{"id":91480,"date":"2025-09-22T16:02:02","date_gmt":"2025-09-22T19:02:02","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=91480"},"modified":"2025-10-21T08:33:10","modified_gmt":"2025-10-21T11:33:10","slug":"critica-adaptacao-fiel-de-obra-escrita-por-stephen-king-ha-meio-seculo-a-longa-marcha-funciona-como-metafora-premonitoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/09\/22\/critica-adaptacao-fiel-de-obra-escrita-por-stephen-king-ha-meio-seculo-a-longa-marcha-funciona-como-metafora-premonitoria\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: Adapta\u00e7\u00e3o fiel de obra escrita por Stephen King h\u00e1 46 anos, &#8220;A Longa Marcha&#8221; funciona como met\u00e1fora premonit\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1977, o ent\u00e3o desconhecido autor liter\u00e1rio Richard Bachman ganhou uma notoriedade curiosa. Naquele ano, ele lan\u00e7ou o livro &#8220;Rage&#8221;, traduzido no Brasil como &#8220;F\u00faria&#8221;. Tal notoriedade passou a rimar com desconfian\u00e7a quando seus tr\u00eas livros seguintes chegaram \u00e0s livrarias, sendo estes &#8220;A Longa Marcha&#8221;, lan\u00e7ado em 1979, &#8220;A Autorestrada&#8221;, livro de 1981 e &#8220;O Sobrevivente&#8221;, de 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ados entre um curto espa\u00e7o de tempo, os livros de Bachman logo se tornariam um sucesso de vendas. Em uma \u00e9poca na qual a informa\u00e7\u00e3o demorava a ser espalhada em massa, a similaridade de sua escrita com a de outro autor bestseller, por\u00e9m, foi o que gerou desconfian\u00e7a. N\u00e3o tardou a se perceber que Richard Bachman n\u00e3o existia, e que se tratava de um pseud\u00f4nimo adotado por Stephen King, escritor j\u00e1 consagrado por obras como &#8220;Carrie&#8221; (1974) e &#8220;O Iluminado&#8221; (1977). O fato s\u00f3 foi amplamente divulgado em 1985, quando os quatro livros foram reunidos em um \u00fanico volume sob o nome de King, um pref\u00e1cio intitulado de &#8220;Porque fui Bachman&#8221; e batizado precisamente de&#8230; &#8220;Os Livros de Bachman&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A desconfian\u00e7a do p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 similaridade da escrita de Richard Bachman com a de Stephen King se justificava, principalmente por &#8220;A Longa Marcha&#8221;, o segundo livro. Com uma trama supostamente simples que narrava uma caminhada de um grupo de pessoas at\u00e9 a exaust\u00e3o enquanto s\u00e3o escoltadas por um carro militar e mantidas sob a mira de uma arma, o texto, apesar de sua viol\u00eancia, conseguia reunir diversos temas voltados para uma an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o humana, dos la\u00e7os de afeto, do instinto de sobreviv\u00eancia e do suporte emocional constru\u00eddo entre as pessoas que convivem juntas durante uma guerra. Mas para al\u00e9m disso, a obra trazia uma outra an\u00e1lise mais aprofundada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91482\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/longwalk3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/longwalk3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/longwalk3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto a tal abordagem humana, o livro tecia uma profunda cr\u00edtica com aspectos pol\u00edticos, destacando a ascens\u00e3o de um governo fascista que baseava sua propaganda b\u00e9lica na necessidade de um suposto retorno a seus tempos \u00e1ureos econ\u00f4micos (qualquer semelhan\u00e7a a um slogan pol\u00edtico estadunidense \u00e9 &#8211; ou somente pode ser? &#8211; uma mera coincid\u00eancia). Na citada rela\u00e7\u00e3o humana entre seus personagens centrais, no caso o grupo de jovens que precisa caminhar por uma auto-estrada sem um limite estabelecido de tempo at\u00e9 que apenas um esteja vivo, Stephen King reunia elementos marcantes de sua escrita, como a percep\u00e7\u00e3o de uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica de um comportamento afetivo para o de total desespero circunstancial perante um acontecimento assombroso e tr\u00e1gico. Al\u00e9m disso, claro, tais assombrosas situa\u00e7\u00f5es surgem do modo gr\u00e1fico e apavorante, caracter\u00edsticas b\u00e1sicas de um autor not\u00f3rio por seu dom\u00ednio do choque distante da banalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;A Longa Marcha: Caminhe ou Morra&#8221; (&#8220;The Long Walk&#8221;, 2025), sua transi\u00e7\u00e3o do texto de King para o cinema, JT Mollner traz para seu roteiro muito dessa proposta do escritor. E a tradu\u00e7\u00e3o em imagens feita pelo diretor Francis Lawrence, que j\u00e1 havia provado essa capacidade de abordar futuros apocal\u00edpticos e atmosferas fascistas em trabalhos como, respectivamente, &#8220;Eu sou a Lenda&#8221; (2007) e com os filmes da s\u00e9rie &#8220;Jogos Vorazes&#8221;, aqui, capta com uma crueza pontual o gradativo esfacelar f\u00edsico e emocional de seus personagens.