{"id":93328,"date":"2026-01-15T02:56:29","date_gmt":"2026-01-15T05:56:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=93328"},"modified":"2026-02-15T23:57:14","modified_gmt":"2026-02-16T02:57:14","slug":"filipe-matzembacher-e-marcio-reolon-a-gente-queria-que-o-nosso-filme-ato-noturno-fosse-o-triunfo-do-desejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/15\/filipe-matzembacher-e-marcio-reolon-a-gente-queria-que-o-nosso-filme-ato-noturno-fosse-o-triunfo-do-desejo\/","title":{"rendered":"Filipe Matzembacher e Marcio Reolon: &#8220;A gente queria que o nosso filme (&#8220;Ato Noturno&#8221;) fosse o triunfo do desejo&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <\/strong><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_renanguerra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ator em busca de um papel importante que pode ser o ponto de virada de sua carreira. Um jovem pol\u00edtico construindo sua imagem visando ascender na capital ga\u00facha. Dois personagens que se conhecem atrav\u00e9s de um aplicativo de encontros. A qu\u00edmica sexual acaba bagun\u00e7ando &#8211; para o bem e para o mal &#8211; os planos de ambos, em um jogo em que tes\u00e3o e poder se mesclam com viol\u00eancia, medo e tens\u00e3o. Esse \u00e9 o ponto de partida de \u201cAto Noturno\u201d (2025), o mais novo filme dos diretores ga\u00fachos Marcio Reolon e Filipe Matzembacher. Conforme adiantado<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/10\/26\/49a-mostra-sp-ato-noturno-bagunca-os-valores-morais-em-um-thriller-erotico-pela-noite-de-porto-alegre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> em texto no Scream &amp; Yell<\/a>, \u201cAto Noturno\u201d bagun\u00e7a os valores morais em um thriller er\u00f3tico pela noite de Porto Alegre, trazendo um olhar queer e moderno para os thrillers cl\u00e1ssicos dos anos 90 &#8211; aqueles que eram sucessos nos fins de noite na televis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecidos por seus trabalhos em \u201cBeira-mar\u201d (2015) e \u201cTinta Bruta\u201d (2018) &#8211; filmes que j\u00e1 falavam de forma direta sobre sexo e relacionamentos gays -, Marcio Reolon e Filipe Matzembacher assumem em seu novo filme uma postura que expande seu universo est\u00e9tico: tudo em \u201cAto Noturno\u201d \u00e9 muito bem encenado, detalhado, com cores, luzes e jogos de c\u00e2mera que ajudam a criar essa am\u00e1lgama entre tes\u00e3o e tens\u00e3o. Protagonizado por Gabriel Faryas e Cirillo Luna, o filme tem uma outra personagem interessante: a pr\u00f3pria cidade de Porto Alegre, que \u00e9 filmada sob um olhar noturno, em que vielas, escadas e pra\u00e7as ganham novos tons &#8211; para quem conhece a cidade, \u00e9 poss\u00edvel identificar pontos como o Parque da Reden\u00e7\u00e3o, o Theatro S\u00e3o Pedro e a Pra\u00e7a da Matriz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado em 2025 no Festival de Berlim, \u201cAto Noturno\u201d estreia comercialmente depois de uma ampla carreira por festivais e mostras do mundo todo, incluindo uma passagem premiada pelo Festival do Rio, onde o filme saiu com os pr\u00eamios de Melhor Ator para Gabriel Faryas, Melhor Roteiro para Reolon e Matzembacher, Melhor Fotografia para Luciana Baseggio e o Pr\u00eamio F\u00e9lix de Melhor Filme &#8211; premia\u00e7\u00e3o dedicada a produ\u00e7\u00f5es LGBQTIAPN+. O filme chega agora aos cinemas brasileiros atrav\u00e9s da Sess\u00e3o Vitrine Petrobras, projeto pioneiro de distribui\u00e7\u00e3o coletiva de filmes brasileiros em salas de cinema comerciais, realizado pela distribuidora Vitrine Filmes e que conta com ingressos a pre\u00e7os reduzidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender mais sobre a produ\u00e7\u00e3o de \u201cAto Noturno\u201d, batemos um papo longo com Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, diretores que vivem entre a Alemanha e o Brasil. Em uma conversa on-line, falamos sobre o processo criativo do filme, suas refer\u00eancias e as trocas com o elenco do filme e com outros artistas, como os m\u00fasicos Thiago Pethit e Liana Padilha. Leia a entrevista na \u00edntegra abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"ATO NOTURNO | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ku0LOYVswsM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi esse processo de nascimento do filme? Porque a gente v\u00ea que h\u00e1 um intervalo de tempo entre \u201cTinta Bruta\u201d e \u201cAto Noturno\u201d, passamos por uma pandemia, todas essas coisas&#8230; qual foi o processo at\u00e9 o filme come\u00e7ar a ganhar vida?