{"id":93379,"date":"2026-01-20T00:47:03","date_gmt":"2026-01-20T03:47:03","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=93379"},"modified":"2026-02-08T23:09:27","modified_gmt":"2026-02-09T02:09:27","slug":"em-salvador-giro-conecta-demonstra-como-unir-o-sul-global-pela-musica-sem-forcar-encontros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/20\/em-salvador-giro-conecta-demonstra-como-unir-o-sul-global-pela-musica-sem-forcar-encontros\/","title":{"rendered":"Em Salvador, Giro Conecta demonstra como unir o Sul Global pela m\u00fasica sem for\u00e7ar encontros com feats protocolares"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/onelsonoliveira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nelson Oliveira<\/a><br \/>\nfotos de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/giroconecta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Giro Conecta<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como j\u00e1 ensinava Vinicius de Moraes, \u201ca vida \u00e9 a arte do encontro\u201d \u2013 e foi sob essa chave que o Giro Conecta se afirmou em Salvador. Realizado entre 15 e 18 de janeiro, o festival mostrou, ao longo de quatro noites, que sua for\u00e7a n\u00e3o reside apenas na presen\u00e7a conjunta de artistas brasileiros, africanos e latino-americanos, mas sobretudo na fluidez com que esses di\u00e1logos se estabeleceram, longe da rigidez dos feats protocolares ou da l\u00f3gica da participa\u00e7\u00e3o decorativa. O evento se construiu a partir do interc\u00e2mbio e da circula\u00e7\u00e3o viva de repert\u00f3rios, est\u00e9ticas e experi\u00eancias compartilhadas. Mesmo flutuando por g\u00eaneros e levadas bem distintas entre si mesmas, a proposta se manteve coesa ao fazer da m\u00fasica um territ\u00f3rio de passagem entre Bahia, Brasil, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina, privilegiando v\u00ednculos art\u00edsticos em vez do impacto imediato de atra\u00e7\u00f5es isoladas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua edi\u00e7\u00e3o mais recente, o festival reuniu nomes consolidados e emergentes da m\u00fasica brasileira, como Chico C\u00e9sar, T\u00e1ssia Reis, Larissa Luz, Jota.P\u00ea, Aguidavi do J\u00eaje e Magary Lord, em di\u00e1logo direto com artistas africanos e latino-americanos, entre eles Mayra Andrade e M\u00e1rio L\u00facio, de Cabo Verde, o angolano Yuri da Cunha e a colombiana Goyo, e acabou encontrando no espa\u00e7o escolhido uma surpresa feliz. O p\u00e1tio do Pal\u00e1cio da Aclama\u00e7\u00e3o, erguido no in\u00edcio do s\u00e9culo XX e por d\u00e9cadas ligado ao poder pol\u00edtico baiano como resid\u00eancia oficial de governadores, atravessa hoje um processo de recupera\u00e7\u00e3o que o projeta para outro destino, como futura sede do CCBB Salvador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo sem ter sido concebido como espa\u00e7o para shows, o \u00e1trio se revelou funcional e acolhedor, com boa ac\u00fastica e a vantagem de permitir proje\u00e7\u00f5es de v\u00eddeo diretamente na fachada neocl\u00e1ssica do casar\u00e3o, incorporada \u00e0 experi\u00eancia do p\u00fablico. O local ganhou novo significado ao ser ativado pela m\u00fasica e se apresentou como um forte candidato a futuro queridinho do circuito cultural \u2013 afinal, al\u00e9m disso, fica na regi\u00e3o do Campo Grande, pr\u00f3ximo ao metr\u00f4 e a outros equipamentos que refor\u00e7am sua voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93381\" aria-describedby=\"caption-attachment-93381\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93381\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Magary-Lord.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Magary-Lord.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Magary-Lord-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93381\" class=\"wp-caption-text\"><em>Magary Lord e Kalinde Mayara \/ foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/blackrec.av\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@blackrec.av<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro dia aconteceu sob um contexto peculiar: as aten\u00e7\u00f5es de centenas de milhares de moradores de Salvador estavam concentradas na Lavagem do Bonfim, o que se refletiu em um p\u00fablico menor no Pal\u00e1cio da Aclama\u00e7\u00e3o. Ainda assim, a noite teve um car\u00e1ter simb\u00f3lico especial, justamente por dialogar com a ideia de festa de largo \u2013 territ\u00f3rio em que a m\u00fasica popular baiana sempre encontrou seu lugar mais org\u00e2nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coube a Magary Lord abrir os trabalhos com um show que reafirmou seu potencial ainda pouco explorado no circuito nacional. Apostando no black