{"id":92604,"date":"2025-11-10T10:44:22","date_gmt":"2025-11-10T13:44:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=92604"},"modified":"2026-01-27T14:33:32","modified_gmt":"2026-01-27T17:33:32","slug":"entrevista-harmada-lanca-os-fugitivos-disco-sobre-pessoas-querendo-se-libertar-da-prisao-da-tecnologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/11\/10\/entrevista-harmada-lanca-os-fugitivos-disco-sobre-pessoas-querendo-se-libertar-da-prisao-da-tecnologia\/","title":{"rendered":"Entrevista: Harmada lan\u00e7a &#8220;Os Fugitivos&#8221;, disco sobre pessoas querendo se libertar da pris\u00e3o da tecnologia"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/noacapelas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/screamyell\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">14 anos: esse foi o tempo que a banda carioca <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bandaharmada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Harmada<\/a> precisou para fazer seu segundo disco. Lan\u00e7ado no final de outubro e inspirado no universo ficcional de Rubem Fonseca, \u201c<a href=\"https:\/\/onerpm.link\/102153154480\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os Fugitivos<\/a>\u201d \u00e9 o sucessor de \u201cM\u00fasica Vulgar Para Cora\u00e7\u00f5es Surdos\u201d, de 2011. Mas <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/manoelmagalhaes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Manoel Magalh\u00e3es<\/a>, vocalista e guitarrista do grupo, evita compara\u00e7\u00f5es com outros \u00e1lbuns que demoraram a sair do forno. \u201cN\u00e3o \u00e9 o \u2018Chinese Democracy\u2019 da Harmada, porque eu acho que saiu certo. Muita merda aconteceu, mas tamb\u00e9m faz sentido dar merda e se acertar, n\u00e9?\u201d, brinca ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No melhor esp\u00edrito \u201ca vida \u00e9 o que acontece enquanto a gente faz outros planos\u201d, o disco chega \u00e0s plataformas digitais depois que a Harmada passou por uma pandemia, um golpe e uma por\u00e7\u00e3o de outros projetos. No caso de Magalh\u00e3es, essa lista inclui um disco solo, document\u00e1rios (os j\u00e1 lan\u00e7ados \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Y3gpJcs3dyY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nada Pode Parar os Autoramas<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GzIfomWc4NY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Itaperuna Esporte Clube, A \u00c1guia do Noroeste<\/a>\u201d, al\u00e9m de outro sobre o rock oitentista brasileiro ainda a caminho), uma tese de doutorado em finaliza\u00e7\u00e3o e um livro no prelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, o mundo tamb\u00e9m mudou de 2011 para c\u00e1: mais do que nunca, a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas \u00e9 totalmente mediada pela tecnologia. E \u00e9 justamente disso que a Harmada quer falar neste novo trabalho, fazendo um paralelo entre o cerceamento da liberdade na \u00e9poca da ditadura e uma certa pris\u00e3o, talvez autoimposta, vivida nos dias de hoje. \u201cNos anos 1960 e 1970, as pessoas tinham dificuldade de serem sens\u00edveis ou vivenciar certas realidades. Agora, as pessoas t\u00eam essa liberdade \u2013 ao mesmo tempo em que elas est\u00e3o aprisionadas na quest\u00e3o da tecnologia\u201d, explica o vocalista, que faz o alerta: \u201cN\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o entre o que est\u00e1 sendo composto e o que est\u00e1 sendo vivido.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concebido desde 2015, ap\u00f3s a finaliza\u00e7\u00e3o dos shows de divulga\u00e7\u00e3o de \u201cM\u00fasica Vulgar\u201d, o novo trabalho teve uma longa gesta\u00e7\u00e3o, levando a Harmada a alcan\u00e7ar inclusive uma nova forma\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de Manoel e do tamb\u00e9m fundador Brynner Bu\u00e7ard (guitarra), a banda agora tem em suas fileiras Pedro Henrique Lacerda (guitarra e backing vocals), bem como dois veteranos do indie carioca: o baixista Bernardo Corr\u00eaa (ex-Monotube e Fuzzcas) e o baterista Rodrigo Garcia (ex-Onno, Magical Lovers e Polar). \u201cO indie carioca agora est\u00e1 todo na Harmada\u201d, gaba-se Garcia. \u201cA gente brinca que tem Harmada de 4, que \u00e9 quando o Brynner n\u00e3o est\u00e1, a Harmada de 5 e a Harmada de 8, com os metais\u201d, diz Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00faltimo m\u00eas de agosto, a \u201cHarmada de 4\u201d veio a S\u00e3o Paulo para fazer um show <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/09\/05\/tres-shows-vivian-benford-harmada-e-terminal-guadalupe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">na primeira edi\u00e7\u00e3o na Bretta<\/a> \u2013 festa do Scream &amp; Yell com o Programa de Indie. Na manh\u00e3 seguinte, o grupo concedeu essa entrevista em uma insuspeita sala de estar paulistana, com direito a um frigobar abarrotado de cervejas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo, al\u00e9m de contar os bastidores da feitura de \u201c<a href=\"https:\/\/onerpm.link\/102153154480\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os Fugitivos<\/a>\u201d e a cria\u00e7\u00e3o da nova forma\u00e7\u00e3o da Harmada, Manoel e seus companheiros tamb\u00e9m dissecam, faixa a faixa, o novo trabalho \u2013 que, para o l\u00edder da banda, fermentou como uma boa garrafa de guarda. \u201cAs can\u00e7\u00f5es desse disco tamb\u00e9m fazem cada vez mais sentido. Se \u2018Os Fugitivos\u2019 tivesse sa\u00eddo em 2018, n\u00e3o seria exatamente a mesma coisa\u201d, diz o vocalista, nascido em Itaperuna, interior fluminense, mas radicado no Rio h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os planos para o futuro \u2013 e para um novo disco, j\u00e1 em prepara\u00e7\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m est\u00e3o na pauta, mesmo em tempos soturnos. \u201c[Com a intelig\u00eancia artificial], as pessoas est\u00e3o querendo deixar de pensar para que as coisas possam pensar por elas\u201d, afirma Magalh\u00e3es. \u201cAo mesmo tempo, \u00e9 preciso ter esperan\u00e7a de que a vida vai ser boa. N\u00e3o d\u00e1 para ficar pensando que as coisas n\u00e3o t\u00eam solu\u00e7\u00e3o. Sen\u00e3o, a gente n\u00e3o faz m\u00fasica, n\u00e3o faz nada.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ou\u00e7a &#8220;Os Fugitivos&#8221; na integra abaixo<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Os Fugitivos\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_mkuWInJbzKIV-eLrFfY0AlzUTqQXODgGg\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Come\u00e7ando pelo come\u00e7o: o disco se chama \u201cOs Fugitivos\u201d. Do que voc\u00eas est\u00e3o fugindo?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Acho que a gente est\u00e1 fugindo\u2026 de dar certo, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Voc\u00ea diz isso porque o disco demorou pra sair?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Faz parte dessa linha de racioc\u00ednio. Se voc\u00ea pensar, estamos fazendo esse disco h\u00e1 oito anos. Ou 14, se contar o tempo desde o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/08\/harmada-e-o-clube-dos-coracoes-surdos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">M\u00fasica Vulgar Para Cora\u00e7\u00f5es Surdos<\/a>\u201d. Mas fazendo o disco s\u00e3o oito anos. \u00c9 <a href=\"https:\/\/substack.com\/home\/post\/p-157095662\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">quase inexplic\u00e1ve<\/a>l.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: \u00c9 o \u201cChinese Democracy\u201d da Harmada?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u00c9. Quer dizer: n\u00e3o \u00e9 o \u201cChinese Democracy\u201d porque eu acho que saiu certo. (risos) Mas \u00e9 estranho. Muita merda aconteceu, mas tamb\u00e9m faz sentido dar merda e se acertar, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Como surgiu esse clique de pegar os contos do Rubem Fonseca, do livro \u201cOs Prisioneiros\u201d, e desenvolver essa tem\u00e1tica da fuga?