{"id":92377,"date":"2025-11-03T10:39:53","date_gmt":"2025-11-03T13:39:53","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=92377"},"modified":"2025-11-22T00:18:50","modified_gmt":"2025-11-22T03:18:50","slug":"otoboke-beaver-no-cine-joia-o-futuro-e-feminino-barulhento-e-japones","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/11\/03\/otoboke-beaver-no-cine-joia-o-futuro-e-feminino-barulhento-e-japones\/","title":{"rendered":"Otoboke Beaver no Cine Joia: o futuro \u00e9 feminino, barulhento e japon\u00eas"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a><br \/>\nfotos de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/camilafcara\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Camila Cara<\/a> \/ 30e<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem shows que n\u00e3o apenas tocam profundamente os espectadores &#8211; eles quebram as expectativas, reorganizam o espa\u00e7o e redefinem o que significa assistir a uma apresenta\u00e7\u00e3o. O do Otoboke Beaver, na noite de sexta-feira (31\/10), no Cine Joia, foi um desses. Em pouco mais de uma hora e meia, quatro mulheres vindas de Kyoto provaram que o punk ainda pode ser uma for\u00e7a de liberta\u00e7\u00e3o; n\u00e3o pela nostalgia ou pela viol\u00eancia sonora, mas pela recusa em pedir permiss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num cen\u00e1rio em que o punk j\u00e1 foi domesticado pela l\u00f3gica do entretenimento via poppy punk de Blink 182 e Avril Lavigne e tantos outros, o quarteto japon\u00eas surge como uma anomalia ruidosa e l\u00facida. \u00c9 como se Accorinrin (voz), Yoyoyoshie (guitarra), Hirochan (baixo) e Leo (Emi Morimoto, ex-Shonen Knife, na bateria, que est\u00e1 cobrindo a vaga de Kahokiss, que pediu uma pausa na banda para ter um beb\u00ea). integrassem uma m\u00e1quina org\u00e2nica que transforma humor e disson\u00e2ncia em uma esp\u00e9cie de caos controlado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda na universidade, em 2009, elas formaram o Otoboke Beaver batizando a banda com o nome de um motel perto da escola que estudaram acrescentando \u201cBeaver\u201d (\u201ccastor\u201d, mas tamb\u00e9m g\u00edria para genit\u00e1lia feminina), uma piada que resume bem a mistura de irrever\u00eancia e cr\u00edtica feminista que atravessa tudo o que fazem. Tanto a iconoclastia do riot grrrl quanto a excentricidade perform\u00e1tica do noise rock japon\u00eas dos anos 1990 se encontram ali, com uma mistura humor\u00edstica e afrontosa de uma banda punk em desenho animado e uma revolu\u00e7\u00e3o feminista.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-92379 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/otoboke1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"469\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/otoboke1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/otoboke1-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o Otoboke Beaver j\u00e1 somasse alguns EPs e uma compila\u00e7\u00e3o no in\u00edcio da d\u00e9cada passada, foi s\u00f3 depois da explosiva sess\u00e3o na KEXP em 2022 que o nome come\u00e7ou a circular mais fortemente fora do Jap\u00e3o, inclusive no Brasil. E isso ajudou a criar um bom p\u00fablico para v\u00ea-las nesta noite no Cine Joia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s 21h08, ao som de \u201cRock \u2019n\u2019 Roll Star\u201d, do Oasis, as quatro surgiram no palco vestidas em cores vibrantes, entre a autopar\u00f3dia e a rever\u00eancia &#8211; al\u00e9m de uma piscadela aos shows que o grupo abriu para os brit\u00e2nicos recentemente no Jap\u00e3o. A abertura com \u201cYakitori\u201d e \u201cAkimahenka\u201d mostrou a banda em plena combust\u00e3o, com a plat\u00e9ia respondendo em um redemoinho de mosh pits, gritos e pura insanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No meio de tudo isso, Accorinrin lidera como uma sacerdotisa el\u00e9trica, exorcizando cada verso no microfone; Yoyoyoshie, carism\u00e1tica e falante, brinca com o p\u00fablico num ingl\u00eas truncado e um portugu\u00eas esfor\u00e7ado (\u201cBoa noitiii, S\u00e3o Paulo!