{"id":92703,"date":"2025-11-12T14:02:11","date_gmt":"2025-11-12T17:02:11","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=92703"},"modified":"2025-12-31T07:43:15","modified_gmt":"2025-12-31T10:43:15","slug":"conheca-noturnas-novo-disco-da-pelos-faixa-a-faixa-ele-trabalha-mais-em-climas-comenta-thiago-pereira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/11\/12\/conheca-noturnas-novo-disco-da-pelos-faixa-a-faixa-ele-trabalha-mais-em-climas-comenta-thiago-pereira\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a &#8220;Noturnas&#8221;, novo disco da Pelos, faixa a faixa: &#8220;Ele trabalha mais em climas&#8221;, comenta Thiago Pereira"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de introdu\u00e7\u00e3o e entrevista de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/noacapelas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com mais de 25 anos de estrada, a banda <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/pelos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pelos<\/a> passou boa parte de sua carreira restrita \u00e0 atua\u00e7\u00e3o em Belo Horizonte. De 2022 para c\u00e1, isso come\u00e7ou a mudar com o lan\u00e7amento de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/12\/14\/entrevista-banda-brasileira-independente-preta-e-periferica-a-pelos-lanca-seu-quarto-e-melhor-trabalho-atlantico-corpo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Atl\u00e2ntico Corpo<\/a>\u201d, trabalho profundo que exp\u00f5e de forma delicada a realidade e a cria\u00e7\u00e3o de uma banda \u201cpreta, perif\u00e9rica, independente e brasileira\u201d \u2013 e que ficou entre os <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/08\/scream-yell-os-50-discos-mais-votados-de-2022\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">melhores 25 discos<\/a> daquela temporada na vota\u00e7\u00e3o deste Scream &amp; Yell. Tr\u00eas anos depois, a pergunta que fica \u00e9: como dar sequ\u00eancia \u00e0 carreira ap\u00f3s um \u00e1lbum t\u00e3o marcante?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta est\u00e1 em \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/10\/15\/entrevista-a-banda-mineira-pelos-fala-sobre-noturnas-seu-quinto-album-um-disco-mais-arejado-boemio-e-livre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Noturnas<\/a>\u201d, disco lan\u00e7ado pelo grupo mineiro no final de agosto. \u201c\u00c9 um disco que n\u00e3o tem uma narrativa nem uma dimens\u00e3o conceitual. Ele trabalha mais em climas, em uma ambi\u00eancia, na busca por boas can\u00e7\u00f5es\u201d, destaca de partida o baixista Thiago Pereira, que se uniu \u00e0 banda antes das grava\u00e7\u00f5es de \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d. \u201c\u2018Noturnas\u2019 vai entrando, vai chafurdando pela noite, com momentos mais ou menos sombreados.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formado por Robert Frank (voz, viol\u00e3o, sintetizador e piano), Heberte Almeida (guitarra), Kim Gomes (guitarra) e Pablo Campos (bateria e percuss\u00e3o), al\u00e9m de Pereira, o grupo somou diversas influ\u00eancias para a confec\u00e7\u00e3o do disco. Na conversa a seguir, realizada entre a Praia da Urca e o Boteco Pasteur, no Rio de Janeiro, Pereira elenca nomes t\u00e3o variados quanto Mercury Rev, Tim Maia, Curtis Mayfield, The Cure, Beto Guedes ou Minutemen. \u201c\u00c9 algo que veio das imers\u00f5es para fazer o disco\u2013 que s\u00e3o muito pautadas por beber cerveja, rir pra caralho, fazer churrasco e escutar muita m\u00fasica. Ouvimos muita coisa juntos, um vai aplicando o outro, vamos lembrando de coisas\u201d, conta o baixista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No faixa-a-faixa a seguir, feito especialmente para o Scream &amp; Yell, o