{"id":91679,"date":"2025-10-04T01:08:17","date_gmt":"2025-10-04T04:08:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=91679"},"modified":"2025-10-23T10:04:18","modified_gmt":"2025-10-23T13:04:18","slug":"entrevista-susan-kalik-thiago-gomes-dan-ferreira-e-antonio-marcelo-falam-sobre-timidez-longa-baiano-que-estreia-no-festival-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/10\/04\/entrevista-susan-kalik-thiago-gomes-dan-ferreira-e-antonio-marcelo-falam-sobre-timidez-longa-baiano-que-estreia-no-festival-do-rio\/","title":{"rendered":"Festival do Rio: Susan Kalik, Thiago Gomes, Dan Ferreira e Ant\u00f4nio Marcelo falam sobre o longa baiano &#8220;Timidez&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte da sele\u00e7\u00e3o de filmes exibidos na edi\u00e7\u00e3o deste ano do Festival do Rio, o longa metragem &#8220;Timidez&#8221;, de Susan Kalik e Thiago Gomes, tem sua estreia nacional em mostras de cinema ap\u00f3s um longo per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o. Experientes no fazer cinematogr\u00e1fico, a lista de projetos realizados por Susan e Thiago \u00e9 grande. Com longas no formato de document\u00e1rios e curtas tanto ficcionais, como &#8220;Braseiro&#8221; (2012), &#8220;As Balas que N\u00e3o Dei ao Meu Filho&#8221; (2018) e &#8220;Sobre Nossas Cabe\u00e7as&#8221; (2020), quanto com trabalhos abordando fatos reais em docs como &#8220;Tudo Que Move&#8221; (2014), &#8220;Cores e Flores para Tita&#8221; (2017), &#8220;Bando &#8211; Um Filme de&#8221; (2018), document\u00e1rio co-dirigido por Thiago ao lado de L\u00e1zaro Ramos, e o m\u00e9dia metragem &#8220;Do que Aprendi com Minhas Mais Velhas&#8221; (2017), co-dirigido por Susan ao lado de Fernanda J\u00falia, a carreira do casal alcan\u00e7a, com &#8220;Timidez&#8221;, um plano tra\u00e7ado h\u00e1 um tempo: filmar um longa de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan explica que o transitar para o longa ficcional passou por uma adapta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. &#8220;No document\u00e1rio, a gente contempla muito. No teatro, em cena, a pessoa te d\u00e1. E aqui (no cinema), a t\u00e9cnica passa por cima. A\u00ed desce um boom, a\u00ed faz um chiadinho. A perfei\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica vem como uma camada muito importante&#8221;, esclarece a roteirista e diretora. &#8220;Ainda estou me adaptando com esse tempo e ritmo pr\u00f3prio que o cinema de fic\u00e7\u00e3o tem de: &#8216;segura um pouquinho, repete de novo&#8217; e que, no document\u00e1rio, acho que eu me realizava muito de ver fluir, de escutar a hist\u00f3ria, de ver a pessoa contar, de ver narrar, de ver o filme. Aqui, vamos vendo aos pedacinho e depois \u00e9 que juntamos tudo&#8221;, pontua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste aspecto de mesclas de experi\u00eancias, Thiago complementa a fala de sua parceira profissional e de vida: &#8220;Como a gente trabalhava com curtas de fic\u00e7\u00e3o e longas document\u00e1rios, essa experi\u00eancia ela meio que se mescla. E tamb\u00e9m o pr\u00f3prio document\u00e1rio ele te alimenta na fic\u00e7\u00e3o. Teve um momento aqui no set em que eu falei: &#8216;Gente, agora \u00e9 hora do document\u00e1rio. N\u00e3o vamos ficar elaborando muito, n\u00e3o. Vamos captar essa cena.&#8217; Uma coisa vai alimentando a outra. A experi\u00eancia enquanto documentarista alimenta essa rela\u00e7\u00e3o. Porque o document\u00e1rio \u00e9 muito do ser humano&#8221;, afirma o diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Timidez&#8221; adapta para o cinema a pe\u00e7a teatral escrita por Cl\u00e1udia Barral, &#8220;O Cego e o Louco&#8221;, e tem os atores Dan Ferreira e Ant\u00f4nio Marcelo como protagonistas. Ambos j\u00e1 trabalharam anteriormente com Thiago e Susan em curtas metragens e voltam para consolidar a parceria nessa adapta\u00e7\u00e3o escrita por Kalik, Barral e por Marcos Barbosa. Na montagem original, os protagonistas eram interpretados por atores brancos, sendo que, no texto para o cinema, a entrada de Dan Ferreira e Ant\u00f4nio Marcelo traz uma profundidade ainda maior \u00e0 hist\u00f3ria daqueles dois irm\u00e3os confinados tanto mentalmente quanto fisicamente em um apartamento no qual objetos, traumas do passado e uma sufocante depress\u00e3o chegam ao ponto de uma explos\u00e3o .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fico muito feliz de nesse roteiro, que foi escrito por uma mulher branca, que \u00e9 a Cl\u00e1udia, encenada por outros atores n\u00e3o negros, n\u00f3s possamos, agora, potencializar viv\u00eancias da nossa exist\u00eancia na sociedade a partir dele&#8221;, comemora Dan. &#8220;Susan traz, a partir daquelas perspectivas e daquelas quest\u00f5es dos personagens no texto original de &#8216;O Cego e o Louco&#8217;, quest\u00f5es muito latentes da viv\u00eancia negra na sociedade e do ponto dessas viol\u00eancias e dessa estrutura racista, que \u00e9 estrutural e estruturante&#8221;, complementa o ator.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio Marcelo comenta, ainda, a ideia de desconstru\u00e7\u00e3o dos personagens e como essa abordagem \u00e9 bem-vinda. &#8220;S\u00e3o dois homens negros ali discutindo. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem como a gente n\u00e3o pensar nas rela\u00e7\u00f5es de afeto entre essas pessoas. N\u00f3s somos constru\u00eddos historicamente para sermos agressivos, para sermos brutos. Se voc\u00ea colocar dois homens negros em cena, voc\u00ea tem que pensar nisso, tem que pensar nessa discuss\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1ria, tamb\u00e9m, hoje. Sobre masculinidade. Eu fico feliz, e a\u00ed tamb\u00e9m vem a confian\u00e7a, porque eu sei que o que est\u00e1 em cena, o que vai para o corte final, \u00e9 a minha hist\u00f3ria enquanto homem negro, sabe?&#8221;, reflete Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Esse projeto nasceu em 2014, antes de eu entrar. Era um projeto do Thiago, que j\u00e1 trabalha com o Marcos Barbosa e com a Cl\u00e1udia Barral h\u00e1 um tempo. Em 2016, eu entrei como produtora. No que come\u00e7o a estudar roteiro, come\u00e7o a me dedicar mais \u00e0 dramaturgia, mais \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, em 2019, eu j\u00e1 me sentia com ousadia o suficiente para falar: &#8216;Deixa eu entrar nesse projeto como roteirista e como diretora, tamb\u00e9m&#8217;, relembra Susan, entre sorrisos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A \u00faltima vers\u00e3o do roteiro junto com os autores \u00e9 a que foi para o edital do setorial audiovisual em 2018. Ficamos na primeira supl\u00eancia, desesperados. Acabou que o projeto subiu e foi aprovado. E a\u00ed, em 2019, foi aquela festa. Vai sair o filme! Vamos fazer o filme! Mas veio o governo Bolsonaro. Foram tr\u00eas anos de completo desespero, com a derrubada da Ancine, a derrubada do MinC. Toda a sabotagem cultural que a gente viveu. T\u00ednhamos a certeza iminente de que nunca \u00edamos receber a verba desse projeto. Que esse projeto n\u00e3o ia mais existir,&#8221; relembra Susan ao falar da fase pr\u00f3xima \u00e0 t\u00e3o aguardada libera\u00e7\u00e3o da verba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista com o Scream &amp; Yell, Susan, Thiago, al\u00e9m do produtor Marcos Pieri e da dupla de protagonistas Dan Ferreira e Ant\u00f4nio Marcelo, falam sobre todo o processo de cria\u00e7\u00e3o de &#8220;Timidez&#8221;. Confira!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-91682 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ_CARTAZ_SET25-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1054\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ_CARTAZ_SET25-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ_CARTAZ_SET25-copiar-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Timidez&#8221; adapta para o cinema a pe\u00e7a teatral &#8220;O Cego e o Louco&#8221;, escrita por Cl\u00e1udia Barral. Voc\u00eas j\u00e1 v\u00eam de uma experi\u00eancia grande com diversos curtas dirigidos em parceria. Para voc\u00eas dois que est\u00e3o na fun\u00e7\u00e3o de dirigir essa adapta\u00e7\u00e3o, e Susan que co-escreveu o roteiro ao lado de Cl\u00e1udia de Marcos Barbosa, como foi esse processo de adaptar a pe\u00e7a e estruturar essa vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica em longa metragem?