{"id":91279,"date":"2025-09-13T00:01:32","date_gmt":"2025-09-13T03:01:32","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=91279"},"modified":"2025-10-20T00:35:39","modified_gmt":"2025-10-20T03:35:39","slug":"entrevista-diokane-exorciza-tragedia-no-rs-com-single-clipe-e-documentario-cheiro-de-enchente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/09\/13\/entrevista-diokane-exorciza-tragedia-no-rs-com-single-clipe-e-documentario-cheiro-de-enchente\/","title":{"rendered":"Entrevista: Diokane exorciza trag\u00e9dia no RS com single, clipe e document\u00e1rio &#8220;Cheiro de Enchente&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sete anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento do primeiro EP, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/04\/04\/tres-eps-black-moon-riders-diokane-e-mad-monkees\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">This Is Hell We Shall Believe<\/a>\u201d (2018), a banda porto-alegrense Diokane surge com um novo registro, \u201c<a href=\"https:\/\/onerpm.link\/453007443592\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cheiro de Enchente<\/a>\u201d, single que chega com videoclipe e tem como inspira\u00e7\u00e3o a maior trag\u00e9dia clim\u00e1tica da hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul: as inunda\u00e7\u00f5es que devastaram Porto Alegre e centenas de munic\u00edpios em maio de 2024.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio ao caos que todo o pa\u00eds acompanhou, havia algo que s\u00f3 quem estava l\u00e1 podia sentir: um forte odor vindo do lodo e dos detritos, carregados de sedimentos variados \u2013 como animais mortos e esgoto \u2013 que tornaram a experi\u00eancia ainda mais perturbadora. Homero Pivotto Jr. (voz), Billy Valdez (baixo), Gabriel \u2018Kverna\u2019 Mota (bateria) e Rafael Giovanoli (guitarra) a transformaram em can\u00e7\u00e3o. \u201cA ideia pra m\u00fasica \u00e9 que ela fosse perturbadora como foi a situa\u00e7\u00e3o que a inspirou\u201d, explica Homero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto ao videoclipe a banda produziu um document\u00e1rio que acompanha o lan\u00e7amento. Dirigido pelo baixista Billy Valdez, a produ\u00e7\u00e3o conta com imagens captadas em \u00e1reas atingidas e depoimentos de familiares, amigos e v\u00edtimas que sofreram das agruras do desastre e que escancaram a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas para eventos extremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u2019<a href=\"https:\/\/onerpm.link\/453007443592\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cheiro de Enchente<\/a>\u2018\u201d\u2019 \u00e9 um expurgo de dor e revolta, \u00e9 um relato, um grito pra que todo aquele descaso das pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o aconte\u00e7a mais\u201d, afirma Rafael. \u201cEra algo que precisava ser falado\u201d, pontua Caverna. \u201cA m\u00fasica (surge) como forma de exorcismo desse sentimento engasgado mesmo um ano depois da trag\u00e9dia\u201d, opina Billy. \u201cUma das inten\u00e7\u00f5es de \u2019Cheiro de Enchente\u2019 \u00e9 n\u00e3o deixar que a trag\u00e9dia caia no esquecimento, pra que se busquem formas de evitar algo similar no futuro\u201d, revela Homero. Abaixo, o quarteto aprofunda o tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Assista ao document\u00e1rio\/clipe &#8220;Cheiro de Enchente&#8221;, da Diokane, abaixo<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diokane \u2013 Cheiro de Enchente (document\u00e1rio\/clipe)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2lmQsF3PE1E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cCheiro de Enchente\u201d nasce a partir de uma experi\u00eancia coletiva de dor e sobreviv\u00eancia, mas tamb\u00e9m de uma percep\u00e7\u00e3o muito sensorial, quase insuport\u00e1vel, que \u00e9 o odor deixado pelo dil\u00favio. Como foi o processo de transformar algo t\u00e3o f\u00edsico e visceral \u2014 esse cheiro de morte, de luto e de contamina\u00e7\u00e3o \u2014 em m\u00fasica, ritmo e poesia?