semba, uma fus\u00e3o de black music com semba angolano criada por ele mesmo, o soteropolitano apresentou um repert\u00f3rio fortemente ancorado em composi\u00e7\u00f5es que marcaram sua participa\u00e7\u00e3o no \u00e1lbum \u201cBaile \u00e0 la Baiana\u201d, de Seu Jorge, al\u00e9m de hits de \u201cInventando Moda\u201d, seu \u00e1lbum de estreia, que fez grande sucesso na Salvador dos anos 2010 \u2013 ele chegou a concorrer ao Trof\u00e9u Bahia Folia, que elege a melhor m\u00fasica do carnaval, com duas can\u00e7\u00f5es, vencendo a disputa com \u201cCirculou\u201d. Os versos de \u201cPegada de Dod\u00f4\u201d, \u201cJoelho\u201d e da faixa-t\u00edtulo seguem na boca dos locais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Can\u00e7\u00f5es como \u201cAmor de Canudinho\u201d, \u201cShock\u201d, \u201cLasqueira\u201d e \u201cMudan\u00e7a\u201d (as primeiras, presentes em \u201cBaile \u00e0 la Baiana\u201d; a \u00faltima, nos dois \u00e1lbuns citados) se destacaram tamb\u00e9m por esse car\u00e1ter popular imediato: m\u00fasicas que pedem dan\u00e7a, criam coreografias espont\u00e2neas e funcionam como trilha perfeita para uma cidade em clima de celebra\u00e7\u00e3o religiosa e profana ao mesmo tempo. Acompanhado por uma banda grande e afiada, com destaque para o clarinetista Ivan Sacerdote, Magary mostrou dom\u00ednio de palco e carisma, mostrando que, com melhores escolhas art\u00edsticas no passado, poderia ter se consolidado como grande nome da m\u00fasica para al\u00e9m das fronteiras baianas \u2013 o que pode vir a acontecer tardiamente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93386\" aria-describedby=\"caption-attachment-93386\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93386\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Magary-Lord-3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Magary-Lord-3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Magary-Lord-3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93386\" class=\"wp-caption-text\"><em>Magary Lord e Yuri da Cunha \/ foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/blackrec.av\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@blackrec.av<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conex\u00e3o com a \u00c1frica se materializou de forma direta com a entrada de Yuri da Cunha, que carregou consigo uma verdadeira caravana angolana. Bandeiras de Angola tremulando, coreografias criativas e um clima permanente de festa marcaram o show, que manteve a pista em movimento constante. \u201cMakumba\u201d e \u201cSanzala\u201d foram pontos altos, e o pr\u00f3prio Yuri fez quest\u00e3o de destacar, em tom emocionado, que muitas vezes s\u00e3o os baianos que ajudam a preservar e reinventar a cultura angolana fora de seu territ\u00f3rio de origem. O \u00e1pice veio quando ele e Magary, acompanhados por duas f\u00e3s que subiram ao palco, dividiram \u201cJoelho\u201d, selando um encontro que aproximou as margens do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo dia teve um clima mais intimista, mas n\u00e3o menos significativo. Jota.p\u00ea surgiu como um anfitri\u00e3o afetuoso, transformando o show em uma conversa t\u00eate-a-t\u00eate. Simp\u00e1tico e atuando como contador de hist\u00f3rias, ele conduziu o p\u00fablico por um repert\u00f3rio que espelha sua ascens\u00e3o recente, catalisada pelo sucesso do projeto \u201cDominguinho\u201d, ao lado de Mestrinho e Jo\u00e3o Gomes. Ao trazer faixas como \u201cBeija-Flor\u201d, o paulista evidenciou como esse trabalho ajudou a ampliar seu alcance, conectando a can\u00e7\u00e3o brasileira a um p\u00fablico mais amplo sem diluir sua identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na banda, a presen\u00e7a de Kain\u00e3 do J\u00eaje e Chibatinha, do \u00c0TT\u00d8\u00d8XX\u00c1, acrescentou tradi\u00e7\u00e3o percussiva e riffs malemolentes \u00e0 MPB contempor\u00e2nea trabalhada por Jota.p\u00ea. Can\u00e7\u00f5es como \u201cGaroa\u201d, \u201cA Ordem Natural das Coisas\u201d e \u201cUns Cafun\u00e9 \u00e0 Domic\u00edlio\u201d mostraram um compositor seguro, que sabe equilibrar lirismo e simplicidade sem cair na obviedade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93385\" aria-describedby=\"caption-attachment-93385\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-93385 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jota.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jota.