<\/strong><br \/>\nThiago: Como a gente vem do teatro&#8230; Eu vim do cinema, fui para o teatro, conheci a Susan e a gente se casou no teatro. Nosso primeiro curta-metragem juntos foi o &#8220;Braseiro&#8221; (2013), que \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a do Marcos Barbosa, que \u00e9 o marido da Cl\u00e1udia Barral. Marcos fez a primeira adapta\u00e7\u00e3o do &#8220;Cego e o Louco&#8221; com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Isso. A primeira adapta\u00e7\u00e3o desse roteiro \u00e9 dos dois. Eu entro depois. Quando est\u00e1vamos na etapa de pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o para esse \u00faltimo edital \u00e9 que eu entro como roteirista junto. \u00c9 quando fechamos os tr\u00eas essa vers\u00e3o final do roteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: Esse \u00e9 o nosso terceiro filme adaptado de espet\u00e1culos teatrais. O primeiro foi o &#8220;Braseiro&#8221; e o segundo foi &#8220;As Balas que N\u00e3o Dei ao Meu Filho&#8221; (2018)&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: &#8220;As Balas que N\u00e3o Dei ao Meu Filho&#8221; \u00e9 de um espet\u00e1culo solo do Daniel Arcades. &#8220;Timidez&#8221; foi adaptado primeiro pela Cl\u00e1udia Barral e pelo Marcos Barbosa, e, depois, adaptamos os tr\u00eas, eu, Cl\u00e1udia e Marcos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: A primeira vers\u00e3o virou um projeto em 2014. N\u00f3s fomos trabalhando essa vers\u00e3o. Susan chegou como roteirista e, junto a Cl\u00e1udia e Marcos, faz uma nova vers\u00e3o. \u00c9 nesse momento que ela tamb\u00e9m vem como diretora. \u00c0 princ\u00edpio, em 2014, eu ia dirigir sozinho. Em 2017, quando ela entrou como co-roteirista, eu falei: &#8220;vem aqui, vamos dirigir juntos.&#8221; E a\u00ed foi um per\u00edodo em que come\u00e7amos a dirigir muita coisa junto. Resolvemos fechar essa parceria para esse filme, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Falando dessa obra especificamente, e at\u00e9 das outras duas, tamb\u00e9m, t\u00ednhamos, por acaso, o Marcos Barbosa e, tamb\u00e9m, o Daniel Arcades, que vinha de um espet\u00e1culo solo. O Marcos tinha esse espet\u00e1culo que se passava todo em uma noite. Acho que as tr\u00eas obras tiveram uma expans\u00e3o de mundo dentro da hist\u00f3ria delas. No teatro, elas se passavam como um evento \u00fanico. &#8220;As Balas que N\u00e3o Dei ao Meu Filho&#8221; \u00e9 uma \u00fanica noite na qual um policial chega em casa, n\u00e3o encontra o filho, e come\u00e7a essa jornada dele atr\u00e1s desse filho. &#8220;Braseiro&#8221; \u00e9 sobre um menino que \u00e9 flagrado roubando pelo vizinho, \u00e9 aprisionado e vai ser assassinado naquela noite. S\u00e3o fam\u00edlias desesperadas para salvar aqueles meninos. Tamb\u00e9m uma \u00fanica situa\u00e7\u00e3o de uma noite s\u00f3. E agora, &#8220;Timidez&#8221; tem esses dois irm\u00e3os dentro dessa casa esperando essa vizinha que vai chegar a qualquer momento em uma noite na qual o Jonas finalmente resolve enfrentar o Nestor. Ent\u00e3o, a gente precisava trazer uma expans\u00e3o de mundo que viesse a dar dimens\u00e3o maior sobre quem s\u00e3o esses personagens, que nos trouxesse mais informa\u00e7\u00f5es sobre o drama que levou esses personagens \u00e0quela noite espec\u00edfica. Ent\u00e3o, trouxemos flashbacks nas tr\u00eas hist\u00f3rias. Trouxemos essas hist\u00f3rias de fora, e aqui tamb\u00e9m. E essa hist\u00f3ria, particularmente, tem tr\u00eas linhas narrativas, que \u00e9 esse tempo de a\u00e7\u00e3o presente, que \u00e9 essa noite, o tempo da casa. A inf\u00e2ncia deles dois, que explica muito da a\u00e7\u00e3o do Jonas com esse irm\u00e3o. E que explica, tamb\u00e9m, a a\u00e7\u00e3o do Jonas com essa m\u00e3e que foi retirada dele. E o outro tempo narrativo \u00e9 um passado mais pr\u00f3ximo que \u00e9 toda essa hist\u00f3ria que acontece entre a L\u00facia, que \u00e9 a vizinha, e o Jonas. \u00c9 uma hist\u00f3ria pr\u00e9, mas que \u00e9 plat\u00f4nica. Ela j\u00e1 acontece, mas ainda n\u00e3o aconteceu. Ela vai culminar com a \u00faltima cena do filme que \u00e9 a primeira vez que eles se conhecem e se encontram.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-91683 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e3o dois personagens que travam uma luta f\u00edsica e psicol\u00f3gica durante todo o filme. Logo no come\u00e7o, com a ideia da disputa para quem consegue olhar para o sol e que acaba por ocasionar a cegueira, mostra um pouco do comportamento submisso de um dos irm\u00e3os e o modo como esse crescente vai se desenvolver na hist\u00f3ria. Voc\u00eas podem falar um pouco sobre esses aspecto de desenvolvimento deles do texto teatral para a estrutura de roteiro?<\/strong><br \/>\nThiago: A gente brinca que ele \u00e9 aquele irm\u00e3o mais velho que protege, mas est\u00e1 falando: &#8220;vai l\u00e1, n\u00e3o. Vai l\u00e1 n\u00e3o porque voc\u00ea n\u00e3o consegue.&#8221; Mas que tamb\u00e9m n\u00e3o te empurra para frente para voc\u00ea poder ir. N\u00e3o morde e assopra. Aquele pai que \u00e9 r\u00edgido, que acha que est\u00e1 fazendo voc\u00ea crescer, mas que, no fim das contas, est\u00e1 te cerceando uma possibilidade de crescimento pessoal e de sair para o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Acho que tem uma dimens\u00e3o importante entre o espet\u00e1culo e o filme que \u00e9 o fato do espet\u00e1culo ter sido escrito para dois atores em cena. De uma dimens\u00e3o externa, vinham informa\u00e7\u00f5es sobre a m\u00e3e e sobre a Teresa. Uma das principais mudan\u00e7as do filme foi que a Teresa e a L\u00facia s\u00e3o personagens. E a partir do momento em que elas entram, elas entram com um arco de personagem e com uma influ\u00eancia direta sobre ele dois. Ali, temos uma mudan\u00e7a imediata sobre a raz\u00e3o pela qual o sofrimento do Jonas se d\u00e1. N\u00e3o \u00e9 mais uma rela\u00e7\u00e3o s\u00f3 entre esses dois irm\u00e3os e essa cegueira e essa competi\u00e7\u00e3o. A dimens\u00e3o principal da mudan\u00e7a dentro do projeto foi um olhar afrocentrado. Porque os dois personagens do espet\u00e1culo eram homens brancos e a partir do momento em que essa hist\u00f3ria passa a ser sobre dois homens negros, a gente entra com toda uma dimens\u00e3o de doloridade, de ancestralidade, de impacto que o racismo traz em cima do adoecimento emocional dessas duas pessoas. E a\u00ed t\u00ednhamos uma dimens\u00e3o imediata que era a de uma m\u00e3e, que \u00e9 a Teresa, que era uma mulher que a gente construiu como uma mulher que tinha uma luta profunda contra a depress\u00e3o e que, naquele tempo, sem ter uma rede emocional que pudesse a apoiar, ela acaba sucumbindo e se suicida. E a forma como Jonas v\u00ea isso na primeira parte do filme \u00e9 como um abandono. Ele v\u00ea a m\u00e3e pegando as malas, se despedindo e indo embora. S\u00f3 quando ele confronta a pr\u00f3pria realidade ao final do filme \u00e9 que ele aceita o fato de que a m\u00e3e morreu. E luta contra o que seria esse poss\u00edvel caminho para ele, que tamb\u00e9m n\u00e3o suporta a pr\u00f3pria dor que sente. Dor pelo abandono, pela dificuldade de rela\u00e7\u00e3o, pela solid\u00e3o, pelo racismo, por se sentir o tempo todo nessa rela\u00e7\u00e3o com o irm\u00e3o&#8230; (pausa) N\u00e3o posso falar muito para n\u00e3o dar spoiler (risos). Mas \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o que diz para ele n\u00e3o sair da caverna e n\u00e3o se relacionar com ningu\u00e9m para n\u00e3o sofrer. Que diz para ele n\u00e3o achar que pode encarar o mundo, que diz que ele n\u00e3o \u00e9 forte o suficiente, que n\u00e3o tem capacidade o suficiente e que ele n\u00e3o vai aguentar. Ao mesmo tempo que ele diz isso para o irm\u00e3o, como quem diz: &#8220;mas eu cuido de voc\u00ea. Eu estou te protegendo. Estou te dizendo para voc\u00ea n\u00e3o subir porque voc\u00ea vai cair&#8221;. Assim, ao mesmo tempo, ele vai introjetando no irm\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de que ele n\u00e3o vai encontrar ningu\u00e9m nunca. De que o irm\u00e3o n\u00e3o \u00e9 digno de ningu\u00e9m. De que o irm\u00e3o n\u00e3o pode e nem vai ser feliz. De que a vida \u00e9 essa tristeza, mesmo. De que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda. E a gente tem uma mudan\u00e7a grande, tamb\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o ao espet\u00e1culo porque, na pe\u00e7a, o Jonas se suicida. