{"id":91310,"date":"2025-09-15T10:54:34","date_gmt":"2025-09-15T13:54:34","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=91310"},"modified":"2025-10-21T15:52:36","modified_gmt":"2025-10-21T18:52:36","slug":"entrevista-jose-emilio-rondeau-fala-sobre-sera-livro-em-que-rememora-as-gravacoes-do-disco-de-estreia-da-legiao-urbana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/09\/15\/entrevista-jose-emilio-rondeau-fala-sobre-sera-livro-em-que-rememora-as-gravacoes-do-disco-de-estreia-da-legiao-urbana\/","title":{"rendered":"Entrevista: Jos\u00e9 Emilio Rondeau fala sobre \u201cSer\u00e1!&#8221;, livro em que rememora as grava\u00e7\u00f5es do disco de estreia da Legi\u00e3o Urbana"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 50 anos de carreira, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/nerondes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jos\u00e9 Emilio Rondeau<\/a> foi uma refer\u00eancia no jornalismo de m\u00fasica e cinema: foi desde a primeira vers\u00e3o da Rolling Stone brasileira at\u00e9 a Bizz, da Marie Claire \u00e0 Playboy, entre outros ve\u00edculos. No cinema, co-roteirizou e dirigiu \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/08\/21\/tres-filmes-em-que-a-trilha-e-melhor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1972<\/a>\u201d (de 2006), mas \u00e9 prov\u00e1vel que, para muitos, a refer\u00eancia imediata ao seu trabalho seja a produ\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/03\/21\/as-raridades-da-legiao-urbana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e1lbum de estreia da Legi\u00e3o Urbana<\/a>, de 1985. E esse \u00e9 o tema de \u201c<a href=\"https:\/\/amzn.to\/41Tor8c\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ser\u00e1!: Crises, Genialidade e um som Poderoso: os Bastidores da Grava\u00e7\u00e3o do Primeiro Disco da Legi\u00e3o Urbana Contados por seu Produtor<\/a>\u201d (2025), lan\u00e7ado pela M\u00e1quina de Livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rondeau j\u00e1 havia produzido o primeiro \u00e1lbum do Camisa de V\u00eanus, tamb\u00e9m hom\u00f4nimo, de 1983, e produziria ainda discos de Picassos Falsos e May East. Mas seu segundo trabalho, o referido disco da Legi\u00e3o, seria o primeiro a trazer a sonoridade inspirada por Joy Division, Smiths, U2, Comsat Angels e outras refer\u00eancias que passavam ao largo do conhecimento de executivos de gravadora e profissionais de est\u00fadio no Brasil do per\u00edodo. Tamb\u00e9m abriu o caminho para o crescimento daquela que, por anos, seria a maior banda do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro traz entrevistas com os dois legion\u00e1rios sobreviventes, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonf\u00e1 (Renato Russo faleceu em 1996, e o baixista Renato Rocha em 2015), e tamb\u00e9m com Mayrton Bahia (ent\u00e3o diretor de produ\u00e7\u00e3o da EMI-Odeon e futuro produtor dos discos da Legi\u00e3o), Amaro Mo\u00e7o (t\u00e9cnico de grava\u00e7\u00e3o) e Fernanda Villa-Lobos (empres\u00e1ria da banda \u00e0 \u00e9poca e, desde 1984, casada com Dado). Est\u00e3o presentes tamb\u00e9m fotos in\u00e9ditas feitas por Mauricio Valladares, um deleite para os f\u00e3s de longa data.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveitando a oportunidade do lan\u00e7amento, o Scream &amp; Yell conversou por videochamada com o autor. Atualmente morando na Espanha e em franca atividade <a href=\"https:\/\/ofarol.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com sua p\u00e1gina na Substack<\/a>, Rondeau contou sobre o processo de feitura do livro e discutiu o legado da Legi\u00e3o Urbana.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91315 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Capa-Livro-Sera-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"819\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Capa-Livro-Sera-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Capa-Livro-Sera-copiar-275x300.jpg 275w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi para voc\u00ea, como jornalista, ter as pr\u00f3prias mem\u00f3rias como fonte? (risos) Imagino que as entrevistas com os demais personagens daquela hist\u00f3ria tenham ajudado muito a separar lembran\u00e7as dos fatos.