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jota-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93385\" class=\"wp-caption-text\"><em>Jota.p\u00ea \/ foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/blackrec.av\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@blackrec.av<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s 20h, o palco ganhou outra atmosfera com a entrada de Mayra Andrade. A cantora cabo-verdiana iniciou sua participa\u00e7\u00e3o com \u201cAfeto\u201d, e rapidamente ficou claro que n\u00e3o se tratava de uma simples participa\u00e7\u00e3o especial. Amigos de longa data, Mayra e Jota.p\u00ea dividiram o palco com naturalidade, passando por \u201cManga\u201d. \u201cT\u00e1 A\u00ea\u201d e escolhendo \u201cMilagres do Povo\u201d, de Caetano Veloso, como eixo de um encontro atravessado pela ancestralidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foi casual: ao cantar na Bahia, a artista que tanto transitou pelo mundo costuma evocar essasensa\u00e7\u00e3o de reconhecimento, de alinhamento entre corpo, mem\u00f3ria e territ\u00f3rio, utilizando a can\u00e7\u00e3o como ativadora desse pertencimento. Ap\u00f3s cerca de meia hora, Mayra Andrade deixou o palco, mas retornou no bis, encerrando a noite com delicadeza e refor\u00e7ando o car\u00e1ter afetivo do dia: menos dan\u00e7a, mais escuta; menos impacto imediato, mais perman\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro dia foi, sem d\u00favida, o mais intenso em termos de experimenta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. A abertura com \u201cZ\u00e9 do Caro\u00e7o\u201d numa vers\u00e3o eletrificada j\u00e1 indicava que a noite seria de deslocamentos. No palco, RDD, T\u00e1ssia Reis e Larissa Luz dividiram protagonismo em um show conjunto que funcionou como laborat\u00f3rio criativo ao vivo. O idealizador do \u00c0TT\u00d8\u00d8XX\u00c1, que j\u00e1 colaborara anteriormente com a rapper paulistana e produzira um \u00e1lbum e um EP da baiana, imprimiu peso e precis\u00e3o aos beats, construindo bases densas e pulsantes que deram sustenta\u00e7\u00e3o e f\u00f4lego \u00e0s performances, mantendo a energia do palco sempre em alta.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93387\" aria-describedby=\"caption-attachment-93387\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93387\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/tassia.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/tassia.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/tassia-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93387\" class=\"wp-caption-text\"><em>Larissa Luz e T\u00e1ssia Reis \/ foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/blackrec.av\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@blackrec.av<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTUTUTU\u201d, \u201cHipnose\u201d e \u201cGira\u201d estabeleceram o clima da noite, antes de T\u00e1ssia assumir o centro em \u201cRude\u201d. O di\u00e1logo entre as duas artistas ficou ainda mais evidente numa releitura de \u201cVoc\u00ea Me Vira a Cabe\u00e7a (Me Tira do S\u00e9rio)\u201d, de Alcione, reinterpretada num arrocha. Logo ap\u00f3s \u201cSonho Meu\u201d, a entrada de Goyo transformou o momento em algo maior: a colombiana trouxe rimas que costuraram o hip hop, t\u00e3o caro \u00e0 pailistana, a reggaeton e afrobeats, criando uma ponte direta com Larissa Luz, cuja est\u00e9tica sempre flertou com esses territ\u00f3rios sonoros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Goyo apresentou \u201cSan Antonio\u201d, can\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica tradicional da Col\u00f4mbia, geralmente cantada em festas religiosas, numa releitura em formato mais contempor\u00e2neo. \u201cNa Na Na\u201d e \u201cOtra Noche\u201d refor\u00e7aram seu carisma e sua capacidade de dialogar com p\u00fablicos diversos, apresentando seu trabalho a um p\u00fablico novo sem perder identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a sa\u00edda de Goyo, Larissa Luz \u2013 que era a mestre de cerim\u00f4nias do trio \u2013 voltou ao centro com o hit \u201cCupido Er\u00ea\u201d. Como sempre, sua presen\u00e7a, vocal e corporal, deu outro peso ao espet\u00e1culo, ao melhor estilo \u201cRitual Baile\u201d, transcendente, com enormes descargas de energia. Na reta final, outro momento interessante veio com T\u00e1ssia Reis, que trouxe \u201cDollar Euro\u201d em um arranjo pesado de eletropagod\u00e3o feito por RDD.