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda. Claro que n\u00e3o d\u00e1 para contar essa hist\u00f3ria, hoje, como dois personagens colocados em uma situa\u00e7\u00e3o em que eles n\u00e3o tenham sa\u00edda. Eles precisam ter uma sa\u00edda. O que ele precisa \u00e9 entender a situa\u00e7\u00e3o onde ele est\u00e1, conseguir lutar contra ela e enxergar que h\u00e1 uma possibilidade. E quebrar o ciclo que se caiu sobre a m\u00e3e dele e n\u00e3o deixar acontecer com ele. E tomar coragem para seguir em frente. Sem revelar nada com spoilers com o final, o que pode-se dizer \u00e9 que a gente n\u00e3o se cura de nossas dores imediatamente, mas o importante \u00e9 que a gente as confronte e todos os dias. Lute contra elas um pouquinho porque \u00e9 assim que \u00e9 de verdade. Ent\u00e3o, eu acho que essa mudan\u00e7a \u00e9 grande para a gente, voltando para o menino que olha o sol para nunca mais enxergar, para nunca mais ver tudo que tem em volta dele, que \u00e9 tamb\u00e9m uma met\u00e1fora para tudo aquilo que d\u00f3i tanto, que lateja tanto, que queima igual ao sol e que a gente n\u00e3o quer mais ver e se cega muitas vezes, que \u00e9 o que a gente faz. A gente esconde tudo em um ba\u00fa, se cega, e finge que n\u00e3o d\u00f3i, que n\u00e3o tem, que n\u00e3o existe, que \u00e9 melhor n\u00e3o lidar. Se n\u00e3o lidar, n\u00e3o d\u00f3i. Mentira! D\u00f3i, sim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;Timidez&quot;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OPnkQEbyN-c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro-me de assistir a &#8220;As Balas Que N\u00e3o Dei ao Meu Filho&#8221; e sentir a tens\u00e3o se construir \u00e0 medida que o curta-metragem ia chegando ao seu climax. Lendo o roteiro do filme, percebi uma sensa\u00e7\u00e3o semelhante. Como foi trazer essa constru\u00e7\u00e3o para a dire\u00e7\u00e3o e para a escrita de &#8220;Timidez&#8221;, sendo que dessa vez o tempo dessa estrutura\u00e7\u00e3o \u00e9 bem maior dentro de um longa-metragem?<\/strong><br \/>\nThiago: Sim. E \u00e9 uma semente que est\u00e1 nos pr\u00f3prios textos. Tanto ele quanto &#8220;Braseiro&#8221;, que \u00e9 esse ticking clock. Algo vai acontecer. E a\u00ed a gente come\u00e7a o filme a partir disso. Alguma coisa vai acontecer. Quer dizer, no nosso caso, n\u00e3o come\u00e7a o filme a partir disso, mas esse momento do ticking clock \u00e9 um momento de virada no filme. A gente tem todo o trabalho de contar a hist\u00f3ria dessa m\u00e3e, desse filho, de trazer o passado, mas na hora em que ele chega ali na casa e algu\u00e9m ligou, e \u00e9 a L\u00facia, esse ticking clock come\u00e7a a bater e as tens\u00f5es v\u00e3o acontecendo. Isso tem em &#8220;As Balas&#8230;&#8221;\u00a0 , que era esse momento do &#8220;esse cara vai sair? Ele vai ficar? Ele vai esperar a not\u00edcia do filho? Ou ele vai l\u00e1 ver o que realmente aconteceu?&#8221; E l\u00e1 em &#8220;Braseiro&#8221;, tinha o filho e a quest\u00e3o se a fam\u00edlia fazia ou n\u00e3o alguma coisa para salvar, para resgatar aquele garoto. Nos outros dois filmes, talvez em um ponto de vista mais tr\u00e1gico, talvez as coisas n\u00e3o saiam como aconteceram. J\u00e1 no &#8220;Timidez&#8221;, o afeto tomou conta do roteiro no sentido de haver uma salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Tem uma coisa que est\u00e1 muito forte no &#8220;As Balas&#8230;&#8221; e que se repete aqui, e que se repete, tamb\u00e9m, em &#8220;Sobre Nossas Cabe\u00e7as&#8221;. E a\u00ed a gente tem o (Ant\u00f4nio) Marcelo, que era o protagonista de &#8220;As Balas&#8230;&#8221;, junto com o Dan (Ferreira), que era o protagonista do &#8220;Sobre Nossas Cabe\u00e7as&#8221;. Esse \u00e9 o encontro dos dois protagonistas dos \u00faltimos dois curtas. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o em que a gente come\u00e7a meio conduzindo para um g\u00eanero distante do g\u00eanero do final do filme e conduzindo a uma situa\u00e7\u00e3o distante da situa\u00e7\u00e3o final do filme. A sensa\u00e7\u00e3o que temos \u00e9 que s\u00e3o duas pessoas confinadas pela vida, pelo viver. S\u00e3o dois irm\u00e3os em conflito. Conflito de irm\u00e3o \u00e9 uma coisa que a gente j\u00e1 conhece, a gente j\u00e1 viu bastante. S\u00f3 que esses irm\u00e3os levam os conflitos deles a lugares mais extremos na emo\u00e7\u00e3o, no sentimento. Seja quando eles est\u00e3o brigando, seja quando eles est\u00e3o brincando. Eles t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o que, \u00e0s vezes, beira um pouco um lugar de estranhamento n\u00e3o natural da rela\u00e7\u00e3o entre os dois. E que a gente vai convivendo porque s\u00f3 s\u00e3o eles dois nesse mundo fechado deles. At\u00e9 o momento em que essa vizinha anuncia: &#8220;vou descer a\u00ed para jantar&#8221;. \u00c9 quando a hist\u00f3ria vira o gatilho do: &#8220;ela t\u00e1 vindo, ela t\u00e1 vindo, ela t\u00e1 vindo. Ela vem, ela n\u00e3o vem mais. Voc\u00ea fez isso. Voc\u00ea est\u00e1 impedindo.&#8221; E a gente come\u00e7a a ver essa ansiedade tomando conta do Jonas. O Nestor se divertindo cada vez mais com isso que ele mesmo criou e como isso, depois, vira contra ele. E a\u00ed vamos acompanhando nesse fio dessa noite momentos em que a gente tem certeza que: um vai matar o outro, que eles n\u00e3o v\u00e3o deixar a menina entrar ou que eles v\u00e3o matar a menina. As emo\u00e7\u00f5es deles v\u00e3o aflorando de um jeito que a gente vai tentando conduzir tudo para um lugar distante do que \u00e9 a verdade do filme, que n\u00e3o vamos falar aqui. \u00c9 algo que j\u00e1 trouxemos um pouco em &#8220;Sobre Nossas Cabe\u00e7as, quando pensamos o tempo todo no que s\u00e3o aqueles dois rapazes olhando ETs. Quem \u00e9 que vai subir morro para olhar ET? Isso vai at\u00e9 a situa\u00e7\u00e3o em que o outro fala: &#8220;Eu te chamei aqui porque eu fiz um contato. Eu vou embora do planeta e vou te levar comigo para voc\u00ea n\u00e3o ser assassinado aqui. Porque, aqui, as pessoas pretas morrem.&#8221; E o outro fala: &#8220;Voc\u00ea t\u00e1 maluco!&#8221; E que a gente caminha at\u00e9 esse momento da revela\u00e7\u00e3o do filme. Nesse momento \u00e9 que Jonas realmente desiste, vai para o quarto que era o da sua m\u00e3e, e que ainda est\u00e1 l\u00e1, intacto, desde que ela morreu, mas que em uma primeira apresenta\u00e7\u00e3o, ele chega como algo que a gente chama de &#8220;A Cabe\u00e7a de Jonas.&#8221; Esse quarto chega com todas as fantasias do Jonas. \u00c9 um quarto tomado pelos desenhos dele. Ele tem uma ilumina\u00e7\u00e3o on\u00edrica que \u00e9 para onde ele se refugia e se entrega para morrer. At\u00e9 que ele retoma que h\u00e1 um caminho, que \u00e9 a L\u00facia. Ele n\u00e3o precisa desistir. N\u00e3o precisa deixar de acreditar. E a\u00ed ele parte para tentar uma nova possibilidade de exist\u00eancia. Ent\u00e3o, o tempo todo voc\u00ea fica se perguntando o que \u00e9 aquilo tudo. E d\u00e1 um frio gostoso na barriga. Espero que d\u00ea em quem vai assistir, porque na hora em que eu escrevi, deu. (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: Essa \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jo\u00e3o Paulo: A inten\u00e7\u00e3o e a tens\u00e3o (risos).<\/strong><br \/>\nThiago: Exatamente (risos).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91684 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><strong>O processo de produ\u00e7\u00e3o, antes de entrar nas semanas de grava\u00e7\u00e3o, foi bem importante, ent\u00e3o.<\/strong><br \/>\nThiago: Sim. E tem uma coisa de constru\u00e7\u00e3o do filme, falando do roteiro, mas trazendo um pouco da realiza\u00e7\u00e3o, que foi um processo que\u00a0 a gente acabou fazendo algo que t\u00ednhamos muita vontade e \u00e9 dif\u00edcil de se fazer, j\u00e1 que, em geral, temos pouco tempo com os atores. Aqui, a gente teve um tempo maior com os atores. A sala do Jonas, todo o drama que se passa aqui entre os irm\u00e3os, deve ser 60 a 70% do filme, pelo menos. N\u00f3s conseguimos levantar isso como uma pe\u00e7a de teatro. Fomos para a sala de ensaio e levantamos como uma pe\u00e7a de teatro com todas as marca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Fizemos isso quando gravamos &#8220;Braseiro&#8221;, tamb\u00e9m quando fizemos o &#8220;Caso de Ester&#8221;, no &#8220;As Balas&#8230;&#8221; e no &#8220;Sobre Nossas Cabe\u00e7as&#8221;. Tem sido bem bacana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: E era um sonho fazer isso em um longa metragem, porque requer muito mais tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Foram quase tr\u00eas semanas de ensaio com eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: E essa condu\u00e7\u00e3o dessa tens\u00e3o vem disso, tamb\u00e9m. Falamos que ir\u00edamos come\u00e7ar por esse n\u00facleo, porque como ele leva a hist\u00f3ria, a gente precisa entend\u00ea-la a partir do que acontece nessa casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Sim. Foi algo bem bacana porque a gente mistura muito de teatro com cinema. Agora, com roteiro. Ent\u00e3o, o pr\u00f3prio estudo de texto com os atores j\u00e1 foi muito juntando essas tr\u00eas coisas porque j\u00e1 sab\u00edamos como era a loca\u00e7\u00e3o. Trouxemos os atores aqui no primeiro dia. Eles j\u00e1 tinham um entendimento de como era a mis-en sc\u00e8ne aqui. Adaptamos a sala de ensaio para poder ensaiar. O trabalho de texto j\u00e1 foi feito em cima de an\u00e1lise equitancial, que \u00e9 o que se usa no teatro, com a divis\u00e3o dos atos, que \u00e9 o que se usa no roteiro. Isso junto com a constru\u00e7\u00e3o dessa curva dram\u00e1tica de encena\u00e7\u00e3o, que \u00e9 como a gente j\u00e1 sabia que \u00edamos filmar. Ent\u00e3o, o que era plano sequ\u00eancia, a gente ensaiou como plano sequ\u00eancia. O que era um plano detalhe, ensaiamos assim. Quando fizemos para a equipe e para a para a produ\u00e7\u00e3o executiva um dia antes de ensaiar, eles assistiram da primeira \u00e0 \u00faltima cena da sala em um pau s\u00f3. A gente at\u00e9 brincou: &#8220;semana que vem, quando terminarmos de gravar, tira o cen\u00e1rio daqui, coloca no teatro, e vamos botar a pe\u00e7a em cartaz&#8221; (risos). Ent\u00e3o, isso foi muito bom porque os meninos t\u00eam um entendimento disso. Marcelo \u00e9 do teatro h\u00e1 anos. Dan \u00e9 do teatro, do cinema e da TV. Ent\u00e3o, a gente tinha a liberdade de fechar com eles e dizer: &#8220;Gente, estamos fechando o ato, a gente sobe a tens\u00e3o. Vamos abrir o ato na maciooooooota.