<\/strong><br \/>\nHomero \u2013 Falando por mim: era algo que precisava jorrar, pra seguirmos uma analogia com a for\u00e7a das \u00e1guas. Foi um transbordo de perturba\u00e7\u00f5es. Quando \u00e9ramos crian\u00e7as\/adolescentes (nos anos 1980\/90), bandas das quais gost\u00e1vamos falavam sobre a imin\u00eancia da terceira guerra mundial, da possibilidade de degrada\u00e7\u00e3o sem volta do meio-ambiente e do perigo das pestes que assolaram a humanidade no passado voltarem para assombrar no presente. De uns anos pra c\u00e1, esse cen\u00e1rio de fic\u00e7\u00e3o e distopia tornou-se a vida real. Estamos testemunhando uma esp\u00e9cie de apocalipse parcelado. E isso abala. Fiquei de alguma maneira (mais) desestabilizado desde a pandemia, e a enchente \u2013 que se tornou a maior trag\u00e9dia clim\u00e1tica do Rio Grande do Sul, superando a inunda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de 1941 \u2013 intensificou a agonia, a incerteza com o futuro e a revolta. Ent\u00e3o, esses sentimentos precisavam verter de alguma maneira. Foi na arte, na m\u00fasica mais precisamente, que conseguimos dar vaz\u00e3o. Ainda que n\u00e3o tenha sido atingido diretamente pela cat\u00e1strofe, mexeu comigo as consequ\u00eancias da enxurrada que arrastou vidas e sonhos impiedosamente. O bodum sentido durante aqueles dias tensos de maio de 2024 pareceu algo ilustrativo, um sintoma olfativo, mas de potencial sinest\u00e9sico, da combina\u00e7\u00e3o doentia de descaso com a natureza e falta de aten\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico. Como disse no document\u00e1rio a irm\u00e3 do Rafael, guitarrista da Diokane, numa fala que resume bem: \u201cera cheiro de morte, de vazio pelas perdas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kverna \u2013 De certa forma tudo aconteceu muito naturalmente, foi um processo semelhante \u00e0 cria\u00e7\u00e3o das nossas outras m\u00fasicas. T\u00ednhamos esse som, ainda sem letra, que era bem arrastado e denso, que era um pouco diferente dos que est\u00e1vamos compondo, que costumam ser mais r\u00e1pidos e mais ca\u00f3ticos. O Homero comentou que estava querendo fazer uma m\u00fasica sobre o desastre causado pelas enchentes e sobre como o odor ainda estava presente, messes depois do ocorrido. Foi ent\u00e3o que sugeri para usar esse som que est\u00e1vamos fazendo, at\u00e9 pelo peso e cad\u00eancia. E casou muito bom, pois a letra e a clima soturno causam certa agonia e afli\u00e7\u00e3o. Como baterista, pensei em deixar a m\u00fasica bem grave, explorando elementos poss\u00edveis, e o Thiago Caurio (respons\u00e1vel pelas grava\u00e7\u00f5es) me ajudou bastante, inclusive usando um tambor chamado alfaia, tornando o som grave como os trov\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael \u2013 Reviver aquela cat\u00e1strofe \u00e9 sempre dif\u00edcil. \u00c9 dif\u00edcil visitar minha fam\u00edlia na cidade\/bairro\/rua onde cresci e ver que est\u00e1 tudo diferente (pra pior) hoje em dia. As coisas se transformam, n\u00e9? Aquele sentimento de revolta misturado com tristeza \u00e9 uma boa fonte de inspira\u00e7\u00e3o pra fazer m\u00fasica. A ideia de criar uma faixa falando sobre isso surgiu em uma conversa da banda, e a parte instrumental foi toda composta em jams mesmo: uma ideia de tema de guita e surge outro tema, que puxa um groove, depois refr\u00e3o e a estrutura dela foi se montando naturalmente. Saiu bem r\u00e1pido at\u00e9. A ideia inicial seria um ostinato de guitarra que fosse inc\u00f4modo e riffs mais lamacentos, densos e lentos, o que d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de agonia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O document\u00e1rio\/clipe n\u00e3o s\u00f3 refor\u00e7a o peso da letra como coloca a banda literalmente dentro da trag\u00e9dia, tocando em cen\u00e1rios alagados, ao lado de familiares e amigos que viveram a enchente. Como foi a decis\u00e3o de expor-se nesse n\u00edvel, unindo o depoimento \u00edntimo de quem perdeu quase tudo com a performance art\u00edstica da Diokane?