{"id":90879,"date":"2025-08-29T09:35:07","date_gmt":"2025-08-29T12:35:07","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=90879"},"modified":"2025-10-14T01:40:14","modified_gmt":"2025-10-14T04:40:14","slug":"critica-devo-o-documentario-e-um-estudo-de-caso-sobre-cultura-musica-e-revolucao-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/08\/29\/critica-devo-o-documentario-e-um-estudo-de-caso-sobre-cultura-musica-e-revolucao-social\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: \u201cDevo\u201d, o document\u00e1rio, \u00e9 um estudo de caso sobre cultura, m\u00fasica e revolu\u00e7\u00e3o social"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande virtude do Devo, ao longo das mais de cinco d\u00e9cadas de exist\u00eancia, talvez seja a de nunca ter se perdido em sua pr\u00f3pria m\u00edtica. Ao longo das 1h30 de dura\u00e7\u00e3o de \u201cDevo\u201d, document\u00e1rio dirigido por Chris Smith originalmente lan\u00e7ado em 2024 (com direito <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/06\/19\/16o-in-edit-brasil-black-future-eu-sou-o-rio-moog-devo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a estreia no Festival InEdit<\/a> e, agora, streaming via Netflix), os membros do quinteto formado em Akron, Ohio, que compuseram a forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do grupo parecem, voluntariamente ou n\u00e3o, um tanto desconectados da dimens\u00e3o da influ\u00eancia que exerceram, e ainda exercem. Sobretudo os fundadores, Mark Mothersbaugh (vocais, guitarras e teclados) e Gerald \u201cJerry\u201d Casale (vocais, baixo e teclados), transmitem um tipo insuspeito de mod\u00e9stia quando falam do legado da banda que formaram, ainda na primeira metade dos anos 1970. Ainda assim, mesmo a humildade e at\u00e9 o espanto com o qual a dupla, tal qual os ex-parceiros Bob \u201c1\u201d Mothersbaugh (guitarra) \u2013 e, via imagens de arquivo, Bob \u201c2\u201d Casale (teclados) e Alan Myers (bateria) \u2013 n\u00e3o s\u00e3o capazes de minimizar a revolu\u00e7\u00e3o musical, conceitual e, por que n\u00e3o, social, que provocaram. \u201cDevo\u201d \u00e9 um filme que parece menos focado em um grupo de indiv\u00edduos, e se preocupa (com grande \u00eaxito) em desvendar, e evidenciar, o poder e a genialidade dos ideais que conduziram suas figuras de frente desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A g\u00eanese do Devo \u00e9 indissoci\u00e1vel de um outro acontecimento determinante no panorama socio-cultural do in\u00edcio dos anos 70: o Massacre da Universidade Estadual de Kent, em que 28 soldados da Guarda Nacional dispararam cerca de 67 tiros em 13 segundos, matando quatro estudantes e ferindo outros nove, um dos quais sofreu paralisia permanente. Ap\u00f3s o conflito, que inspiraria a cl\u00e1ssica can\u00e7\u00e3o \u201cOhio\u201d, de Neil Young \u2013 Jerry e o amigo e co-conspirador Bob Lewis (que estudavam na Universidade de Kent e perderam amigos na trag\u00e9dia) acabaram por associar a brutalidade dos acontecimentos ao conceito de involu\u00e7\u00e3o (ou \u201cde-evolution\u201d), de acordo com o qual seres civilizados poderiam sucumbir ao primitivismo de acordo com o ambiente do qual eram cercados \u2013 neste caso, a disfun\u00e7\u00e3o que imperava na mentalidade do cidad\u00e3o americano m\u00e9dio da \u00e9poca (e mesmo hoje em dia). A adi\u00e7\u00e3o de Mothersbaugh, um jovem m\u00fasico talentoso e legalmente cego, acabou por enriquecer a conceitua\u00e7\u00e3o social que Casale e Lewis queriam explorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de solidifica\u00e7\u00e3o dessas ideias, como o document\u00e1rio salienta bem, foi lento. Mudan\u00e7as de forma\u00e7\u00e3o (que incluiu Jim Mothersbaugh, irm\u00e3o de Mark, posteriormente al\u00e7ado \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rio), inova\u00e7\u00f5es experimentais que incluiam a fabrica\u00e7\u00e3o de baterias eletr\u00f4nicas de pads, e a composi\u00e7\u00e3o de novas can\u00e7\u00f5es (como \u201cJocko Homo\u201d) e a subvers\u00e3o de outras (como \u201cSecret Agent Man\u201d) acabaram dando a t\u00f4nica da desafiadora