<\/strong><br \/>\nSem a participa\u00e7\u00e3o dessas outras pessoas, eu n\u00e3o teria conseguido fazer esse livro de jeito nenhum. Na hora que me foi sugerido escrever um livro sobre a grava\u00e7\u00e3o do disco, imediatamente falei: &#8220;Isso n\u00e3o n\u00e3o vai dar certo, porque eu n\u00e3o vou lembrar tudo, vou lembrar das coisas erradas, vou ter bastante v\u00e1cuos de mem\u00f3ria\u201d. Eu n\u00e3o tinha nada escrito em lugar nenhum (na \u00e9poca), n\u00e3o fiz um di\u00e1rio da grava\u00e7\u00e3o. E uma coisa tamb\u00e9m que lamentei muit\u00edssimo foi n\u00e3o ter acesso \u00e0s fitas originais da grava\u00e7\u00e3o para poder, pelo menos, ler no labelzinho o que foi gravado naquela fita, qual foi o dia, qual o hor\u00e1rio, quem tocou cada instrumento exatamente. Isso certamente teria ajudado muito. E eu insisti muito com a gravadora, com a Universal, mas n\u00e3o consegui. Ainda mais por isso, as mem\u00f3rias das outras pessoas que participaram foram essenciais para que esse livro existisse. Tive a felicidade de contar com essa generosidade deles. Eles corrigiram algumas das minhas lembran\u00e7as, e eu corrigi algumas das deles tamb\u00e9m, em alguns casos. Nem todo mundo lembrava da mesma coisa do mesmo jeito. Tinha coisas que as pessoas se lembravam e que eram imposs\u00edveis de terem ocorrido daquela maneira, e era minha vez de falar: &#8220;Como \u00e9 que pode ser isso? Tenho certeza de que voc\u00ea est\u00e1 errado nesse caso\u201d, entendeu? Tamb\u00e9m foram importantes porque eu desconhecia a pr\u00e9-hist\u00f3ria da grava\u00e7\u00e3o do disco. Eu n\u00e3o tinha participado daquilo, e n\u00e3o sabia de detalhes do que aconteceu antes da minha entrada em cena, e que foram apontadas em primeira m\u00e3o pelas pessoas que estavam l\u00e1. Ent\u00e3o foi algo muito interessante.<\/p>\n<figure id=\"attachment_91319\" aria-describedby=\"caption-attachment-91319\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91319\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-Marcelo-Nova-e-Jose-Emilio-Rondeau-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"511\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-Marcelo-Nova-e-Jose-Emilio-Rondeau-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-Marcelo-Nova-e-Jose-Emilio-Rondeau-credito-Mauricio-Valladares-copiar-300x204.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-91319\" class=\"wp-caption-text\"><em>Legi\u00e3o Urbana, Marcelo Nova e Jose Emilio Rondeau \/ Foto de Mauricio Valadares<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 no come\u00e7o do livro voc\u00ea deixa bem claro que a Legi\u00e3o, e mais especialmente o Renato Russo, sabiam o que queria em termos de sonoridade, mas n\u00e3o tinham experi\u00eancia de est\u00fadio, eram inocentes em rela\u00e7\u00e3o ao aspecto mercadol\u00f3gico da m\u00fasica. Como essa dicotomia bateu em voc\u00ea, como produtor? Porque imagino que deve ter momentos que voc\u00ea quis jogar a toalha..<\/strong><br \/>\nTeve, l\u00f3gico. Mas o que \u00e9 mais importante de notar \u2013 e sempre bato nessa tecla \u2013 \u00e9 que a grava\u00e7\u00e3o do primeiro disco deles foi um grande intensiv\u00e3o pra banda. Eles n\u00e3o tinham experi\u00eancia de est\u00fadio, e estavam extremamente refrat\u00e1rios \u00e0quela coisa toda no in\u00edcio, porque trabalharam com dois produtores super feras antes de eu entrar, mas n\u00e3o havia dado liga com nenhum dos dois. Ent\u00e3o eles estavam com a guarda alta e muita inseguran\u00e7a, e, ao mesmo tempo, com muitas certezas, muitas convic\u00e7\u00f5es e inseguran\u00e7a. Chegaram muito crus como banda de est\u00fadio, mas sa\u00edram de l\u00e1 prontos para fazer um segundo disco t\u00e3o bom quanto fizeram. Tanto