&#8221; Ent\u00e3o, eles foram acompanhando com a gente as curvas do filme e isso foi muito legal. Porque ele varia muito, n\u00e9? \u00c9 uma cena positiva e uma negativa o tempo inteiro. O tempo inteiro os irm\u00e3os brincam. Dali a pouco, eles est\u00e3o brigando. Dali a pouco, eles est\u00e3o &#8220;carinhando&#8221; um ao outro. Dali a pouco, eles est\u00e3o comendo. Dali a pouco, \u00e9 algo trivial. E era importante que eles entendessem essa mudan\u00e7as de tom, porque se voc\u00ea fala: &#8220;P\u00f4, vou fazer um filme com dois irm\u00e3os em uma sala conversando a noite inteira.&#8221; A\u00ed voc\u00ea fala: &#8220;vou me matar quando for assistir, porque ningu\u00e9m aguenta tanto tempo os dois irm\u00e3os em uma sala (risos). Ent\u00e3o, era muito importante que a gente entendesse essas nuances. Por isso esse tempo de ensaio foi precioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: Foi precioso. E, tamb\u00e9m, a possibilidade de decupar esse momento durante os ensaios. Decupar, pensar enquadramento, plano sequ\u00eancia, tudo junto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Nossa, foi precioso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: E o elenco estava ali, e a gente explicando: &#8220;Olha, funciona assim&#8221;. A gente tem o cen\u00e1rio muito pr\u00f3ximo, tamb\u00e9m. E o fot\u00f3grafo chegou, ainda, para acompanhar ensaio. Ent\u00e3o, foi algo que ajudou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: A produ\u00e7\u00e3o ter conseguido essa defini\u00e7\u00e3o da loca\u00e7\u00e3o, da gente poder subir com o elenco antes, em tempo deles poderem ter dimens\u00e3o do que era a casa. A gente sai aqui da sala principal, a gente vira \u00e0 direita, \u00e9 o banheiro do Jonas. A gente segue reto, \u00e9 o quarto do Jonas, e o quarto da inf\u00e2ncia. A gente segue l\u00e1 para o fundo, e \u00e9 o quarto da m\u00e3e. Ent\u00e3o, ganhamos uma possibilidade de planos sequenciais na casa que \u00e9&#8230; Nossa, \u00e9 muito dif\u00edcil da gente ter. Normalmente, fazemos um c\u00f4modo em uma loca\u00e7\u00e3o, o outro \u00e9 em outra depois de um tempos, e assim foi. Ent\u00e3o, deu para n\u00f3s a possibilidade de mantermos a emo\u00e7\u00e3o e fazermos a transi\u00e7\u00e3o de algumas cenas emocionalmente sem corte. Porque eles come\u00e7am a cena, dali eles seguem para o quarto, tem sequ\u00eancias ali no telefone que s\u00f3 o que p\u00f4de dar para n\u00f3s foi a loca\u00e7\u00e3o e o principal, que foi a chegada da Carol (Tanajura, diretora de Arte) e do Telba (Matheus Rocha Pereira, diretor de Fotografia) durante os ensaios conosco. Tinha dias em que a gente planificava com Telba e ensaiava com eles \u00e0 tarde. Ent\u00e3o, a gente j\u00e1 sabia o que estava ensaiando, o que ia fazer, porque n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos conversado com o fot\u00f3grafo, j\u00e1 t\u00ednhamos desenhado com Carol todos os objetos que est\u00e3o aqui dentro. Isso foi uma coisa que conversamos muito com Carol e que fechamos muito com eles. Claro, estamos em um cen\u00e1rio. Um cen\u00e1rio comp\u00f5e imageticamente o filme, comp\u00f5e visualmente, mas a gente vem do teatro. No teatro, n\u00e3o tem nada em cena se essa coisa n\u00e3o tiver um uso. Todos os objetos que est\u00e3o em cena, eles t\u00eam uso. Se tem uma estante de livros, \u00e9 porque o Jonas tem coisa para colocar l\u00e1. Eles dan\u00e7am em cima dessa mesa, eles puxam aquele banco, ele usa essa poltrona. Ent\u00e3o, cada coisa que ia chegando com a Carol, n\u00f3s fomos acompanhando juntos e construindo. Isso porque essas pessoas moram dentro dessa casa h\u00e1 25 anos. Ent\u00e3o, elas usam tudo que tem aqui dentro. Na casa da gente, tirando uma outra coisa que est\u00e1 l\u00e1 porque \u00e9 bonitinha, a gente mexe em tudo. A gente puxa a mesinha, a gente p\u00f5e o p\u00e9, a gente bota um copo ali, a gente tem aquela gaveta porque ali dentro fica tal coisa. Ent\u00e3o, tentamos trazer isso. E foi \u00f3timo esse tempo junto com eles. Foi um luxo ter a Carol e o Telba antes. S\u00e3o duas pessoas que a gente j\u00e1 conhecia. A Carol fez o &#8220;As Balas&#8230;&#8221; conosco, o Telba fez &#8220;A Finada M\u00e3e da Madame&#8221;, do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/06\/entrevista-cineasta-bernard-attal-fala-sobre-o-documentario-sem-descanso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bernard Attal<\/a>\u00a0 (longa de 2017 no qual Susan trabalhou como produtora), e eu acho que isso \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis para mim no audiovisual. Agora, a fala da produtora vem, n\u00e3o tem como n\u00e3o vir. \u00c0s vezes, pela pr\u00f3pria escassez de recursos, a gente tem uma verba muito pequena em edital, que \u00e9 o nosso caso, que est\u00e1 sempre enforcado. Acaba que temos que enforcar a pr\u00e9.\u00a0 A gente n\u00e3o consegue ensaiar direito, n\u00e3o consegue ter os profissionais antes de come\u00e7ar a rodar. E isso nos preocupava bastante. Porque sab\u00edamos como a gente queria ensaiar o &#8220;Timidez&#8221; e a gente sabia que certos bailados s\u00f3 aconteceriam se o Telba chegasse antes para a gente planejar junto, decupar juntos. E sab\u00edamos que a gente precisava ter essa casa muito dentro da cabe\u00e7a dos meninos antes de ensaiar para que as coisas acontecessem aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: Uma coisa que \u00e9 importante falar do filme, j\u00e1 que estamos falando dos profissionais que fizeram parte da equipe, a gente tem o Jarbas Bittencourt, que \u00e9 diretor musical do Bando de Teatro Olodum. Ele tamb\u00e9m participou dos ensaios, trouxe coisas. Tem cenas que foram criadas com movimenta\u00e7\u00f5es. O filme pede isso, essa coisa sensorial e das sonoridades. Ent\u00e3o, tem uma musicalidade da a\u00e7\u00e3o. Jarbas estava aqui e j\u00e1 veio de uma proposta de olhar isso. Ele j\u00e1 veio com um olhar. Nos ensaios, j\u00e1 trabalhamos isso. Ele vai ser o diretor musical do filme. Ele j\u00e1 come\u00e7ou a criar material que j\u00e1 alimentou a gente nos ensaios, j\u00e1 alimentou a gente na cria\u00e7\u00e3o de cenas. E a gente tem uma cena com uma m\u00fasica linda do (Gilberto) Gil no filme, que \u00e9 &#8220;A Gente Precisa Ver o Luar&#8221; e que tem coreografia do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/17\/entrevista-zebrinha-fala-sobre-racismo-invisibilidade-e-ijo-dudu-memorias-da-danca-negra-na-bahia-filme-presente-no-in-edit-2023\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zebrinha<\/a>,\u00a0 que \u00e9 um momento muito especial e marcante do filme, que \u00e9 quando os dois irm\u00e3os dan\u00e7am. Eles colocam um disco que a m\u00e3e deles ouvia, e a\u00ed come\u00e7am a dan\u00e7ar. E o Zebrinha fez uma coreografia lind\u00edssima, muito afetiva. E tem isso, essa coisa do afeto dos irm\u00e3os que, nesse momento, fica muito forte.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-91685 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas v\u00eam do da produ\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o de curtas-metragens de fic\u00e7\u00e3o, Thiago co-dirigiu <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/10\/26\/entrevista-lazaro-ramos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o document\u00e1rio sobre o Bando de Teatro Olodum<\/a>, dirigiu o &#8220;Tudo que Move&#8221;. Susan, do mesmo modo, tem document\u00e1rios dirigidos no formato de curta e longa. Poderiam falar sobre essa transi\u00e7\u00e3o para o longa de fic\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nThiago &#8211; Como a gente trabalhava com curtas de fic\u00e7\u00e3o e longas document\u00e1rios, essa experi\u00eancia meio que se mescla. E tamb\u00e9m o pr\u00f3prio document\u00e1rio te alimenta na fic\u00e7\u00e3o. Teve um momento aqui no set em que falei: &#8220;gente, agora \u00e9 hora do document\u00e1rio. N\u00e3o vamos ficar elaborando muito, n\u00e3o. Vamos captar essa cena.