{"id":91673,"date":"2025-10-03T09:55:15","date_gmt":"2025-10-03T12:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=91673"},"modified":"2025-10-23T21:24:47","modified_gmt":"2025-10-24T00:24:47","slug":"cinema-males-de-antonio-pitanga-e-um-filme-importante-e-excelente-sobre-o-levante-negro-na-bahia-do-seculo-xix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/10\/03\/cinema-males-de-antonio-pitanga-e-um-filme-importante-e-excelente-sobre-o-levante-negro-na-bahia-do-seculo-xix\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cMal\u00eas\u201d, de Antonio Pitanga, \u00e9 um filme importante e excelente sobre o levante negro na Bahia do s\u00e9culo XIX"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<\/strong><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_renanguerra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A historiografia oficial do Brasil foi durante muito tempo feita por m\u00e3os brancas e, como prop\u00f4s a historiadora Beatriz Nascimento, era preciso repensar as nossas mem\u00f3rias, pois vivemos em um pa\u00eds que possui essencialmente uma hist\u00f3ria negra, feita por pessoas negras. O ator e diretor Antonio Pitanga, figura central da cultura brasileira do s\u00e9culo XX e\u00a0 voraz pesquisador das narrativas negras no Brasil, vinha h\u00e1 anos pensando em como trazer essa hist\u00f3ria afro-brasileira para as telas. Com uma ideia surgida de forma embrion\u00e1ria em uma conversa com o cineasta Glauber Rocha durante as filmagens de \u201cA Idade da Terra\u201d (1980), a ideia de levar \u00e0s telas a narrativa do levante dos Mal\u00eas se transformou em projeto posto em pr\u00e1tica a partir dos anos 90 e de l\u00e1 pra c\u00e1 foram mais de 30 anos at\u00e9 o filme chegar ao grande p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTrazer a hist\u00f3ria dos Mal\u00eas para o cinema foi sempre um desejo muito grande, j\u00e1 que eu conhecia essa hist\u00f3ria desde rapaz. Todos os baianos, principalmente nascidos nas d\u00e9cada de 20, 30 e 40, como eu, temos conhecimento da import\u00e2ncia desses negros sequestrados do norte da \u00c1frica, que vieram do Togo, do Mali, de Om\u00e9, Senegal, Nig\u00e9ria, que vieram com o conhecimento da f\u00edsica, da engenharia, da matem\u00e1tica, um real saber. \u00c9 uma hist\u00f3ria de negros sequestrados na \u00c1frica com outros negros nascidos no Brasil que se organizam contra todo tipo de preconceito, de escravid\u00e3o, de invisibilidade. \u00c9 uma hist\u00f3ria crucial para ser contada: sobre um dos mais importantes levantes que aconteceram no pa\u00eds\u201d, explicou Pitanga.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91675 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MALES-2023-Dir.Antonio-Pitanga-Still-Vantoen-PJR44-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MALES-2023-Dir.Antonio-Pitanga-Still-Vantoen-PJR44-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MALES-2023-Dir.Antonio-Pitanga-Still-Vantoen-PJR44-copiar-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMal\u00eas\u201d (2025), que chega agora oficialmente aos cinemas brasileiros, \u00e9 baseado em fatos hist\u00f3ricos, recontando a Revolta dos Mal\u00eas, o maior levante organizado por pessoas escravizadas da hist\u00f3ria do Brasil. Em 1835, a insurrei\u00e7\u00e3o mobilizou a popula\u00e7\u00e3o negra &#8211; escravizada e liberta &#8211; pelas ruas de Salvador contra a escravid\u00e3o. Encabe\u00e7ada por africanos mu\u00e7ulmanos, os chamados mal\u00eas, a rebeli\u00e3o aconteceu no final do Ramad\u00e3, celebrado em janeiro pelo Isl\u00e3. Ap\u00f3s o fracasso da revolta, os manifestantes foram duramente punidos e a repress\u00e3o contra os negros no Brasil aumentou. No longa, Antonio Pitanga faz as vezes de diretor e protagonista, interpretando Pac\u00edfico Licutan, um dos l\u00edderes do levante que refor\u00e7ava a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o de diferentes tribos e religi\u00f5es para o sucesso da revolta e o fim da escravid\u00e3o. Em seu entorno, se desenvolvem diferentes narrativas contadas a partir de personagens reais, como Ahuna (Rodrigo de Od\u00e9), Manoel Calafate (Bukassa Kabengele), Vit\u00f3rio Sule (Heraldo de Deus) e Lu\u00eds Sanim (Thiago Justino), bem como personagens fict\u00edcios que ilustram dramas reais da \u00e9poca, como Dassalu (Rocco Pitanga), Sabina (Camila Pitanga) e Abayome (Samira Carvalho).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando essas amarra\u00e7\u00f5es reais e fict\u00edcias, o longa tem in\u00edcio no Reino de Oy\u00f3, na \u00c1frica, em 1830, onde Dassalu (Rocco Pitanga) se prepara para seu casamento com Abayome (Samira Carvalho). O que deveria ser o dia mais feliz da vida do casal se torna um pesadelo quando uma tribo rival invade a cerim\u00f4nia e eles s\u00e3o capturados, separados e levados ao Brasil. Ao chegar em Salvador, Dassalu \u00e9 vendido para a cruel fazendeira Mam\u00e3e A (Patr\u00edcia Pillar) e conta com a ajuda de Ahuna (Rodrigo de Od\u00e9) para tentar encontrar a noiva. Rodado em Cachoeira e Salvador, na Bahia, e em Maric\u00e1, no Rio de Janeiro, \u201cMal\u00eas\u201d parte da apresenta\u00e7\u00e3o das dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es de vida de homens e mulheres negros na Bahia do s\u00e9culo XIX, para construir uma narrativa que refor\u00e7a os movimentos de inssurrei\u00e7\u00e3o dos povos escravizados e de um importante resgate da a\u00e7\u00e3o dessas popula\u00e7\u00f5es no combate ao racismo extremo, \u00e0 