<\/strong><br \/>\nHomero \u2013 A ideia pra m\u00fasica \u00e9 que ela fosse perturbadora como foi a situa\u00e7\u00e3o que a inspirou. Tipo uma lancha no lodo. Ent\u00e3o, tentamos fazer algo mais arrastado, e ainda pesado, tem\u00e1tica e musicalmente. Pra ilustrar isso e passar ideia de o qu\u00e3o avassalador foi, pensamos em usar cenas da trag\u00e9dia registradas por pessoas do nosso c\u00edrculo. Em meio a essas imagens, o clipe tem takes da banda tocando ao vivo, que foram gravados no est\u00fadio \u00c1udio Porco, em Porto Alegre, um local em \u00e1rea central da cidade que foi inundado. Pensamos tamb\u00e9m em incluir depoimentos de amigos e familiares atingidos, num primeiro momento, falando sobre o cheiro pestilento ao qual tiveram contato. Mas no decorrer das filmagens, percebemos que essa galera precisava de um canal pra despejar toda a desola\u00e7\u00e3o a qual foi submetida. Pens\u00e1vamos que iam ser depoimentos curtos, talvez acanhados. Mas em cada entrevista, as pessoas abriam o cora\u00e7\u00e3o, pareciam se sentirem ouvidas. Ent\u00e3o, esses testemunhos viraram o document\u00e1rio que acompanha a m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kverna \u2013 Era algo que precisava ser falado. Muitos artistas do Sul est\u00e3o usando suas produ\u00e7\u00f5es para retratar essa trag\u00e9dia, seja por m\u00fasica, fotografia, audiovisual, pintura ou escultura, at\u00e9 usando objetos que foram destru\u00eddos. Acredito que a arte seja um espa\u00e7o prop\u00edcio para se abordar um tema t\u00e3o sens\u00edvel, mostrando pontos e at\u00e9 hist\u00f3rias que n\u00e3o foram contadas, mas que est\u00e3o engasgadas. A ideia do document\u00e1rio come\u00e7ou sem nenhuma pretens\u00e3o, ir\u00edamos apenas gravar um clipe com as imagens que t\u00ednhamos e que nos mandaram. Por\u00e9m, o Homero queria ouvir das pessoas que foram afetadas, que lembran\u00e7as esse odor da enchente trazia a elas e se isso realmente ainda incomodava. Quando fizemos as entrevistas, percebemos que n\u00e3o se tratava mais do nosso som, e sim de hist\u00f3rias, sonhos e vidas que foram levados por essa trag\u00e9dia. E que isso deveria ser visto, principalmente por quem n\u00e3o vivenciou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Billy: Tivemos receio no in\u00edcio, tanto da cria\u00e7\u00e3o da m\u00fasica quanto na ideia de transformar ela em clipe e depois document\u00e1rio. Aquele medo de ser taxado de \u201cestar se aproveitando da desgra\u00e7a\u201d. Contudo, todos da banda foram impactados de certa forma. E al\u00e9m de \u201cm\u00fasicos\u201d somos \u201carteiros\u201d. Homero \u00e9 jornalista e eu sou produtor audiovisual, no Coletivo Catarse cooperativa em que atuo, e sempre entramos de cabe\u00e7a nas produ\u00e7\u00f5es. Sempre tem muita entrega pra n\u00e3o ser apenas mais um clipe, filme, registro que fale sobre a enchente. Estivemos de perto auxiliando amigos, fam\u00edlia e at\u00e9 desconhecidos, como todos, e foram momentos perturbadores em todas as esferas. Ent\u00e3o, a ideia desde o in\u00edcio era ser perturbador tanto no som, com toda gritaria, e na edi\u00e7\u00e3o, que mesmo tendo formato padr\u00e3o de filme, \u00e9 chocante e fecha com a m\u00fasica como forma de exorcismo desse sentimento engasgado mesmo um ano depois da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael \u2013 Tamb\u00e9m de uma troca de ideias e jun\u00e7\u00e3o de arquivos pessoais de cada um de n\u00f3s e amigos. Na verdade, a ideia nasce e tem um come\u00e7o, mas como vai se desenvolver a gente n\u00e3o sabia muito. Foi acontecendo e novas ideias foram rolando at\u00e9 que o resultado ficou muito mais pesado do que o imaginado. \u201cCheiro de Enchente\u201d \u00e9 um expurgo de dor e revolta, \u00e9 um relato, um grito pra que todo aquele descaso das pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o aconte\u00e7a mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao trazer personagens pr\u00f3ximos \u2014 gente do c\u00edrculo de voc\u00eas \u2014 o v\u00eddeo mostra que a cat\u00e1strofe n\u00e3o \u00e9 uma estat\u00edstica distante, mas algo que atravessou todas as bolhas. Como foi ouvir, gravar e revisitar esses testemunhos t\u00e3o pr\u00f3ximos e, ao mesmo tempo, t\u00e3o devastadores?