{"id":92307,"date":"2025-10-30T09:59:22","date_gmt":"2025-10-30T12:59:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=92307"},"modified":"2025-11-11T12:04:41","modified_gmt":"2025-11-11T15:04:41","slug":"entrevista-paulo-ro-fala-sobre-o-novo-disco-do-jaguaribe-carne-e-50-anos-de-guerrilha-cultural-no-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/10\/30\/entrevista-paulo-ro-fala-sobre-o-novo-disco-do-jaguaribe-carne-e-50-anos-de-guerrilha-cultural-no-nordeste\/","title":{"rendered":"Entrevista: Paulo R\u00f3 fala do novo disco do Jaguaribe Carne e os 50 anos de &#8220;guerrilha cultural\u201d no Nordeste"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 meio s\u00e9culo o <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/jaguaribecarne\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jaguaribe Carne<\/a> desafia o sil\u00eancio. Surgido em 1974, quando o Brasil ardia sob o auge da ditadura militar, o grupo pessoense criado pelos irm\u00e3os Pedro Osmar e Paulo R\u00f3 tornou-se um dos coletivos mais inquietos da m\u00fasica brasileira, conectando a tradi\u00e7\u00e3o popular nordestina \u00e0 vanguarda mais radical da \u00e9poca. Um verdadeiro laborat\u00f3rio de sons, ideias e \u201cguerrilha cultural\u201d (como eles pr\u00f3prios definem) que atravessa gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria \u00e9 conhecida entre quem acompanha as frestas da cultura paraibana: os irm\u00e3os cresceram no bairro Jaguaribe, reunindo m\u00fasicos, poetas, estudantes e curiosos para performances em pra\u00e7as, teatros e ruas. O som? Uma am\u00e1lgama de cirandas, rock, barulho e improviso; algo entre o tropicalismo e a pulsa\u00e7\u00e3o da Zona da Mata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de j\u00e1 ter contado com nomes como Chico C\u00e9sar, Escurinho, Totonho e Jarbas Mariz em seus anos iniciais, o Jaguaribe Carne nunca foi um grupo \u201cimportante\u201d em um sentido institucional da palavra. N\u00e3o tinha escrit\u00f3rio, nem empres\u00e1rio, nem palco fixo. Era um bicho indomado que decidiu fazer arte com fitas cassete gravadas das plateias de seus shows, com latas de lixo como tambores, poesia mimeografada e eletrodom\u00e9sticos usados como instrumentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre performances censuradas, apresenta\u00e7\u00f5es interrompidas pela Pol\u00edcia Federal e arranjos marcados por ru\u00eddos e vocaliza\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, o Jaguaribe Carne fez da linguagem popular e da transgress\u00e3o seu m\u00e9todo criativo. Misturando ciranda, bai\u00e3o, poesia e pol\u00edtica, sua trajet\u00f3ria inclui os \u00e1lbuns \u201cJaguaribe Carne Instrumental\u201d (1993) e \u201cVem no Vento\u201d (2003, com participa\u00e7\u00f5es de Zeca Baleiro, Elba Ramalho, Xangai e Vital Farias), al\u00e9m de uma hist\u00f3rica apresenta\u00e7\u00e3o no Festival de Jazz de Montreux, em 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 margem do mercado, o grupo manteve uma express\u00e3o que ainda reverbera entre m\u00fasicos, estudantes e movimentos culturais da Para\u00edba. Em 2023, Paulo R\u00f3 participou da faixa \u201cRu\u00ednas\u201d, do \u00e1lbum \u201cLampi\u00e3o Rei\u201d, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/29\/entrevistao-papangu-volta-com-rock-troncho-e-hermetocore-no-segundo-album-lampiao-rei\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">da banda Papangu<\/a> &#8211; um dos nomes mais inventivos da cena nordestina atual, herdeira do esp\u00edrito pol\u00edtico e indisciplinado do Jaguaribe. A colabora\u00e7\u00e3o funciona quase como uma passagem de tocha simb\u00f3lica, em que a energia de uma gera\u00e7\u00e3o se reflete na outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de 22 anos sem lan\u00e7ar um \u00e1lbum de est\u00fadio, o Jaguaribe Carne emerge novamente, com o disco \u201c<a href=\"https:\/\/jaguaribecarne.ffm.to\/isabel7cirandasnegraseumapito\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Isabel, Sete Cirandas Negras e Um Apito<\/a>\u201d (2025) &#8211; lan\u00e7ado <a href=\"https:\/\/taiobadiscos.com.br\/products\/jaguaribe-carne-isabel-7-cirandas-negras-e-um-apito\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em vinil e CD em edi\u00e7\u00e3o limitada pela Taioba Music<\/a> em setembro. Gerado a partir de poemas que Pedro Osmar escreveu ap\u00f3s a morte da m\u00e3e e transformados em melodias por Paulo R\u00f3, a obra traz oito faixas que brotam do luto e formam um ritual sonoro entre missa e psicodelia popular. O Coro das Praias, formado pela esposa e filhas de Paulo R\u00f3, canta como quem reza, entoando cirandas e cocos de roda acompanhadas por Paulo (voz, viol\u00e3o, percuss\u00e3o), Pedro (voz, percuss\u00e3o) e Marcelo Macedo (guitarra, viol\u00e3o de a\u00e7o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gravado no Est\u00fadio Peixe Boi, em Jo\u00e3o Pessoa, o disco une a pulsa\u00e7\u00e3o do Nordeste em formato de cantigas como \u201cCiranda na Rua da Paz\u201d, &#8220;Hora Certa\u201d e &#8220;Cocada\u201d, abrindo espa\u00e7o para ousados momentos guitarreiros em \u201cEcoou\u201d e \u201cBeca\u201d, com direito a uma c\u00edtara indiana sublime em &#8220;Tambores\u201d (com participa\u00e7\u00e3o de Felipe Kariri).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num pa\u00eds que insiste em esquecer seus pr\u00f3prios rebeldes e transform\u00e1-los em \u201cpoetas malditos\u201d, o retorno do Jaguaribe Carne \u00e9 um lembrete de que a vanguarda nordestina nunca morreu, apenas mudou de frequ\u00eancia. \u201cIsabel, Sete Cirandas Negras e Um Apito\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas sobre a saudade de um ente querido; \u00e9 tamb\u00e9m sobre continuar mantendo a f\u00e9 absurda no poder de uma ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na longa conversa com o Scream &amp; Yell a seguir, Paulo R\u00f3 revisita essa trajet\u00f3ria com serenidade. Fala sobre as origens do Jaguaribe Carne, as experi\u00eancias de censura e improvisa\u00e7\u00e3o, o novo disco, a parceria com Pedro Osmar, as conex\u00f5es com a cena musical paraibana atual e o p\u00fablico jovem que redescobre o grupo. Um testemunho de que fazer arte livre continua sendo um ato pol\u00edtico, de cora\u00e7\u00e3o e certeiro &#8211; mesmo quando o retorno n\u00e3o \u00e9 financeiro, mas afetivo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ciranda na Rua da Paz (with T\u00e9o Filho) (feat. Totonho E Os Cabra)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/54LhYWg1xv8?list=OLAK5uy_n0h9W7Khrh4iuVjLeNse158_Wx8mZYWiw\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo, o Jaguaribe Carne nasceu em 1974 num contexto pol\u00edtico e social muito espec\u00edfico, durante a ditadura militar no Brasil. Como voc\u00ea enxerga aquele momento do surgimento do grupo e, olhando hoje, o que o Jaguaribe representava para voc\u00ea e para o seu irm\u00e3o, Pedro Osmar?