{"id":93230,"date":"2026-01-01T00:04:17","date_gmt":"2026-01-01T03:04:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=93230"},"modified":"2026-01-26T01:43:58","modified_gmt":"2026-01-26T04:43:58","slug":"a-entrevista-ping-pong-e-para-mim-o-mais-proximo-da-entrevista-real-diz-marcelo-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/01\/a-entrevista-ping-pong-e-para-mim-o-mais-proximo-da-entrevista-real-diz-marcelo-costa\/","title":{"rendered":"\u201cA entrevista ping-pong \u00e9 o mais pr\u00f3ximo da entrevista real\u201d, afirma Marcelo Costa"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2028Um dos site de Cultura Pop mais completos da internet brasileira, o Scream &amp; Yell est\u00e1 completando, neste final de ano, 25 anos de exist\u00eancia. Para comemorar, uma sele\u00e7\u00e3o de grandes entrevistas publicadas no portal comp\u00f5e o livro &#8220;<a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/eu-nem-queria-dar-entrevista-o-melhor-do-scream-yell-vol-1-d59kd\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eu nem queria dar entrevista: o melhor do Scream &amp; Yell, vol. 1<\/a>&#8221; (Editora Barbante), organizado pelo seu editor, Marcelo Costa, carinhosamente conhecido por todos como apenas Mac. &#8220;A proposta de lan\u00e7ar o livro veio do Alessandro Andreola, da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/editorabarbante\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Editora Barbante<\/a>, que eu j\u00e1 conhecia e adorava essa \u00e1rea de Cultura Pop que eles t\u00eam na s\u00e9rie de livros chamada <a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/soundvision1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sound + Vision<\/a>&#8220;, relembra Mac.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos her\u00f3is do jornalismo cultural e independente no pa\u00eds, Marcelo conversou com o Jornal A TARDE, de Salvador, sobre esse lan\u00e7amento, e abordou, tamb\u00e9m, a hist\u00f3ria do site, falou sobre a evolu\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo independente neste 1\/4 de s\u00e9culo desde sua cria\u00e7\u00e3o ainda em um formato impresso, o popular fanzine, sua migra\u00e7\u00e3o on line, sobre uma proposta de aprofundamento de pautas com longos papos publicados e sobre, claro, a sele\u00e7\u00e3o especial de nomes reunidos nesta primeira colet\u00e2nea de entrevistas. O time de peso traz figuras como Fernanda Young, Richard Hell, Pitty, Cowboy Junkies, Marina Lima, Mike Watt, Pato Fu, Selma Uamusse, Guilherme Arantes, Alain Johannes, Frank Jorge, Russo Passapusso e Antonio Carlos &amp; Jocafi, Jello Biafra, Jair Naves, Fito Paez e Steve Albini. Confira o papo!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93087 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Scream-Yell-3-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Scream-Yell-3-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Scream-Yell-3-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 25 anos, no final do ano 2000, o Scream &amp; Yell passava de sua vers\u00e3o impressa para a internet em um mundo virtual bem diferente do de hoje. Como foi esse processo?