baixista comenta ainda diversos aspectos do disco \u2013 das j\u00e1 citadas imers\u00f5es em Casa Branca, na regi\u00e3o metropolitana de BH, \u00e0s grava\u00e7\u00f5es no est\u00fadio Frango no Bafo, de Henrique Matheus e Thiago Corr\u00eaa (ambos da Transmissor), passando pela mixagem e masteriza\u00e7\u00e3o de Leonardo Marques (tamb\u00e9m da Transmissor). Ele ainda ressalta as participa\u00e7\u00f5es especiais de \u201cNoturnas\u201d \u2013 das cantoras Fernanda Valadares e Michelle Oliveira \u2013 e a parceria afetiva da Pelos com a produtora <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/filmes-de-plastico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Filmes de Pl\u00e1stico<\/a>, que j\u00e1 dura mais de uma d\u00e9cada e volta a marcar presen\u00e7a agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com pouco mais de meia hora, \u201cNoturnas\u201d (ou\u00e7a na integra logo abaixo ou na sua plataforma favorita) \u00e9 uma imers\u00e3o em uma viv\u00eancia experienciada em Belo Horizonte, mas que pode acontecer \u201cno \u2018baixo centro\u2019 de qualquer cidade\u201d, defende Pereira. Ao final do disco, entre bares, inc\u00eandios, edif\u00edcios e viagens de carro, ele garante que h\u00e1 um alvorecer. \u201cA madrugada acabou. O sol nascer\u00e1, j\u00e1 diria Cartola\u201d, brinca o baixista, convidando o ouvinte a seguir em boa jornada noite adentro. Venha com ele.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Noturnas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nuluX7w5y9U28_ZTqUsoTPBBze8MPm1ng\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01) \u201cSantelmo\u201d &#8211; <\/strong>\u201cNoturnas\u201d \u00e9 um disco que n\u00e3o tem uma narrativa nem uma dimens\u00e3o conceitual, ao contr\u00e1rio do \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d. Ele trabalha mais em climas, em uma ambi\u00eancia, na busca por boas can\u00e7\u00f5es. Mas se uma pessoa fosse criar uma narrativa para o disco, seria poss\u00edvel montar um quebra-cabe\u00e7a no qual \u201cSantelmo\u201d seria a \u00faltima m\u00fasica \u2013 at\u00e9 porque ela tem um clima menos soturno dentro do disco. Quando ela surgiu, sem letra, a banda j\u00e1 desconfiava que ela teria cara de primeiro single, de m\u00fasica de abertura do disco. A m\u00fasica \u00e9 de toda a banda, a letra \u00e9 minha. \u00c9 uma can\u00e7\u00e3o de fuga, em uma letra muito pessoal, de capturar um momento\u2026 n\u00e1utico. Ela envolve duas refer\u00eancias muito fortes minhas com o fogo de San Telmo. Uma \u00e9 a m\u00fasica do Brian Eno: \u201cSt. Elmo\u2019s Fire\u201d \u00e9 minha m\u00fasica favorita dele, e \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/09\/04\/artistas-brasileiros-revisitam-album-de-brian-eno-45-anos-apos-seu-lancamento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Another Green World<\/a>\u201d \u00e9 meu disco favorito dele. Outra \u00e9 o filme \u201cSt. Elmo\u2019s Fire\u201d, um cl\u00e1ssico do Brat Pack dos anos 1980, que aqui no Brasil foi traduzido como \u201cO \u00daltimo Ano do Resto de Nossas Vidas\u201d e fala sobre essa quest\u00e3o de amadurecer. J\u00e1 a perspectiva da capa do single (arte abaixo), que \u00e9 do Robert, tem a ver com a ideia do fen\u00f4meno do fogo de San Telmo, um fen\u00f4meno meteorol\u00f3gico que aparece do nada, mas costuma ser visto pelos navegantes do mar e da terra como um sinal de boa sorte, de boa navega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-92705 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/santelmo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/santelmo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/santelmo-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/santelmo-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02) \u201cInc\u00eandios\u201d &#8211; <\/strong>\u00c9 um ensaio sobre o fogo \u2013 e sobre as v\u00e1rias possibilidades que a ideia de fogo pode trazer. A m\u00fasica \u00e9 do Robert e do Kim, a letra \u00e9 minha. Musicalmente, eu vejo nela uma eleg\u00e2ncia soul, uma densidade muito interessante. \u00c9 uma m\u00fasica com uma sensualidade forte, mas ao mesmo tempo, algo sombrio. Por algum motivo, ela me remete \u00e0 Sade Adu, que \u00e9 uma refer\u00eancia que toda a banda adora. Al\u00e9m disso, vale destacar a participa\u00e7\u00e3o da Fernanda Valadares, que \u00e9 backing vocal do FBC. Os trabalhos mais recentes dele tem uma coisa meio R&amp;B, meio soul, e a participa\u00e7\u00e3o da Fernanda traz esse di\u00e1logo n\u00e3o s\u00f3 com esse universo, mas tamb\u00e9m com a obra de um artista que a gente ama.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03) \u201cOutros Azuis\u201d &#8211;<\/strong> Muito do que fizemos no \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d e no \u201cNoturnas\u201d surgiu em imers\u00f5es que a banda fez na casa da minha m\u00e3e em Casa Branca, um distrito perto de Belo Horizonte. E uma coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi que o processo do \u201cNoturnas\u201d foi muito r\u00e1pido: n\u00f3s fizemos s\u00f3 duas imers\u00f5es e sa\u00edmos com umas 15, 16 ideias. E olha que n\u00f3s tocamos pouco: a maior parte do tempo das imers\u00f5es \u00e9 gasto comendo, bebendo, escutando m\u00fasica e falando merda. \u00c9 o \u00f3cio criativo. E eu lembro muito bem do momento em que o Tambor [apelido de Heberte de Almeida] mostrou essa m\u00fasica para gente, acho que j\u00e1 era m\u00fasica e letra tudo junto. \u00c9 uma m\u00fasica muito bonita, tem um refr\u00e3o bem Tim Maia \u2013 que \u00e9 outra onda da Pelos. Achamos que essa \u00e9 a nossa m\u00fasica Inconfid\u00eancia FM \u2013 a r\u00e1dio nova MPB de Belo Horizonte, r\u00e1dio FM adulta. Na grava\u00e7\u00e3o, com a produ\u00e7\u00e3o do TC e do Henrique, bem como com a mixagem do Leo, ela deu uma \u201ctameimpalizada\u201d, ganhou uma ambi\u00eancia muito bonita. Chegou a ser at\u00e9 candidata a single, mas acabamos ficando com \u201cSantelmo\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04) \u201cNoites N\u00f4mades\u201d &#8211;<\/strong> \u00c9 uma m\u00fasica que representa muito o que \u00e9 o \u201cNoturnas\u201d. De alguma maneira, ela tem um aspecto meio cinematogr\u00e1fico, em uma l\u00edrica pontual dessa coisa da boemia, das coisas acontecendo no ambiente do bar, no \u201cbaixo centro\u201d de qualquer cidade. A m\u00fasica e a letra s\u00e3o minhas. A primeira curiosidade \u00e9 que ela \u00e9 um afrobeat com um \u201ctantim assim de carimb\u00f3\u201d, algo que eu fa\u00e7o muito inspirado por estar na Pelos. Como compositor, eu nunca faria um afrobeat por minha conta. Outro ponto importante \u00e9 que ela tem uma pegada synth anos 1980, que \u00e9 algo que \u00e9 muito a cara atual da banda. A letra \u00e9 muito a cara das nossas viv\u00eancias: ao longo do \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d, n\u00f3s fizemos mais de 30 shows, estivemos muito juntos. Para al\u00e9m do trabalho, a gente bebia muito junto \u2013 e \u201cNoites N\u00f4mades\u201d \u00e9 uma forma de radiografar n\u00e3o s\u00f3 as nossas viv\u00eancias, mas tamb\u00e9m de quem estava no entorno do universo da banda, especialmente <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/delruim.bar\/?hl=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no [bar] DelRuim<\/a>, em BH. Para mim, \u00e9 uma das m\u00fasicas que melhor captura a ambiance noturna do disco.