<\/strong><br \/>\nNaquele momento eu acho que a gente n\u00e3o tinha muita no\u00e7\u00e3o desse contexto pol\u00edtico, do problem\u00e3o que estava acontecendo. A gente fazia nossas m\u00fasicas e, mesmo que fossem de teor pol\u00edtico muito forte, a gente estava simplesmente falando da vida da gente, do que estava acontecendo, do que a gente estava vivendo. Em 1974 eu tinha uns 17 anos, mais ou menos. A gente ia fazendo o que achava que devia fazer musicalmente. Pedro, que \u00e9 uns tr\u00eas ou quatro anos mais velho que eu, escrevia as letras dele muito contextualizadas com a pol\u00edtica. Mas mesmo quando a gente sofria censura, continuava fazendo, sem saber que aquilo poderia ser um grande problema. Eles censuravam nossas m\u00fasicas, o jeito como a gente cantava, e as coisas iam acontecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem at\u00e9 uma m\u00fasica de Chico C\u00e9sar [e que Lula Queiroga gravou &#8211; ou\u00e7a abaixo] que dizia assim: &#8220;Quando eu fui tocar rasgado \/ um rapaz do jornal documentou \/ que um infame, um imoral entrou em cena \/ desrespeitando o bonito, esculhambando o visual \/ S\u00f3 porque eu entrei no peito \/ s\u00f3 porque eu entrei na marra \/ com a camisa da alma aberta e desesperadamente cantei \/ e lindamente escarrei minha fome \/ que \u00e9 de mau gosto, infame, sinceramente imoral&#8221;. Essa letra expressa bem o que a gente vivia: um escancaramento da nossa situa\u00e7\u00e3o, sem ter no\u00e7\u00e3o do peso que aquilo tinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje em dia continuamos esse trabalho de m\u00fasica pol\u00edtica, avan\u00e7ada, que muitas vezes n\u00e3o cai bem no ouvido das pessoas. Aquela coisa estranha, barulhos que hoje o pessoal chama de \u201cnoise\u201d. E seguimos assim. Todo mundo acha lindo o disco novo, mas tem coisas ali que eu n\u00e3o sei se n\u00e3o s\u00e3o violentas tamb\u00e9m. Outro dia, numa entrevista na R\u00e1dio Tabajara, disseram que nossa m\u00fasica \u00e9 muito violenta, que agride muito. Eu disse: \u201cN\u00e3o, pera\u00ed. Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que est\u00e1 dizendo. Vou lhe desmentir agora\u201d. E coloquei uma m\u00fasica &#8211; acho que foi \u201cTambores\u201d. Hoje talvez sejamos mais rom\u00e2nticos, mais suaves, mas continuamos com essa ideia. Eu costumo dizer que o Jaguaribe n\u00e3o bate na porta: ele quebra a porta, quebra o port\u00e3o, para poder entrar e fazer o que tem que ser feito.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lula Queiroga - Profano\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/P50QmNDdu8U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou da censura. Lembra de momentos exatos em que voc\u00eas sofreram com isso em apresenta\u00e7\u00f5es, por exemplo?<\/strong><br \/>\nSim, algumas m\u00fasicas de Pedro foram censuradas&#8230; Voc\u00ea sabe como funcionava, n\u00e9? A gente ia fazer o show, levava a rela\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas com as letras &#8211; \u00e0s vezes at\u00e9 com o \u00e1udio das m\u00fasicas &#8211; e entregava tudo pros censores. Eles olhavam e diziam: \u201cEssa frase aqui n\u00e3o pode, essa estrofe aqui n\u00e3o pode\u201d e riscavam v\u00e1rias partes. O pior \u00e9 que s\u00f3 devolviam o material na tarde do show, sem tempo pra resolver nada. A\u00ed era isso: ou voc\u00ea cantava ou n\u00e3o cantava. E nessa mesma tarde a gente tinha que fazer o show pra eles ouvirem. Dois caras da Pol\u00edcia Federal sentavam no teatro e assistiam a tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teve um show em que mandaram proibir todas as letras. Todas. A\u00ed n\u00e3o tive o que fazer. Ent\u00e3o tive a ideia de colocar o nome das m\u00fasicas em sequ\u00eancia e recitar textos improvisados. Por exemplo, \u201cMulher pula do oitavo andar com dois filhos nos bra\u00e7os.\u201d Era algo real, sabe? A\u00ed eu completava: \u201cEste pa\u00eds \u00e9 lindo. Vamos amar.\u201d E dizia depois: \u201cA Pol\u00edcia Federal n\u00e3o quer que voc\u00eas saibam dessas coisas, porque a Pol\u00edcia Federal sabe o que \u00e9 bom pra voc\u00eas\u201d. Ent\u00e3o cada m\u00fasica virou um experimento improvisado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teve tamb\u00e9m um outro evento marcante: o festival Nordestino de M\u00fasica, em Recife, onde apresentamos \u201cBaile de M\u00e1scaras\u201d. Na hora do ensaio, Pedro, que \u00e9 danado, disse: \u201cVamos cantar ali embaixo, naqueles tr\u00eas microfones dos apresentadores.\u201d O pessoal da TV disse: \u201cN\u00e3o pode, n\u00e3o.\u201d E ele insistiu: \u201cA gente quer cantar ali mesmo.\u201d Ficou aquela confus\u00e3o e acabamos perdendo o tempo de ensaio. \u00c0 noite, quando fomos entrar, resolvemos improvisar. No \u00f4nibus, t\u00ednhamos recebido uns folhetos evang\u00e9licos e o percussionista carregava uma receita de rem\u00e9dio. Eu estava com um livro de poemas de Ulisses Tavares, de S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o combinamos: eu recitaria o poema, Pedro leria o folheto e o percussionista leria a receita. Quando entramos no palco, Pedro ainda levou uma lata de lixo que achou atr\u00e1s do teatro e isso j\u00e1 causou estranhamento. Eu comecei recitando: \u201cTrocaria a presid\u00eancia da Rep\u00fablica por um caf\u00e9 bem dado.