\u2028<\/strong><br \/>\nNo final dos anos 1990, eu ainda morava e trabalhava em Taubat\u00e9 (para onde minha fam\u00edlia se mudou em 1973, quando eu tinha tr\u00eas anos de idade). Era concursado da UNITAU, trabalhava na biblioteca da Faculdade de Direito. Na \u00e9poca, virada do s\u00e9culo, recebi uma oportunidade de trabalhar com Jornalismo em S\u00e3o Paulo. Foi uma porta que o fanzine impresso do Scream &amp; Yell abriu. Eu o enviava para v\u00e1rios jornalistas como uma forma de retribui\u00e7\u00e3o pelo o que eles tinham feito por mim, pelo quanto eles foram importantes na minha paix\u00e3o por cultura em geral, e m\u00fasica em particular. Gente como L\u00facio Ribeiro, o \u00c1lvaro (Pereira J\u00fanior), a Ana Maria Baiana, o pessoal da Bizz, da MTV. (F\u00e1bio) Massari, Soninha, Gast\u00e3o (Moreira). Eu mandava os fanzines para todo mundo que eu conseguia contato. Separava um grupo de jornalistas que eu achava que eram influentes na minha forma\u00e7\u00e3o e mandava para eles como uma forma (meio tola) de retribui\u00e7\u00e3o\u2026 sem nenhuma ideia de que isso poderia abrir portas, Acabou abrindo, O L\u00facio Ribeiro acabou me trazendo para S\u00e3o Paulo, me indicando para trabalhar no Portal iG, que estava come\u00e7ando a se formar. A migra\u00e7\u00e3o do Scream &amp; Yell do fanzine para a internet \u00e9, praticamente, uma coisa aleat\u00f3ria. Porque eu, sendo um cara do interior, de Taubat\u00e9, com todas as limita\u00e7\u00f5es culturais que tinham na cidade, quando venho morar em S\u00e3o Paulo, entro numa rotina de eventos todos os dias. Come\u00e7o a virar noites em S\u00e3o Paulo vendo filmes em salas de cinema (Taubat\u00e9 n\u00e3o tinha cinema nessa \u00e9poca, tinha virado igreja), vendo shows, indo a bares, encontrando pessoas e tal. E sempre com o fanzine na mochila. &#8220;\u00d3, eu fa\u00e7o isso aqui, tamb\u00e9m.&#8221; Em uma dessas botecagens, encontro um cara que \u00e9 muito importante nessa hist\u00f3ria toda: o Hugo (Lopes Tavares). N\u00f3s dois escrev\u00edamos para um site de opini\u00f5es na \u00e9poca que eu nem me lembro o nome, Mas foi um entressafra entre o impresso e o digital. Escrev\u00edamos de filmes, de discos, de livros, como se fossem opini\u00f5es para outras pessoas analisarem se valia a pena investir tempo e dinheiro naquele \u201cobjeto\u201d. No fundo, eram resenhas mesmo. Porque eu estava em S\u00e3o Paulo e n\u00e3o tinha mais como fazer o fanzine em papel por toda a correria da capital. E eu queria escrever. Estava vendo shows pra caramba, vendo filmes para caramba. E a gente emitia opini\u00f5es nesse site onde nos conhecemos. Trocamos contatos e sa\u00edmos pra beber e eu mostrei o fanzine para ele. Ele amou e me perguntou se eu nunca havia pensado em fazer um site. Disse a ele que havia acabado de come\u00e7ar a trabalhar com internet e lhe dei os fanzines. Quinze dias depois, a gente se encontra novamente no boteco. Ele havia criado uma p\u00e1gina em um site gratuito &#8211; screamyell.hpg.com.br, que seria o equivalente ao Wix hoje em dia. Ele criou o esqueleto em HTML ali. E falou: &#8220;T\u00e1 aqui, \u00f3. A senha \u00e9 essa, o login \u00e9 esse. S\u00f3 voc\u00ea entrar e publicar os textos. Na \u00e9poca, eu n\u00e3o tinha computador em casa, e na verdade eu nem tinha casa, estava morando de favor no ap de um amigo querido da faculdade e trabalhava no iG Nova Economia, que era o portal de economia do iG, de 6 da manh\u00e3 ao meio-dia. Ent\u00e3o passei cerca de dois ou tr\u00eas meses entrando \u00e0 meia-noite e saindo a meio-dia. Entre meia-noite e 6 da manh\u00e3, eu estava \u201cpopulando\u201d o Scream &amp; Yell de textos do fanzine, textos que eu tinha escrito para aquele site de opini\u00f5es, e de novos textos. Sempre