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93388\" aria-describedby=\"caption-attachment-93388\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-93388 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/goyo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/goyo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/goyo-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93388\" class=\"wp-caption-text\"><em>Goyo \/ foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/blackrec.av\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@blackrec.av<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, com a volta da colombiana ao palco, fecharam com \u201cYou Don\u2019t Love Me (No, No, No)\u201d, de Dawn Penn, retrabalhada em uma pegada samba-reggae que reuniu todas as vozes femininas da noite. Um momento de comunh\u00e3o, pot\u00eancia e afirma\u00e7\u00e3o, no qual artistas do Sul Global se encontraram sem hierarquia, ratificando afinidades hist\u00f3ricas e est\u00e9ticas que dispensam tradu\u00e7\u00e3o e reafirmam a m\u00fasica, atrav\u00e9s de suas fus\u00f5es, como linguagem compartilhada de resist\u00eancia e pertencimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00faltimo dia do Giro Conecta foi o mais instigante. Chico C\u00e9sar, Aguidavi do J\u00eaje e M\u00e1rio L\u00facio dividiram o palco em um encontro que fugiu completamente da l\u00f3gica tradicional de festival. N\u00e3o houve sucess\u00e3o de shows, mas um di\u00e1logo constante, org\u00e2nico, quase ritual\u00edstico. Uma constru\u00e7\u00e3o coletiva, com seus intervalos, sim, mas bastante coesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s uma abertura de caminho (\u201cIba\u00f4-Ogum\u201d) com os tambores e baquetas origin\u00e1rios do Terreiro do Bogum, o mais antigo do candombl\u00e9 de na\u00e7\u00e3o j\u00eaje no pa\u00eds, Chico C\u00e9sar entrou com \u201cB\u00e9rad\u00earo\u201d, que ganhou um peso completamente diferente acompanhada pelos atabaques do o grupo percussivo liderado por Luizinho do J\u00eaje \u2013 que conta tamb\u00e9m com Kain\u00e3 do J\u00eaje e \u00cdcaro S\u00e1, do BaianaSystem. O paraibano batizou o espet\u00e1culo de \u201cAguidavivos\u201d, em refer\u00eancia aos 30 anos de lan\u00e7amento do \u00e1lbum \u201cAos Vivos\u201d, de 1995, que guiou boa parte do seu repert\u00f3rio. Em suas falas, Chico deixou claro que aquele encontro n\u00e3o era circunstancial: j\u00e1 existia na ancestralidade, e s\u00f3 foi materializado neste fim de semana.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93389\" aria-describedby=\"caption-attachment-93389\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93389\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chicocesar1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chicocesar1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chicocesar1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93389\" class=\"wp-caption-text\"><em>Chico C\u00e9sar \/ foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/blackrec.av\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@blackrec.av<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAlma N\u00e3o Tem Cor\u201d e \u201cD\u00favida Cruel\u201d, parceria com Itamar Assump\u00e7\u00e3o, prepararam o terreno para a entrada de M\u00e1rio L\u00facio, que \u00e9 parceiro de longa data de Chico C\u00e9sar \u2013 curiosamente, ambos ocuparam cargos p\u00fablicos administrativos; o brasileiro foi Secret\u00e1rio de Cultura da Para\u00edba; o cabo-verdiano foi Ministro da Cultura de seu pa\u00eds. Juntos, eles saudaram o continente africano com \u201cMama Africa\u201d. \u201c\u00c0 Primeira Vista\u201d hit do paraibano que ganhou tra\u00e7\u00e3o em Salvador, na voz de Daniela Mercury, veio na sequ\u00eancia \u2013 em paralelo, os percussionistas do Aguidavi do J\u00eaje deixaram o palco temporariamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, houve espa\u00e7o para can\u00e7\u00f5es autorais do cabo-verdiano, em formato mais econ\u00f4mico, apenas em voz e viol\u00e3o. \u201cM\u2019Afrika\u201d, interpolada com \u201cLambada de Serpente\u201d, de Djavan, e \u201cIlha de Santiago\u201d criaram um breve momento de contempla\u00e7\u00e3o, que foi quebrado de forma abrupta quando o Aguidavi do J\u00eaje voltou com for\u00e7a total em \u201cViol\u00e3o de Caba\u00e7a\u201d, uma de suas principais composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dali, o show voltou a transitar num terreno que \u00e9 pr\u00f3prio do Aguidavi do J\u00eaje. \u201cXir\u00ea\u201d evidenciou aquilo que define o grupo: um conjunto percussivo e um viol\u00e3o de timbre e fun\u00e7\u00e3o muito espec\u00edficos, um desenho sonoro que n\u00e3o se encontra em outro lugar e que se organiza fora de qualquer l\u00f3gica cartesiana. Os compassos fogem do habitual, os tempos se deslocam, os contratempos conduzem a m\u00fasica por caminhos irregulares e imprevis\u00edveis, criando um corpo r\u00edtmico \u00fanico, profundamente ritual\u00edstico. Entre batidas assim\u00e9tricas e vocaliza\u00e7\u00f5es que evocavam a mata, o territ\u00f3rio simb\u00f3lico de Ox\u00f3ssi, o grupo reafirmou uma est\u00e9tica pr\u00f3pria, constru\u00edda para existir nos seus pr\u00f3prios