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u201cOs Prisioneiros\u201d \u00e9 um livro que fala muito do Brasil dos anos 1960 \u2013 e tamb\u00e9m dos anos 1970, de maneira geral. As pessoas estavam presas num cotidiano muito travado, do tipo de vida que se leva numa ditadura. S\u00e3o contos que falam de pessoas que faziam as coisas escondidas, na surdina. Pessoas que queriam ter pervers\u00f5es sexuais, encontros amorosos fora do padr\u00e3o, pessoas que est\u00e3o aprisionadas num pa\u00eds, num contexto social, buscando ir al\u00e9m daquilo. Tem uma coisa nesses primeiros livros do Rubem Fonseca que \u00e9 um conto que se repete. Ele sempre come\u00e7a os livros com um personagem caminhando \u2013 e o protagonista costuma ser, ao mesmo tempo, um cara violento, mas que tem uma necessidade de viver. No \u201cA For\u00e7a Humana\u201d [do livro \u201cA Coleira do C\u00e3o\u201d, de 1965], o personagem vive um contexto de academia de malha\u00e7\u00e3o, de ser forte, ao mesmo tempo que ele tem uma subjetividade que n\u00e3o consegue expressar, porque a viol\u00eancia est\u00e1 acima da sensibilidade. Ele n\u00e3o consegue ser sens\u00edvel porque est\u00e1 aprisionado na viol\u00eancia. E nos anos 1960 e 1970, as pessoas tinham dificuldade de serem sens\u00edveis ou vivenciar certas realidades. E nos anos 2000, as pessoas t\u00eam essa liberdade \u2013 ao mesmo tempo em que elas est\u00e3o aprisionadas na quest\u00e3o da tecnologia. A ideia de \u201cOs Fugitivos\u201d \u00e9 a de mostrar pessoas querendo se libertar dessa pris\u00e3o da tecnologia. A internet padroniza muito a vida. Toda experi\u00eancia que voc\u00ea vai vivenciar \u00e9 padronizada. Voc\u00ea vai comer por um aplicativo, vai andar de carro por um aplicativo, vai se relacionar num aplicativo. \u00c9 tudo muito igual. N\u00e3o sei se voc\u00eas t\u00eam a sensa\u00e7\u00e3o de que, \u00e0s vezes, tem uma onda na internet e as pessoas s\u00f3 querem o que est\u00e1 dentro dessa onda. \u201cOs Fugitivos\u201d \u00e9 a minha forma de pensar na narrativa de pessoas que querem fugir disso. \u201cA Estrada\u201d, por exemplo, \u00e9 a hist\u00f3ria de um cara que um dia percebe que n\u00e3o tem nada na vida. N\u00e3o tem relacionamento, n\u00e3o tem fam\u00edlia. Ele pode ir para qualquer lugar. \u00c9 uma coisa que sinto que as pessoas n\u00e3o pensam muito. Conhe\u00e7o gente que poderia fazer qualquer coisa da vida e n\u00e3o faz porque j\u00e1 vive dentro de uma ideia. Cada letra, se voc\u00ea for pensar, \u00e9 a hist\u00f3ria de algu\u00e9m que est\u00e1 levando a ideia de fugir ao extremo, de fazer uma coisa que n\u00e3o \u00e9 o que todo mundo est\u00e1 fazendo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-92608 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/osprisioneiros.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/osprisioneiros.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/osprisioneiros-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: \u00c9 muito doido pensar nisso. A internet surgiu com uma ideia de liberdade, do nicho poder ter espa\u00e7o, das pessoas discutirem suas paix\u00f5es e interesses mais espec\u00edficos. A Harmada \u00e9 uma banda que vem dessa experi\u00eancia, dessa gera\u00e7\u00e3o. Esse desconforto do disco est\u00e1 relacionado com essa expectativa inicial do que a tecnologia viria a ser?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Se voc\u00ea pensar, h\u00e1 um grande di\u00e1logo que acontece entre a banda e a exist\u00eancia das pessoas. O \u201cM\u00fasica Vulgar para Cora\u00e7\u00f5es Surdos\u201d surge numa \u00e9poca em que comecei a perceber que as pessoas n\u00e3o estavam mais ouvindo m\u00fasica. A m\u00fasica tinha virado um ru\u00eddo de fundo, da internet. Hoje, voc\u00ea vai fazer alguma coisa e coloca m\u00fasica para ouvir, n\u00e3o tem mais aquela aten\u00e7\u00e3o. Se em 2011 j\u00e1 sent\u00edamos isso, hoje em dia \u00e9 algo totalmente consolidado. At\u00e9 acho que essa quest\u00e3o da volta do vinil \u00e9 uma esp\u00e9cie de resist\u00eancia a isso. Porque o streaming \u00e9 totalmente ru\u00eddo de fundo. \u201cAlexa, toca qualquer coisa\u201d. Voc\u00ea est\u00e1 pedindo para ela fazer m\u00fasica de fundo. Mas o que tem a ver com o que voc\u00ea disse \u00e9 que os temas s\u00e3o relativos a determinadas coisas que est\u00e3o muito intrincadas com a banda; ao mesmo tempo, estamos falando das coisas que vivemos. N\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o entre o que est\u00e1 sendo composto e o que est\u00e1 sendo vivido. \u00c9 bem pr\u00f3ximo, na verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: J\u00e1 que voc\u00ea deu esse gancho, conta um pouco de quando essas can\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a ser feitas. O \u201cM\u00fasica Vulgar\u201d saiu em 2011. Essas m\u00fasicas surgiram quando<\/strong>?<br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: O \u201cM\u00fasica Vulgar\u201d saiu em 2011. Em 2012 e 2013, ficamos tocando. Acho que come\u00e7amos o novo disco entre 2014 e 2015, foi quando eu comecei a compor. Mas s\u00f3 come\u00e7amos a ensaiar em 2017. Eu n\u00e3o saberia explicar porque demorou tanto de 2011 para 2017. Mas em 2017 sei que a gente ensaiou muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Quem \u00e9 \u201ca gente\u201d nessa \u00e9poca?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Em 2017, a [baixista] Eliza [Schinner] tinha ido morar fora do Brasil. No lugar dela, eu chamei o Bruno [Vouzella], que \u00e9 um parceiro de vida. J\u00e1 tivemos banda juntos, fazemos filmes juntos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: \u00c9 que nem a m\u00fasica da Letrux.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: (risos) O Bruno \u00e9 quase o meu <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/10\/faixa-a-faixa-teoria-da-terra-plena-de-e-por-lucas-vasconcellos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lucas (Vasconcellos)<\/a>. Ele entrou para compor e fazer m\u00fasicas comigo. O Davi Lisboa estava tocando bateria com a gente na \u00e9poca tamb\u00e9m, bem como o Brynner, que sempre fez parte da Harmada. O Brynner quase nunca est\u00e1 presente porque ele \u00e9 m\u00e9dico, tem que operar as pessoas \u2013 e entre a vida de algu\u00e9m e a Harmada, a vida \u00e9 mais importante. Mas o Brynner \u00e9 do n\u00facleo da banda desde sempre. N\u00f3s quatro ensaiamos \u201cOs Fugitivos\u201d em 2017. Come\u00e7amos a gravar no final de 2017. E nesse processo, problemas aconteceram\u2026 crises, problemas internos das pessoas. E em 2018, lancei meu \u00e1lbum solo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/manoel.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Lembro disso. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/10\/07\/entrevista-manoel-magalhaes-e-a-felicidade-de-lancar-um-disco-imensamente-triste\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quando entrevistei voc\u00ea nessa \u00e9poca<\/a>, a gente estava conversando antes de ligar o gravador e voc\u00ea me contou que o disco da Harmada ia sair\u2026<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Pois \u00e9, a gente estava fazendo. S\u00f3 que meu disco entrou na frente em 2018, em 2019 fiz turn\u00ea e em 2020 veio a pandemia. A\u00ed ferrou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Que \u00e9 uma \u00f3tima desculpa.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u00c9 a desculpa que procuro. Era o que eu queria para poder enrolar. (risos). Mas o engra\u00e7ado \u00e9 que o disco andou na pandemia: o Bruno gravou uns baixos, eu editei algumas coisas. At\u00e9 que, em 2023, eu e o Brynner decidimos terminar essa parada de qualquer jeito. N\u00f3s nunca estivemos separados. Quando come\u00e7amos a banda, \u00e9ramos eu, Brynner, Juliana [Goulart] e Filipi [Cavalcante]. O Filipi foi casar, priorizou o casamento e\u2026 acabou saindo. E a Juliana, nesse retorno de 2023, chegamos a conversar com ela para ela voltar. Mas n\u00e3o rolou. E a\u00ed que foi a parte legal da galera nova que entrou na banda, porque isso nos deu muito g\u00e1s. Tenho um amigo que \u00e9 o S\u00e9rgio Luz. Produzi um disco dele como Jimi Light. E ele tinha uma banda que era o Jimi Light and the Magical Lovers.