pobreza e \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com dire\u00e7\u00e3o de Antonio Pitanga, o longa tem roteiro assinado por Manuela Dias e \u00e9 baseado nas pesquisas do professor e historiador brasileiro Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis, autor de \u201cRebeli\u00e3o escrava no Brasil: a hist\u00f3ria do Levante dos Mal\u00eas em 1835\u201d (Companhia das Letras). Envolvida no projeto ao lado de Pitanga h\u00e1 muitos anos, Manuela \u00e9 uma esp\u00e9cie de calcanhar de Aquiles do longa-metragem: como falado no in\u00edcio, h\u00e1 uma discuss\u00e3o latente h\u00e1 anos no Brasil sobre as hist\u00f3rias negras contadas por m\u00e3os brancas, portanto, a escolha de Manuela, uma autora branca, para assinar o roteiro do filme rendeu questionamentos de pensadores e pesquisadores negros. E isso tem um agravante: Manuela Dias est\u00e1 na mira do p\u00fablico pelo seu malfadado remake de \u201cVale Tudo\u201d, repetidamente criticado por sua narrativa falha, rasteira e mais focada na inser\u00e7\u00e3o constante de merchandisings do que na real constru\u00e7\u00e3o de seus personagens. E adicione a\u00ed o fato de que no meio da campanha de divulga\u00e7\u00e3o do filme, o debate p\u00fablico se intensificou com uma celeuma entre Manuela e a protagonista de sua novela, Ta\u00eds Ara\u00fajo, que reclamou publicamente dos rumos dado a sua personagem e deixou claro como ela estava buscando novas perspectivas de narrativas negras &#8211; e isso apenas escancarou o complexo olhar que Manuela tem sobre suas personagens negras em suas narrativas televisivas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mal\u00eas | Trailer Oficial | 02 de Outubro nos cinemas | Imovision\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ih8axiEBvAs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito isso, fica a pergunta: o que o texto ruim e vulgar de Manuela Dias na TV tem a ver com o filme que estamos debatendo aqui? \u00c9 meio natural que com a rela\u00e7\u00e3o passional que o brasileiro tem com as novelas isso seja passado para o filme de Antonio Pitanga e precisamos ser justos: o roteiro de Manuela Dias \u00e9 realmente bastante did\u00e1tico e se repete em diferentes momentos, mas n\u00e3o \u00e9 um roteiro ruim, longe disso: o filme sabe se desenhar e desenvolver seus personagens de forma interessante, criando ritmo, tens\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o no espectador. E essas narrativas se sustentam de forma s\u00f3lida nas atua\u00e7\u00f5es de Rocco e Camila Pitanga, Bukassa Kabengele, Samira Carvalho, Indira Nascimento e Thiago Justino, com destaque especial aqui para as presen\u00e7as de Patr\u00edcia Pillar e Edvana Carvalho, atrizes que aparecem pouco, mas que trazem pontos opostos completamente importantes para a expans\u00e3o da narrativa. Vale destacar tamb\u00e9m a dire\u00e7\u00e3o de fotografia de Pedro Farkas; Pitanga deixou claro que queria fugir daquelas fotografias que filmam o corpo negro suado ou sempre com tons de azul, por isso \u00e9 interessante ver como a cor e a luz de Farkas filmam a pele negra de forma absolutamente bonita, sabendo jogar de forma inteligente com luz e sombra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito tudo isso, seria f\u00e1cil cair no chav\u00e3o de dizer que \u201cMal\u00eas\u201d \u00e9 um filme importante &#8211; o que realmente \u00e9, pois \u00e9 urgente que se revise a nossa hist\u00f3ria do Brasil reajustando lentes e focos narrativos -, mas trata-se tamb\u00e9m de um excelente filme enquanto narrativa que nos envolve, que nos deixa tensos na poltrona, que nos emociona e nos movimenta de diferentes formas. \u00c9 filme para se ver na tela grande, para se mergulhar de forma especial em suas hist\u00f3rias e sons &#8211; em excelente trilha sonora de Ant\u00f4nio Pinto e Barulhista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMal\u00eas\u201d \u00e9 um sonho de vida de Pitanga e que, felizmente, ele pode compartilhar com a gente ainda em vida, num momento especial em que temos a chance de ver, ouvir e imaginar outros futuros ao lado de um dos nossos mais importantes artistas brasileiros!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-91674 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/males.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/males.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/males-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Mal\u00eas&#8221; \u00e9 para se ver na tela grande, para se mergulharem suas hist\u00f3rias e sons &#8211; em excelente trilha sonora de Ant\u00f4nio Pinto e Barulhista.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/10\/03\/cinema-males-de-antonio-pitanga-e-um-filme-importante-e-excelente-sobre-o-levante-negro-na-bahia-do-seculo-xix\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":91676,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7925],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91673"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91673"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91673\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":91678,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91673\/revisions\/91678"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91676"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91673"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91673"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91673"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}