<\/strong><br \/>\nHomero \u2013 Foi triste, porque eram relatos de quem esteve imerso no pesadelo que foi a enchente. Uma das inten\u00e7\u00f5es de \u201cCheiro de Enchente\u201d \u00e9 n\u00e3o deixar que a trag\u00e9dia caia no esquecimento, pra que se busquem formas de evitar algo similar no futuro. Ouvir as pessoas despejarem l\u00e1grimas e viv\u00eancias amargas diante das c\u00e2meras refor\u00e7ou o senso de urg\u00eancia para que coloquemos o assunto em evid\u00eancia. Pra que as pessoas assistam e tenham no\u00e7\u00e3o de que pode sim acontecer de novo. Com qualquer um de n\u00f3s. E, assim, que busquem se mobilizar pra cobrar quem deve ser cobrado. \u00c9 uma amostragem pequena que aparece no v\u00eddeo, mas que contempla a experi\u00eancia muitos. Os n\u00fameros n\u00e3o nos deixam mentir: foram 478 dos 497 munic\u00edpios ga\u00fachos atingidos, conforme a Defesa Civil do RS. Houve impactos para cerca de 2,4 milh\u00f5es de pessoas (entre as que precisaram deixar suas casas e as que tiveram interrup\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os), com mais de 180 mortos e 25 desaparecidos. Al\u00e9m disso, o governo do Estado estima cerca de 20 mil animais resgatados. Somos submetidos a uma avalanche de informa\u00e7\u00e3o diariamente e acabamos nos dessensibilizando, de alguma maneira, e esquecendo daquilo n\u00e3o \u00e9 falado com frequ\u00eancia. Penso que a enchente talvez estivesse ficando demais no passado, tipo aquela mensagem de whatsapp que, apesar de importante, vai sendo deixada pra baixo e a gente n\u00e3o responde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kverna \u2013 Foi muito pesado, assim como foi na \u00e9poca. Eu pessoalmente trabalhei em alguns resgates e depois fui at\u00e9 a casa do Tiago Severo \u201cTaz\u201d (que deu testemunho e fez uma participa\u00e7\u00e3o no som) auxiliar na limpeza. Haviam bairros inteiros destru\u00eddos, ruas quase fechadas por conta de pilhas de m\u00f3veis e objetos pessoais que foram descartados. Aquilo mexeu muito comigo. Ver aquelas pessoas que perderem tudo e tinham que ter for\u00e7as para limpar e recome\u00e7ar suas vidas foi muito pesado. Quando recebemos as imagens e ouvimos os relatos, foi impactante, e posso dizer que todos n\u00f3s ficamos emocionados e, de certa forma, incr\u00e9dulos que realmente vivemos aquilo. Mas o que mais d\u00e1 ang\u00fastia \u00e9 que cat\u00e1strofes dessa magnitude podem voltar a acontecer, e esse document\u00e1rio, infelizmente, pode ser a recorda\u00e7\u00e3o de um futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Billy \u2013 N\u00e3o estive em todas as capta\u00e7\u00f5es de entrevistas, mas como fiz o trabalho de edi\u00e7\u00e3o, foram dias com as falas ecoando. Foi um processo muito complexo de editar. Eu j\u00e1 editei diversos filmes, document\u00e1rios, mas nunca sobre trag\u00e9dia. E, mesmo sabendo e tendo visto muitas imagens, al\u00e9m de ter estado presente em locais na \u00e9poca auxiliando, foi um baque ver os arquivos pessoais que foram compartilhados conosco. N\u00e3o teve um momento em que n\u00e3o \u201cbatia\u201d a emo\u00e7\u00e3o, at\u00e9 chorei nos primeiros processos de decupagem e montagem. \u00c0s vezes tinha de parar a edi\u00e7\u00e3o e fazer outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael \u2013 Foi triste, ainda \u00e9 triste. Os relatos s\u00e3o pesados e sempre que se ouve, a gente volta naquele in\u00edcio de maio de 2024.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-91280 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/diokane2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/diokane2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/diokane2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/diokane2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em Porto Alegre e na Regi\u00e3o Metropolitana, os mais atingidos foram justamente os mais pobres e negros como foi noticiado na \u00e9poca. Voc\u00eas pensaram, em algum momento, que a m\u00fasica poderia tamb\u00e9m servir como den\u00fancia dessa desigualdade social escancarada pela enchente?<\/strong><br \/>\nHomero \u2013 Previamente, confesso que n\u00e3o. No entanto, conforme o processo de trabalhar som\/v\u00eddeo foi acontecendo, isso se tornou uma possibilidade plaus\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kverna \u2013 A letra foi escrita muito pensando no odor desgra\u00e7ado que a enchente deixou por messes, e que essa trag\u00e9dia, como diz a letra \u201cn\u00e3o poupou nem gente nem bicho\u201d. Acredito que o document\u00e1rio fa\u00e7a mais esse trabalho de den\u00fancia social, pois praticamente todos os entrevistados moravam, e ainda moram, em bairros perif\u00e9ricos, que obviamente foram os mais atingidos. Os dados mostram que praticamente todo o RS foi impactado, inclusive deixando durante meses o principal aeroporto do estado, em Porto Alegre, fechado. Contudo, os detentores do poder tinham