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Muito carioca esse nome.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: E os Magical Lovers eram o Silvio Essinger no baixo e o Rodrigo Garcia na bateria. Poxa, eu e Brynner \u00e9ramos dois guitarristas, precis\u00e1vamos de baixo e bateria. Falei com o Garcia pra gente se juntar, ia ser uma pizza metade Harmada, metade Magical Lovers. Al\u00e9m disso, tem um ponto maravilhoso nessa hist\u00f3ria: o Garcia era da Polar (nota: <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/polar.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">primeira banda de Manoel<\/a>). Assim, chamando ele para a banda, a Harmada ia ser metade Polar tamb\u00e9m. Qualquer banda que tivesse n\u00f3s dois vai ter 50% Polar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Garcia, nessa \u00e9poca, o que voc\u00ea estava acompanhando da Harmada?<\/strong><br \/>\nRodrigo Garcia: Eu estava olhando de longe. Na \u00e9poca em que a Harmada come\u00e7ou, eu j\u00e1 tinha parado de tocar. Quando a Harmada parou, eu devia estar tocando com o Ginger House, que \u00e9ramos eu, Silvio Essinger e o Luizinho [Alberto Moura], que era da Grand Prix. A\u00ed o S\u00e9rgio me chamou para tocar na Jimi Light. Depois da pandemia, a gente tinha parado. A bateria estava encostada, com poeira e teia de aranha. J\u00e1 achei que n\u00e3o ia mais tocar. Achei que a vida ia ser trabalho-casa, casa-trabalho, at\u00e9 que o Manoel me chamou. Falei \u201cbora\u201d de primeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: E voc\u00ea sabia de toda essa hist\u00f3ria do disco?<\/strong><br \/>\nRodrigo Garcia: N\u00e3o, n\u00e3o sabia. Cheguei a ver o show solo do Manoel, mas n\u00e3o acompanhei mais nada. Eles estavam gravando, era tudo em off, n\u00e3o deu para acompanhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: O S\u00e9rgio foi para Portugal na pandemia, ent\u00e3o os Magical Lovers estavam abandonados. Ia ser perfeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Eles estavam precisando amar. (risos)<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Na sequ\u00eancia, fui falar com o Silvio, mas ele disse que tinha se aposentado. Ele disse que nem tinha mais baixo. Fiquei perguntando por a\u00ed, estava dif\u00edcil, chegamos a falar com a Eliza, at\u00e9 que eu lembrei que o Bernardo tocava com o Mike [Vl\u010dek]. Antes de tudo, quando tudo come\u00e7ou, l\u00e1 no Big Bang das bandas, existia a Onno, que foi uma banda que inspirou muito a gente. E a Onno era o Garcia, o Mike e a Eliza. Quando a Onno terminou, o Mike fez a Monotube, e nessa banda o Bernardo tocava baixo. O Bernardo toca guitarra melhor que todo mundo da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Geralmente os baixistas fazem isso.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: O Bernardo \u00e9 um baita guitarrista, ele tocou na Fuzzcas, sempre foi um grande guitarrista. A princ\u00edpio, n\u00e3o \u00e9 a pessoa que voc\u00ea lembra por tocar baixo. S\u00f3 que o Mike \u00e9 um cara chat\u00edssimo, muito detalhista. Ele n\u00e3o ia colocar algu\u00e9m mais ou menos. E ele \u00e9 muito beatleman\u00edaco, ent\u00e3o o baixo tem um lugar especial. Fiquei pensando no Bernardo, porque a gente tamb\u00e9m j\u00e1 foi muito pr\u00f3ximo na \u00e9poca da Quem. \u00c9 legal at\u00e9 registrar nessa entrevista que, na nossa gera\u00e7\u00e3o, tinha uma galera que vinha de Vila Isabel. O Garcia \u00e9 de Vila Isabel, o Bernardo \u00e9 de Vila Isabel, o bairro tem uma galera que transitou entre todas as bandas. Se precisasse de algu\u00e9m para tocar, voc\u00ea ia l\u00e1 catar em Vila Isabel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: Tinha a Carol [Lima, do Fuzzcas], o [Rodrigo] Cosenza, [da Gioconda e da Quem?!], o Rodrigo Rodriguez, [da Regra Zero]\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Garcia: O Felipe Moura [irm\u00e3o do Bernardo, da banda Mais do Mesmo].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: A Carol montou o Fuzzcas depois, tem a galera dos Filhos da Judith, que depois foram tocar com o Erasmo. Na \u00e9poca da Quem e da Polar, eu convivia muito com essa galera. E um dia, nessas coincid\u00eancias, acho que o Bernardo refez o Instagram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: Acho que eu n\u00e3o tinha voc\u00ea no Instagram. Sei que eu estava em casa com o Cosenza, escutando as m\u00fasicas daquela \u00e9poca, de Columbia, de Polar. A\u00ed adicionei o Manoel e do nada ele me mandou mensagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: Lembro que falei pro Garcia na \u00e9poca: \u201cp\u00f4, o que voc\u00ea acha do Bernardo?\u201d. Ele respondeu: \u201cBerna? Berna is a monster!\u201d. (risos). Foi a melhor escolha poss\u00edvel. \u00c9 uma pessoa maravilhosa de conviver. \u00c0s vezes at\u00e9 fico pensando que a banda n\u00e3o pode acabar porque quero conviver mais com o Bernardo. (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: No final das contas, ficou 50% Polar, 50% Monotube tamb\u00e9m.<\/p>\n<figure id=\"attachment_92609\" aria-describedby=\"caption-attachment-92609\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-92609\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/001-Credito-Pedro-Freitas-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1131\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/001-Credito-Pedro-Freitas-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/001-Credito-Pedro-Freitas-copiar-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-92609\" class=\"wp-caption-text\">A forma\u00e7\u00e3o 2025 da Harmada \/ Foto de Pedro Freitas<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: O indie carioca virando aquela pizza que d\u00e1 pra pedir tr\u00eas sabores de uma vez. (risos)<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Mistura total. E tem 50% da Onno tamb\u00e9m, porque quando a Eliza saiu da Onno, eu toquei baixo na Onno. Era o Mike, o Garcia e eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Garcia: O indie carioca est\u00e1 todo na Harmada!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: O indie carioca est\u00e1 parecendo uma kitnet. Todo mundo toca em todo lugar, voc\u00ea abre a porta da cozinha e bate no cara que est\u00e1 saindo do banheiro\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Voc\u00ea abre a porta do camarim e tem algu\u00e9m transando\u2026 (risos)<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u00c9 total isso. Transitamos por v\u00e1rias bandas. \u00c9 uma coisa que aconteceu tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo, essa coisa do Charles Gavin trocar com o Andr\u00e9 Jung.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Ou seja, com o Garcia e o Bernardo, voc\u00ea conseguiu montar a cozinha\u2026<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Exatamente. E o Brynner estava sempre comigo. Mas o que acontece: o Brynner \u00e9 anestesista \u2013 e \u00e9 um anestesista muito bom. O que acontece \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil marcar um compromisso com ele. Ele at\u00e9 tenta se organizar, mas tudo tem que ser muito ajustado. Ele se esfor\u00e7a, n\u00e3o d\u00e1 para desfazer esse elo, porque a banda sempre fomos n\u00f3s dois. Independentemente de tudo o que aconteceu, est\u00e1vamos sempre juntos. Se quebrar esse elo, desfaz a banda. Para complementar, naquele momento em que o Bernardo e o Garcia entraram, o Brynner ainda teve um filho. Foi muito complicado. Pensamos que n\u00f3s precis\u00e1vamos ter algu\u00e9m para tocar quando o Brynner n\u00e3o pudesse. Quer\u00edamos algu\u00e9m que viesse para acrescentar, que pudesse funcionar com e sem o Brynner. E a\u00ed o Pedrinho \u00e9 muito meu amigo. Ele n\u00e3o era dessa cena, mas chamei o Pedrinho\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: E isso foi quando?