musicalidade e ambi\u00e7\u00e3o que o Devo propiciaria nos anos a seguir. A produ\u00e7\u00e3o de um curta-metragem, \u201cThe Truth About De-Evolution\u201d, no entanto, embasaria melhor os conceitos visuais que as cada vez mais frequentes apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo ainda n\u00e3o traduziam t\u00e3o bem. A passagem que inclui grava\u00e7\u00f5es das \u201cHeadache Sessions\u201d que a primeira forma\u00e7\u00e3o do grupo promovia em teatros \u00e9, sem d\u00favida, uma das mais hil\u00e1rias vistas em document\u00e1rios de m\u00fasica mais recentes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Devo - The Complete Truth About De-Evolution - Part 1\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LOMtiP9J8Xo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Devo - The Complete Truth About De-Evolution - Part 2\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PbIqmDAFVAA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria esse mesmo curta, ao fim, que chamaria a aten\u00e7\u00e3o de duas figuras fundamentais para a ascens\u00e3o do Devo, ent\u00e3o j\u00e1 acrescido dos dois \u201cBobs\u201d (irm\u00e3os de Mark e Jerry) e Alan Myers. Primeiro, houve David Bowie: o camale\u00e3o se encantou com o comprometimento conceitual do quinteto j\u00e1 em 1976, se oferecendo para produzir a banda \u2013 que j\u00e1 se aventurava em lan\u00e7amentos atrav\u00e9s do selo pr\u00f3prio, Booji Boy Records. A turbulenta vida do Bowie na \u00e9poca, entretanto, acabou resultando na aproxima\u00e7\u00e3o da segunda pedra fundamental para a constru\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno Devo: Brian Eno, tendo rec\u00e9m-colaborado com Bowie em \u201cLow\u201d (1977), tamb\u00e9m caiu de amores pelo trabalho dos m\u00fasicos, e eventualmente assinaria a produ\u00e7\u00e3o do imortal \u201cQ: Are We Not Men? A: We Are Devo!\u201d (1978). Foi tamb\u00e9m o in\u00edcio de uma inadequa\u00e7\u00e3o da banda para com o mercado fonogr\u00e1fico. Os conflitos entre a Warner Bros., com quem o grupo havia se comprometido \u00e0 princ\u00edpio, e a Virgin Records de Richard Branson, que se disp\u00f5s a triplicar os ganhos de m\u00fasicos pouco preocupados com neg\u00f3cios e muito ocupados com arte, s\u00e3o bem ilustrados aqui. Al\u00e9m, claro, de servirem como um press\u00e1gio da conflitante rela\u00e7\u00e3o do Devo com uma m\u00eddia mainstream que, por vezes, n\u00e3o entendia sua proposta recheada de ironia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m contrasta com o sucesso mainstream que a banda experimentou no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, gra\u00e7as ao disco \u201cFreedom Of Choice\u201d (1980) e, especialmente, na esteira do esmagador \u00eaxito do single \u201cWhip It\u201d, que estabeleceu de vez o Devo, em suas roupas estranhas, suas idiossincracias musicais e seu senso de humor t\u00e3o particular, como um fen\u00f4meno de massa. O surgimento da MTV, logo em seguida (que tamb\u00e9m veiculou pesadamente o clipe da faixa-t\u00edtulo, decisivo inclusive para a comunidade do skate) foi elementar para que o p\u00fablico mainstream passasse a prestar aten\u00e7\u00e3o ao quinteto, mesmo que fosse para gargalhar de algo que, se podia sentir, era muito mais profundo do que uma vis\u00e3o superficial era capaz de abarcar. Uma outra decis\u00e3o espert\u00edssima do document\u00e1rio \u00e9 ilustrar o momento de ascens\u00e3o da banda em conjun\u00e7\u00e3o com o momento pol\u00edtico que os EUA viviam na \u00e9poca: a vit\u00f3ria do neo-liberalismo via Ronald Reagan tamb\u00e9m foi alvo do sarcasmo mordaz do Devo, mesmo que sem querer \u2013 os chap\u00e9us em formado de topete que os membros usavam na \u00e9poca de \u201cNew Traditionalists\u201d (1981) foram vistos como prov\u00e1veis alus\u00f5es ao presidente cowboy, ainda que fossem, na verdade, inspirados pelo corte de cabelo de JFK. S\u00e3o apenas alguns dos detalhes que, se geraram confus\u00e3o, tamb\u00e9m despertaram a aten\u00e7\u00e3o de in\u00fameros f\u00e3s de carteirinha, dispostos a ver por tr\u00e1s da cortina de deboche e enxergar a sutil seriedade que ela esconde.