que tudo que voc\u00ea ouve no disco \u00e9 tocado pela Legi\u00e3o Urbana, t\u00e1? N\u00e3o existe nenhum m\u00fasico convidado, n\u00e3o existe nenhum \u201cclandestino\u201d ali fingindo ser da banda (nota: \u00e9 muito comum que bandas iniciantes, e mesmo algumas n\u00e3o t\u00e3o iniciantes, n\u00e3o toquem tudo em seus pr\u00f3prios discos, com m\u00fasicos de est\u00fadio fazendo esse trabalho). A \u00fanica pessoa que toca no disco sem ser eles sou eu, que toco sintetizador em \u201cPerdidos no Espa\u00e7o\u201d. Tr\u00eas notinhas, s\u00f3 isso. A Fernanda [Villa-Lobos, esposa de Dado e empres\u00e1ria da banda] achava que o F\u00ea Lemos [do Capital Inicial] tinha tocado bateria em \u201cSoldados\u201d, mas esse foi um desses casos onde algu\u00e9m lembrava de um jeito e eu sabia que n\u00e3o tinha sido daquela forma. Nenhum outro m\u00fasico participou do disco. O perfeccionismo deles naquele primeiro momento era atender as convic\u00e7\u00f5es punk que eles tinham: \u201cnosso som \u00e9 punk, \u00e9 rascante e agressivo\u201d. S\u00f3 que com o passar do tempo, eles aprenderam e aceitaram, viram que s\u00e3o uma banda pop tamb\u00e9m, deixaram vir \u00e0 tona o romantismo, principalmente o Renato [Russo]. Aconteceu essa transforma\u00e7\u00e3o do come\u00e7o at\u00e9 o fim da grava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_91316\" aria-describedby=\"caption-attachment-91316\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91316\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-3-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"507\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-3-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-3-credito-Mauricio-Valladares-copiar-300x203.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-91316\" class=\"wp-caption-text\"><em>Renato Russo e Dado Villa-Lobos em est\u00fadio \/ Foto de Mauricio Valadares<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 bem documentada o quanto faltavam n\u00e3o s\u00f3 bons est\u00fadios, mas principalmente bons profissionais de grava\u00e7\u00e3o, nessa primeira metade dos anos 1980. Quase ningu\u00e9m tinha refer\u00eancia de sonoridades diferentes, poucos entendiam as linguagens diferentes para baixo, guitarra, bateria\u2026 Muito do protagonismo do Liminha como produtor vinha disso, de ele ser um pioneiro no uso de v\u00e1rias tecnologias, de ter mais refer\u00eancias, etc. Olhando agora com a perspectiva do tempo, voc\u00ea diria que as exig\u00eancias das bandas do rock brasileiro, no que diz respeito \u00e0 sonoridade que elas queriam, foi instrumental para fazer esse cen\u00e1rio evoluir?<\/strong><br \/>\nIsso sem d\u00favida influenciou muito. Foi como aconteceu nos anos 1960, com os artistas de rock ingl\u00eas que iam pros Estados Unidos para gravar com t\u00e9cnicos americanos, porque eles sabiam melhor sobre gravar rock and roll do que os ingleses sabiam naquela \u00e9poca. Esse movimento for\u00e7ou que houvesse uma atualiza\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rio dos t\u00e9cnicos de som e dos pr\u00f3prios produtores na Inglaterra. Ent\u00e3o, no Brasil, assim como surgiram novas bandas, novas linguagens de rock e de pop, houve tamb\u00e9m um uma expans\u00e3o e uma prolifera\u00e7\u00e3o de pessoas mais adequadas \u00e0quele tipo de idioma musical, e isso s\u00f3 fez multiplicar esse efeito ao longo dos anos. Tanto que, como voc\u00ea falou, na segunda metade dos anos 1980 a coisa deslanchou gra\u00e7as a um cara como o Liminha. Ele era um craque: tinha um baita ouvido, tinha talento musical pra caramba, o cara sabia t\u00e9cnica para cacete e era vers\u00e1til em v\u00e1rios instrumentos. E era aquele curioso desde o in\u00edcio, desde pequeno o cara gostava pra cacete daquilo de buscar os sons. At\u00e9 hoje ele \u00e9, para mim, o grande produtor brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea fez essa migra\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea de jornalista para produtor \u2013 um movimento bastante comum na gringa, mas n\u00e3o tanto por aqui. Voc\u00ea chegou a enfrentar alguma resist\u00eancia, ou pelo menos coment\u00e1rios atravessados, dos colegas de profiss\u00e3o?