<\/strong><br \/>\nFilipe: \u201cAto Noturno\u201d surgiu acho que na sequ\u00eancia da pesquisa que a gente fez ali no \u201cTinta Bruta\u201d, um estudo nosso sobre a ideia do olhar, sobre o quanto o olhar do outro pode interferir em determinados corpos e na ideia de performance tamb\u00e9m; \u201cTinta Bruta\u201d j\u00e1 tem um personagem que performa de determinada forma na frente da c\u00e2mera da webcam e ele \u00e9 um outro personagem fora da c\u00e2mera. E essa foi uma din\u00e2mica que a gente se interessou bastante quando a gente estava realizando o filme. Aliado a isso teve um momento no processo de \u201cTinta Bruta\u201d que a gente percebeu um caminho que a gente poderia seguir, que \u00e9 o momento da sequ\u00eancia da escada\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: A gente foi percebendo uma vontade grande de trabalhar com cinema de g\u00eanero e come\u00e7amos a desenvolver essa ideia. Pensamos em trazer isso pra dentro da performance, pensamos na ideia desse personagem ser um ator como protagonista, j\u00e1 que no \u201cTinta Bruta\u201d, de certa forma, a gente tinha um ator tamb\u00e9m, era um performer er\u00f3tico, mas claro, a gente usava de outra maneira a performance em cena, mas a gente quis dessa vez traz\u00ea-lo para os palcos, porque eu e o Felipe \u00e9ramos atores antes de nos tornarmos diretores, e sigo atuando at\u00e9 hoje, ent\u00e3o a gente quis trabalhar com a profiss\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o de uma maneira mais concreta. Da\u00ed a gente pensou nessa ideia de um ator e um pol\u00edtico, pensando o pol\u00edtico como uma forma de ator, algu\u00e9m que tamb\u00e9m tem que performar profissionalmente em frente \u00e0s c\u00e2meras, tem que se comunicar com um p\u00fablico espec\u00edfico. De in\u00edcio a gente imaginou que esse filme poderia flertar com uma ideia de noir ou mesmo de um neo-noir, e a gente come\u00e7ou a fazer uma imers\u00e3o nesse g\u00eanero, mas da\u00ed a gente sentiu que tinha algo faltando. E quando a gente direcionou o nosso olhar mais para o suspense er\u00f3tico as coisas come\u00e7aram a se encaixar e fazer mais sentido para n\u00f3s. E, bom, eu e o Felipe, a gente cresceu assistindo esses suspenses er\u00f3ticos na TV, \u201cSupercine\u201d, tudo isso e a gente quis fazer um filme que, de alguma forma, dialogasse com esse tipo de cinema, mas, claro, atualizando-o para a nossa realidade, trazendo esse g\u00eanero para uma l\u00f3gica brasileira, queer, de 2025, algo que fizesse sentido para a gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: Houve um momento no set do \u201cTinta Bruta\u201d em que n\u00f3s est\u00e1vamos gravando a sequ\u00eancia perto do cl\u00edmax do filme, quando ele acaba batendo com a cabe\u00e7a de um outro personagem contra uma grade, uma cena bem importante, e foi muito divertido de gravar aquelas cenas. E me lembro da sensa\u00e7\u00e3o da gente se olhando assim \u201cnossa, foi t\u00e3o legal essa di\u00e1ria; nos nossos pr\u00f3ximos filmes, a gente tem que come\u00e7ar a brincar com essa tens\u00e3o, com essa constru\u00e7\u00e3o do \u2018ser\u00e1 que algo vai acontecer ou n\u00e3o\u2019\u201d. Ent\u00e3o acho que a gente j\u00e1 come\u00e7ou a plantar ali essa ideia do que viria a ser o \u201cAto Noturno\u201d. A ideia (mesmo) do \u201cAto Noturno\u201d surgiu naqueles dois anos seguintes, um ano seguinte, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: Voc\u00ea mencionou esse hiato entre os dois, Renan, e realmente aconteceu por diferentes motivos. A gente teve o governo Bolsonaro, que acho que foi o principal dos motivos, na verdade, pois congelou praticamente os fundos de cultura por anos, e aliado a isso tamb\u00e9m a pandemia, ent\u00e3o essas duas coisas, uma se somando \u00e0 outra, culminaram nessa pausa. Mas a gente tentou usar isso da maneira mais positiva poss\u00edvel, n\u00e3o s\u00f3 para esse filme, pra gente poder trabalhar muito nele, mas j\u00e1 pra conseguir desenvolver futuros projetos, tanto que agora a gente j\u00e1 est\u00e1 come\u00e7ando a trabalhar neles, j\u00e1 alinhando eles, para justamente n\u00e3o repetir uma pausa t\u00e3o prolongada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas falaram um pouco dessa perspectiva do cinema de g\u00eanero e dessas coisas que foram influ\u00eancias. Eu queria entender como foi esse trabalho de construir um filme em que se enxerga esses s\u00edmbolos do cinema de g\u00eanero e muito dessa coisa meio filme de thriller er\u00f3tico anos 90, mas ele ainda tem uma cara muito atual, muito moderna. Como foi esse processo? Imagino que seja um desafio tamb\u00e9m fugir dos caminhos f\u00e1ceis que o g\u00eanero pode entregar.<\/strong><br \/>\nFilipe: Acho que existe uma diferen\u00e7a entre beber um pouco do g\u00eanero, de algum tipo de cinema, ou s\u00f3 reproduzir ele, tentar reproduzir ele. A gente focou muito em tentar ser honesto ao m\u00e1ximo aos nossos desejos quando a gente estava realizando. Esse filme \u00e9 o tipo de cinema que a gente ama, mas tamb\u00e9m a gente ama coisas espec\u00edficas dentro do cinema de forma geral, ent\u00e3o acho que a gente tem um olhar bastante humanizado para os personagens, que \u00e9 uma coisa que, talvez, parte daquele cinema n\u00e3o fa\u00e7a tamb\u00e9m. Ent\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a roteiro, por exemplo, esse \u00e9 um aspecto e eu acho que esse espa\u00e7o do ator, do personagem em destaque dentro do filme \u00e9 um elemento que a gente sempre p\u00f4s muito, muito, como essencial na nossa trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: \u00c9, acho que esse suspense er\u00f3tico desse per\u00edodo, pelo menos os filmes que acabaram ganhando mais proje\u00e7\u00e3o, mais destaque, tamb\u00e9m tendem a colocar o desejo heterossexual como praticamente o \u00fanico caminho poss\u00edvel. E aqui a gente coloca justamente a l\u00f3gica, o padr\u00e3o heterossexual, essas estruturas heterossexuais normativas como for\u00e7as antagonistas. E uma coisa desse cinema que a gente foi percebendo durante a nossa pesquisa era como ele, muitas vezes, punia o desejo no final. Os personagens acabavam, a ru\u00edna deles acabava sendo justamente por causa do desejo. E a gente queria o contr\u00e1rio, a gente queria que o nosso filme fosse o triunfo do desejo. Que fosse uma celebra\u00e7\u00e3o disso tudo. Que no final os personagens justamente pudessem se empoderar e se afirmar atrav\u00e9s dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: E negar todo o resto. Com um movimento dr\u00e1stico. Mas acho que foi um processo muito legal, foi um processo realmente de&#8230; meses antes da filmagem, quando a gente estava escrevendo, revisitar esse cinema desde Hitchcock at\u00e9 o noir dos anos 30 e 40, passando por [Brian] De Palma, Paul Verhoeven, passando por cinema brasileiro tamb\u00e9m, que tamb\u00e9m tem um pouco disso, mesmo \u201cRep\u00fablica de Assassinos\u201d (1979), do Miguel Faria Jr., mas voltando para esses olhares nossos que acho que s\u00e3o caros pra gente. Esse carinho que a gente tem com os personagens e eu acho que \u00e9 esse destaque para a ideia de atua\u00e7\u00e3o de personagem mesmo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93330\" aria-describedby=\"caption-attachment-93330\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93330\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_11-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_11-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_11-copiar-300x126.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93330\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Ato Nourno&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas falaram um pouco dessa quest\u00e3o do desejo e da constru\u00e7\u00e3o dos personagens. \u00c9 interessante que em \u201cAto Noturno\u201d esses personagens s\u00e3o d\u00fabios e s\u00e3o complexos. Acho que \u00e0s vezes as pessoas v\u00e3o assistir ao filme esperando ter uma leitura como se fosse o ator bonzinho de esquerda e o pol\u00edtico mal de direita. E esses personagens se bagun\u00e7am e os desejos deles est\u00e3o acima dessas outras personagens que eles constroem para fora desse padr\u00e3o dos dois. Como foi desenhar esses personagens para que eles se amarrassem de uma forma t\u00e3o complexa que as pessoas saiam da sala de cinema ainda confusas tentando entender. Isso \u00e9 uma das gra\u00e7as do filme&#8230;<\/strong><br \/>\nFilipe: Acho que voc\u00ea coloca um ponto que era um caminho poss\u00edvel cair nessa binaridade mesmo, nessa simplifica\u00e7\u00e3o, s\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 o tipo de cinema que nos interessa e acho que o contradit\u00f3rio e o complexo s\u00e3o sempre mais recompensadores para o espectador. Talvez parte dos espectadores at\u00e9 saiam um pouco frustrados porque muitas vezes o cinema contempor\u00e2neo siga refor\u00e7ando cada vez mais isso. Inclusive, vou dizer que o cinema de d\u00e9cadas atr\u00e1s era mais desafiador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: Controverso, talvez, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: Controverso, essa \u00e9 a perspectiva. Hoje o cinema tem sido cada vez mais limitador, apaziguador, no sentido\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: E em l\u00f3gicas muito estruturadas, de bem versus mal, de correto e errado, de uma busca por ter her\u00f3is ali representados e que tudo bem, eu acho que s\u00e3o buscas v\u00e1lidas, mas que a gente n\u00e3o se interessa muito. \u00c0s vezes a gente acaba achando at\u00e9 um porre. Quando a gente sente que o nosso olhar \u00e9 muito direcionado pra algo, \u00e9 muito&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: Did\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: Did\u00e1tico, exatamente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: E eu acho que \u201cAto Noturno\u201d \u00e9 um filme tanto sobre desejo quanto sobre n\u00e3o tentar controlar o desejo. A gente ter uma vis\u00e3o, assim, limitadora seria contradit\u00f3rio no sentido negativo. Ent\u00e3o o que a gente fez foi tentar realmente, ao estar construindo esses dois personagens, principalmente, mas eu diria que at\u00e9 se aplica para os personagens coadjuvantes tamb\u00e9m, para o Camilo e para o F\u00e1bio, tentar pensar tamb\u00e9m de onde esses personagens v\u00eam, por que eles est\u00e3o daquela forma, de que eles est\u00e3o sendo colocados a performar aquele personagem espec\u00edfico para atingir esse sucesso. E eu acho que \u00e9 da\u00ed que tamb\u00e9m veio um pouco da gra\u00e7a. Claro, \u00e9 muito legal ver