<\/strong><br \/>\nPedro Lacerda: Foi entre dezembro de 2023 e janeiro de 2024, porque come\u00e7amos a ensaiar bem no in\u00edcio de 2024. Eu cheguei a falar para o Manoel, antes disso, que minhas guitarras estavam quase enferrujando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: O Manoel tirando todo mundo da aposentadoria\u2026<\/strong><br \/>\nPedro Lacerda: Foi! Eu estava quase vendendo minhas guitarras. Mas comentei que podia marcar de fazer um som com o Manoel e ele lembrou disso. Ele me convidou, fizemos um ensaio e desde ent\u00e3o estamos a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: Foi algo que casou super. O Pedrinho conseguiu tirar as coisas que o Brynner faz, de maneira que n\u00e3o descaracteriza o trabalho. O solo que ele fez no show ontem \u00e9 um solo do Brynner no disco, que ele tirou perfeitamente. Mas, ao mesmo tempo, ele tamb\u00e9m trouxe as coisas dele \u2013 e ele ainda canta. Quando o Brynner est\u00e1, fica bom com os dois tamb\u00e9m. Fica um pared\u00e3o de guitarras. A gente brinca que tem Harmada de 4, Harmada de 5 e Harmada de 8, que \u00e9 com os metais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro Lacerda: \u00c9 muito legal porque lembro exatamente de quando ouvi a Harmada pela primeira vez. Um amigo meu me deu um CD de voc\u00eas na porta do Studio RJ. <a href=\"https:\/\/harmada.bandcamp.com\/album\/m-sica-vulgar-para-cora-es-surdos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lembro de ouvir o \u201cM\u00fasica Vulgar\u201d<\/a>, \u201cAvenida Dropsie\u201d e \u201cSufoco\u201d eram as m\u00fasicas que eu mais curtia. \u00c9 muito doido para mim, tantos anos depois, estar no palco tocando essas m\u00fasicas. Sou de Vassouras, no interior fluminense, e l\u00e1 as bandas todas eram cover. Sempre quis tocar numa banda que tivesse as pr\u00f3prias m\u00fasicas. \u00c9 legal fazer s\u00f3 \u201cfazer um som\u201d, mas eu estava cansado disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: L\u00e1 em Itaperuna tamb\u00e9m tinha essa crise de que todo mundo toca cover. L\u00e1, as pessoas at\u00e9 me olham meio assim: \u201colha o cara que faz a m\u00fasica dele\u2026\u201d. \u00c9 uma coisa meio amor-e-\u00f3dio.<\/p>\n<figure id=\"attachment_92610\" aria-describedby=\"caption-attachment-92610\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-92610\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/musicavulgar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/musicavulgar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/musicavulgar-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-92610\" class=\"wp-caption-text\"><em>&#8220;M\u00fasica Vulgar para Cora\u00e7\u00f5es Surdos&#8221;, disco de 2011 da Harmada<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Recentemente, o Manoel escreveu um texto <a href=\"https:\/\/substack.com\/home\/post\/p-157095662\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">falando sobre os 20 anos da Harmada<\/a>. \u00c9 um repert\u00f3rio que para ele j\u00e1 tem uma carga. Pedro e Bernardo, como voc\u00eas viram esse repert\u00f3rio que o Manoel j\u00e1 tinha composto? E como foi trabalhar essas can\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nBernardo: Acho que foi tranquilo. Ele mostrou as m\u00fasicas porque queria voltar a tocar. Primeiro, n\u00f3s ensaiamos o disco antigo. Depois, o Manoel mandou algumas do disco novo. Fiquei impressionado quando ele mostrou o single, \u201cQuando Voc\u00ea Chegar\u201d. A verdade \u00e9 que eu sou f\u00e3 do Manoel h\u00e1 muito tempo, desde a \u00e9poca da Quem. S\u00f3 voltei a tocar porque era ele. Eu estava parado desde 2013, quando meu filho nasceu \u2013 se n\u00e3o fosse o Manoel ou o Mike, eu nem sairia de casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Garcia: Conhe\u00e7o o Manolo h\u00e1 muito tempo e sempre vi muito conte\u00fado nas letras dele. Na Polar, especialmente, pude ver que as letras eram bem profundas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo: Sempre me pergunto de onde vem isso, porque ele tem muita facilidade para compor. As letras dele me tocam muito. O repert\u00f3rio \u00e9 lindo, as m\u00fasicas todas. Para mim, foi muito f\u00e1cil aceitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: O quanto tem de participa\u00e7\u00e3o destes rapazes no disco, Manoel? E o que ficou das grava\u00e7\u00f5es de 2017?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Ao longo do processo, n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos muita coisa gravada. O \u00fanico que n\u00e3o participou do disco foi o Garcia, porque as baterias j\u00e1 estavam gravadas. Geralmente, quando voc\u00ea grava um disco, voc\u00ea grava as guias e depois as baterias. O Davi Lisboa j\u00e1 tinha gravado umas partes de bateria. E quando a gente resolveu voltar, para facilitar o processo, eu pedi para o [produtor] Gustavo Krebs fazer as baterias que faltavam. Foram v\u00e1rios os motivos. Ele sempre esteve com a gente nas produ\u00e7\u00f5es. Ele foi o produtor do primeiro disco, e agora ele mixou e editou. O Gustavo, vale lembrar, era do Clarim Di\u00e1rio \u2013 que era a banda da Vivian Benford. Eles foram casados por um tempo tamb\u00e9m. Depois, ele tocou numa banda chamada Narjara, que at\u00e9 teve problemas com a [atriz] Narjara Turetta por conta do nome. Depois, o Gustavo virou produtor e engenheiro de som, trabalhou muito tempo na Biscoito Fino. Foi por causa dele que a gente conseguiu gravar o primeiro disco. Ele trabalhava na Biscoito Fino e a Harmada ia l\u00e1 e invadia as madrugadas na Biscoito Fino. Aquele disco \u00e9 todo bem produzido porque foi gravado num est\u00fadio de ponta. Era Maria Beth\u00e2nia de dia e Harmada \u00e0 noite. Mas enfim, para resolver as baterias eu deixei o trabalho com o Gustavo, porque as baterias eram a parte mais chatinha do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Voc\u00ea fez as pazes com as baterias do disco?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u00c9, fiz as pazes. \u00c9 uma coisa meio Gilberto Gil, sabe? \u201cOs pecados s\u00e3o todos meus\u201d. O problema nunca \u00e9 com a pessoa. \u00c9 comigo. Eu tenho um som na cabe\u00e7a e estou tentando buscar\u2026 e \u00e0s vezes\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: Uma pessoa n\u00e3o vai entregar o que voc\u00ea quer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: Pode ser um descompasso, porque a pessoa pode pensar em outra coisa. Eu talvez tivesse de ter a maturidade de manejar. Mas o espa\u00e7o de grava\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte. Poucos espa\u00e7os tiram uma coisa quase visceral, animal, das pessoas, como um est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o. Eu j\u00e1 vi gente super gentil virar um le\u00e3o l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: \u00c9 o problema do tax\u00edmetro ligado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: \u00c9 um ambiente tenso. \u00c9 dif\u00edcil criar rela\u00e7\u00f5es em que todo mundo fique de boa numa grava\u00e7\u00e3o. Demora, n\u00e9? Acho que \u00e9 at\u00e9 mais dif\u00edcil do que achar um companheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Mas \u00e0s vezes todo mundo se odeia e d\u00e1 um grande resultado!