<\/strong><br \/>\nDe jeito nenhum, mesmo porque havia naquela mesma \u00e9poca, especialmente em S\u00e3o Paulo, uma promiscuidade muito grande de jornalista\/m\u00fasico, m\u00fasico\/ jornalista (nota: s\u00f3 na imprensa paulista estavam presentes integrantes de bandas como Fellini, 3 Hombres, Maria Ang\u00e9lica N\u00e3o Mora Mais Aqui, Akira S e As Garotas que Erraram, Chance, entre outras). E tivemos o Ezequiel Neves, que realmente investiu muito na carreira de produtor a partir de determinado momento. Ent\u00e3o n\u00e3o houve esse estranhamento.<\/p>\n<figure id=\"attachment_91317\" aria-describedby=\"caption-attachment-91317\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91317\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-4-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-4-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-4-credito-Mauricio-Valladares-copiar-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-91317\" class=\"wp-caption-text\">Renato Russo em est\u00fadio \/ Foto de Mauricio Valadares<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A partir dos anos 1990, sua carreira de jornalista d\u00e1 uma guinada mais para o cinema que para a m\u00fasica, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEla ficou ocupada com o lado cinematogr\u00e1fico por causa das circunst\u00e2ncias. Eu havia me mudado para Los Angeles, e ali \u00e9 a Volta Redonda do cinema, n\u00e9? Ent\u00e3o comecei a fazer [cobertura sobre cinema] muito mais que antes. Ali se faz cinema o tempo todo, se respira cinema o tempo todo. Naturalmente, foi um per\u00edodo de grande aprendizado para conhecer mais, para aprender mais sobre fazer cinema, sobre a hist\u00f3ria dessa arte. Eu estava mergulhado nisso, era o meu intensiv\u00e3o de cinema, mas me dividia ainda entre cinema e m\u00fasica. E eu n\u00e3o deixei de ser jornalista, at\u00e9 hoje. Continuo exercendo a profiss\u00e3o de uma forma mais independente, digamos assim. Tenho a minha newsletter na Substack, a Farol, e ela me obriga a estar atento ao que est\u00e1 acontecendo no mundo todo \u2013 em termos de m\u00fasica, de cinema, de novas ideias \u2013 e me ajuda a n\u00e3o enferrujar como escritor. Todo dia escrevo, todo dia eu ou\u00e7o alguma coisa nova. Isso para mim \u00e9 muito importante: n\u00e3o ficar olhando para tr\u00e1s. \u201cAtr\u00e1s\u201d est\u00e1 \u00f3timo. Aquilo vai ser sempre uma base, mas estou sempre olhando para a frente. O que que vem ali na frente? A gente tem que sempre ficar ligado no que est\u00e1 por vir, que \u00e9 o que motiva a gente, faz a gente se movimentar. E hoje, para mim, \u00e9 mais f\u00e1cil acompanhar o que acontece no Brasil do que era quando eu estava morando em Los Angeles, por exemplo, porque n\u00e3o tinha internet naquela \u00e9poca.<\/p>\n<figure id=\"attachment_91320\" aria-describedby=\"caption-attachment-91320\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91320\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-5-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"514\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-5-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-5-credito-Mauricio-Valladares-copiar-300x206.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-91320\" class=\"wp-caption-text\"><em>Renato Russo em est\u00fadio \/ Foto de Mauricio Valadares<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Musicalmente, o que tem chamado a sua aten\u00e7\u00e3o no Brasil hoje?