&#8221; Uma coisa vai alimentando a outra. A experi\u00eancia enquanto documentarista alimenta essa rela\u00e7\u00e3o. Porque o document\u00e1rio \u00e9 muito do ser humano. Especialmente o &#8220;Bando&#8221;. Ele \u00e9 muito dessa rela\u00e7\u00e3o. &#8220;Bando&#8221;, &#8220;Tudo que Move&#8221; s\u00e3o document\u00e1rios que trazem a rela\u00e7\u00e3o do humano. Ent\u00e3o, isso ajuda muito, tamb\u00e9m. Da gente perceber. Porque, ali, voc\u00ea tem que estar esperto para perceber o sentimento do outro. Perceber a palavra, perceber o que vem e o que vai te ajudar a vir com um discurso e aprofundar aquele papo que voc\u00ea est\u00e1 tendo com a pessoa sendo documentada. E aqui \u00e9 um pouco isso, tamb\u00e9m. No fim das contas, voc\u00ea, tamb\u00e9m, est\u00e1 aqui de olho para entender a emo\u00e7\u00e3o do ator al\u00e9m do quadro, al\u00e9m de tudo, de olho no detalhe para ver: &#8220;Olha, se eu puxar aqui, eu tenho uma coisa que pode ser interessante.&#8221; Ent\u00e3o, uma coisa vai alimentando a outra. De fato, esse momento, para todo mundo que vai fazer um longa, ele \u00e9 um momento m\u00e1gico. \u00c9 aquele momento que, para quem \u00e9 cineasta, sempre \u00e9 aquilo : &#8220;um longa de fic\u00e7\u00e3o. Uma hora vamos fazer! Vai chegar essa hora!&#8221; E a gente vai fazendo curtas, porque eu amo curta-metragem. Quero fazer curtas para sempre (risos). N\u00e3o quero parar. Mas meio que o curta \u00e9 uma forma de a gente se alimentar para esse momento. N\u00e3o d\u00e1 para falar que n\u00e3o \u00e9. Ele \u00e9! Voc\u00ea est\u00e1 se alimentando, voc\u00ea est\u00e1 testando coisas. H\u00e1 a possibilidade de errar, h\u00e1 a possibilidade de fazer o estranho, de fazer o diferente, de ver e entender um pouco qual \u00e9 a sua linguagem. A forma como voc\u00ea gosta de fazer aquilo dali para poder aplicar depois em um longa para ser visto por mais gente, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Eu venho de uma experi\u00eancia muito mista, Jo\u00e3o. Porque eu come\u00e7o como diretora de anima\u00e7\u00e3o. Minha primeira empresa era uma produtora de anima\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, antes, eu brincava que eu j\u00e1 dirigia personagens de anima\u00e7\u00e3o antes de come\u00e7ar a dirigir atores. Depois eu vou trabalhar como atriz. Fico como atriz fixa de um teatro durante cinco anos. Ent\u00e3o, a minha pr\u00f3pria experi\u00eancia com atores veio atuando. Depois, entro na Escola de Teatro da UFBA, me formo em Dire\u00e7\u00e3o Teatral, onde come\u00e7o realmente a dirigir. Ap\u00f3s isso, vou produzir espet\u00e1culos. Eu produzi 32 espet\u00e1culos em cinco anos. Ent\u00e3o, s\u00f3 da\u00ed j\u00e1 vem muito essa observa\u00e7\u00e3o. Quando eu vou pra Cinema, que eu vou&#8230; (pausa) Ih, estou ficando velha, j\u00e1. N\u00e3o me lembro se eu fiz primeiro o longa ou depois o curta. Ah, primeiro foi o longa &#8220;Cores e Flores para Tita&#8221;, que \u00e9 de 2017, e o m\u00e9dia &#8220;Do Que Aprendi com Minhas Mais Velhas&#8221; em 2018. E a\u00ed, com essa jun\u00e7\u00e3o com o Thiago, quando ele me traz o projeto, e por ser tamb\u00e9m designer, eu acho que trazer a tela \u00e0 frente do olhos \u00e9 algo que est\u00e1 muito mais como um novo dispositivo, uma nova tela. Porque aquele olhar de ver o espet\u00e1culo, de ver o ator, de ver a cena, de ver o pequenininho&#8230; A gente brinca muito, porque eu falo com Thiago que eu vejo o pequenininho, eu veja as cenas, eu vejo a hist\u00f3ria. Ele v\u00ea as tiras, ele enxerga os layers. Porque Thiago \u00e9 montador. Ent\u00e3o, a gente est\u00e1 filmando e ele est\u00e1 montando na cabe\u00e7a dele. E fazer essa transi\u00e7\u00e3o para o longa de fic\u00e7\u00e3o, principalmente do lado do Telba, que \u00e9 um prazer, porque a dire\u00e7\u00e3o de Fotografia de &#8220;Bando&#8221; \u00e9 minha. Ent\u00e3o, foi at\u00e9 um momento em que pirei e falei: &#8220;N\u00e3o, eu vou deixar ele dirigir e virar fot\u00f3grafa&#8221;. E a\u00ed est\u00e1 com o Telba agora. Ele \u00e9 muito gentil e troca muita ideia conosco na constru\u00e7\u00e3o desses quadros. Porque falo para ele que venho muito do teatro, e venho muito do document\u00e1rio, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, a fic\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes, para mim, ela d\u00e1 uma enquadrada, ela d\u00e1 uma apertada, que, \u00e0s vezes, eu chego para ele e falo: &#8220;Meu Deus, como \u00e9 que voc\u00ea gosta tanto de fazer fic\u00e7\u00e3o?&#8221; Eu queria estar fluindo e a\u00ed passa um avi\u00e3o, e a\u00ed um cachorro late, e a\u00ed descarrega um neg\u00f3cio, e eu fico: (voz em crescente): &#8220;Meu Deus, toda hora quando eu vou explodir, e eu vou explodir e nossa, nossa, l\u00e1 vem, \u00e9 aquela cenona&#8230; &#8221; (com a voz entediante): &#8220;Cortou um minutinho.&#8221; (risos) Ent\u00e3o, \u00e9 muito isso. Porque, no document\u00e1rio, a gente contempla muito. No teatro, a pessoa te d\u00e1. Em cena, a pessoa te d\u00e1. E aqui, a t\u00e9cnica passa por cima. A\u00ed desce um boom, a\u00ed az um chiadinho. A perfei\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica vem como uma camada muito importante. Eu ainda estou me adaptando com esse tempo e ritmo pr\u00f3prio que o cinema tem de: &#8220;segura um pouquinho, repete de novo&#8221; e que, no document\u00e1rio, eu acho que eu me realizava muito de ver fluir, de escutar a hist\u00f3ria, de ver a pessoa contar, de ver narrar, de ver o filme. Aqui, a gente vai vendo aos pedacinho e depois \u00e9 que junta tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago &#8211; Por isso que a gente gosta de levantar e ver o filme do in\u00edcio ao fim em uma sala de ensaio .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan &#8211; O processo de ensaio foi muito prazeroso. Lembro de pensar: &#8220;Meu Deus! J\u00e1 vi a hist\u00f3ria. Estou feliz.&#8221; (risos)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-91686 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas citaram o trabalho da equipe t\u00e9cnica e, lendo o roteiro, n\u00e3o pude deixar de observar a import\u00e2ncia da dire\u00e7\u00e3o de Arte de Carol Tanajura, principalmente em rela\u00e7\u00e3o aos objetos acumulados por Jonas, a ideia da mola de brinquedo que cai no beco da casa e se junta, com o passar do tempo, a v\u00e1rios outros que v\u00e3o se acumulando ali.<\/strong><br \/>\nSusan: Sim. Essas escolhas j\u00e1 est\u00e3o no campo da dramaturgia. Quando escrevi e apresentei para a equipe, eu trouxe o Jonas com tr\u00eas lugares. Tr\u00eas esconderijos. Ele tem aquilo e ele esconde de todo mundo, que \u00e9 aquilo que ele \u00e9. Ele tem uma dimens\u00e3o que ele esconde do irm\u00e3o, que est\u00e1 tudo no quarto, todas as proje\u00e7\u00f5es, os desejos , os sonhos, tudo o que ele desenhou nos \u00faltimos vinte anos a respeito dele, a respeito de para onde a m\u00e3e foi, de como \u00e9 o irm\u00e3o, de como \u00e9 a menininha do posto de sa\u00fade com quem ele conversa, de como \u00e9 esse amor que ele espera, de como \u00e9 essa L\u00facia. E ele tem, tamb\u00e9m, uma outra dimens\u00e3o que \u00e9 a que ele esconde dele mesmo. Que \u00e9 o que ele joga no beco. Ent\u00e3o, a partir do momento em que a m\u00e3e morre ou vai embora na cabecinha dele, e \u00e9 quando ele solta a mola de brinquedo e come\u00e7a a acumular as coisas naquele no beco. Jonas n\u00e3o consegue jogar nada fora. Ele n\u00e3o est\u00e1 resolvido o suficiente para jogar nada fora. Ent\u00e3o, o jogar fora dele \u00e9 um jogar fora, mas que ainda \u00e9 dele. Ele tem, ali, as lembran\u00e7as da m\u00e3e. Ali ele tem frascos de rem\u00e9dio. Ali ele tem os desenhos que ele amassou, os sapatos. Ent\u00e3o, \u00e9 como se fosse aquele bal\u00e3o que a gente esconde debaixo da cama pra ningu\u00e9m saber e que n\u00e3o conseguimos jogar fora. N\u00e3o estamos resolvidos ainda para fazer isso. Mas ele tem l\u00e1 guardado. Ele tem essas tr\u00eas dimens\u00f5es de coisas que ele esconde e que j\u00e1 est\u00e3o dentro da dramaturgia da constru\u00e7\u00e3o dele. Atrav\u00e9s disso, a gente estimulou a Carol (Tanajura, diretora de Arte) e estimulou a equipe. A equipe de arte desse filme \u00e9 fabulosa. A Carol j\u00e1 \u00e9 uma querida de outros projetos e ela trouxe uma equipe com ela que \u00e9 incr\u00edvel. Esse cen\u00e1rio, como voc\u00ea est\u00e1 vendo, ele n\u00e3o existiria se a gente n\u00e3o estivesse com essa equipe. Esses desenhos todos que voc\u00ea est\u00e1 vendo, todos esses quadros foram feitos pelos dois assistentes da Carol, al\u00e9m de todo o quarto do Jonas. Ent\u00e3o, a gente descobriu que t\u00ednhamos uma artista pl\u00e1stica entre os assistentes de arte, que \u00e9 a Ana Clara NS. Isso no momento em que a gente tinha uma demanda dramat\u00fargica que \u00e9 a personagem da m\u00e3e do Jonas, a Teresa, ser uma artista pl\u00e1stica. Ent\u00e3o, a gente j\u00e1 sabia que em algum momento ter\u00edamos uma demanda muito grande por obras da Teresa pela casa. E a\u00ed tentamos viabilizar das diversas forma poss\u00edveis, at\u00e9 que, de repente, a Ana Clara falou: &#8220;eu desenho.