{"id":93589,"date":"2026-01-29T01:04:52","date_gmt":"2026-01-29T04:04:52","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=93589"},"modified":"2026-03-03T00:11:26","modified_gmt":"2026-03-03T03:11:26","slug":"os-70-anos-de-rio-40-graus-de-nelson-pereira-dos-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/29\/os-70-anos-de-rio-40-graus-de-nelson-pereira-dos-santos\/","title":{"rendered":"Os 70 anos de &#8220;Rio, 40 Graus&#8221;, de Nelson Pereira dos Santos"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil&#8221;, como imortalizado por Fausto Fawcett e Fernanda Abreu. Em 2025, &#8220;Rio, 40 Graus&#8221; (1955) completou 70 anos. O primeiro longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos ao mesmo tempo consolida tend\u00eancias est\u00e9ticas e ideol\u00f3gicas, dialoga francamente com o momento pol\u00edtico brasileiro e estabelece uma trilha para o que o cinema brasileiro viria a ser ou buscar pelos pr\u00f3ximos 10 anos (no m\u00ednimo).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93590 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/rio40graus1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/rio40graus1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/rio40graus1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1955 foi um ano complicado. O Brasil chegou a ter tr\u00eas presidentes da rep\u00fablica diferentes em uma mesma semana de novembro, a saber: Caf\u00e9 Filho, de 24 de agosto de 1954 a 8 de novembro de 1955, Carlos Luz, de 8 a 11 de novembro de 1955 e Nereu Ramos, de 11 de novembro de 1955 a 31 de janeiro de 1956. No ano anterior, os brasileiros testemunharam a morte de Get\u00falio Vargas; no posterior, viram a ascens\u00e3o de Juscelino Kubitschek e de seu slogan de campanha, &#8220;50 anos em 5&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maravilha mutante &#8211; tal como o pr\u00f3prio Brasil &#8211; o Rio \u00e9 uma cidade de cidades misturadas e camufladas, com os seus submundos: submundo oficial, submundo bandida\u00e7o, submundo classe m\u00e9dia, submundo camel\u00f4, subm\u00e1fia manicure, subm\u00e1fia de boate, submundo de madame, submundo da TV. Assistir ao filme de 1955 e ouvir a can\u00e7\u00e3o de 1992 nos permite compreender como o tempo n\u00e3o \u00e9 p\u00e1reo para a uni\u00e3o entre a beleza e o caos. A trama parte do \u201ccorre\u201d de cinco crian\u00e7as que descem o \u201cmorro\u201d para vender amendoim na cidade. O objeto \u00e9 comprar uma bola de futebol nova, mas um dos meninos sabe que precisa do dinheiro para comprar o rem\u00e9dio da m\u00e3e acamada. O ver\u00e3o \u00e9 intenso, a cidade \u00e9 violenta e segregada. Beleza e caos. Submundos e subm\u00e1fias se chocam o tempo inteiro, como veremos a seguir.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93592 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/futebol1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/futebol1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/futebol1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A abertura com as curvas da paisagem do Rio de Janeiro e a m\u00fasica \u201cA Voz do Morro\u201d, de Jos\u00e9 Flores de Jesus, o nosso Z\u00e9 Keti, sugerem uma postura que o pr\u00f3prio filme vai desconstruindo aos poucos. Nelson Pereira dos Santos n\u00e3o estava interessado em produzir mais um filme burgu\u00eas para constar na filmografia brasileira. Pelo contr\u00e1rio, o cineasta usou de todo o seu arsenal de artes\u00e3o do cinema para criar momentos assombrosos: toda a sequ\u00eancia aventuresca do menino fugindo do &#8220;rapa&#8221; \u00e9 brilhante, com direito \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o no alto do bondinho do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar; assim como tamb\u00e9m o \u00e9 a sequ\u00eancia do pol\u00edtico\/coronel que chega ao Rio de Janeiro e \u00e9 tratado como rei &#8211; \u201ccalma, o Brasil \u00e9 nosso\u201d, diz ele embevecido por toda a aten\u00e7\u00e3o recebida. Os movimentos de c\u00e2mera, a maneira como os corpos se movimentam no quadro, o uso inteligente do contra-plong\u00e9e para, simultaneamente, construir uma amea\u00e7a e rir do pr\u00f3prio mito criado, entre outros v\u00e1rios recursos, demonstram o quanto o filme tinha essa verve sedutora, sem jamais abdicar de um discurso