{"id":92876,"date":"2025-11-19T13:13:19","date_gmt":"2025-11-19T16:13:19","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=92876"},"modified":"2025-12-09T00:47:58","modified_gmt":"2025-12-09T03:47:58","slug":"1943-2025-jards-macale-a-musica-como-gesto-radical-de-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/11\/19\/1943-2025-jards-macale-a-musica-como-gesto-radical-de-liberdade\/","title":{"rendered":"1943\/2025: Jards Macal\u00e9, a m\u00fasica como gesto radical de liberdade"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de Ismael Machado<\/strong><br \/>\nfoto de Marcelo Costa<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Macal%C3%A9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jards Macal\u00e9<\/a>, encerra uma das trajet\u00f3rias mais singulares e indom\u00e1veis da m\u00fasica brasileira. Poucos artistas atravessaram tantas eras, estilos e rupturas mantendo, de maneira t\u00e3o rigorosa, a coer\u00eancia com um princ\u00edpio que ele levava como cicatriz e bandeira: a arte n\u00e3o existe para servir a nada al\u00e9m dela mesma \u2014 e, portanto, n\u00e3o deve se curvar a nenhum poder, seja ele pol\u00edtico, comportamental ou mercadol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender o que Macal\u00e9 representou, \u00e9 preciso ir al\u00e9m do r\u00f3tulo f\u00e1cil de \u201cmaldito\u201d, express\u00e3o que ele mesmo rejeitou. Macal\u00e9 nunca foi maldito, apenas coerente e l\u00facido. Sua lucidez, por\u00e9m, era t\u00e3o cortante que incomodava. Incomodava gravadoras, incomodava programas de televis\u00e3o, incomodava movimentos est\u00e9ticos que tentavam englob\u00e1-lo, incomodava at\u00e9 os amigos, que o amavam justamente porque sabiam que ele n\u00e3o abria concess\u00f5es. Macal\u00e9 n\u00e3o pertencia a lugar nenhum porque escolheu pertencer apenas ao territ\u00f3rio da cria\u00e7\u00e3o que, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 um territ\u00f3rio feroz, \u00e1spero, mas onde a beleza aparece com mais verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em 1943, no Rio de Janeiro, ele cresceu respirando samba, chorinho, r\u00e1dio e o universo popular da Lapa. Mas cedo tamb\u00e9m se aproximou da m\u00fasica contempor\u00e2nea, do jazz e das vanguardas europeias, trilhando um caminho que poucos, naquele per\u00edodo, ousavam cruzar. Assim se formou um artista totalmente imprevis\u00edvel. Era um violonista preciso, com uma batida \u2018suja\u2019, um cantor visceral com sua rouquid\u00e3o desafiadora a ouvidos domesticados, um compositor que sabia transitar da harmonia sofisticada \u00e0 melodia simples, da delicadeza extrema \u00e0 disson\u00e2ncia inquietante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se aproximou da Tropic\u00e1lia, mas nunca foi tropicalista. Colaborou intensamente com Waly Salom\u00e3o e Torquato Neto, mas tampouco cabia na moldura marginal. Vivia entre rodas de samba e concertos de m\u00fasica experimental, entre festivais de can\u00e7\u00e3o e o underground carioca. Era ponte e abismo ao mesmo tempo. Atravessava linguagens sem jamais ado\u00e7ar sua pr\u00f3pria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De sua obra, ficaram can\u00e7\u00f5es que hoje pertencem ao patrim\u00f4nio afetivo do pa\u00eds \u2014 \u201cVapor Barato\u201d, \u201cMovimento dos Barcos\u201d, \u201cLet\u2019s Play That\u201d, \u201cMal Secreto\u201d, \u201cFarinha do Mesmo Saco\u201d, \u201cHotel das Estrelas\u201d, \u201cSolu\u00e7os\u201d, \u201cSem Essa\u201d. Mas o que marca sua presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas a excel\u00eancia das composi\u00e7\u00f5es. \u00c9 o modo como cantava, um jeito de cantar como quem convoca \u2014 n\u00e3o interpreta \u2014 um esp\u00edrito. Macal\u00e9 n\u00e3o executava uma can\u00e7\u00e3o. Ele parecia que a vivia, a sangrava, a rasgava pelo avesso at\u00e9 encontrar a verdade escondida nela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos anos 1970, suas tens\u00f5es com a ind\u00fastria cultural tornaram-se lend\u00e1rias. O afastamento da Rede Globo, depois de conflitos sobre autonomia art\u00edstica e dire\u00e7\u00e3o musical, virou s\u00edmbolo de sua postura. Macal\u00e9 n\u00e3o negociava sua integridade. E pagou caro por isso. Isolou-se, perdeu espa\u00e7o de mercado, foi incompreendido. Chegou a pensar em suic\u00eddio, mas contava <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/splash\/noticias\/2025\/11\/17\/como-joao-gilberto-salvou-o-amigo-jards-macale.