{"id":93448,"date":"2026-01-24T22:25:51","date_gmt":"2026-01-25T01:25:51","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=93448"},"modified":"2026-02-08T23:22:48","modified_gmt":"2026-02-09T02:22:48","slug":"entrevista-a-cineasta-ana-do-carmo-fala-sobre-nevrose-curta-presente-na-29a-mostra-de-cinema-de-tiradentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/24\/entrevista-a-cineasta-ana-do-carmo-fala-sobre-nevrose-curta-presente-na-29a-mostra-de-cinema-de-tiradentes\/","title":{"rendered":"Entrevista: A cineasta Ana do Carmo fala sobre seu curta-metragem &#8220;Nevrose&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/joao.paulo.barreto.824529\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destaque da <a href=\"https:\/\/mostratiradentes.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mostra de Cinema de Tiradentes<\/a> 2026, o curta-metragem baiano &#8220;Nevrose&#8221;, da diretora <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ana.carmof\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ana do Carmo<\/a>, adapta os contos de Maria Benedita Bormann, autora brasileira do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anan do Carmo j\u00e1 dirigiu 11 curtas, entre eles \u201c<a href=\"https:\/\/vimeo.com\/330289406\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Mulher no Fim do Mundo<\/a>\u201d (2019), selecionado para mais de 30 festivais em 10 pa\u00edses, incluindo o Los Angeles Brazilian Film Festival. Em 2026, Ana vai dirigir o longa-metragem de sci-fi \u201cSol a Pino\u201d, com distribui\u00e7\u00e3o da Vitrine Filmes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse papo com o Scream &amp; Yell, a cineasta falou sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o de &#8220;Nevrose&#8221;, que fez parte da antologia &#8220;Insubmissas&#8221; e que, ap\u00f3s estrear no Atlanta Women\u2019s Film Festival, nos Estados Unidos, e de circular por mostras e premia\u00e7\u00f5es no Brasil, desembarca na Mostra Panorama, em Tiradentes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nevrose (teaser)\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/1097171969?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write; encrypted-media; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Nevorse&#8221; \u00e9 um filme que lida de modo muito org\u00e2nico com quest\u00f5es existencialistas relacionadas com a vida e com a morte,\u202f bem como quest\u00f5es que aprofundam a ideia do luto e da liberta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o pessoal. Neste aspecto de experimenta\u00e7\u00e3o do cinema com tais quest\u00f5es, voc\u00ea j\u00e1 havia trazido tal abordagem para &#8220;A Mulher do Fim do Mundo&#8221;. Tendo, agora, o cinema de g\u00eanero como um norte neste trabalho, como foi buscar essa identidade desse tipo de cinema para o curta?<\/strong><br \/>\n&#8220;Nevrose&#8221; nasce do encontro entre literatura e cinema de g\u00eanero. O filme \u00e9 inspirado em contos de Maria Benedita Bormann, autora brasileira do s\u00e9culo XIX, per\u00edodo em que a loucura despontava como um tema recorrente na literatura escrita por mulheres. Adaptar esses textos hoje significou revisitar essa tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de autoras que escrevem sobre abismos interiores e desloc\u00e1-la para a especificidade de corpos e subjetividades negras. As personagens originais eram brancas, e o gesto de reescrev\u00ea-las como mulheres negras evidenciou de imediato a pot\u00eancia do g\u00eanero para tratar do luto, da culpa e da transforma\u00e7\u00e3o a partir das nossas experi\u00eancias. O suspense se tornou uma ferramenta dramat\u00fargica org\u00e2nica: ele tensiona, exp\u00f5e e ritualiza como experienciamos a vida e a morte. Essa rela\u00e7\u00e3o com o g\u00eanero j\u00e1 aparecia em &#8220;A Mulher no Fim do Mundo&#8221; (2019), quando eu ainda investigava minha identidade e minha assinatura art\u00edstica. Ali, o cinema p\u00f3s-apocal\u00edptico permitiu radicalizar a interioridade de uma \u00fanica personagem em um espa\u00e7o total: o mundo. Em &#8220;Nevrose&#8221;, essa pesquisa se expande para um