digo que o Scream &amp; Yell estreou em novembro de 2000, mas, mais ou menos em setembro e outubro, j\u00e1 t\u00ednhamos mat\u00e9rias no ar. Eu s\u00f3 n\u00e3o divulgava. Era um endere\u00e7o que ningu\u00e9m conhecia, que ningu\u00e9m tinha acesso. A partir de novembro, come\u00e7o a divulgar nos meios que eu tinham na \u00e9poca, como ICQ, por exemplo. E o endere\u00e7o ficou muito popular, ganhou pr\u00eamios (do pr\u00f3prio HPG, inclusive). Foi uma coisa muito aleat\u00f3ria porque se o Hugo n\u00e3o tivesse tido esse trabalho de criar um endere\u00e7o e me dar, eu n\u00e3o sei se o site estaria no ar, hoje. Paralelamente, com o site encontro essa coisa nova de sair do espa\u00e7o limitado do impresso. Eu tinha todo o espa\u00e7o do mundo para colocar as minhas ideias.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93085 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Scream-Yell-5-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Scream-Yell-5-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Scream-Yell-5-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das caracter\u00edsticas principais do Scream &amp; Yell \u00e9 o seu aprofundamento em temas, com entrevistas longas que permitem \u00e0 pessoa interessada justamente esse mergulho distante do superficial. Como foi levar alguns desses papos para o livro que est\u00e1 sendo lan\u00e7ado agora?<\/strong><br \/>\nO livro &#8220;Eu nem queria dar entrevista: o melhor do Scream &amp; Yell, vol. 1&#8221; \u00e9 totalmente feito com base nessa ideia. S\u00e3o mat\u00e9rias que n\u00e3o cabem no impresso tradicional. A entrevista do Guilherme Arantes, por exemplo, tem 30 p\u00e1ginas. A entrevista da Fernanda Young tem 28 p\u00e1ginas. \u00c9 praticamente a (Folha) Ilustrada inteira. Uma entrevista do livro \u00e9 mais do que a Ilustrada inteira. A migra\u00e7\u00e3o do fanzine impresso para o digital foi tamb\u00e9m uma migra\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de entender uma nova maneira de fazer o jornalismo. Lembro quando fiz a edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 5 do fanzine Scream &amp; Yell em papel, que tem o Kevin Smith na capa. Eu a levei na reda\u00e7\u00e3o do Not\u00edcias Populares, que ficava no andar debaixo da Folha de S\u00e3o Paulo, para o Marcelo Orozco, outro jornalista que eu admirava e que trabalhava l\u00e1. Ele me deu uma aula de Jornalismo em meia hora. Lembro dele falando: &#8220;Olha, voc\u00ea t\u00e1 vendo esse texto que voc\u00ea colocou aqui do Marcelo Rubens Paiva? N\u00e3o cabe aqui. Voc\u00ea espremeu as palavras. Voc\u00ea tem que aprender editar. Voc\u00ea precisa entender que em um espa\u00e7o para 2.500 toques n\u00e3o cabe 3.000. Voc\u00ea precisa cortar, certo?&#8221; Eu fiz Comunica\u00e7\u00e3o Social com Habilita\u00e7\u00e3o em Publicidade e Propaganda. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o vim do Jornalismo. Passei em Jornalismo no vestibular da UNITAU, mas a pr\u00f3-reitora foi categ\u00f3rica: n\u00e3o havia como me liberar para estudar \u00e0 noite sendo que o turno mais essencial da Biblioteca de Direito era o noturno, e Jornalismo s\u00f3 tinha \u00e0 noite. Ent\u00e3o segui com a segunda op\u00e7\u00e3o, Publicidade, que tinha de manh\u00e3. Mas seguia escrevendo, e eu escrevia mais como uma coisa de apaixonado por jornalismo e m\u00fasica. Ent\u00e3o, essa aula do Marcelo Orozco, que teve diversos t\u00f3picos em cerca de 20 minutos, quatro