<\/strong><br \/>\nOlha, no Brasil descobri coisas recentes que s\u00e3o muito interessantes. Tem os Boogarins, naturalmente, que s\u00e3o muito bacanas, e faz pouco tempo descobri uma coisa que vem do Pernambuco chamada Batucada Tamarindo. Eles pegam pontos antigos de mestres da Zona da Mata e os misturam com sons eletr\u00f4nicos. Esse pessoal me chamou muit\u00edssimo a aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 fant\u00e1stico esse acesso que a gente tem hoje em dia a tantas coisas t\u00e3o diferentes, tantas alternativas de informa\u00e7\u00e3o. Muitas vezes voc\u00ea est\u00e1 assistindo festival pela televis\u00e3o, seja qual for o festival, tem aquela banda que voc\u00ea nunca ouviu falar. Todo mundo que est\u00e1 l\u00e1 no show sabe cantar todas as letras da m\u00fasica, ou seja, j\u00e1 atingiram seu p\u00fablico \u2013 s\u00f3 que, at\u00e9 ent\u00e3o, voc\u00ea nunca tinha ouvido nem falar deles (risos). E a\u00ed, como profissional de comunica\u00e7\u00e3o, voc\u00ea quer ir atr\u00e1s disso, investigar o que \u00e9. \u00c9 muito fant\u00e1stico isso, muito bonito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_91318\" aria-describedby=\"caption-attachment-91318\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91318\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-2-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-2-credito-Mauricio-Valladares-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Legiao-Urbana-2-credito-Mauricio-Valladares-copiar-300x202.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-91318\" class=\"wp-caption-text\"><em>Legi\u00e3o Urbana \/ Foto de Mauricio Valadares<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao universo do seu livro: como voc\u00ea v\u00ea a presen\u00e7a desse rock brasileiro dos anos 1980 hoje em dia? Sei que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 morando mais no Brasil, mas voc\u00ea v\u00ea bandas em atividade que s\u00e3o influenciadas por esse rock, ou essa gera\u00e7\u00e3o vive mais da nostalgia?<\/strong><br \/>\nDe uma forma ou de outra, sempre vai haver um elemento de nostalgia, porque a gente vai ter sempre a paix\u00e3o musical original guardada no cora\u00e7\u00e3o, em um lugar muito especial, e a gente n\u00e3o abre m\u00e3o dela, aconte\u00e7a o que acontecer. Independentemente do que a gente passe a curtir mais tarde. Mas todo mundo que trabalha hoje com rock no Brasil, de uma forma ou de outra, passou por aquilo, foi influenciado por aquilo. Naturalmente, voc\u00ea pode estar falando de bandas que s\u00e3o muito caracter\u00edsticas, com assinaturas muito fortes, como a pr\u00f3pria Legi\u00e3o Urbana \u2013 n\u00e3o tem nada parecido com eles. Mas o que a Legi\u00e3o fazia, o jeito de construir uma m\u00fasica longa como \u201cEduardo e M\u00f4nica\u201d, as letras deles, aquela sonoridade rom\u00e2ntica de \u201cTempo Perdido\u201d, isso sempre vai encontrar eco. \u00c9 como acontece no samba, em que as novas gera\u00e7\u00f5es sempre v\u00e3o pegar um pouco do que veio antes deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No caso espec\u00edfico da Legi\u00e3o Urbana, o Jo\u00e3o Marcelo B\u00f4scoli tem uma teoria interessante: quando perguntado porque ele est\u00e1 fazendo todas essas coisas com a Elis Regina, inclusive licenciar a imagem dela para ser usada em an\u00fancio de montadora feito com intelig\u00eancia artificial, ele diz que quer evitar o que acontece com a Legi\u00e3o Urbana, onde o herdeiro do Renato Russo, Giuliano Manfredini, fica travando um monte de projetos que poderiam ser feitos com o legado da banda e do Renato. Voc\u00ea concorda?<\/strong><br \/>\nSim, eles est\u00e3o perdendo muitas oportunidades em todos os sentidos, mas eu tenho para mim que vai chegar um momento em que essa mar\u00e9 vai baixar e todas as partes envolvidas da Legi\u00e3o v\u00e3o encontrar um meio termo para que alguma coisa possa ser feita. Eu n\u00e3o sei quem aconselha o filho do Renato, mas seja quem for, impede que ele inclusive venha a ganhar dinheiro pra caramba. De repente, poderiam fazer um disco em tributo \u00e0 Legi\u00e3o Urbana envolvendo os membros atuais e pessoas das novas gera\u00e7\u00f5es, sei l\u00e1. Seria uma super oportunidade. Por que n\u00e3o fazem isso? E por que n\u00e3o enxergam que