pol\u00edtico forte e direto, antecipando iniciativas como as de &#8220;Cinco Vezes Favela&#8221; (1962) e, como um todo, as do pr\u00f3prio Cinema Novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201dQuem tem raz\u00e3o pra brigar, tem mais for\u00e7a pra vencer\u201d. A frase, no filme, \u00e9 dita quase como um manifesto, assim como a m\u00fasica de Z\u00e9 Keti d\u00e1 seu recado, rearranjada de diversas formas ao longo da narrativa, mas com uma letra pungente e cont\u00ednua: &#8220;Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim, Senhor&#8221;. E foi justamente por dar a ver uma hist\u00f3ria protagonizada por uma realidade outra que n\u00e3o a burguesa para o cinema brasileiro que a fita teve problemas com a censura (de acordo com cineastas como Glauber Rocha e Eduardo Coutinho, como afirma Alex Viany no livro organizado por Jos\u00e9 Carlos Avellar, &#8220;O Processo do Cinema Novo&#8221;). Proibido pelo chefe de pol\u00edcia da \u00e9poca, o filme foi ardorosamente defendido por todo o mundo intelectual brasileiro, transformando-se em, segundo Viany, &#8220;nosso mais celebrado \u201cfilme maldito\u201d&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trecho do filme &quot;Rio 40 Graus&quot;, de Nelson Pereira dos Santos\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UKhi4VqRABU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para fechar, mais duas sequ\u00eancias marcantes e um depoimento de Glauber Rocha:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) A sequ\u00eancia do Maracan\u00e3, um dos espa\u00e7os mais democr\u00e1ticos da cidade do Rio de Janeiro, e a maneira como o cineasta filma todo mundo como igual nessa hora, al\u00e9m de toda a trama envolvendo o jogador de futebol que vai mal no primeiro tempo e que precisa mostrar o seu valor &#8211; ainda que revele todas as falcatruas do sistema que est\u00e1 muito acima dele;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) A sequ\u00eancia final, respons\u00e1vel pelo filme terminar em festa, com a Escola de Samba da Portela chegando na sede da Cabu\u00e7u, mesmo que depois a c\u00e2mera fa\u00e7a um voo pela favela e enquadre a m\u00e3e doente esperando o filho que n\u00e3o voltou (e nem ir\u00e1 voltar) para casa, terminando com o samba sendo ouvido em alto e bom som e com a vista a\u00e9rea do Rio de Janeiro, do mesmo modo como tudo come\u00e7ou;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3) Glauber Rocha: \u201cNelson Pereira dos Santos realizou, em &#8216;Rio, 40 Graus&#8217;, o primeiro filme brasileiro verdadeiramente engajado. O adjetivo \u00e9 valido e significa, h\u00e1 dez anos passados, uma tomada de posi\u00e7\u00e3o corajosa, solit\u00e1ria, e consequente.\u201d [\u2026] \u201cdespertei violentamente do ceticismo e me decidi a ser diretor de cinema brasileiro nos momentos que estava assistindo &#8216;Rio, 40 graus&#8217;, garanto que 80% dos novos cineastas brasileiros sentiram o mesmo impacto.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cRio, 40 Graus\u201d est\u00e1 dispon\u00edvel atualmente na Globoplay e na Netflix (e no Youtube).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93591 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/rio40graus2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1102\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/rio40graus2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/rio40graus2-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw2y1ecqCW_KBoFqtTKVBQEK\">@leandro_luz<\/a>) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a \u00e1rea de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programa\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de cr\u00edtica no\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/screamyell.com.br\/site\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw263alYeTRQy1GYVR0TXsQG\">Scream &amp; Yell<\/a>\u00a0e nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw1BTqnliQ9DvtqDHkpafqt5\">Tudo \u00c9 Brasil<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3TjpLW5o8SaVAAdNU3jD2Z\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3DtKMpqv1bp5QVCI6MvWbM\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201dQuem tem raz\u00e3o pra brigar, tem mais for\u00e7a pra vencer\u201d. 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