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ter sido salvo por Jo\u00e3o Gilberto<\/a>. Sua influ\u00eancia subterr\u00e2nea nunca diminuiu. Pelo contr\u00e1rio, cresceu com o tempo, alimentando gera\u00e7\u00f5es inteiras que encontraram nele um farol da desobedi\u00eancia est\u00e9tica. Foi saudado ainda em vida, \u00e9 bom dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 2000 e 2010, jovens m\u00fasicos redescobriram Macal\u00e9 com fasc\u00ednio: de Met\u00e1 Met\u00e1 a Ava Rocha, de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/02\/15\/besta-fera-kiko-dinucci-fala-sobre-o-novo-disco-de-jards-macale\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Kiko Dinucci<\/a> a Ju\u00e7ara Mar\u00e7al, de Tim Bernardes a <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DRLaIPzDEvQ\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">R\u00f4mulo Froes <\/a>(vale ouvir o tributo &#8220;<a href=\"https:\/\/www.hominiscanidae.org\/2013\/06\/tributo-ao-jards-macale-e-volto-curtir.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">E Volto Pra Curtir<\/a>&#8220;, de 2013) passando por toda a cena independente que v\u00ea na fric\u00e7\u00e3o e no risco um modo de existir. O reencontro com o p\u00fablico mais jovem mostrou que sua obra n\u00e3o envelheceu. Ela apenas esperou o mundo ficar novamente capaz de ouvi-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Macal\u00e9 foi, ao fim, um artista do confronto. Com o establishment, com os movimentos, com os ouvintes, consigo mesmo. Mas desse confronto nasceu uma das obras mais pungentes e livres do pa\u00eds. Sua morte deixa um sil\u00eancio enorme, desses que n\u00e3o se preenchem, poucos dias depois da morte de outro ser essencial, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/11\/03\/lo-borges-tudo-o-que-voce-podia-ser-e-foi-as-10-musicas-mais-tocadas-e-gravadas-de-lo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">L\u00f4 Borges<\/a>. H\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o indo embora. Gal, Rita Lee, Erasmo, Nana, L\u00f4, Hermeto, entre tantos. Mas sua vida deixa algo ainda maior. A li\u00e7\u00e3o de que a insist\u00eancia de ser a m\u00fasica um territ\u00f3rio de liberdade absoluta. E que a verdadeira ousadia n\u00e3o est\u00e1 no gesto ruidoso, e sim na fidelidade inquebrant\u00e1vel ao pr\u00f3prio caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jards Macal\u00e9 parte, mas deixa um legado que n\u00e3o se encerra. Permanece como essa ferida luminosa aberta na hist\u00f3ria da MPB, lembrando que a arte \u00e9 mais profunda quando se recusa a ser domesticada.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jards Macale Ao Vivo no Theatro S\u00e3o Pedro | Show Completo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/V-HOUp2kaHE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jards Macal\u00e9 [Document\u00e1rio, 2008]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HP44S6e5-uA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jards Macal\u00e9 no Inhotim - Show Completo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/saUN9M7GZUM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SEM CENSURA ESPECIAL COM JARDS MACAL\u00c9\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HHzLu0u1DPA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"\u00c9 Show | TVE - Jards Macal\u00e9 - 04\/08\/2015\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xWgcvI-w4Dw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Ismael Machado \u00e9 escritor, jornalista e, por que n\u00e3o, cineasta. Publicou cinco livros e \u00e9 ganhador de 12 pr\u00eamios jornal\u00edsticos. Roteirista dos longas document\u00e1rios \u201c<a href=\"https:\/\/www.videocamp.com\/pt\/movies\/soldados-do-araguaia-2017\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Soldados do Araguaia<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/ismae-machado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Na Fronteira do Fim do Mundo<\/a>\u201d e da s\u00e9rie documental \u201c<a href=\"https:\/\/canaisglobo.globo.com\/assistir\/futura\/ubuntu-a-partilha-quilombola\/t\/ZPScpgvvJ8\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ubuntu, a partilha quilombola<\/a>\u201c.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Macal\u00e9 foi um artista do confronto. Com ouvintes, establishment, movimentos, consigo mesmo. 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