<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Quantas vezes a gente j\u00e1 n\u00e3o ouviu isso? Realmente acontece. Mas voltando: s\u00f3 o Garcia n\u00e3o participou desse processo. J\u00e1 o Bernardo j\u00e1 chegou e gravou. O Bruno tinha feito uma parte dos baixos na pandemia, quando ele chegou a vir ao Brasil. Ele est\u00e1 morando em Barcelona. E numa dessas vindas, ele tentou tocar \u201cPiscina de Crian\u00e7as Universal\u201d&#8230; e ele j\u00e1 n\u00e3o conseguia mais. E a\u00ed o Bernardo pegou e fez facilmente. No fim das contas, teve o melhor de dois mundos: o Bruno gravou os baixos que ele comp\u00f4s lindamente, assim como o Bernardo tamb\u00e9m pegou e fez outros baixos. Casou de ter dois caras que eu adoro fazendo baixos muito legais. E o Pedrinho chegou a ponto de colocar alguns backing vocals e guitarras dele. Agora, quero muito \u00e9 fazer um disco com essa forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_92611\" aria-describedby=\"caption-attachment-92611\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-92611 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/harmada1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/harmada1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/harmada1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/harmada1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-92611\" class=\"wp-caption-text\"><em>&#8220;Os Fugitivos&#8221;, novo disco da Harmada<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Aproveitando que a gente est\u00e1 nesse momento detalhista, vamos fazer um faixa-a-faixa. Vamos falar de \u201cDestino\u201d.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: A \u00fanica coisa da qual voc\u00ea n\u00e3o pode fugir \u00e9 o destino, n\u00e9? (risos). Cada m\u00fasica desse disco \u00e9 um cap\u00edtulo, que resume alguma ideia. Achei que tinha de ter um cap\u00edtulo no disco a respeito disso. E tem uma coisa interessante: as pessoas tendem a pensar no destino como algo que vem do futuro. O destino est\u00e1 tra\u00e7ado, as coisas v\u00e3o acontecer. Mas eu comecei a pensar sobre a fun\u00e7\u00e3o do passado no destino. Se voc\u00ea vivenciou determinadas coisas, todas as outras viv\u00eancias s\u00e3o marcadas pelo que voc\u00ea j\u00e1 viveu. Toda a letra vai nessa met\u00e1fora: \u201ceu queria n\u00e3o ter vivido\u201d, \u201ceu queria n\u00e3o sofrer com isso\u201d, mas \u00e9 inevit\u00e1vel. \u00c9 o destino. Criei a letra sobre essas viv\u00eancias anteriores do protagonista e essa inviabilidade de apag\u00e1-las, que \u00e9 a hist\u00f3ria do \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/20\/os-20-anos-de-brilho-eterno-de-uma-mente-sem-lembrancas-e-sua-reedicao-em-blu-ray-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembran\u00e7as<\/a>\u201d. Tem muito disso no nosso imagin\u00e1rio. \u00c9 uma m\u00fasica da qual sempre gostei, ela come\u00e7a muito leve, tem uma base lenta e no final ela explode. Mas sempre pensei que ela precisava de uma outra voz. O destino est\u00e1 relacionado \u00e0 viv\u00eancia com outras pessoas. Fiquei pensando em quem eu poderia chamar. Quase chamei a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/09\/29\/selo-scream-yell-baixe-pomar-de-vivian-benford\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vivian [Benford]<\/a>, mas acho que ia ser uma repeti\u00e7\u00e3o de coisas que j\u00e1 fizemos. At\u00e9 que apareceu a 1LUM3, uma cantora de S\u00e3o Paulo, que chegou a cantar com o Baco Exu do Blues em alguns discos dele. Acompanhava o trabalho dela e ela sempre me disse que era f\u00e3 da Polar e da Harmada. Fiquei muito feliz quando ela foi cantar com o Baco. Um dia, ela fez um tweet dizendo que o sonho dela era fazer uma m\u00fasica comigo. Resolvi cham\u00e1-la para cantar \u2013 e foi perfeito. Ela arrebentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: Ferrou o Pedrinho, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: Pois \u00e9, ele tem que fazer a voz dela ao vivo. A m\u00fasica ganhou uma coisa que a gente n\u00e3o estava esperando. N\u00e3o \u00e9 a que eu mais gosto do disco, mas com certeza \u00e9 a melhor realiza\u00e7\u00e3o. Ela consegue remeter \u00e0 Harmada do primeiro disco, e ao mesmo tempo, soar completamente nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Vou sair do faixa-a-faixa para saber: qual \u00e9 a que voc\u00ea mais gosta?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Acho que \u00e9 \u201cEm Fuga\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Mas essa \u00e9 a favorita da Renata [esposa de Manoel], como voc\u00ea disse no show ontem. Voc\u00ea est\u00e1 copiando ela.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Cara, mas a\u00ed que t\u00e1: n\u00e3o acho que estou, n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: Voc\u00eas gostam de fazer as coisas escondidos? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: N\u00e3o, n\u00e3o. Gosto de \u201cEm Fuga\u201d porque \u00e9 a mais esperan\u00e7osa.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-92612 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/quando-voce.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/quando-voce.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/quando-voce-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: \u201cQuando Voc\u00ea Chegar\u201d vem depois. Ela foi o primeiro single, tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Essa \u00e9 sobre algu\u00e9m que est\u00e1 fugindo de um relacionamento para come\u00e7ar outro. Voc\u00ea est\u00e1 saindo de algo e esperando uma pessoa para construir uma coisa nova, mas essa pessoa j\u00e1 existe. \u201cQuando Voc\u00ea Chegar\u201d \u00e9 o momento de consumar a fuga. Uma coisa que eu queria fazer era tornar as m\u00fasicas um pouco mais complexas no sentido harm\u00f4nico. A harmonia dela \u00e9 toda mais estranha, mais dif\u00edcil. Tem f\u00e1 sustenido maior, tem sol com s\u00e9tima maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro Lacerda: S\u00e3o muitos acordes com t\u00e9trades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: Depois cai para um mi bemol menor. Voc\u00ea n\u00e3o vai achar muita m\u00fasica que tenha essa progress\u00e3o harm\u00f4nica. \u00c9 doido: a Harmada \u00e9 uma banda de rock, mas eu queria que ela tivesse umas baladas meio R&amp;B.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Ela tem um tom de r\u00e1dio AM.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u00c9. Ao mesmo tempo, os metais tornam a coisa mais natural. Ela vira uma balada, um balad\u00e3o bonito. Acho que \u00e9 uma das m\u00fasicas mais esperan\u00e7osas do disco, porque \u00e9 uma fuga para construir algo novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: E como foi escolh\u00ea-la para ser o primeiro single?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: O Bernardo \u00e9 que pode falar bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: N\u00e3o lembro exatamente n\u00e3o (risos). Lembro que voc\u00ea perguntou no grupo e falei direto: \u201cQuando Voc\u00ea Chegar\u201d. Porque quando ele me chamou para tocar, ele mostrou as m\u00fasicas e eu fiquei impressionado. \u201cCaralho, que m\u00fasica \u00e9 essa?\u201d. Eu n\u00e3o conseguia parar de escutar. E quando ele perguntou o que poderia ser single, disse que eu era suspeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Ela tem nome de single, n\u00e9? Ela antecipa o pr\u00f3ximo disco.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u00c9 verdade. Mas tamb\u00e9m tem uma quest\u00e3o pr\u00e1tica. Ela j\u00e1 estava mais pronta, ela demandou menos idas a Paquet\u00e1 [onde mora Gustavo Krebs]. Mas \u00e9 engra\u00e7ado: hoje em dia, o single mais legal \u00e9 \u201cDestino\u201d. At\u00e9 mudei a ordem do disco na minha cabe\u00e7a, porque inicialmente ele abriria com \u201cPrisioneiro\u201d. Ficamos realmente muito satisfeitos com o resultado dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Agora vem a minha favorita, que \u00e9 \u201cPiscina de Crian\u00e7as Universais\u201d. Acho o t\u00edtulo heterodoxo. Parece um t\u00edtulo do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=violins\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Violins<\/a>.