que os atores abra\u00e7am isso. Era muito legal, por exemplo, ver o Henrique Barreira defendendo o F\u00e1bio de um jeito muito apaixonado. E sendo que o F\u00e1bio \u00e9 um personagem com bilh\u00f5es de defeitos, faz um monte de coisas absurdas durante o filme, mas ele estava ali defendendo de um jeito muito apaixonado. Isso \u00e9 muito legal. Pra gente, foi uma parte principal da escrita de roteiro, criar esses personagens que fossem complexos, contradit\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: Sim, eu, pessoalmente, acho sempre muito legal quando escuto discuss\u00f5es sobre o filme, de pessoas dizendo \u201cah, eu acho que tal personagem estava com raz\u00e3o naquela situa\u00e7\u00e3o\u201d, \u201ceu acho que o outro completamente e tal\u201d, e para mim isso \u00e9 uma das coisas mais bacanas, de cada espectador poder fazer sua leitura e tamb\u00e9m tra\u00e7ar suas afinidades, que tem a ver com o filme, mas tem a ver tamb\u00e9m consigo mesmo. Para mim, parte da gra\u00e7a surge na conex\u00e3o que cada um faz e a leitura que cada um faz sobre o filme e sobre cada personagem. Ao inv\u00e9s da gente estabelecer algo que a gente espera necessariamente, que as pessoas correspondam.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93331\" aria-describedby=\"caption-attachment-93331\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93331\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_6-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_6-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_6-copiar-300x126.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93331\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Ato Noturno&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, voc\u00eas falaram um pouco disso, acho que tem uma perspectiva de que, nos \u00faltimos anos, parece que o cinema precisa sempre ter uma mensagem muito clara e o pior \u00e9 que, muitas vezes, essa mensagem \u00e9 um tanto quanto moralizante. E \u201cAto Noturno\u201d \u00e9 completamente ao contr\u00e1rio disso, ele cria esse cen\u00e1rio que \u00e9 completamente complexo e d\u00fabio. Como foi o trabalho com os atores? Como voc\u00eas conseguirem chegar nesse ponto em que as atua\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m fazem esse jogo com o espectador, porque eu acho que os personagens, em alguns momentos, eles nos seduzem, em outros eles nos repelem.<\/strong><br \/>\nFilipe: Lembro de comentarmos quando est\u00e1vamos chegando perto de um tratamento mais avan\u00e7ado do roteiro, que a gente estava fazendo dois grandes pecados com esse filme: o primeiro era os personagens mergulhando no desejo para o cinema contempor\u00e2neo, isso j\u00e1 \u00e9 um elemento de choque; e o segundo \u00e9 que eles mergulham no desejo rejeitando a ideia de sucesso. A ideia de conquista neoliberal e tal, que tamb\u00e9m, mesmo no cinema progressista, parece que \u00e9 a resposta. E da\u00ed, a gente falou, s\u00e3o dois pecados que a gente vai abra\u00e7ar e sabe que as pessoas v\u00e3o se incomodar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: E est\u00e3o se incomodando e eu acho maravilhoso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: Mas \u00e9 muito engra\u00e7ado. Quando a gente olhou um desses tratamentos mais avan\u00e7ados, a gente olhou e falou: \u201cT\u00e1, a gente est\u00e1 indo para essa batalha e ser\u00e1 bem curioso ver como as pessoas v\u00e3o receber\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: Mas o processo com o elenco \u00e9 um dos elementos centrais do nosso cinema, acho que desde sempre. Desde que a gente estava na faculdade de cinema, a gente sempre tinha o olhar muito atento a isso, pelo nosso passado na atua\u00e7\u00e3o. E o que a gente fez aqui foi usar os atores centrais, eles t\u00eam passados, trajet\u00f3rias bastante distintas: o Gabi, que faz o Matias, ele estava se formando na faculdade de teatro na Federal do Rio Grande do Sul, mas ele praticamente n\u00e3o tinha experi\u00eancia com c\u00e2mera, ent\u00e3o a gente fez, eu, ele e o Filipe, um per\u00edodo razoavelmente longo de ensaios, de encontros semanais, mais de quatro meses, mais ou menos, para fazer um treinamento, trazer ele tamb\u00e9m para dentro, j\u00e1 que ele \u00e9 protagonista praticamente em todas as cenas. Ele conseguia absorver muito a linguagem que a gente estava pensando para esse filme, j\u00e1 que os outros atores ali centrais n\u00e3o s\u00e3o do Rio Grande do Sul, ent\u00e3o eles chegariam mais tarde no processo. Para que eles, ao chegarem, conseguissem j\u00e1 ter ali uma refer\u00eancia para onde mirar, para onde se direcionar e a\u00ed, enfim, eles chegaram acho que uns 10 dias antes da gente come\u00e7ar a gravar e a gente fez um per\u00edodo bastante intenso de ensaios. E a gente busca sempre ter um processo de muita horizontalidade com os nossos atores, a gente sabe muito bem o que a gente quer, o que a gente est\u00e1 buscando para o filme, mas como chegar nisso. Acho que essa \u00e9 uma parte de um processo colaborativo com o elenco, de muita