um acordo entre todas as partes vai ser bom para todo mundo? A gente s\u00f3 tem que esperar que o melhor aconte\u00e7a para eles, porque a Legi\u00e3o tem um cat\u00e1logo sensacional, tem muito para ser apresentado para as novas gera\u00e7\u00f5es, e j\u00e1 poderiam estar fazendo isso h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-91321 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Capa-Aberta-Livro-Sera-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"351\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Capa-Aberta-Livro-Sera-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Capa-Aberta-Livro-Sera-copiar-300x140.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem 50 anos de carreira, entre jornalismo, cinema, audiovisual, e no meio disso, esse espa\u00e7o onde voc\u00ea produziu quatro discos. Voc\u00ea colocaria esse do Legi\u00e3o como algo \u00fanico? N\u00e3o s\u00f3 um marco, mas um dos momentos de sua vida pelo qual voc\u00ea tem um afeto especial?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida. Eu tenho o maior orgulho de ter feito esse disco, tenho a maior gratid\u00e3o por ter conseguido participar da feitura dele. E apesar de todos os percal\u00e7os, de todas as crises e tens\u00f5es e atritos que acontecem durante esse per\u00edodo em que se fica cinco meses no est\u00fadio, uma porrada de homem cheia de convic\u00e7\u00e3o dentro de um mesmo espa\u00e7o, todo dia, eu faria tudo outra vez, e com o maior prazer. Porque foi muito gostoso. Todos n\u00f3s tivemos liberdade absoluta para fazer o que a gente queria. N\u00e3o havia ningu\u00e9m dizendo \u201cn\u00e3o v\u00e1 por aqui\u201d, ou \u201cv\u00e1 por aqui\u201d, s\u00f3 teve a quest\u00e3o do viol\u00e3o, que foi uma coisa folcl\u00f3rica (nota: a gravadora queria que \u201cGera\u00e7\u00e3o Coca-Cola\u201d fosse gravada em uma vers\u00e3o mais acess\u00edvel, quase country), e que tinha a ver com o que [executivo] Jorge Davidson tinha ouvido do Renato como Trovador Solit\u00e1rio. E no fim das contas, o viol\u00e3o acabou sendo a assinatura de todos os discos da Legi\u00e3o dali pra frente. Mas foi um per\u00edodo de efervesc\u00eancia criativa no est\u00fadio, que foi delicioso e que vou guardar pra vida inteira. E o resultado do disco, para mim, \u00e9 sensacional. Eu tinha certeza de que a gente estava fazendo um disco excelente, mas ele saiu muito mais redondo do que eu achei que ele um dia poderia ser.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Legi\u00e3o Urbana 30 Anos\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_msnWDk9KGbaBOueWYwU9INlOH-LaSFm-Q\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/o-evangelho-segundo-odair-censura-igreja-e-o-filho-de-jose-e-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de Jos\u00e9 e Maria<\/a>\u201c.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O livro traz entrevistas com Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonf\u00e1 al\u00e9m de diversos colaboradores da Legi\u00e3o. Est\u00e3o presentes tamb\u00e9m fotos in\u00e9ditas feitas por Mauricio Valladares.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/09\/15\/entrevista-jose-emilio-rondeau-fala-sobre-sera-livro-em-que-rememora-as-gravacoes-do-disco-de-estreia-da-legiao-urbana\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":91314,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7894,166,6953],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91310"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91310"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91310\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":91323,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91310\/revisions\/91323"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91314"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91310"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91310"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91310"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}