\u201d Pedro lia o folheto, o percussionista lia a receita, e as vozes se misturavam: \u201cpresid\u00eancia&#8230; Jesus&#8230; rem\u00e9dio&#8230;\u201d at\u00e9 que o som foi cortado. Descemos do palco e havia um corredor de policiais dos dois lados. O diretor do festival, um senhor idoso, come\u00e7ou a gritar: \u201cEsses comunistas vieram pra acabar com meu festival!\u201d Levaram a gente pra uma sala e depois pra Pol\u00edcia Federal. Ficamos l\u00e1 de noite esperando o delegado. Quando ele chegou, perguntou o que tinha acontecido. A gente explicou e ele disse: \u201cMeu plant\u00e3o acabou, esperem o pr\u00f3ximo\u201d. O delegado seguinte perguntou se conhec\u00edamos algu\u00e9m em Recife. Eu disse: \u201cConhe\u00e7o Lenine.\u201d A\u00ed ligaram pra ele e Lenine foi l\u00e1 de manh\u00e3, conversou com o delegado e explicou: \u201cEsses meninos s\u00e3o gente boa, fazem uma m\u00fasica diferente, mas n\u00e3o \u00e9 nada demais.\u201d E foi assim que liberaram a gente. Podia ter dado ruim, n\u00e9? Mas deu tudo certo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-92308 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/jaguaribe.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"505\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/jaguaribe.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/jaguaribe-300x202.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00eas come\u00e7aram a realizar saraus, exibi\u00e7\u00f5es de filmes e performances em Jo\u00e3o Pessoa, quais eram as principais inspira\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias art\u00edsticas de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nQuando eu era adolescente, a gente ouvia muito r\u00e1dio, que era o que tinha. Depois, come\u00e7aram a tocar Caetano, Gil, Chico Buarque, Raul Seixas, Ivan Lins\u2026 isso em 1973, 1974. A gente percebeu que havia algo diferente surgindo, vindo dos festivais. Logo depois, apareceram artistas mais de vanguarda: Hermeto Pascoal, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/10\/24\/walter-franco-1945-2019\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Walter Franco<\/a> (que lan\u00e7ou um disco totalmente extravagante). E, claro, Beatles. A fase do \u00c1lbum Branco, \u201cRevolution 9\u201d, aquelas coisas que n\u00e3o tinham nada a ver com nada, mas que ach\u00e1vamos interessantes exatamente por isso. Rolling Stones tamb\u00e9m, aquele rock sujo do come\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro de uma prima nossa que uma vez foi l\u00e1 em casa. Est\u00e1vamos ouvindo Bread, depois colocamos Rolling Stones. Ela disse: \u201cMas que mol\u00e9stia \u00e9 essa? Voc\u00eas estavam ouvindo uma m\u00fasica t\u00e3o linda, agora essa porcaria de b\u00eabado cantando?\u201d (risos) Pra gente era normal. Diz\u00edamos que era democr\u00e1tico. Gostamos de ouvir todo tipo de m\u00fasica e at\u00e9 hoje \u00e9 assim. Mas no fundo, o nosso in\u00edcio foi com a cultura popular. Em Jaguaribe t\u00ednhamos grupos que sa\u00edam \u00e0s ruas: burrinhas, cavalo-marinho, caboclinhos, blocos de carnaval, frevo. Nossa tia Iraci, irm\u00e3 do meu pai, morava em frente de onde sa\u00eda uma romaria pra Nossa Senhora da Penha. Enquanto esperavam os romeiros, tocavam ciranda e coco de roda. N\u00f3s \u00e9ramos crian\u00e7as, adolescentes, e crescemos com isso. Ent\u00e3o a cultura popular est\u00e1 dentro da gente desde cedo. A gente n\u00e3o \u00e9 pesquisador de cultura popular: a gente vivenciou. Crescemos ouvindo, aprendendo, tocando. E com o tempo juntamos essa base popular com a m\u00fasica de vanguarda. Esse caldeir\u00e3o \u00e9 a m\u00fasica do Jaguaribe Carne.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 incr\u00edvel a forma como voc\u00eas misturam isso. E como voc\u00ea mesmo disse, sempre houve improvisa\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o na obra do Jaguaribe Carne. Mas como voc\u00ea encara o papel da espontaneidade no processo criativo do grupo?<\/strong><br \/>\nRapaz, essa pergunta \u00e9 muito filos\u00f3fica, muito dif\u00edcil\u2026 A gente sempre foi muito \u201cirrespons\u00e1vel\u201d com a nossa m\u00fasica, sabe? Uma vez eu estava numa reuni\u00e3o na universidade e o Carlos, que era professor de composi\u00e7\u00e3o l\u00e1, me convidou para falar aos alunos sobre esse processo. E eu disse: &#8216;Olha, a gente \u00e9 muito irrespons\u00e1vel com rela\u00e7\u00e3o ao nosso fazer musical&#8217;. A\u00ed ele me perguntou: &#8216;Mas como assim, irrespons\u00e1vel? O que \u00e9 ser respons\u00e1vel?&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixa eu contar uma hist\u00f3ria: em 1976, Pedro, junto com algumas pessoas, criou uma coisa chamada Coletivo de M\u00fasica da Para\u00edba. Aconteceu durante um m\u00eas, toda quarta-feira tinham tr\u00eas shows. Num desses dias a gente ia tocar: eu, Pedro e Chico C\u00e9sar. Est\u00e1vamos l\u00e1 atr\u00e1s conversando e, de repente, anunciaram: &#8216;Agora com voc\u00eas, Jaguaribe Carne!&#8217;. Entramos sem combinar nada, nenhum repert\u00f3rio. A gente olhou um para o outro e pensou &#8216;eita, lascou. A gente vai tocar o qu\u00ea mesmo?&#8217;. A\u00ed a gente come\u00e7ou improvisando; um cantava, outro fazia um improviso de voz, depois algu\u00e9m puxava uma m\u00fasica, depois vinha um improviso instrumental, e ia se criando esse rod\u00edzio sonoro. Tudo totalmente espont\u00e2neo. Ningu\u00e9m dizia: &#8216;Vai ser assim&#8217;, simplesmente acontecia. Nossos \u00faltimos dez shows foram nesse esp\u00edrito, com o nome de &#8216;m\u00fasica de livre improvisa\u00e7\u00e3o&#8217;. Sub\u00edamos ao palco e toc\u00e1vamos. Cham\u00e1vamos alguns m\u00fasicos para participar, quem tivesse interesse e coragem entrava na festa. Um pegava sua guitarra, outro sua bateria, outro um p\u00edfano, e a coisa ia acontecendo. N\u00e3o tinha tom definido, n\u00e3o tinha ritmo marcado. O que estivesse acontecendo na hora, o camarada entrava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem sempre foi assim. Nosso primeiro show como Jaguaribe Carne foi em 1974, chamado &#8216;Espadas&#8217;, no Santa Rosa. Era eu, Pedro e Vandinho de Carvalho, nosso primeiro percussionista. Nesse espet\u00e1culo, a gente