anos de faculdade em 20 minutos, surge praticamente ao mesmo tempo que essa liberdade da internet para que eu possa publicar uma entrevista de 28 p\u00e1ginas. Sendo que, paralelamente, eu pego a Folha de S\u00e3o Paulo e penso: &#8220;Bom, essa entrevista do Caetano na Folha, talvez ela tenha 28 p\u00e1ginas. Mas o cara colocou duas ou tr\u00eas na Ilustrada, porque n\u00e3o cabem as outras 25. S\u00f3 que nas outras 25 p\u00e1ginas tem muitas ideias legais que ficaram de fora (na fita bruta)\u201d. E a\u00ed eu comecei a me interessar por essas coisas que ficaram de fora. E isso, mais ou menos, \u00e9 a g\u00eanese de como que, editorialmente, o Scream &amp; Yell nasce. Um lugar para voc\u00ea ler entrevistas longas. Ou sendo mais direto, entrevistas completas. Nada fica de fora.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93086 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Scream-Yell-6-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Scream-Yell-6-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Scream-Yell-6-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 buscar esse p\u00fablico mais interessado em um aprofundamento e que n\u00e3o fica apenas dando scroll em telas sem conseguir ficar muito tempo com a mesma tela no celular?\u2028<\/strong><br \/>\nExiste um p\u00fablico para tudo, sabe? Mas a gente n\u00e3o inventou a roda. A (revista) Uncut faz isso. A Mojo faz isso. S\u00e3o entrevistas longas, tamb\u00e9m. Eu acho que tem p\u00fablico para tudo. Esse \u00e9 o ponto inicial. No fundo, por\u00e9m, s\u00e3o s\u00f3 maneiras diferentes de lidar com o Jornalismo. Inocentemente, l\u00e1 para 2010, 2011, eu achava que todos iriam perceber isso, tamb\u00e9m. O valor do que fica fora da entrevista, mas n\u00e3o, at\u00e9 hoje ningu\u00e9m d\u00e1 muita bola. Mesmo com os jornais e revistas tendo vers\u00f5es online, que poderiam abrigar esse conte\u00fado mais completo. Mas isso tamb\u00e9m faz parte de uma vis\u00e3o de controle da narrativa, do que vai ser dito ou n\u00e3o. Quando come\u00e7amos a fazer o Scream &amp; Yell dessa maneira, falei: &#8220;A gente vai publicar tudo. Nada vai ficar de fora. Vamos fazer sempre um ping-pong, porque ping-pong, para mim, \u00e9 o mais pr\u00f3ximo da entrevista real\u201d. Porque a mat\u00e9ria corrida \u00e9 a vis\u00e3o do jornalista sobre a entrevista. Isso \u00e9 uma coisa que as pessoas muitas vezes n\u00e3o pensam. E \u00e9 uma coisa que eu estou tentando refor\u00e7ar nessas conversas sobre o lan\u00e7amento do livro, agora. Fiz uma entrevista com a Fernanda Young (em 2001) que durou duas horas e que rendeu 28 p\u00e1ginas (e o t\u00edtulo do nosso livro). Selecionei alguns trechos que achei interessante para uma mat\u00e9ria que saiu na Reuters, que ag\u00eancia internacional que produz conte\u00fado e distribui para seus parceiros (pequenos e grandes ve\u00edculos). Foram eles quem me pautaram para eu fazer essa entrevista. Ent\u00e3o, a mat\u00e9ria que saiu na Reuters, n\u00e3o \u00e9 a entrevista. \u00c9 a minha vis\u00e3o da entrevista condensada em duas p\u00e1ginas. Os jornalistas, muitas vezes, v\u00e3o para uma pauta buscando aspas, afirma\u00e7\u00f5es que completem uma ideia que ele pr\u00f3prio tem na cabe\u00e7a sobre o objeto cultural em quest\u00e3o. Ent\u00e3o, se a gente vai entrevistar um diretor de um filme ou um cara que fez um disco, j\u00e1 vamos com uma certa ideia \/ opini\u00e3o do que o disco ou o filme s\u00e3o. E