conversa, muita discuss\u00e3o, cada um propondo coisas, a gente vai tentando juntos, desenhando o trajeto&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 interessante isso que voc\u00ea falou do processo com o Gabriel, porque pra uma das coisas mais interessantes do filme \u00e9 como ele interage com a c\u00e2mera. Lembro daquela cena espec\u00edfica em que ele entra no \u00f4nibus e a c\u00e2mera est\u00e1 nele de uma forma que remete aquilo que eu falei antes, de que o personagem nos seduz pra dentro do filme. Ent\u00e3o \u00e9 interessante descobrir esse processo que est\u00e1 por tr\u00e1s tamb\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o porque no final isso \u00e9 muito bonito de se ver. Enfim, falando de beleza pl\u00e1stica, eu queria falar um pouco sobre a fotografia e as cores do filme, que eu acho que s\u00e3o algo importante pra setar tamb\u00e9m um pouco esse clima que a gente est\u00e1 falando aqui, de tens\u00e3o. Como foi esse trabalho ao lado da Luciana Baseggio? Como funcionou esse processo de troca para chegar nessa estrutura est\u00e9tica?<\/strong><br \/>\nFilipe: Acho que tem um elemento misturando o roteiro e fotografia que foi bem importante. Num dos tratamentos antigos do roteiro, o filme come\u00e7ava j\u00e1 com uma morte, j\u00e1 come\u00e7ava assim, bem mais cl\u00e1ssico nesse sentido desse g\u00eanero relacionado \u00e0 suspense. E a gente decidiu abrir m\u00e3o disso, n\u00e3o fazia muito sentido para a narrativa, era melhor uma quest\u00e3o gradual, mas a gente sabia que a gente tinha que contar o g\u00eanero atrav\u00e9s da imagem do filme &#8211; da imagem e do som, porque a trilha ajuda muito nesse sentido tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, a gente fez realmente uma conversa bem profunda com a Lu pra pensar sobre essa noite que seduz e tamb\u00e9m soa perigosa. Acho que esse \u00e9 um dos grandes conceitos que a gente pensava sobre essa imagem. Da Lu e da Manu. Manu [Manuela Falc\u00e3o] \u00e9 diretora de arte tamb\u00e9m. E pensar tamb\u00e9m no filme como um todo, como um eterno palco de teatro. Ent\u00e3o, mesmo na rua, as luzes dos postes pareceriam holofotes em cima de um palco de teatro, porque \u00e9 um personagem que quer estar no centro, ele quer estar sendo olhado, ou quase sendo olhado, e o filme dialoga com essa ideia do voyeur, do desejo de estar ali no centro ou n\u00e3o. Ent\u00e3o, isso foi um elemento muito importante na constru\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o a luz que a Lu trazia brincava com esse escuro, com esse mist\u00e9rio, mas com essa luz tamb\u00e9m um pouco mais dura que ia mostrar algu\u00e9m chegando no centro, buscando esse destaque enquanto a Manu, com a dire\u00e7\u00e3o de arte, trazia texturas, como a da cortina de teatro para o apartamento deles ou para v\u00e1rios outros momentos do filme, que talvez n\u00e3o fosse t\u00e3o \u00f3bvio, mas a gente ficou brincando com esse aspecto o tempo todo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: A palavra \u2018brincadeira\u2019 resume muito a forma como a gente pensou esse filme. Na verdade, com certeza nesses dois n\u00facleos; mas acho que em todo ele, desde o roteiro, a dire\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o que a gente falou agora h\u00e1 pouco, de tudo ser muito perform\u00e1tico. Eu acho que nos nossos filmes anteriores, talvez a gente fosse um pouco mais apegado a uma ideia de realismo e agora com esse filme a gente quis se distanciar disso e a gente quis realmente fazer esse cinema que \u00e9 mais perform\u00e1tico, que brinca com refer\u00eancias, com tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: Brinca um pouco mais com os elementos cinematogr\u00e1ficos, nesse sentido. Esse era um tes\u00e3o do set, sabe? Quando a gente, por exemplo, ia realizar um zoom, a gente se olhava assim: \u201cCara, que incr\u00edvel isso\u201d! Cada take que rolava o zoom, a gente se olhava e era uma felicidade muito grande pra toda equipe, era muito engra\u00e7ado. Tu v\u00ea que isso afeta as pessoas de um jeito muito curioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: Sim! Nada ali era uma vontade nossa de emular uma realidade, mas sim construir o nosso universo, a nossa realidade, pra falar de temas reais. Isso pra gente era algo importante, que as pessoas se divertissem assistindo ao filme, mas sa\u00edssem da sala de cinema com aqueles temas, aqueles t\u00f3picos reverberando na cabe\u00e7a para poder falar de coisas s\u00e9rias atrav\u00e9s de uma perspectiva de leveza e acho que essa era a nossa meta.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93333\" aria-describedby=\"caption-attachment-93333\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93333\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_9-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"858\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_9-copiar.jpg 2048w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_9-copiar-300x126.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ato-Noturno_Avante-Films_Vulcana-Cinema_9-copiar-1536x644.