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Esse t\u00edtulo\u2026 ele j\u00e1 mudou v\u00e1rias vezes. Mas, desde o in\u00edcio, pensei em \u201cPiscina de Crian\u00e7as Universais\u201d. Tinha a quest\u00e3o da piscina, de ser raso. O universal vem do sentido de que voc\u00ea n\u00e3o sai, de que voc\u00ea est\u00e1 preso naquele universo. Uma piscina de crian\u00e7a \u00e9 muito confort\u00e1vel, voc\u00ea vai ser sempre bem recebido nesse espa\u00e7o. \u00c9 uma m\u00fasica que tem muito a ver com a internet, de como as pessoas ficam confort\u00e1veis em certos pap\u00e9is. Quantas vezes a gente j\u00e1 pensou que uma quest\u00e3o existe s\u00f3 no Twitter? Na vida real as pessoas n\u00e3o est\u00e3o nem falando disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: O famoso Instituto Banana Preta.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Exatamente. [Uma piscina de crian\u00e7a] \u00e9 s\u00f3 para a crian\u00e7a brincar, porque, na verdade, aquilo n\u00e3o impacta em nada a vida de ningu\u00e9m. Um tema que eu queria abordar no disco \u00e9 que tem gente que fica muito confort\u00e1vel com o drama, mas o drama n\u00e3o \u00e9 real. As pessoas criam dramas e n\u00e3o t\u00eam a atitude de sair deles, de viver suas vidas e seguirem em frente. \u00c9 mais f\u00e1cil n\u00e3o fazer as coisas porque voc\u00ea est\u00e1 preso num drama. Por isso, \u201cPiscina de Crian\u00e7as Universais\u201d. Sempre achei que era um nome complicado de botar numa m\u00fasica. Mas acho que era o \u00fanico t\u00edtulo que dizia exatamente o que eu queria dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: \u00c9 engra\u00e7ado porque, quando eu escutei, eu entendi que era uma m\u00fasica de um casal em crise \u2013 o que me remeteu a \u201cSufoco\u201d, do \u201cM\u00fasica Vulgar\u201d. \u201cSufoco\u201d \u00e9 uma daquelas m\u00fasicas que, se faz sentido, \u00e9 porque est\u00e1 na hora de terminar um relacionamento.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Entendo. Mas acho que a letra de \u201cPiscina\u201d n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o literal. Ela tem imagens de gente afundando em determinadas situa\u00e7\u00f5es \u2013 o fone de ouvido, o fundo do oceano. S\u00e3o imagens de algu\u00e9m muito absorvido por uma parada. Muitas vezes, as pessoas n\u00e3o se conectam, n\u00e3o ficam bem, porque algu\u00e9m est\u00e1 muito dentro da pr\u00f3pria cabe\u00e7a ou de uma determinada vis\u00e3o. O bom da m\u00fasica \u00e9 que ela n\u00e3o se fecha numa s\u00f3 interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Ok, vamos pra sua favorita agora: \u201cEm Fuga\u201d.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Acho que ela representa o auge do sonho. \u201cQuero fugir com voc\u00ea\u201d \u00e9 uma coisa muito bonita de se dizer para algu\u00e9m. E ela repete uma met\u00e1fora que aparece bastante no disco, que \u00e9 a met\u00e1fora da piscina. Existe uma rela\u00e7\u00e3o entre o sonho e a piscina, que voc\u00ea submerge no inconsciente. Querer ir com algu\u00e9m para a piscina: eu gosto muito dessa ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Quantas vezes voc\u00ea foi a Inhotim (nota: h\u00e1 no museu mineiro uma obra de arte de Jorge Macchi <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/photo?fbid=489766917712116&amp;set=a.250887978266679\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que \u00e9 uma piscina<\/a> que pode ser usada pelos frequentadores)?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Eu nunca fui!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/graduate.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: E quantas vezes voc\u00ea viu \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/19\/tres-filmes-mike-nichols-1966-1967-e-2007\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Primeira Noite de Um Homem<\/a>\u201d?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Esse com certeza (risos)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Uma banda cinematogr\u00e1fica! (risos)<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Mas n\u00e3o \u00e9 lindo? Acho essa met\u00e1fora da piscina linda \u2013 e gosto da forma como ela aparece no disco duas vezes. Conseguir fazer esse di\u00e1logo \u00e9 algo que acho bonito. Se pegar cada detalhe da letra de \u201cEm Fuga\u201d, fico muito feliz com essa m\u00fasica, ali deu tudo certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: \u201cPrisioneiro\u201d.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u201cPrisioneiro\u201d era para falar do aspecto individual, pegando a met\u00e1fora de algu\u00e9m que est\u00e1 preso, encarcerado, ou tamb\u00e9m preso dentro da pr\u00f3pria cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Como a personagem do conto do Rubem Fonseca, inclusive.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u00c9 por isso que ela \u00e9 a \u00fanica m\u00fasica do disco que tem sujeito singular. \u00c9 \u201co prisioneiro\u201d. Todas as outras m\u00fasicas t\u00eam pessoas se relacionando, s\u00e3o os fugitivos. Sempre pensei em pessoas fugindo juntas, querendo fugir com outra pessoa, ou de outra pessoa, ou fugir das pessoas em geral \u2013 porque \u201cA Estrada\u201d \u00e9 um cara fugindo do mundo. Mas queria que o disco tivesse uma m\u00fasica que fosse algu\u00e9m buscando fugir da pr\u00f3pria cabe\u00e7a. A letra \u00e9 ele falando para ele mesmo, \u201cele diz\u201d, \u201cele quer\u201d. A voz que est\u00e1 dizendo \u00e9 uma voz \u201cem off\u201d, o \u201cele\u201d da letra \u00e9 \u201cvoc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Por isso ela tem esse arranjo mais tenso?<\/strong><br \/>\nPedro Lacerda: Tem muito semitom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: Tem muito semitom, muita tens\u00e3o. A harmonia fica sempre indo e voltando \u2013 e ele quer fugir. A explos\u00e3o da m\u00fasica \u00e9 justamente nesse momento: \u201csonhando, ele vai fugir\u201d. Quando ele sonha, ele consegue sair dessa pris\u00e3o do inconsciente. O sonho \u00e9 uma forma de fugir da realidade, tanto que a \u00faltima m\u00fasica do disco \u00e9 \u201cSonhar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: \u201cA Estrada\u201d.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Em \u201cA Estrada\u201d, pensei num velho que n\u00e3o tem fam\u00edlia. Hoje, a gente discute muito como os idosos est\u00e3o solit\u00e1rios. E \u00e9 engra\u00e7ado: sempre encarei a solid\u00e3o como uma possibilidade. Se nada te prende, voc\u00ea pode fazer qualquer merda \u2013 ainda mais se voc\u00ea tem dinheiro. Para que voc\u00ea vai ficar em casa? Mas a\u00ed \u00e9 que est\u00e1: as pessoas n\u00e3o fazem as coisas por conta de um medo aprisionador. As pessoas est\u00e3o presas no medo. Fugir \u00e9 fugir do medo, \u00e9 enfrentar a vida. Acontece muito comigo das pessoas conversarem e come\u00e7arem a se abrir muito, quase como se fosse terapia. Evito intervir como terapeuta, mas sinto que as pessoas t\u00eam medo de tomar decis\u00f5es, de fazer as coisas. E eu pensava nesse idoso, que um dia resolveu n\u00e3o ter medo: pegar o carro e ir embora da vida. Foi doido porque sonhei com esse personagem que fugia. E ele fugiu no meu sonho e fugiu na m\u00fasica tamb\u00e9m. No meu sonho, ele fugia de \u00f4nibus \u2013 e a primeira ideia era ter o motorista do \u00f4nibus tamb\u00e9m falando na m\u00fasica, de como conversar com esse cara impediu ele de se matar. Mas acabei achando que era viagem da minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: A minha conex\u00e3o para essa m\u00fasica foi com aquela frase que d\u00e1 nome ao disco da <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/lorenafoiembora.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lorena Foi Embora<\/a>: \u201ca coragem de fugir \u00e9 o medo de ficar\u201d.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Faz sentido. Tem a ver mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: A\u00ed vem \u201cIluminar\u201d.