termos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93390\" aria-describedby=\"caption-attachment-93390\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93390\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chicocesar2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chicocesar2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chicocesar2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93390\" class=\"wp-caption-text\"><em>Chico C\u00e9sar e Mario Lucio \/ foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/blackrec.av\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@blackrec.av<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na reta final da apresenta\u00e7\u00e3o, a trupe baiana e o paraibano passaram a alternar can\u00e7\u00f5es, refor\u00e7ando a ideia de partilha que atravessou todo o espet\u00e1culo \u2013 e que foi ratificada com o retorno de M\u00e1rio L\u00facio ao palco em \u201cEstado de Poesia\u201d. O cabo-verdiano ainda contribuiu de forma virtuosa no viol\u00e3o em \u201cChico Melabengu\u00ea\u201d, uma das can\u00e7\u00f5es mais potentes do Aguidavi do J\u00eaje. O fechamento, por\u00e9m, ficou a cargo de Chico C\u00e9sar: \u201cDeus Me Proteja\u201d abriu caminho para o encerramento com \u201cPedrada\u201d, cuja levada e refr\u00e3o expl\u00edcito, conclamando fogo aos fascistas, ganharam peso adicional com os atabaques do Bogum e selaram, com for\u00e7a e coes\u00e3o, um domingo que terminava \u00e0 altura do percurso do festival.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo de quatro dias, o Giro Conecta deixou evidente que sua proposta ultrapassa a simples soma de shows. O festival se afirmou como um exerc\u00edcio cont\u00ednuo de escuta, partilha e deslocamento, promovendo reconhecimento m\u00fatuo entre culturas atravessadas por hist\u00f3rias comuns de coloniza\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia e reinven\u00e7\u00e3o. Nem todas as noites tiveram o mesmo impacto, nem todas as parcerias alcan\u00e7aram igual intensidade, mas o conjunto revelou algo pouco frequente no circuito de festivais: a escolha consciente de apostar no processo \u2013 e no sentido que emerge dele \u2013 em vez de recorrer a f\u00f3rmulas prontas ou se apoiar apenas no resultado imediato. Essa op\u00e7\u00e3o exigiu uma curadoria disposta a assumir riscos, qualidade rara em um cen\u00e1rio cada vez mais orientado pela previsibilidade. E, se a vida \u00e9 mesmo a arte do encontro, tal atitude exige flanar, aceitar eventuais desencontros e, sobretudo, estar aberto a saborear o que o caminho oferece.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93391\" aria-describedby=\"caption-attachment-93391\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93391\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/giro.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/giro.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/giro-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93391\" class=\"wp-caption-text\"><em> foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/blackrec.av\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@blackrec.av<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/nelsonoliveira_\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nelson Oliveira<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e fot\u00f3grafo residente em Salvador. \u00c9 diretor da\u00a0<a href=\"https:\/\/calciopedia.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calciop\u00e9dia<\/a>, foi correspondente de esportes do Terra na Bahia e colaborou com UOL, VICE e Trivela.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em sua edi\u00e7\u00e3o mais recente, o festival reuniu nomes consolidados e emergentes da m\u00fasica brasileira, como Chico C\u00e9sar, T\u00e1ssia Reis, Larissa Luz, Jota.P\u00ea, Aguidavi do J\u00eaje e Magary Lord,\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/20\/em-salvador-giro-conecta-demonstra-como-unir-o-sul-global-pela-musica-sem-forcar-encontros\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":79,"featured_media":93392,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4249],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93379"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93379"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93379\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":93394,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93379\/revisions\/93394"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93392"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93379"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93379"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93379"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}