conjunto de tr\u00eas personagens, por\u00e9m num espa\u00e7o m\u00ednimo: o quintal de uma casa diante de uma cova rec\u00e9m-aberta. A travessia entre esses dois trabalhos refor\u00e7a algo que tenho sentido desde o in\u00edcio: o cinema de g\u00eanero \u00e9 um dispositivo poderoso para potencializar dilemas existenciais, sobretudo quando encarnados por mulheres negras que, historicamente, tiveram seus afetos e complexidades ceifados. O g\u00eanero aqui n\u00e3o \u00e9 ornamento ou apenas linguagem, mas metodologia e estrat\u00e9gia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93453\" aria-describedby=\"caption-attachment-93453\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93453\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Nevrose__Foto_Carolina_Guerreiro-4-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Nevrose__Foto_Carolina_Guerreiro-4-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Nevrose__Foto_Carolina_Guerreiro-4-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93453\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Nevrose&#8221; \/ Foto de Carolina Guerreiro<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Citei o curta de 2019 e aproveito para lhe perguntar sobre a parceria com Tainah Paes, dessa vez em uma personagem com uma abordagem bem diferente. Como \u00e9 essa sintonia entre diretora e atriz para voc\u00eas? Do mesmo modo, o trabalho com Josy Varj\u00e3o, Sara Barbosa e Jota Silva. Como foi para voc\u00ea transmitir ao seu elenco essa atmosfera que o filme transmitiu t\u00e3o bem?<\/strong><br \/>\nEm &#8220;Nevrose&#8221;, os di\u00e1logos s\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o do filme, e tudo acontece dentro de uma \u00fanica loca\u00e7\u00e3o. Isso exigia um elenco muito forte, capaz de sustentar tens\u00e3o, ritmo e subtexto. A parceria com Tainah Paes j\u00e1 vem de longa data e isso cria um terreno de confian\u00e7a raro. Ela \u00e9 extremamente talentosa e ao longo dos filmes que fizemos juntas, desenvolvemos uma sintonia muito grande. Sabemos o tipo de cinema que desejamos criar. Trabalhar com Tainah \u00e9 um gesto de continuidade e, a cada projeto, reafirmamos nosso pacto art\u00edstico. Ao mesmo tempo, fui presenteada ao trabalhar com Josi Varj\u00e3o, Sara Barbosa e Jota Silva, que abra\u00e7aram a narrativa e trouxeram densidade po\u00e9tica para os personagens. Foi no corpo deles que o texto saltou da p\u00e1gina: cada sil\u00eancio, cada gesto, cada inflex\u00e3o de voz ampliou as camadas do do roteiro. E tivemos o trabalho incr\u00edvel de Heraldo de Deus na prepara\u00e7\u00e3o de elenco, que foi fundamental pra trabalharmos a sintonia entre eles. H\u00e1 tamb\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nessa escala\u00e7\u00e3o. Enquanto roteiristas, sabemos que quando a racialidade n\u00e3o \u00e9 explicitada no papel, a ind\u00fastria tende a pressupor personagens brancos. Aqui, escrever personagens negros n\u00e3o foi apenas sobre representatividade, mas sobre garantir complexidade dram\u00e1tica a esses personagens e oportunidades concretas para atores e atrizes negros. Nevrose nasce desse conjunto de escolhas e dessa entrega coletiva.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93452\" aria-describedby=\"caption-attachment-93452\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93452\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Nevrose__Foto_Carolina_Guerreiro-2-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Nevrose__Foto_Carolina_Guerreiro-2-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Nevrose__Foto_Carolina_Guerreiro-2-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93452\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Nevrose&#8221; \/ Foto de Carolina Guerreiro<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do mesmo modo, sendo um filme de elenco majoritariamente feminino e lidando com um texto que aborda temas que v\u00e3o desde a maternidade interrompida passando pela escolha do suic\u00eddio como uma autonomia diante da pr\u00f3pria exist\u00eancia, &#8220;Nevrose&#8221; traz um peso em seu roteiro oriundo dos escritos de\u202f Maria Benedita Bormann, a D\u00e9lia. Como foi esse processo de adapta\u00e7\u00e3o e de encontro de uma identidade visual t\u00e3o marcante em seu set?