&#8221; E o Santiago, que \u00e9 o nosso contra-regra e assistente de Arte, falou que tamb\u00e9m desenhava. E a\u00ed eles come\u00e7aram a desenhar. N\u00f3s ficamos boquiabertos. Esse aqui (aponta para a parede), eles fizeram em uma manh\u00e3 e depois finalizaram na manh\u00e3 do dia seguinte. Depois a Ana falou que tinha algumas obras em casa e que havia desenhado ao longo da vida. E acabou que ela tinha um acervo. E o Santiago tamb\u00e9m tinha um acervo. E a\u00ed, eles, al\u00e9m de trazerem o que j\u00e1 tinham, que s\u00e3o coisas bel\u00edssimas, eles desenharam quadros espec\u00edficos para n\u00f3s. Que \u00e9 aquele da m\u00e3e com a crian\u00e7a, quadros que est\u00e3o no quarto e que j\u00e1 representam algumas etapas da depress\u00e3o da Teresa chegando. Quadros que representam essa aus\u00eancia dela. O pr\u00f3prio quadro batizado de &#8220;Timidez&#8221;, que o irm\u00e3o desenha sobre o outro. De repente, a gente passou, durante a pr\u00e9, a morar com a Teresa. Porque todo dia que a gente chegava, tinha tr\u00eas, quatro telas novas. Come\u00e7amos a ensaiar, e eles, pelos cantos, fazendo telas o tempo inteiro. Eles passaram por um processo criativo no qual eles produziam o tempo inteiro. E eles foram buscando os elementos de dentro do roteiro. A poltrona do Nestor, o sol, eles foram tirando coisas de dentro do roteiro e construindo esses desenhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago &#8211; A Ana Clara ainda come\u00e7ou a escrever poesias com base no roteiro, com base em falas do Nestor no roteiro e come\u00e7ou a colar. Est\u00e3o l\u00e1 no quarto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan &#8211; Sim. Uma coisa incr\u00edvel essa equipe de arte. Eles trouxeram a Teresa viva para dentro da cena e para dentro da gente. E at\u00e9 essa pr\u00f3pria etapa, mesmo. Porque como a gente come\u00e7ou por aqui, ent\u00e3o n\u00f3s come\u00e7amos a ver os quadros felizes da Tereza, os quadros do passado. E a\u00ed quando come\u00e7amos a construir o quarto, come\u00e7aram a vir os quadros da etapa em que ela j\u00e1 vai entristecendo, que ela j\u00e1 vai sucumbindo \u00e0 depress\u00e3o. Ent\u00e3o, para mim, sensorialmente, foi uma experi\u00eancia indescrit\u00edvel. Porque a gente escreve um dia, depois a gente pensa em filmar, mas, n\u00e3o. A gente foi vivendo com a Teresa por um tempo aqui na casa (risos).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-91687 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ_foto-Adeloya-Oju-Bara_03-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ_foto-Adeloya-Oju-Bara_03-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ_foto-Adeloya-Oju-Bara_03-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><strong>Voc\u00eas citaram o processo de produ\u00e7\u00e3o e eu queria aprofundar mais essa fase de espera em rela\u00e7\u00e3o ao financiamento do edital, aos adiamentos por conta do fim da Ancine em 2019 e da pandemia.<\/strong><br \/>\nSusan: Esse projeto nasceu em 2014, antes de eu entrar. Era um projeto do Thiago, que j\u00e1 trabalha com o Marcos Barbosa e com a Cl\u00e1udia Barral h\u00e1 um tempo. Na primeira p\u00f3s em roteiro que o Thiago fez, o Marcos Barbosa j\u00e1 foi professor dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: Sim. Ele foi meu professor e depois fizemos o curta baseado na obra dele, o &#8220;Braseiro&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Isso. Depois se desenvolveu o &#8220;Cabe\u00e7a de Frade&#8221;, que \u00e9 um roteiro de longa metragem do Thiago no qual o Marcos foi consultor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: Isso. Foi quando falamos sobre a pe\u00e7a &#8220;O Cego e o Louco&#8221; e eles chegaram com o roteiro, o Marcos e a Cl\u00e1udia. Achamos que seria um bom primeiro filme. Ent\u00e3o, em 2014, ele se tornou projeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Foi quando eles tentaram editais e o filme n\u00e3o conseguiu passar. Em 2016, eu entro no projeto como produtora. A\u00ed foi tudo quanto foi Prodecine, editais aqui de Salvador, edital da Bahia, edital do MinC que ainda tinha na \u00e9poca, e o filme n\u00e3o passou. Como a gente j\u00e1 trabalha com editais h\u00e1 uns 16 anos, sabemos que, \u00e0s vezes, o projeto n\u00e3o passa porque ele precisa ser desenvolvido e, tamb\u00e9m, porque, \u00e0s vezes, n\u00e3o \u00e9 a circunst\u00e2ncia, a conjuntura dele naquela \u00e9poca. Ent\u00e3o, a gente n\u00e3o desiste do projeto. N\u00f3s vamos alimentando, maturando e tentando. Tentamos em 2016, tentamos 2017, 2018&#8230; (risos) Quando foi em 2019, que eu fa\u00e7o essa aproxima\u00e7\u00e3o do projeto j\u00e1 como roteirista e diretora, porque em 2017 eu diminuo bastante a carreira como produtora. Na ocasi\u00e3o, eu fui para o Rio com Thiago, que na \u00e9poca estava fazendo Globo, e come\u00e7o a estudar roteiro. No que come\u00e7o a estudar roteiro, come\u00e7o a me dedicar mais \u00e0 dramaturgia, mais \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, em 2019 eu j\u00e1 me sentia um pouco com ousadia o suficiente (risos) para falar: &#8220;Deixa eu entrar nesse projeto como roteirista e como diretora, tamb\u00e9m.&#8221; E a\u00ed a gente faz essa \u00faltima vers\u00e3o do roteiro junto com os autores, junto com a Cl\u00e1udia e com o Marquinhos, que \u00e9 a que vai para o edital do setorial audiovisual em 2018. E a\u00ed a gente fica na primeira supl\u00eancia, desesperados. Acabou que o projeto subiu e foi aprovado. E a\u00ed, em 2019, foi aquela festa. Vamos fazer o filme! Mas a\u00ed chega o governo Bolsonaro. Foram tr\u00eas anos de completo desespero, com a derrubada da Ancine, a derrubada do MinC. Toda a sabotagem cultural que a gente viveu. T\u00ednhamos a certeza iminente de que nunca \u00edamos receber a verba desse projeto. Que esse projeto n\u00e3o ia mais existir. Chorei um bocado de vezes (risos). A gente, nesse meio tempo, parou de mexer no projeto. Ele chegou a um lugar t\u00e3o doloroso, ver tudo desmoronar, ainda veio a pandemia. Ent\u00e3o, a gente falou: &#8220;vamos deixar ele l\u00e1, quietinho.&#8221; Porque todas as vezes que a gente achava que o dinheiro ia sair, que \u00edamos retomar, que a Ancine n\u00e3o tinha ca\u00eddo&#8230;, fic\u00e1vamos naquela do &#8220;agora o projeto vai&#8221;. Ent\u00e3o, preferimos deix\u00e1-lo quietinho. At\u00e9 que houve uma mobiliza\u00e7\u00e3o aqui em Salvador com a Daniela (Fernandes, da Diretoria de Audiovisual da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Estado da Bahia &#8211; DIMAS), com a Funceb, com a Secult, de tentar fazer com que esse edital andasse. Um grupo foi criado onde todo mundo se falava. &#8220;Como \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1? Pediram a sua documenta\u00e7\u00e3o?&#8221; Os proponentes iam se avisando quando passavam pela etapa de documenta\u00e7\u00e3o, etapas da SAV (Secretaria do Audiovisual), quando chegavam no BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento). E as pessoas foram se apoiando meio que em uma corrente de esperan\u00e7a e de comemora\u00e7\u00e3o, mesmo. At\u00e9 o momento em que o primeiro projeto&#8230;(pausa) Eu at\u00e9 me arrepio (Emocionada). Nossa, vou chorar (risos). No momento em que o primeiro projeto falou: &#8220;Gente, eu consegui receber&#8221;, a gente falou: &#8220;Meu Deus! Acho que o filme vai sair.