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05) \u201cNo Cora\u00e7\u00e3o do Mundo\u201d-<\/strong> H\u00e1 muito tempo a gente queria fazer uma can\u00e7\u00e3o discotheque. E ela surgiu de um jeito muito legal: est\u00e1vamos na imers\u00e3o em Casa Branca e j\u00e1 estava quase tudo pronto para irmos embora. S\u00f3 faltava guardar os instrumentos. Dez minutos antes, por\u00e9m, a gente acabou fazendo \u201cNo Cora\u00e7\u00e3o do Mundo\u201d. Algu\u00e9m puxou o groove, talvez o Pablo, e pumba, fizemos a m\u00fasica. \u00c9 algo que, para mim, atesta essa forma\u00e7\u00e3o como banda, tanto pelo processo como pela grava\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, \u00e9 algo que me deixa muito feliz porque discoteca \u00e9 uma coisa muito importante para mim. \u00c9 algo que eu escutei muito, que moldou minha vis\u00e3o como baixista. \u201cNo Cora\u00e7\u00e3o do Mundo\u201d \u00e9 uma discoteca mais roqueira, mas tamb\u00e9m \u00e9 a cara da Pelos \u2013 como \u00e9 \u201cDa Serra ao Bonfim\u201d, do disco anterior. A letra \u00e9 do Robert \u2013 e o t\u00edtulo faz refer\u00eancia a um filme da Filmes de Pl\u00e1stico, do qual o Robert participou. A Filmes de Pl\u00e1stico tem uma liga\u00e7\u00e3o muito arterial com a Pelos: o Gabito [Gabriel Martins, diretor de \u201cMarte Um\u201d] dirigiu o clipe de \u201cL\u00e1grimas Brancas\u201d, existe um videodocument\u00e1rio da Pelos nos anos 2010 assinado pela produtora \u2013 e o Robert, o Kim e o Tambor participam agora do \u201cO \u00daltimo Epis\u00f3dio\u201d. \u00c9 uma conex\u00e3o fraterna e imagino que o Robertinho tenha pensado nisso para batizar a m\u00fasica.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06) \u201cAcaiaca\u201d &#8211;<\/strong> Do ponto de vista s\u00f4nico, \u201cAcaiaca\u201d \u00e9 um p\u00f3s-punk cl\u00e1ssico, que retoma algo da Pelos do \u201c<a href=\"https:\/\/pelos.bandcamp.com\/album\/paraiso-perdido-nos-bolsos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Para\u00edso Perdido nos Bolsos<\/a>\u201d (2017) e at\u00e9 mesmo de antes. Ela nasceu de uma linha de baixo bem The Cure, bem Peter Hook, super reta. A estrutura da m\u00fasica, que \u00e9 minha com o Robert, nasceu no baixo. Acho que eu cheguei com um peda\u00e7o das guitarras para ela tamb\u00e9m, mirando n\u00e3o s\u00f3 o p\u00f3s-punk, mas tamb\u00e9m nesse novo dream pop\/shoegaze. E na grava\u00e7\u00e3o, com os synths, ela ganha uma coisa meio Legi\u00e3o Urbana. Pessoalmente, \u00e9 uma das minhas m\u00fasicas favoritas, at\u00e9 porque tem uma hist\u00f3ria muito pessoal com a letra. S\u00e3o duas hist\u00f3rias, na verdade. Uma \u00e9 porque o corpo da letra est\u00e1 composto a partir de outro texto, de um grande amigo meu \u2013 e o t\u00edtulo da m\u00fasica est\u00e1 relacionado a esse texto. Acaiaca \u00e9 o nome de um edif\u00edcio muito imponente em Belo Horizonte, que costuma ser uma escolha comum de suicidas na cidade \u2013 e a m\u00fasica tateia esse tema. A outra hist\u00f3ria \u00e9 porque eu divido a letra com a Nat\u00e1lia Fernandes, uma grande amiga. N\u00f3s ficamos amigos a partir de um date, e eu lembro que no nosso primeiro date \u2013 ter\u00e7a-feira, 3h da manh\u00e3, num esquema bem \u201cnoturnas\u201d \u2013 ela me falou essa frase que est\u00e1 na letra. \u201cMetade de mim \u00e9 desastre e a outra metade quer partir e quebrar\u201d. Lembro de falar na mesma hora que eu ia roubar a frase para usar numa m\u00fasica e n\u00e3o ia creditar, porque \u00e9 assim que funciona. Eu guardei essa frase durante meses, e quando fui escrever a letra de \u201cAcaiaca\u201d, ela veio. Mas como eu n\u00e3o roubo, a Nat\u00e1lia ficou como parceira na letra (risos).