perguntamos como se estiv\u00e9ssemos buscando uma afirma\u00e7\u00e3o, mas da boca deles, para validar a ideia que a gente tem daquele objeto. \u00c9 legal, \u00e9 lindo. \u00c9 uma das coisas mais gostosas de ser jornalista porque voc\u00ea est\u00e1 botando a sua impress\u00e3o ali. Mas a conversa, a entrevista, \u00e9 muito mais do que isso. E \u00e9 muito mais do que voc\u00ea perguntar e a pessoas responder. O modo mais perfeito de entrevista \u00e9 a presencial em que o espectador pode acompanhar as respostas, o semblantes e os movimentos de entrevistador e entrevistado. Entrevista \u00e9 uma dan\u00e7a, e se um dos dois n\u00e3o quiser, n\u00e3o tem festa. A entrevista televisiva ao vivo chega pr\u00f3ximo, mas ainda tem o jogo de c\u00e2meras, o angulo, fatores que podem mudar a maneira do espectador \u201cler\u201d essa conversa. Mas, no fundo, \u00e9 isso: o cara perguntou, a outra pessoa respondeu e voc\u00ea est\u00e1 vendo o semblante dos dois. Tenho entrevistas no Scream &amp; Yell em que tive dificuldade de passar esses semblantes, por exemplo. As pessoas falam: &#8220;Nossa, mas essa entrevista est\u00e1 muito pesada.&#8221; E eu : \u201cN\u00e3o! Os temas s\u00e3o pesados, mas a conversa foi leve, divertida, rimos muito e tal\u201d. Mas existem coisas que s\u00e3o dif\u00edceis para se traduzir no texto. Por isso a entrevista ao vivo \u00e9 ideal. Duas pessoas conversando, voc\u00ea perguntando, a pessoa respondendo e a pessoa que est\u00e1 assistindo est\u00e1 vendo o semblante dos dois. Ela sabe que a pessoa ficou nervosa na hora de responder tal coisa. Tal resposta pode ter incomodado o jornalista, que tamb\u00e9m demonstrou isso. Isso tudo \u00e9 muito dif\u00edcil de botar pro texto. Num texto corrido, que muitos chamam de entrevista, h\u00e1 a vis\u00e3o do jornalista que usa as aspas para justificar essa ou aquela opini\u00e3o (e o que mais existe \u00e9 entrevistado reclamando que tiraram sua frase de contexto. E tiraram mesmo). A g\u00eanese do site vem dessa entrevista com a Fernanda Young. Uma entrevista que foi para a Reuters com duas p\u00e1ginas. Ou seja, outras 26 ficaram de fora. E tinha tanta coisa boa que eu decidi publicar a integra no site, um momento de \u201cEureka\u201d. Essa entrevista \u00e9 praticamente um manual de jornalismo do Scream &amp; Yell. \u00c9 uma entrevista na qual eu vou com uma pauta sobre um livro que a Fernanda estava lan\u00e7ando, e eu chego l\u00e1 e a Fernanda fala: &#8220;Eu n\u00e3o gosto muito de dar entrevista&#8221;. E a primeira pergunta que eu fiz foi: &#8220;\u00c9 ruim dar entrevista?&#8221; E o nosso di\u00e1logo come\u00e7a com base nesse improviso, de ela falar que n\u00e3o v\u00ea sentido em falar do livro pronto e eu perguntar sobre o que ela gostaria de saber de autores que ela gosta. L\u00e1 pelas tantas, ela vira e fala: &#8220;Cara, estou me lembrando de coisas incr\u00edveis. Nunca falei tanto como estou falando agora e eu nem queria dar entrevista&#8221;. Essa troca entre entrevistado e entrevistador, para mim, \u00e9 m\u00e1gica. E muitas vezes n\u00e3o entra na reportagem por falta de espa\u00e7o. Muitas vezes, uma coisa que n\u00e3o parece importante para a gente, pode ser um grande furo para quem conhece mais profundamente o entrevistado, pode mudar o lead da entrevista toda. Vira a principal coisa da entrevista. Quando o jornalista sai pra pauta, ele sai muito focado no que ele quer saber para a mat\u00e9ria, e muitas vezes algumas coisas que a gente n\u00e3o valoriza no processo passa batido, mas algu\u00e9m olha e fala: &#8220;Nossa, o cara falou isso daqui, \u00f3. E eu nunca vi ele falar disso.