cantava as m\u00fasicas embaixo do palco, porque em cima a gente colocou eletrodom\u00e9sticos, enceradeira, som, r\u00e1dio, liquidificador\u2026 todos fazendo barulho. De vez em quando, algu\u00e9m subia, ligava um aparelho, fazia um solo de liquidificador, e aquilo virava parte do show. Teve at\u00e9 um momento em que n\u00f3s tr\u00eas subimos juntos e cada um fazia o seu &#8216;barulhinho bom&#8217;, como dizia Marisa Monte. Esse primeiro show foi meio ensaiado, meio n\u00e3o. Mas depois, quando criamos o show instrumental, a\u00ed sim ensaiamos muito. Eram m\u00fasicas dif\u00edceis, que a gente tinha na cabe\u00e7a, mas n\u00e3o conseguia tocar sem ensaio. Ent\u00e3o ensaiamos at\u00e9 conseguir. Esse espet\u00e1culo instrumental foi apresentado v\u00e1rias vezes, em v\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es. Depois foi ficando mais el\u00e9trico: chamamos gente para tocar guitarra, baixo, bateria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa coisa da espontaneidade sempre esteve presente com a gente. Porque a m\u00fasica que a gente faz \u00e9 para se divertir. A gente n\u00e3o gosta daquele show engessado, que n\u00e3o pode errar. E \u00e9 por isso que eu n\u00e3o toco com muitos artistas. Essa obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poder errar n\u00e3o me interessa. N\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o v\u00e1 errar, \u00e9 que n\u00e3o pode. Lembro de um workshop com Hermeto Pascoal, num festival em Bras\u00edlia, que perguntaram a ele: &#8216;Hermeto, quando voc\u00ea erra uma nota, o que faz?&#8217;. E ele respondeu: &#8216;Primeiro, n\u00e3o existe nota errada; existe nota n\u00e3o programada. Ent\u00e3o eu sigo o caminho dessa nota n\u00e3o programada, vou para c\u00e1, vou para l\u00e1, at\u00e9 voltar para a nota programada&#8217;. Ent\u00e3o ele improvisava a partir do erro, e isso \u00e9 exatamente o que a gente gosta de fazer. Claro, eu j\u00e1 toquei com alguns artistas, mas foram poucos, uns dois ou tr\u00eas, que eram muito pr\u00f3ximos: Adeildo Vieira, Milton Dornellas\u2026 amigos com quem eu convivia, tocava em casa, brincava de ouvir a m\u00fasica um do outro. Mas esse neg\u00f3cio de ensaiar para tocar com algu\u00e9m em que voc\u00ea n\u00e3o pode errar, isso n\u00e3o rola comigo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-92309 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/jaguaribe2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"491\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/jaguaribe2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/jaguaribe2-300x196.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Recentemente voc\u00eas fizeram um show de lan\u00e7amento do \u201cIsabel, Sete Cirandas Negras e Um Apito\u201d no Clube Veteranos, em Jaguaribe, com participa\u00e7\u00f5es de C4r4, Totonho e Escurinho. Como foi? Voc\u00eas ensaiaram direitinho para esse show?<\/strong><br \/>\nA gente tocou as m\u00fasicas do disco. O guitarrista \u00e9 Marcelinho Macedo, dono do est\u00fadio Peixe Boi, onde o \u00e1lbum foi gravado. Ent\u00e3o ele j\u00e1 conhecia todas as m\u00fasicas. Mandei as grava\u00e7\u00f5es para Jorge Neg\u00e3o, do baixo, e para o baterista. Uma semana antes marcamos os ensaios. Hoje em dia os m\u00fasicos s\u00e3o muito ocupados, cheios de compromissos. Ent\u00e3o fizemos tr\u00eas ensaios no total. Claro, no show nunca \u00e9 igual ao ensaio. Sempre h\u00e1 erros, atravessadas. Quando um erra, os outros v\u00e3o junto. Essa liga\u00e7\u00e3o sonora \u00e9 o que d\u00e1 gra\u00e7a. Lembro que uma vez teve um show do Z\u00e9 Ramalho em Jo\u00e3o Pessoa em que o baterista errou e ele quase bateu na cabe\u00e7a do cara! (risos) Mas para n\u00f3s, o erro faz parte. N\u00e3o sou do tipo que imp\u00f5e: &#8220;Tem que ser assim&#8221;. Eu prefiro que cada m\u00fasico coloque o seu sentimento na melodia, porque sen\u00e3o perde a gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esse show do disco novo \u00e9 muito curto: s\u00e3o oito m\u00fasicas, dura uns 30, 40 minutos. Tenho pensado em conversar com os meninos para acrescentar mais m\u00fasicas e alongar o repert\u00f3rio. Ent\u00e3o a primeira parte s\u00f3 com as cirandas e depois outras can\u00e7\u00f5es do Jaguaribe Carne, com improvisos, para dar mais tempo de show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voltando ao repert\u00f3rio do \u201cIsabel, Sete Cirandas Negras e Um Apito\u201d, como foi que as cirandas surgiram?<\/strong><br \/>\nEssas m\u00fasicas nasceram assim: Pedro escreveu as letras depois que nossa m\u00e3e morreu. Ele chegou com a ideia &#8220;Olha, vou escrever umas letras para a gente fazer umas cirandas&#8221;. Eu disse: &#8220;T\u00e1 certo, escreva\u201d. Demorou um pouco, at\u00e9 que um dia ele veio aqui em casa e trouxe quatro letras, e na hora mesmo fez mais duas. Fiquei com as letras em casa. Meu m\u00e9todo de compor \u00e9 assim: eu leio a letra e fico esperando a melodia. Para mim, \u00e9 como se a melodia j\u00e1 estivesse dentro da letra. Eu olho e ela salta para a minha cabe\u00e7a. Tenho essa fantasia. Por isso \u00e0s vezes fa\u00e7o muitas m\u00fasicas em pouco tempo. E foi o que aconteceu: um dia peguei aquelas letras e fiz as cirandas de uma vez. Quando algu\u00e9m diz: &#8220;Vou te dar uma letra para voc\u00ea fazer m\u00fasica&#8221;, ent\u00e3o eu pe\u00e7o logo umas dez. Porque se me der s\u00f3 uma e eu n\u00e3o gostar, n\u00e3o sai nada. Mas com dez, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o sair pelo menos duas. Depois lembrei de uma m\u00fasica instrumental que tinha [\u201cCiranda Sat\u00e9lica\u201d] e achei legal coloc\u00e1-la dentro desse universo. Colocamos tamb\u00e9m \u201cCiranda na Rua da Paz\u201d, escrita pelo Totonho. E foi assim que nasceram as cirandas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois inscrevemos o projeto num edital da prefeitura. Demorou para sair o resultado, mas saiu. Ent\u00e3o fomos gravar no est\u00fadio Peixe Boi, onde fizemos todos os discos do Jaguaribe Carne. A ideia de Pedro era: &#8220;Esse disco vai ser s\u00f3 voz e percuss\u00e3o. Nada mais. Para ser bem tribal&#8221;. Mas na grava\u00e7\u00e3o sentimos falta de uma harmonia. Entraram viol\u00e3o, baixo, at\u00e9 participa\u00e7\u00f5es com c\u00edtara e trombone. As cantoras que voc\u00ea ouviu no disco s\u00e3o minha esposa, minhas duas filhas e minha cunhada. Elas cantam comigo h\u00e1 muito tempo. Eu costumo compor em tons altos, e n\u00e3o alcan\u00e7o. Ent\u00e3o coloco elas para cantar. No disco, elas fizeram os vocais, e ficou o &#8220;coro das praias&#8221; porque moramos na praia. Para o disco, seguimos a ideia de Pedro, mas as necessidades da m\u00fasica foram aparecendo. Quando mostrei para ele, j\u00e1 doente [nota do editor: Pedro Osmar convive h\u00e1 anos com um quadro severo de diabetes e recentemente teve um AVC], ele perguntou: &#8220;Cad\u00ea Jimi Hendrix? Cad\u00ea a guitarra?