do seu di\u00e1logo musical. &#8220;The Deep Set&#8221; (2017) manteve sua f\u00f3rmula cl\u00e1ssica de melodias de guitarra e letras introspectivas, por\u00e9m com uma uma sabedoria que s\u00f3 o passar dos anos traz. Faixas como &#8220;Rooftops&#8221; mostravam uma banda \u00e0 vontade com seu pr\u00f3prio legado, provando que seu folk-rock atemporal n\u00e3o apenas resistia, mas seguia relevante. O disco confirmava, ent\u00e3o, que a verdadeira inova\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente permanecer fiel \u00e0 pr\u00f3pria ess\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2018, realizaram o not\u00e1vel projeto &#8220;Foothills&#8221;, em um ato de arqueologia criativa de Robert Scott, querendo reafirmar a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria antes de escrever o pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, que\u00a0 intitula-se &#8220;<a href=\"https:\/\/thebats.bandcamp.com\/album\/corner-coming-up\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Corner Coming Up<\/a>&#8220;, d\u00e9cimo primeiro \u00e1lbum de est\u00fadio da banda, lan\u00e7ado em 17 de outubro de 2025. Onze can\u00e7\u00f5es que soam ao mesmo tempo familiares e vitais, explorando diversas facetas da introspec\u00e7\u00e3o e da supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93655 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bats2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bats2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bats2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da vulnerabilidade m\u00e9dica e existencial de &#8220;The Gown&#8221; ao otimismo teimoso de &#8220;Lucky Day&#8221;, da reflex\u00e3o c\u00f3smica de &#8220;A Line to the Stars&#8221; ao apelo ecol\u00f3gico de &#8220;Nature&#8217;s Time&#8221;, passando pelos apoios cotidianos examinados em &#8220;A Crutch A Post&#8221;, o \u00e1lbum \u00e9 uma cartografia da experi\u00eancia humana madura. Um riff incita a &#8220;levantar e saudar o dia&#8221; em &#8220;Song for the End&#8221; \u2013 onde se anseia por &#8220;paz e neutralidade&#8221;. Uma caminhada perseverante em &#8220;Smallest Falls&#8221; e uma melancolia impulsiva de &#8220;Tidal&#8221; &#8211; como se estivessem impelindo o ouvinte na subida de uma colina pedregosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a banda explora essa negocia\u00e7\u00e3o constante entre d\u00favida e esperan\u00e7a, a qu\u00edmica r\u00edtmica de Kean e Grant fornece a funda\u00e7\u00e3o inabal\u00e1vel que sustenta at\u00e9 mesmo as faixas mais contemplativas, como &#8216;Eyes Down&#8217; &#8211; uma pe\u00e7a de arranjo solene que evoca a atmosfera de uma marcha f\u00fanebre no piano, repetindo hipnoticamente o refr\u00e3o Eyes Down a partir de 1 min e meio de m\u00fasica. As guitarras de Scott e Woodward entrela\u00e7am-se com uma cumplicidade que s\u00f3 quatro d\u00e9cadas de estrada podem forjar, criando o tecido sonoro que une a expectativa da faixa-t\u00edtulo &#8220;Corner Coming Up&#8221; ao suspiro final de &#8220;Loline&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria dos The Bats \u00e9 mais do que uma cr\u00f4nica de discos lan\u00e7ados; \u00e9 um testemunho do poder da paci\u00eancia e da integridade art\u00edstica. De um fim abrupto do The Clean \u00e0s promessas presentes no EP By Night, da maturidade de Daddy&#8217;s Highway \u00e0 reflex\u00e3o de Foothills e \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o plena de Corner Coming Up, a sua jornada \u00e9 um mapa de uma estrada menos percorrida: a da const\u00e2ncia. Num mundo musical de fogos de artif\u00edcio ef\u00e9meros, The Bats permanecem uma chama constante, provando que a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o, por vezes, \u00e9 simplesmente n\u00e3o desistir e seguir em frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ou\u00e7a \u201cCorner Coming Up\u201d na integra abaixo e leia <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/11\/25\/entrevista-icones-do-dunedin-sound-neozelandeses-do-the-bats-falam-sobre-o-album-corner-coming-up\/\">uma entrevista com eles aqui<\/a><\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Corner Coming Up\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nO4ioOUmM6Pn8l8Xo_4EFNMyig4hFavCw\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/hebertonbas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Heberton Barreira<\/a>\u00a0\u00e9 estudante de jornalismo, bandolinista e animador stop-motion. Criador do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/yayatedance\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@yayatedance<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A hist\u00f3ria dos The Bats \u00e9 mais do que uma cr\u00f4nica de discos lan\u00e7ados; \u00e9 um testemunho do poder da paci\u00eancia e da integridade art\u00edstica.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/02\/01\/a-estrada-do-the-bats-ate-sua-11a-curva-corner-coming-up\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":164,"featured_media":93657,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[8025],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93654"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/164"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93654"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":93659,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93654\/revisions\/93659"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93657"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}