\u201d) enquanto espanca sua guitarra; Hirochan e Leo sustentam a base no baixo e bateria com precis\u00e3o militar e f\u00faria adolescente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O repert\u00f3rio privilegiou os discos \u201cSuper Champon\u201d (2022) e \u201cItekoma Hits\u201d (2019), com espa\u00e7o para duas in\u00e9ditas \u2014 uma delas apresentada com um aviso espirituoso: \u201cVoc\u00eas n\u00e3o conhecem essa ainda, mas aproveitem!\u201d. Cada can\u00e7\u00e3o durava cerca de dois minutos e parecia conter uma vida inteira: mudan\u00e7as abruptas de tempo, paradas s\u00fabitas, gritos, sil\u00eancio e colapso instrumental. O p\u00fablico respondia com palmas e gritos, especialmente em \u201cDon\u2019t Light My Fire\u201d, quando Accorinrin, entre tapas na pr\u00f3pria bunda e olhares demon\u00edacos, mandava \u201cgo to hell!\u201d no microfone.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-92380 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/otoboke2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/otoboke2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/otoboke2-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre uma faixa e outra, houve alguns espa\u00e7os para coment\u00e1rios de Yoyoyoshie &#8211; visivelmente muito feliz. Empolgada, chegou a declarar: \u201cEu realmente quero morar em S\u00e3o Paulo!\u201d. Em dado momento, a banda se apresentou, contando com um momento solo de cada integrante: uma percuss\u00e3o de bateria de Leo, um ataque do baixo grave de Hirochan, Yoyoyoshie mordendo o bra\u00e7o da guitarra durante seu solo e Accorinrin encerrando com um agradecimento em portugu\u00eas e um sorriso que parecia dizer \u201cviemos de longe para chegar at\u00e9 aqui mas sobrevivemos e vamos fazer valer a pena\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um momento destoante de tens\u00e3o veio quando um homem na plateia gritou \u201cgostosa\u201d. A rea\u00e7\u00e3o foi imediata: vaias e gritos de \u201cescroto\u201d vindos de boa parte do p\u00fablico. As japonesas se mostraram alheias \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o (ainda bem) e seguiram o show, com suas pausas e coreografias alimentando o espet\u00e1culo de absurdo e liberdade. Quando Accorinrin falou \u201cCala boca!\u201d para testar seu portugu\u00eas ao traduzir parte de \u201cPardon?\u201d, poderia servir para essa infeliz declara\u00e7\u00e3o e o p\u00fablico obedeceu, at\u00e9 que o som voltasse a explodir em seguida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show quase terminou \u00e0s 22h08, mas a banda ainda voltou para dois bis rel\u00e2mpagos. O primeiro durou poucos minutos; o segundo veio logo depois de as luzes da casa acenderem, quando as quatro retornaram sorrindo, com um castor infl\u00e1vel gigante que foi lan\u00e7ado sobre o p\u00fablico, e Yoyoyoshie, surfou sobre ele em meio \u00e0 multid\u00e3o. De volta ao palco, puxou uma cantoria de \u201cBuddy Holly\u201d, do Weezer. Depois, avisou que a \u00faltima can\u00e7\u00e3o teria \u201capenas 18 segundos\u201d. Foi o final perfeito: curto, explosivo e hil\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe aquelas camisetas que diziam \u201cThe Future Is Female\u201d e que fizeram sucesso nas vitrines de lojas de departamento? Pois bem; a frase nasceu em 1975, criada pela artista Liza Cowan para a livraria feminista Labyris Books, em Nova York. Foi um gesto de milit\u00e2ncia l\u00e9sbica explorado pelo capitalismo e transformado em slogan pop dilu\u00eddo. Mas vendo o Otoboke Beaver em a\u00e7\u00e3o, ficou claro: o tal futuro feminino finalmente chegou, e ele \u00e9 barulhento, suado e absurdamente divertido. Ainda bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-92378\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/otoboke4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/otoboke4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/otoboke4-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O repert\u00f3rio privilegiou os discos \u201cSuper Champon\u201d (2022) e \u201cItekoma Hits\u201d (2019), com espa\u00e7o para duas in\u00e9ditas. 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