&#8221;. Eu disse: &#8220;Mas voc\u00ea disse que era para ser s\u00f3 voz e percuss\u00e3o!&#8221;. Ele riu: &#8220;Mas tinha que ter botado uma guitarra!&#8221;. Ent\u00e3o no show n\u00f3s colocamos. Tinha guitarra, baixo e bateria. E eu disse: &#8220;T\u00e1 vendo? A\u00ed est\u00e1 a guitarra que voc\u00ea queria&#8221;. Quem sabe num futuro pr\u00f3ximo a gente grave esse show com a forma\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Cesar, Pedro Osmar, Paulo R\u00f3 (Jaguaribe Carne) em Jam Session\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7g_B1lw5jtI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Jaguaribe Carne sempre teve uma postura cr\u00edtica frente ao mercado musical. Como \u00e9 a sua posi\u00e7\u00e3o hoje, no mundo dominado pelo digital, algoritmos, redes sociais?<\/strong><br \/>\nOlha, eu particularmente nunca me preocupei com essa coisa de m\u00fasica de mercado. O Jaguaribe Carne tamb\u00e9m n\u00e3o. A m\u00fasica que a gente faz n\u00e3o rola no mercado. Lembro da primeira vez que gravamos o Jaguaribe Carne Instrumental, em Recife. Gravamos as m\u00fasicas, e uma delas ficou com sete minutos. O t\u00e9cnico disse: &#8220;Rapaz, essa m\u00fasica nunca vai tocar no r\u00e1dio&#8221;. Perguntei: &#8220;Por qu\u00ea?&#8221;. Ele respondeu: &#8220;Porque \u00e9 muito longa\u201d. Mas se tivesse tr\u00eas minutos, tamb\u00e9m n\u00e3o tocava (risos) Ent\u00e3o, nunca nos preocupamos com isso. Fazemos m\u00fasicas porque sentimos vontade de fazer, e continuamos assim at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se alguma m\u00fasica nossa ou s\u00f3 minha j\u00e1 tocou no r\u00e1dio, eu nem sei. No meu primeiro disco solo, \u201cO Jardim dos Animais\u201d, n\u00e3o tocou. No segundo, \u201cOlhos de Proa\u201d, as pessoas diziam que gostavam muito, principalmente de uma m\u00fasica que minha esposa cantava, mas tamb\u00e9m n\u00e3o tocou. Esse disco nasceu de poemas de um jaguaribense [Vergara Filho] que foi morar no Par\u00e1, convivendo com pescadores. Fiz dez m\u00fasicas a partir dos poemas, e minha esposa e as irm\u00e3s dela participaram nos vocais. As pessoas sempre elogiavam justamente essa m\u00fasica que ela cantava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No terceiro disco [&#8220;Cantus Popularis&#8221;, de 2011], foi pior ainda: era um \u00e1lbum de m\u00fasicas folcl\u00f3ricas tocadas com uma banda de rock. A ideia era juntar tradi\u00e7\u00e3o popular com rock. O Cristovam Tadeu, que foi diretor da r\u00e1dio Tabajara, me disse uma vez: &#8220;Paulo, teu disco \u00e9 maravilhoso, mas n\u00e3o posso tocar. \u00c9 tradicional e rock demais&#8221;. Ou seja: n\u00e3o era comercial. Depois fiz outro disco [&#8220;Sob o Sol&#8221;] com um poeta do Piau\u00ed [Fabio Kerouac], e de novo a m\u00fasica que minha esposa cantava foi a mais comentada. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o tocou no r\u00e1dio. O \u00faltimo foi com o poeta Lau Siqueira, chamado \u201cQuarta Capa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem uma m\u00fasica minha com Totonho, chamada \u201cCenas de um Filme Ingl\u00eas\u201d. Eu nunca tinha gravado, s\u00f3 cantava nos shows. Gravei num DVD, e as pessoas adoram. V\u00e1rios artistas j\u00e1 cantaram. Mas, claro, n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica de sucesso. E eu digo: sou um p\u00e9ssimo compositor de sucessos, n\u00e3o tenho nenhum! (risos) Quando vou a escolas falar sobre m\u00fasica, digo sempre: hoje em dia voc\u00ea tem que escolher entre ser &#8220;mais um&#8221; ou ser &#8220;\u00fanico&#8221;. Se voc\u00ea escolhe ser mais um, pode at\u00e9 ficar rico, mas n\u00e3o vai ser feliz. Se escolhe ser \u00fanico, nunca vai ficar rico, vai ser pobre a vida toda, mas ser\u00e1 \u00fanico. Os que s\u00e3o mais um fazem sucesso, os que s\u00e3o \u00fanicos fazem m\u00fasica. N\u00f3s escolhemos fazer m\u00fasica, por isso n\u00e3o fazemos sucesso, nem conseguir\u00edamos, porque o que a gente faz n\u00e3o chega nesse patamar. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que voc\u00ea falou em discos, m\u00fasicas e registros: nos anos iniciais, voc\u00eas gravavam \u2018fitas alternativas\u2019 com ensaios e apresenta\u00e7\u00f5es e algumas delas tamb\u00e9m chegavam ao p\u00fablico. Existe a inten\u00e7\u00e3o de organizar e disponibilizar esse acervo antigo?<\/strong><br \/>\nOlha, essas grava\u00e7\u00f5es s\u00e3o ruins. A gente usava aqueles gravadorzinhos pequenos da National, retangulares, e algu\u00e9m ficava na plateia registrando o show. N\u00e3o sei se d\u00e1 para melhorar aquilo. Dia desses eu achei duas fitas alternativas guardadas, de um show chamado \u201cRepercuss\u00e3o\u201d, que a gente chegou a lan\u00e7ar para vender. Era uma fita que tinha os dois lados s\u00f3 com percuss\u00e3o. Tamb\u00e9m encontrei uma grava\u00e7\u00e3o de um show com eu, Pedro e Chico C\u00e9sar. N\u00e3o lembro quem era o percussionista, mas, rapaz, era muito doido. As m\u00fasicas que a gente fazia eram diferentes de tudo o que se fazia na \u00e9poca. As letras eram dif\u00edceis de digerir ou agressivas demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe aquele disco \u201cVem no Vento\u201d do Jaguaribe Carne? A ideia dele foi justamente tentar fazer um disco diferente, mais perto do comercial. A gente chamou uma banda top, montou arranjos com uma ambi\u00eancia mais pr\u00f3xima