<\/strong><br \/>\nQuando li os contos de Maria Benedita Bormann, ficou evidente que aquela hist\u00f3ria poderia existir em qualquer tempo. Havia algo de profundamente atemporal na forma como a autora investigava a loucura feminina: um campo liter\u00e1rio em que se disputava quem tem o direito de enlouquecer e quem \u00e9 autorizado a falar sobre a dor. Adaptar esse material nos dias de hoje e co-escrev\u00ea-lo junto com Clara Peltier significou ampliar essa discuss\u00e3o e desloc\u00e1-la para um lugar em que as personagens femininas e negras n\u00e3o fossem objeto, mas protagonistas de sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. Era importante olh\u00e1-las de dentro, n\u00e3o como alegorias, e sim como sujeitos complexos em uma encruzilhada de f\u00e9, culpa e desejo. A constru\u00e7\u00e3o visual seguiu esse impulso. Buscamos uma atmosfera onde o mist\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 sobrenatural, mas humano. Ter um set majoritariamente feminino tamb\u00e9m foi decisivo: esse olhar de dentro para fora atravessou todas as etapas da cria\u00e7\u00e3o e foi fundamental para sustentar a densidade dessas personagens.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93451\" aria-describedby=\"caption-attachment-93451\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93451\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Nevrose__Foto_Carolina_Guerreiro-3-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Nevrose__Foto_Carolina_Guerreiro-3-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Nevrose__Foto_Carolina_Guerreiro-3-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93451\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Nevrose&#8221; \/ Foto de Carolina Guerreiro<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s ter composto a antologia &#8220;Insubmissas&#8221;, \u00e9 pertinente observar como seu filme se destaca em uma exibi\u00e7\u00e3o individual, sem necessariamente precisar dialogar com os curtas da antologia dessa vez, em Tiradentes. Lembro que fiz a media\u00e7\u00e3o do debate da sess\u00e3o\u202f no ano passado no cinema Glauber Rocha, em Salvador, durante o Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema, e tive essa percep\u00e7\u00e3o de unicidade em todos os trabalhos, apesar, claro, deles funcionarem t\u00e3o bem individualmente. Nessa exibi\u00e7\u00e3o em Tiradentes, como voc\u00ea observa essa jun\u00e7\u00e3o da curadoria dentro da Mostra Panorama?<\/strong><br \/>\nA antologia &#8220;Insubmissas&#8221; deu vida e fortaleceu &#8220;Nevrose&#8221;, dentro de um conjunto de obras lideradas por mulheres que tensionam forma e linguagem. V\u00ea-lo agora em exibi\u00e7\u00e3o individual reitera sua autonomia: &#8220;Nevrose&#8221; encontra o p\u00fablico por conta pr\u00f3pria, afirmando sua arquitetura dram\u00e1tica e seu lugar no cinema de g\u00eanero. Depois de estrear no Atlanta Women\u2019s Film Festival, nos Estados Unidos, e de circular por mostras e premia\u00e7\u00f5es no Brasil, o filme desembarca na Mostra Panorama, em Tiradentes. \u00c9 simb\u00f3lico chegar justamente a um espa\u00e7o que acolhe filmes que experimentam, que arriscam, que desorganizam certezas e realinham sensibilidade est\u00e9tica e pol\u00edtica. Estar nessa curadoria \u00e9 uma alegria, e tamb\u00e9m uma responsabilidade, em um dos festivais mais potentes do cinema independente brasileiro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93450 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Poster-NEVROSE-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1061\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Poster-NEVROSE-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Poster-NEVROSE-copiar-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Em &#8216;Nevrose&#8217;, os di\u00e1logos s\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o do filme, e tudo acontece dentro de uma \u00fanica loca\u00e7\u00e3o. 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