&#8221; (risos) Caramba! E a\u00ed foi uma alegria porque foi todo mundo se avisando no grupo sobre os projetos que iam tendo suas verbas liberadas. E at\u00e9 que saiu o nosso. E a\u00ed quando ele passou mesmo a ser verdade, a gente sabia que n\u00e3o \u00edamos produzir um document\u00e1rio. Sab\u00edamos que a gente ia produzir uma fic\u00e7\u00e3o. Sab\u00edamos que precis\u00e1vamos de um parceiro. E a gente j\u00e1 vinha com outros projetos, a gente j\u00e1 estava em um relacionamento s\u00e9rio (risos), como dizem, com a Cl\u00e9lia (Bessa) e com o Marcos (Pieri), da Raccord, que s\u00e3o nossos co-produtores. A gente j\u00e1 vinha em um relacionamento s\u00e9rio com outros parceiros, chegamos neles e falamos: &#8220;Olha, temos esse projeto que amamos. Conseguimos o edital de Salvador, mas, pureza d&#8217;alma. Eu n\u00e3o sei fazer uma fic\u00e7\u00e3o desse tamanho (risos). Eu n\u00e3o consigo produzir sozinha um filme desse tamanho. Eu preciso de ajuda (risos)&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcos Pieri: Enquanto produtores, eu e Cl\u00e9lia Bessa nos encantamos com hist\u00f3rias que mostrem as realidades diversas do Brasil, que extrapolam as fronteiras do Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo e que exploram os dramas humanos comuns a grande parte da popula\u00e7\u00e3o, assim como em nosso longa anterior, \u201cMadalena\u201d, que mostra os dramas da comunidade LGBT no Centro-Oeste. J\u00e1 em &#8220;Timidez&#8221;, a hist\u00f3ria dos irm\u00e3os Jonas e Nestor nos cativou por explorar n\u00e3o s\u00f3 uma Salvador menos \u201ctur\u00edstica\u201d e mais realista, mas por tamb\u00e9m trazer camadas sociais para as diversas exist\u00eancias da cidade. Acreditamos tamb\u00e9m no alcance internacional que essa hist\u00f3ria pode ter ao viajar e entregar ao mundo uma vis\u00e3o poucas vezes consumida pelos espectadores internacionais, que acabam n\u00e3o tendo contato com verdades vividas em outras comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago : Um detalhe importante. &#8220;Timidez&#8221; \u00e9 um longa com um or\u00e7amento de 2018 que foi gravado em 2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Susan: Sim. Ele foi todo feito, todo bonitinho, em 2018. Quando a gente chegou para gravar, t\u00ednhamos s\u00e9rios problemas or\u00e7ament\u00e1rios. Ent\u00e3o, a Cl\u00e9lia e o Marcos fizeram milagres que eu n\u00e3o consigo nem entender para fazer com que a gente pudesse ter a estrutura que tivemos para gravar. Porque a gente sabe que para fazer cinema \u00e9 muita gente. \u00c9 muito pouco tempo que temos para filmar. Alguns dias foram bem corridos. Tivemos que negociar olho no olho com cada uma das pessoas que est\u00e3o nessa equipe. A cada uma delas tivemos que explicar porque temos um or\u00e7amento t\u00e3o reduzido. Porque est\u00e1vamos lutando para que esse filme acontecesse. Porque essa hist\u00f3ria era bacana de ser contada. Porque a gente n\u00e3o conseguia dar melhores condi\u00e7\u00f5es financeira, \u00e0s vezes de trabalho, \u00e0s vezes do que for, porque a gente est\u00e1 amarrado com um or\u00e7amento de 2018. E estamos com o cora\u00e7\u00e3o pulsando de alegria porque o filme n\u00e3o morreu durante a seca do governo Bolsonaro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-91688 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ_foto-Adeloya-Oju-Bara_02-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ_foto-Adeloya-Oju-Bara_02-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/TIMIDEZ_foto-Adeloya-Oju-Bara_02-1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dan Ferreira e Ant\u00f4nio Marcelo, voc\u00eas repetem uma parceria com Susan Kalik e com Thiago Gomes que j\u00e1 vem de uma experi\u00eancia em curtas metragens. Como tem sido a experi\u00eancia, dessa vez visando a cria\u00e7\u00e3o de um longa?<\/strong><br \/>\nAnt\u00f4nio Marcelo &#8211; A gente fez um curta que rodamos em 2018 que era a adapta\u00e7\u00e3o de um espet\u00e1culo que tinha Susan como produtora do grupo que eu fazia parte. Era o espet\u00e1culo que virou o curta &#8220;As Balas Que N\u00e3o Dei ao Meu Filho&#8221;. E a\u00ed ela viu o espet\u00e1culo e teve a ideia do curta que a gente adaptou. O bacana de estar trabalhando com Susan e Thiago de novo \u00e9 que, em &#8220;As Balas&#8230;&#8221;, Thiago era diretor e Susan era assistente. De certa forma, a gente j\u00e1 conhece, pelo olhar, o que ela est\u00e1 dizendo. Eu brinquei com Thiago, ele me chamou, eu j\u00e1 sabia que era para uma orienta\u00e7\u00e3o. &#8220;Esse tom \u00e9 de quem vai passar alguma coisa&#8221;, pensei. \u00c9 algu\u00e9m que a gente passa a conhecer e tem uma confian\u00e7a. Porque\u00a0 a gente precisa confiar muito em quem est\u00e1 dirigindo. Porque estamos fazendo um trabalho ali, mas, necessariamente, n\u00e3o estamos nos vendo. N\u00e3o sabemos como \u00e9 a montagem do filme depois. O que vai ficar e o que n\u00e3o vai. Ent\u00e3o, confiar nas pessoas que est\u00e3o \u00e0 frente nos deixa muito mais tranquilos para fazer o trabalho. \u00c9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dan Ferreira &#8211; Acho que al\u00e9m desse vi\u00e9s da confian\u00e7a, que \u00e9 uma coisa que Susan e Thiago passam para a gente e n\u00f3s sentimos em cena e durante o processo de cria\u00e7\u00e3o desde o ensaio, eles sabem a hist\u00f3ria que eles querem contar. E o que me deixa muito feliz \u00e9 vir do &#8220;Sobre Nossas Cabe\u00e7as&#8221; (2019), que \u00e9 um curta dirigido por Susan e Thiago, um curta que at\u00e9 hoje recebe men\u00e7\u00f5es. \u00c9 um curta metragem que tem uma carreira muito interessante e muito bonita. Fico muito feliz de estar agora no primeiro longa metragem deles, com a dire\u00e7\u00e3o dos dois. E o que me deixa mais feliz ainda \u00e9 que, quando eu cheguei ao Rio de Janeiro em 2010, vindo de um curso de teatro aqui no Col\u00e9gio Estadual Landulfo Alves, come\u00e7ando uma vida, entendendo o mercado de trabalho, procurando cursos, na \u00e9poca, eu fui assistir a uma pe\u00e7a que Susan produzia. E eu gostei tanto desse espet\u00e1culo que eu fui assistir seis vezes. Essa pe\u00e7a era &#8220;Nam\u00edbia, n\u00e3o!&#8221; E a\u00ed ter conhecido Susan l\u00e1 atr\u00e1s, em 2010, 2011, e a\u00ed, dez anos, nove anos depois, estar em &#8220;Sobre Nossas Cabe\u00e7as&#8221;. Estar em &#8220;Timidez&#8221;, me deixa muito feliz porque traz para mim esse encantamento do tempo, do per\u00edodo de tempo que as coisas levam para acontecer. Eu espero que venham outras parcerias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O texto original de Cl\u00e1udia Barral traz, em uma das suas primeiras montagens, dois atores brancos interpretando os protagonistas Jonas e Nestor. Para voc\u00eas, atores negros, qual reflex\u00e3o que o impacto da mudan\u00e7a proposta no filme de Susan e Thiago traz?<\/strong><br \/>\nDan: Eu acho que esses personagens foram escritos e o que eu penso \u00e9 que, a partir de um olhar e de uma pr\u00e1tica em um vi\u00e9s antirracista, de a gente olhar todas as hist\u00f3rias como possibilidades de qualquer ator fazer, eu acho que isso \u00e9 um acerto do nosso filme. Porque Susan traz, a partir daquelas perspectivas e daquelas quest\u00f5es dos personagens, no texto original de &#8220;O Cego e o Louco&#8221;, ela traz quest\u00f5es muito latentes da viv\u00eancia negra na sociedade e do ponto dessas viol\u00eancias e dessa estrutura racista, que \u00e9 estrutural e estruturante. E isso a partir da nossa experi\u00eancia sobre o afeto. E todos os traumas e percep\u00e7\u00f5es dos traumas que essas viol\u00eancias causam a pessoas como n\u00f3s. Ent\u00e3o, fico muito feliz de nesse roteiro, que foi escrito por uma mulher branca, que \u00e9 a Cl\u00e1udia (Barral), encenada por outros atores n\u00e3o negros, n\u00f3s podemos, agora, potencializar viv\u00eancias da nossa exist\u00eancia na sociedade a partir dele. Isso eu acho que refor\u00e7a ainda mais a beleza e a complexidade do texto da Cl\u00e1udia Barral, da adapta\u00e7\u00e3o da Susan e da Cl\u00e1udia para o cinema e na perspectiva, tamb\u00e9m, do nosso trabalho, que eu acho que tanto o Marcelo quanto eu, a gente traz a pol\u00edtica no nosso trabalho. Seja em manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, as pe\u00e7as que a gente escolhe fazer, eu acho que sempre vai ter um vi\u00e9s pol\u00edtico ali para que possamos enxergar a sociedade, o lugar onde a gente vive como um lugar mais igualit\u00e1rio. E a gente percebe isso na disposi\u00e7\u00e3o do nosso set com pessoas em lugar de decis\u00e3o, pessoas trans, uma quantidade significativa de mulheres no set, isso \u00e9 muito atual. N\u00e3o diria revolucion\u00e1rio, n\u00e3o. Acho que \u00e9 atual. Acho que a gente tem que pensar que \u00e9 da\u00ed pra frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio: Quando eu recebi o roteiro, eu sabia que era uma adapta\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a muito famosa. E eu fui procurar as montagens. Ela estava em cartaz, inclusive, com atores brancos.Eu acho quando voc\u00ea coloca corpos negros em cena, voc\u00ea n\u00e3o tem como fazer isso sem trazer toda a discuss\u00e3o. Porque, hoje, n\u00e3o tem como a gente desconsiderar. O mais bacana de tudo isso \u00e9 que o roteiro, a montagem, n\u00e3o deixa isso passar em branco. Todas as nossas quest\u00f5es, todos os cuidados que se devem ter, todas as possibilidades de discuss\u00f5es que se levantam a partir da presen\u00e7a de dois homens negros, e tem aquela coisa do g\u00eanero, tamb\u00e9m. S\u00e3o dois homens negros ali discutindo. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem como a gente n\u00e3o pensar nas rela\u00e7\u00f5es de afeto entre essas pessoas. N\u00f3s somos constru\u00eddos historicamente para sermos agressivos, para sermos brutos. Se voc\u00ea colocar dois homens negros em cena, voc\u00ea tem que pensar nisso, tem que pensar nessa discuss\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1ria, tamb\u00e9m, hoje. Sobre masculinidade. Ent\u00e3o, eu fico feliz porque, e a\u00ed tamb\u00e9m vem a confian\u00e7a, porque eu sei que o que est\u00e1 em cena, o que vai para o corte final, \u00e9 a minha hist\u00f3ria enquanto homem negro, sabe? S\u00e3o coisas que eu acredito, tamb\u00e9m. E que eu defendo, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, eu estou fazendo um trabalho de ator, mas tudo o que est\u00e1 sendo discutido, tudo o que est\u00e1 sendo dito, eu me sinto contemplado. E a escolha de fazer com homens negros, pessoas negras, com equipe majoritariamente negra, e tamb\u00e9m, por trazer essas quest\u00f5es de g\u00eanero, me deixa mais satisfeito ainda porque eu sinto que estou fazendo parte de algo que, como disse Dan, n\u00e3o \u00e9 revolucion\u00e1rio, mas \u00e9 necess\u00e1rio e \u00e9 pertinente ao que estamos vivendo agora. Ent\u00e3o, eu acho que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o resultado do filme, mas esse processo todo que a gente viveu, desde a primeira leitura \u00e0s escolhas que a gente fez&#8230; eu estou falando &#8220;a gente&#8221;, n\u00e9? Mas n\u00e3o deixa de ser (olhando para Dan e sorrindo). As escolhas foram feitas\u00a0 e eu acho que tudo isso vai ser impresso na hora do filme ir para a tela.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91689 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/IMG_9296-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/IMG_9296-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/IMG_9296-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e3o dois personagens atormentados tanto fisicamente quanto psicologicamente. Jonas, com sua depress\u00e3o latente, algo que parece advindo da m\u00e3e, tentar seguir em sua rotina de cuidados com o irm\u00e3o deficiente visual, Nestor. Como se deu essas constru\u00e7\u00f5es de personas dentro dessas caracter\u00edsticas apresentadas a voc\u00eas dois?<\/strong><br \/>\nAnt\u00f4nio: Eu mergulhei nesse universo relacionado \u00e0 cegueira desde o primeiro momento que eu soube que ia fazer. Eu estava muito preocupado porque eu n\u00e3o sou um homem cego. Mas eu precisava fazer, construir o personagem. Ent\u00e3o, eu tive muita preocupa\u00e7\u00e3o em ser respeitoso. Em ter cuidado em n\u00e3o tornar isso s\u00f3 um elemento. \u00c9 um tra\u00e7o importante e que comp\u00f5e a personalidade dele, faz parte dele. Inclusive, eu entrei em alguns grupos, fiz algumas coisas para conhecer melhor esse universo. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 n\u00e3o ver, \u00e9 voc\u00ea perceber o mundo de uma outra perspectiva. Ent\u00e3o, quando eu estava pensando em construir o personagem, o que eu mantinha sempre em mente, o que sempre me preocupou foi como \u00e9 que eu posso perceber a presen\u00e7a dessa pessoa, o mundo, de uma outra perspectiva que n\u00e3o seja a vis\u00e3o. Para n\u00f3s que enxergamos, a vis\u00e3o \u00e9 um sentido que nos guia. Eu estava brincando com meu cachorro dia desses. Ele tem um faro muito apurado por conta da ra\u00e7a. Eu estava observando o fato de que os c\u00e3es n\u00e3o enxergam muito bem, porque v\u00eaem tudo em preto e branco, e eles percebem o muito a partir do olfato. E \u00e9 outra percep\u00e7\u00e3o de universo. \u00c9 outra no\u00e7\u00e3o de beleza. \u00c9 outra no\u00e7\u00e3o de conhecimento da pessoa. A grande quest\u00e3o que eu tinha era essa: como eu ia levar isso para a cena? Trouxe as propostas e eu acho que a orienta\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o foi crucial para me apontar caminhos. Eu acho que o Nestor \u00e9 um personagem que&#8230; O mais prazeroso para mim foi construir uma persona que percebeu e que entendeu o mundo durante a vida a partir de outra perspectiva que \u00e9 nova para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dan: O que me chamou muito aten\u00e7\u00e3o desde o primeiro momento que eu li o Jonas e o roteiro de uma maneira geral, \u00e9 que, em muitas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e muitos filmes, em obras de audiovisual, a gente enxerga a tem\u00e1tica racial pelo vi\u00e9s quase sempre da viol\u00eancia. E quase sempre a viol\u00eancia f\u00edsica. E a gente esquece que a viol\u00eancia e a morte da mente, a n\u00e3o valida\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o de mundo de algumas pessoas parecidas comigo, tamb\u00e9m \u00e9 uma viol\u00eancia. Uma viol\u00eancia extrema. Um personagem que tem o tempo todo a sua exist\u00eancia, o seu afeto, a sua percep\u00e7\u00e3o de mundo silenciada traz um vi\u00e9s da viol\u00eancia e de uma maneira muito inteligente pelo roteiro. De uma maneira muito atual. Eu acho que \u00e9 um filme que vai&#8230; Eu tenho certeza e falo isso com toda sanidade: acho que esse filme vai trazer muitas discuss\u00f5es acerca dessa viol\u00eancia que esmaga a nossa popula\u00e7\u00e3o. A gente v\u00ea uma quantidade gigante de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Sabemos a cor de quem est\u00e1 no sinal. Sabemos a cor de quem est\u00e1 andando desesperado na rua. Uma imagem que me veio \u00e0 cabe\u00e7a h\u00e1 alguns anos, principalmente na pandemia, foi de um pai de fam\u00edlia, em Bras\u00edlia, andando por um condom\u00ednio pedindo comida. Esse homem se parecia comigo. Ele est\u00e1 naquela situa\u00e7\u00e3o por uma conjuntura de fatores que s\u00e3o raciais. Sabemos disso. Ent\u00e3o, ter um personagem que tem uma casa, que tem uma vida, mas que \u00e9 o tempo inteiro silenciado por traumas que n\u00e3o foram criados por ele, me chama muito aten\u00e7\u00e3o esse tipo de dramaturgia, esse tipo de abordagem sobre quest\u00f5es caras \u00e0 sociedade. E estou muito feliz de poder interpretar o Jonas. E a partir do meu trabalho, e do trabalho de todos n\u00f3s, causar reflex\u00e3o. Porque eu acho que isso \u00e9 o vetor primordial do meu of\u00edcio. Acho que ser ator, ser artista, \u00e9 para isso, tamb\u00e9m. Para causar reflex\u00e3o sobre temas que nos cercam. Que, \u00e0s vezes, a gente escolhe n\u00e3o falar ou h\u00e1 uma press\u00e3o muito grande para que a gente n\u00e3o fale. Para que a gente fique constrangido quando esses temas chegam a n\u00f3s. Mas eu fico muito feliz de, por meio da meu trabalho, causar reflex\u00e3o para essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TUDO QUE MOVE - DOCUMENT\u00c1RIO COMPLETO\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zyEhZ0L6CEk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BRASEIRO | BRA, 2013 (curta-metragem)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wj-fRLb3ud4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SOBRE NOSSAS CABE\u00c7AS - EXIBI\u00c7\u00c3O 01 ANO\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/syIb7DXk0jA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O CASO DE ESTER | CURTA-METRAGEM\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AuG0V5o-pDI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O longa metragem &#8220;Timidez&#8221;, de Susan Kalik e Thiago Gomes, tem sua estreia nacional em mostras de cinema ap\u00f3s um longo per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/10\/04\/entrevista-susan-kalik-thiago-gomes-dan-ferreira-e-antonio-marcelo-falam-sobre-timidez-longa-baiano-que-estreia-no-festival-do-rio\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":91690,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7377],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91679"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91679"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91679\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":91694,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91679\/revisions\/91694"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91679"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91679"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91679"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}