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u201cIluminar\u201d tem a ver com duas pessoas: Adriana Calcanhotto e Alice Sant\u2019Anna. A Alice Sant\u2019Anna tem um poema que chama \u201cQuando Faltou Luz\u201d. \u00c9 uma coisa que eu nunca tinha pensado: o que as pessoas fazem quando falta luz? Eu amei o poema dela e fiquei pensando numa m\u00fasica com esse mote. Quando comecei a fazer a m\u00fasica, lembrei que o \u201cVambora\u201d, da Adriana Calcanhotto, cita os livros de poesia. Tem o \u201cNa Cinza das Horas\u201d, [do Manuel Bandeira,] o \u201cDentro da Noite Veloz\u201d, [do Ferreira Gullar]. E eu adoro Adriana Calcanhotto, \u00e9 uma compositora que eu amo. E fiquei pensando nisso e pensei que poderia ter uma rela\u00e7\u00e3o com a Alice Sant\u2019Anna nessa parada. Por isso que a letra fala \u201cdentro de um rabo de baleia\u201d, por conta do livro dela. Dito isso, a letra \u00e9 bem literal: \u00e9 a hist\u00f3ria de algu\u00e9m que est\u00e1 andando pela cidade, pensando na vida, chega em casa e falta a luz. E o bonito da letra \u00e9 que tudo se ilumina de repente, porque \u00e9 quando volta a luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: \u201cNunca Existiu\u201d.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: O primeiro disco da Harmada tem muita m\u00fasica triste. Neste aqui, se voc\u00ea pensar, as m\u00fasicas n\u00e3o s\u00e3o tristes. Na verdade, acho que s\u00e3o muito esperan\u00e7osas \u2013 porque a ideia de fuga \u00e9 uma ideia de esperan\u00e7a. S\u00f3 foge quem est\u00e1 achando que vai ficar melhor. Mas \u201cNunca Existiu\u201d \u00e9 a \u00fanica m\u00fasica triste do disco. \u00c9 uma outra abordagem para a fuga: a fuga de algo que foi bem ruim, que n\u00e3o se concretizou, que se vivenciou com a esperan\u00e7a de que ia ser bom, mas na verdade \u201cnunca existiu\u201d. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o existiu: existiu, mas n\u00e3o chegou a ser algo que fosse importante. \u00c9 uma conversa entre duas pessoas que dizem: \u201cvamos combinar que isso n\u00e3o existiu, sabe?\u201d. E para celebrar essa ideia, esse acordo, me surgiu esse solo de trombone, como se fosse uma comemora\u00e7\u00e3o t\u00e1cita. Ao mesmo tempo, sempre fiquei encanado que havia uma repeti\u00e7\u00e3o do solo de trombone. Achei que tinha de ter outra mensagem no final da m\u00fasica, porque tem uma liga\u00e7\u00e3o entre \u201cIluminar\u201d, \u201cNunca Existiu\u201d e \u201cSonhar\u201d. J\u00e1 havia uma liga\u00e7\u00e3o de &#8220;A Estrada&#8221; com &#8220;Iluminar&#8221; e precisava de algo para conectar, uma voz de fora. A m\u00fasica tem um texto bem direto e outra voz seria uma maneira bacana de ter outro texto, para entrar na quest\u00e3o do sonho. Eu queria que n\u00e3o fosse algo t\u00e3o claro, n\u00e3o sendo em portugu\u00eas, e comecei a pesquisar quem poderia ser. Acabei chegando no nome da Kleidi B, que por acaso \u00e9 venezuelana, o que ficou ainda mais legal. Ela arrebentou, cantou muito. E tem um detalhe que eu amo, que \u00e9 o &#8220;fujamos&#8221;, que rola no final, pouca gente percebe, e para mim \u00e9 o principal ponto de liga\u00e7\u00e3o com &#8220;Sonhar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: \u00c9 uma sa\u00edda f\u00e1cil. Foi algo que me remeteu, por exemplo, a Jesse e Celine [o casal de \u201cAntes do Amanhecer\u201d]. Imagina que no final do primeiro filme, os dois acham que a noite foi bacana mas decidem combinar que a noite nunca existiu. Era algo que resolveria a vida dos dois.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u00c9 isso. E \u00e9 doido, essa sua abordagem \u00e9 muito boa, porque quando voc\u00ea v\u00ea o \u00faltimo filme, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/06\/30\/antes-da-meia-noite-richard-linklater\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ele \u00e9 um filme para baixo demais<\/a>. O primeiro filme traz a esperan\u00e7a de que aquilo vai ser a melhor coisa da sua vida, \u00e9 a esperan\u00e7a da fuga. Eles querem fugir juntos. S\u00f3 que quando aquilo de fato se concretiza, n\u00e3o necessariamente a pr\u00e1tica \u00e9 t\u00e3o boa quanto a teoria, quanto a ideia. L\u00f3gico, o processo \u00e9 muito legal, mas se eles tivessem decidido que nunca existiu, talvez fosse at\u00e9 melhor do que ter existido. N\u00e3o sei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Para fechar, \u201cSonhar\u201d.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: \u201cSonhar\u201d \u00e9 a melhor fuga que a gente consegue ter \u2013 porque \u00e9 uma fuga que n\u00e3o depende de voc\u00ea. O disco todo fala sobre fugas ativas, mas o sonho \u00e9 uma fuga passiva. Acho muito foda esse mecanismo do inconsciente de jogar na cara as coisas que voc\u00ea n\u00e3o quer enfrentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: A minha interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente oposta. Numa teoria de que o disco fala de relacionamentos entre pessoas, o que significa sonhar com algu\u00e9m quando voc\u00ea acha que j\u00e1 superou? Para mim, \u00e9 um recado do inconsciente dizendo que n\u00e3o d\u00e1 para fugir.<\/strong><br \/>\nBernardo Corr\u00eaa: Concordo com essa ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: Nossa, a leitura de voc\u00eas \u00e9 mais legal que a minha!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo Costa: Ser\u00e1 que voc\u00ea est\u00e1 se auto traindo? \u201cT\u00f4 acreditando nisso\u201d, mas vem o sonho e fala que n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: \u201cMentir pra si mesmo \u00e9 sempre a pior mentira\u201d.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Eu tinha pensado que o inconsciente busca a pessoa, era algo mais esperan\u00e7oso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Todos somos depressivos aqui. (risos)<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: A interpreta\u00e7\u00e3o do Capelas \u00e9 boa porque a pessoa que canta parece n\u00e3o saber o que isso quer dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: \u00c9 muito doido pensar nesse arco de can\u00e7\u00f5es e pensar que elas foram compostas em 2015, 2016, 2017. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es de outro Brasil. Como foi chegar nessas m\u00fasicas em 2023 e entender que elas ainda faziam sentido? Voc\u00ea poderia ter feito a forma\u00e7\u00e3o nova da banda e esquecido essas m\u00fasicas \u2013 e \u201cOs Fugitivos\u201d ia ser o \u201cSmile\u201d da Harmada.<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Foi algo que n\u00e3o senti. Na verdade, acho que o \u201cM\u00fasica Vulgar\u201d cada vez faz mais sentido, assim como as can\u00e7\u00f5es desse disco tamb\u00e9m fazem cada vez mais sentido. Se esse disco tivesse sa\u00eddo em 2018, n\u00e3o seria exatamente a mesma coisa. Nunca quis que as letras da banda fossem coisas banais. Queria que cada disco tratasse de coisas da nossa viv\u00eancia. N\u00e3o era s\u00f3 para fazer um disco. Cara, qual \u00e9 o sentido de ter uma banda? Se voc\u00ea faz uma banda, voc\u00ea tem que conseguir, junto daquelas pessoas, expressar uma coisa muito relevante. Voc\u00ea tem que dizer alguma parada. Queria dizer coisas no primeiro disco e queria dizer essas coisas agora n\u2019\u201dOs Fugitivos\u201d. Penso que de 2018 para c\u00e1, essas coisas foram confirmadas e era necess\u00e1rio fazer esse coment\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Garcia: De l\u00e1 para c\u00e1, muita coisa mudou. E fico pensando no que o Manoel vai trazer agora, porque \u00e9 um mundo completamente p\u00f3s-apocal\u00edptico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: \u00c9 interessante, porque o Brasil \u00e9 outro. \u201cOutro endere\u00e7o, outra vida\u201d. Nessa \u00e9poca em que as can\u00e7\u00f5es foram feitas, eu trabalhava como rep\u00f3rter cobrindo tecnologia. Havia ali um certo otimismo com a inova\u00e7\u00e3o, mas hoje\u2026<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Chegamos num ponto bem complicado. As pessoas est\u00e3o comprando a ideia de intelig\u00eancia artificial como se o mundo fosse acabar. As pessoas est\u00e3o querendo deixar de pensar para que as coisas possam pensar por elas. Talvez a gente caminhe para esse futuro. Ao mesmo tempo, sempre tive esperan\u00e7a. \u00c9 preciso ter esperan\u00e7a de que a vida vai ser boa. N\u00e3o d\u00e1 para ficar pensando que as coisas n\u00e3o t\u00eam solu\u00e7\u00e3o. Sen\u00e3o, a gente n\u00e3o faz m\u00fasica, n\u00e3o faz nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: N\u00e3o me preocupo com essa quest\u00e3o de estar vivo. Mas esse ciclo de mudan\u00e7as \u00e9 uma quest\u00e3o latente. Eu estava ouvindo a nova vers\u00e3o de \u201cFree As A Bird\u201d, vendo os coment\u00e1rios da galera\u2026 e \u00e9 muito doido porque h\u00e1 um choque de opini\u00f5es. Eu s\u00f3 postei o link nas redes sociais e veio tudo que \u00e9 tipo de coment\u00e1rio. Teve gente comentando que agora a voz do John est\u00e1 limpa. Mas pera\u00ed: o quanto disso \u00e9 a voz dele mesmo? O quanto d\u00e1 para acreditar que isso \u00e9 real? Desculpa: isso n\u00e3o \u00e9 real. Voc\u00ea vai admirar uma pessoa que n\u00e3o existe.