do mercado. Mas n\u00e3o deu: as letras eram agressivas, ou incompreens\u00edveis. As pessoas ouviam, mas n\u00e3o entendiam. Ent\u00e3o, mesmo tentando, n\u00e3o conseguimos ser comerciais. Depois a gente vai entendendo: n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o pudesse ser daquele jeito, mas talvez fosse poss\u00edvel ser um pouco menos agressivo. S\u00f3 que com m\u00fasica instrumental e experimental n\u00e3o d\u00e1. \u00c9 aquilo. N\u00e3o tem como fazer uma m\u00fasica experimental rom\u00e2ntica. Tem que ser na porrada mesmo. (risos)<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vem no Vento\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_mD3invK2efK3Weanlx19-_EuAIFNuXdH8\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entendo. Mas seria interessante lan\u00e7ar esse material, mesmo se a qualidade for baixa. Porque \u00e9 um documento hist\u00f3rico, as pessoas precisam ouvir. Ou ent\u00e3o regravar uma parte dessas can\u00e7\u00f5es com os equipamentos de agora\u2026<\/strong><br \/>\nTem um amigo nosso chamado Alfredo, o DJ Tudo, que Pedro conheceu a\u00ed em S\u00e3o Paulo, e ele gosta muito do nosso trabalho. Ele tem um selo chamado Mundo Melhor e faz um trabalho super importante, documentando grupos de tradi\u00e7\u00f5es populares pelo Brasil. Eu at\u00e9 mandei algumas coisas e ele disse: \u201cOlha, vou deixar guardado. Se aparecer oportunidade de lan\u00e7ar, eu lhe aviso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pedro n\u00e3o se importa muito com isso de documentar. Ele acha \u00f3timo quando algu\u00e9m faz, mas ele mesmo n\u00e3o liga. Eu at\u00e9 me preocupo, mas tenho dificuldade t\u00e9cnica. N\u00e3o tenho software de \u00e1udio no computador. Gravo num MP3zinho, passo para o computador\u2026 fica ruim, mas \u00e9 o que d\u00e1 para fazer. Minha preocupa\u00e7\u00e3o quando fiz o DVD foi justamente registrar m\u00fasicas que nunca tinham sido documentadas. Algumas s\u00f3 tinham sido cantadas em shows. Acho que gravei 20, 22 m\u00fasicas, com a banda tocando. H\u00e1 uns dois anos atr\u00e1s, comecei a pensar nisso: registrar as coisas, mesmo sem saber se vou lan\u00e7ar. Agora descobri aqui no centro [de Lucena] um cara que tem um est\u00fadio pequeno, caseiro. Vou para l\u00e1, toco minhas m\u00fasicas, fa\u00e7o no viol\u00e3o, s\u00f3 para registrar. N\u00e3o tenho inten\u00e7\u00e3o de lan\u00e7ar, s\u00f3 guardar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, compus v\u00e1rias m\u00fasicas na pandemia. Funcionava assim: algu\u00e9m escrevia uma frase no Facebook, e eu fazia uma m\u00fasica. (risos) Teve uma engra\u00e7ada: Chico C\u00e9sar postou uma foto dele em Paris com o Salif Ke\u00efta. Eu comentei: \u201cEita, Salif Ke\u00efta!\u201d. No outro dia acordei com uma melodia na cabe\u00e7a e fiz uma m\u00fasica. No total, compus umas 8, 9 m\u00fasicas desse jeito na pandemia. Fiz uma live, depois registrei, s\u00f3 para guardar mesmo. N\u00e3o tenho inten\u00e7\u00e3o de gravar para lan\u00e7ar, mas penso em registrar em est\u00fadio, talvez colocar no streaming. Esse neg\u00f3cio de streaming foi engra\u00e7ado, porque nunca tive vontade, mas minhas filhas e netas vivem me pedindo. \u201cV\u00f4, pelo amor de Deus, coloca os discos na internet para o povo ouvir!\u201d. Eu dizia: \u201cEu n\u00e3o sei fazer isso, n\u00e3o\u201d. Mas a\u00ed botei tudo no YouTube. Os discos inteiros, faixa a faixa. Depois elas ficaram me aperreando para colocar no Spotify. Eu n\u00e3o sabia como, mas agora o S\u00e9rgio [Pacheco, dono da Taioba Music] botou. Porque \u00e9 justamente o que voc\u00ea falou: as pessoas precisam ouvir, precisam saber que essas coisas existem. Tem gente que faz uma m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 para o mercado, mas \u00e9 m\u00fasica, n\u00e9?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jaguaribe Carne: alimento da Guerrilha Cultural\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zbREhuB-Zow?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00ea sente a recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico jovem ao entrar em contato com o seu trabalho e o da Jaguaribe Carne hoje em dia?<\/strong><br \/>\nAh, a gente chega em lugares que voc\u00ea n\u00e3o imagina, sabe? Olha, eu conheci um cara chamado Rico Venerito, que um dia eu tava aqui em casa e ele ligou chorando, falou: &#8220;\u00d3, eu estou aqui ouvindo o seu disco \u2018O Jardim dos Animais\u2019, eu estou chorando&#8221;. A\u00ed eu disse: &#8220;Mas rapaz, ser\u00e1 poss\u00edvel essa coisa?&#8221; A\u00ed toda vez que ele fala comigo, ele fala: &#8220;Po, sua m\u00fasica me faz n\u00e3o sei o qu\u00ea&#8221;. A\u00ed esse \u00faltimo disco, quando eu fui lan\u00e7ar tamb\u00e9m, chegou uma menina l\u00e1 que disse \u201csua m\u00fasica faz as pessoas sentirem uma coisa no cora\u00e7\u00e3o, sabe? No cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 um sentimento, muito sentimento\u201d. A\u00ed outra irm\u00e3 dessa menina disse: &#8220;Paulo R\u00f3, eu vim para c\u00e1 chorando, botei o disco para tocar no carro, comecei a chorar e vim chorando at\u00e9 aqui.&#8221; A\u00ed eu disse: &#8220;Ser\u00e1 poss\u00edvel uma coisa dessa, algu\u00e9m que faz uma m\u00fasica pro povo chorar? Pode um neg\u00f3cio desses?&#8221; (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro dia uma professora mandou uma mensagem: &#8220;Paulo R\u00f3, eu sou professora de uma escola aqui em Mangabeira\u201d, um bairro que tem em Jo\u00e3o Pessoa\u2026 \u201cOs alunos est\u00e3o fazendo um trabalho sobre o Jaguaribe Carne, est\u00e3o pesquisando sobre a hist\u00f3ria de voc\u00eas. Eu queria saber se voc\u00ea poderia vir aqui na escola para conversar com eles.&#8221; E vou com muito prazer, n\u00e9? A\u00ed assim, quando eu cheguei no port\u00e3o, j\u00e1 tinha um grupo de alunos com cartaz na m\u00e3o: &#8220;Bem-vindo Paulo R\u00f3&#8221;, n\u00e3o sei o qu\u00ea, tal. A\u00ed \u00e9 uma coisa engra\u00e7ada, n\u00e9? Voc\u00ea vai para uma sala, eles come\u00e7am a conversar, a perguntar. S\u00f3 que eles sabem mais coisas sobre mim do que eu mesmo, entendeu? Hoje em dia, tem coisas que voc\u00ea n\u00e3o lembra mais, n\u00e9? A\u00ed eles leram livros, viram todos os document\u00e1rios que tem no YouTube, viram mat\u00e9rias de jornais, tudo, tudo, tudo. Isso \u00e9 muito importante para mim, porque voc\u00ea percebe que o seu trabalho tem valido a pena. Porque \u00e9 isso que voc\u00ea sempre quis fazer, n\u00e9? Voc\u00ea sente que sempre quis democratizar a arte, principalmente pela escola.