for\u00e7a politica e financeira para se recuperar. J\u00e1 os mais pobres ainda batalham para buscar o que foi perdido. Mas em se tratando de capitalismo selvagem brasileiro, n\u00e3o \u00e9 nada que j\u00e1 n\u00e3o se tenha visto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Billy: A m\u00fasica pesada e barulhenta geralmente tem esse papel de den\u00fancia. De gritar o que \u00e9 contido pela sociedade. A ideia da composi\u00e7\u00e3o e do document\u00e1rio, pra mim, n\u00e3o \u00e9 denunciar, mas sim fazer com que n\u00e3o esque\u00e7amos o que aconteceu e atingiu muita gente por incompet\u00eancia dos nossos gestores p\u00fablicos. Se tudo (casa de bombas, comportas e outros equipamentos anticheia) estivesse nos conformes e funcionando, com manuten\u00e7\u00e3o em dia, desde o temporal e avisos em setembro de 2023, n\u00e3o teria impactado tanto a cidade.<br \/>\nRafael \u2013 Sim, como comentei anteriormente, a arte tem esse poder transformador de den\u00fancia tamb\u00e9m, pra que isso n\u00e3o seja esquecido e nunca mais se repita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A presen\u00e7a do Tiago \u201cTaz\u201d Freitas, que perdeu quase tudo em Vila Farrapos, d\u00e1 uma dimens\u00e3o de testemunho \u00e0 faixa, sobretudo pelo refr\u00e3o que ele canta junto. Como se deu essa participa\u00e7\u00e3o e o quanto ela foi essencial para dar corpo e verdade ao relato?<\/strong><br \/>\nHomero \u2013 O Taz (da banda Pull the Trigger) \u00e9 um dos tantos camaradas da cena independente que sofreu com o dil\u00favio. Ele parece ser uma pessoa forte. Conhe\u00e7o o cara h\u00e1 anos, mas nunca de maneira muito pr\u00f3xima. \u00c9 uma pessoa que toca a vida adiante numa filosofia meio PMA (one life, one chance), superando os obst\u00e1culos da vida. Ele \u00e9 mais bruxo do Kverna, baterista, que foi ajudar na limpeza da casa do Taz quando a \u00e1gua baixou, e contou que era um cen\u00e1rio desolador. Enfim\u2026 Quando pensamos em colocar na m\u00fasica amigos do underground que foram atingidos, o nome do Taz foi o primeiro a surgir. Desde o convite, ele se mostrou disposto a fazer acontecer. E disposto mesmo, no sentido de se esfor\u00e7ar pra estar no est\u00fadio, de querer sacar a ideia. A voz dele no som \u00e9 o grito da verdade que legitima nossa inten\u00e7\u00e3o. Dessas coisas m\u00e1gicas que a m\u00fasica tem capacidade de fazer: no momento da grava\u00e7\u00e3o, a parte dele veio com tanta for\u00e7a que arrepiou. A gente n\u00e3o sabia ainda como ia usar, mas tinha certeza de que era algo que precisava aparecer com algum destaque, n\u00e3o apenas como backing. \u00c9 mais que um feat, porque tem um simbolismo forte e deu veracidade pra composi\u00e7\u00e3o. Convidamos tamb\u00e9m outros amigos do submundo da m\u00fasica pesada que foram atingidos, mas acabou que nenhum pode participar no per\u00edodo em que est\u00e1vamos gravando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kverna \u2013 Ao longo do processo de grava\u00e7\u00e3o \u00e9 que surgiu a ideia da participa\u00e7\u00e3o de outros vocalistas, e pensamos em pessoas que tinham bandas e que foram atingidas. Chamamos o Fernando Ant\u00f4nio \u201cTampa\u201d (vocalista da Vultures), a Izza (ex-vocalista da Valika) e o Taz. Por\u00e9m, por quest\u00e3o de agenda, acabou que s\u00f3 o Taz conseguiu gravar, e ficou t\u00e3o legal e com tantos elementos sonoros que acabamos deixando somente ele. E esse grito estava sufocado nele. Eu comentei com ele antes, mostramos a letra e ele topou na hora a ideia. Gostamos muito do resultado da participa\u00e7\u00e3o dele, n\u00e3o s\u00f3 pela veracidade da viv\u00eancia, mas pelo peso que deu no som, pois seu vocal \u00e9 bem diferente do Homero, e essa diferen\u00e7a ficou bem acentuada, dando uma din\u00e2mica ca\u00f3tica. Al\u00e9m dessa participa\u00e7\u00e3o na m\u00fasica, tentamos produzir as fotos, o clipe e o show de lan\u00e7amento em lugares que foram atingidos. Isso tudo mostra quantos espa\u00e7os e vidas foram impactadas, mas mesmo com todas as perdas, seguem fortes e buscam se reerguer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael \u2013 Pensamos em convidar vocalistas de bandas de amigos nossos que foram atingidos diretamente pela cat\u00e1strofe. A ideia inicial era de que todos cantassem, mas n\u00e3o conseguimos conciliar as agendas pessoais. O Taz, al\u00e9m de um grande amigo, \u00e9 um baita vocalista e frontman da Pull the Trigger. A participa\u00e7\u00e3o dele somou muito \u00e0 composi\u00e7\u00e3o, e o resultado ficou muito foda. Deu aquele peso a mais no refr\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe sempre uma discuss\u00e3o sobre o papel da arte diante da trag\u00e9dia: \u00e9 mem\u00f3ria, den\u00fancia, catarse, ou tudo isso junto. Para voc\u00eas, \u201cCheiro de Enchente\u201d \u00e9 mais um grito de revolta e\/ou uma tentativa de preservar a lembran\u00e7a, para que esse trauma n\u00e3o seja naturalizado e esquecido?