<\/strong><br \/>\nPedro Lacerda: J\u00e1 tem gente ganhando dinheiro fazendo perfil de OnlyFans com modelos criadas por IA.<\/p>\n<figure style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/blade.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de \u201cBlade Runner 2049\u201d, de Denis Villeneuve<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Nesses dias, vi um neg\u00f3cio mais bizarro ainda: voc\u00ea pode configurar uma intelig\u00eancia artificial para conversar com voc\u00ea sobre os fetiches que voc\u00ea mais gosta.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: O \u00faltimo \u201cBlade Runner\u201d <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/10\/19\/cinema-blade-runner-2049-de-denis-villeneuve\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">j\u00e1 tem um pouco disso<\/a>. Mas a\u00ed j\u00e1 se cria o espa\u00e7o para um novo disco\u2026 e vai ser com essa forma\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: A forma\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem consolidada. A banda est\u00e1 azeitada demais, o que espero que resulte em algo que talvez n\u00e3o demore (risos). Tenho muito essas coisas de profecias realiz\u00e1veis, de pensar em algo e a coisa acontecer. J\u00e1 tem um tempo que a minha pr\u00f3xima profecia realiz\u00e1vel \u00e9 que o Kassin vai produzir esse disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: E com participa\u00e7\u00e3o da Adriana Calcanhotto! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Super vejo isso!<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Vamos trabalhar para isso. E nesse disco, queria que as pessoas participassem n\u00e3o s\u00f3 tocando, mas compondo tamb\u00e9m. J\u00e1 comecei a botar pilha no Bernardo e no Brynner, no Pedrinho. Quero criar junto!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Voc\u00eas sabem o que \u00e9 isso, n\u00e9? Ele est\u00e1 querendo tirar o peso das costas dele, para ver se o processo acelera\u2026<\/strong><br \/>\nBernardo Corr\u00eaa: Pior que nem \u00e9, porque o Manoel produz num volume muito alto mesmo. Ele est\u00e1 com um disco solo no forno, ele produz muita coisa. \u00c9 mais sobre criar uma intimidade de banda mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Na<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/10\/07\/entrevista-manoel-magalhaes-e-a-felicidade-de-lancar-um-disco-imensamente-triste\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> \u00faltima entrevista do Manoel para o Scream &amp; Yell<\/a>, em 2019, ele fala que o disco da Harmada est\u00e1 no forno. Agora, voc\u00eas est\u00e3o dizendo que o disco solo est\u00e1 no forno, n\u00e9. Em 2030 a gente se encontra!<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: Mas o bom disso \u00e9 que as coisas est\u00e3o acelerando. Os discos est\u00e3o saindo cada vez mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas: Para fechar, planos para esse disco? Tocar, tocar e\u2026 tocar?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: E tocar mais um pouco. Est\u00e1 rolando, n\u00e9. J\u00e1 tocamos no Rio, tocamos em Itaperuna, vamos tocar em Curitiba, na Baratos da Ribeiro, queremos tocar outras vezes no Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Como foi ver o Manoel em Itaperuna?<\/strong><br \/>\nBernardo Corr\u00eaa: Foi muito legal, ele estava mostrando tudo! Desde a estrada, ele vinha indicando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Garcia: Deixa eu te falar, Itaperuna tem hist\u00f3ria!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: Mas \u00e9 legal voc\u00ea levar seus amigos para a sua terra natal. E foi legal que o filho do Bernardo foi, ele adorou a ponte de ferro. Caraca, uma crian\u00e7a foi em Itaperuna e achou alguma coisa bonita! Mas a verdade \u00e9 que eu tenho muita pregui\u00e7a de tocar ao vivo. Era um problema na Polar\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Garcia, era mesmo um problema na Polar?<\/strong><br \/>\nRodrigo Garcia: Cara, nunca percebi\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Corr\u00eaa: O Manoel ama o est\u00fadio!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel Magalh\u00e3es: Isso \u00e9 verdade. Prefiro gravar a tocar. Mas inevitavelmente, o andar das coisas tem me levado a tocar mais. Est\u00e1 ficando cada vez mais legal, as pessoas gostam cada vez mais. E \u00e9 uma banda que leva 14 anos de um disco para o outro, em um hiato muito grande, e as pessoas est\u00e3o indo ver o show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo Costa: Voc\u00ea esperava que isso ia acontecer ontem, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/09\/05\/tres-shows-vivian-benford-harmada-e-terminal-guadalupe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com aqueles f\u00e3s alucinados na Festa Bretta<\/a>?<\/strong><br \/>\nManoel Magalh\u00e3es: N\u00e3o esperava. A \u00faltima vez que a Harmada tocou aqui foi em 2013, na Rep\u00fablica. E l\u00e1 j\u00e1 tinha acontecido isso, tinha uma galera cantando. Mas o que achei mais legal n\u00e3o foi ter uma galera cantando. Foi o fato de que as pessoas chegaram cantando \u201cQuando Voc\u00ea Chegar\u201d, que \u00e9 a m\u00fasica nova, exatamente como cantavam as antigas. Parece que tem algo acontecendo, \u00e9 como se nunca tivesse parado. A Harmada n\u00e3o parou, ela tem uma continuidade mesmo, fiquei feliz. Mas ontem teve uma coisa engra\u00e7ada tamb\u00e9m. O pai da Renata, meu sogro, foi no show. Eles viram o an\u00fancio no Instagram e perguntaram se poderiam ir (risos). E teve um coment\u00e1rio dele que achei sensacional. Eu estava l\u00e1 cantando e de repente o pai dela perguntou para ela: \u201cmas essa m\u00fasica \u00e9 de quem?\u201d. \u201cU\u00e9, pai, \u00e9 do Manoel!\u201d. \u201cE como \u00e9 que as pessoas sabem cantar?\u201d. (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Harmada - Besteira Acreditar @ Bretta \/ A Porta Maldita, S\u00e3o Paulo - 23\/08\/2025\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3duHYK_iJT8?list=PL6gBQKY5zwa3Np2ha776B5gHGJvoOLdie\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/programadeindie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>\u00a0e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;A internet padroniza muito a vida. Toda experi\u00eancia que voc\u00ea vai vivenciar \u00e9 padronizada. Voc\u00ea vai comer por um aplicativo, vai se relacionar num aplicativo. \u00c9 tudo muito igual&#8221;, observa Manoel Magalh\u00e3es\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/11\/10\/entrevista-harmada-lanca-os-fugitivos-disco-sobre-pessoas-querendo-se-libertar-da-prisao-da-tecnologia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":92614,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1165],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92604"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92604"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92604\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":92615,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92604\/revisions\/92615"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92614"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}