<\/p>\n<figure id=\"attachment_92313\" aria-describedby=\"caption-attachment-92313\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-92313 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/18-FotoMarcioMiranda-@sauaimagens-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/18-FotoMarcioMiranda-@sauaimagens-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/18-FotoMarcioMiranda-@sauaimagens-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-92313\" class=\"wp-caption-text\"><em>Nos tambores, os irm\u00e3os Pedro Osmar e Paulo R\u00f3 \/ Foto de Marcio Miranda<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E agora at\u00e9 virando tema de trabalho na escola\u2026<\/strong><br \/>\nSim, n\u00e9? (risos) A escola pra gente \u00e9 assim uma coisa muito importante, porque digamos assim, a escola abre as portas para voc\u00ea. S\u00f3 que para isso voc\u00ea tem que pesquisar, estudar, tem que querer, n\u00e9? Porque se voc\u00ea n\u00e3o quiser, n\u00e3o adianta nada. Nada adianta se voc\u00ea n\u00e3o quiser ser ajudado\u2026 Essas coisas de trabalhos com comunidade, a gente adora fazer, vai pro sindicato, para a popula\u00e7\u00e3o l\u00e1\u2026 Tem que ter pessoas para mostrar os caminhos. A\u00ed a gente faz isso atrav\u00e9s das escolas e desses lugares que as pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 arte, \u00e0 cultura, pra gente \u00e9 bom demais. \u00c9 maravilhoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais artistas ou movimentos contempor\u00e2neos voc\u00ea enxerga como herdeiros ou afinados com a proposta do Jaguaribe Carne?<\/strong><br \/>\nAqui tem um curso de m\u00fasica popular na universidade, j\u00e1 faz alguns anos. Ent\u00e3o, esses m\u00fasicos que est\u00e3o passando por esse curso, eles est\u00e3o saindo de l\u00e1 com a cabe\u00e7a e a m\u00fasica \u2018l\u00e1 em cima\u2019, com um grande conhecimento musical. E muitos dos professores que est\u00e3o l\u00e1 na escola foram as pessoas que come\u00e7aram a tocar com a gente, que na \u00e9poca estavam come\u00e7ando. Helinho, Xisto Medeiros, L\u00e9o Meira\u2026 E a\u00ed assim, essas pessoas hoje s\u00e3o os professores desse curso de m\u00fasica e sempre falam sobre o Jaguaribe Carne na sala de aula. Teve um menino que disse assim: &#8220;Rapaz, essa noite de s\u00e1bado me deixou em \u00eaxtase&#8221;, depois do show do disco. A\u00ed assim, a m\u00fasica que a gente faz, pra gente \u00e9 uma coisa t\u00e3o simples que \u00e9\u2026 sei l\u00e1, peculiar e familiar, sabe? Coisa da viv\u00eancia. N\u00e3o fiquem pensando que eu t\u00f4 esnobando, n\u00e9? Porque quando a gente faz, a nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 passar o sentimento de comunidade, para todo mundo. Mas a\u00ed a m\u00fasica se transforma numa coisa grande. Nesse show, as pessoas t\u00eam falado muito sobre isso, que a m\u00fasica \u00e9 linda, os arranjos, as vozes, as letras. E n\u00e3o \u00e9 intencional. A gente faz a m\u00fasica como uma coisa simples, n\u00e9? Se chega na cabe\u00e7a das pessoas com essa l\u00f3gica, \u00e9 maravilhoso pra gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas outra coisa: a m\u00fasica instrumental que a gente fazia era muito complicada. Muito dif\u00edcil. A\u00ed hoje em dia os meninos tocam isso como estudo. Eu fui tocar l\u00e1 um bai\u00e3o que eu fiz, um ritmo de bai\u00e3o que tem no instrumental. Quase que eu n\u00e3o toco. Vou tentar tocar mais lento, inclusive, porque sen\u00e3o n\u00e3o consigo tocar. Mas \u00e9 uma m\u00fasica bem dif\u00edcil de tocar tecnicamente, entende? A melodia, claro, \u00e9 complicada. Porque essas pessoas que estudam, os estudiosos, eles t\u00eam essa coisa de gostar de ouvir para aprender. E foi o que a gente fez com os nossos Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Walter Franco, Ravi Shankar, Youssou N&#8217;Dour, Jocy de Oliveira, n\u00e9? Toda essa gente fez isso, ouviu muitas m\u00fasicas e sentiu essa necessidade dentro desse universo, diversificou, entrou e ficou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 boa a receptividade. E assim mesmo as pessoas que n\u00e3o s\u00e3o m\u00fasicos, que n\u00e3o s\u00e3o cantores\u2026 Voc\u00ea via o grupo na frente, via que as pessoas estavam ouvindo mesmo, curtindo a m\u00fasica, se emocionando. Quer dizer, s\u00e3o pessoas que ouvem a m\u00fasica de verdade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PAPANGU - Ru\u00ednas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pJMYoyYKK7E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 2023, voc\u00ea participou da faixa \u201cRu\u00ednas\u201d do disco \u201cLampi\u00e3o Rei\u201d da Papangu. Como \u00e9 que aconteceu isso?<\/strong><br \/>\nAh, a hist\u00f3ria com o Papangu \u00e9 longa&#8230; O pai de Pedro [Francisco] e Rodolfo [Salgueiro], Odair Salgueiro, gravou o primeiro disco do Jaguaribe Carne, o \u201cJaguaribe Carne Instrumental\u201d em uma sala de cinema [o Cine Bang\u00fc\u00ea, hoje em dia Sala Jos\u00e9 Siqueira]. Ele era professor de m\u00fasica da Universidade Federal da Para\u00edba, levou os equipamentos e fez a capta\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas. Foi tudo gravado durante a madrugada. Depois ele gravou meu disco \u201cO Jardim dos Animais\u201d. Eu achei um livro de um cara l\u00e1 de Belo Horizonte, um professor de literatura chamado Ronald Claver. Eu vi esse livro e fiquei louco, porque os textos eram loucos e as ilustra\u00e7\u00f5es mais loucas ainda. A\u00ed eu disse: &#8220;Eu vou fazer a m\u00fasica desse neg\u00f3cio a\u00ed&#8221;. Peguei o livro, levei para casa e comecei a fazer as m\u00fasicas, em uma semana. Fiz um monte de show desse repert\u00f3rio. Era eu tocando viol\u00e3o, minha filha mais velha tocava piano, e a mais nova cantava, e a minha esposa fazia vocal e percuss\u00e3o. Chegou um pessoal e falou \u201crapaz, tu vai ter que gravar esse neg\u00f3cio em disco&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed liguei para ele [Odair Salgueiro] e disse: &#8220;queria mostrar um trabalho para a gente fazer.