&#8221;<\/p>\n<figure id=\"attachment_93232\" aria-describedby=\"caption-attachment-93232\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-93232\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/richard-hell.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/richard-hell.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/richard-hell-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93232\" class=\"wp-caption-text\">mockups-design.com<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m da Fernanda Young, voc\u00ea tem outros exemplos de entrevistas assim que est\u00e3o no livro?\u2028<\/strong><br \/>\nMuitos! Na conversa que o Jello Biafra teve com o Homero (PIvotto Jr.), ele conta algumas coisas que eu j\u00e1 sabia, de que ele esteve com Renato Russo, ficou impressionado com os amigos dele e que n\u00e3o sabia o qu\u00e3o grande a Legi\u00e3o Urbana era no Brasil. Mas ele tamb\u00e9m conta que foi para a casa de um cara que tinha uma cole\u00e7\u00e3o vasta de discos e ele se apaixonou por um disco da Elba Ramalho. Eu nunca vi o Jello Biafra, vocalista do Dead Kennedys, falando que havia se apaixonado por um disco da Elba Ramalho no Brasil! O que \u00e9 sensacional. Passar as entrevistas do site para o papel me permitiu l\u00ea-las de novo, mas de uma maneira diferente, sem a correria do dia-a-dia, e com a preocupa\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o para um livro. E reencontrei diversas p\u00e9rolas. Por exemplo, Richard Hell conversando com Guilherme Lage. Tem um momento que o Guilherme pergunta para o Richard como ele desenvolveu seu jeito de cantar. E o Richard Hell fala assim: &#8220;Voc\u00ea j\u00e1 ouviu a minha primeira banda, a Neon Boys, uma banda que eu tive com o Tom?&#8221; Esse Tom \u00e9 o Tom Verlaine, o guitarrista do Televison, amigo da Patti Smith, um cara important\u00edssimo na cena novaiorquina dos anos 70. N\u00e3o que Richard Hell n\u00e3o seja tamb\u00e9m important\u00edssimo nessa narrativa. Mas voc\u00ea consegue ter uma vis\u00e3o uma pouquinho mais ampla do neg\u00f3cio a partir de um nome que ele fala. Voc\u00ea pode falar: &#8220;N\u00e3o conhe\u00e7o tanto o Richard Hell, n\u00e3o conhe\u00e7o o Neon Boys, mas agora eu j\u00e1 estou tendo uma ideia da cena punk novaiorquina em que ele est\u00e1 inserido porque ele come\u00e7ou uma banda com o Verlaine&#8221;. Por exemplo, outra. Mike Watt, que \u00e9 um grande representante da cena independente do rock americano dos anos 1980. Nos anos 1990, ele lan\u00e7a um disco que virou cl\u00e1ssico na cena independente, (\u201cBall-Hog or Tugboat?\u201d, de 1995). \u00c9 um disco onde ele toca com um monte de gente. Na conversa com o Leonardo Tissot, ele falou: &#8220;Ah, eu fiz o disco, mas eu n\u00e3o ia fazer uma turn\u00ea. Mas o Dave e o Eddie viraram para mim e falaram: &#8216;N\u00f3s vamos ser a sua banda&#8217;. E esse &#8220;n\u00f3s&#8221; a\u00ed s\u00e3o o Dave Grohl e o Eddie Vedder, das duas maiores bandas do per\u00edodo: o Nirvana e o Pearl Jam. Os caras viram para o Mike Watts e falam: &#8220;A gente vai tocar com voc\u00ea&#8221;. O David fala: &#8220;Eu vou ser o baterista&#8221;. O Eddie fala: &#8220;Eu vou ser o guitarrista. Voc\u00ea \u00e9 o baixista, mesmo. Ent\u00e3o, vai ser esse o show&#8221;. Isso \u00e9 muito