<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07) \u201cPanorama\u201d &#8211;<\/strong> A Pelos tem uma cultura de dar t\u00edtulos provis\u00f3rios para as m\u00fasicas \u2013 algo que eu acho at\u00e9 perigoso, porque a gente se acostuma com os t\u00edtulos. O t\u00edtulo provis\u00f3rio de \u201cPanorama\u201d era \u201cGueto Bedes\u201d, em uma homenagem ao Beto Guedes, porque ela tem uma cad\u00eancia que remete ao lado mais roqueiro do Clube da Esquina, do Beto de \u201cCaso Voc\u00ea Queira Saber\u201d. \u00c9 algo que veio das imers\u00f5es \u2013 que como eu disse, s\u00e3o muito pautadas por beber cerveja, rir pra caralho, fazer churrasco e escutar muita m\u00fasica. Ouvimos muita coisa juntos, um vai aplicando o outro, vamos lembrando de coisas. E n\u00e3o esque\u00e7o que a primeira audi\u00e7\u00e3o do \u201cNoturnas\u201d foi o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/09\/clube-da-esquina-eleito-melhor-album-brasileiro-de-todos-os-tempos-conheca-o-top-10\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Clube da Esquina<\/a>\u201d. At\u00e9 achei que, em algum momento, o \u201cClube\u201d ia contaminar mais o disco. Ele sempre contamina, mas n\u00e3o contaminou tanto. Lembro da gente escutar o \u201cClube\u201d juntos mais de uma vez, numa coisa de louva\u00e7\u00e3o mesmo \u2013 e \u00e9 interessante como esse disco foi reavaliado hoje em dia, porque durante muito tempo ele era escanteado, havia um preconceito enorme. Voltando ao groove, ele vem do Pablo, e n\u00f3s fomos construindo na imers\u00e3o. A letra <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/03\/scream-yell-recomenda-heberte-almeida-apresenta-seu-segundo-disco-solo-folego\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e9 do Tambo<\/a>r, e eu acho que \u00e9 uma letra que ajuda a explicar a ideia do \u201cNoturnas\u201d, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 da boemia ou da melancolia. Na minha vis\u00e3o, \u00e9 o Tambor no carro ou no Uber, fotografando subjetivamente uma grande avenida da cidade, num momento contemplativo, com os atravessamentos do r\u00e1dio, as ondas de nostalgia. Acho a letra muito feliz.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08) \u201cInsustent\u00e1vel Leveza\u201d &#8211;<\/strong> Inicialmente conhecida como \u201cCan\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica para Simone Biles Bailar\u201d, em uma refer\u00eancia ao Minutemen. Mas para n\u00e3o entregar muito o jogo, ela acabou mudando de nome e virando \u201cInsustent\u00e1vel Leveza\u201d. \u00c9 o coment\u00e1rio pol\u00edtico mais evidente do disco. A m\u00fasica e e a letra s\u00e3o minhas, numa forma de declarar meu amor a Curtis Mayfield \u2013 um dos artistas que eu mais amo na vida. Tenho uma certa obsess\u00e3o com ele, como tenho com Stevie Wonder. Ela nasceu a partir de uma linha de baixo que eu ficava repetindo insistentemente na banda. Quando eu mostrei, os meninos encheram o saco: \u201cah, essa \u00e9 a porra daquela linha de baixo que voc\u00ea faz\u201d. Ela \u00e9 uma m\u00fasica composta no baixo e \u00e9 um coment\u00e1rio sobre o corpo preto, no ponto de vista do corpo preto masculino. \u00c9 uma m\u00fasica que fala sobre o que pode e o que n\u00e3o pode, sobre quem pode e quem n\u00e3o pode. Ela talvez seja inspirada numa express\u00e3o de um poeta genial de BH, o Ricardo Aleixo, que fala do \u201clugar de falha\u201d. Ele discute muito a pretitude e usa esse trocadilho po\u00e9tico, bonito e muito potente, para contrapor a excel\u00eancia do corpo preto. O corpo preto \u00e9 muito colocado semioticamente nesse lugar da excel\u00eancia no esporte, nas artes, mas\u2026 se falhar \u00e9 complicado. O corpo preto n\u00e3o tem direito ao lugar de falha \u2013 o que est\u00e1 expl\u00edcito no verso \u201ce se Simone Biles bailar, a culpa \u00e9 do ar\u201d. \u00c9 uma m\u00fasica