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93333\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Ato Noturno&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Engra\u00e7ado voc\u00eas falarem isso porque assisti ao filme na Mostra de S\u00e3o Paulo junto com outros amigos e quando o cr\u00e9dito subiu a primeira coisa que o meu amigo virou e falou foi \u201cque coisa boa assistir cinema com cara de cinema, sem medo das cores, do zoom e da est\u00e9tica\u201d e eu acho que essa est\u00e9tica \u00e9 muito forte, e acho que ela tamb\u00e9m dialoga com um hist\u00f3rico do cinema queer, de criar coisas diferentes, de criar uma coisa que te seduz tamb\u00e9m por esse jogo de beleza. E voc\u00eas falaram tamb\u00e9m da trilha sonora, e ela \u00e9 algo importante tamb\u00e9m para criar esse clima de tens\u00e3o e de tes\u00e3o tamb\u00e9m dentro do filme. Falem um pouco como foi esse processo junto com o Thiago Pethit, o Charles Tixier e o Arthur Decloedt.<\/strong><br \/>\nFilipe: Foi muito legal, foi um dos momentos tamb\u00e9m, eu acho, mais recompensadores de todo esse processo, porque at\u00e9 ent\u00e3o a gente nunca tinha trabalhado com um filme com tanta trilha. M\u00fasicas sempre foram muito importantes nos nossos filmes anteriores, mas eram m\u00fasicas normalmente dieg\u00e9ticas e era uma cena em que o filme quase parava pra gente ter esse momento musical, mas que eram tamb\u00e9m pontuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: Ou quando tinha trilha composta ela entrava quase com uma l\u00f3gica de uma trilha concreta ou, \u00e0s vezes, n\u00e3o chegava a ser invis\u00edvel, mas, enfim, ela nunca era t\u00e3o presente assim. E nesse filme tem cenas que ela entra assim, lutando pelo protagonismo da cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: Acho que isso \u00e9 muito legal e \u00e9 uma coisa muito fant\u00e1stica, o Thiago (Pethit), ele \u00e9 muito cin\u00e9filo, e ele compartilha uma cinefilia muito pr\u00f3xima da nossa, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: A gente \u00e9 amigos h\u00e1 muitos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: N\u00f3s dirigimos um videoclipe do \u00faltimo \u00e1lbum dele e ali a troca para aquele videoclipe que a gente gravou em 2018, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: In\u00edcio de 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: \u00c9 verdade, Carnaval de 2019. E as refer\u00eancias eram basicamente s\u00f3 filmes noir, filmes de suspense, tinha um monte de Hitchcock. Lembro de a gente discutindo um monte de refer\u00eancias nesse sentido. Ent\u00e3o, quando a gente viu o corte, a gente discutiu sobre o filme, ele j\u00e1 come\u00e7ou a pensar um pouco nessa perspectiva de brincar com esse g\u00eanero, mas tamb\u00e9m trazer elementos que s\u00e3o de uma sonoridade brasileira. Ent\u00e3o, eu acho que a gente conseguiu realmente ter um escopo de trilhas que s\u00e3o bem presentes e elas s\u00e3o bem variadas tamb\u00e9m. O filme tem seus temas fortes, que ficam um pouco na cabe\u00e7a depois que voc\u00ea sai da sess\u00e3o, mas tem momentos muito distintos. Tem o momento que ele vai para a pega\u00e7\u00e3o na pra\u00e7a pela primeira vez e parece que voc\u00ea est\u00e1 entrando num parque, numa floresta grega, tem umas flautas, uma harpa e daqui a pouco tamb\u00e9m tem um momento que eles est\u00e3o indo para o parque \u00e0 noite pr\u00f3ximo ao final, com a narra\u00e7\u00e3o final, que tem uma melancolia e quase que vai para o ir\u00f4nico, mas n\u00e3o vai. Foi um exerc\u00edcio muito interessante, acho que nos mudou um pouco como realizador, acho que a gente n\u00e3o quer mais voltar para aquele cinema que a gente fazia antes, especialmente nessa quest\u00e3o tamb\u00e9m da trilha, foi um elemento que a gente adorou brincar com isso<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas citaram o clipe do Thiago Pethit &#8211; \u201cMe Destr\u00f3i\u201d &#8211; e ele tem participa\u00e7\u00e3o da Liana Padilha. E nos cr\u00e9ditos finais de \u201cAto Noturno\u201d, voc\u00eas dedicam o filme \u00e0 mem\u00f3ria dela. Queria que voc\u00eas falassem um pouco sobre a import\u00e2ncia que ela teve pra voc\u00eas, eu sempre falo que todo mundo que de algum modo foi tocado pela Liana Padilha tem alguma hist\u00f3ria boa pra contar sobre ela, ent\u00e3o queria que voc\u00eas falassem um pouco a import\u00e2ncia que ela teve no trabalho de voc\u00eas e na amizade de voc\u00eas.