<\/strong><br \/>\nHomero \u2013 Penso que tudo junto. Tem ali a revolta por acreditar que, mesmo com a magnitude do evento clim\u00e1tico, parte do que aconteceu poderia ter sido evitado ou amenizado se estruturas feitas para conter as \u00e1guas estivessem funcionando como deveriam. E tem a inten\u00e7\u00e3o de marcar um momento na hist\u00f3ria que n\u00e3o pode ser jogado para baixo do tapete, pra que n\u00e3o se repita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kverna \u2013 Em um primeiro momento, n\u00e3o t\u00ednhamos a inten\u00e7\u00e3o de criar essa lembran\u00e7a, quer\u00edamos apenas jogar isso pra fora. Todas as imagens que recebemos e vimos sobre a trag\u00e9dia causam impacto. No entanto, al\u00e9m disso, o relato das pessoas, suas l\u00e1grimas, ouvir sobre suas perdas, nos fez perceber que t\u00ednhamos muito mais que um som ou um clipe. \u00c9 um material que relata essa trag\u00e9dia com a for\u00e7a de quem sobre com ela. Sentimos que esse som seria apenas s\u00f3 mais um se deix\u00e1ssemos passar todas essas hist\u00f3rias e relatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael \u2013 Sim, \u00e9 tudo isso. A galera n\u00e3o pode esquecer que boa parte da culpa por essa trag\u00e9dia foi falta de preven\u00e7\u00e3o e de medidas emergenciais mais efetivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O som da Diokane j\u00e1 tinha uma carga de urg\u00eancia. Como foi a constru\u00e7\u00e3o musical dessa faixa dentro do est\u00fadio, especialmente com a produ\u00e7\u00e3o do Thiago Caurio e a masteriza\u00e7\u00e3o do Renato Os\u00f3rio, nomes vindos do metal ga\u00facho que tamb\u00e9m carregam a experi\u00eancia de sons pesados e intensos?<\/strong><br \/>\nHomero \u2013 A composi\u00e7\u00e3o estava estruturada quando fomos gravar. T\u00ednhamos o instrumental e as vozes compostos, e algumas ideias de complementos para fazer no est\u00fadio. Primeiramente, sobre o trampo do Caurio, que aparece antes no processo. O Caurio \u00e9 um profissional experiente, um m\u00fasico que \u00e9 gente da gente, e que tamb\u00e9m atua com produ\u00e7\u00e3o. As orienta\u00e7\u00f5es dele foram muito importantes para que consegu\u00edssemos colocar na m\u00fasica a sensa\u00e7\u00e3o de agonia que t\u00ednhamos em mente. Da minha parte, acho que a boa vontade e aten\u00e7\u00e3o dele durante a capta\u00e7\u00e3o do vocal deram confian\u00e7a pra dar umas ousadas. Tipo: al\u00e9m do vocal principal, tem uma dobra de vozes mais gutural, diferentes da principal, que foram sugest\u00e3o dele, al\u00e9m de uma gritaria que eu queria fazer e ele se mostrou receptivo com a ideia. O trampo do Renato, que \u00e9 outro m\u00fasico e produtor do som pesado que entende as bandas, \u00e9 parte fundamental pra deixar a m\u00fasica com o senso de urg\u00eancia que gostar\u00edamos. Ele sacou o que a gente tentava dizer, algumas vezes de um jeito torto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kverna \u2013 Foi muito bom! O Caurio atuou como um produtor e agregou elementos percussivos, como o alfaia (tambor usado nos maracatus), entendeu e trouxe sugest\u00f5es. Ele foi fundamental na produ\u00e7\u00e3o. O Renato pegou a ideia do som e agregou toda sua experi\u00eancia e deu aquele tempero metal para que o som soasse com o peso que busc\u00e1vamos \u2013 junto com um monte de elementos sonoros, percussivos e vocais que gravamos. Ficamos animados pra caralho com o resultado final, que com certeza vai nos fazer trabalhar juntos com essas duas feras mais vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael \u2013 Eu j\u00e1 tinha trabalhado com o Renato com uma antiga banda minha em 2013\/2014, e o Caurio mais recentemente