que estaria bem no \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d. Al\u00e9m disso, tem a participa\u00e7\u00e3o da Michelle Oliveira, uma grande parceira nossa, uma cantora magn\u00edfica de BH que est\u00e1 preparando o primeiro trampo dela. Para fechar, n\u00e3o sei se foi de prop\u00f3sito, mas essa m\u00fasica tem\u2026 um gancho, um refr\u00e3o para ser cantado em show. De maneira geral, \u00e9 um disco que tem refr\u00f5es que a gente espera que sejam cantados em show. Ao mesmo tempo que o \u201cNoturnas\u201d tem elementos mais negros, ele tamb\u00e9m \u00e9 um disco mais pop, de can\u00e7\u00f5es e refr\u00f5es.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>09) \u201cDa Beira de Tudo\u201d-<\/strong> A maior parte das nossas m\u00fasicas surge sem letra, mas at\u00e9 onde me lembro, \u201cDa Beira de Tudo\u201d j\u00e1 surgiu com letra. \u00c9 uma m\u00fasica muito pr\u00f3pria da banda. A Pelos tem algumas bandas de estima\u00e7\u00e3o, que pouca gente referencia, mas que n\u00f3s amamos. \u00c9 o caso do Nick Cave, do TV on The Radio, e de outra banda mais insuspeita, que \u00e9 o Mercury Rev. \u201cDa Beira de Tudo\u201d \u00e9 o mais pr\u00f3ximo que o \u201cNoturnas\u201d tem do \u201c<a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2018\/11\/02\/ouvindo-deserters-song-mercury-rev\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Deserter\u2019s Songs<\/a>\u201d, no lado barroco, orquestral, \u00e9pico. \u00c9 ainda uma m\u00fasica que dialoga com \u201cTema Para Um Homem Em Queda\u201d, que encerra o \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d: s\u00e3o duas can\u00e7\u00f5es com protagonismo do piano e que v\u00e3o sendo constru\u00eddas em camadas. \u00c9 uma letra bonita do Robert, com uma constru\u00e7\u00e3o textual que traz um um fechamento bonito para o disco. \u201cNoturnas\u201d \u00e9 um disco que vai entrando, vai chafurdando pela noite, com momentos mais ou menos sombreados. J\u00e1 \u201cDa Beira de Tudo\u201d pode ser lida como um alvorecer. Talvez seja uma imagem poss\u00edvel. A madrugada acabou. O sol nascer\u00e1, j\u00e1 diria Cartola.<\/p>\n<figure id=\"attachment_92706\" aria-describedby=\"caption-attachment-92706\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-92706\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Pelos_PorDaisySerena_2025-1-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Pelos_PorDaisySerena_2025-1-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Pelos_PorDaisySerena_2025-1-copiar-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-92706\" class=\"wp-caption-text\"><em>Pelos \/ Foto de Daisy Serena<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/programadeindie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>\u00a0e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com pouco mais de meia hora, \u201cNoturnas\u201d \u00e9 uma imers\u00e3o em uma viv\u00eancia experienciada em Belo Horizonte, mas que pode acontecer \u201cno \u2018baixo centro\u2019 de qualquer cidade\u201d, defende Pereira.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/11\/12\/conheca-noturnas-novo-disco-da-pelos-faixa-a-faixa-ele-trabalha-mais-em-climas-comenta-thiago-pereira\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":92707,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1567],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92703"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92703"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92703\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":92708,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92703\/revisions\/92708"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92707"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}