<\/strong><br \/>\nMarcio: A Liana \u00e9 uma pessoa important\u00edssima na nossa vida, assim, a gente se conheceu h\u00e1 muitos anos&#8230; Acho que tu tem uma hist\u00f3ria mais antiga ainda\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: Lembro que quando eu estava com o meu primeiro namorado, fui contar pra umas amigas \u201ct\u00f4 namorando um cara e tal\u201d, super com medo, combinei assim \u201cvamos nessa balada juntos, eu vou contar e meu namorado vai chegar logo depois\u201d. Ent\u00e3o foi aquele momento, super nervoso, super novinho e estava tendo um show do NoPorn. Eu conhecia um pouco, acho que eu conhecia s\u00f3 \u201cBaile de Peruas\u201d na \u00e9poca. E eu vi o show e fiquei hipnotizado. Eles terminaram logo depois, entraram num hiato do NoPorn, mas aquilo me marcou muito, ent\u00e3o acho que faz parte realmente da minha identidade, de quem eu sou, de uma maneira muito forte. E quando a gente estava escrevendo \u201cBeira-Mar\u201d, a gente sabia que a m\u00fasica ali no meio do filme, quando os meninos dan\u00e7am, seria \u201cXingu\u201d. E da\u00ed a gente conversou com a Liana e com o Luca [Lauri] e eles falaram: \u201cPodem usar\u201d. E da\u00ed a gente teve uma rela\u00e7\u00e3o muito engra\u00e7ada, porque o \u201cBeira-Mar\u201d fez um p\u00fablico bem legal, as pessoas iam muito ao cinema e depois quando o filme ficou online, as pessoas viam muito. E da\u00ed as pessoas come\u00e7aram a mandar muita mensagem pra eles querendo que eles voltassem a fazer shows. Mais tarde a Liana falou: \u201cEu voltei com o NoPorn por causa do \u2018Beira-Mar\u2019\u201d! E a gente come\u00e7ou a falar que a gente voltou com o No Porn!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: E desde esse momento da feitura do \u201cBeira-Mar\u201d a gente come\u00e7ou a se aproximar muito e a ficar muito amigos. Lembro na primeira sess\u00e3o do filme em S\u00e3o Paulo, eles fizeram um show na festa do filme e a gente come\u00e7ou a sempre se encontrar e criar realmente um la\u00e7o muito, muito forte. Depois quando a gente fez o \u201cTinta Bruta\u201d, a gente queria usar \u201cCavalo\u201d e eles inclusive mudaram algumas coisas na batida da m\u00fasica, que eles n\u00e3o tinham lan\u00e7ado ainda, pra fazer mais sentido com a cena no filme. Enfim, eles mandavam pra gente sempre o \u00e1lbum deles antes de estar finalizado, pra gente dar opini\u00e3o. A gente realmente criou uma troca, uma parceria, uma amizade art\u00edstica e afetiva muito grande. E a gente foi muito abalado pela partida super prematura dela e eu acho que nesse filme, nosso primeiro filme em muito tempo, que n\u00e3o teve participa\u00e7\u00e3o deles, mas a Liana est\u00e1 presente na gente, em quem a gente \u00e9, e ela segue presente no nosso trabalho. A gente sempre falava um pro outro como a arte que a gente faz e a arte que ela fazia dialogavam muito e eram muito conectadas. Acho que tinha essa coisa da melancolia, mas da euforia, dessas puls\u00f5es de vida e morte, tudo isso, e a gente acho que se via muito um no outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: Tem o \u00faltimo \u00e1lbum dela que come\u00e7a falando \u201co oposto da morte \u00e9 o sexo\u201d, e eu acho isso fant\u00e1stico &#8211; acho que \u00e9 a segunda m\u00fasica do \u00e1lbum [faixa \u201cContra Dan\u00e7a\u201d, do disco hom\u00f4nimo, de 2022].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio: \u00c9 basicamente como o nosso filme acaba: \u201co oposto da morte \u00e9 o sexo\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_93332\" aria-describedby=\"caption-attachment-93332\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-93332 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Still-2024-12-12-185149_1.5.9.T@AvanteFilms_VulcanaCinema-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"858\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Still-2024-12-12-185149_1.5.9.T@AvanteFilms_VulcanaCinema-copiar.jpg 2048w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Still-2024-12-12-185149_1.5.9.T@AvanteFilms_VulcanaCinema-copiar-300x126.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Still-2024-12-12-185149_1.5.9.T@AvanteFilms_VulcanaCinema-copiar-1536x644.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93332\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Ato Noturno&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando a falar do \u201cAto Noturno\u201d, voc\u00eas fizeram uma boa carreira com ele em festivais e o filme est\u00e1 chegando aos cinemas em janeiro. Qual \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de poder ter circulado bastante com o filme? Como a gente falou aqui antes, \u00e9 um filme ousado que tensiona v\u00e1rias coisas e que coloca o sexo de uma forma que n\u00e3o \u00e9 culpabilizada na tela. Qual a expectativa de voc\u00eas para o filme chegar ao p\u00fablico? Como est\u00e1 essa ansiedade?