&#8221; A\u00ed eu levei a fita cassete que eu tinha gravado com Gl\u00f3ria tocando piano e eu cantando. A\u00ed teve um dia que ele ligou e disse: &#8220;Olha, voc\u00ea tem dinheiro para gravar isso?&#8221; Eu disse: &#8220;Nem um tost\u00e3o.&#8221; A\u00ed ele me disse: &#8220;Bom, \u00e9 o seguinte: voc\u00ea n\u00e3o tem dinheiro, eu tamb\u00e9m sou uma pessoa que n\u00e3o tenho posses.&#8221; Mas ele: \u201cvamos gravar esse neg\u00f3cio, porque voc\u00ea n\u00e3o vai sair da pobreza com isso, nem eu vou ficar mais rico gravando. Ent\u00e3o vamos gravar porque esse neg\u00f3cio aqui \u00e9 muito bom e precisa ser gravado\u201d. Da\u00ed eu passei um ano gravando. Tem muitas participa\u00e7\u00f5es, de C\u00e1tia de Fran\u00e7a, Paulinho, meu irm\u00e3o Pedro cantou uma m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca, os meninos [Pedro Francisco e Rodolfo Salgueiro] eram pequenininhos. Pedro era uma criancinha de fralda. O Rodolfo, acho que ele tinha uns 10, 15 anos. A\u00ed passou um tempo, o pai deles faleceu e houve um distanciamento. Depois, encontrei com Pedro [Francisco] na universidade e ele me disse: &#8220;a gente gravou um disco de blues em ingl\u00eas e queria que voc\u00ea ouvisse.&#8221; A\u00ed ele me deu. A\u00ed passou outro tempo, botei ele para tocar sanfona em alguns shows que fiz. Porque ele toca de tudo, n\u00e9? A\u00ed um tempo depois ele disse: &#8220;Rapaz, a gente t\u00e1 com um grupo de rock a\u00ed. Gostaria muito que voc\u00ea participasse&#8221; E eu: &#8220;\u00c9 o qu\u00ea? Rock?\u201d E ele: \u201cRock pesado.&#8221; Eu disse: &#8220;Tenho interesse\u201d. Eu gosto muito de rock, n\u00e9? A\u00ed ele me disse: &#8220;Vou fazer a m\u00fasica, depois mando para voc\u00ea escutar. Se voc\u00ea quiser tocar percuss\u00e3o, viol\u00e3o, voz, voc\u00ea faz o que voc\u00ea quiser.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed ele mandou a m\u00fasica, e fiquei assim procurando onde entrar, n\u00e9? A\u00ed eu: &#8220;J\u00e1 sei, vou fazer aquelas percuss\u00f5es vocais que a gente gosta de fazer&#8221;. Depois eu levei uma moringa para tocar. A\u00ed tudo que t\u00e1 l\u00e1 foi improvisado na grava\u00e7\u00e3o. E deu naquela m\u00fasica, que \u00e9 maravilhosa. Ali\u00e1s, o disco todo \u00e9 um neg\u00f3cio maravilhoso\u2026 Nesse show que a Jaguaribe Carne fez agora, Pedro e Hector estavam l\u00e1. Eu falei \u201cqueria registrar aqui a presen\u00e7a dos meninos do Papangu. Voc\u00eas j\u00e1 ouviram Papangu? Se n\u00e3o ouviram, escutem, porque o neg\u00f3cio \u00e9 s\u00e9rio mesmo. Pode escutar Papangu, viu?&#8221; \u00c9 uma coisa que vem de longe, que foi legal demais. E eles sempre fazem esses improvisos, n\u00e9? Possivelmente eles devem ter pego isso do Jaguaribe Carne tamb\u00e9m. \u00c9 por isso que eu gosto de dizer que o Jaguaribe Carne teve a coragem de fazer o que as pessoas n\u00e3o t\u00eam coragem at\u00e9 hoje. Existem pessoas que fazem m\u00fasica de mercado boa, mas tem coisas que n\u00e3o pode fazer. E eles fizeram, eles v\u00e3o l\u00e1 e fazem mesmo, n\u00e3o querem nem saber. Porque precisa de coragem para fazer uma m\u00fasica \u00fanica, e \u00e9 o que faz deles um grupo \u00fanico. E \u00e9 isso que a gente gosta muito neles. \u00c9 uma m\u00fasica muito boa, uma composi\u00e7\u00e3o muito boa. Eles s\u00e3o excelentes m\u00fasicos, s\u00e3o criativos. E al\u00e9m disso, s\u00e3o \u00f3timas pessoas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jaguaribe Carne\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nJyV5DR94AMfXW9-5co6gUrSL2V46rpiQ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voltando \u00e0 fase atual da Jaguaribe Carne: tem mais shows marcados? Voc\u00eas pretendem tocar mais por a\u00ed?<\/strong><br \/>\nTemos um no dia 10 de outubro, no Casar\u00e3o Criativo, no centro hist\u00f3rico de Jo\u00e3o Pessoa. Vamos tocar l\u00e1, num evento com a Orquestra de M\u00fasica Negra. Mas fora isso, n\u00e3o temos uma agenda fixa. N\u00e3o somos produtores. Eu mesmo, para produzir um show, n\u00e3o faria. Ultimamente temos tocado atrav\u00e9s de editais ou convites. Por exemplo, a Energisa sempre faz um evento de Natal e nos chama. Fizemos l\u00e1 tr\u00eas ou quatro vezes. Ent\u00e3o esperamos convites. Porque eu n\u00e3o sei vender apresenta\u00e7\u00f5es. Fazer m\u00fasica eu sei, mas vend\u00ea-la, n\u00e3o. Quando lan\u00e7amos um CD, se algu\u00e9m pergunta o pre\u00e7o, eu digo \u201cR$ 20\u201d. A pessoa responde: &#8220;Rapaz, caro demais&#8221;. Eu j\u00e1 n\u00e3o sei o que dizer, ent\u00e3o eu tomo o disco de volta ou acabo dando de presente. Se a pessoa quiser mesmo, leva. Mas eu n\u00e3o tenho esse tino para com\u00e9rcio\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente nunca prezou por isso n\u00e3o. Quer dizer, n\u00e3o \u00e9 que nunca se preocupou. Hoje em dia eu j\u00e1 estou mais preocupado com essa coisa do financeiro. Mas isso n\u00e3o quer dizer que, se um grupo tiver um trabalho cultural, um coletivo num bairro, e convidar a gente para tocar, a gente n\u00e3o v\u00e1. A gente vai, n\u00e3o tem problema nenhum. A gente est\u00e1 se preparando. Jorge Neg\u00e3o, o menino do baixo, diz sempre que cada show \u00e9 um ensaio. Ent\u00e3o quanto mais ensaios e apresenta\u00e7\u00f5es, mais preparados n\u00f3s vamos estar para fazer esse trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por mim, voc\u00eas deveriam fazer mais shows, porque eu gostaria de ver a Jaguaribe Carne ao vivo tamb\u00e9m, quem sabe at\u00e9 aqui no Sudeste?<\/strong><br \/>\nMaravilha! Vamos pensar no caso, n\u00e9? (risos)<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jaguaribe Carne e Trio Medeiros | Programa Instrumental Sesc Brasil\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EfSSG_wueuU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>. 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