legal, amplifica a vis\u00e3o sobre o entrevistado. Porque talvez um f\u00e3 de Pearl Jam n\u00e3o conhe\u00e7a Mike Watt. Alguns f\u00e3s do Foo Fighters e do Nirvana, tamb\u00e9m. Mas eles sabem que dois caras de quem s\u00e3o f\u00e3s eram t\u00e3o f\u00e3s do Mike que falaram: &#8220;N\u00e3o, a gente vai sair em turn\u00ea e vamos ser a sua banda&#8221;. Isso \u00e9 muito legal. Outra entrevista nesse naipe \u00e9 a do Alain Johannes, que \u00e9 um nome bem importante. As pessoas que acompanharam o Queens of The Stone Age talvez o conhe\u00e7am. Quando o Soundgarden foi fazer uma turn\u00ea na Europa, o Chris Cornell chegou a falou: &#8220;A gente queria que o Eleven tocasse com a gente nessa turn\u00ea.&#8221; Eleven era a banda do Alain Johannes com a parceira de vida dele. A\u00ed a gravadora fala: &#8220;A gente n\u00e3o tem grana para bancar&#8221;. Eles ligam para o Alain e ele fala que quer tocar, que quer ir. A\u00ed o Chris pede dez minutos e retorna a liga\u00e7\u00e3o: &#8220;Ent\u00e3o, \u00f3, cada um da banda deu 35 mil d\u00f3lares para ter voc\u00eas com a gente&#8221;. Cris Cornell um gigante da m\u00fasica. A\u00ed depois o Chris Cornell vai lan\u00e7ar primeiro disco solo dele. e diz: &#8220;Olha, Alain, a gravadora me pagou um adiantamento e com esse dinheiro voc\u00ea vai fazer um est\u00fadio para voc\u00ea. E eu vou gravar o disco l\u00e1&#8221;. Ent\u00e3o, o primeiro disco solo do do Chris Cornell foi gravado no est\u00fadio que o Alain Johannes construiu com o dinheiro do adiantamento do disco de Chris Cornell. Esses detalhezinhos da m\u00fasica que voc\u00ea vai juntando acaba criando uma big picture, um grande cen\u00e1rio. Isso tudo me interessa demais. Eu acho que o livro tem diversos momentos disso, sabe? Diversos momentos. De Marina Lima dando rol\u00ea com Mano Brown em S\u00e3o Paulo, do Pato Fu falando de todos os produtores de seus discos, de Steve Albini comentando sobre os artistas que produziu, tem muita, muita coisa boa nesse livro\u2026 Sou suspeito, mas pode confiar: <a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/eu-nem-queria-dar-entrevista-o-melhor-do-scream-yell-vol-1-d59kd\/\">esse livro est\u00e1 sensacional<\/a>!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-93231\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/marcelo-55.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1016\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/marcelo-55.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/marcelo-55-221x300.jpg 221w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Livro do Scream &#038; Yell traz conversas com Fernanda Young, Richard Hell, Pitty, Cowboy Junkies, Marina Lima, Mike Watt, Pato Fu, Frank Jorge, Jello Biafra, Jair Naves, Fito Paez e Steve Albini.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/01\/01\/a-entrevista-ping-pong-e-para-mim-o-mais-proximo-da-entrevista-real-diz-marcelo-costa\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":93084,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7547,3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93230"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93230"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93230\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":93236,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93230\/revisions\/93236"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93084"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}