em outro projeto que eu tenho, o Neptunn. J\u00e1 \u00e9 not\u00f3rio a compet\u00eancia e talento deles, tanto na m\u00fasica quanto na produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de \u201cter a m\u00e3o pra coisa\u201d os dois s\u00e3o bem exigentes na hora de tirar o melhor do m\u00fasico que est\u00e1 gravando com eles. Isso certamente faz toda diferen\u00e7a no resultado final, que ficou matador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Assistindo ao clipe, h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o constante de desconforto, como se fosse imposs\u00edvel dissociar o barulho das guitarras do barulho da \u00e1gua invadindo as casas. Essa mistura de som e imagem foi intencional desde o in\u00edcio ou foi algo que nasceu organicamente no processo de filmagem e edi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nHomero \u2013 Essa fica pro Billy responder, que \u00e9 nosso departamento de audiovisual. Por\u00e9m, adianto que, na minha cabe\u00e7a, sempre quis que fosse algo complementar e perturbador. Mas o Billy, que \u00e9 nosso baixista e trabalha com audiovisual, conseguiu ir al\u00e9m da expectativa. Aqui aproveito pra saudar e agradecer o camarada Leandro Monks, quinto elemento da Diokane, que tamb\u00e9m \u00e9 profissional da imagem e nos ajuda desde o come\u00e7o da banda. Foi ele que, num domingo cinzento, fez fotos de divulga\u00e7\u00e3o e passou o dia conosco filmando as cenas da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kverna \u2013 Quando fizemos essa m\u00fasica, e o Homero colocou a letra, come\u00e7amos a pensar em usar barulhos e elementos que trouxessem esse \u201cdesconforto\u201d. Para isso, afinei os tambores da bateria muito mais graves (para dar ideia de trov\u00f5es), o Rafa deixou os riffs mais densos e melanc\u00f3licos, o Billy usou o baixo com timbre mais \u201csujo\u201d e o Homero fez gritos agoniantes. Como o doc\/clipe foi produzido pelo Billy, que tamb\u00e9m \u00e9 editor no Coletivo Catarse (cooperativa de comunica\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o cultural), ele colocou nossa inten\u00e7\u00e3o em pr\u00e1tica usando imagens e relatos. Ent\u00e3o, acabou sendo projetado naturalmente, pois nossa ideia \u00e9 relatar e retratar o que aconteceu, algo que foi e ainda \u00e9 muito angustiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Billy: Primeiro veio a m\u00fasica e ela, por si s\u00f3, j\u00e1 tem clima perturbador e agoniante. Conseguimos musicalmente criar uma atmosfera de partida muito boa para o que veio se tornar document\u00e1rio\/clipe. O processo de edi\u00e7\u00e3o e filmagens da banda tocando foi tudo muito org\u00e2nico e se transformando a cada etapa. T\u00ednhamos uma ideia inicial que era mesclar banda com imagens, e s\u00f3. Mas quando fomos fazer as imagens da gente tocando, n\u00e3o t\u00ednhamos recebido todas as imagens da enchente que o pessoal nos mandou. Ent\u00e3o, ach\u00e1vamos que apareceria mais a banda. Na sess\u00e3o de fotos que fizemos com o Monks, que fez dire\u00e7\u00e3o de fotografia e filmagem junto, usamos muito o espa\u00e7o do est\u00fadio e planos de filmagem pensando na edi\u00e7\u00e3o, com a ideia de sobrepor as imagens, mas pensando que teria muito mais banda. Mas a\u00ed, ao colocar tudo isso na linha de edi\u00e7\u00e3o e montagem, tinha diversas cenas \u201cdiferentes\u201d e agoniante. Tudo passado a n\u00f3s pessoas que vivenciaram a trag\u00e9dia e tinham aquilo guardado \u2013 n\u00e3o usamos nenhuma imagem de terceiros ou retiradas da internet, foram as pessoas dando seus relatos e as imagens que elas mesmas fizeram. Antes de termos o doc pronto, editamos o clipe s\u00f3 com imagens da banda tocando e j\u00e1 ficou muito legal. A\u00ed, o processo de encaixar imagens da enchente foi mais um quebra cabe\u00e7a org\u00e2nico art\u00edstico de qual cena casa melhor e dialoga com a m\u00fasica. No processo do doc usamos elas \u201cclean\u201d como imagem de cobertura das falas e, no clipe, a ideia era deixar elas perturbadoras mesmo, quase que como sem entender o que se est\u00e1 vendo. Isso porque s\u00e3o imagens que, querendo ou n\u00e3o, todo mundo j\u00e1 viu ou viveu algo semelhante. No clipe foi proposital de elas entrarem e ficarem artisticamente perturbadoras e desconfortantes para quem olha, foi algo