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Devo 2024 2025 Trailer Netflix \" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FgV8X2x6xvE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O document\u00e1rio faz uma escolha narrativa interessante ao se limitar \u00e0 primeira fase da carreira do Devo, que se encerrou em 1991. A sa\u00edda de Alan Myers, ap\u00f3s o lan\u00e7amento de \u201cShout\u201d (1984) \u00e9 abordada como um ponto decisivo que acabou decretando o in\u00edcio do fim. O bem sucedido portf\u00f3lio audiovisual expandido desde ent\u00e3o por Jerry e Mark \u2013 com o primeiro seguindo a trajet\u00f3ria como diretor (uma vez que Casale tamb\u00e9m dirigia os clipes do pr\u00f3prio grupo) e o segundo se estabelecendo como compositor de trilhas sonoras (em projetos que v\u00e3o desde \u201cRugrats\u201d at\u00e9 \u201cThor: Ragnarok\u201d e \u201cUma Aventura Lego\u201d) \u2013 tamb\u00e9m \u00e9 mencionado, ainda que brevemente. E \u00e9 isso: nenhuma men\u00e7\u00e3o ao eventual retorno do Devo, que aconteceu em 1996, nem tampouco \u00e0 \u201cSomething For Everybody\u201d (2010), o \u00faltimo trabalho de in\u00e9ditas da banda, ent\u00e3o com Josh Freese na bateria. Mesmo que possa parecer uma falha aos olhos daqueles que esperam uma abordagem mais \u201cenciclop\u00e9dica\u201d e completista, a ideia faz sentido considerando o ponto focal do doc: longe de focar nas hist\u00f3rias de vida individuais de cada membro, o filme centra os holofotes na abordagem conceitual que orientou a primeira etapa da carreira da banda. Da mesma forma, o ponto de exaust\u00e3o resultante da indisposi\u00e7\u00e3o em simplesmente seguir as press\u00f5es comerciais acaba funcionando como uma conclus\u00e3o, mesmo que um pouco anticlim\u00e1tica, bastante compreens\u00edvel e cab\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao fim, fica a sensa\u00e7\u00e3o de que talvez n\u00e3o houvesse melhor momento para que um document\u00e1rio como este, sobre uma banda como esta, pudesse vir \u00e0 luz. \u00c9 chocante perceber as semelhan\u00e7as ideol\u00f3gicas entre o mundo atual e aquele que viu o Devo surgir \u2013 como se a ra\u00e7a humana, tivesse, de fato, involu\u00eddo ao longo dos \u00faltimos 50 anos. Em contrapartida, \u201cDevo\u201d esclarece o qu\u00e3o vital a m\u00fasica e a arte criadas por cinco esquisitos do meio-oeste norte-americano podem soar, com toda sua aparente bizarrice e delicada acidez. Mas, mais do que tudo, \u00e9 um filme que faz justi\u00e7a a uma banda com influ\u00eancia e patrim\u00f4nio culturais que, cinco d\u00e9cadas mais tarde, ainda se mostra anos-luz \u00e0 frente do que a sociedade moderna, t\u00e3o orgulhosa de sua pretensa e question\u00e1vel \u201cevolu\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 capaz de entender.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-90883 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/devo1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/devo1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/devo1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4cfQaQO-YD4\">\u2013\u00a0Davi Caro\u00a0\u00e9 professor,<\/a>\u00a0tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Talvez n\u00e3o houvesse melhor momento para que um document\u00e1rio como este pudesse vir \u00e0 luz. \u00c9 chocante perceber as semelhan\u00e7as ideol\u00f3gicas entre o mundo atual e aquele que viu o Devo surgir\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/08\/29\/critica-devo-o-documentario-e-um-estudo-de-caso-sobre-cultura-musica-e-revolucao-social\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":90884,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[7269],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90879"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90879"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":90887,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90879\/revisions\/90887"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90884"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}