<\/strong><br \/>\nMarcio: Ent\u00e3o, o filme estreou no Festival de Berlim, mundialmente, em fevereiro. E da\u00ed a gente percorreu muitos pa\u00edses apresentando ele. A gente chegou no Brasil em outubro, no Festival do Rio. Foi uma experi\u00eancia super legal. O filme saiu com quatro pr\u00eamios do festival. A gente estava muito ansioso para como seria a recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico no Brasil. Porque, enfim, a gente faz cinema brasileiro e pra gente, esse di\u00e1logo com o p\u00fablico brasileiro no final \u00e9 o que mais importa. E foi muito bonito, mesmo, a recep\u00e7\u00e3o das pessoas e depois na Mostra de S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m, a gente teve trocas muito legais. E \u00e9 interessante exibir esse filme em tantos pa\u00edses, a gente v\u00ea como ele \u00e9 um filme que eu acho que afeta as pessoas e que n\u00e3o quer dizer que todo mundo consiga digerir bem, eu acho que tem pessoas que justamente se incomodam, com o desejo, com o sexo, com essas coisas na tela, ou \u00e0s vezes mesmo com uma proposta de cinema que n\u00e3o se ad\u00e9que tanto \u00e0 expectativa de um cinema realista. E eu acho que tudo bem, acho legal isso, eu acho que quando o filme gera esse tipo de debate, esse tipo de rea\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma qualidade. Mas a gente viu que no Brasil tem uma ades\u00e3o muito grande \u00e0s ideias que a gente est\u00e1 propondo ali, ao debate que a gente est\u00e1 fazendo. O p\u00fablico brasileiro conseguiu, em uma boa parte, absorver muito bem, compreender muito bem o humor do filme, o tempo do filme, as quest\u00f5es pol\u00edticas do filme, essa l\u00f3gica um pouco mais brincando de cinema, como voc\u00ea colocou, falando de cinema, eu acho que isso tudo est\u00e1 ali e est\u00e1 de uma maneira que eu acho que dialoga com o Brasil. A gente fez esse filme olhando pro nosso pa\u00eds, sobre o nosso pa\u00eds. Ent\u00e3o, \u00e9 muito legal quando a gente v\u00ea o retorno das pessoas do nosso pa\u00eds sendo positivas. Ou, se n\u00e3o forem positivas tamb\u00e9m, mas n\u00e3o sendo indiferentes, eu acho que isso \u00e9 a chave para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filipe: Eu acho que isso \u00e9 um ponto que foi muito legal com essa circula\u00e7\u00e3o t\u00e3o intensa em festivais, o filme foi para p\u00fablicos muito distintos. Lembro que h\u00e1 tr\u00eas meses, quatro meses atr\u00e1s, ele foi selecionado para o Fantastic Fest, que \u00e9 o maior festival de cinema fant\u00e1stico e de g\u00eanero do continente americano inteiro. E da\u00ed eu pensei, \u201cnossa, mas o filme, que curioso\u201d &#8211; no Texas ainda, em Austin. E da\u00ed eu cheguei curioso, \u201ccomo \u00e9 que esse filme vai bater para essas pessoas l\u00e1? Porque n\u00e3o \u00e9 um festival queer, \u00e9 um festival em que as pessoas est\u00e3o vendo, sei l\u00e1, o novo filme de terror da A24\u201d E do nada vem o \u201cAto Noturno\u201d. E a recep\u00e7\u00e3o foi muito legal. Parece que \u00e9 um filme que, tamb\u00e9m por estar dialogando com diversos universos diferentes, parece que ele tamb\u00e9m oferece isso para p\u00fablicos diferentes nesse sentido. Tem gente que se comunica melhor com essa quest\u00e3o pol\u00edtica, com essa quest\u00e3o est\u00e9tica, com esse referencial cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra fechar, voc\u00eas falaram no in\u00edcio que j\u00e1 est\u00e3o pensando e trabalhando em outros projetos, d eu queria saber se voc\u00eas podem adiantar alguma coisa, o que a gente pode esperar depois<\/strong>?<br \/>\nMarcio: Podemos! A gente est\u00e1 desenvolvendo dois projetos em paralelo. Um deles a gente espera filmar em breve, provavelmente no Rio Grande do Sul, um faroeste, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma l\u00f3gica semelhante ao que a gente fez agora no \u201cAto Noturno\u201d, a gente traz para a nossa realidade esse g\u00eanero e contemporaniza ele, enfim, para poder debater quest\u00f5es que s\u00e3o caras para n\u00f3s. E o outro \u00e9 um filme de horror, um filme de vampiros e que da\u00ed eu acho que talvez ele seria logo na sequ\u00eancia. Pode ser que o horror passe na frente antes, vamos ver! Mas por enquanto acho que o planejamento \u00e9 esse, mas a gente quer muito poder filmar e ter os dois finalizados em um prazo de quatro anos, se tudo der certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/15\/tres-perguntas-thiago-pethit-fala-sobre-ato-noturno-sua-primeira-trilha-sonora-original-para-cinema\/\"><em>Thiago Pethit fala sobre \u201cAto Noturno\u201d, sua primeira trilha sonora original para cinema<\/em><\/a><\/span><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/atonoturno1.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Marcio Reolon e Filipe Matzembacher falam sobre \u201cAto Noturno\u201d, thriller er\u00f3tico gravado na noite de Porto Alegre \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/15\/filipe-matzembacher-e-marcio-reolon-a-gente-queria-que-o-nosso-filme-ato-noturno-fosse-o-triunfo-do-desejo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":93329,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7959,7958],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93328"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93328"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93328\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":93342,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93328\/revisions\/93342"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93329"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93328"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93328"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93328"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}