que fiz pensando em prender o espectador mesmo at\u00e9 o final. Pra que quem ver sinta um al\u00edvio e desconforto de ter que refletir sobre o que assistiu. Usamos tamb\u00e9m as tracks isoladas de voz e instrumentos da grava\u00e7\u00e3o da m\u00fasica durante o doc, isso foi a \u00faltima coisa que encaixamos. Na ideia de que a m\u00fasica foi sendo criada a partir dos depoimentos e ao desfecho ela aparece em forma de clipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael \u2013 Tanto a m\u00fasica quanto o clipe foram se construindo a partir de uma ideia inicial, foi acontecendo e tomando forma. Depois da m\u00fasica composta e gravada, j\u00e1 t\u00ednhamos sentido mais ou menos qual seria o clima do clipe. O Billy mais uma vez fez um trabalho sensacional de edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Para al\u00e9m do registro art\u00edstico, a enchente de 2024 parece ter marcado um divisor de \u00e1guas no imagin\u00e1rio ga\u00facho, algo que atravessa m\u00fasica, pol\u00edtica e sociedade. Voc\u00eas acreditam que a cena musical do RS \u2014 e a pr\u00f3pria Diokane \u2014 v\u00e3o carregar esse trauma daqui para frente, seja como discurso, est\u00e9tica ou identidade?<\/strong><br \/>\nHomero \u2013 Suponho que uma merda desse tamanho n\u00e3o se esquece, e acho que vai reverberar por uns bons anos. Na real, pra sempre. Afinal, se at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s se lembrava da tal enchente de 1941, que atingiu a capital ga\u00facha, imagina agora, com esse acontecimento que foi ainda maior. \u00c9 um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria que precisa ser lembrado com causas e consequ\u00eancias. No imagin\u00e1rio popular ainda \u00e9 presente, embora seja um assunto delicado. Que seja poss\u00edvel tocar a vida adiante, mas sem deixar o tema se perder no tempo. Seja como inspira\u00e7\u00e3o para arte, nas conversas de quem tem um m\u00ednimo de empatia, em estudos acad\u00eamicos\u2026 Por outro lado, como comentado em trecho anterior da entrevista, a gente vive soterrado de informa\u00e7\u00f5es novas o tempo todo. E, nesse furac\u00e3o de novidade, vai se deixando lembran\u00e7as importantes pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kverna \u2013 N\u00e3o digo exatamente s\u00f3 esse, mas vivemos em um pa\u00eds com muitos problemas sociais. E, al\u00e9m de estarmos submersos nisso, absorvemos essas experi\u00eancias. Como fazedores de arte, obviamente, isso vai acabar influenciando em nossa cria\u00e7\u00e3o. Seja nas letras, nos discursos, na est\u00e9tica visual, n\u00e3o vejo como escapar. Nem quero, pois a arte ajuda a ressoar e debater certas ideias que n\u00e3o gostamos de lidar no dia a dia. Como a gente deixa bem claro \u201cSomos o k\u00e3o que perturba seu santo sossego\u201d. Que assim continue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael \u2013 O discurso da Diokane sempre vai ser de revolta. A trag\u00e9dia di\u00e1ria da nossa sociedade n\u00e3o para por a\u00ed, tem muita coisa errada acontecendo o tempo todo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-91281 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/diokane3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/diokane3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/diokane3-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. As fotos s\u00e3o de Leandro Monks \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cUma das inten\u00e7\u00f5es de \u2019Cheiro de Enchente\u2019 \u00e9 n\u00e3o deixar que a trag\u00e9dia caia no esquecimento&#8221;, avisa a banda em conversa com o Scream &#038; Yell. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/09\/13\/entrevista-diokane-exorciza-tragedia-no-rs-com-single-clipe-e-documentario-cheiro-de-enchente\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":91282,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3617],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91279"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91279"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91279\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":91283,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91279\/revisions\/91283"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91282"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}