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91483 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/longwalk4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/longwalk4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/longwalk4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Utilizando os poucos elementos visuais e narrativos que possui \u00e0 m\u00e3o, no caso, uma auto-estrada e seu entorno \u00e1spero, como carros em sucata e uma vegeta\u00e7\u00e3o seca, mas inserindo vislumbres de um mundo calcado em uma indiferen\u00e7a e uma normaliza\u00e7\u00e3o diante do brutal, o diretor Francis Lawrence destaca com precis\u00e3o um gradativo esfacelamento f\u00edsico e psicol\u00f3gico do seus personagens centrais. E junto a isso, essa mesma indiferen\u00e7a desse novo mundo \u00e9 percept\u00edvel nas c\u00e2meras que acompanham os andarilhos em uma transmiss\u00e3o televisiva simult\u00e2nea de seu sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse mergulho no v\u00ednculo de amizade que os jovens que seguem por aquela estrada infinita criam entre si, alimentando naquele la\u00e7o a ilus\u00e3o de um vest\u00edgio final de civilidade, encontramos o cerne do texto de Stephen King atrav\u00e9s do roteiro de Mollner. \u00c9 na jun\u00e7\u00e3o da brutalidade de sua premissa e na cont\u00ednua desesperan\u00e7a com a qual seus personagens passam a lidar que reside a constru\u00e7\u00e3o de &#8220;A Longa Marcha&#8221;. E de maneira oposta, o filme trata a desconstru\u00e7\u00e3o mental daqueles indiv\u00edduos que caminham em dire\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio colapso f\u00edsico.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A Longa Marcha: Caminhe ou Morra | Trailer Oficial Legendado\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B7gTKETLZ2I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre esses jovens no percurso do asfalto est\u00e1 Raymond Garraty (Cooper Hoffman, provando a heran\u00e7a gen\u00e9tica talentosa do pai, Philip Seymour), tamb\u00e9m chamado simplesmente de 47, em uma evidente refer\u00eancia \u00e0 perda de identidade de um cidad\u00e3o v\u00edtima de um sistema. E essa perda tamb\u00e9m \u00e9 sutilmente referenciada no momento em que o jovem chega ao local onde come\u00e7ar\u00e1 a prova e tem seu documento de identifica\u00e7\u00e3o apreendido. Ao seu lado, Peter McVries (David Jonsson, emocionalmente indo para al\u00e9m da proposital aus\u00eancia de express\u00e3o do seu papel de maior destaque: o andr\u00f3ide Andy, de &#8220;Alien: Romulus&#8221;), jovem carism\u00e1tico, mas cuja cicatriz no rosto esconde um passado tenebroso. A intera\u00e7\u00e3o entre ambos e suas hist\u00f3rias pregressas os conectam, mas delineiam a inevit\u00e1vel tragicidade para os dois. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o sem antes um plano de vingan\u00e7a ser proposto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No centro desse plano de vingan\u00e7a est\u00e1 a figura tir\u00e2nica do major vivido por Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker em seu segundo filme baseado em uma obra de Stephen King e provando, mais uma vez, seu talento na cria\u00e7\u00e3o de diferentes vozes. Sua imposi\u00e7\u00e3o militar e manipuladora inicialmente vista como algo louv\u00e1vel pela ingenuidade dos jovens a seguir na marcha (em uma clara refer\u00eancia ao patriotismo barato e poder de influ\u00eancia das for\u00e7as armadas), gradativamente come\u00e7a a se perder entre os andarilhos perante a dura e brutal realidade daquela prova imposta a eles por essa fal\u00e1cia patri\u00f3tica e pelo militarismo opressor, mas disfar\u00e7ado como necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A Longa Marcha&#8221; se encerra com uma reposta firme a essa n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o de um destino imposto por opressores. Em sua ideia de desesperan\u00e7a, a obra acaba por trazer uma resposta ut\u00f3pica, por\u00e9m, imprescind\u00edvel em uma luta contra a opress\u00e3o. Uma luta que parece perdida, mas n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91484 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/longwalk1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1111\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/longwalk1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/longwalk1-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em sua ideia de desesperan\u00e7a, a obra acaba por trazer uma resposta ut\u00f3pica, por\u00e9m, imprescind\u00edvel em uma luta contra a opress\u00e3o.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/09\/22\/critica-adaptacao-fiel-de-obra-escrita-por-stephen-king-ha-meio-seculo-a-longa-marcha-funciona-como-metafora-premonitoria\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":91481,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[4248],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91480"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91480"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91480\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":91489,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91480\/revisions\/91489"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91481"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}